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NÚCLEO DE COMUNIDADE AMBIENTAL  –  NCA

 I.        HISTÓRICO

A.      Finalidade do MCC

1.      O MCC, como todos sabem, tem uma finalidade que pode ser dividida em três, conforme o “prazo” em que deve ser atingida:

ü       finalidade imediata – possibilitar a vivência e a convivência do fundamental cristão,

ü       finalidade mediata – criar núcleos de cristãos,

ü       finalidade última – fermentar de Evangelho os ambientes.

2.      Como fica claro, a finalidade imediata é a que se quer atingir logo após o cursilho e a finalidade última é a que se quer atingir como resultado concreto, que mostre os frutos do MCC. Quando as pessoas aceitam a palavra e a pessoa de Jesus Cristo e passam a viver conforme os seus critérios, temos cristãos vivendo e convivendo o fundamental cristão. E quando essa vivência e convivência do fundamental cristão produz frutos, passamos a ter ambientes e estruturas cristãs.

3.      É a finalidade mediata (a que está no meio), entretanto, que possibilita que, atingindo a imediata, os cristãos que passaram pelo cursilho atinjam também a última. Porque não se pode fermentar o ambiente e “pelo influxo do Evangelho, transformá-lo a partir de dentro” como pede a Evangelii Nuntiandi (18), se não houver, nesses ambientes, cristãos que atuem através de sua palavra e do seu testemunho.

B.      Meios de perseverança

1.      O MCC sempre se preocupou em oferecer a quem saísse do cursilho um modelo de comunidade para perseverar na fé e aprofundar a conversão, principalmente se o neo-cursilhista não pertencesse ainda a nenhuma  outra comunidade.

2.      O modelo inicial oferecido – e que em muitos lugares do mundo ainda é considerado válido e suficiente – era a chamada Reunião de Grupo.

3.      Não vamos nos deter em explicar o que era a RG. Apenas reconhecer que, no Brasil, como em outros países, ela foi, aos poucos, deixando de funcionar como “plataforma de lançamento dos cristãos nos ambientes e no mundo”.  De fato, as pessoas acabavam se reunindo para ler o Evangelho, tirar uma mensagem, contar uns aos outros qual tinha sido o seu “momento mais próximo de Deus” naquela semana, planejar sua ação apostólica (curso de batismo, de noivos, etc.) e... tomar um cafezinho.

4.      Por mais que isso ajudasse a santificação individual, a análise da realidade mostrava que se faziam muitos cursilhos, havia muitas reuniões de grupo, mas o fermento do Evangelho pouco atingia os ambientes!

C.      Uma nova proposta

1.      Em 1980, em Santo Domingo, realizou-se o V Encontro Interamericano do MCC, cujo tema foi a repercussão do Documento de Puebla no Movimento.

2.      Nesse encontro, os delegados reconheceram que a RG não era tão eficaz como se pretendia fazer crer e se propuseram a buscar novos caminhos para que o pós-cursilho atingisse seus objetivos. Assim, fizeram propostas concretas, baseados, aliás, em trabalho apresentado pelo Brasil, para melhorar todo o pós-cursilho: desde o núcleo de coordenação, passando pelos Grupos, pelas Ultréias e pela própria Escola.

3.      Como nosso assunto são os “núcleos de comunidades ambientais”, vamos nos deter apenas neste ponto entre os inúmeros propostos pelo V Encontro Interamericano.

D.      Caraterísticas

1.      Em 1980, em Santo Domingo

a)      Quando se apresentou a proposta no V EIA, os núcleos de comunidades ambientais eram, podemos dizer, uma espécie de sonho aqui no Brasil.

b)      Mesmo que houvesse mais teoria que prática, os núcleos já tinham algumas características bem definidas:

ü       deveriam ter um significado e uma realidade mais próximos da práxis de uma comunidade;

ü       não seriam grupos “soltos”, mas inseridos numa planificação global do pós-cursilho;

ü       deveriam ser formados por pessoas com afinidade ambiental;

ü       deveriam despertar seus componentes para a necessidade de:

¨      formação de uma consciência crítica,

¨      ênfase numa pedagogia ativa, a partir da vida (formação na ação),

¨      formação sistemática nos fundamentos da fé e no ensino social da Igreja (Escola);

ü       deveriam usar, como técnica para a formação dessa consciência crítica, a pesquisa programada da realidade ou do grupo social a ser evangelizado;

ü       deveriam utilizar, como técnica da pedagogia ativa, a revisão apostólica e a revisão de vida.

2.      Em 1988, em Caracas

a)      Quando se realizou o IV Encontro Mundial, o Brasil apresentou um tema acerca de caminhos novos para ajudar as pessoas que fazem cursilho a amadurecer na fé, inserir-se na comunidade eclesial, assumir seu compromisso apostólico.

b)      Mais uma vez, o Brasil apontou os núcleos de comunidades ambientais como um caminho coerente e seguro para que o cursilhista pudesse vir a ser Igreja, agir concretamente e cumprir, em comunidade, a missão evangelizadora da Igreja.

c)      Naquela altura, o Brasil podia mostrar que, em oito anos, os NCA haviam-se tornado uma realidade e seus frutos eram visíveis.

d)      Dessa vez, algumas das características enfatizadas foram;

ü       os núcleos são algo dinâmico e pretendem encarnar os valores do Evangelho, não só na vida pessoal de cada um de seus membros, mas na realidade terrestre (o núcleo é uma comunidade eclesial, imersa na realidade);

ü       estão inseridos numa comunidade humana natural: familiar, geográfica, profissional (fábrica), no sindicato, na associação de classe, na escola, no hospital, na repartição pública, no partido político;

ü       como estão no ambiente, conseguem atingir e transformar as estruturas e colaboram na evangelização da cultura (nem sempre o núcleo é visível no ambiente; sua presença é uma presença de fermento, sal e luz);

ü       sua missão é a missão de Jesus e da Igreja:

¨      levar a Boa Nova da salvação e da libertação aos homens, seus irmãos,

¨      para que seu ambiente seja marcado pelos sinais do Reino (justiça, amor, solidariedade, fraternidade),

¨      partilhando o ser e o ter,

¨      buscando a dignidade, a liberdade, os direitos fundamentais das pessoas com as quais convive.

3.      Em 1999, no Brasil

a)      O VI Encontro Nacional do MCC, em Guarapari, ao debruçar-se sobre as perspectivas do MCC no Terceiro Milênio, retomou a questão dos ‘núcleos’ para comparar seu dinamismo às características mais estáticas do ‘grupo’.

b)      Para explicitar isso, lançou mão de um trabalho preparado em Salvador, BA, que relacionava, em forma de gráfico, os onze itens que seguem:

1º.     Partir do fato da vida para a Palavra vs. partir da Palavra para o fato da vida            
O grupo se reúne, lê a palavra de Deus e tira lições para a vida e para o próprio comportamento: quando estiver no meu ambiente, em tais e quais circunstâncias, vou poder aplicar esta lição... O núcleo parte da vida e chega à Palavra. À medida que procuramos encarnar a Palavra aqui ou ali, nos interrogamos sobre o que Deus está querendo nos dizer. É a vida que vivo no meu ambiente e as dores e alegrias dessa vida que me levam a procurar na Palavra a mensagem transformadora para esse ambiente, para essas dores.

2º.     Situações comuns às pessoas do núcleo vs. situações pessoais           
No grupo tradicional predominam as situações pessoais: cada um conta seus problemas e o grupo vai ajudar na solução dos mesmos. No núcleo, as situações são comuns aos integrantes do mesmo, que estão vivendo a mesma realidade, os mesmos problemas, a mesma situação concreta naquele ambiente.

3º.     Agir comunitário vs. agir individual       
No grupo tradicional predomina o agir individual, ou seja, cada membro do grupo vai fazer alguma coisa diferente: assistir aos menores, aos idosos do asilo, aos doentes nos hospitais, etc. No núcleo, o agir é comunitário. Se seus integrantes estão no ambiente do hospital, da saúde, da educação, é lá, na realidade do dia-a-dia, que vai-se desenvolver a ação de todos os integrantes.

4º.     Ir à raiz dos fatos vs. ficar na superfície dos fatos
No grupo, fica-se na superfície dos fatos, que são analisados de fora, a partir do conhecimento, da informação ou da vivência. O núcleo, ao contrário, vai à raiz dos fatos, não procurando apenas sanar as situações de emergência. O grupo, pois, resume-se às obras de misericórdia – as quais, diga-se, são fundamentais na vida da Igreja e no anúncio do Reino. O núcleo, porém, vai, sim, dar comida a quem tem fome, mas vai também às causas da pobreza. Ao mesmo tempo que anuncia os critérios evangélicos para mudar essas causas, o núcleo as denuncia com vigor e coragem.

5º.     Conversão pessoal e social concomitantes vs. primeiro conversão pessoal, depois conversão social
A conversão é sempre pessoal e social ao mesmo tempo. Em contato com a realidade, a pessoa vai mudando... É por isso que chegamos a ouvir, de vez em quando, frases ousadas como “tal Bispo se converteu”. É porque esse bispo, quando era padre, estava num lugar, tinha uma visão de mundo. Ao assumir o pastoreio de uma Diocese, ele mudou a sua postura porque começou a sujar as mãos com a realidade, começou a perceber, por experiência pessoal, o que efetivamente acontecia.

6º.     O ambiente questiona o núcleo e vice-versa vs. o grupo questiona o ambiente          
O grupo limita-se a questionar o ambiente a partir de fora (a TV não presta, por exemplo) para depois pensar em consertá-lo... O núcleo se deixa questionar e provocar pelo ambiente: por que é assim a realidade do hospital onde eu trabalho?  É claro que, ao mesmo tempo, o núcleo questiona o ambiente, mas ele tem mais facilidade para transformar a realidade à maneira de fermento. Aí está a grande diferença.

7º.     Leitura da Bíblia, dos documentos da Igreja, e estudo da doutrina social vs. predomínio da leitura da bíblia      
No grupo predomina a leitura da Bíblia. O núcleo, além da leitura da Bíblia, estuda os documentos da Igreja e sua doutrina social, até como resposta à pressão feita pelo próprio ambiente.

8º.     Mudanças das estruturas do mundo do trabalho, da política, etc. vs. predomínio das obras de misericórdia 
Enquanto o grupo ocupa-se praticamente apenas das obras de misericórdia – fundamentais, repetimos, e sem as quais ninguém se salva (Mt 25, 34ss) – o núcleo busca a mudança nas estruturas no mundo do trabalho, da política, buscando erradicar as causas que produzem tantos famintos, nus e excluídos.

9º.     Reunião mais objetiva vs. reunião mais subjetiva
No grupo a reunião é mais subjetiva, voltada para conversão individual;  no núcleo ela é mais objetiva, porque está-se estudando e participando de algo que está “fora” dos integrantes e que eles têm que mudar e transformar.

10º.  Fermento que penetra na massa vs. fermento que fermenta fermento 
No grupo o fermento atua dentro do próprio grupo que almeja seu crescimento pessoal, enquanto o núcleo leva o fermento para a massa.

11º.  Espiritualidade de encarnação, de fronteira vs. espiritualidade intimista        
No grupo a espiritualidade é intimista, fruto da conversão predominantemente pessoal; no núcleo essa espiritualidade é de fronteira, porque é uma espiritualidade de encarnação.

c)      Como que para imprimir ao núcleo o selo de comunhão, o Documento 62, fruto da 37ª Assembléia Geral da CNBB, realizada em abril de 1999, fala na “animação de pequenas comunidades” (159). Ora, o núcleo de cristãos é, precisamente, uma “pequena comunidade” que pretende, a modo de fermento, colaborar para a “transformação da sociedade”, o que, segundo o mesmo documento, só é possível com a “transformação das estruturas de poder hoje existentes” (132), razão pela qual “grupos ou comunidades ambientais (trabalhadores de uma empresa, profissionais da saúde, professores...), podem constituir válida experiência eclesial e contribuir para a transformação das estruturas sociais”.

4.      Em 2000, na Guatemala

a)      O X Encontro Interamericano, realizado em novembro de 2000 na Guatemala, estabeleceu alguns critérios para o funcionamento dos NCAs:

1º.      Deve-se respeitar a liberdade da pessoa e a orientação ao descobrimento de sua vocação pessoal;

2º.      Seus integrantes pertencem ao mesmo ambiente;

3º.      Nada impede que uma reunião de grupo chegue a constituir-se em grupo, núcleo ou comunidade  ambiental, que fermente um determinado ambiente;

4º.      Não é âmbito exclusivo de cursilhistas;

5º.      Sua orientação principal é ser fermento de valores humanos e evangélicos em seu ambiente respectivo;

6º.      Deve-se dar preferência aos ambientes prioritários, atendendo aos planos pastorais da Igreja local ou aos planos específicos de cada Secretariado Diocesano (no Brasil, GED);

7º.      A Escola Vivencial e/ou o GED os acompanhará, animará e promoverá a formação de seus integrantes.

 

II.      PRÁTICA

A.      Esclarecendo

No momento de criar um núcleo, os cristãos sentem certas dificuldades... Vamos procurar esclarecer algumas, respondendo às perguntas mais comuns.

1.      Em quais ambientes se pode formar um NCA?

De preferência em ambientes extra-eclesiais: família, profissão, associações de classe, de bairro, etc.

2.      Quem compõe o NCA?

Cristãos – cursilhistas ou não; dependendo do caso, até não-católicos.

3.      Que tipo de compromisso orienta o NCA?

O compromisso de seus membros com o batismo, com a Igreja, com as opções pastorais da Igreja no Brasil e na Diocese.

4.      Qual a vocação dos membros do NCA?

Sua vocação é ser sal, fermento e luz, para tornar o ambiente mais cristão, mais marcado pelos valores do Evangelho e pelos critérios de Jesus Cristo.

5.      Os NCA são necessários aos ambientes?

São, porque a maioria dos ambientes – senão todos – se caracterizam pelos critérios do mundo consumista e massificante; critérios que dão origem ao desamor ao ódio, à violência, à injustiça, à marginalização, à luta de classes.

6.      Qual a ação que se espera dos NCA nos ambientes?

Espera-se uma ação transformadora, o que exige pessoas que assumem sua tarefa corajosamente (às vezes silenciosamente), e exercem sua função de fermento: pessoas que decidem, participam e assumem mais os riscos do que as glórias de ser cristão.

7.      Como os membros do grupo vão “crescer”? Afinal é preciso transformar os “homens em cristãos para que eles transformem cristãmente as estruturas” não?

Precisamente em sua ação fermentadora, porque Puebla mostra que, para viver sua espiritualidade, o leigo não deve fugir da realidade temporal, mas buscar aí a presença do Senhor.

8.      Basta isso?

Claro que não”: a palavra de Deus, a oração pessoal e comunitária, os Sacramentos, os ajudarão a iluminar a realidade para transformá-la.

9.      Quando e onde o núcleo se reúne?

A freqüência da reunião deve ser determinada pelo grupo. De preferência, não deve-se reunir no local de trabalho, quando isso puder marcá-lo ou torná-lo alvo da antipatia dos demais.

10.      O que é mais importante: o núcleo ou a reunião?

A reunião é necessária, mas o núcleo é mais importante que a reunião. Como o Evangelho desinstala e incomoda, é a presença-testemunho, a presença-fermento, a presença-incômodo do grupo que levará à transformação.

11.      Os NCA devem usar algum método de trabalho especial?

O método de trabalho do NCA deve ser aquele que a Igreja vem usando: o VER-JULGAR-AGIR-AVALIAR.

12.      Os membros do NCA só atuam no ambiente, ou também na paróquia?

O NCA vai, como já dissemos, alimentar-se na comunidade eclesial. Por isso, dependendo da disponibilidade e da vocação de cada um, os membros do NCA poderão colaborar nas atividades paroquiais.  Não se pode esquecer, porém, que a vocação do leigo é ser presença da Igreja no mundo; atuar especificamente na Igreja é resposta a uma convocação...

B.      Algumas definições e alguns conceitos

1.      Podemos definir o NCA como “um grupo de cristãos com capacidade de liderança, pertencentes a um mesmo ambiente e que, conscientes de sua responsabilidade de transformar cristãmente o mundo, juntam-se para VER-JULGAR-AGIR-AVALIAR a conquista do seu ambiente”.

2.      Convém esclarecer alguns conceitos que, ou entram na definição, ou com ela se relacionam:

a)      homem – pessoa, princípio, sujeito e fim de todas as instituições sociais.

b)      ambiente – conjunto de circunstâncias nas quais o homem vive e se realiza.

c)      instituição – instrumento de controle social próprio de uma cultura (universidade, empresa, fábrica, hospital).

d)      estrutura – forma que toma a organização interna de um determinado grupo social (Ministério da Educação, Banco Central, uma Diocese).

e)      sistema – conjunto de princípios, normas e procedimentos que regulam as estruturas (capitalismo, marxismo, comunismo, socialismo).

3.      É importante não confundir os conceitos...

a)      A instituição ou a estrutura é uma situação estável onde os homens se relacionam funcionalmente, para realizar um trabalho e conseguir um objetivo.

O homem pode estar numa instituição ou estrutura:

ü       pela força: o prisioneiro, no cárcere;

ü       pela remuneração: o empregado, na empresa;

ü       pela conveniência: numa empresa comercial e não industrial.

 

 

b)      Pode ser que numa instituição ou estrutura, as pessoas se relacionem de modo a compartilhar certos valores e desvalores que influenciam seu modo de agir e de pensar: essa situação é um ambiente.

c)      Conclusão: o sistema regula a estrutura das instituições, em cujos ambientes se movem os homens. O homens podem modificar os ambientes de modo a atingir progressivamente as estruturas e as instituições, chegando a questionar os sistemas que as regulam...

ü       A perestroika permitiu que os homens que se moviam nos diversos ambientes das estruturas e instituições soviéticas, viessem a questionar os sistema comunista que a originou e controlou durante décadas.

ü       Os cristãos, ao se reunirem em NCA, nos ambientes de uma determinada estrutura (uma empresa, por exemplo), podem chegar a questionar o sistema – no nosso caso o capitalista neoliberal – que a ampara e produz injustiça.

ü       Fica claro, pois, que a ação do NCA tem uma amplitude considerável e leva, necessariamente, a uma abertura, a uma tomada de posição, a um assumir de compromisso em nível social, político, etc.

C.      O núcleo inicial e sua ampliação:

1.      Um núcleo pequeno de cursilhistas, ao descobrir sua vocação de “fermentar evangelicamente seu ambiente”, vai perceber que, para transformá-lo, precisa buscar outras pessoas (não só cursilhistas) com as quais compartilhe idéias, valores, atitudes e que, além disso, também manifestem inquietude em relação ao mundo que as rodeia.

2.      Esse núcleo pequeno vai, pois, como todo grupo humano, crescer, amadurecer e compactar-se. O processo de crescimento desse núcleo poderá ser observado em três passos.

a)      detectar – o núcleo inicial de cursilhistas detectará em seu ambiente concreto as pessoas que possuam as qualidades mencionadas acima (item 1);

b)      motivar – o núcleo inicial colocará para essas pessoas suas próprias inquietudes, a fim de melhorar, entre todos, o nível de vida integral no seu ambiente;

c)      atuar – à medida que o núcleo vai-se formando e mentalizando, deverá atuar de tal forma que os valores do Evangelho passem a impregnar o ambiente e a transformá-lo.

3.      Para que isso aconteça, os membros daquele núcleo inicial precisam:

a)      estar profundamente convencidos de sua responsabilidade cristã de transformar o ambiente e de que o núcleo ambiental é o meio para consegui-lo;

b)      ter decidido comprometer-se seriamente a transformar cristãmente seu ambiente através de um NCA;

c)      buscar apoio na palavra de Deus, na orações, nos Sacramentos e na comunidade.

D.      Estratégia da formação do NCA

1.      É preciso detectar líderes. Para isso, é bom saber com clareza o que é líder e saber diferenciá-lo do caudilho ou, da pessoa que ocupa um cargo diretivo.

a)      o caudilho impõe autoridade, infunde medo e temor, exige obediência, ordena com violência decide tudo ele mesmo; é dominante e impositivo, utiliza sempre o “eu” e se faz servir pelos demais...

b)      o líder ganha a cooperação, infunde respeito, influi com suavidade e firmeza, delega responsabilidade; utiliza o “nós”, é compreensivo, sugere e é o que mais serve.

2.      Como buscar o líder?

a)      auscultar o ambiente e investigar de onde provêm as idéias, os valores e as atitudes que caracterizam o ambiente e quais são as pessoas que as promovem;

b)      diagnosticar os líderes de quem convém acercar-se e conquistar para a causa do Evangelho;

c)      começar a tratar a pessoa detectada como líder positivo;

d)      pelo tato, consegue-se conhecer a pessoa e descobrir suas inquietudes, valores, atitudes, desejos, etc.;

e)      quando se tiver conseguido sua amizade, pode-se propor a ela nosso ideal, com esperança de êxito.

3.      Como motivar as pessoas?

a)      oferecendo um testemunho de vida que as convença e atraia: de responsabilidade, preocupação pelos demais, honradez, autenticidade, sinceridade, espírito de serviço, etc.;

b)      apresentar com convicção as próprias inquietudes e comunicar o que se está fazendo para melhorar a ambiente;

c)      pedir colaboração ou ajuda para elaborar um plano de ação a fim de trabalhar juntos na transformação ambiental.

 

 

4.      Como atuar progressivamente?

Elaborar um plano de ação com base no método VER/JULGAR/AGIR/AVALIAR. em função do ambiente concreto.

a)      VER – observar e analisar:

ü        as idéias predominantes,

ü        os valores que subjazem no comportamento das pessoas,

ü        as atitudes que se manifestam mais freqüentemente,

ü        os critérios segundo o quais se tomam decisões,

ü        os problemas que afetam mais a maioria,

ü        as aspirações, inquietudes, temores e angústias das pessoas,

ü        a vontade de mudança,

ü        as tentativas de rebeldia, etc.

b)      JULGAR – confrontar a realidade observada:

ü        com os valores humanos da pessoa,

ü        com os valores cristãos,

ü        com os direitos inalienáveis: vida, liberdade, destino de auto-realização, o bem comum e os meios para consegui-lo (verdade, justiça, amor, paz, etc.).

Analisar as causas dos contrastes entre o que é (VER) e o que deve ser (JULGAR).

c)      AGIR – Traçar um plano geral de trabalho, no qual figure um modelo ao qual se quer chegar e algumas metas concretas que poderiam ser, por exemplo:

ü        melhorar as condições de vida humana (salário justo, condições de higiene e salubridade, seguro social, horário de trabalho e descanso, etc.);

ü        despertar o sentido de solidariedade, entre as pessoas do ambiente, preocupando-se com os problemas dos demais, compartilhando as angústias e alegrias dos companheiros, etc.;

ü        à medida que se conseguirem resultados positivos, suscitar, individual ou grupalmente, a necessidade dos valores evangélicos como o caminho para conseguir que os homens vivam felizes;

ü        à medida que surgem certas perguntas de fundo, anunciar explicitamente a pessoa de Cristo e sua mensagem libertadora; suscitar a necessidade de uma formação humana e de uma crescente espiritualidade laical;

ü        daí em diante, a criatividade do núcleo que já está motivado com critérios cristãos o fará descobrir nova ações para transformar o ambiente.

d)      AVALIAR – Refletir periodicamente sobre o processo que está sendo seguido no cumprimento do plano proposto, para verificar os resultados e as causas dos êxitos ou fracassos.


 

 

Fontes de consulta:

Conclusões do V Encontro Interamericano, Santo Domingo 1980

Trabalho do Brasil sobre “Caminhos Novos”, IV Encontro Mundial Caracas, 1988

Entrevista do Pe. José Gilberto Beraldo, publicada no Boletim Alavanca

Grupos ambientales del MCC, Secretariado Nacional de Assunção, Paraguai, 1986

VI Encontro Nacional do MCC do Brasil, 1999

Missão e Ministérios dos Cristãos Leigos e Leigas, Doc. 62, CNBB

X Encontro Interamericano, Guatemala, 2000

 

Elaborado por Maria Elisa Zanelatto, em 23.10.90; quarta revisão em 21.03.2002

 

NÚCLEOS CRISTÃOS [1]

Fermento de Evangelho nos Ambientes

 

Pablo Porres Rodriguez

 

Em agosto de 1996, por convocação do Secretariado Arquidiocesano de Guatemala, reunimo-nos, um grupo de coordenadores de Cursilhos e coube  a mim dar uma palestra sobre a Essência e Finalidade do MCC. Eu o fiz partindo, naturalmente, da definição vigente desde o primeiro Encontro Latino-americano realizado em Bogotá, Colômbia no ano de 1968, e que foi acolhida por Idéias Fundamentais.

 

Nessa reunião,  foi motivo de múltiplos comentários a frase final da definição que diz: “...e PROPICIAM A CRIAÇÃO DE NÚCLEOS DE CRISTÃOS QUE  FERMENTEM DE EVANGELHO OS AMBIENTES”.

 

Claro que essa frase já era muito conhecida, porém nunca antes, que eu saiba, esses núcleos haviam sido motivo de inquietações,  discussões e  estudo por parte de nossos dirigentes. Em novembro de 1996, o Secretariado convidou-me para dar uma palestra em uma sessão extraordinária da Escola de Dirigentes na qual eu deveria expor o que já se havia investigado sobre o tema. Depois desse evento, despertaram-se  interesse e empenho inusitados para descobrir o verdadeiro sentido desses núcleos:  como devem integrar-se, para que devem existir, quando devem ser criados,  com qual projeção, etc.. Sei que essa inquietação é partilhada, hoje em dia, por vários Secretariados Nacionais e nos dá a impressão de estarmos despertando depois de um profundo sono.

 

O Secretariado Arquidiocesano  solicitou a um Grupo de Reflexão da Escola de Dirigentes a que pertenço que realizasse um estudo profundo sobre estes núcleos, o estamos fazendo com grande entusiasmo, embora ainda não tenhamos chegado a conclusões e recomendações finais. Quando entregarmos o trabalho,  recomendaremos ao Secretariado que o analise,  emende-o e  aprove-o, pondo-o, em seguida, à disposição da Escola de Dirigentes para que o Movimento na Arquidiocese o assimile e o assuma; e que oportunamente,  proponha-o ao Secretariado Nacional para que, se for aceito, possa desencadear   o mesmo processo em todas as Dioceses da Guatemala.

 

O que vai ser lido, em seguida, nada mais é do que um resumo da palestra já referida, bem como de algumas idéias que foram surgindo e que temos partilhado com o grupo de reflexão. Portanto, todo o conteúdo do artigo é, por ora, opinião estritamente pessoal do autor.

 

Esse  assunto - a criação de núcleos de cristãos que fermentem de Evangelho os ambientes - não foi assumido com a necessária profundidade. Entretanto, estes núcleos são vitais para que o MCC possa realizar sua finalidade última, para o  qual foram criados os Cursilhos, ou seja,  fermentar de Evangelho os ambientes provocando neles uma mudança a favor de Cristo: mudança nas estruturas e na sociedade completa, até conseguir alcançar a missão deixada aos cristãos   pelo próprio  Cristo, ou seja, a de estender seu Reino entre os homens.

 

Sobre esses núcleos como fermento evangelizador, muito se escreveu desde os inícios do Movimento. A princípio falava-se em vertebrar cristandade; depois, de estruturação cristã da sociedade, de impregnar de Evangelho os ambientes e as estruturas... Agora falamos de evangelizar os ambientes. É tudo a mesma coisa, são diferentes, apenas os modos de expressar essa mesma finalidade. Finalidade que não se consegue senão por meio de grupos, comunidades, equipes, ou seja, através dos núcleos aos quais agora nos referimos.

 

Sejamos francos, porém: esse é um assunto que ainda não compreendemos! Mesmo sabendo que ele nos compromete numa árdua tarefa, temos preferido “fazer vistas grossas” e refugiarmo-nos em nossa Reunião de Grupo.

 

Já na Carta Pastoral de Mons. João Hervás “Os Cursilhos de Cristandade, instrumento de renovação cristã” aparece o conceito e o chamado à “vertebração da cristandade” assim descrito: “(...) Os Cursilhos de Cristandade, buscando e forjando peças necessárias e imprescindíveis, situando-as no seu exato lugar numa função concreta  e pessoal e vinculando-as organicamente entre si para que rendam eficazmente para dentro e para fora, estruturam e vertebram cristandade”.

 

O Padre João Capó, um dos primeiros ideólogos do MCC, assinala em um dos seus numerosos escritos sobre Cursilhos: “vertebrar cristandade significa construir ordenadamente, buscando a peça exata   para cada lugar e o lugar exato para cada peça.”

 

Esses “lugares” são os ambientes; essas peças somos nós, os que tivemos a felicidade de experimentar um encontro com o Senhor num Cursilho de Cristandade. A partir daí  estamos  num processo de conversão e temos  a responsabilidade  de procurar “nosso lugar exato”.

 

Temos que nos convencer de que sem estes núcleos os Cursilhos não penetram, não se fazem sentir na sociedade, não são capazes de cristianizar nenhuma estrutura, nem a política, nem as artes, nem a cultura, nem a educação, nem a indústria, nem o comércio, nem os meios de comunicação, nem os diferentes estratos econômicos, nem os sindicatos... Entretanto é esse, precisamente, o objetivo principal para o qual os Cursilhos de Cristandade existem.

 

Os Cursilhos não existem para evangelizar a paróquia ou para que os cursilhistas criem novos movimentos na Igreja. Embora esse trabalho por si mesmo seja merecedor de elogios, não é essa sua finalidade última. São para algo muito mais amplo; são para propiciar, sem nenhum exagero, a salvação deste mundo profundamente enfermo, inseridos e comprometidos com a pastoral dos ambientes. Enquanto o MCC não se encaminhar para essa grande conquista, poderá continuar sendo um precioso presente do Espírito Santo para os homens. Colocado nas mãos dos homens, esse é um presente que não temos sido capazes de descobrir; diria eu que nem sequer desembrulhamos.

 

Essa verdade soa muito dura para muitos que acham que não é tanto assim; que os Cursilhos foram transformando, sim, os ambientes para Cristo, que mudaram muitas famílias, centros escolares, setores determinados, etc.. Permito-me dizer a eles que, de fato, fizeram muito bem para a humanidade e que, sim, mudaram muitos ambientes. Digo-lhes, porém, que isso nunca será suficiente, ou que, mesmo parecendo suficiente, poderia  e deveria  estar melhor... Porque, repito, os cursilhos existem para algo muito maior. A Igreja, e sobretudo seu Divino Fundador Jesus Cristo,  estão esperando por alguma coisa muito melhor.

 

Senão vejamos: nos últimos trinta e cinco anos, desde que existem os Cursilhos na Guatemala, somente na Arquidiocese demos 178 Cursilhos para homens e 152 para mulheres; calculando a média de 35 pessoas por Cursilho, em 335 Cursilhos atingimos 11.550 pessoas; em todo o país talvez umas 25.000 pessoas. De acordo com os princípios do pré-cursilho é de se supor que fomos escolhidos por ser líderes em nosso ambiente e, como conseqüência, agentes de mudança. As perguntas que se fazem, então, são: “Temos conseguido, ao menos, que diminua a criminalidade? Que haja menos corrupção? Que haja justiça social? Que melhorem os meios de comunicação social? Há mais amor entre os seres humanos?” Parece-me que a resposta honesta deveria ser um rotundo  NÃO. Claro está que não se trata de afirmar que o MCC tenha que fazer tudo isso sozinho; a Igreja é grande, possui outros movimentos e recursos; porém reflitamos: temos feito nossa parte? E então: será que fomos bem selecionados por nossos padrinhos? ou será que não procuramos candidatos líderes?

 

O que acontece, então? Tentarei dar uma resposta a essas interrogações. Há três causas fundamentais que enfraquecem a projeção do Movimento, a saber: primeira: não atendemos adequadamente ao pré-cursilho: não buscamos nossos candidatos com o critério da eficácia; não buscamos e convidamos o candidato que “deve ir” mas o que nos “cai bem”, nosso parente, cunhado ou amigo, ou alguém que desejamos que mude seus maus hábitos; não nos interessa se, depois, será ou não um agente de mudança no seu ambiente para evangelizá-lo. Muitas vezes, então, quando o convidaram para o Cursilho não foi Cristo que triunfou; quem triunfou  foi nossa preguiça.

 

Segunda: os “rollos” do cursilho, assim como os temos na Guatemala, provocam no participante uma visão estreita do que é “ambiente”. Falamos a ele, com exagerada ênfase, do SEU ambiente de família, do SEU ambiente de trabalho, do SEU ambiente de amizade. Quase lhe dizemos: ”cuidado para não pensar que existem outros ambientes”. Estou exagerando um pouco, mas é para que me entendam, amáveis leitores: quero dizer que somos inclinados a esse reducionismo e, em conseqüência, a insistir que ele seja fermento de Evangelho nesses três ambientes aos quais  deve voltar; mostramos a ele um mundo pequeno, o seu, que ele deve evangelizar. Não lhe facilitamos, porém, a visão de um amplo horizonte do mundo que tem sede de Cristo e, além disso, não conseguimos motivar nele um espírito comunitário. Então, estamos colocando barreiras à verdadeira e esperada projeção do MCC. Deve-se  revisar  o Cursilho três dias.

 

Terceira: como não são buscados candidatos “vértebras” e como os que fazem  o Cursilho  saem dele pensando unicamente nos seus três “ambientezinhos” [2] naturais nos quais agem de forma individualista, como franco-atiradores, não se consegue a criação de núcleos que realmente penetrem e fermentem de Evangelho os ambientes e, dessa maneira, jamais os Cursilhos hão de alcançar sua finalidade última.

 

E sabem o que mais? Sempre confundimos  as Reuniões de Grupo com os núcleos de fermento do Evangelho. Talvez os iniciadores pensassem que dava na  mesma;  porém nós nos demos conta de que o mundo de hoje é diferente; mudaram os costumes, os hábitos de vida, as culturas; se assim foi a mentalidade, isso hoje em dia não é mais  correto; as reuniões de grupo não são necessariamente os núcleos de fermento de Evangelho. Hoje em dia não é para isso que existem as reuniões de grupo.

 

Claro que essa confusão pode acabar sendo muito cômoda; porém, continuar fazendo Cursilhos para que as pessoas façam reunião de grupo e nela  se refugiem, não é nem o que o Senhor e nem o que a Igreja esperam do Movimento. Que é bom fazer reunião de grupo, ninguém duvida; quero dizer, porém, que isso não é tudo; que não termina aí a missão para a qual Cristo conta conosco. Salvo se como  exceção, alguma reunião de grupo constitua um  núcleo por suas características próprias.

 

A reunião de grupo pode ser um grupo de amigos que se tornem cada vez mais amigos entre si e mais amigos de Cristo, e que cada vez mais se comprometam com a Igreja; a reunião, porém, é composta de pessoas que, hoje em dia, vêm de diferentes ambientes; essa reunião, então, deve ser como um porta-aviões de onde decolamos, depois de “esquentar os motores”, em direção aos nossos respectivos ambientes, onde existem  núcleos fermentadores de Evangelho que nos esperam. É em nosso ambiente ou comunidade, que  está o nosso compromisso batismal firmado com o Senhor, com amor e liberdade absoluta; é ali que devemos ir para facilitar a formação de núcleos ambientais; não importa que sejam formados por cursilhistas e não cursilhistas. Trata-se de que seja um núcleo de cristãos comprometidos, que amem a Cristo e que desejem,  fervorosamente, que outros O amem e O sirvam.

 

Se lermos a fundo “Idéias Fundamentais”, vamos chegar à conclusão de que a maior parte de seus capítulos fala-nos da necessidade de criar núcleos para fermentar de Evangelho os ambientes. Com diferentes frases e palavras, sempre, porém, referindo-se à consecução da finalidade última do MCC, os capítulos sobre “Mentalidade”, “Essência e Finalidade”, “Método e Estratégia”, “Pré-Cursilho”, “Cursilho” e “Pós-Cursilho” nos repetem à saciedade essa idéia.

 

A criação desses núcleos, mais que importante, é essencial no MCC; isto pode ser  afirmado  sem medo de errar.

 

É natural que tudo isso provoque a interrogação do “COMO” e outros questionamentos. Tento dar uma resposta: de fato, já existiram esses núcleos, devido aos anseios apostólicos de muitos bons cursilhistas; em fábricas, centros hospitalares, algumas instituições estatais, etc. Penso, entretanto, que se fez um trabalho empírico, não sistemático e metódico como deveria ser feito. Sou de opinião que, na criação dos núcleos, primeiro devemos planejar  quem os formarão; buscá-los, “vender-lhes a idéia”; vincular organicamente o grupo e de maneira permanente; traçar objetivos concretos e que estejam de acordo com o ambiente ou a comunidade a evangelizar. Poderá ser um condomínio, um ambiente de trabalho, um povoado (pequena vila), uma paróquia, uma empresa, uma instituição, uma estrutura. Os planos de evangelização devem ser concretos e adequados. Em alguns casos a evangelização será uma obra social; em outros, estudo bíblico; em outros, alfabetização; poderá ser o ensino do catecismo, da Doutrina Social da Igreja; isto é, o “que fazer” do grupo pode ser tão diverso  como diversas são as carências e necessidades do ambiente, comunidade ou estrutura a evangelizar.

 

Para tudo isso, temos que dar asas à nossa criatividade; não esperemos receitas ou fórmulas porque estas não existem e nem vão existir. A única regra poderá ser a de Pe. Capó: “buscar a peça exata para cada lugar e para cada peça o lugar certo”.

 

Compreendo que este artigo haverá de provocar muitas inquietações. Oxalá assim seja! E talvez a maior interrogação será: mas... como se começa? quem vai fazê-lo? a quem procurar?. Procuro ilustrar com um exemplo: pensemos numa Ultréia cujos participantes estejam bem mentalizados sobre a imperiosa necessidade de criar estes núcleos evangelizadores; pensemos que dela participam uns cinco engenheiros, quer dizer, da mesma agremiação ainda que de diferentes ambientes. Eles procuram encontrar-se, reúnem-se, trocam idéias sobre suas inquietações apostólicas; decidem constituir-se como núcleo evangelizador na associação de Engenheiros e, por extensão, da construção. Cada um deles realiza sua tarefa e, por sua vez, reúne outros três ou quatro amigos da associação: um ou dois do que participaram uma vez de Cursilho ou mesmo dos que não participaram, mas que sejam pessoas com atitude a aptidão adequadas.  Formam um núcleo evangelizador. Se cada um do primeiro grupo fizer o mesmo, teremos já uns cinco núcleos que vão dando frutos. Da mesma forma pode isso acontecer com outras agremiações ou pessoas que tenham atividades similares. Por exemplo, "visitadores médicos". [3] Ou então, qualquer núcleo poderá nascer independentemente da Ultréia; pode surgir num hospital, num meio de comunicação concreto, numa empresa, etc. O importante é que se mantenha sua vinculação orgânica e permanente até preencher seu objetivo.

 

Ofereço, caso a direção da Revista Fé concorde, continuar colaborando sobre o tema. Escreverei eu mesmo ou qualquer outra pessoa daqui. Queremos, porém, inquietar nossos irmãos da América para que o MCC se abra nesse sentido; para que o MCC chegue a ser um instrumento eficaz de renovação cristã; instrumento esse que se deixe perceber na sociedade e que, como lhe foi confiado, consiga estender o Reino de Deus entre os homens.


 

[1]  Artigo publicado pela Revista FÉ (OLCC = Oficina Latinoanericana de Cursillos de Cristiandad, Guatemala) em número sem indicação de data. Recebido pelo GEN em meados de jul/98. Traduzido por Pe.Beraldo e revisado por Maria Elisa Zanelatto.

 

[2]  Em espanhol “ambientitos” no sentido de redução das possibilidades evangelizadoras do cursilhista

[3]  categoria profissional na Guatemala, similar aos para-médicos.

NÚCLEOS AMBIENTAIS: DO GÊNESIS AO APOCALIPSE  [1]

 

Pe. José Gilberto Beraldo

Assessor Nacional MCC

 

Quando Deus iniciou a criação do céu e da terra,

a terra era deserta e vazia (Gn 1,1).

“Deus viu tudo o que havia feito. Eis que era muito bom” (Gn 1,31)

“Deus abençoou o sétimo dia e o consagrou...” (Gn 1,3).

 

No princípio era o Cursilho. E do Cursilho brotava a Reunião de Grupo. E a Reunião de Grupo era a estrela da criatividade apostólica de um grupo de jovens santamente intencionados, da Igreja Particular de Palma, na Ilha de Mallorca (Espanha). E a Igreja, pelo seu Bispo D.Juan Hervás, viu que aquilo era bom. Era muito bom. Bom para as pessoas distanciadas de Deus. Bom para uma Igreja fechada sobre si mesma. Bom para dispor - ainda que disso não se suspeitasse - uma parcela da Igreja, mesmo que pequena,    para entrar no clima de preparação para o  Concílio Vaticano II. E, então,  apareceu a Ultréia: uma reunião das Reuniões de Grupo. E apareceu  a Escola de Dirigentes. E tudo isso era muito bom.  E teve início o Movimento de Cursilhos de Cristandade.

 

 

 

Deus os abençoou e lhes disse:

“sede fecundos e prolíficos, enchei a terra...(Gn 1,28).

“Contempla o céu e conta as estrelas, se conseguires contá-las.

 Depois disse: tal será a tua descendência”  (Gn 15,5). 

 

E o Movimento, que era muito bom, expandiu-se por muitas regiões da terra bem mais depressa do que era dado imaginar. E porque  tudo era muito bom, durante dezenove anos foi propagando sua proposta, testemunhando sua prática, praticando seu testemunho. E isso era sua realização, sua glória, seus limites e suas fraquezas. Sem exagero de códigos. Sem excesso de  prescrições. A não ser as dos iniciadores. Sempre presentes, aqui e ali. Eles mesmos, o Cursilho vivo. E tudo isso vinha responder, ainda que nos limites de uma  proposta nascida de alguns, aos anseios de uma Igreja que, como a de Mallorca, andava acomodada quase que somente nas suas instituições mais tradicionais. Uma Igreja voltada para dentro de si mesma. Uma Igreja fechada para o mundo das segunda e terceira ondas. As ondas  da modernidade e da pós-modernidade. Mas que era convidada a abrir suas janelas para a entrada do sopro de ar fresco do Espírito Santo, como afirmou o  Papa João XXIII ao convocar o Concílio Vaticano II.

 

 

 

“Eu, eu vou instituir a minha aliança convosco,

 com a vossa descendência depois de vós...” (Gn 9,9).

 

Então chegou 1968. Dezenove anos de prática daqueles Cursilhos providenciais, inspirados, pródigos em frutos amadurecidos para a Igreja, já eram decorridos.  Em Bogotá, na Colômbia: Congresso Eucarístico Internacional, presença profética de um grande Pontífice da Igreja, o Papa Paulo VI; Assembléia Geral dos Bispos da América Latina (CELAM) em Medellin, com suas repercussões universais, também com a palavra providencial e o carisma de mesmo Paulo VI; I Ultréia Latino-americana e I Encontro Latino-americano do Movimento de Cursilhos. Sem sombra de dúvida, era o Espírito de Deus criando  o clima ideal para uma primeira revisão da marcha e uma possível correção de rota do Movimento, mundo afora. O que se propunha era  uma “nova aliança” com a Igreja e com a História! Uma aliança marcada pelo diálogo, pelo reconhecimento da responsabilidade pessoal e da liberdade de escolha, pelo respeito às opções e pelo exercício da solidariedade universal.

 

 

 

“Não te chamarão mais com o nome de Abrão,

senão que teu nome será Abraão,

pois te concederei tornar-te o pai de uma multidão de nações...” (Gn 17,5)

 

E  aquela primeira criação foi acrescentada.  A iniciativa apostólica que animava e ajudava tantas  pessoas na caminhada de um quase sempre doloroso  processo de conversão, abria-se ainda mais para as realidades do mundo, adequando-se às circunstâncias históricas em cada vez mais acelerada mutação. E teceu-se  a definição do Movimento de Cursilhos. Uma tessitura  permeada pela essência, pelo carisma,  pelo objetivo, pela  razão de ser, pela explicação e aplicação pastorais no contexto da práxis eclesial. Eis o bordado no seu original:  Os Cursilhos de Cristandade são um Movimento de Igreja que, mediante um método próprio, possibilitam a vivência do fundamental cristão, criando núcleos de cristãos que levem o fermento do Evangelho aos ambientes, ajudando-os a descobrir e a realizar a vocação pessoal de cada um e respeitando-a, ao mesmo tempo(Cf. Revista ALAVANCA, n.28, out/68). Surge, então e bem delineada, a proposta da missão específica do MCC: “fermentar de Evangelho os ambientes, através de núcleos de cristãos”.  Pois, daqui para a frente,  “teu nome será Abraão”!

 

 

 

“Enquanto a terra durar, sementeiras e colheitas –

frio e calor, verão e inverno, dia e noite – jamais cessarão” (Gn 8,22).

 

E fez-se, então, um novo ser. Não sucedâneo e nem substitutivo do primeiro. Mas seu companheiro e seu complemento. Fez-se o “núcleo ambiental”. E todos voltaram para  casa ao mesmo tempo felizes e temerosos: estava lançado o desafio e concretizada a proposta de uma renovação em profundidade que colocariam os Cursilhos no compasso do dinamismo da Igreja. Ainda que obscuro e nem sequer pensado o conceito, talvez pudessem estar-se escondendo nas dobras da proposta  e da prática do núcleo, alguns traços ou germes do que, bem mais tarde, chamar-se-ia de “inculturação”: inserir  o fermento do Evangelho na cultura e nas culturas. Que é um processo perene - “enquanto a terra durar” - para que não cessem, jamais, sementeira e colheita.  E sementeira e colheita só serão possíveis com sementes vivas, de boa cepa, resistentes “ao frio e calor, verão e inverno, dia e noite” e adequadas ao solo onde serão lançadas. E será a colheita abundante, se houver cuidado no trato contínuo, vigilante e dedicado do plantio.

 

 

 

“Vou ficar de guarda,

em  pé sobre a muralha;

vou ficar espiando para perceber o que Javé vai me falar,

para ver como vai responder... (Hab 2, 1)

 

Quiçá, mal se davam conta aqueles corajosos inovadores, que os “núcleos”, embora genuína inspiração do Espírito de Deus para um momento-chave  no qual ainda sequer se mencionava “inculturação”, não se encaixavam totalmente nas intenções dos iniciadores. Ou sim, encaixavam-se? Pois não estavam eles  – os iniciadores – não estavam eles lá, em Bogotá?  Com sua presença animavam; com seu carisma inspiravam; com sua palavra orientavam; com seu testemunho moviam; com seu ardor aqueciam! E porque, então, não apareceu “Reunião de Grupo” na definição oficial do MCC?  E porque, dali em diante, o oficial,  no MCC, é  “núcleo” e não  “grupo”? Não teriam tido aqueles iniciadores autoridade bastante para impedir tais “excrescências”? Ou, então,  para cortar, já no nascedouro, tais “extrapolações” da obra por eles iniciada há  dezenove anos? Pois então, deve-se convir: se não impediram foi porque consentiram. Ou concordaram. Ou aceitaram.  O que vem dar na mesma. [2](2)

 

 

 

 “Deus disse:

‘Que haja um firmamento

no meio das águas,

e que ele separe as águas das águas!” (Gn 1,6)

 

Estava, pois, criado, no seio do Movimento, uma espécie de divisor de águas, ambas necessárias: de um lado,  o “mal”, o núcleo. O mal que é o oficial. Do outro lado, o “bem”, a reunião de grupo,  que não é oficial. Mas é a tradição. Que merece respeito e que deve continuar sendo praticada, enquanto ajuda; enquanto não se fecha sobre si mesma;  enquanto aquece o coração; enquanto estreita os laços da amizade cristã que não seja um álibi  para alienação dos problemas do mundo; enquanto incentiva a partilha pessoal para o crescimento individual  no contexto comunitário. Mas que deverá ser abominada ao se fechar, ao não admitir “intrusos” ou ao  transformar-se em coisa à parte da comunidade. Uma teimosa tradição – onde ainda existe - de quase cinqüenta anos está pondo às claras os ganhos e as perdas da reunião de grupo no estilo cursilhista (que é como se começou a dizer desde o início..) isto é, buscando seus “próprios benefícios espirituais” sem preocupação com o mundo circunstante. Seria isso, um ganho para o Reino de Deus? Ou é que isso “faz muito bem” para os cursilhistas?

 

 

 

“Ao anjo da Igreja que está em Laodicéia, escreve:

Assim fala o Amém, a Testemunha fiel e verdadeira,

o Princípio da criação de Deus:

Conheço tuas obras: não és frio nem quente.

Oxalá fosses frio ou quente!

Mas, porque és morno, nem frio nem quente,

estou para vomitar-te da minha boca” (Ap 3, 14-16).  

 

Mas... tudo continuou na mesma: mesmo Cursilho, mesma Reunião de Grupo, mesma Ultréia, mesma Escola de Dirigentes. Porque tudo era rotineiramente muito bom. Os homens e mulheres voltavam para a Igreja (sobretudo os homens); nas sacristias aumentava a oferta de mão de obra gratuita; nas “pastorais” vigentes aparecia gente nova, disposta a colaborar; outros “movimentos” vinham surgindo sempre à custa dessa “gente boa”... ou que, com essa gente, aumentava seus quadros... que os Cursilhos faziam milagre, porque não?

 

E todos (todos?!!) ou quase todos os cursilhistas faziam suas reuniões de grupo para crescer, para aumentar seu volume espiritual, para aplicar a Palavra de Deus em sua vida, mas nem sempre inserir sua vida na Palavra de Deus, isto é, na missão de transformar uma sociedade de iníqua em fraterna. E todas (todas?!!) ou quase todas as Reuniões de Grupo compareciam às Ultréias, afinal ela fora definida nos primórdios do Movimento, como a reunião das reuniões de grupo. E, mais animador ainda, todos (todos?!) ou quase todos freqüentavam a Escola de Dirigentes, plenamente conscientes de que todos somos discípulos de Jesus e aprendizes do Reino.

 

E todos (todos?!!) ou quase todos os cursilhistas eram “bons cristãos”: freqüentavam a missa dominical, dispondo-se até, contra seus antigos hábitos, a não mais “esquecer os óculos em casa”, ou “desculpe-me, hoje estou meio rouco, pede prá outro” quando convidados a fazer uma ou outra leitura; rezavam antes das refeições (depois não,  que todo mundo tem seus afazeres sempre urgentes...) juntamente com os filhos (os menores, é claro, porque os maiores.. ah! esses não se consegue mais “controlar”! Para esses, quem sabe, até um Cursilho de jovens cairia bem. Assim aprenderiam desde cedo...então vamos logo conseguir que o GED promova um  Cursilho desses: seria ótimo para manter a família unida, falando a mesma linguagem e, até, para que eles compreendam porque a gente sai tantas vezes de casa para esse infinito número de reuniões que o Cursilho inventa...!).

 

Tais “bons cristãos” eram, até, homens e mulheres de confiança para seus padres e seus bispos! Pois, irmãos e irmãs, em assim sendo, tudo era rotineiramente muito bom!

 

 

 

“O Senhor disse a Abrão: ’Parte da tua terra ,

da tua família e das casa de teus pais

 para a terra que eu te mostrarei” (Gn 12, 1).

 

E, em 1979, chegou Puebla com a III CELAM. Depois chegou  o ano de 1980. E, com ele, chegou mais um Encontro Interamericano do MCC. Foi em Santo Domingo, Rep. Dominicana. E o “mal” – a definição que não vinha dando certo – que andava meio  adormecido, acordou e voltou a atacar.  Era, quem sabe,  o momento propício da convocação, do chamado para  “partir da terra, da família” e, com coragem e destemor,  ir em busca “da terra que eu te mostrarei”!

 

 

 

“Vou pegar vocês do meio das nações...

derramarei sobre vocês uma água pura, e vocês ficarão purificados...

Darei para vocês um coração  novo, e colocarei

um espírito novo dentro de vocês.

Tirarei de vocês  o coração de pedra,

E lhes darei um coração de carne (Cf Ez 36, 24a. 25a; 26)

 

O então Secretariado Nacional do MCC do Brasil, encarregado de um tema, viu-se possuído pelo “mal” e levou suas sugestões e suas propostas de “ Caminhos Novos” ao dito Encontro. Nada mais se pediu a não ser a volta para a originalidade da definição do Movimento: que os cursilhistas se organizassem em “núcleos” para, como uma pequena comunidade – ainda que nem sempre institucionalizada – estivesse inserida, à modo de fermento na massa, nos ambientes. Que se fizessem  tentativas. Novas experiências. Afinal o que se desejava era mostrar e esclarecer que o “mal” não era tão mau como se pensava. E que o “bem” não era tão bom como se proclamava! Tornava-se urgente  reconhecer o quão doloroso é abandonar a rotina, dar-se conta do “coração de pedra” que  habita em cada peito e de como dói deixá-lo ser arrancado... mas, ao mesmo tempo, conhecer o júbilo, a alegria e a felicidade em receber um coração novo, um coração de carne!

 

 

 

“O que foi é o que será, o que se fez é o que se fará;

 nada de novo sob o sol (Ecl 1,9).

 

Quem diria: pediam-se “caminhos novos” e eis que se tentava abrir pistas para a redescoberta das propostas originais, dos antigos caminhos. “Antigos” caminhos, sim. Na teoria. Mas, na prática  ainda não palmilhados. E, sequer,  experimentados. Travou-se uma luta. Dela resultaram somente feridos; nenhum morto. Os feridos continuaram a resistir bravamente. Tentando sempre. Continuando a apontar  para o novo, para o diferente. Pois, no fundo permanece sempre a certeza: não existe mudança, não existe conversão, não são possíveis caminhos novos, se não se fizer a experiência do diferente.

 

 

 

 “As primeiras coisas já aconteceram;

coisas novas é o que eu agora anuncio:

antes que elas comecem , eu as comunico a vocês” (Is 42,9)

 

Toda experiência exige renúncia, abertura, generosidade, partilha. Ouço vozes, muitas vozes! Meus ouvidos são capazes de distinguir, claramente, algumas declarações que soam da seguinte maneira (ou semelhante...): posso trilhar, sempre e rotineiramente, todos os dias, o mesmo caminho para chegar em casa, para alcançar meu objetivo. Isso é ótimo, pois esses mesmos atalhos me proporcionam conforto e tranqüilidade: conheço-lhes todos os obstáculos; sei onde estão as pedras, quais os seus meandros, quais os riscos a que me exponho,  e quais são suas curvas mais perigosas.  Só que me sinto incapaz de vislumbrar um horizonte diferente, e nem sequer   levanto a suspeita de que  outro caminho poderia ser, até,  mais fascinante, ainda que mais arriscado; outros horizontes poderiam ser, até, mais deslumbrantes  e suas paisagens  revestidas da mais rara beleza.   Sinto-me absolutamente seguro no meu quadro de referências e na minha maneira de chegar em casa.  Então porque mudar de caminho? Não quero arriscar. Tenho, até, muita pena de outros que tentam mudar a rota costumeira (por isso mesmo sou “rotineiro”...) para contemplar novos horizontes, novas paisagens e ter novas perspectivas da história: eles, os  tais “inventores de modas” fora do esquema, vão se decepcionar, vão perder sua segurança, pode ser que tudo não dê certo – temos  certeza que não dá! - porque arriscar?

 

E, por não querer arriscar, acabo perdendo a maravilhosa oportunidade de fazer a história que é como um rio que passa: se não me lanço nela, agora, não terei outra oportunidade e a história se fará com minha ausência. Porque tudo era muito bom... porque arriscar? 

 

 

 

“Ao anjo da Igreja que está em Sardes, escreve:“.... conheço as tuas obras: tens fama

de estar vivo, mas estás morto!

Sê vigilante! Consolida o resto que está para morrer, pois não achei perfeitas as

tuas obras aos olhos do meu Deus.

Lembra-te, pois, do que recebeste e ouviste. Guarda-o e arrepende-te!

Se não vigiares, virei como um ladrão,

sem que saibas a que horas virei surpreender-te” (Ap 3, 1a; 1c-3).

 

Encontros em todos os níveis, Assembléias e  reuniões iam se sucedendo. Até que chegou o VIII Interamericano, em Buenos Aires, Argentina (1992). Novas esperanças recomeçavam a brotar. O MCC do Brasil, mais uma vez chamado à reflexão, ao estudo e a apresentar propostas exeqüíveis, fê-lo com coragem e, até com ousadia: procurou fugir de apresentações rotineiras e adotou, para o Encontro, uma comunicação moderna e didática. Produziu-se um vídeo apresentado durante o Encontro para motivar os grupos de trabalho. Entusiasmo geral pela metodologia (dos 20 exemplares levados, não sobrou nenhum..) de comunicação.

 

Novamente veio à tona, como não poderia deixar de ser, o desafio dos NÚCLEOS. E, novamente, prevaleceu a rotina. A rotina de não encarar de frente a vocação do MCC! A rotina do “em time que está ganhando não se mexe...”! A rotina do “os meios que o MCC proporciona são perfeitos. só que ainda não foram postos em prática como manda o nosso “figurino” cursilhista... ! Dessa forma, é melhor não dar atenção a esses brasileiros, gente  “rara” (em português: esquisitos...)! E, de novo, nas Conclusões do Encontro (que é pelo que se avaliam a mentalidade e a disponibilidade dos participantes), tudo continuou na mesma.

 

Não se pretende, aqui, entrar no mérito da práxis de cada cursilhista ou de cada Secretariado Nacional. Pode até suceder que os objetivos do MCC estejam sendo colocados em prática. Mas, para uma avaliação dos resultados de Encontros  o que conta é o que aparece nas conclusões, nas decisões ou nos acordos finais. E, sobretudo, na partilha de experiências! O que estamos vendo e ouvindo em Encontros, em todos os níveis, não é a tradução da teoria para a prática do Movimento.  Até quando? Dessa forma, terá o MCC garantia de preservar sua identidade?

 

 

 

“Vi então um novo céu e uma nova terra,

porque o primeiro céu e a primeira terra desapareceram

e o mar já não existe”  (Ap 21, 1).

 

Eis que acontece o IX Encontro Interamericano, 1976 no Paraguai. Carinhosamente preparado, nenhum dos Encontros anteriores ofereceu tanto subsídio, tanta sugestão, tanta inspiração. Durante quase quatro anos, através do Boletim FÉ, todos fomos nos imbuindo do conteúdo, das propostas e dos objetivos do Encontro. Os resultados corresponderam ao esperado. “Nosso Pós-Cursilho deve facilitar a integração do novo cursilhista como agente de fermentação e transformação em seu ambiente. Para isso, lembramos a consideração de IFMCC 148-149 na qual se prioriza a criação de grupos ambientais” (III Encontro Interamericano de Assessores, n.16). “Promover líderes cristãos  que possam ser protagonistas da Nova Evangelização no mundo da política, da economia, dos Meios de Comunicação Social e da cultura”  (Doc.Final IX Enc.Inter. n.19)  “Reiterar o compromisso contraído de dar prioridade aos grupos ou núcleos ambientais, dadas a finalidade última do MCC e a importância que tem para nós a Pastoral Ambiental” (idem 21).

 

Essas citações são suficientes, com certeza, para se avaliar o alcance de nossas esperanças. Estamos, ainda, a caminho. Cremos nos Núcleos como uma nova forma de evangelização urbana, de inculturação dos valores evangélicos na sociedade moderna. Apesar de todos os  argumentos, razoáveis ou álibis, tais como: “o núcleo nunca vai funcionar...”; “isso é coisa muito boa para cidade grande: nossa cidade é pequena, com áreas profissionais limitadas e não há como juntar pessoas da mesma área...”; as donas de casa não têm como formar um núcleo: não trabalham fora...”; e os aposentados...?”; “o núcleo gera desconfiança, pois as pessoas têm que se reunir no ambiente de trabalho...”;não dá para reunir as pessoas: moram muito longe umas das outras...” e por ai vão as alegações em cujo mérito não quero entrar agora! Isso é objeto para outras reflexões e para a criatividade do protagonista da Nova Evangelização: o leigo e a leiga comprometidos com o Reino de Deus. Porque, na luta, no engajamento, na profecia sofrida do seguimento de Jesus, com certeza, “haverá um novo céu e uma nova terra”!

 

 

 

“E a cidade santa, a nova Jerusalém,

eu a vi descendo do céu, de junto de Deus,

preparada como uma esposa que se enfeitou para o seu esposo” (Ap 21, 1-2)

 

A esperança continua  renascendo. Acontece o V Encontro Mundial do MCC, 1997, Seul, Coréia do Sul.  Apesar de todas as limitações, a partir, até de sua convocação e passando pelos temas  apresentados e pelos trabalhos desenvolvidos, um novo alento, uma nova oportunidade, um novo sinal, uma luz no fim do túnel recomeçam a aparecer. Leiamos, de novo, algumas das sinceras verificações e alguns dos solenes compromissos no Apocalipse do MCC:

 

 

VER:

 

1.1.        A Escola de Responsáveis  não está alcançando, com eficácia, a formação integral dos seus membros

1.2.        As Ultréias e Reuniões de grupo não fortalecem o compromisso para a transformação das realidades temporais.

 

AGIR:

 

1.              responsabilizar os dirigentes da Escola para a criação de grupos ambientais

2.              selecionar e promover, dentro da Escola, responsáveis com atitude pensante, iniciativa e criatividade que orientem e estimulem os grupos para a fermentação e penetração nos ambientes

3.              que a Ultréia e a Reunião de Grupo funcionem como meios que estimulem a fermentação evangélica dos ambientes.

 

 

 

“No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1).

 

E tudo é muito bom!

 

 

 

O que dá testemunho destas coisas diz:

Sim, eu venho em breve.

Amém. Vem, Senhor Jesus!”  (Ap 22, 20). 

 

O Senhor Jesus virá e, com certeza, vai encontrar-nos todos

 

“participando da construção

de  uma sociedade justa e solidária,

 a serviço da vida e da esperança

 nas diferentes culturas,

a caminho do Reino Definitivo”.

     

   A graça do Senhor Jesus

esteja com todos!”    (Ap 22, 21)

 

 

 

São Paulo, XXV Assembléia Nacional do MCC do Brasil

06 a 09 de novembro de 1997


 

[1] Apocalipse:  “O livro de João é alimento para a fé e fortalecimento para a esperança do povo oprimido. Para esse povo, a salvação não consiste simplesmente em melhorar a situação, mas em transformá-la radicalmente, fazendo nascer um novo mundo de justiça, fraternidade e partilha, isto é, o julgamento definitivo do mundo presente e a vinda do Reino de Deus. João mostra, porém, que esse julgamento e Reino se realizam através do seguimento e testemunho de Jesus” (Cf. Bíblia Sagrada, Ed.Past., Introdução ao Apocalipse de São João). O tema foi introduzido no título dessa reflexão,  com vistas a levantar o ânimo dos cursilhistas e a desfraldar, com maior coragem e mais ardente esperança, a proposta  dos Núcleos Ambientais.

[2] Cf. Beraldo,  J.G. “O Núcleo de cristãos e sua força transformadora”, in Revista TESTIMONIO, n.18. Nota: quem, porventura, se interessar pelo artigo citado poderá  solicitá-lo ao GEN.