Vergonha e Culpa

De quem é a culpa?

disseram que é de Eva e Adão

Perguntaram para o Adão então

ele disse que a culpa é da Eva;

sem chegar a um acordo

A culpa ficou a deriva,

crise, violência , assolação...

o tempo passou a coisa piorou

a culpa então para o governo passou,

é do governo a culpa e agora?

quem é o governo?

o governo é o povo

porque o povo o elegeu

culparam você, culparam eu

é do povo a culpa

quem é o povo?

o povo são os pais

os avós, os irmãos...

a responsabilidade é dos pais

a culpa é dos pais porque não?

porque eles não dão melhor educação?

criam problemas sem solução?

os pais reagiram a esse dilema

e disseram que a culpa é do sistema

sim, é do sistema toda a culpa

temos então um grande problema

sistema? mas que sistema?

quem criou o sistema?

alguém sabe me dizer?

O sistema não responde

a uma pergunta sequer,

então de quem é a culpa?

é minha, é sua, é nossa a culpa.

Culpa, vergonha e medo: tríade que nos corrói!

A culpa é um sentimento muito mais comum do que imaginamos e aparece sempre que nos sentimos responsáveis por algo negativo que cometemos contra terceiros. Aparentemente, é um sentimento nobre que deriva do remorso. Mas quando permanece muito tempo em nossos corações, corrói nossa alma, impedindo-nos de sermos felizes.

É preciso nos conscientizar de que a culpa se origina de erros que, por sua vez, representam o caminho para o nosso crescimento. É quase impossível crescer sem nunca errar, já que trazemos muitas características negativas para serem trabalhadas nesta jornada. Aceitar nossos erros sem culpa demanda algum tempo, pois o remorso nos aflige e é preciso ser forte para superá-lo. Mas não é impossível. Estes três sentimentos: Culpa, vergonha e medo juntos conduzem a uma atmosfera interior negativa levando-nos à angústia, amargura, ansiedade, sentimentos de solidão, imperfeição e desamparo. Começamos a procurar sentido para nossa vida, nas pessoas, nos lugares, nas atividades e nas posses materiais, buscando encontrar a felicidade e o prazer de viver. É nessa procura exterior de paz mental que nosso ego nos empurra aos primeiros passos em direção ao vício, pois a culpa que sentimos é baseada na crença de que o passado é inevitável e determina o futuro, isto é o ego não permite que nos examinemos de perto e nos faz acreditar que a culpa e a vergonha são tão fortes e penetrantes que não podemos ir além delas. Em razão desse medo, não olhamos dentro de nós mesmos. Pelo contrário, por causa da culpa, da vergonha e dos sentimentos resultantes da crença de que fizemos algo errado e de que somos algo errado, nos tornamos vítimas do medo de sermos punidos, cria-se em nós um sentimento negativo de vergonha, e à medida que a culpa aumenta, nós não apenas acreditamos que fizemos algo de ruim, como também começamos a acreditar que somos ruins. O pior de tudo isto é que para algumas pessoas, isso se transforma em medo de Deus e de que não merecem amor. São pensamentos e crenças erradas que vão nos levando a um pensamento defeituoso, vicioso, que pode ser curado pelo conhecimento de que apenas sua mente pode produzir medo, pois a culpa é sempre totalmente insana e sem razão, procure meditar em  Eclo 30, 21- 25, que no diz: “Alegria é vida -* 21 Não se deixe dominar pela tristeza, nem se aflija com preocupações. 22 Alegria do coração é vida para o homem, e a satisfação lhe prolonga a vida. 23 Anime-se, console o coração e afaste a melancolia para longe. Pois a melancolia arruinou muita gente, e não serve para nada. 24 Inveja e ira encurtam os anos, e a preocupação faz envelhecer antes do tempo. 25 Coração alegre favorece o bom apetite e faz sentir o gosto da comida”.

Podemos viver com um pensamento voltado para o amor, pois amor e culpa não podem coexistir; aceitar um é negar o outro. Deus é misericordioso, Ele joga nossas culpas, pecados no mais profundo do oceano, isto é, Ele nos perdoa e ajuda-nos a sermos melhores. Tenho buscado fazer esta experiência em minha vida: quem se entrega ao amor misericordioso de Deus, aprende a curar o seu interior, criar um pensamento amoroso. Temos que ter em mente, que a culpa nunca acabará enquanto você acreditar que existe uma razão para ela. Isto tudo vai tornando você insatisfeito, que muda constantemente de um objetivo para outro, para que você continue a esperar que ele ainda lhe ofereça alguma coisa. Quando você atinge esse resultado, ele não o satisfaz. Quando mudamos constantemente de um objetivo para outro (relacionamento, profissão, drogas), apesar de nunca nos satisfazerem, caímos no circulo vicioso, e este é o verdadeiro significado do vício e dependência. Conheço pessoas que já se casaram e descasaram diversas vezes, mas continuam insatisfeitos. Eliminar o outro não é a solução, necessitamos de cura interior!

A vergonha por sua vez, é um sentimento social. É a não aceitação decorrente do processo psicológico de ser pego em flagrante, fora dos padrões aceitos e valorizados, pensamos nós. A presença do outro, insinuada enquanto testemunho, fiscal, juiz, avaliador é determinante do sentir vergonha. As pessoas não sentem vergonha por estarem fora dos padrões, sentem vergonha quando ocorre o flagrante. A estruturação da vivência de vergonha vai depender dos processos relacionais, de seus contextos. A vergonha pode ser estruturada no nível corporal, no social e no existencial. Um grande obstáculo à recuperação do vício e dependências, é o sentir-se culpado e envergonhado de encarar, sob qualquer aspecto, a situação nova de recuperando, pois a culpa, a vergonha e o medo provocam sentimentos de solidão, vazio, fracasso e profunda desesperança.  Estes sentimentos destroem a felicidade.

 

 

.Vergonha e Síndrome de Pânico

Vera Felicidade de Almeida Campos

 

A CULPA

Malu M. Arantes

Escritora e Consultora Holística

 

A culpa é um sentimento muito mais comum do que imaginamos e aparece sempre que nos sentimos responsáveis por algo negativo que cometemos contra terceiros. Aparentemente, é um sentimento nobre que deriva do remorso. Mas quando permanece muito tempo em nossos corações, corrói nossa alma, impedindo-nos de ser felizes.

É preciso nos conscientizar de que a culpa se origina de erros que, por sua vez, representam o caminho para o nosso crescimento. É quase impossível crescer sem nunca errar, já que trazemos muitas características negativas para serem trabalhadas nesta jornada. Essa é uma das grandes razões por que estamos aqui. Aceitar nossos erros sem culpa demanda algum tempo, pois o remorso nos aflige e é preciso ser forte para superá-lo. Mas não é impossível.

Entretanto, raramente nos sentimos culpados pelo que fazemos diariamente contra nós mesmos. Aliás, sequer temos consciência do mal que cometemos contra nós mesmos através de pensamentos e atitudes negativas.

O perdão e o pensamento positivo, juntos, abrem o Portal do Crescimento, pois possibilitam a regeneração espiritual. Portanto, regenerar-se espiritualmente é perdoar nossos próprios erros e de terceiros, vencer culpas, ressentimentos e mágoas que afligem nossos corações, o que nos permitirá encontrar a nossa própria Luz Interior que nos iluminará sempre e por onde passarmos.

 

 

Publicado no Boletim do SBEM, outubro/dezembro 2000, pag.37-38

A vergonha é um sentimento social, dizia Lévi-Strauss.

É a não aceitação decorrente do processo psicológico de ser pegado em flagrante fora dos padrões aceitos e valorizados, pensamos nós. A presença do outro, insinuada enquanto testemunho, fiscal, juiz, avaliador é determinante do sentir vergonha. As pessoas não sentem vergonha por estarem fora dos padrões, elas sentem vegonha quando ocorre o flagrante. A estruturação da vivência de vergonha vai depender dos processos relacionais, de seus contextos. A vergonha pode ser estruturada no nível corporal, no social e no existencial.

O corpo é um grande estruturante de vergonha, pois existem vários padrões éticos e estéticos determinando como ele deve ser, como deve aparecer, o que deve esconder etc. Desde Adão e Eva, conforme nos conta a Bíblia, escondemos "nossas vergonhas". A folha de parreira quando cai causa vergonha pelo que é mostrado. A idéia de que a nudez tinha que ser escondida era tão forte, que a palavra vergonha também significava, era sinônima de genitália.

Ficar nú é vergonhoso, é o estar desprotegido, exposto. Atualmente, quando o corpo é uma mercadoria, um produto de consumo, exibí-lo causa prazer, causa orgulho. Envergonhador é o corpo fora dos padrões "malhado", "sarado", jovem. O corpo é escondido ou exibido em função dos padrões do que é aceitável, do que é estigmatizante. Além da nudez, outro fator gerador do sentimento de vergonha do corpo é a gordura ou magreza excessivas. A magreza pode denunciar a falta de dinheiro, a impossibilidade de comer ou a doença que se desenvolve (câncer, AIDS, diabetes, por exemplo). Estar gordo, via de regra, é estar afastado da convivência com os outros, é criar barreiras aos relacionamentos. Tudo é impossibilitador: para ir a um cinema, para ir a um bar tem que pensar se "a cadeira é grande". A gordura exibe também a gula, a ansiedade, o descontrole, a falta de disciplina e determinação, desde quando o sistema já oferece mil maneiras de não engordar.

Vários endocrinologistas relatam que seus pacientes obesos frequentemente mentem, negam ter comido doces, ter comido quantidades maiores. As mentiras existem para esconder o descontrole, a gula, que envergonham. O circulo vicioso se instala: não se aceita, desloca para comida, engorda, busca o tratamento, mas não pode admitir a causa do problema, então mente para manter o conseguido. Em certos casos, o engordar é uma maneira de ser livre, poder fazer o que quer. Essa motivação, não explicitada - "quem manda em mim sou eu", "sei o que fazer da minha vida", por exemplo - cria comprometimentos responsáveis pela mentira.

Contextualizada ainda no corpo, temos a vergonha da cicatriz, do estar doente, do estar impedido. Quanto mais estigmatizada a doença, maior a vergonha. Através da vergonha procuramos neutralizar toda e qualquer situação que nos deixaria marginalizados, excluídos da convivência com o outro, por isso a vergonha é um sentimento fundamentalmente social, como dizia Lévi-Strauss.

Estruturada no contexto social, a vergonha existe quando os padrões valorizados não são atingidos: ser pobre, morar no subúrbio, não poder comer no McDonald, infelicitam. Não saber usar corretamente os talheres, desconhecer as safras e nomes de vinho são também desencadeantes de vergonha, sempre acompanhados do sentimento de inferioridade. As roupas inadequadas, os conhecimentos defasados, a ignorância, também envergonham. A vergonha sempre muda, à medida que os padrões mudam. Ser mãe solteira, ter os pais separados eram situações frequentemente geradoras de vergonha até as décadas de 50, 60. Hoje significam liberdade, escolha.

No contexto existencial, no nível do ser, das possibilidades de relacionamento, o sentimento de vergonha surge quando a inautenticidade é constatada. É a mentira, o despiste, a falsa ideologia. Esconder opções sexuais não aceitas, ser homossexual, por exemplo, e fazer de conta que não é, gera uma constante sensação de ameaça, medo, desencadeadora de vergonha. A vergonha surge quando são abaladas as construções feitas para ocultar a origem não aceita, esconder o pai ladrão, ocultar o filho gay, negar a filha toxicômana. A falência econômica, a quebra da imagem mantida, o se ver sem saída, também causam vergonha às vezes responsável pelo suicídio.

A vergonha está muito próxima do medo e da depressão. A omissão, o medo, o esconder, são artifícios usados para proteger. Quanto maior o medo, maior a vergonha. O medo é a barreira que ao proteger, também imobiliza, esvazia. Amedrontado, sempre com medo do que vai acontecer, temendo desmascaramento, o ser humano começa a evitar a vida, o relacionamento, começando assim a construir a depressão.

Medo, vazio, vergonha, depressão e culpa são os estruturantes da conhecida síndrome de pânico. Evitando sair, evitando falar, evitando tudo, aos poucos criam-se impossibilidades, situações de impasse, de tensão. É o pânico com seus sintomas: suor frio, tonturas, vômitos etc.

A vergonha é um sintoma de não aceitação da não aceitação. Não aceitando ser o que se é, cria-se uma máscara, uma aparência transformadora do ser em parecer. Este parecer é a aparência, a máscara. Não pode ser tocada, enfim não pode existir, apenas representar, indicar, esconder. Qualquer contato com a realidade será demolidor, por isso não se pode ir à rua, não se pode falar em público etc. Monta-se o cenário para a síndrome de pânico, escamoteando-se assim toda a vergonha estruturada pela não aceitação de si, da realidade, dos limites