Muitas vezes vivemos a vida cristã com falta de paz e alegria. Por quê? O que nos atrapalha?

            Talvez seja por causa da confusão que fazemos entre sermos santos e sermos perfeitos. Temos a inclinação, até pelo evangelho, que nos diz: “sede perfeito como meu Pai é perfeito”, a identificarmos santidade com perfeição.

            Qual o conceito que temos de perfeição? O conceito que temos de perfeição nos vem da infância: erramos, logo somos castigados por nossos pais, professores ou treinadores! Porém, se acertamos, logo ganhamos um prêmio, um elogio, ou um presente! Este conceito vai sendo agravado cada vez mais pela formação que recebemos no lar, na escola e até na catequese, e especialmente pelo nosso sentimento de culpa. Lembre-se que já refletimos sobre como formamos em nós um tipo de Eneagrama, conforme reagimos no relacionamento com nossos pais, amigos e professores.

            Passamos então a entender perfeição como: não ter defeitos, não ter vícios, não ter fraquezas, não ter falhas. Quanto mais avançamos na vida, mais observamos nossas falhas. A tendência é desanimar. Aí convém desconfiar de nossa perfeição.

            É mentira achar que se chegou à perfeição. Quando meditamos sobre as tipologias, vimos que nós todos temos vícios emocionais, compulsões e defeitos de formação de caráter, provindo de nosso relacionamento com nossos pais. Portanto a perfeição somos nós que fabricamos e a fabricamos para nós mesmos. A perfeição é ter em mente, colocarmos em nossas cabeças a idéia de que não necessitamos de Deus, do auxílio do Espírito Santo. Pensamos ser pelo nosso esforço que podemos chegar à perfeição. Daí, a perfeição não suporta o pecado. Ela é humilhada pelo pecado. O pecado é visto em relação ao próprio ideal, aí a pessoa se sente humilhada, pois por mais que se esforce, peca! E torna a pecar, pois já meditamos: somos de natureza pecadora, mas graças a Jesus podemos ser salvos.

            A perfeição é também, querer viver só com os melhores aspectos de nós mesmos. As fraquezas, os vícios emocionais, os fragmentos obscuros de nós mesmos, ficam trancados no porão de nossa existência, fermentando como uma chaga secreta. Não podemos fugir do que somos, do nosso temperamento, características tipológicas, mas sim buscarmos o equilíbrio, a centralização de nossas compulsões e vícios emocionais. Se sou extrovertido, não posso querer me tornar introvertido, mas sim, buscar o equilíbrio, tirar o excesso, buscar a harmonização, sobriedade. Isto é, ser autêntico!

Quem é autêntico encontra o meio-termo, a harmonia, o equilíbrio. Vê-se cheio de sentimentos e desejos, mas não os reprime, pois consegue, na liberdade, escolher o que lhe fará bem, e o que fará bem aos outros, mas nunca deixar de ser ele mesmo. Quanto mais eu procuro assumir meus sentimentos (raiva, irritação, paixão, esperança, orgulho, vaidade, e tantos outros), mais livre e verdadeiro me torno! Ser livre é ser você mesmo! Só quem consegue se aceitar como é pode levar uma vida saudável, ser humano, ser gente!"

Temos a tendência caro amigo, de não chegarmos a amar ninguém, não nos abrindo na nossa pretensa perfeição. Essa pretensa perfeição é uma escada que deve ser subida, degrau por degrau, para apresentar-se diante de Deus com “direitos” por ter conseguido ser “perfeito”, sem pecados. Aos poucos a pessoa começa a entrar em crise e escorregar de lá para baixo, pois sabemos ser isso impossível. Essa crise pode ser uma graça de Deus para que a pessoa perceba seu erro e reflita melhor.

            Em vez de optarmos pela perfeição em nossa vida cotidiana, é muito melhor optarmos pela busca da santidade. Como temos percebido: Perfeição e pecado não se dão bem, são opostos, inadmissíveis. Mas, santidade e pecado podem conviver juntos. Os santos são os primeiros a se reconhecerem grandes pecadores. E no evangelho e epístolas é bem claro e podemos afirmar: todos somos pecadores, e aquele que disser não ser pecador é mentiroso!

            Perfeição para nós seres humanos, limitados, cada tipo com suas compulsões, é algo que está lá no fim, e temos de chegar lá, para ser agradável a Deus. Isso dá idéia de um Deus longe, distante. Pelo contrário, a santidade é dada por Deus.

            Santidade é a luta diária para nos harmonizar, conosco e com os outros. É a busca do equilíbrio, da sobriedade. É a graça de transformar o Amor em atos. Fazer o bem às pessoas, sermos mansos, humildes, puros e misericordiosos. Em fim, sermos bem-aventurados ou beatificados, que vem de beatitude, que tem o sentido de “estar em marcha”, de “estar a caminho”. Veremos mais à frente que “Bem-aventurança”, em hebraico, quer dizer “em marcha” e a infelicidade é estar imobilizado, parado sobre a própria imagem, sobre suas compulsões, parado sobre as memórias do passado, parado sobre o sofrimento do dia a dia, doentes, estressados. Em hebraico, a palavra “doença” é “mahala”, que quer dizer andar em círculos, estar preso, fechado em seu sofrimento, em seus pensamentos ou até mesmo em suas emoções.

Por isso, sermos bem-aventurados consiste em darmos um passo a mais. Esta é uma bela definição da “espiritualidade”, de estilo de vida cristão: dar um passo a mais a partir do lugar onde estamos, com a força e a consolação do Espírito Santo. Cada uma das bem-aventuranças é um convite para nos recolocarmos em marcha, a partir do caminho que já percorremos. Há ainda muito por caminhar. As palavras do Cristo nas Bem-aventuranças poderia ser interpretada no sentido em que Ele nos convida a nos colocarmos em movimento, a sair de nossa paralisia e fixação; Ele nos desperta para nos colocarmos em marcha através de nossa sede, de nossa fome de justiça, através dos lutos que temos de superar e das oposições que temos de enfrentar! Cristo nos convida a viver uma felicidade que está em marcha.  A vida  é movimento e as bem-aventuranças possibilitam a passagem de uma vida suportada para uma vida plenamente assumida. Mas essa força não vem de nós, é dada por Deus, através do Espírito Santo que é a força de Deus que nos direciona e impulsiona. Santidade é a capacidade de amarmos como Jesus amou. Deus é Santo não porque é perfeito, mas porque é dom total. A santidade nos é dada agora, através do Espírito Santo, através do seguimento da mensagem e do testemunho de Jesus Cristo.

            Somos humilhados quando pensamos ser alguém. Somos humildes quando aceitamos ser pobres como Jesus. Cristo nos propõe que desçamos às profundidades da humildade: “Quem se exalta será humilhado, quem se humilha será exaltado”. Abrirmo-nos para a compaixão para com os irmãos.

            A santidade é essa recusa de se deixar fechar nessa fraqueza do pecado. Nós somos amados por Deus como pecadores. Jesus mesmo disse: “Eu vim para os pecadores”. A perfeição humilhada pelo pecado leva ao fechamento sobre si mesmo. A santidade nunca leva ao fechamento, mas leva ao querer ser aberto, ao abrir-se, ao doar-se cada vez mais.

            “Ide, sede perfeitos na misericórdia de Deus”, isto é: no Amor”. Deus não impõe condições para chegarmos a Ele. Olhar com misericórdia, como Deus nos olha, é só isso que basta. “Quando sou fraco é que sou forte”.          

            Somos filhos de Deus. Cada um de nós é o centro da ternura e das carícias de Deus. Você é único diante de Deus. Deus está satisfeito conosco, Deus vibra com suas criaturas. Não devemos nos arrastar até Deus. Até um passo em falso, uma queda, um pecado é um passo na direção a Ele. É maravilhoso ser tão pobre quando se é tão amado por Deus. Deixe o juízo, o julgamento para Deus. Ele tem compaixão.

            Para procurarmos viver a santidade em nossa vida cotidiana, temos dois pontos de referência:

            - a certeza do Amor de Deus por nós. Sou amado sem condições, não preciso ser bom, perfeito para merecer o amor de Deus. Deus me ama do jeito que sou!

            - ter como meta a pessoa de Jesus Cristo. Caminhar para uma configuração à pessoa de Jesus Cristo. “Tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”. A palavra de Jesus Cristo é a base inexorável de nossa fé. Pelos seus ensinamentos, sabemos em que e como devemos acreditar e, por meio dela, nos comunicamos e nos relacionamos com a Trindade Santa. Para isso temos de conhecer afetivamente toda vida de Jesus, meditar e contemplar toda sua vida, que nos é apresentada nos Evangelhos, nos profetas e nas Epístolas Católicas, bem como no livro do Apocalipse de São João. Só ao contemplarmos sua vida é que podemos ter dentro do nosso coração que Jesus Cristo é alguém que nunca viveu para si. Sempre foi um dom para o Pai e para os outros, que hoje somos todos nós.

            A nossa conversão diária e cotidiana expressada, testemunhada em perdão e reconciliação, é o primeiro passo para curar os danos do pecado, das nossas fraquezas e misérias humanas. Caro irmão e irmã decolores, temos que ter muito forte em nossa mente, que a Palavra de Deus tem uma força que ultrapassa a nossa realidade humana. Pela ação dessa palavra, que tem eficácia garantida pelo Criador, as pessoas são transformadas e tudo o mais adquire novo sentido. Se às vezes o mundo vai tão mal é porque poucos estão dispostos a dar o passo fundamental de bater no peito para reconhecer sua culpa, e arrependido converter-se a uma vida mais conforme a vontade de Deus.

            Já meditamos que Jesus Cristo e a Igreja vêm ao nosso encontro, ao encontro do pecador, para oferecer-nos o perdão misericordioso de Deus e o retorno ao caminho do bem, com um sacramento que exprime uma prática muito comum na vida de Jesus: o sacramento da Reconciliação, também chamado de Penitência ou da Confissão. Hoje a palavra “reconciliação” abrange melhor todo o sentido do sacramento, pois os termos “penitência” e “confissão” manifestam aspectos limitados desta realidade sacramental. O verbo “reconciliar” exprime uma disposição positiva e total de perdão, acolhimento e aproximação a nós mesmos, aos outros e a Deus.

            Todo pecado, por mais íntimo que seja, além de atingir o indivíduo que o comete, constitui-se numa ofensa a Deus e ao próximo. A ofensa ao irmão atinge aos outros e ao Pai de todos. Por isso o pecador deverá pedir perdão não só ao Pai, mas também a todos e a cada um de seus irmãos. Diante dessa impossibilidade e da incomodidade da confissão pública do pecado, Jesus Cristo constituiu como administradores do sacramento aos Apóstolos, cujos sucessores são os Bispos. Estes, por sua vez, conferem este ministério aos sacerdotes.

            “Jesus soprou sobre os Apóstolos dizendo-lhes: “Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados...” (Jo 20,22s)

            Caros amigos, todos nós temos necessidade do perdão. A heterogeneidade humana favorece a existência de condutas diversas e também do erro, do pecado. Mas esta diversidade não é motivo de tristeza, muito pelo contrário, só engrandece a comunidade. O mais importante é procurar a harmonia, que encontramos em Cristo. Quando alguém erra, não lhe pode faltar o perdão. Jesus viveu a natureza humana e sabe de nossas fraquezas, por isto quis nos deixar a possibilidade da reconciliação como um Sacramento, um sinal de sua presença, em “persona cristi” para nos perdoar e propor uma vida nova, “vá e não peques mais”! Desta maneira, Bispos e Sacerdotes têm a faculdade de conferir o perdão e reconciliar em nome de Deus, de quem são representantes e em nome da comunidade a que presidem. Neles, por sua vez, o cristão deve encontrar a Deus e a comunidade.

            Assim é o Sacramento da Reconciliação: um encontro com Deus cheio de misericórdia e amor, que espera com paciência, ou até “impaciência” a nossa volta, a volta do teu “filho pródigo”: “... quando seu Pai o viu, movido de compaixão, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou!” (Lc 15,20)

            Ao perdoar-nos Deus cria em nós um coração novo feito de acordo com o Seu, capaz de perdoar à sua maneira. Jesus colocou no perdão fraterno uma das características do ser cristão. Não pode dar o perdão quem não tem consciência de tê-lo recebido. A capacidade de perdoar é diretamente proporcional à experiência de ser perdoado. 

Vamos pedir como graça ao Senhor, que nos ofereça um crescente e intenso arrependimento de nossos pecados e uma profunda consciência do seu Amor misericordioso. Pedir, com insistência e confiadamente, a graça de conhecer o amor sempre fiel e ilimitado, apaixonado e compassivo, com que Deus ama a todos e a cada um dos seus filhos;

- pedir a graça de experimentar esse Amor de Deus por mim, a paixão com que me busca quando estou perdido;

- pedir a graça de corrigir as minhas imagens falsas ou distorcidas de Deus, imagens que não correspondem ao Deus Pai que nos foi revelado por Jesus Cristo.

Medite em Lc 15, a parábola do Pai misericordioso, seguindo o roteiro de oração proposto.

Somos filho pródigo toda vez que buscamos amor incondicional onde não pode ser encontrado. Por que continuamos a ignorar o lugar do amor verdadeiro e insistimos em buscá-lo noutra parte? Por que insistimos em sair de casa, quando aí somos chamados de filhos (as) de Deus? Aqui o mistério de nossa vida é revelado. Somos amados a tal ponto que temos liberdade para abandonar a casa. A bênção existe desde o princípio. Deixamos o lar muitas vezes, mas o Pai está sempre nos buscando com braços estendidos para nos receber de volta e de novo sussurrar aos nossos ouvidos: "Tu és o meu amado, sobre ti ponho todo o meu carinho ".

Qual dos irmãos eu reconheço ser?

Reflita: - é mais assustador ter de me curar como o filho mais velho do que como o filho mais moço; como posso voltar se estou perdido em ressentimento, apanhado em cenas de ciúme, prisioneiro da obediência e do dever que escraviza? Não é fácil distinguir o seu ressentimento e administrá-lo de maneira sensata. Onde quer que se encontre meu lado virtuoso, aí também existirá sempre um lado queixoso e ressentido.     E tenha sempre na lembrança, caso ainda não tenha realizado, que muito lhe ajudará se antes de iniciar o próximo tópico, você realizasse uma confissão ampla do conjunto de sua vida através do sacramento da Reconciliação. O sacramento da Reconciliação é a celebração do tocar misericordioso de Jesus, que nos liberta do pecado. Dedique um tempo da sua oração para você preparar esta confissão. Depois, procure um sacerdote para realizar o Sacramento.