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A 3' SEMANA NOS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS

Da "atividade criadora" da. 2* Semana à "sofrida passividade" da. 3* Semana

A 3 Semana marca uma mudança brusca de perspectiva a partir do mistério do horto: uma febril atividade rodeia a Jesus no caminho da Cruz.

Este "humilde Senhor" (EE. 291) é o sujeito gramatical de um verbo passivo : "é levado a Anãs"} os outros é que são ativos, traçando implacavelmente o caminho que conduz à Cruz. O Cristo dos Evangelhos é mais ativo durante a Paixão que o Cristo da 3 Semana de Inácio. Toda a iniciativa, tanto de atos como de palavras, corresponde aos "inimigos", que a divindade poderia muito bem "destruir... e não o faz"(ER. 196). A onipotência divina se revela na impotência humana.

A 3 Semana é o momento de se aprofundar a integração com o Senhor, pois ainda não estamos configurados com Cristo, e Seu Caminho também pode levar-nos à Cruz.

A encarnação da Eleição é feita na história, e os obstáculos fazem parte da opção: não podemos prever os riscos, pois não possuímos a história, mas temos que criá-la, e isto equivale a correr riscos (passagem para as mortes concretas no seguimento de Cristo).

S. Inácio agora fala em ver o lugar, e não compô-lo: isto significa a passagem da imaginação à presença existencial cota o Senhor, pois com a Eleição o exercitante mergulhou na história do Senhor; o olhar não está mais voltado para si, mas está livre para prestar atenção à figura de Cristo.

A oração desta 3" Semana é mais passiva: consiste numa contemplação para adorar, exprimir amor, agradecer,

calar-se, acompanhar... Não se deve buscar "coisas novas", mas dedicar-se a uma oração desinteressada, a uma oração de união, procurando estar com Cristo (sintonia do coração).

Tal oração não é exercício de compaixão no sentido de "darpena".

"Compasión" quer dizer, sentir juntos, "entrar" no outro para padecer com ele, "com-pade-cer": porque a união de corações, que se foi realizando através do conhecimento interno, nos conduz a isso.

O dinamismo é mútuo: a anuo de corações conduz ao com-padecer e o com-padecer se encaminha e se solidifica na união de coraçõe».

Nesta oração somos assimilados vital e afetivamente a Jesus: isto é, vamos nos acostumando, nosso

coração vai se configurando com Ele.

Portanto, o próprio da 3* Semana é a união e a participação no mistério da Paixão de Cristo.

União e participação do discípulo na sorte do Mestre. "Seguindo-me na pena" (EE. 95). A 3* Semana é mais sublime e generosa e faz o exercitante sair do seu próprio amor, querer e interesse ao amar e se colocar no mesmo lugar daquele que sofre perseguição, marginalização, tortura e morte.

Freqüentemente, nesse momento, o exercitante experimenta grande dificuldade para rezar: distrações, secura... No drama da Paixão estamos empenhados com todas as nossas limitações, contradições, ímpetos de generosidade, recusas, submissão amorosa, revolta, paz, problemas... Não estranhar essas flutuações: alguém pode estar desolado, tentado a fugir, e ao mesmo tempo amar, dizer SIM ao Pai.

Isto por dois motivos:

- em 1° lugar, o objeto da oração a dificulta. É Jesus sofrendo a sua paixão que ocupa todo o campo da nossa consciência. Essa oração é a mais isenta de egoísmo. Uma oração que não se refere mais a nós mesmos é necessariamente mais austera.

- em 2* lugar, essa oração é difícil por causa da unidade de atmosfera que requer. É, durante o dia todo, um exercido de presença contínua e um esforço para excluir qualquer pensamento que não seja o da   paixão de Jesus.

Contempla-se os mistérios da paixão numa seqüência contínua, sem repetições e aplicação de sentidos

(EE. 204).

 

A OUSADIA DO HOMEM JESUS

Jesus, o homem das "grandes viradas"

Movendo-nos no Horizonte novo da pós-modernidade, um olhar sobre Jesus pode ser revelador.

Jesus Cristo continua a nos surpreender enquanto modelo inspirador e referência principal da grande

ousadia humana. Ele fez brilhar a "novidade" de Deus nas vilas e cidades da Palestina.

Desde seu cotidiano na vida oculta até sua corajosa atividade pública, Ele nos ajuda a reler o Evangelho

com olhar novo e coração abrasado.

Quem disse que interioridade não provoca reviravoltas históricas?

Jesus tem uma postura de Mestre, mas está sempre aberto a reaprender: atravessa as noites, os desertos e

as tempestades em atitude de aprendizado. Não se perde nas crises, nem se isola no intimismo imaturo.

Ele revela uma interioridade ao mesmo tempo misteriosa e aberta: centrada em seu mistério pessoal e

acolhedora do outro. Passa as madrugadas na intimidade com o Pai e se faz presente a todas as situações

dramáticas de dor, exclusão, desumanidade e morte (Lc. 9,28-43).

No encontro com as pessoas, com os conflitos, com os momentos de alegria e com os riscos de sua

missão, Ele mostra vigor, ousadia e coragem de ir além.

A cada passo, Ele revê o conjunto do caminho e assimila novas percepções.

No início de sua pregação, dedica-se apenas ao ambiente judaico-palestinense. Como bom judeu e Galileu piedoso, começa a evangelizar nos limites da cultura e da fé israelita (Mi. 10,5).

Mas depois vai visualizando maior universalidade e ultrapassa os horizontes costumeiros (Mt. 28,19).

Indo além, Jesus repensa os conceitos de Deus e de religião, e diz que o Pai pode ser adorado em qualquer

lugar, desde que seja "em espírito e verdade" (Jo. 4,23).

Sua linguagem utiliza as tradicionais parábolas, mas o conteúdo ensinado supera o antigo: é inédito, fala

com autoridade própria (Mc. 1,22; Lc. 15). Prega com originalidade e capacidade de sedução: diz que o ser

humano é o grande valor querido por Deus, e que o sábado, a Tora e o Templo existem, porque a vida

humana está revestida de sacralidade, mais que os altares e os costumes antigos.

Em termos de cultura, Jesus é homem plural: aprende, aos poucos, a ampliar seus horizontes, seus

interlocutores e sua extensão missionária (Mt. 25,21-28).

Fala com rabinos eruditos, com prostitutas, com crianças, com anciãos importantes, com amigos, com

opositores, com Deus... Pluralista em sua comunicação, Jesus cultiva relacionamentos variados, sem perder sua identidade pessoal, nem abrir mão de um projeto de vida cada vez mais exigente.

De um lado, extrema humanidade abertura, de outro, maturidade suficiente para ousar, fazer

escolhas, assumir limites e enfrentar a Cruz.

Há um traço na personalidade de Jesus que os Evangelhos destacam: Ele era um "transgressor". Rompeu com a família, afastou-se da vida normal que todos levavam, rompeu com as tradições de seu povo, violou a lei do sábado, não respeitou as hierarquias, a ordem estabelecida, revelou-se livre perante o Templo, o culto... Sua transgressão decorria da percepção de situações extremamente injustas vigentes na sociedade e das quais as primeiras vítimas eram os excluídos. Jesus optou por ficar do lado das vítimas.

Jesus ousou transgredir. E transgrediu fronteiras que pareciam intocáveis.

Transgrediu o sábado e considerou a vida como prioridade. "O sábado foi f eito para o homem, e não o

homem para o sábado" (Mc. 2,27).

Transgrediu a Lei de Moisés e não permitiu que a mulher adúltera fosse apedrejada (Jo. 8,3-11).

Transgrediu a prioridade do "sacrifício". "Misericórdia é que eu quero, e não sacrifício'' (Mt. 9,13).

Jesus transgrediu fronteiras judaicas e mostrou que o projeto de Deus ultrapassa limites geográficos.

Jesus transgrediu ousadamente ao "expulsar os vendedores e compradores" instalados no Templo.

E transgrediu frontalmente a desigualdade injusta: "Felizes os pobres" e "Ai de vós, ó ricos" (Lc. 6,20)
Jesus ensinou a transgredir fronteiras que limitam o autêntico sentido do Evangelho. Por isso, a Igreja ou­
sou transgredir barreiras desde o início do cristianismo. O Espírito soprou e os Apóstolos decidiram libertar os   cristãos de heranças estéreis. A comunidade eclesial cruzou fronteiras e passou a evangelizar os gentios. Essa memorável transgressão de limites universalizou a Igreja.

 Textos bíblicos;    Jo. 4   Jo 2,13-25;  Lc.7,24-30; Mt 9, 9-13

 

CONTEMPLAÇÃO INACIANA II

 

A contemplação cristã é: histórica, pois contempla ditos e fatos em sua circunstancia;

                                      : participativa, “...como se me achasse presente...”

                                      : novidosa e original – o Espírito me fala em minha circunstancia.

 

CONTEMPLAR: “estar com Deus no templo”, no lugar de sua presença. Maneira nova de tornar Deus

                            presente ao homem, e do homem fazer-se, por sua vez, presente a Deus. À luz da contemplação, a vida e o mundo são percebidos e tratados como o grande  templo do Transcendente.

A fonte de onde emana a possibilidade da contemplação humana é o próprio Mistério Divino. O ser humano  é capaz de contemplar, de fazer-se presente ao Mistério porque Este o contemplou primeiro.

                       Contemplando os “mistérios” contemplamos o Mistério do Verbo Encarnado:

                                          - o Verbo Encarnado revela o Pai em cada gesto e dito;

                                          - pela força do Espírito cada mistério é transparente;

                                          - pela fé vemos o Mistério em cada “mistério” da vida de Jesus.

 

Contemplar é mirar, admirar, reconstruir uma imagem móvel ou fixa, re-criar-me nela, aplicar toda minha

                     sensibilidade à realidade histórica concreta de Cristo, perceber seu impacto e deixar-me

                     transformar por ela, que pelo poder salvífico do contemplado, me mude por dentro, e a

                     partir dessa mudança interior me faça ver as coisas e atuar de um modo novo.

Olhando, escutando e observando o que faz Jesus Cristo nos diversos “passos” de sua vida, morte e

                                                           ressurreição, a pessoa vai sendo transformada e configurada a par-

                                                           tir de dentro, pelo mesmo Espírito de Jesus; deter-se no mistério,

                                                           deixar que ele penetre até às raízes mais profundas do coração.

Os frutos que a contemplação realiza em nós a nível profundo, são:

          - re-ordenamento dos pensamentos, sentimentos, atitudes, valores...

          - as decisões e opções mais sólidas nascem de um coração purificado.

 

Na contemplação dos mistérios da vida de Jesus, não permanecemos indiferentes; pouco a pouco, de modo quase imperceptível, dá-se uma purificação dos nossos pensamentos, sentimentos, atitudes... uma assimilação dos gestos e valores da pessoa contemplada.

Contemplando longamente a vida de Jesus na variedade das cenas que os Evangelhos nos oferecem, experimentamos um “des-centramento” de nós mesmos para tornarmos atentos ao mistério; descobrimos quais aspectos particulares somos chamados a viver, numa espécie de “composição” entre objeto contemplado e as exigências mais íntimas da nossa pessoa.

           Talvez seja este o motivo pelo qual a contemplação vem proposta após a purificação da 1a. Semana,

           quando o coração é mais livre dos afetos desordenados e não olha os “mistérios” da vida de Jesus com

           olho neutro mas como alguém que deseja deixar-se  “conquistar por Ele” (Fil.3,12).

 

OLHAR, ESCUTAR, OBSERVAR... há um envolvimento afetivo na cena contemplada; entrar progressivo na cena para tornar-se partícipe, para deixar-se prender e plasmar.

Entrar na cena contemplada significa, antes de tudo, um envolvimento das várias dimensões da pessoa,

            em particular da afetividade profunda. As opções importantes nascem de um atrativo interior

            para com um modelo de vida, para  com uma pessoa.

A afetividade é a sede das decisões vitais. A afetividade profunda, o “sentir internamente”, exprime o coração da pessoa; um orientamento vital deve necessariamente envolver o coração.

 

A contemplação se realiza pela potência da capacidade imaginativa. Esta é uma das potências com que Deus dotou a pessoa humana, para facilitar a sintonia com a dimensão transcendente da vida.

O simbólico é um meio que pode levar a pessoa a uma profunda experiência do Amor de Deus.

Esta faculdade imaginativa pode proporcionar maior profundidade à experiência contemplativa.

“Olhar e contemplar” o que as pessoas “fazem”, “ouvir” o que “falam”... Fazer parte ativa do cenário: envolver-se, participar, admirar, encantar-se...

A contemplação consiste em “ver, ouvir, sentir, agir e comprometer-se”.

                            Requer da pessoa uma atitude de silêncio interior.

                            O silêncio pode ajudar o exercitante no esvaziamento de si e no centrar-se no mistério

                            a ser contemplado. Esta atitude silenciosa abre espaço interior  e deixa o Espírito Santo

                            ser o protagonista da experiência de oração contemplativa.

Imaginação: toca a afetividade; mobiliza toda a pessoa para a oração (daí sua eficácia);

                    : nos faz presentes, deixando-se afetar pela cena;

                    : cria imagens de enorme dinamismo; constrói a pessoa.

A contemplação inaciana é uma oração que, embora apoiando-se na imaginação, vai mais além dela.

Na contemplação forma-se o hábito de “perder-se a si mesmo”, através da memória e da imaginação, nos acontecimentos sagrados de grande significação; aprende-se como “permanecer na cena” e em suas ações, estar distendido e tranqüilo na presença dos que falam e se movem e abrir-se sem reservas ao que ocorre, para que possa receber uma profunda impressão de seu misterioso significado.

 

A CONTEMPLAÇÃO é fenômeno espiritual feito unicamente de atitudes internas de surpresa, de assombro, de admiração, de amor, de adoração.   As atitudes interna e externa de quem contempla são inteiramente receptivas.

                            A pessoa contemplativa torna-se como um barqueiro que abandona leme e remos para deixar-se levar confiantemente pela correnteza do rio.  Entregar-se docilmente a Deus para que faça dela o que quiser. O exercitante tem somente que “estar aí”, no mistério; deve colocar-se a si mesmo na cena e deixar que o Espírito o conduza.

                             Ela consiste em silenciar, admirar, saborear e deter-se  numa palavra, numa  frase, num símbolo, numa paisagem, numa pessoa, numa cena...  É deixar-se atrair por aquilo que fala ao coração e desperta admiração, encantamento, fascínio, plenitude, silêncio, provocação...

                              A experiência de oração contemplativa descentraliza o exercitante de si  e centra-o em Deus.

 

Este modo de contemplar inaciano mostra a diferença com outras contemplações da pessoa de Cristo que terminam numa união mística, no matrimônio espiritual.

S. Inácio quer que penetremos na vida peregrina de Jesus, nos detalhes particulares de sua vida histórica: viver com Ele, acompanhá-lo, observar o que faz, escutar o que fala, contemplar todos os seus gestos e atitudes, aderir-nos a Ele. Não é uma contemplação intimista da vida de Jesus para imitar suas virtudes.

Trata-se de impregnar o visual, o auditivo e o agir do  ver, do falar e do agir de Cristo.

 

O caminho do “conhecimento interno” é o da contemplação das obras de Jesus.

Para S. Inácio, são as obras que revelam o coração de uma pessoa. O interior do coração de Jesus aparecerá no exterior de cada uma de suas obras, expressões de sua misericórdia.

             De forma paralela, o conhecimento interno no exercitante deverá expressar-se no Amor concreto do

             seguimento. A qualidade das suas vidas, a de Jesus e a do exercitante, se medem, certamente, a partir

             do interior, mas este se evidencia nas obras.

 

Nesse sentido, pessoa contemplativa é aquela que, pacificada, aquietada e iluminada interiormente, mergulha de tal modo dentro do contexto existencial que, ao lidar com coisas e pessoas, acontecimentos e problemas, aprofunda a sua união com Aquele que tudo sustenta e conduz, chamando-a a uma crescente perfeição em comum-união.

A pessoa contemplativa: não é fugitiva, antes, é alguém inserido;  não é um insensível, e sim uma pessoa muito solidária; não é alguém alienado, mas um consciente; mais do que um estranho no ninho, é alguém de vanguarda na construção do mundo.

 

Como ATO, contemplar é uma repetida sensibilização por essa misteriosa presença de Deus, sendo que alguém só pode tornar-se contemplativo em estado, se primeiro se dedica com afinco a essa busca de Deus, presente em TUDO e em TODOS.

Na contemplação devemos cair na conta de que tudo o que nós fazemos é expor-nos, abrir-nos a essa presença. Quando o “mistério” se faz presente, o Senhor está atuando em nós.

                 O termo “mistério”  significa que há uma presença aqui que está mais além de nós e de

                  nossa compreensão. Somos “lançados” nesse mistério da presença divina, no contínuo

                  mistério da presença de Cristo. A contemplação implica nossa habilidade para entrar na

                  presença de Cristo, e sua habilidade para entrar em nós.

Pela contemplação tudo se encaminha para um sentido abrangente e integrador;

                                vê em tudo e em todos a realidade maior: Deus e a Salvação.

 

As condições para contemplar são: - fazer-se simples, humilde

                                                                    - não buscar a eficácia, mas “deixar-se levar”

                                                                    - sair de si; nada de centrar-se nos próprios conflitos

                                                                    - evitar o “discorrer”, basta estar-saborear-escutar-imaginar-ver

                                                                    - ir, com esperança, à novidade; hoje haverá algo novo.

 

A PAIXÃO SEGUNDO SANTO INÁCIO

 

Memória dos “custos” no seguimento de Jesus

 

Dentro da dinâmica espiritual dos Exercícios, a 3ª Semana é a confirmação da escolha, teste de autentici-

dade de uma decisão já feita durante a 2ª Semana.

A interiorização progressiva dos Exercícios se encaminha para a plenitude de Cristo que levou até às últimas conseqüências a opção pelo Reino.

                   Uma vez feita a eleição, somos convidados a estar com Ele na gratuidade, durante a Paixão.

                   Tomada a decisão de “subir a Jerusalém”, o exercitante começa a descobrir, contemplando Jesus,

                   qual pode ser o preço da fidelidade.

 

As contemplações dos “mistérios” da Paixão procedem-se numa atmosfera de grande intimidade: nenhuma etapa do caminho do Calvário foi omitida por S. Inácio.

         A contemplação vem a ser como um acompanhar Jesus em sua Paixão;

         quem se exercita não pode permanecer reduzido a um simples espectador mas “entrar”  no caminho

         de Jesus, apropriar-se dos “mistérios”.

         A contemplação leva a uma oração de união, possibilitada pela Eleição: querer unir-se a Ele, estar com

         Ele em silêncio, diante de seu ser, mistério que nos ultrapassa.

 

S. Inácio explicitamente insiste no percurso do exercitante ao longo dos “mistérios”, como um itinerário:

                    - “da última Ceia ao jardim das Oliveiras” (EE. 290);

                    - “do jardim à casa de Anás” (EE. 291);

                    - “da casa e Pilatos à Cruz” (EE. 296)...

 

Os traços de ligação indicam um caminho a ser percorrido, o caminho pascal do Senhor.

Este “caminho pascal” não começa com a Última Ceia, mas no momento do Nascimento do Senhor:

            “desde o instante em que nasceu, até o mistério da PAIXÃO, em que agora me encontro” (EE. 206).

Ao propor o relato evangélico da Paixão S. Inácio proclama que o caminho do “magis” é o do “minus”,

(“ser estimado por néscio e louco por Cristo”) porque é na impotência da “kénosis” que a glória do Todo-Poderoso nos é revelada. O onipotente é o Servo Sofredor.

 

A 3ª Semana não me põe frente a uma história ou uma teologia, mas frente à pessoa de Cristo: “diante de

                      mim e posto na Cruz”, numa progressiva e amorosa identificação.

S. Inácio não insiste no sofrimento, mas no “Cristo que sofre” (EE. 195).

              De fato, seria falsificar a oração da 3ª Semana a consideração de problemas intimamente ligados à

              Paixão do Senhor, tais como: o significado do sofrimento, o mistério da Cruz, a existência do mal,

              o escândalo ou a loucura do Amorde um Deus que sofre, etc...

              Não é tanto o sofrimento mesmo que nos aproxima de Cristo.

              Fiel ao Evangelho da Paixão, S. Inácio não sacraliza o sofrimento ou a desgraça, mas ele propõe uma

              compaixão que santifica todo sofrimento.

              O sofrimento é sempre secundário em relação Àquele que sofre.

É somente na 3ª Semana que se torna realidade pascal tudo o que foi desejado e imaginado como projetos e planos concretos de vida; é quando Sua Divina Majestade nos “coloca”  com seu Filho Crucificado.

 

1ª Contemplação: “Cristo N. Senhor vai de Betania a Jerusalém para a última Ceia”

                                                                                                                     (EE. 190)

A palavra Amor, que é a única resposta para todas as perguntas desafiadoras da 3ª Semana, aparece no

                           mistério da Última Ceia, quando o Senhor institui “o santíssimo sacrifício da Eucaristia,

                           como a maior prova de seu AMOR” (EE. 289)

                           Só o Amor justifica e suscita nossa compaixão (“o que devo fazer e padecer por Ele”).

 

A Última Ceia, na qual S. Inácio insiste como uma espécie de fundamento para a 3ª Semana, requer uma

                           verdadeira “transubstanciação”  do eu, na qual o “velho Adão”  morre para ressurgir

                           no “novo Adão”  à imagem e semelhança da majestade do Senhor.

 

Não podemos desligar a ação de Jesus na Última Ceia do conjunto da sua vida, da sua ação, da sua missão: o anúncio e a construção do Reino.

A eucaristia recebe a sua significação a partir do conjunto desta vida e ação de Jesus.

                     Ela é o ponto de chegada desta Vida e Ação, e também uma nova maneira de Jesus partici-

                     par da vida dos homens e de fazer dos homens participantes da sua Vida.

 

Duas práticas de Jesus impressionaram vivamente os que as testemunharam: as curas e a partilha nas

                        mesas. Curando os doentes e compartilhando a mesa com os pobres, Jesus mostrou sensi-

                        bilidade diante de dois problemas básicos da vida dos pobres de todos os tempos: pão e

                        saúde.

A mesa é para ser compartilhada por todos.

A partilha do pão com pecadores e pobres fazia parte das práticas transgressoras de Jesus.

Com isso Ele vivia desafiando as formalidades do comportamento social, tornava-se igual a todos que se sentavam com Ele à mesa. A “comensalidade” cria laços de comunhão, é um remédio contra a rigidez das hierarquias, dos privilégios e dos exclusivismos.

Na comensalidade entre Jesus e os excluídos, tratava-se de reconstruir a nova comunidade em princípios totalmente diferentes dos que fundamentavam a desigualdade, a dependência, a ordem estabelecida na sociedade.

Comendo e bebendo com os camponeses sem-terra e igualmente com os publicanos e as mulheres, Jesus estava transgredindo as regras estabelecidas de bom comportamento na sociedade.

        “Ele come com os pecadores e se senta à mesa com os publicanos” (Mt 9,11).

 

Jesus se senta à mesa com todos e aí fala de Deus e das coisas divinas.

Assim Ele subvertia o raciocínio de seus interlocutores, virava a moral pelo avesso, mostrava o mundo pelo reverso  como na parábola do fariseu e do publicano.

Falando em parábolas Jesus procurava o tempo todo um bom interlocutor, alguém que compartilhasse com Ele a aventura de “sentar-se à mesa” com as pessoas e ao mesmo tempo de duvidar das verdades estabelecidas e das hierarquias dominantes.

 

Além disso, o lugar sagrado,  onde se discutem os assuntos de Deus e de seu Reino, não é o “santuário”  onde as pessoas se retiram do mundo para ter uma experiência sacral, mas pelo contrário, coincide com o lugar da vida do dia-a-dia, a mesa, a casa...

O modo de falar de Jesus era coloquial, seu templo era a casa de família.

Com isso Ele se tornava cúmplice com os seus comensais, partilhava a mesa com publicanos e prostitutas.

Não era o pregador com ar de asceta distante, mas o companheiro, o amigo, o confidente.

 

- Composição vendo o lugar (E. 192): extrema sobriedade; que cada um utilize o que mais lhe ajudar.

 

- Petição (EE. 193): “dor, compaixão, confusão”.

                                     A grande graça a pedir é a compaixão, ou seja, sofrer com Cristo que sofre, sair 

                                            de si e de seu mundo de idéias e sentimentos para “entrar” no mundo de Jesus, 

                                     através da empatia com seu modo de ser e padecer, com sua palavra...

                                     Não devemos explorar a sensibilidade; devemos percorrer o “mistério” com es-

                                     pírito de fé impregnada de humilde compulsão: “é por meus pecados que o Senhor

                                     vai à Paixão”.

                                     O “esforço” que S. Inácio pede ao exercitante (EE. 195) não é um esforço nervo-

                                     so, estéril, mas um esforço humilde, amor contrito e doloroso. Diante da Paixão,

                                     basta a cena para falar; qualquer discurso se tornaria supérfluo e acintoso, tão gran-

                                     de é o amor.

 

- Colóquio (EE. 199: grande liberdade espiritual, segundo a matéria e a devoção de cada um.

 

Textos bíblicos:   1) Mc 14,12-26            2) 1Cor 11,17-34            3) Jo 13,1-20      4) Jo 13,21-38

                                 5) Lc l9,1-10                6) Mc 7,1-13                   7) Lc 5,29-39

 

 

 “MALDITO TODO AQUELE QUE É SUSPENSO NO MADEIRO (gál. 3,l3)

 

“Deus tornou Sua a morte, para que o mundo fizesse sua a VIDA” (B. Forte)

 

O processo interior da 3ª Semana:

Manifesta-se como angústia, perturbação, dúvida e obscuridade a respeito da decisão tomada na Eleição.

É uma vivência da situação do Horto das Oliveiras.

O exercitante é tentado a abrir mão da opção feita, declarando-a sem valor, querendo recomeçar tudo a partir da estaca zero... Aparecem novos motivos... opressão maciça... perturbação, escuridão, angústias pelas conseqüências...

Se a Eleição está bem feita, doravante não cabe mais procurar e descobrir o que está por fazer (isso foi assunto da 2ª Semana), mas executar o que se manifestou como Vontade de Deus.

 

O CRISTO da 3ª Semana (ao contrário da 2ª) já não é o Cristo ativo senão passivo, não mais o Cristo li-

                                          vre em  seus movimentos mas prisioneiro; Cristo que sofre e morre.

                                          A partir do ponto de vista predominante nos Exercícios, a Paixão revela como

                                          Jesus mantém até o fim sua orientação de obediência ao Pai e de entrega aos

                                          homens; isto constitui para o exercitante um forte motivo de fidelidade à ori-

                                          entação escolhida durante a 2ª Semana para seguir Jesus.

Combatido e puxado por todos os lados, Jesus resiste fiel a algo que está dentro d’Ele, só n’Ele e no mais profundo do povo pobre e sofrido.

É aquela semente de resistência de que fala o profeta Isaías:

        “Machucado não machuca, injustiçado não responde com injustiça, quebrado não quebra” (Is. 42,1-4).

No fim, ficou e abandonado, soltando um grito (Mc 15,37). É o grito dos pobres!

             Morre acreditando que Deus ouve o grito dos pobres.

             Morre acreditando que a vida pisada é mais forte que o poder que a pisa, mais forte que a morte.

             Morre acreditando que Deus liberta o seu povo com poder criador que vence a morte.

 

S. Inácio propõe um modo de apropriação do “mistério”  da Paixão:

               - considerar o que Cristo “padece na sua humanidade...” (EE. 195)

              - considerar como a “divindade se esconde...” (EE. 196)

              - considerar que “padece tudo isto por meus pecados” (EE. 197)

 

Três passos escalonados nos quais o verbo “considerar”  designa uma mirada do coração, que se deixa

                      impressionar pelas imagens que contempla.

“Considerar” significa ponderar afetivamente e penetrar no sentido último, que se esconde debaixo

                        dos acontecimentos, para ficar afetado por ele..

                        O resultado final é que o exercitante se sente referido, se experimenta a si mesmo como a

                        origem e o destinatário de tudo o que acontece.

 

“A Cruz é o lugar onde Deus fala no silêncio. Morrendo na Cruz o Filho adentrou no “fim” do homem, no abismo de sua pobreza, de sua tristeza, de sua solidão, de sua obscuridade.

E somente ali, bebendo o cálice amargo, experimentou até o fundo a nossa condição humana: na escola da dor, tornou-se Homem até a possibilidade extrema” (B. Forte).

 

Jesus morre abandonado no sentido que a consciência judia entendia, isto é, excomungado, maldito de Deus, morre como um ímpio, um sem-Deus, rejeitado...

Por isso mesmo, Ele alcança o homem universal, dentro de seu desnudamento e seu afastamento de Deus.

            Jesus se identifica com a humanidade perdida, condenada pela Lei;

            Ele está com todos os abandonados de Deus, com todos os sem-Deus.

            Ele é o portador e o mensageiro da nova proximidade de Deus.

Eis o que proclama o grito de abandono, lançado pelo Filho.

Pelo seu abandono, Jesus dá Deus a todos os abandonados de Deus;

Ele se faz o mais próximo da humanidade perdida.

No coração do seu abandono, Ele é ao mesmo tempo o mais unido a Deus e o mais unido à humanidade.

             O Filho encarnado entrou até o fundo da miséria humana e se encontra, a partir de agora,

              próximo de todos aqueles que estão longe de Deus” . (G. Rossé).

Aceitando morrer entre os malditos e os sem-Deus, Jesus manifesta que a nova relação de Deus com os homens se realiza lá onde tudo grita sua ausência.

Cada ser humano, a partir de agora, pode reconhecer, não importa em que situação de afastamento de Deus, a face do Cristo abandonado.

E nesta face se oferece a nova, a inefável proximidade de Deus.

            Podemos considerar a que profundidade o Filho de Deus assumiu a condição humana: Ele 

           foi até o fim da noite de nossas dúvidas e de nossas interrogações, até o fundo do silêncio de

           Deus. Por este grito sem resposta, Ele tornou-se verdadeiramente um de nós.

           Desta vez podemos dizer que Ele passou totalmente para o nosso lado.

           Ele está com todos aqueles que se debatem nas trevas.

           Ele desceu aos nossos “infernos” da dor, da angústia...

           A partir de agora ninguém poderá dizer: “Lá onde eu estou, Ele não veio, Ele não desceu tão 

                                                                                baixo para me encontrar”.

            Pois não há nem fracasso nem abandono que Ele não tenha conhecido e, portanto, não tenha

           feito, por sua presença, o lugar privilegiado da proximidade de Deus.

           Nunca Ele fora tão próximo do ser humano. Nunca Ele fora tão próximo de Deus.

           Nunca Ele tornara Deus tão próximo dos homens.

 

O Deus cristão não está fora do sofrimento do mundo, como espectador  impassível diante dessa dor;

              Ele a assume e a vive da maneira mais intensa, como sofrimento ativo, como dom e oferenda da

              qual jorra a Vida nova para o mundo.

              Deus é Aquele que sofre no homem e com o homem, e que faz Seu o grito dilacerante das dores do

              mundo, por Ele assumidas na Paixão do Filho.

Por aquela Sexta-feira Santa, nós ficamos sabendo que a história dos sofrimentos humanos é também a história do Deus cristão; Ele está presente nela, sofrendo com o homem e fazendo com que o homem participe do valor imenso do sofrimento oferecido por Amor.

 

Deus é, num sentido mais profundo, o Deus humano, que grita no sofredor e com ele, e que intervém a

             favor dele com a própria Cruz, quando o sofredor em seus tormentos emudece.

É o Deus que dá sentido à dor do mundo, porque assumiu de tal maneira que faz dela o seu próprio sofri-

             mento. Este é o sentido do AMOR.

Por meio de Jesus moribundo foi vencido, a favor de todos os homens, o abandono divino na morte: nin-

                                                 guém, doravante, sofrerá sozinho e sem esperança a própria morte;

                - funda-se na comunhão com Jesus a esperança da participação na nova Vida futura, que

                 já apareceu em Jesus e que consiste na comunhão com Deus.

               - Portanto, o dia em que “Deus morreu” remete ao dia do Deus vivo;

                               no reino da finitude oferece-se o infinito; na morte, a Vida, no pecado, a Graça;

                               na treva, a Luz; numa história humana, a História de Deus...

          O Pai é o Amor que crucifica; o Filho é o Amor que é crucificado; e o Espírito Santo é a Força

            invencível e o poder da Cruz” (metropolita Filaretes de Moscou).

 

Na DOR revela-se o CORAÇÃO do Deus trinitário.

A Cruz é história do Amor trinitário pelo mundo: Deus sofre na Cruz como Filho que se ofereceu, como

             Pai que o oferece, como Espírito, amor que promana de seu amor que  sofre.

A Cruz é a expressão finita do acontecimento da Vida infinita que se desenvolve no seio de Deus: por

               isso ela é a humilde porta que abre aos homens o mundo de Deus, é a Porta dos Humildes,

               que desvela, ao que se faz pobre, o mistério das fontes eternas.

A “entrega” dolorosa é o supremo inclinar-se dos Três para o homem: é o sinal “finito”  do

                      despojamento “infinito” de seu Amor por nós.

                                         Deus morre para dar-se.

 

Textos bíblicos:    1) Mc 15,21-32           2) Mc 15,33-41            3) Jo 19,17-27      4) Lc 23,39-43

                                  5) Jo 19,28-37            6) Mt 27,57-66            7) 2Cor 4,7-12

 

 

 

NO MISTÉRIO DA PAIXÃO DO FILHO SE MANIFESTOU

A COMPAIXÃO DE DEUS-PAI

 

“Se quisermos saber quem é Deus, deveremos ajoelhar-nos ao pé da Cruz” (Moltmann)

 

Com os exercícios da 2ª Semana S. Inácio pretende que o exercitante “eleja” Cristo como seu único Senhor; mas ele quer que o mesmo exercitante não seja movido só pela boa vontade e bons desejos, mas que seu impulso em seguir Jesus seja lúcido e realista; quer que eleja de verdade o caminho de Jesus e este caminho escolhido implica a Cruz.

            Por isso, na 3ª Semana, a expressão “seguir a Cristo” se acha qualificada com palavras como “na

                                                  pobreza” ou “com a Cruz”.

                                                  A contemplação muda de registro: já não se trata unicamente de contemplar

                                                  para “conhecer e amar” ou para descobrir as exigências concretas de nosso se-

                                                  guimento concreto e atual do Senhor (Eleição).

                                                  Trata-se de “entrar” em comunhão na ação de Jesus: Paixão.

                                                  Uma comunhão que já não é unicamente conhecimento que escuta, mas ato e

                                                  participação.

                                                  Um ato de participação numa ação, que nos inclui e que nos ultrapassa, arras-

                                                  tando-nos em seu próprio dinamismo.

                                                  Trata-se de ser consentido, ser “posto”  com o Filho com a Cruz às costas.

                                                  União de nossa comunhão-participação (consentimento numa ação). Aqui se

                                                  situa a verdadeira esperança cristã,  marcada pela fecundidade divina.

                                                                 “Se o grão de trigo não morre...

 

É intenção de S. Inácio nesta 3ª Semana nos conduzir à intimidade e comunhão com Jesus Cristo através da porta da dor para chegar a sentir como próprios Seus sentimentos e chegar à identificação com Ele.

      “A dor é o aglutinante mais perfeito”, já que nos sentimos espontaneamente mais unidos com a dor

                                                                 de outra pessoa.

      “Considerar o que Cristo Nosso Senhor sofre ou quer sofrer em sua humanidade” (EE. 195): na Paixão

                         contempla-se uma natureza humana de Cristo muito mais semelhante à nossa que nas

                         horas da vida pública.

                         Ele é visto aqui como um homem que sente medo, angústia, que sofre.

                         É muito mais fácil identificar-se com alguém de reações tão similares a nós.

      “Considerarei que padece tudo isto por meus pecados” (EE. 197). Quando vemos que outra pessoa so-

                    fre por  nós, muito mais facilmente nos apropriamos de seus sentimentos de dor e angústia...

 

Por isso, a oração apropriada à Paixão é de simples presença.

             O Verbo encarnado é Palavra silenciosa e silenciada na Paixão.

              O exercitante que contempla é também reduzido ao silêncio, só podendo adorar, conside-

              rar, compadecer e participar.

              A oração deve agora tornar-se mais passiva, sendo mais um deter-se nos sentimentos pro-

              vocados pelas cenas, tais como a compaixão, o assombro, a tristeza, o amor.

 

O “mistério” oculto nas trevas da Cruz é o mistério da dor de Deus e de seu Amor.

                       Um aspecto exige outro: o Deus cristão sofre porque ama, e ama  enquanto sofre.

                       A dor revela o Amor: o abismo da dor revela a perfeição do Amor.

                       A Cruz justifica a audácia de se pronunciar a expressão escandalosa: “DEUS SOFRE”.

                   

A dor é o subsolo do qual brota a esperança.

O sofrimento não se anula nem se nega, mas está sempre controlado pela esperança.

A esperança que brota do sofrimento possibilita um “perene nascer do coração”.

Na Paixão, cremos que é a dor de um homem que espera, apesar de tudo, e que se abre à dor de todos, encontrando na solidariedade e na dor dos outros, razões para relativizar sua própria dor.

Jesus foi realmente o homem solidário com a dor dos homens para contagiar a todos com sua esperança de vida plena e definitiva. Jesus faz sua a dor de todos e redescobre o ser humano à luz da esperança.

 

 

O Deus crucificado torna o ser humano capaz de um sofrimento ativo, de um sofrimento vivido na co-

                                  munhão com todos os desolados da terra.

                                  O Deus cristão é Aquele que faz de todo sofrimento, até o mais humilde e oculto,

                                  um poderoso meio de Redenção, recuperando assim o valor de todas as vidas, mes-

                                  mo aquelas consideradas “inúteis”  aos olhos do mundo.

 

O sofrimento de Cristo é expressão do sofrimento de Deus. Seu sofrimento expressa de maneira penetrante o Amor do Pai. Ele nos fala daquilo que Deus sente por nós.

       A KÉNOSIS de Cristo nos ensina a encontrar Deus nos lugares onde a vida se acha impedida;

                             Deus “desceu” às zonas mais escuras da humanidade – sofrimentos, fracassos, amarguras,

                             pecados... – para sentir como Seu nosso sofrimento e ali falar ao nosso coração.

 

A CRUZ é o lugar por excelência da revelação de Deus.

No mistério da Paixão encontramos a onipotência de um Deus que desceu e chegou até o extremo  da debilidade para manifestar a onipotência de seu Amor.

        “Assim, pois, se Deus sofre, é por seu excesso de AMOR desde o princípio, por ser fiel a seu AMOR por

         nós, ainda quando dito AMOR signifique as dores de seu único Filho” (P. Kolvenbach).

        “Deus não sofre no sentido da criatura finita, mas nem por isso é incapaz de sofrer em todos os aspectos:

         Deus é capaz de sofrer porque é capaz de amar. Sua essência é a MISERICÓRDIA” (Moltmann).

 

O Amor torna o próprio Deus vulnerável e passível de um sofrimento livre, ativo, fecundo.

Se Deus fosse impassível (incapaz de sofrer) seria também incapaz de amar.

A situação de Deus com respeito ao sofrimento é diferente da nossa.

Deus não está submetido ao sofrimento: um Deus submetido por necessidade ao sofrimento seria incapaz de libertar-nos dele. A diferença entre o sofrimento de Deus e o dos homens se encontra na liberdade com que Deus se submete ao sofrimento.

                         “Deus, o imutável em si mesmo, se faz mutável no outro” (K. Rahner).

Deus se fez mutável na humanidade de Jesus.

É todo seu ser divino que assume em si todo o nosso ser: Deus mesmo em sua plenitude é plenamente solidário do ser humano.

E se a plenitude implica felicidade, concluímos que Deus é sensível a nosso sofrimento a partir da plenitude de sua própria felicidade.

“Ele desceu à terra por compaixão com o gênero humano, padeceu nossos sofrimentos antes de ter sofrido a Cruz, antes de ter-se dignado assumir nossa carne.

Porque, se não tivesse sofrido, não teria descido para partilhar da vida humana conosco.

Primeiro sofreu, e depois desceu e se manifestou.

Mas, que Paixão é essa que padeceu por nós? É a Paixão do Amor.

O próprio Pai, Deus do universo, cheio de indulgência, de misericórdia e de piedade, não sofre também de alguma maneira? Ou ignoras que na sua providência para com os homens Ele sofre a paixão dos homens?

O próprio Pai não é impassível. Quando nos dirigimos a Ele na oração, tem misericórdia e con-doe-se, experimenta algo da paixão da caridade” (Orígenes).

 

Na oração: o exercitante se oferece com Jesus; entra num processo de entrega da própria vida,

                    unida a de Jesus.

                    Contemplar afetivamente a ação de Jesus na Paixão, é aceitar formar parte nela, agora

                    e na vida, pela via de integração e participação.

 

Textos bíblicos:    1) Lc 23,1-12             2) Lc 23,13-25              3) Lc 23,26-32       4) Lc 23,33-38

                                   5) Lc 23,39-43          6) Lc 23,44-49               7) Lc 23,50-56

 

 

 

A “LOUCURA” da CRUZ e a “GLÓRIA DE DEUS”

 

“Quero e elejo... desejar mais ser estimado por vão e louco por Cristo,

que primeiro foi tido por tal” (EE. 167)

 

O processo interior desta fase:

Os EE. criam um processo interior. Se o retirante na 2ª Semana entrou em comunhão de destino (pessoa + valores) com Cristo é de se esperar que seja, como Jesus, rejeitado e perseguido.

Jesus sofreu exteriormente, mas sobretudo interiormente: angústia, abandono e obscuridade espiritual.

A 3ª Semana ajuda a aprofundar-se no amor “desegoistizado”.

O processo interior tem como objetivo: - sancionar a Eleição;

                                                                     - sofrer e morrer com Cristo. Conseqüência da fidelidade absoluta

                                                                       à escolha. O sofrimento de Jesus é conseqüência da fideli-

                                                                       dade absoluta à escolha e ao caminho que Ele decidiu percorrer.

                                                                     - retomada das principais meditações e contemplações já vivencia-

                                                                       das durante o percurso dos Exercícios; aprofundá-las sob nova ótica

A forma de oração, nesta fase, é a contemplação. Pela contemplação o exercitante se identifica com Cristo e se coloca até no seu lugar, participando até da sua Paixão. A “loucura”  da Cruz segue-se a “glória” de Deus, e pela glória de Deus abraça-se a Cruz. “Só este incompreensível aniquilamento de uma

                                        Pessoa divina na Cruz pode convencer ao homem do louco Amor que Deus lhe tem”

Este “amor louco”, que altera toda a sabedoria e toda a esperança é o que abriu o caminho de Jesus – um

                               caminho tão insensato e escandaloso que choca a todos, judeus e pagãos. A conclusão

                               que S. Paulo tira é que, para chegar a ser sábio, é preciso estar “louco” por Cristo.

 

Os EE. situam esta “loucura” por Cristo no centro da “glória” de Deus.

S. Inácio não opõe a loucura da Cruz à glória de Deus, como se uma excluísse a outra. Não há um Evan-gelho da Glória de Deus e outro da Cruz. Só há um grito pascal: Com sua morte venceu a morte!”

No pensamento de S. João, a hora da Cruz é igualmente a hora da Glória de Deus (Jo. 17,1).

Na hora do abandono – na hora da entrega do Espírito – revela-se a loucura do Amor de Deus por nós:

             “Ninguém tem maior Amor do que aquele que dá a Vida por seus amigos” (Jo 15).

 

No exercício do Reino (EE. 95), S. Inácio considera a obra e missão de Cristo, ainda em marcha, como a entrada da humanidade inteira na glória do Pai seguindo primeiro a Cristo no caminho da Cruz:

          “Passando por todas as injúrias e todas as humilhações e toda pobreza, assim atual como espiritual”

Cumprir a missão de Cristo é assumir o Evangelho da Cruz, que consiste primordialmente em fazer da vida uma entrega contínua de si mesmo para que a glória do Pai resplandeça nas vidas de nossos irmãos.

A Glória do Pai é a que dá forma e expressão concreta à nossa missão de “levar a Cruz”.

                        A glória é a debilidade invencível de Deus em seu amor.

                         A glória é a Vida de Deus que se dá, que se entrega no Amor” (P. Kolvenbach).

 

“A MAIOR GLÓRIA DE DEUS”, a grande paixão de S. Inácio, consiste em “ser posto com o Filho”, e o

                                                     Filho com a Cruz às costas (Aut. 96).

É na experiência mística de La Storta que devemos buscar a verdadeira chave da Cristologia inaciana, ou

seja, Deus Pai entrega Inácio a seu Filho com a Cruz, tornando-o assim “companheiro de Cristo crucifi- cado”.   Seguir a Jesus Cristo Crucificado é a prática efetiva da “mística do SERVIÇO”.

 

CRUZ é sinal de fidelidade: não é estranho que S. Inácio e seus companheiros desconfiassem de suas

                                                    atividades apostólicas se não suscitavam oposição, assombro, inclusive perseguição. Mestre Francisco Xavier se queixa de que não haja perseguição (em Portugal), mas se consola pensando que as terá na Índia, “porque viver muito tempo sem elas não é militar fielmente”.

 

Na oração: o drama da Paixão é um único e profundo colóquio entre o Pai e o Filho. O exercitante

                    é chamado a entrar nesse colóquio e assim penetrar mais profundamente no mistério

                    do Amor redentor das Pessoas divinas.

 

Textos bíblicos:    1) 1Cor 1,17-31           2) 2Cor 11,16-31         3) Rom 5,1-11     4) Rom 8,31-39

                                  5) Fil 2,5-11                6) 1Pd 4,12-19             7) Col 1,24-29

 

 

 

EUCARISTIA: encantamento que faz ressuscitar

                             a vida que já estava morta

 

A aldeia que nunca mais foi a mesma

                                                                                                                          (Gabriel Garcia Marquez)

 

Era uma aldeia de pescadores de onde a alegria fugira, os dias e as noites se sucediam numa monotonia sem fim, das mesmas coisas que aconteciam, das mesmas coisas que se diziam, dos mesmos gestos que se faziam, e os olhares eram tristes, os rostos vazios de sorrisos e de surpresas, a morte prematura morando no enfado de um mundo esgotado, onde a VIDA acontecia pela inércia porque o seu sabor há muito se perdera nos corpos cansados de viver...; só as intermináveis rotinas do dia-a-dia, prisão daqueles que se haviam condenado a si mesmos, sem esperanças, nenhuma outra praia prá onde navegar.

 

Até que algo estranho apareceu e desapareceu, nas ondas que subiam e desciam.

O mar, quebrando um mundo, anunciou de longe que trazia nas suas ondas coisa nova, desconhecida, algo inusitado, diferente, nunca visto antes, forma disforme que flutuava.

Todos vieram à praia, na espera... olhando e perguntando uns aos outros: “o que será?”...

E ali ficaram, até que o mar, sem se apressar, trouxe a coisa e a depositou na praia para espanto de todo mundo; surpresa triste: um homem morto, desconhecido...

E o que é que se pode fazer com um morto, senão enterrá-lo?

Tomaram-no, então, para os preparativos de funeral, que naquela aldeia ficavam a cargo das mulheres; às vezes é mais grato preparar os mortos para a sepultura que acompanhar os vivos na morte que perderam ao viver.

Foi levado para uma casa, os homens de fora, olhando...

No corpo morto as algas, os líquens, as coisas verdes do mar, testemunhas de funduras e distancias, mistérios escondidos para sempre no silêncio de sua boca sem palavras...

 

Acontece, entretanto, que sem querer e sem saber, as mulheres começaram a fazer com aquele corpo inerte e o seu silêncio, uma coisa de que nem elas mesmas suspeitavam...

As mãos começaram o trabalho, e nada se dizia, só os rostos tristes...

Até que uma delas, com um leve tremor no canto dos lábios balbuciou...

 - “É, se tivesse vivido entre nós teria de se curvar sempre para entrar em nossas casas. Ele é muito alto...”

E todas assentiram com o silêncio.

  - “Fico a pensar em como teria sido a sua voz”, disse uma outra. “Fala mansa como a brisa, por vezes ousa-

     da como o quebrar das ondas... Será que ele conhecia a magia das palavras que, uma vez ditas, fazem

     uma mulher colher uma flor e a colocar nos cabelos?”

Elas pensaram e falaram que ele deveria ter dito palavras que há séculos não eram pronunciadas naquela aldeia. Todas sorriam, surpresas de memórias que começavam a surgir das profundezas, como bolhas que sobem de espaços submarinos, desejos há muito esquecidos... Foi então que uma outra, olhando aquelas mãos enormes, inertes, disse as saudades que arrepiavam a sua pele:

        - “Estas mãos... que terão feito? Terão sido ternas? Terão sabido amar?”

 

E elas sentiram que coisas belas e sorridentes, há muito esquecidas e tidas por mortas nas suas funduras, saíam do ouvido e vinham, mansas, se dizer no silêncio do morto.

A vida renascia na morte graciosa de um morto desconhecido e que, por isso mesmo, por ser desconhecido, deixava que pusessem no seu colo os desejos que a morte em vida proibira...

E os homens, do lado de fora, perceberam que algo estranho acontecia: os rostos das mulheres, maçãs em fogo, os olhos brilhantes, os lábios úmidos, o sorriso selvagem... e compreenderam o milagre. Vida que voltava, ressurreição de mortos...

E tiveram ciúmes do afogado... Olharam para si mesmos, se acharam pequenos e domesticados, e perguntaram se aquele homem teria feito gestos nobres (que eles não mais faziam) e pensaram que ele teria travado batalhas bonitas (onde a sua coragem?) e o viram brincando com as crianças e segurando as mãos dos velhos... e o invejaram amando como nenhum outro (onde se escondera o seu próprio amor?)...

 E foi assim que, enquanto as mãos faziam aquilo que se devia fazer para preparar um corpo para a sepultura, o pensamento e as palavras iam e vinham, tecendo uma estória por cima dele...

E na teia que se tecia, um milagre ia acontecendo, porque, da fala sobre o morto, uma vida nova ia nascendo, e as pessoas olhavam para o seu passado e imaginavam que tudo poderia ter sido diferente, se o afogado tivesse vivido entre eles.

E, de repente, a ciranda sem fim das mesmas coisas que se repetem se interrompeu por um morto que propôs uma nova dança... E os olhos, cansados de verem as mesmas coisas, começaram a ver coisas diferentes...

E diz a história que, finalmente, eles enterraram o afogado, mas a aldeia nunca mais foi a mesma, em virtude do silêncio de um corpo e das estórias que sobre ele se contaram.

 

 

Na Eucaristia, conversa-se sobre um corpo crucificado de 2.000 anos, brotando o seu discurso daquela dor funda da saudade e da ausência...

E nas ausências se contam estórias que são o mais próximo que as palavras podem chegar da coisa viva.

A imaginação voa para fazer ressuscitar palavras de amor, gestos de alegria, manifestações de bondade...

As estórias são invocações da Vida.

                   Elas tem o poder mágico de mexer fundo dentro da alma, atingindo os lugares onde os risos,

                   as lágrimas e as fúrias se aninham...

                   É que as estórias, por serem invocações da vida, provocam o amor e frequentemente armam

                   o braço...

É por isto que a fala sobre um afogado sem nome e sem genealogia pode transformar uma aldeia de pescadores, da mesma forma como uma refeição em memória de Alguém que se ausentou é capaz de invocar vida e coragem, e a fala sobre o Reino de Deus é capaz de provocar danças de alegria.

  Toda liturgia não será uma dança ao som de uma música que brota de uma ausência?

 

As palavras são capazes de designar ausências e, na medida em que o discurso passa de boca em boca e nele investimos o nosso Amor, aparece aquela coisa curiosa que é um pacto em torno de uma presença, seja na saudade, seja na esperança...

As palavras grávidas de amor fazem brotar realidades até então adormecidas.

         “A religião é o solene desvelar dos tesouros ocultos dos homens, a revelação dos seus pensamentos

          mais íntimos, a confissão aberta dos seus segredos de amor”(Feuerbach).

 

É em torno das mesmas estórias que se contam e se repetem que uma comunidade se constitui, comunidade que se chama igreja: aqueles que, por amor a uma estória, confessam o seu amor comum pe-

                                                    las mesmas coisas... as mesmas esperanças que se tecem sobre o corpo

                                                    de um crucificado de 2.000 anos.

                                                    E, com as palavras, se estabelece a conspiração que funda a comuni-

                                                    dade da esperança: conspirar, respirar juntos, inspirar o mesmo cor-

                                                    po que vem das ausências...

 

A estória não fala sobre um objeto. Ela fala com alguém, estabelece uma rede de relações entre as pessoas que aceitam conspirar, co-inspirar em torno do fascínio do que é dito... estórias que fazem nascer os sorrisos, os gestos ternos, as mãos pacientes...

Nas estórias se tece o pensamento, se apontam horizontes, se dão nomes aos desejos...

 

E que somos nós?

Aldeia de pescadores, em torno de um afogado, e de nossas bocas saem as estórias que transformam as memórias e as esperanças, e nada fica como era...

     Encantamento que faz ressuscitar a VIDA que já estava morta.

 

E poderá haver definição mais bela de verdade que a palavra que engravida as estéreis, faz renascer os mortos e transforma os desertos em mananciais de águas?

                       Um rito acontece quando um poema,  achando que as palavras não bastam,

                       se encarna em gestos, em música e dança,   em refeição, em cores e perfumes...

                      O rito é um poema transformado em festa!

 

 

 

EUCARISTIA: da comunhão de pão à comunhão de vida

 

“O homem não deve viver apenas de pão, mas ele serve como entrada” (Gourmet contemplativo)

Em uma terra distante, vivia um homem muito religioso.

Levava uma vida austera e estava determinado a permanecer puro até a vinda do Reino de Deus.

Suportou muitas provações. Mas chegou o dia em que sua paciência se esgotou.

- “O Reino nunca virá”, disse a si mesmo.

- “É melhor eu aproveitar o que tenho”.

Então, pegou uma enorme quantia de dinheiro de suas economias e resolveu fazer um grande jantar

Convidou todos os seus amigos religiosos e, para aumentar a festa, chamou várias das pessoas que moravam na vizinhança; pessoas que ele sempre vira como pecadores.

Os preparativos para o banquete estenderam-se por muitos dias.

Por fim, tudo estava pronto e todas as pessoas reunidas.

Os religiosos demonstraram muita preocupação com quem se sentava a seu lado, mas, por fim, a comida e o vinho começaram a lhes abrandar o coração.

Depois da ceia, tocaram música, e os pecadores começaram a dançar.

Não tardou para que mesmo os devotos estivessem dançando.

A atmosfera de risos e celebração era contagiante e todos se divertiram.

- “Havia muito tempo que eu não me divertia tanto”,  um homem disse ao anfitrião.

- “Foi quase como se o Reino de Deus já estivesse entre nós”.

 

Comer e beber com outras pessoas é a coisa mais simples e im-

portante que podemos fazer para desenvolver a espiritualidade.

    Comer é uma experiência espiritual; sentar-se com outras

    pessoas em torno de uma mesa é sagrado.

Se por acaso pudermos ter alguns desconhecidos à mesa, melhor

ainda.O alimento possibilita a conversa – é sinal visível do Amor.

Lembremo-nos, é preciso tempo: “fast food não nos faz bem!”

Tempo para saborear e sorver, deliciar-se e conversar...

Tempo para  uma longa e lenta digestão de tudo o que é bom.

O primeiro ingrediente é sempre o amor.

 

Texto bíblico:   Lc. 22,7-13  O homem com a bilha d’água

 

Chama-nos a atenção, neste trecho, a maneira como Jesus indicou a Pedro e João o local onde queria que a Ceia fosse celebrada. Jesus mandou-os seguir um homem que encontrariam à entrada da cidade, carregando uma bilha d’água. Anônimo perante a posteridade, sem rosto, porque era seguido pelos que vinham atrás dele, o homem com a bilha d’água, de certo modo e do modo certo, serviu a Cristo como a Igreja deve serví-Lo, sem perguntar qual seria seu lugar na mesa.

O que teve lugar dentro de sua casa, transformada no mais importante templo material da história humana, seria mais do que suficiente para arrancar dele alguma expressão de vaidade capturada pelo evangelista. Mas não. Não é assim que se faz, na História da Salvação.

Aquele homem, com a água que levava, representa a todos nós; cabe-nos mostrar o caminho do local da Ceia, cabe-nos palmilhar, sobre as pedras do cotidiano, o rumo que leva à casa do Pai.

E devemos fazer com que outros nos sigam, para que se cumpra tudo que foi instituído.

Orientadores do povo de Deus, abrimos as portas da grande sala e a confiamos ao Mestre para que realize, alí, o imenso dom da Eucaristia, “como aquele que serve”.

 

Consommé divino

                                 Muitos amigos; 1 mesa grande; 1 medida grande de tempo; risadas a gosto;

                                 garrafas de vinho; 1 pitada de sinceridade; 1 cozinheiro sério; comida sem fim.

        Assegure especialmente que a área da refeição esteja livre de condenações.

        Reúna os amigos à mesa, misturando-os com cuidado. Acrescente o tempo, o vinho e a sinceridade

        devagar, para evitar que a mistura desande. Por fim, junte o cozinheiro e a comida.

        Pode ser necessário usar um pouco de força para retirar os amigos da mesa.

 

Em intervalos regulares, é necessário festejar. É uma dessas coisas que não se questiona. Sobreviver é ani-

mal; festejar é humano; ser um “animal festivo”  é ser divinamente humano. Deus adora festejar. 

 

A MESA QUE NOS HUMANIZA

 

Da mesa da acomodação à mesa da comunhão e da mudança

 

Mt. 9,9-13:  Jesus, o homem das “grandes viradas”.

                          Literalmente, Jesus foi Aquele que “virou as mesas” no Templo, expulsando do mesmo os vendedores e comerciantes. Também virou a mesa de muitas pessoas.

Jesus arranca Mateus de sua mesa (mesa que o distanciava dos outros, mesa da traição do seu povo e  que o fazia colaborador do império romano, mesa que o fazia sentir-se inimigo do povo, mesa da exploração, da solidão, da acomodação, da fixação... mesa da morte).

Em casa de Mateus, Jesus funda uma outra mesa: mesa da comunhão, da partilha, da festa, mesa da fraternidade onde todos se sentem iguais... Mesa da vida.

Trata-se de uma mesa provocativa, questionadora, incômoda... que requer mudança de lugar, de mentalidade, de atitude... transformação interior. “Virar a mesa”, eis a questão!

 

Essa foi a prática de Jesus que mais causou espanto e escândalo: a partilha nas mesas com pobres e pecadores. Para Ele, a mesa é para ser compartilhada com todos; a partilha do pão com publicanos e pecadores fazia parte das práticas transgressoras de Jesus.

Comendo e bebendo com todos os excluídos, Jesus estava transgredindo e desafiando as formalidades do comportamento social e das regras que estabeleciam a desigualdade, a divisão, a separação...

Jesus revelava uma grande liberdade ao transitar por diferentes mesas; mesas escandalosas que o fazi-

am próximo dos pecadores, pobres e excluídos. Ele não só transitou por outras mesas, mas instituiu a grande mesa para a festa, a intimidade, a memória: a “mesa do Lava-pés e da Última Ceia”.

“Levanta-se da mesa”- “senta-se à mesa”: movimento de partida e de chegada; mesa que projeta para

                                                                   o serviço e mesa que faz memória festiva, mesa do encontro.

 

Porém, a aventura de “sentar-se à mesa”  requer uma troca de “senhor”.

Para Mateus, a troca de mesa só foi possível a partir da troca de “senhor”: deixou a mesa da dependência ao imperador romano e abriu espaço interior para a presença de Jesus e dos outros. Ele correu o risco de assumir a mesa da liberdade e da comunhão.

Mateus não tem mais mesa fixa (deixa de ficar sentado e põe-se em movimento). Tal como Jesus, ele é chamado a transitar por outras mesas (a mesa dos encontros, da criatividade, do novo, do diferente...)

 

Como seguidores de Jesus e impulsionados pelo seu Espírito, nós não temos mais mesas fixas; somos chamados a sair de nossas “mesas”  para participar de todas as mesas.

Todo ser humano tem a tendência a se esconder atrás de uma mesa: distancia dos outros, modos de viver fechados, idéias arcaicas, conservadorismo, mediocridade... Perigo da acomodação, da rotina, do permane-

cer sentado... No entanto a “mesa da vida” aponta noutra direção: da gratuidade, da alegria, da identificação, da amizade, do convívio, do amor e da comunhão.

A fidelidade ao seguimento de Jesus nos impulsiona a inventar constantemente, a deslocar-nos sem parar, a sairmos de nossos esquemas e práticas que nos protegem e nos paralisam...

Tal fidelidade consiste em colocar-nos no “passo” de Deus, dia-a-dia, com suficiente visão – fruto do discernimento – para ir adiante e com muita disponibilidade para mudar , de caminho e de mesa, quando o sopro do Espírito assim nos sugerir. “Quem for medroso ou tímido volte para trás” (Jz. 7,3)

Reacender o “chamado fundante” é permitir ser arrancado da mesa do imobilismo e da acomodação, para  peregrinar, criativamente, por entre as desafiantes e surpreendentes mesas da vida.

Cada um de nós experimenta como os fatos, acontecimentos, pessoas, experiências, etc... nos estimulam, nos provocam e nos incitam a deixar nossas se-

guranças, nossas mesas... e nos fazem peregrinos,  de cora-

ção pobre e livre, pisando descalço as “pegadas” do Mestre.

 

Precisamos “levantar-nos da mesa”  cotidianamente. Há sempre

um lar que nos espera, um ambiente carente, um serviço urgente.

Há pessoas que aguardam nossa presença compassiva e servidora,

nosso coração aberto, nossa acolhida e cuidado...

 

Na oração: - Dar nomes aos medos que o paralisam atrás da própria mesa.

                     -  Por quais mesas você tem transitado?

                     -  Quê mesa você tem proporcionado aos outros?  

 

EUCARISTIA: comer o pão e beber o vinho na dor de uma saudade

                      e na alegria de uma esperança

 

Sacramento é isto: sinal visível de uma ausência, símbolo que nos faz pensar em retôrno.

                     Como aconteceu com Jesus que, logo antes da partida, realizou um memorial de saudade e

                     espera. Juntou seus amigos, seguidores, partiu o pão e lhes deu de comer, tomou o vinho e

                     com eles bebeu dizendo que, depois daquilo viria a separação e a saudade.

                     Tempo de lágrimas, de espera... E por onde quer que fossem, encontrariam os sinais de

                     uma ausência imensa... E o coração ficaria inquieto, sem descanso...

Ninguém ceia sozinho. Há um partir, um distribuir, mãos que se tocam, olhares que se encontram.

E, em tudo isto, sensação como se fosse a de uma “conspiração”.

Conspiração, palavra bonita de origens esquecidas.

                   Conspirar, com-inspirar, respirar com alguém, juntos.

                   Conspiradores: respiram o mesmo ar. Jesus e os discípulos, comendo o Pão e be-

                   bendo o Vinho, respiram o mesmo ar, o mesmo sonho, a mesma utopia do Reino.

 

Come-se a ceia, surge a mágica, os fios invisíveis da saudade e da espera são lançados e, a partir dali, dão-se as mãos os homens e as mulheres que têm, nos olhos, aquela marca triste-alegre da saudade e da esperança. É assim a comunidade dos cristãos, a Igreja: juntos, conspirando, mãos dadas, comem o pão, bebem o vinho e sentem uma saudade/esperança sem fim...

Tomar o pão e o vinho da Eucaristia é falar sobre  uma grande promessa de AMOR que esteve entre nós, que partiu e cuja volta aguardamos.

Vem, Senhor Jesus”: oração dos cristãos primitivos, confissão de saudade, gemido de espera/esperança.

                                        É por isso que é bom falar sobre Ele: n’Ele se dependuram nossos desejos profundos.

                                         E Deus mora na saudade, ali onde o Amor e a ausência se assentam.

 

E a gente sabe que é coisa do Espírito as “coisas novas” que se começa a ver. Os olhos mudam. O coração também. E é porque o coração fica diferente que os olhos começam a ver “coisas” que ninguém mais vê. São invisíveis. Não é a carne e nem é o sangue. É mistério.

                                     “Eis que todas as coisas são refeitas. Ficam novas”.

Conhecemos o quadro da Última Ceia de Salvador Dali: o quarto alto, Jesus e os discípulos, o pão parti-

                                                                                             do, o vinho vermelho translúcido.

    O autor fez as paredes do Cenáculo, enormes, de vidro, como nunca foram na realidade, mas como o

    são na magia da saudade. E, da singeleza da Eucaristia, o olho vai mergulhando para fora, vendo o mar

    as praias, as montanhas, o mundo, o universo, tudo isto transfigurado por um abraço de um corpo

    humano/divino enorme, braços abertos, acolhendo a cena toda...

                                    Como se Ele ficasse transparente e a gente passasse a ver o mundo

                                    inteiro através d’Ele. Sem transparência não há Eucaristia.

 

E são palavras que fazem a diferença. Por isto Jesus não deu só o Pão e o Vinho. Não bastava comer.

Era preciso VER, com olhos novos. Comer para ver melhor. E foi por isso que Ele realizou a mágica,

misturando, no alimento, as palavras de Amor e Promessa, para curar nossa cegueira. E diz então que o

alimento era outra coisa daquilo que parecia ser.

Pão e Vinho, Corpo e Sangue, aperitivos de um retôrno...

Pão e vinho: generosos, desejam ser destruídos, pois é na

sua destruição que ganham sentido.

O Pão deve ser consumido imediatamente e seu destino é

se transformar no corpo do outro e desaparecer.

Sem a magia das PALAVRAS viveríamos mergulhados num

mundo opaco de coisas, destituídas de transparência, sem

ver o invisível,sem memória de uma perda e sem saudade,

e sem a esperança que nasce da saudade... Uma saudade comum.

Este é o nosso sacramento: pão e vinho. Sentimos saudades juntos. Isto nos torna irmãos.

Comer é sempre coletivo pois vem de “cum edere”, alimentar-se com alguém.

 

Textos bíblicos:   Jo l3,l-l7     lCor ll,l7-34

 

ORAÇÃO SOB SUSPEITA

 

“Com quem fala aquele que pretende falar com Deus?”

 

O Pe. Luis Gançalves da Câmara, que privou da intimidade de S. Inácio, nos relata:

        “... nós o ouvimos dizer outras muitas vezes: que de cem pessoas muito dadas à oração, noventa seriam

        iludidas. E disto me recordo muito claramente, embora tenho dúvidas se dizia noventa e nove”.

S. Inácio tinha motivos para suspeitar da oração, especialmente das pessoas que se dedicavam a ela em excesso. Nesse sentido, S. Inácio foi um autêntico “mestre da suspeita”.

“Inácio sabe que a capacidade de auto-engano do homem é ilimitada.

Por isso, os Exercícios Espirituais se constituem numa hermenêutica da suspeita que vai ter por objeto as estratégias do engano no terreno da vida espiritual” (Dominguez Morano).

 

De fato, orar é uma atividade perigosa, sujeita a muitos extravios e auto-enganos.

É grande a possibilidade de se cair em alguma espécie de armadilha.

Rezar significa estabelecer uma relação com Alguém que jamais vimos, a Quem não podemos conceber senão por analogia e de Quem não obtemos respostas pelas vias normais da comunicação. Não é, pois, de se admirar que a oração seja uma atividade particularmente sujeita à ocorrência de desvios.

 

Além do mais, estranhamente, a prática da oração pode produzir efeitos inesperados. É desconcertante observar que muitas pessoas, na medida em que passam a ocupar mais tempo com a oração, tornam-se mais descomprometidas com a realidade circundante, mais alienadas, mais intolerantes com os outros e incrivelmente mais egoístas.

“... muitas pessoas, justamente à medida que se convertem em pessoas mais ‘espirituais’ e ‘ferverosas’ e mais tempo e energia dedicam à prática da oração, se transformam em pessoas intolerantes, fechadas, descomprometidas.

Outros se tornam incompreensivelmente acríticos e submissos.

Outros, enfim, parecem entrar num mundo nebuloso e distante, alheios ao mais elementar sentido comum e a uma realidade que os que ficam ‘aqui em baixo’ têm de afrontar de um modo mais conflitante e difícil, mas, provavelmente, também mais honesto” (Dominguez Morano).

 

Intolerância, fechamento e descompromisso; perda da capacidade crítica e adoção de uma atitude servil; distanciamento da realidade e alienação – é estranho que o hábito de encontrar-se com Deus possa produzir, em algumas pessoas, frutos dessa natureza.

É, pois, de se perguntar: - será mesmo com Deus – com o Deus revelado por Jesus de Nazaré – que

                                    se encontram estas pessoas?

                                  - Com quem fala aquele que se dirige a Deus na oração?

Ou ainda: - “...com quem realmente falamos quando pretendemos falar com Deus?

 

A oração facilmente pode converter-se num “refúgio narcisista”, num “diálogo com uma espécie de ou-

                tro eu idealizado”, mediante o qual se procura evitar o confronto com a realidade.

Na vida de oração, adverte Varillon, “... sempre se arrisca projetar diante de si um sósia, a quem se

                    chama Deus. Acredita-se estar diante de Deus e, na verdade, está-se diante de si próprio”.

Sendo assim: “Como poderemos estar seguros de que nossas ‘experiências de Deus’ são realmen-

                     te ‘de Deus’ e não ‘de nós mesmos’? Acaso não foram muitas as ocasiões em que

                     não pudemos evitar a suspeita de que não tínhamos sido senão nós mesmos os

                     únicos interlocutores de nossa oração”? (Dominguez Morano).

 

Nessa mesma linha, Nikos Karantzakis escreveu:

“Como podes estar certo de que era Deus quem te falava?

Quando rezamos, muitas vezes ouvimos a própria voz e julgamos que é a do Senhor.

Serias capaz de afirmar, com a mão no Evangelho, que em tuas orações consegues distinguir as tuas palavras das palavras divinas?”

A oração pretende-se um diálogo, um encontro, uma relação. Quem é, contudo, o “tu” da oração?

 

Todos sabemos que a relação do ser humano com Deus, o Outro, é condicionada pela sua relação com os outros; a imagem que as pessoas tem de Deus é gerada a partir de duas fontes fundamentais: as figuras materna e paterna. E esta imagem de Deus pode sofrer distorções conforme as vicissitudes das relações que cada indivíduo estabelece com seus pais, particularmente, na sua infância.

A) Conceber a imagem de Deus a partir do pólo materno da experiência religiosa significa aderir a um

 “Deus do prazer”.  A oração pode consistir numa tentativa de reproduzir uma relação infantil “...na qual o sujeito deseja fundir-se com um ‘Deus-mamãe’” (Dominguez Morano).

Na oração imatura, a pessoa faz de Deus um objeto de prazer, fazendo do encontro com Deus uma mera reprodução da primitiva relação com a mãe.

O prazer da fusão com o objeto do seu desejo é avidamente buscado. Além disso, ela exige uma presença ininterrupta do objeto do seu desejo e requer a permanência constante do prazer da união com o divino. Ela é incapaz de tolerar a ausência do outro, de suportar a falta do objeto, de assumir a distância e a condição de “ser separada”.

 

Na oração madura, ao contrário, a pessoa reconhece Deus como um Outro livre e independente, não co-                        

                                  mo um objeto para a satisfação do seu desejo.

Ela estabelece um vínculo amoroso com Deus, reconhecido como alteridade. O “eu” da pessoa e o ser de Deus não se fundem, mas permanecem distintos.

Ela aceita, com serenidade, as aparentes ausências de Deus e, por conseguinte, a inevitável alternância entre presença e ausência, consolação e desolação, palavra e silêncio, luz e trevas, companhia e solidão, plenitude e vazio, deleite e aridez, terra fértil e deserto.

Aceitar as ausências de Deus significa, por um lado, reconciliar-se com a própria condição de sujeito desejante e, de outra parte, renunciar a fazer de Deus o parceiro de uma relação de complementariedade.

 

Deus não é o objeto que o ser humano necessita para preencher a carência presente no seu coração. Deus não é o complemento exato da nossa necessidade e da nossa falta.

Conceber Deus como algo necessário é fazer de Deus um objeto de consumo – e de destruição, portanto.

Deus não é objeto conatural da procura humana. É uma ilusão esperar que Ele venha preencher a carência ou remediar o desamparo constitutivo da nossa condição. Mais do que isso, renunciar a essa ilusão é a condição necessária para que um autêntico encontro com Deus possa acontecer.

Para que haja encontro e relação com um Outro como um Outro livre e diferente de nós mesmos, é preciso reconhecer e assumir: a nossa condição de seres separados, a ausência do objeto do nosso desejo, a irremediável carência que há no nosso coração, a irreparável falta que nos caracteriza, a nossa condição de seres incompletos e a solidão fundamental que nos constitui.

              O encontro e a relação com Deus como Outro – um Outro livre e diferente de nós mesmos –

              só são possíveis desde que se renuncie a pretender fazer dele o objeto que satisfaz o nosso desejo.

 

B) Quando se concebe a imagem de Deus predominante ou exclusivamente a partir do pólo paterno, De-

 us passa a ter, para o crente, um caráter essencialmente super-egóico.

 “Poderia ter a ilusão de amar a Deus, amando na realidade o meu super-ego...” (Paoli).

 A oração será, nesse caso, um diálogo com o próprio super-ego.

Trata-se da “oração do imperativo paterno”, na qual o sujeito que reza dirige-se não ao Deus de Jesus de Nazaré, mas ao pai que propõe um ideal a ser alcançado e exige a observância de uma série de normas.

Tal oração é caracterizada por uma profunda ambivalência: Deus é, ao mesmo tempo, amado porque protege, e odiado, porque proíbe e castiga.

O sujeito faz de Deus um pai que proíbe e que exige obediência. Deus é imaginado como um juiz severo e punitivo, e o indivíduo estabelece uma relação de caráter sadomasoquista com Ele.

A oração, por conseguinte, passa a gravitar em torno de temas como o exame de consciência, o arrependimento, os sentimentos de culpa, a disposição de observar fielmente os mandamentos e os propósitos de emenda. O indivíduo não dialoga com Deus, mas se confronta com as tábuas da Lei.

Trata-se de uma forma de oração que leva a um fechamento do sujeito em si mesmo.

 

Uma série de sintomas decorre desse estado de coisas: a redução da experiência religiosa à observância farisaica

de normas, preceitos e mandamentos; a busca obstinada da perfeição pessoal baseada no esforço próprio; a insatisfação crônica consigo mesmo; as permanentes crises de consciência; os sentimentos de culpa; a compulsão de confessar-se; a sistemática negação de si próprio; o receio diante de toda forma de prazer; o desprezo do corpo; o gosto mórbido pelas penitências e mortificações; a exaltação da dor como via de santificação; a ascese desmedida; a sacralização do sofrimento; a intolerância com os demais; a prontidão para censurar as pessoas; o predomínio, na relação com os outros, do senso de justiça sobre o de caridade, etc...

Em suma: o farisaísmo, o legalismo, o moralismo, o rigorismo, o perfeccionismo, o voluntarismo, a culpabili-

                    dade, a escrupulosidade, o puritanismo, o masoquismo, o dolorismo e a intolerância – eis alguns si-

                    nais de que o “tu” com quem se fala na oração não é Deus, mas o próprio super-ego.

A “LOUCURA” da CRUZ e a “GLÓRIA DE DEUS”

 

“Quero e elejo... desejar mais ser estimado por vão e louco por Cristo,

que primeiro foi tido por tal” (EE. 167)

 

O processo interior desta fase:

Os EE. criam um processo interior. Se o retirante na 2ª Semana entrou em comunhão de destino (pessoa + valores) com Cristo é de se esperar que seja, como Jesus, rejeitado e perseguido.

Jesus sofreu exteriormente, mas sobretudo interiormente: angústia, abandono e obscuridade espiritual.

A 3ª Semana ajuda a aprofundar-se no amor “desegoistizado”.

O processo interior tem como objetivo: - sancionar a Eleição;

                                                                     - sofrer e morrer com Cristo. Consequência da fidelidade absoluta

                                                                       à escolha. O sofrimento de Jesus é consequência da fideli-

                                                                       dade absoluta à escolha e ao caminho que Ele decidiu percorrer.

                                                                     - retomada das principais meditações e contemplações já vivencia-

                                                                       das durante o percurso dos Exercícios; aprofundá-las sob nova ótica

A forma de oração, nesta fase, é a contemplação. Pela contemplação o exercitante se identifica com Cristo e se coloca até no seu lugar, participando até da sua Paixão. A “loucura”  da Cruz segue-se a “glória” de Deus, e pela glória de Deus abraça-se a Cruz. “Só este incompreensível aniquilamento de uma

                                        Pessoa divina na Cruz pode convencer ao homem do louco Amor que Deus lhe tem”

Este “amor louco”, que altera toda a sabedoria e toda a esperança é o que abriu o caminho de Jesus – um

                               caminho tão insensato e escandaloso que choca a todos, judeus e pagãos. A conclusão

                               que S. Paulo tira é que, para chegar a ser sábio, é preciso estar “louco” por Cristo.

 

Os EE. situam esta “loucura” por Cristo no centro da “glória” de Deus.

S. Inácio não opõe a loucura da Cruz à glória de Deus, como se uma excluisse a outra. Não há um Evan-gelho da Glória de Deus e outro da Cruz. Só há um grito pascal: Com sua morte venceu a morte!”

No pensamento de S. João, a hora da Cruz é igualmente a hora da Glória de Deus (Jo. 17,1).

Na hora do abandono – na hora da entrega do Espírito – revela-se a loucura do Amor de Deus por nós:

             “Ninguém tem maior Amor do que aquele que dá a Vida por seus amigos” (Jo 15).

 

No exercício do Reino (EE. 95), S. Inácio considera a obra e missão de Cristo, ainda em marcha, como a entrada da humanidade inteira na glória do Pai seguindo primeiro a Cristo no caminho da Cruz:

          “Passando por todas as injúrias e todas as humilhações e toda pobreza, assim atual como espiritual”

Cumprir a missão de Cristo é assumir o Evangelho da Cruz, que consiste primordialmente em fazer da vida uma entrega contínua de si mesmo para que a glória do Pai resplandeça nas vidas de nossos irmãos.

A Glória do Pai é a que dá forma e expressão concreta à nossa missão de “levar a Cruz”.

                        A glória é a debilidade invencível de Deus em seu amor.

                         A glória é a Vida de Deus que se dá, que se entrega no Amor” (P. Kolvenbach).

 

“A MAIOR GLÓRIA DE DEUS”, a grande paixão de S. Inácio, consiste em “ser posto com o Filho”, e o

                                                     Filho com a Cruz às costas (Aut. 96).

É na experiência mística de La Storta que devemos buscar a verdadeira chave da Cristologia inaciana, ou

seja, Deus Pai entrega Inácio a seu Filho com a Cruz, tornando-o assim “companheiro de Cristo crucifi- cado”.   Seguir a Jesus Cristo Crucificado é a prática efetiva da “mística do SERVIÇO”.

 

CRUZ é sinal de fidelidade: não é estranho que S. Inácio e seus companheiros desconfiassem de suas

                                                    atividades apostólicas se não suscitavam oposição, assombro, inclusive perseguição. Mestre Francisco Xavier se queixa de que não haja perseguição (em Portugal), mas se consola pensando que as terá na Índia, “porque viver muito tempo sem elas não é militar fielmente”.

 

Na oração: o drama da Paixão é um único e profundo colóquio entre o Pai e o Filho. O exercitante

                    é chamado a entrar nesse colóquio e assim penetrar mais profundamente no mistério

                    do Amor redentor das Pessoas divinas.

 

Textos bíblicos:    1) 1Cor 1,17-31           2) 2Cor 11,16-31         3) Rom 5,1-11     4) Rom 8,31-39

                                  5) Fil 2,5-11                6) 1Pd 4,12-19             7) Col 1,24-29

 

 

 

A CORAGEM DE "TIRAR O MANTO"  (Jo. 13,1-17


"Durante a Ceia... Jesus se levantou da mesa, tirou o manto... e começou a lavar os pés dos discípulos".

Consciente de estar realizando o Projeto de Deus, Jesus mostra corno esse projeto se traduz em ações concretas que serão o "modo de proceder"'ou o "estilo de vida"'da comunidade dos seus seguidores: "despoja-se do manto" (sinal de dignidade do "senhor") e pega o avental (toalha, "ferramenta" do servo). É o Senhor que se torna "servo" (cf. Fl. 2,6-7).

Jesus está no meio dos homens como Aquele que serve. Jesus confirma ser Mestre e Senhor depois que realizou o ato que simbolizava e condensava toda a sua missão, identificando-se com o Servo de Deus: Ele veio para servir e não ser servido.

"Despojar-se do manto" significa "dar a vida"sob a forma de serviço.

Jesus coloca toda a sua pessoa aos pés dos seus discípulos. O Criador põe-se aos pés da criatura para

revelar como ela é amada e como deve amar.

Mais adiante, ao retomar o manto, não se diz que Ele tenha deposto o avental. Dá-se a entender que Ele

tenha vestido o manto por cima. Isso significa que seu serviço continuará, culminando na Cruz.

Jesus retoma o manto e se põe de novo à mesa, ou seja, volta à posição de homem livre (os servos não se

sentavam à mesa), mas conserva a disposição de servo (não tira o avental).

A cena é fortemente simbólica: Ele continua sendo sempre aquele que serve.

De fato, Jesus só é despojado do avental na Cruz, pois é aí que Ele conclui seu serviço.

O "lava-pés" de Jesus, portanto, se prolonga até a Cruz, e nela tem seu ponto culminante.

"Tal Cristo, tal cristão": na vivência do serviço evangélico, somos chamados a vestir o "avental de

Jesus". "Vestir o coração"com o avental da simplicidade, da ternura acolhedora, da escuta comprometida, da presença atenciosa, do serviço desinteressado...

 

Na cena do "lava-pés" três gestos de Jesus revelam três atitudes do cristão: "levantou-se da mesa...", "tirou o manto" e "sentou-se à mesa". O que é "tirar o manto?" Para nós o "manto" poderia ser nossa máscara, nossa redoma, nossa capa de proteção que nos distancia dos outros...; é tudo aquilo que impede a agilidade e a prontidão no serviço... "Tirar o manto"é a atitude firme de quem se dispõe a "arrancar" tudo o que possa ser empecilho para melhor servir; é mover-se, despojado, em direção ao outro; é optar pela solidariedade e a partilha; é renovar a vontade de "incluir" o outro no nosso projeto de vida.

Precisamos "levantar-nos da mesa" cotidianamente. Há sempre um lar que nos espera, um ambiente carente, um serviço urgente. Há pessoas que aguardam nossa presença compassiva e servidora, nosso coração aberto, nossa acolhida e cuidado...

Ora, se não nos livrarmos do manto, tomar-se-á difícil realizar gestos ousados, criativos... Sempre teremos  "pés" para lavar, mãos estendidas para acolher, irmãos que nos esperam, situações delicadas a serem enfrentadas com coragem...

Sempre teremos, também, a    necessidade  de nos   "sentar à mesa" para renovarmos  as  forças  e redobrarmos a coragem de nos levantar e, na humildade, sem manto, servir com amor, do jeito de Jesus. "Levantar-nos da mesa" - "sentar-nos à mesa": movimento de partida e de chegada; prolongamento

do gesto provocativo e escandaloso de Jesus.

Na oração; Seja você alguém que, na admiração da gratidão, se aproxima deste gesto ousado de Jesus (tirar o manto e vestir o avental), a fim de purificar sentimentos, endireitar caminhos e aprofundar a caminhada na convivência com os irmãos.

A sua identificação com Jesus lhe confere um novo modo de ver, avaliar, escolher e posicionar. É a contemplação, a postura mais envolvente, que lhe pode fazer enxergar o milagre; e, sensibilizado, abrir-se-á à dimensão do maior serviço, por pura gratuidade.

 

REGRAS PARA ORDENAR-SE DORAVANTE NO COMER (EE. 210-217)

 

Regras de TEMPERANÇA

 

No fim da 3ª Semana dos Exercícios, S. Inácio propõe as suas Regras de temperança.

A razão pela qual ele as colocou neste contexto é discutida:

                     - Por causa da Última Ceia?

              - Pelo espírito de mortificação da 3ª Semana?

 

Os Exercícios Espirituais visam o despojar-se de toda afeição desordenada. Estas podem ser:

      a) Afeições desordenadas sobre um objeto que se pode deixar. Isto tem a ver com a 1ª e 2ª Se-

          manas (Eleição).

      b) Afeições desordenadas sobre um objeto que não se pode deixar mas que se pode  regrar o

          seu uso pela temperança e/ou autodisciplina.

          Essas afeições podem ser sobre diversas coisas. S. Inácio coloca aqui um exemplo sobre duas

          coisas: o comer e o beber que acontecem todos os dias.

 

À luz da Eleição, as regras da Temperança tornam o exercitante capaz de ordenar a sua vida a Deus, reconhecendo que com freqüência essa ordenação há de exigir a renúncia dos apetites desordenados.

Essas Regras são um modelo para se ordenar a Deus em todos os detalhes da própria vida.

                      Os princípios dados nessas regras podem ajudar a pessoa a ordenar para Deus “coisas” tais co-

                      mo o uso do tempo, bebida, diversão, sono...

                      A temperança toca aquilo que é supérfluo, o excesso...

                      O supérfluo torna-se causa de desordem.

 

As Regras da Temperança são uma aplicação concreta e prática do Princípio e Fundamento na orde-

                                              nação das ações cotidianas a Deus.

Os três elementos da antropologia inaciana que mais interessam para a reflexão sobre as Regras na alimentação, estão agrupados no número 21 dos Exercícios:

                                     - idéia de autodomínio ( “vencer a si mesmo”)

                                    - idéia de ordem (“ordenar sua vida”)

                                    - idéia de liberdade (“sem determinar-se por afeição”).

A articulação destas 3 idéias projeta a visão inaciana do ser humano ou o seu ideal de humanidade.

A antropologia de S. Inácio encontra a sua ponta de diamante na idéia de liberdade como disposição total da vida para Deus. Com efeito, esta idéia unifica as idéias de ordem e de auto-domínio, elevando-as ao plano propriamente teológico onde a liberdade é a “necessidade do amor” (“ordo amoris”).

 

Sob a idéia de liberdade, a temperança é a expressão de um modo de ser e proceder diante dos bens criados; ela se apresenta como a atualização permanente de uma Eleição na qual a liberdade se engajou totalmente.

Neste sentido, as Regras da Temperança são a pauta pela qual se regerá doravante uma vida que foi purificada na 1ª Semana, iluminada e ordenada, disposta e recebida sob a Bandeira de Cristo na 2ª Semana, e na 3ª e 4ª Semanas, unificada e configurada à nova imagem de Deus que resplandece na face de Jesus Cristo.

 

Através dos Exercícios, S. Inácio quer conduzir o exercitante a uma Eleição que oriente definitivamente

                                   toda a sua vida na direção “do modelo e regra que é Cristo nosso Senhor” (EE. 344).

                                   S. Inácio quer que o exercitante se disponha, esteja disposto a ser recebido num

                                   modo de vida no qual ele queira sempre e somente querer ou não querer “segundo o

                                   que Deus nosso Senhor lhe porá na vontade” (EE. 155).

 

              “Porque pense cada um que tanto mais aproveitará em todas as coisas espirituais, quanto mais sair

               do seu próprio amor, querer e interesse” (EE. 189).

É na seqüência lógica imediata desta regra fundamental, apresentada no último documento da 2ª Semana, que se situa o 1º documento da 3ª Semana: “Regras para ordenar-se doravante no comer”.

Eis porque são regras para doravante”.

 

S. Inácio deixou-as como um dos instrumentos teológicos de “cristificação” de toda a vida, que consiste

em “oferecer e dar à divina majestade... todas as minhas coisas e a mim mesmo com elas, assim como quem

       oferece afetando-se muito” (EE.234).

É na humanidade de Cristo que encontramos plenamente realizada a vitória sobre si mesmo, a vida perfeitamente ordenada e livremente disposta para buscar e achar a Vontade divina em todas as coisas.

 

A contemplação da PAIXÃO de Jesus proporciona poderosa motivação para a prática da necessária “abnegação de si mesmo”.

Os pontos 4º, 5º e 6º do primeiro exercício da 3ª Semana (EE. 195-197) oferecem a perspectiva a partir

                               da qual o exercitante deve contemplar a Paixão: é do ponto de vista da HUMANIDADE

                               que os “mistérios” devem ser considerados.

                               É esta expressão ( “a humanidade de Cristo”) que dá o clima da 3ª Semana.

 

Com efeito, quando a “divindade se esconde”, não resta senão o homem entregue a si mesmo.

Jesus, na Paixão não se apresenta como a imagem do Deus invisível “ (Col. 1,15), mas destruído, com

                                                               uma aparência que não é mais de um homem...” (Is. 52,13).

No Cristo esvaziado da sua natureza divina e desfigurado na sua natureza humana, podemos contemplar a mais perfeita realização do ideal de humanidade.

Com efeito, a contemplação da humanidade de Cristo crucificado atualiza ante nossos olhos a mais perfeita ordenação de uma vida, o mais completo senhorio de si, a mais livre e mais total disposição de uma vida para Deus.

No Cristo crucificado a humanidade está de novo ordenada para Deus; pode novamente dispor livre-

                                     mente de si e ser recebida por Ele.

 

“Ser senhor de si” não é fundamentar-se em si mesmo, mas viver numa relação livre e desapegada para

                               com as coisas.

                               O alimento é dom de Deus a receber; se ele leva a marca do dom, ele convida à partilha. Dentre “todos os bens que descem do alto...” o alimento é aquele diante do 

                                qual, mesmo a vida mais retamente ordenada está sempre em desvantagem.

                               A ação de comer não é somente um ato biológico, senão um ato social e portanto

                                                            um ato espiritual. Ter Cristo e seus apóstolos como modelos de

                                                            nossas relações sociais. O ato de comer de Jesus revela o seu “ser

                                                            humano” nos comportamentos mais cotidianos.

                                                           

O ser humano, a quem Deus constituiu senhor da criação, dando-lhe como alimento as criaturas do céu e da terra (Gen 1,29-31), está sempre na “dependência” das criaturas para continuar vivendo para Deus.

Este é também o momento em que ele mais precisa se dispor e se ajudar para ouvir a linguagem divina e para conhecer os próprios limites, em vista da harmonia e da “ordem” interior.

           A relação com a comida é simbólica da relação com as outras coisas e a ordem ou desordem que alguém

           manifesta no comer é simbólica da ordem ou desordem que alguém pode ter na  ordem afetiva.

 

Toda a comunidade cristã é comunidade de fé que se nutre da centralidade de Jesus Cristo.

O critério é não ir comer o pão fora da comunidade.

          As Regras da temperança nos ajudam a evangelizar os sentidos.

          O olhar de Jesus que equilibra, harmoniza...

          Sentir sobre si mesmo um olhar de equilíbrio ajuda a equilibrar os afetos.

 

Qualquer que seja a fonte inspiradora dessas Regras, o fato é que o tema da temperança,  do domínio de si mesmo em relação à comida, à bebida, ao sono, numa palavra, à concupiscência, constitui um tema tradicional na espiritualidade cristã desde as origens.

          Os critérios de discernimento são a temperança, compreendida como a virtude do “justo meio”

           entre o excesso e a falta, e a penitência, como disposição humana para colaborar com a graça.

 

 

 

CAMINHO DA CRUZ CAMINHO DO SIM

 

“Deformitas Christi te format” (O Cristo desfigurado te configura) S. Agostinho

 

O processo de con-viver com Jesus para mais amá-lo e seguí-lo nos vai conduzindo também a aprender a con-morrer com Ele. Trata-se de uma experiência com Jesus Cristo que levou até às últimas conseqüências a opção pelo Reino. É o momento de confirmar nossas opções com o selo da autenticidade.

 

dois aspectos na Paixão de Jesus Cristo:

         - um externo, que todos podemos contemplar e ver: a paixão corporal;

         - um íntimo, ao qual não temos facilmente acesso a não ser por uma fé humilde, penetrada de

           respeito e amor: a paixão do coração de Jesus.

           É esta que devemos aprofundar. As considerações particulares tem por objetivo nos orientar

           para as profundidades íntimas e misteriosas da Paixão.

 

A vida de Jesus é toda orientada para a Cruz; os relatos evangélicos não são mais do que “histórias da pai-

                                                                        xão com uma introdução pormenorizada”.

Toda a vida de Jesus foi Cruz e Martírio. Sua morte não é uma morte serena; não apresenta traços de arrogância heróica, nem de passiva aceitação do destino, tampouco de fanático entusiasmo. É a morte de um homem que foi humilhado até o máximo. É a reação mais violenta contra o Reino de Deus.

 

Jesus não viveu para a CRUZ.

Se a cruz é de tal modo exaltada que a vida e a ação de Jesus acabam sendo reduzidas a ela, então acontece que ela passa a ser angustiante e aflitiva, incapaz de convidar ao seguimento ou de acender a esperança. Convém vê-la como o que realmente foi: um episódio que nasce de sua vida plena e transbordante, de sua liberdade tão soberana que o fez capaz de enfrentar a própria morte, mostrando justamente o valor, a coerência e a plenitude de sua Vida.

A Cruz não foi um acontecimento que chegou a Jesus de repente. Sua vida foi um lento aprendizado da

morte. Fazia tempo que Ele vinha carregando sua cruz; estava familiarizado com ela. A cruz ensina a “desgastar-se”, a “consumir-se” no serviço do Reino e não a prolongar uma vida egoísta.

 

A Cruz, o sofrimento, considerados em si mesmos, não são salvadores.

A Paixão e a Cruz de Jesus separadas da sua Vida e da sua Ressurreição, não tem caráter salvador.

A Cruz de Jesus Cristo tem sentido salvífico na medida em que resume, concentra, radicaliza, condensa o significado de uma vida entregue ao Pai e ao serviço aos irmãos.

É a qualidade de vida vivida por Jesus, incluindo sua Morte e Ressurreição que é salvadora.

O sangue derramado, a paixão e morte de Cruz tem sentido salvífico, sim, mas porque são a expressão mais potente, a radicalização máxima de uma vida gasta a cada minuto no amor-serviço.

A Cruz é sinal do cristão, porque expressa com toda radicalidade a entrega de Jesus. A entrega vivida cada momento da sua vida culmina na entrega final da própria vida, na morte.

 

O anúncio da sabedoria da Cruz faz parte fundamental da fé cristã.

Mas não se trata de uma Cruz pela Cruz, do sofrimento pelo sofrimento.

O que torna valiosa a Cruz é a qualidade de vida de Jesus, que culmina na Cruz, mas é vivida no dia-a-dia, durante toda a sua existência.

 

A contemplação do Crucificado que S. Inácio nos propõe na 3ª Semana nos impulsiona, nos capacita radicalmente e nos dá a chave para “olhar” os crucificados de nosso mundo, os excluídos de nossa sociedade. Trata-se de descobrir em cada um de seus rostos o rosto de Deus que se humanizou neles, que se fez tão solidário com eles, que morre neles...

 

 

2ª contemplação: “Da Ceia ao Horto”  (EE. 200-203)

Jesus está no Getsêmani, no fim de seu caminho, no momento em que lhe é apresentada a conseqüência extrema de sua escolha de amor. Jesus sente uma necessidade imensa de proximidade amiga: “Ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26,38). Mas é deixado sozinho, tremendamente sozinho diante do seu futuro, como acontece nas escolhas fundamentais do homem:  “Não fostes capazes de vigiar comigo por uma hora!” (Mt 26,40).

 

 

Ele é colocado, mais uma vez, da maneira mais violenta, diante da  alternativa radical:

                         salvar a própria vida ou perdê-la, escolher entre a própria vontade e a Vontade do Pai.

                                 “Abbá, Pai! Tudo te é possível, afasta de mim este cálice” (Mc 14,36).

No momento em que confirma o sim de sua liberdade radical, agarra-se totalmente ao Pai e o chama com o nome que revela a sua confiança e ternura: “Abbá! Não é o que eu quero, mas o que tu queres” (Mc. 14,36).

O sim de Jesus brota do Amor sem reservas; na hora suprema Ele escolhe de novo o dom de si, coloca-se nas mãos do Pai com uma confiança infinita e vive a sua liberdade como libertação, liberdade de si mesmo para o Pai e para os outros.

 

É a liberdade de quem encontra a própria vida perdendo-a, a capacidade de arriscar tudo por amor, a audácia de quem entrega tudo.

     No Evangelho de Marcos, a Paixão de Jesus não é uma simples seqüência de fatos, mas um con-

     fronto entre pessoas. Os diversos personagens entram em contato direto com Jesus, reagindo ca-

     da um a seu modo, vivendo cada qual o mistério do próprio chamado e da própria tomada de po-

     sição frente a proposta de Jesus.

 

Contemplar toda a galeria de pessoas que entra em contato com Jesus. Cada qual com uma resposta di-

                     ferente, diante de Jesus sempre igual em sua atitude de disponibilidade e de entrega.

                     Todos giram em tôrno d’Ele como um dramático carrossel e Ele, com seu silêncio, domina tudo.

                     Contemplamos as pessoas que se agitam, que fazem e dizem uma coisa e outra e Jesus que, com

                     sua presença silenciosa, está no centro, dominador de toda uma situação caótica e convulsiva.

                     Com seu simples “estar aí”, Jesus não fala, Jesus não julga; são as pessoas que são julgadas.

                                                                   Sua presença é provocativa.

 

Textos bíblicos:    1) Mc 14,27-31        2) Mc 14,32-42           3) Mc 14,43-52          4) Mc 14,53-65

                                  5) Mc 14,66-72        6) Mc 15,1-15             7) Mc 15,16-20

 

 

 

NO MISTÉRIO DA PAIXÃO DO FILHO SE MANIFESTOU

A COMPAIXÃO DE DEUS-PAI

 

“Se quisermos saber quem é Deus, deveremos ajoelhar-nos ao pé da Cruz” (Moltmann)

 

Com os exercícios da 2ª Semana S. Inácio pretende que o exercitante “eleja” Cristo como seu único Senhor; mas ele quer que o mesmo exercitante não seja movido só pela boa vontade e bons desejos, mas que seu impulso em seguir Jesus seja lúcido e realista; quer que eleja de verdade o caminho de Jesus e este caminho escolhido implica a Cruz.

            Por isso, na 3ª Semana, a expressão “seguir a Cristo” se acha qualificada com palavras como “na

                                                  pobreza” ou “com a Cruz”.

                                                  A contemplação muda de registro: já não se trata unicamente de contemplar

                                                  para “conhecer e amar” ou para descobrir as exigências concretas de nosso se-

                                                  guimento concreto e atual do Senhor (Eleição).

                                                  Trata-se de “entrar” em comunhão na ação de Jesus: Paixão.

                                                  Uma comunhão que já não é unicamente conhecimento que escuta, mas ato e

                                                  participação.

                                                  Um ato de participação numa ação, que nos inclui e que nos ultrapassa, arras-

                                                  tando-nos em seu próprio dinamismo.

                                                  Trata-se de ser consentido, ser “posto”  com o Filho com a Cruz às costas.

                                                  União de nossa comunhão-participação (consentimento numa ação). Aqui se

                                                  situa a verdadeira esperança cristã,  marcada pela fecundidade divina.

                                                                 “Se o grão de trigo não morre...

 

É intenção de S. Inácio nesta 3ª Semana nos conduzir à intimidade e comunhão com Jesus Cristo através da porta da dor para chegar a sentir como próprios Seus sentimentos e chegar à identificação com Ele.

      “A dor é o aglutinante mais perfeito”, já que nos sentimos espontaneamente mais unidos com a dor

                                                                 de outra pessoa.

      “Considerar o que Cristo Nosso Senhor sofre ou quer sofrer em sua humanidade” (EE. 195): na Paixão

                         contempla-se uma natureza humana de Cristo muito mais semelhante à nossa que nas

                         horas da vida pública.

                         Ele é visto aqui como um homem que sente medo, angústia, que sofre.

                         É muito mais fácil identificar-se com alguém de reações tão similares a nós.

      “Considerarei que padece tudo isto por meus pecados” (EE. 197). Quando vemos que outra pessoa so-

                    fre por  nós, muito mais facilmente nos apropriamos de seus sentimentos de dor e angústia...

 

Por isso, a oração apropriada à Paixão é de simples presença.

             O Verbo encarnado é Palavra silenciosa e silenciada na Paixão.

              O exercitante que contempla é também reduzido ao silêncio, só podendo adorar, conside-

              rar, compadecer e participar.

              A oração deve agora tornar-se mais passiva, sendo mais um deter-se nos sentimentos pro-

              vocados pelas cenas, tais como a compaixão, o assombro, a tristeza, o amor.

 

O “mistério” oculto nas trevas da Cruz é o mistério da dor de Deus e de seu Amor.

                       Um aspecto exige outro: o Deus cristão sofre porque ama, e ama  enquanto sofre.

                       A dor revela o Amor: o abismo da dor revela a perfeição do Amor.

                       A Cruz justifica a audácia de se pronunciar a expressão escandalosa: “DEUS SOFRE”.

                   

A dor é o subsolo do qual brota a esperança.

O sofrimento não se anula nem se nega, mas está sempre controlado pela esperança.

A esperança que brota do sofrimento possibilita um “perene nascer do coração”.

Na Paixão, cremos que é a dor de um homem que espera, apesar de tudo, e que se abre à dor de todos, encontrando na solidariedade e na dor dos outros, razões para relativizar sua própria dor.

Jesus foi realmente o homem solidário com a dor dos homens para contagiar a todos com sua esperança de vida plena e definitiva. Jesus faz sua a dor de todos e redescobre o ser humano à luz da esperança.

 

 

O Deus crucificado torna o ser humano capaz de um sofrimento ativo, de um sofrimento vivido na co-

                                  munhão com todos os desolados da terra.

                                  O Deus cristão é Aquele que faz de todo sofrimento, até o mais humilde e oculto,

                                  um poderoso meio de Redenção, recuperando assim o valor de todas as vidas, mes-

                                  mo aquelas consideradas “inúteis”  aos olhos do mundo.

 

O sofrimento de Cristo é expressão do sofrimento de Deus. Seu sofrimento expressa de maneira penetrante o Amor do Pai. Ele nos fala daquilo que Deus sente por nós.

       A KÉNOSIS de Cristo nos ensina a encontrar Deus nos lugares onde a vida se acha impedida;

                             Deus “desceu” às zonas mais escuras da humanidade – sofrimentos, fracassos, amarguras,

                             pecados... – para sentir como Seu nosso sofrimento e ali falar ao nosso coração.

 

A CRUZ é o lugar por excelência da revelação de Deus.

No mistério da Paixão encontramos a onipotência de um Deus que desceu e chegou até o extremo  da debilidade para manifestar a onipotência de seu Amor.

        “Assim, pois, se Deus sofre, é por seu excesso de AMOR desde o princípio, por ser fiel a seu AMOR por

         nós, ainda quando dito AMOR signifique as dores de seu único Filho” (P. Kolvenbach).

        “Deus não sofre no sentido da criatura finita, mas nem por isso é incapaz de sofrer em todos os aspectos:

         Deus é capaz de sofrer porque é capaz de amar. Sua essência é a MISERICÓRDIA” (Moltmann).

 

O Amor torna o próprio Deus vulnerável e passível de um sofrimento livre, ativo, fecundo.

Se Deus fosse impassível (incapaz de sofrer) seria também incapaz de amar.

A situação de Deus com respeito ao sofrimento é diferente da nossa.

Deus não está submetido ao sofrimento: um Deus submetido por necessidade ao sofrimento seria incapaz de libertar-nos dele. A diferença entre o sofrimento de Deus e o dos homens se encontra na liberdade com que Deus se submete ao sofrimento.

                         “Deus, o imutável em si mesmo, se faz mutável no outro” (K. Rahner).

Deus se fez mutável na humanidade de Jesus.

É todo seu ser divino que assume em si todo o nosso ser: Deus mesmo em sua plenitude é plenamente solidário do ser humano.

E se a plenitude implica felicidade, concluímos que Deus é sensível a nosso sofrimento a partir da plenitude de sua própria felicidade.

“Ele desceu à terra por compaixão com o gênero humano, padeceu nossos sofrimentos antes de ter sofrido a Cruz, antes de ter-se dignado assumir nossa carne.

Porque, se não tivesse sofrido, não teria descido para partilhar da vida humana conosco.

Primeiro sofreu, e depois desceu e se manifestou.

Mas, que Paixão é essa que padeceu por nós? É a Paixão do Amor.

O próprio Pai, Deus do universo, cheio de indulgência, de misericórdia e de piedade, não sofre também de alguma maneira? Ou ignoras que na sua providência para com os homens Ele sofre a paixão dos homens?

O próprio Pai não é impassível. Quando nos dirigimos a Ele na oração, tem misericórdia e con-doer-se, experimenta algo da paixão da caridade” (Orígenes).

 

Na oração: o exercitante se oferece com Jesus; entra num processo de entrega da própria vida,

                    unida a de Jesus.

                    Contemplar afetivamente a ação de Jesus na Paixão, é aceitar formar parte nela, agora

                    e na vida, pela via de integração e participação.

 

Textos bíblicos:    1) Lc 23,1-12             2) Lc 23,13-25              3) Lc 23,26-32       4) Lc 23,33-38

                                   5) Lc 23,39-43          6) Lc 23,44-49               7) Lc 23,50-56

 

 

 

As normas de S. Inácio sobre ESCRÚPULOS (EE. 345-351)

 

A palavra latina “scrupulus”  é um substantivo que significa pedrinha.

Se aparece uma no sapato e é aguda, pode causar dor cada vez maior. Este sentido passou para o nível de uma consciência delicada: quanto mais delicada ela for, mais se agita com um pensamento sem consis-

                                             tência e mais  se perturba por qualquer ninharia. E isto pode produzir dor.

Pessoas que tentam caminhar no caminho da santidade são acometidas de escrúpulos, porque desenvolvem uma consciência sempre mais delicada e sensível a pequenas faltas.

A extrema sensibilidade é levada a exagerar o medo de pecar e a ver pecado em atos moralmente insignificantes, trazendo angústia e desespero.

“O escrúpulo marca a entrada da consciência em sua própria patologia; a pessoa escrupulosa fecha-se em inextrincável labirinto de normas; a obrigação assume caráter enumerativo e cumulativo que contrasta com a simplicidade de amar a Deus e aos outros. A consciência não cessa de acrescentar novas leis (Paul Ricoeur).

 

A escrupulosidade  está essencialmente ligada ao legalismo farisaico.

A consciência torna-se escrupulosa porque se propõe alcançar a perfeição através do cumprimento minucioso da lei. Pensa conseguir a justiça salvífica pelo próprio esforço em ser fiel à lei.

         Lança-se num esforço enorme de corresponder à lei e nunca consegue.

         A busca da justiça pelo perfeccionismo é sem fim e a lei transforma esta busca em sempre maior distância.

         A busca incessante da perfeição pela lei gera o fenômeno da escrupulosidade. A lei exibe e manifesta o

         pecado, mas não consegue justificar.  Este é o labirinto em que se mete a consciência escrupulosa.

         A grande descoberta de S. Paulo é que a lei é fonte de pecado, porque faz confiar nas próprias forças.

         Cristo nos libertou do regime da lei e nos transportou para o regime da graça, que é a única que nos pode

         justificar diante do pecado.

 

Os escrúpulos são típicos de uma pessoa perfeccionista. É a espiral perfeccionista que gera os escrúpulos. O legalismo fornece os meios para o perfeccionista. Este, como nunca consegue cumprir perfeitamente a lei, enreda-se no labirinto da culpa que gera a escrupulosidade.

                                     Deus nos quer SANTOS e não perfeitos.

A perfeição nos coloca na relação com a Lei.

A santidade, porém, nos coloca na relação com uma pessoa: Deus.

       O escrupuloso é movido pelo perfeccionismo narcisista e não pela Graça amorosa de Deus e esta dinâmi-

       ca enreda o sujeito na culpabilidade. O perfeccionista está essencialmente centrado em si mesmo, porque

       busca autojustificar-se pelos seus méritos. É uma forma sutil de narcisismo.

       E sabendo que o narcisismo faz referência a um eu ameaçado pela desintegração e por uma sensação de vazio interior”,

        pode-se afirmar que os escrúpulos são a manifestação psicológica dessa desintegração interior.

 

O surgimento de escrúpulos está ligada a uma consciência ainda imatura. Sente-se acometida por exigências que se impõem a partir de fora e não são trabalhadas e integradas no interior da consciência, porque não existe autonomia.

A consciência é transformada em serva da lei e não em instância de discernimento.

                         Sua função é a aplicação da lei e não a descoberta dos “sinais” da Vontade de Deus.

A consciência escrupulosa fica na materialidade da Lei e não capta o seu espírito.

A norma deve estar a serviço de algo maior: valor moral, dignidade humana do outro, Vontade de Deus...

                O escrupuloso não consegue ultrapassar a letra da lei e captar a exigência interna.

                Escrúpulos impedem o trabalho interno da consciência de discernir, ponderar, interpretar...

 

S. Inácio foi acometido, em Manresa, pela tentação narcisista do perfeccionismo espiritual  que o levou

               à angústia desintegradora dos escrúpulos.

               Os escrúpulos tinham fechado Inácio em si mesmo, diante de um espelho em que contemplava

               a sua própria perfeição sob o total aspecto de uma perfeição sem falta.

Só foi libertado quando abandonou a busca da perfeição por meios humanos e se entregou completamen-

te ao amor e à graça de Deus. Essa certeza expressa-se na oração da Contemplação para alcançar amor:

                          “Dá-me o vosso amor e a vossa graça que isto me basta”.

Desistindo de todo narcisismo morboso e destrutivo, de todo o olhar para trás e de toda a autoreflexão geradora do sentimento de culpa, Inácio se deixa arrastar por Cristo: o caminho do peregrino é o caminho de Cristo.

As notas de S. Inácio sobre os escrúpulos distinguem entre “juízo errôneo” (EE. 346) e “perturbação interior” (EE. 347).

O primeiro é necessário rejeitar, porque induz ao erro, enquanto que a segunda pode ser de proveito es-

piritual, porque leva à purificação. Os escrúpulos referem-se propriamente ao segundo caso. Uma coisa é a consciência errônea e a outra é a consciência escrupulosa. O tratamento de cada uma delas é diverso.

 

A consciência que está num processo de conversão aguça a sensibilidade ética e espiritual, podendo tornar-se mais delicada e sentir “perturbações interiores”  que se manifestam como escrúpulos. As perturba-

ções podem ser fruto de um narcisismo perfeccionista impulsionado por um moralismo legalista.

Os escrúpulos estão ligados a uma consciência moral e teologal imaturas que não se caracteriza pela auto-

                         nomia e responsabilidade e não compreende que o amor e a graça do Senhor são mais

                         fortes que a debilidade humana. Por isso sente-se acometida por imposições que criam

                        perturbação interiorculpabilidade.

O caminho da conversão dinamizado pela Graça cria maior sensibilidade ética e espiritual, sem suscitar

perturbações e culpabilidades que desolam e afastam de Deus.

A consciência que se põe numa atitude de discernimento da Vontade de Deus supera temores e culpas e cresce em sensibilidade e radicalidade na resposta às exigências.

Um exemplo: uma pessoa não quer continuar pregando porque não pode viver à letra a santidade que prega (EE. 351). Em tais situações o serviço aos demais em nome do Outro, o Rei Eterno, é que deve ser o critério da maior glória de Deus.

Aqui S. Inácio se inspira em S. Bernardo, quando estava se preparando para pregar um sermão. O tentador lhe sugeriu que, dado que ia pregar maravilhosamente e estava seguro de que ia conquistar estima e honra, não seria vanglória o que buscava sob pretexto da maior glória de Deus?

S. Bernardo viu que o Senhor desejava que fizesse uso de seus dotes de orador e replicou ao adversário:

                     “Nem por ti comecei, nem por ti acabarei”.

Muda-se a motivação para fazer o bem (para a maior glória de Deus), mas não se deixa de fazer o bem.

 

Pedagogia espiritual para enfrentar escrúpulos

 

1) As “perturbações interiores” da consciência são superadas antes de mais nada por um profundo enraizamen-

    to no amor e na graça do Senhor e numa consciência renovada de que Deus nos escolhe apesar de nossa fra-

    gilidade.  O reconhecimento do pecado é a ocasião para confessar a misericórdia de Deus.

    Feliz culpa que nos faz experimentar tal perdão.

    A maturidade espiritual consiste na certeza existencial de que o amor de Deus é mais forte que a debilidade

    humana. Significa encarar a vida pessoal com um olhar consolado de paz e reconciliação interior apesar das

    fraquezas e faltas, porque existe a certeza de que a graça nunca irá faltar;  trata-se de deixar-se conduzir pelo

    amor de Deus. O ponto de partida de qualquer vida espiritual madura é a prioridade da graça face a qualquer

    esforço humano.

 

2) A visão moral legalista e casuísta que acentua a lei e privilegia os atos particulares como elementos essenci-

    ais do crescimento ético-espiritual desemboca no perfeccionismo voluntarista, gerador da escrupulosidade.

    Ao contrário, a compreensão personalista do agir humano propõe a opção fundamental como eixo estrutura-

    dor da maturidade moral e espiritual e privilegia mais as atitudes como expressões concretas da opção

    fundamental. Os atos particulares adquirem sentido ético quando colocados na perspectiva da atitude que os

    gera e da opção fundamental que os inspira. As atitudes configuram uma orientação de vida e são uma medi-

    ação entre  a opção fundamental e o agir concreto.

    Nesse sentido, a opção fundamental e sua manifestação em atitudes que configuram uma orientação de vida 

    são os eixos estruturadores de qualquer caminho de crescimento ético e espiritual.

 

3) Uma consciência heterônoma que se compreende unicamente como serva da lei e é movida por uma dinâmica

     de narcisismo perfeccionista é o solo propício para o surgimento da escrupulosidade.

    A consciência deve ser base propulsora da conversão e do crescimento espiritual e ela só poderá sê-lo se go-

    zar da autonomia moral. Existe autonomia quando o dinamismo da ação parte de convicção interna da

    consciência e não vem determinado de fora, da lei ou da autoridade.

    Só a consciência moralmente autônoma compreende e realiza o espírito da lei e não fica na pura letra; ela se

    sente responsável diante de si mesmo, dos outros e de Deus; ela está em condições de responder responsavel-

    mente ao apelo, porque tem capacidade de discernir.

                                                                                                        (cf. Roque Junges, Cei-Itaici, n. 34, pp. 39-48)

 

 

 

 

CRUZ: expressão máxima da ternuira de Deus

"Fui crucificado Junto com Cristo" (Gál. 2,19)

Máxima identificação com «leiras Cristo: através da oração a pessoa deve participar dos senti­mentos internos do coração de Jesus e fazê-los seus.

Não há espaço para o meu "eu", pois o objetivo é partilhar da dor do Senhor.

Exige-se uma humildade profunda, um recolhimento interior, para concentrar-se totalmente no mistério da Paixão. O seguidor de Jesus vê-se situado "dentro" da caminhada de Jesus para a Paixão, numa progressiva e amorosa identificação.

A Cruz de Cristo é o sinal de seu Amor fiel à causa do Reino de Deus.

Não devemos separar a morte de Jesus do resto de sua vida.

O martírio de Jesus revela seu sentido pleno como a conseqüência dramática e coerente de sua

mensagem e de sua obra.

CRUZ; - é o símbolo de sua absoluta fidelidade ao Pai;

- é inseparável das perseguições e conflitos que a precederam, dos critérios, opções e atitudes de Jesus, do conteúdo de sua pregação.

A CRUZ não pode ser venerada isoladamente.

Venerar a paixão e morte do Senhor com um  "depois" (Ressurreição), e um  "antes'* o estilo e

conteúdo da mensagem evangélica que levou Jesus à Cruz.

A Cruz não é um fato isolado e arbitrário no desígnio do Pai.

O paradoxo é que a Cruz é decisivamente sinal de esperança.

Não basta carregar a CRUZ; a novidade cristã é carregá-la como Cristo - Seguimento. Essa é a nova maneira de carregar a Cruz que Cristo nos ensina com sua morte: transformá-la em um sinal e fonte de amor e de entrega, em vista de uma libertação sempre in­completa, mas assegurada pela promessa.

A palavra "cruz" — em grego "stauros" — vem do verbo "Gear empe".

Tomar sua cruz não é, portanto, suportar passivamente sua vida, tornar-se escravo de um destino tirânico;

significa prontidão, estado de vigilância... passar de uma vida suportada para uma vida escolhida.

Graças à Cruz, também o sofrimento está a serviço da vida, as trevas deixam banhar-se pela luz.

Cabe ao amor a última palavra e em tudo há um novo espaço que se abre à construção da paz".

A CRUZ num, mundo de crucificados

1. Deixar-se impactar pela realidade

Vivemos em um mundo onde a pobreza, a injustiça e a dor são realidades indecentes. Diante desta realidade é preciso deixar-se impactar, comover-se, como Jesus se comovia diante das multidões de seu tempo.

É preciso sentir-se visceralmente revolvido pelo sofrimento da maioria do nosso povo. E preciso sentir indignação ética, audácia profética para denunciar que estamos diante de uma situ­ação de pecado histórico, estrutural, social, contrário aos planos de Deus. Um cristão que não tivesse essa sensibilidade, seria como o sal que perdeu o seu sabor...

2. Optar pela VIDA e pêlos condenados à morte

Não basta sentir compaixão.

Optar pela Vida, lutar pelo Deus da Vida supõe acolher, proteger, promover todos os níveis e manifestações de vida.

E preciso começar a defender a vida de todos aqueles que a tem mais ameaçada. É corno descer, com Cristo, aos infernos de nossa sociedade para ressuscitar com todos para uma vida nova.

3- O caminho da CRUZ

Como as opções de Jesus o levaram à Paixão, nossa opção pela Vida nos conduz à Cruz.

"Subimos a Jerusalém" (Lc 9,51) Aceitar que estamos em tempo de Paixão.

A luta pela Vida é conflitiva, pois nos enfrentamos com os ídolos da morte, lutamos contra poderosas estruturas de pecado, confrontando-nos com o próprio mistério da iniquidade.

Vivemos cada dia entre o sofrimento e a impotência, entre a indignação e o absurdo, entre o escândalo e o silêncio, entre o caos e o medo.

Sofre o povo, novas cruzes são elevadas, o Calvário se torna real e histórico, urn silêncio espesso in­vade a terra.

É preciso "beber o cálice", sofrer com o povo, novo servo de Javé, que agoniza no Getsêmani de nossos campos e cidades: 'Deus pobre e massacrado, grita ao Deus da Vida dessa coletiva cruz elevada contra o véu do Templo estremecido. Amanhã será Páscoa - porque Ele já é amanhã para sempre - ... mas hoje é ainda Sexta-feira Santa" (D. Pedro Casaldáliga)

4. Esperar contra toda esperança

O povo sofre, mas não se deixa abater. Festeja, reza, espera, avança.

A Cruz não acaba no sepulcro, mas na Páscoa.

As dores de parto engendram Vida nova.

Nosso mundo está prenhe de esperança, grávido de auroras.

O SEGUIMENTO de Jesus aqui ê, paradoxalmente, alegre.

Nasce Vida, há sinais de novos céus e mova tenra;

há experiências vivas de comunhão, de partilha, de perdão, de gratuidade, de contemplação.

Os pobre» compreendem o Evangelho e evangelizam.

Os mártires são autênticas testemunhas da fé para a comunidade eclesial.

Aumentam os caminhantes da longa caminhada do Reino.

Experimenta-se o sopro do Espírito.

O •magnificat' ressoa com vozes novas.

Não é esperança infantil, nem fácil.

Não se elimina a Cruz, nem desaparece a Paixão, mas a Luz da Páscoa já se vislumbra no horizonte.

É uma esperança teologal que se nutre da FÉ na Ressurreição e no Dom do Espírito, no Amor

"materno" Ao Pai que sempre escuta o clamor de seu povo. "Esperamos contra toda a esperança", como Abraão, Maria e o próprio Jesus.

Cremos no triunfo do Deus da Vida sobre os ídolos da morte.         ^ Embora estejamos hoje ainda na Sexta-feira Santa, sabemos que amanhã será PÁSCOA. Alguém nos espera às margens do Tlberíades.

Texto bíblico:  Mc. 15. c 3 - H L   , <-C t *>, *J~ H °)

Na oração: Com a imaginação, fazer-se próximo e solidário a Jesus, no seu caminho em direção à Cruz.

 

  

O INCÔMODO SILÊNCIO DO SÁBADO SANTO

 

“Deus é o Senhor também da morte. A morte não pode mais opor-se à vida...

Aquele que, como orvalho desceu do céu, e como orvalho saiu do seio de Maria, posto no sepulcro penetra a terra com sua umidade vivificante, e com a Luz de sua Ressurreição ilumina e vivifica os mortos.

Hoje, sábado, parece que a morte tenha triunfado, que o último inimigo tenha obtido a vitória máxima,

matando o Filho de Deus. Mas não!

No silêncio da morte o orvalho está impregnando a terra.

Amanhã, 1º dia da semana, a morte não terá mais poder sobre Ele. Amanhã terá fim a vitória da morte...

Se alguém pode vencer o último inimigo, a nossa vida é esperança,

pois o último inimigo, a morte, foi aniquilado” (Luis Alonso Schokel sj)

 

Em 1º lugar é preciso considerar o Sábado Santo como um tempo de luto e pranto: depois da dor intensa da Sexta-feira Santa dá-se lugar a uma dor silenciosa, contida, como a terra que vai se empapando até suas entranhas com a água caída torrencialmente sobre a superfície.

O que aconteceu na superfície da terra na Sexta-feira Santa, acontece nas profundezas da morte no Sábado Santo, para que no Domingo da Ressurreição sejam resgatados ambos acontecimentos.

É preciso saber acolher este silêncio surdo, que marca a passagem entre duas experiências intensas: a Sexta-feira de dor e o Domingo de Ressurreição.

No silêncio, ainda se ouve o grito do Filho do Homem, suspenso no madeiro da dor e da solidão extrema: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”

Uma pedra pesada, no final, cobriu aquele sepulcro que acolhera o corpo aniquilado e desfigurado do Homem da Cruz, e um incômodo silêncio cobriu a terra.

 

Na Quinta-feira e na Sexta-feira Santa sabemos o que celebramos; o Sábado Santo, no entanto, é um dia “a-litúrgico”. Na comunidade cristã não se celebra a Eucaristia no Sábado Santo; isso é para que possamos preencher o silêncio deste dia com nenhuma outra coisa que não seja o próprio silêncio, silêncio no qual afloram o pranto e a dor compartilhadas.

“O pranto surge diante da humilhação infligida por um destino prepotente que nos fere ou nos separa de quem amamos... Chora-se ou ri-se em circunstâncias para as quais não há resposta, pois nos faltam as razões” (Enrique Ocaña).

O Sábado Santo não é dia de razões; o sábado santo da vida não se enche de razões: enche-se de lágrimas compartilhadas. “Compartilhando o pranto, comunica-se a dor faz-se comunidade compassiva” (Enrique Ocaña); trata-se de fazer comunidade com aqueles que, ao longo da história, continuam chorando e fazendo luto.

 

Fazer memória do Sábado Santo nos faz compreender que, nos sábados santos da vida não podemos ter a pretensão de querer ver o significado de tudo o que vivemos, no mesmo momento que o vivemos. Muitas vezes, terão que passar muitos anos para poder ver o rosto do Deus vivo em situações vividas de dor e abatimento; além disso, temos que começar a entender que não podemos pretender chegar ao último dia com todas as interrogações resolvidas.

Saber viver neste tom vital é o que nos convida o Sábado Santo.

 

Em todo caminho espiritual é preciso passar pela “noite”, pela “ausência”, pelo “silêncio”, para amadurecer. É inevitável experimentar, durante algum tempo, alguma forma desconcertante de sentir a presença-ausência de Deus.

Esta terrível Noite Escura do Sábado Santo corresponde a um incontestável estágio espiritual, como dura mas inevitável “passagem” (Páscoa) para a Luz do Domingo.

Só atravessando a prova, a Noite Amarga se transforma em Noite Amável.

Dito de outro modo: para passar dos “ídolos” ao “Ícone” é preciso atravessar a Noite, o Silêncio.

Um Silêncio entendido como  outra forma de presença de Deus.

O silêncio de Deus deve ser respeitado, pois a Deus lhe dói a morte de seus fiéis (Sl. 116,15): o Pai não estará fazendo luto por seu Filho e por suas criaturas?

* Não será que o silêncio do Sábado Santo supõe o direito de Deus se calar?

* Quê Deus não tem direito de guardar silêncio?

* Quem somos nós para exigir de Deus que nos esteja falando continuamente?

 

Se não oramos a partir desse silêncio, é porque ainda não mergulhamos no mistério do Amor compassivo

Muitas vezes negamos a Deus o que de mais humano há em nós: o poder fazer comunidade compassiva e solidária, compartilhando a dor e o luto.

 

Além disso, através da passagem do Sábado Santo realiza-se uma transformação radical de nossa imagem de Deus: não como um Ser Onipotente insensível, que desconhece a dor, senão como Amor vulnerável e vulnerado, que assume como Seu o sofrimento da humanidade.

Para que haja uma nova revelação  de Deus, deve haver “interrupção”, “silêncio”, da antiga.

O Sábado Santo nos faz “morrer” a uma imagem de Deus para abrir-se a outra nova dimensão  e compreensão de seu Mistério. Atravessada a prova dessa “ausência”,  somos levados à Outra Margem, na qual nossa relação com Deus ficou purificada e aprofundada.

A  experiência de Ressurreição só se dá quando passamos pela Noite da Paixão.

A 3ª Semana dos Exercícios “quebra” modos de viver o cristianismo, presentes nesta nossa cultura, tão medíocres, vazios de vida e narcisistas, e se converte numa semana de autêntica experiência libertadora.

Só se pode ter acesso à 4ª Semana dos Exercícios, através da Terceira.

Na vida de cada um isto não se dá de uma vez para sempre, senão que vamos passando várias vezes por estas Páscoas, que nos vão despojando de nossas imagens inautênticas de Deus e nos fazem aproximar um pouco mais da verdadeira.

 

       “Trinta raios convergem para o meio, mas é o vazio que há entre eles que permite que o carro ande.

         Trabalha-se para fazer vasilhas, mas seu uso depende do vazio interno.

         Uma casa é feita de portas e janelas, mas é o vazio que permite que sela seja habitada” (Lao Tse)

O Sábado Santo representa este vazio possibilitador, este espaço em branco que poderá permitir a manifestação do Ressuscitado.

O Sábado Santo, portanto, não é o mutismo de Deus, mas seu Silêncio, ou seja, a ação oculta de Deus estendida no tempo; morte e ressurreição  são simultâneas no presente de Deus, mas no acontecer humano só podem ser sucessivas.

 

Textos bíblicos:   Mc. 15,42-47    Jo. 19,38-42

 

 

 

 

QUARESMA: quem é o “senhor” que move o meu coração?

 

“Rasgai o coração e não as vestes” (Jl. 2,13)

 

QUARESMA: tempo litúrgico forte de reconstrução de si e da comunidade; tempo que coloca em ques-

                       tão a razão de ser da vida – para que vivemos? qual a finalidade do ser humano?

                      sobre quê está fundamentada a nossa vida? para onde caminhamos?

Nesse sentido dizemos que quaresma é um tempo forte de conversão; para isso ela tem sua linguagem, sua celebração, seus exercícios e seus ritos de conversão...

Na perspectiva inaciana, conversão não é simples mudança exterior no modo de ser e agir, mas “mudança de senhor”;  quaresma é tempo de troca de comando, tempo forte para consultar o interior e verificar qual é o “senhor”  que move o nosso coração. É neste contexto de conversão que se situam as práticas quaresmais: oração, jejum e esmola. Através de uma vivência mais radical dessas práticas começa a acontecer um deslocamento dos “falsos senhores” que habitam o nosso coração e, ao mesmo tempo, amplia-se o espaço interior para a presença e ação do “verdadeiro Senhor”.

 

A oração, o jejum e a esmola são como um resumo da vida cristã; condensam o sentido da vida.

A vida é um mergulho no mistério de Deus (oração), um abrir-se aos outros (esmola) e capacidade de ordenar e dirigir a própria existência (jejum).

Tais “exercícios quaresmais” só tem sentido se nos levam a uma identificação com Jesus Cristo; são exercícios que alimentam e sustentam nosso seguimento de Cristo.

 

1. ORAÇÃO: toda a nossa vida deveria ser uma oração, ou seja, um “encontro” com Deus em todas as

                       coisas e em todas as circunstâncias.

                       A oração é passar do vazio de si à plenitude em Deus. O “sair de si mesmo” por meio de

                       uma íntima relação pessoal com Deus é a dinâmica central da transformação do “eu” nos

                       Exercícios Espirituais. No centro dos Exercícios encontra-se a seguinte fórmula.

                        “Cada um deve persuadir-se que na vida espiritual tanto mais aproveitará quanto mais

                           sair do seu próprio amor, querer e interesse” (EE. 189).

                       A oração passa a ser a “irrupção” do divino no mais profundo do “eu” humano.

                       Des-centrada de si mesma, a pessoa deixa-se conduzir pela ação providente de Deus.

                       Na quaresma, a Igreja evoca o Cristo em oração diante do Pai no deserto e nas montanhas.

 

2. JEJUM: o jejum é a capacidade de “ordenar” a própria vida para um fim (serviço e louvor de Deus); ao

                  mesmo tempo é expressão de solidariedade e comunhão com os outros: é um chamado à partilha.

                  Somos livres quando podemos nos dispôr de nós mesmos, ou seja, quando nos libertamos dos “afe-

                  tos desordenados”, dos apêgos... O importante, no jejum, não é o que nós fazemos, mas o que Deus

                  faz. Não estamos fazendo algo, mas estamos deixando-nos fazer por Deus.

                  Portanto, o jejum é um tempo em que damos maior liberdade a Deus para agir em nós, “ordenando”

                  nossos afetos e orientando nossos impulsos instintivos. No seu relacionamento com a natureza criada

                  o ser humano é chamado a ser livre, a ser senhor da criação.

                  O alimento e a bebida tornam-se símbolo de tudo quanto o envolve. Porque é na ação do comer e

                  do beber que o ser humano mais se apodera e apropria das coisas, correndo o risco de ser escraviza-

                  do por elas.  A atitude de liberdade diante do alimento torna-se símbolo de sua liberdade para com

                  tudo  quanto o envolve: bens materiais, poder, prazer absolutizado, idéias fechadas, uso do tempo.

 

3. ESMOLA: a esmola atinge o relacionamento com o próximo na virtude teologal da caridade.

                    O homem recebeu tudo de seu Criador; tudo é dom para todos. Neste sentido, a esmola

                    significa a atitude de doação gratuita, de serviço ao próximo com generosidade e desprendimento.

                    É todo este mistério de abertura e acolhida em favor do próximo, sem esperar recompensa, na imi-

                    tação de Jesus Cristo que deu sua vida pelos seus. É viver a partilha não só de bens materiais, mas o

                    tempo, o interesse, o serviço, a aceitação

 

Textos bíblicos:   Mt. 6,1-18   Joel 2,12-18

 

Na oração: viva a  espiritualidade como aquela

                  luz que rasga horizontes e cria espa-

ços abertos para a acolhida do diferente e do novo.

 Quaresma é renovação, é “tirar do peito um coração

de pedra e colocar no seu lugar um coração de carne, capaz de crer e de amar” (Ez. 36,26).  

 

 

QUARESMA: a fidelidade de Jesus nos conflitos

 

“Não vim trazer a paz, e sim a espada” (Mt. 10,34)

 

Jesus é claro: apresenta-nos as conseqüências do seu seguimento.

                     Quem vive radicalmente o Evangelho, vai ser rejeitado, perseguido, incompreendido...

Tudo o que Jesus faz – suas atitudes, seus gestos, suas palavras, suas opções -  revelam uma nova visão

das coisas, um novo ponto de partida, uma nova ordem, um novo projeto.

Jesus encarna-se num mundo fechado, dividido, conflituoso...

Faz-se presente no mundo da dor: enfermos, pobres, pecadores... a partir daí propõe um projeto novo.

Vivendo e anunciando a boa-notícia do Reino, Jesus vai provocando conflitos. Encontramos o conflito já no centro do mistério da Encarnação: “Ele veio para os seus, mas os seus não o receberam” (Jo. 1,11). Isso vai se prolongar durante toda a sua vida. Jesus não buscou o conflito (já que trazia uma mensagem de misericórdia e fraternidade) mas conheceu uma das experiências conflitivas mais dramáticas da história humana. Jesus passou a viver a partir de um sonho primordial: o REINO.

             A riqueza original desse sonho primordial não se “encaixou” nos esquemas dos fariseus, sadu-

             ceus, essênios, zelotas, nem se deixou instrumentalizar pela instituição do Templo ou da sinagoga.

                        Jesus era LIBRE e essa LIBERDADE nos fascina até hoje.

 

Jesus vivia o tempo todo no “pique” dessa experiência religiosa que via em Deus um Pai, nos companheiros via irmãos e amigos e nos acontecimentos, o sopro do Espírito.

Isso inquietava as instituições; a atuação de Jesus provoca conflito entre sacerdócio e profetismo, entre carisma e poder, entre livre expressão religiosa e rigidez institucional. Jesus nos ensinou a libertar as forças do sonho, da poesia, do profetismo, do carisma, a empolgar-nos com a vocação que vem de Deus e a migrar do cativeiro do farisaísmo para a liberdade dos filhos(as) de Deus.

 

Jesus se tornou um sinal de contradição porque permaneceu absolutamente fiel a uma mensagem, a um modo de agir  e a uma missão que havia recebido do Pai.

           Falar em conflito na missão de Jesus é o mesmo que falar da fidelidade de Jesus.

          O que tem valor em sua vida é seu amor fiel, e não os conflitos em si mesmos. A dimensão

          conflitiva na vida de Jesus é o resultado inevitável do embate entre sua missão (que anuncia

          a justiça do Reino e as bem-aventuranças) e a realidade que rejeita a novidade do Reino.

          Jesus não cria conflitos; Ele os constata ao dar testemunho das exigências do amor.

 

* Como transformar o conflito em fonte de fé, esperança e amor?

* Como crescer e amadurecer no conflito? Como viver o Evangelho no conflito?

     - O conflito faz parte da vida do cristão; ele vive na luta.

     - O conflito perpassa nossa vida pessoal e comunitária; não é acidente de percurso, é permanente.

     - O conflito é um instante difícil, de parada, de mal-estar, de busca sofrida, mas é importante para

        purificar as pessoas, revigorar a mística e ressaltar os valores de vida.

     - O conflito é um momento de redefinição, de adequação à realidade e crescimento em todas as dimensões.

     - De uma forma por si mesma desconcertante e misteriosa, o conflito constitui um chamado do Senhor,

       uma graça para seguir Jesus perseguido, com uma opção mais madura e com motivos mais purificados.

     - Deus também se revela no conflito:

          nos conflitos há uma manifestação do Espírito (fogo, dinamismo...);

          o conflito  é um “ensaio de esperança”, uma certeza de que o Espírito “renova todas as coi-

          sas”; o conflito é certeza da novidade que vem, quando o Espírito a suscita e a anuncia; por

                                   isso exige um discernimento permanente.

     - No Evangelho, conflito e crise são dados que marcam o itinerário da maturidade do seguidor de Jesus. Não

       há maturidade e crescimento pessoal sem passar pelas “crises conflitivas” de crescimento, de aprendizado

       e de educação para a liberdade. O conflito leva à maturidade e pressupõe maturidade para ser assumido.

A espiritualidade é a resposta que damos às crises e aos

conflitos; é o modo como os assumimos, é o sentido que

lhes damos... A única espiritualidade autêntica é a que

brota do seguimento, e portanto, não é o conflito que

santifica, mas a identificação com Jesus, vítima de con-

flitos e perseguido. Jesus é o modelo que como viver a

experiência do conflito como espiritualidade.

 

Texto bíblico:   Mt. 10,16-39  

 

 

DISCERNIMENTO: rastrear o coração

 

Estamos continuamente sujeitos a estados de ânimo (sentimentos) que parecem se alterar de maneira imprevisível e muitas vezes de forma incontrolável. Há um fluxo e refluxo interior que nos ampliam ou nos limitam, nos energizam ou diminuem o calor...

Se ficarmos atentos aos movimentos interiores, poderemos observar que há uma diferença fundamental entre os sentimentos que por vezes experimentamos de “pisar um terreno firme” ou de “viver verdadeiramente” e os sentimentos opostos de estar pisando “em terreno pantanoso”, “em contradição consigo mesmo”, bem como num estado de agitação interior.

Nossos sentimentos são para nós sinais conscientes de nossos desejos. São eles os primeiros indicadores daquilo que nosso coração deseja de modo mais profundo ou teme mais profundamente.

Não escolhemos os sentimentos que vivenciamos; eles simplesmente aparecem. Mas escolhemos abrir espaço para acolher a energia que geram ou rejeitá-la, para alimentar sua força expansiva ou esfriá-la.

 

A mística inaciana nos diz que quando experienciamos “sentimentos sólidos”,  estes vêm, mesmo que de maneira remota, da ação de Deus sobre nós.

Quando experienciamos os “sentimentos voláteis e de agitação”, estes terão como fonte última algo que não vem de Deus, mas que tem que ver com nossos próprios “reinos”.

S. Inácio nos ensinou a “rastrear” nossos próprios estados de espírito e a descobrir as moções mais profundas que movem nosso coração. A partir das Regras de Discernimento aprendemos a reconhecer os estados de espírito de “terreno sólido” como consolação (com solo), e os estados de espírito de “terreno instável” como desolação (sem solo).

Em outros termos: podemos falar de “estar com o sol” (consolação) ou “estar sem o sol” (desolação) como direção que nossa vida está tomando – para Deus ou contra Deus.

 

Com o tempo, essa prática vai nos ajudar a perceber onde estão de fato os desejos mais profundos de nosso coração, e vai revelar a localização daquilo que mais nos incomoda. Vai também nos auxiliar a distinguir entre as “moções interiores” que vem de Deus (moções de consolação), e as moções que vêm de nossos próprios “reinos” ou da pressão dos “reinos” de nossos ambientes, e que tendem à desolação.

E a diferença parece residir no foco da experiência.

A consolação espiritual é vivenciada quando nosso coração é atraído para Deus. É um sinal de que nosso coração está batendo em harmonia com o coração de Deus.

A consolação é a experiência de ligação profunda com Deus, e ela deixa o nosso ser pleno de uma sensação de paz e júbilo. O epicentro da experiência está em Deus, não em nosso ser.

A consolação dirige nosso foco para fora e para além de nós; eleva o nosso coração para podermos sentir as alegrias e tristezas dos outros; vincula-nos de maneira mais estreita com nossa comunidade humana; gera novas inspirações e novas idéias; restaura o equilíbrio e revigora nossa visão interior; mostra-nos em que pontos Deus está ativo em nossa vida e para onde Ele está nos levando; libera em nós novas energias e criatividade; enraíza nossa vocação...

Enfim, a consolação expande nosso coração até que ele fique grande o bastante para acolher outras pessoas e as necessidades delas, e o torna leve o bastante para permitir-lhe voar na direção de Deus.

 

A verdadeira consolação é movimento de expansão no Amor; não depende de um “sentimento bom” (de uma reação emocional), mas de uma “visão interior” (de uma percepção, de uma intuição), que é uma elevação da mente e ardor do coração; tal estado de ânimo no faz repousar numa motivação de amor gratuito e não de tipo egocêntrico (em função de mim mesmo).

Este estado é obra da Graça, só pode vir de Deus. Conduz necessariamente ao amor de Deus.

Dilata o eu em todas as dimensões; circunda a pessoa com a luz de Deus, enche-a com sua alegria, ajuda-a na descoberta e na aceitação da Vontade divina.

A razão teológica destas reações é a experiência da presença de Deus. Deus, pela sua presença, levanta a pessoa, enobrece-a, acumula-a com ale-

grias internas, com felicidade e paz.

Na presença de Deus a pessoa se torna li-

vre; desconhece limitações e inibições;

será forte, corajosa, perseverante no bem.

 

 

 

A desolação espiritual, pelo contrário, faz que nos voltemos para nós; faz-nos descer pela espiral cada vez mais profunda de nossos sentimentos negativos; afasta-nos da comunidade; faz-nos renunciar a coisas que antes tinham importância para nós; domina todo o espaço de nossa consciência e nos tira a visão de longo alcance; apaga todos os nossos marcos que indicavam a direção de nossa vida; drena nossa energia e mutila nossa criatividade; coloca-nos numa espiral descendente de negligencia em relação a nós mesmos, às outras pessoas e a Deus; experimentamos movimentos de sentimentos que parecem enfraquecer nossas capacidades de fé, esperança e amor e nos levar a formas destrutivas de comportamento em relação aos outros  e a nós mesmos.

Enfim, a desolação oprime e aperta nosso coração e o torna tão pesado que ele afunda rumo ao ponto mais deprimido de nossa existência.

 

Podemos tratar de consolação e desolação em termos de “disposições criativas” e “disposições destrutivas”. É característico do Espírito de Deus provocar consolação, mover-nos ao que é inspirador, criativo...

 

Viver em discernimento contínuo é estar em uma viagem de exploração e rastreamento; é nos deixarmos ser surpreendidos, conduzidos, desafiados e, em última instância, transformados pelo Espírito de Deus.

Nesse sentido, o discernimento oferece recursos às pessoas para que façam escolhas, em cada dimensão da vida, harmonizadas com a orientação do Espírito de Deus no caminho do Evangelho, nas circunstâncias cotidianas e por meio delas.

Precisamente o discernimento é rastrear e  descobrir os “espíritos-sopros-inspirações” do Espírito no ritmo da vida cotidiana e em meio à realidade que nos cerca.

Rastrear-descobrir-deixar-se conduzir: este é o movimento da arte do discernimento.

 

PAIXÃO: uma vida consumada faz fecunda a morte (M. Hernández)

 

Na Cruz, Jesus encontra-se no ápice do poder, exatamente porque Ele se encontra no auge do amor.

Ele mostra que o verdadeiro poder é o amor e que nada é possível contra o amor.

Não é possível impedir Jesus de amar até o extremo: “Perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”.

Até o último instante, Ele é o mais forte. E Ele é o mais forte na extrema fraqueza.

Jesus foi colocado entre os fracos e oprimidos, pois foi injustamente condenado e crucificado “fora” da cidade. Humanamente falando, sua vida não é a de um vencedor, mas de um fracassado; Ele foi marginalizado pelos poderes reinantes em seu tempo; pertence ao “avesso” da história.

Identificado como Messias, nem por isso deixa de ser rejeitado. Os banidos da história pelos vencedores reconhecem-se n’Ele. Reconhecendo-se n’Ele, confessam que o Deus por Ele invocado é, Ele também, expulso, que seu lugar é agora “fora” da cidade, que seu destino terrestre é com os marginalizados. Deus se faz “margem”, “marginal”...

Enquanto a história dos vencedores se basear na violência e na exclusão, o Deus de Jesus não terá lugar neste mundo. Ele vai se revelar somente na ruptura introduzida por Jesus na lógica da violência: perdoando àqueles que até então dirigiam a história, revela o rosto de Seu Deus.

Rejeitado, Jesus perdoa àqueles que o rejeitam. É a sua condição de expulso da história que lhe dá o direito a escolher o seu estilo de re-escrever uma nova história.

 

Este é o exercício da liberdade. Jesus, no horto e na cruz, apela para a Vontade de Deus; isso não é passividade e resignação, mas significa passar de uma vida submissa para uma vida escolhida.

Quando Jesus diz a seu Pai: “Seja feita não a minha vontade, mas a tua!”, Ele chegou a esse momento em que não desejou, não procurou fugir do sofrimento, e nem podia negar a presença desse sofrimento, dessa provação. Entretanto, era necessário transformá-los. E Jesus agiu introduzindo neles, através da comunhão de sua vontade com a Vontade do Pai, a consciência e o amor. Neste momento Ele se reve-lou mais forte que o sofrimento, maior que a provação que estava atravessando, mais forte que a morte.

 

Os antigos Padres da Igreja consideravam a Cruz como “o grande livro da arte de amar”, simbolizando o ser humano aberto em todas as suas dimensões. Jesus testemunhou até que ponto somos amados.

O que é único, na tradição cristã, é que nada é perdido. Pode-se criar a luz com qualquer ação, até mesmo com nossos fracassos.  “O que é a Cruz, senão a história de um fracasso?”

Fracasso de um ensinamento, fracasso de uma pregação, fracasso do amor a todos os seres, amor esse que não foi reconhecido. Jesus transformou este fracasso em um caminho para a ressurreição.

Quando pensamos em nossas vidas, quando as vemos pelo seu exterior, percebemos inúmeros fracassos. Mas, em segredo, podemos pressentir que estes fracassos, estas dificuldades são, talvez, a nossa maior sorte. Porque através deles nos libertamos de nossas ilusões sobre nós mesmos. Eles tendem a nos deprimir, mas também podem ser uma ocasião para nos fazer mais humanos e humildes.

Através dos fracassos nos aproximamos de nosso ser essencial e do “Eu sou Aquele que É” que transforma estes fracassos em caminhos de realização.

 

No horizonte da Cruz, o fracasso tem seu lugar. Ele pode ser percebido como chance para crescimento ou amadurecimento, ou pode ser integrado à luz de outras experiências positivas. Aprendemos mais pelos nossos fracassos do que pelos nossos êxitos.

A vida é constituída de momentos de luta e de coragem, de sonhos e de esperança, de vitória e de derrota. Este é o material com o qual são construídas as histórias e as vidas.

O fracasso, que em muitas ocasiões nos provoca medo, insegurança, mal-estar... é um espaço perfeitamente adequado para iniciar o movimento para uma maior maturação.

Mais ainda, muitas vezes são os fracassos que nos levam a iniciar uma mudança em nossas vidas, para uma maior realização pessoal e, portanto, para uma maior satisfação interior.

Para muitos, os fracassos os afundam num abismo de impotência e agressividade; para outros, ao contrário, os fracassos os convertem em seres incrivelmente sensíveis, compassivos, humildes...

Os fracassos nos revelam aspectos novos de nós mesmos e nos ajudam a conhecer-nos mais.

“Há coisas que não se compreendem enquanto não se esteja definitivamente derrotado” (Péguy)

Os fracassos tem poder de revelação: ser o que a pessoa é e nada mais que aquilo que é. A experiência dos fracassos nos une a todos, nos iguala, é fonte de comunhão... Graças aos fracassos, a pessoa vai quebrando, pouco a pouco, seu instinto de posse, a auto-afirmação de si, a prepotência, a soberba...

 

Textos bíblicos2Cor. 4,7-15    Col. 1,24-29    1Cor. 4,9-13    2Cor. 12,7-10   2Cor. 11,16-29

 

A paixão não está acabada...

 

Caixa de texto:

 

       

 

Lentamente caminho pelo corredor da Igreja. Nas paredes, as

estações da Via Sacra. São quadros de traços tradicionais, figuras

familiares, de cores vivas que combinam com a arquitetura do templo.

 

Estou diante da 1ª estação. Jesus é levado pelos soldados de

Pilatos. Acabou de ser  condenado...

 

Paro e fico pensando no quadro, na frase sob ele:

 

“Jesus é condenado à morte...”.

           

Um outro quadro vem à minha lembrança...

           

Há pouco, na rua, parei num sinal em frente a um posto de

saúde. A fila, longa, estendia-se pelo quarteirão, dobrava a esquina.

 

Mulheres de olhares tristes, velhos cansados, crianças chorosas.

 

Entre os carros parados, o habitual grupo de pedintes, mendigos, desempregados, malabaristas, oportunistas, todos em busca de uma improvável fresta nos vidros e corações fechados. Enfim, o sinal abriu-se e segui em frente, deixando para trás e levando comigo uma imensa falta de esperança.

Do rádio do carro, outras imagens vieram num turbilhão: o noticiário da guerra, os números das mortes anônimas, a brutalidade sem nome, a dor.

Políticos engravatados, com discursos que prometem liberdade e paz, semeiam desespero e terror.

            As estatísticas do desemprego, da violência. As crianças sem escola, as escolas sem merenda, os sem casa, os sem terra, os sem teto, os sem futuro...

            Angustiado parei aqui, nessa Igreja, em busca de silêncio e, quem sabe, alguma paz.

E agora, estou diante da primeira estação da via sacra que ganha outras cores e significados. No rosto de Jesus, vejo os rostos anônimos que vislumbrei na fila, que encarei no sinal, que imaginei nas notícias que vieram pelas ondas do rádio. Penso comigo:

 

Ele continua sendo condenado...

 

            A paixão continua acontecendo. Mudaram os nomes, os rostos, mas o enredo continua quase o mesmo. Pilatos e os fariseus hoje podem chamar-se George, Clarice, Fernando, Luiz, Vilma...

No quadro, contemplo a multidão que passa pela fila, assiste a TV, ouve o rádio, lê os jornais, fecha o vidro do carro nos sinais, trava as portas e segue em frente, alienada, cega, insensível, impotente. Em meio às buzinas, posso ouvir um grito que atravessou os séculos e agride, agora, o silêncio dessa igreja vazia:

     

 

CRUCIFICA-O!!!

           

 

Olho mais uma vez o quadro. Há outras figuras ali, ao redor de Jesus. Percorro cada rosto em busca de algo ou alguém.

 

No meu coração, a pergunta brota, espontânea: quem sou eu, hoje, no drama da Paixão? Que papel represento nessa história que continua sendo contada e vivida todos os dias?

            Seria o de Judas, o amigo traidor que ‘topou tudo por dinheiro’...?

Pedro, o líder impetuoso que diante do risco preferiu negar e depois chorou escondido o seu arrependimento, a sua covardia...?

Os outros amigos que fugiram, abandonando Jesus à sanha dos seus algozes...?

Os sacerdotes que para não perderem o poder, a influência, o controle, tramaram, mandaram prender, interrogaram, torturaram, mentiram e forjaram um julgamento de cartas marcadas...?

Pilatos, o juiz que declarou a inocência do réu, mas, por fraqueza pessoal e conveniências políticas, condenou-o, entregando sua vida nas mãos da turba que, insuflada e manipulada, pedia sangue...?

Herodes, que se divertiu e, entediado, resolveu passar a outro a responsabilidade...?

Os soldados que, cumprindo ordens, fizeram o serviço sujo...?

Os curiosos que estavam lá, para ver e comentar...?

Os que acharam um absurdo, uma brutalidade, mas permaneceram calados, omissos, assustados...?

 

Não consegui continuar a via sacra. Parei na 1ª estação. Lá fora, outra via me esperava. O imenso calvário do cotidiano onde eu precisava encontrar, de alguma forma, sinais de ressurreição em meio a tanta presença da morte. No coração, a pergunta insistia:

 

Onde eu estava naquela sexta feira, em todas as sextas feiras, em todos os dias de paixão e dor?

 

Eduardo Machado

01/04/2003

 

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- Com qual dos personagens da Semana Santa eu mais me identifico? Por que?

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