Nossa experiência com dependentes químicos em recuperação

               Nestes últimos anos tenho feito algumas experiências na ajuda da recuperação de pessoas dependentes de álcool, e outros tipos de drogas e vícios, em casas de recuperação e apoio de moradores de rua. Pessoas totalmente destituídas de bens materiais, expectativa de vida, emprego ou dignidade. Quantas vidas destruídas pela droga, depressão, desânimo e desesperança! Têm sido experiências, se por um lado frustrantes, por outro, gratificantes. Frustrantes por ter encontrado pessoas que se envolvem na coordenação destas casas de apoio, por terem tido estes tipos de problemas em suas vidas, pessoalmente, ou por envolvimento de parentes ou amigos. Mas, ao se colocarem no trabalho de recuperação dos dependentes, se deixam fascinar pelo dinheiro que entra nestas casas, tanto por doações, como por aposentadorias dos dependentes; bem como por verbas governamentais destinadas a estas casas de apoio e recuperação. O fascínio pelo dinheiro, que não deixa de ser uma droga, pois conforme nos exorta São Paulo em sua primeira carta a Timóteo (1Tm 6, 10): “porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males...”. O dinheiro não é mau; mas o amor ao dinheiro, sim; faz com que estes coordenadores, que muitas vezes se intitulam de “presidentes” destas casas de apoio, de diretorias que vão se esfacelando e ficando anos à fio sem fiscalização por parte do magistério público, sem prestar contas ou se prestam contas, estas são fajutas e ajeitadas. De todo coração, tenho pena destas pessoas que um dia irão prestar contas de suas falhas e apegos aos bens materiais que eram destinados à cura e recuperação de pessoas pobres e miseráveis, mas que foram utilizados para outras coisas, diferentes destas para as quais foram doadas.

Caro amigo, o filósofo Kant não pensava outra coisa quando dizia metaforicamente: "somos um lenho torto do qual não se podem tirar tábuas retas". Em outras palavras, há nas pessoas um tipo de corrupção básica, que se manifesta maximamente, de maneira muito forte, nos portadores de poder. Por que exatamente neles? Ninguém melhor que Thomas Hobbes para nos responder, em seu livro Leviatã (1651): "assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder que cessa apenas com a morte; a razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder, senão buscando mais poder ainda". Existe, portanto uma ligação estreita entre poder e corrupção. Corrupção é usar do poder em benefício próprio. O benefício pode ser dinheiro, influência, projeção, tratamento especial. Fundamental é o segredo das transações, porque são ou imorais ou ilegais. Usam-se passiva ou ativamente presentes, pressões, fraudes, subornos e nepotismo. Corrupto é quem suborna ou aceita ser subornado para garantir benefícios para si ou para um partido ou para o governo. Bem nos dias de hoje, sinto nem ser necessário dar exemplos práticos, pois as revistas e jornais estão cheios de exemplos!

O ponto central de tudo isso, é o abuso da posição de poder. Como superar a corrupção? De princípio, sempre “confiar-desconfïando” do ser humano, porque nunca é imune de abusar do poder. Nada de dar cheques em branco. Exigir sempre a prestação de contas nas reuniões de diretoria, ter o poder distribuído, evitar a concentração de poder. A divisão dos poderes foi pensada para evitar a corrupção possível. Em seguida, o controle da sociedade usando especialmente a multimídia, a informática, que facilitam o controle. Exigir sempre transparência em todos os procedimentos. Por fim, punir os corruptos com severidade por terem cometido um delito, especialmente grave, que é lesar a coletividade, especialmente o dinheiro de doações e aquelas dotações, destinadas publicamente para os necessitados de recuperação.

            Por outro lado, ter dedicado meu tempo nessas experiências, com a recuperação de pessoas viciadas, tem sido um experimento gratificante, pois tem dado um verdadeiro sentido à minha vida, especialmente a minha vida cristã, meu seguimento a Jesus e a sua Igreja. Sinto estar cumprindo a vontade e a proposta de Jesus, explicitada no Evangelho de Mateus, capítulo 25: “vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Pois tive fome e me deste de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me recolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e vieste ver-me." (Mt 25, 34-36).  

            Através de experiência com as pessoas em fase de recuperação de dependência química de drogas, moradores de rua, na ajuda no sopão dos pobres, ou sopa do amor, que acontece diariamente, estudos em diversos livros, Internet e revistas especializadas, eu tenho chegado a diversas conclusões sobre o que leva a pessoa ao vício e a dependência química.

            Vício é uma palavra familiar, porém nem todos sabem o que significa exatamente. O vício é encoberto e dissimulado e parece entrar na vida da pessoa pela porta dos fundos. Tenho descoberto que o prazer que sentimos ao comer, fazer sexo ou ao expor o corpo ao calor do sol, é integrado numa área cerebral chamada sistema de recompensa. Esse sistema foi responsável e muito relevante para a sobrevivência da espécie humana. Quando os animais sentiam prazer na atividade sexual, a tendência era repeti-la. Estar abrigado do frio não só dava prazer, mas também protegia a espécie. Desse modo, evolutivamente, criamos essa área de recompensa e é nela que a ação química de diversas drogas interfere. Apesar de cada uma das drogas existentes, possuírem mecanismos de ação e efeitos diferentes, a proposta final é a mesma, não importa se tenha vindo do cigarro, álcool, maconha, crack, cocaína ou heroína. Por isso, só produzem dependência aquelas drogas que de algum modo atuam nessa área de recompensa. Vários são os motivos que levam à dependência química, mas o final é sempre o mesmo. De alguma maneira, as drogas pervertem o sistema de recompensa. A pessoa passa a dar-lhes preferência quase absoluta, mesmo que isso atrapalhe todo o resto em sua vida. Para quem está de fora, fica difícil entender por que o usuário de cocaína ou de crack, com a saúde já estragada, não abandona a droga. Tal comportamento reflete uma disfunção do cérebro. Quando nos sentimos frustrados, com raiva ou infelizes, provavelmente não reconhecemos que a ocorrência desses sentimentos pode ser um processo vicioso. Se não reconhecermos esse processo, cavaremos um buraco cada vez mais profundo, dentro de nós mesmos, na tentativa de fugirmos desses sentimentos que nos incomodam. Já é hora de pararmos de fugir do vício e começarmos a encarar de perto o verdadeiro significado dessa palavra. Tenho observado que a atenção do dependente se volta para o prazer imediato propiciado pelo uso da droga, fazendo com que percam significado todas as outras fontes de prazer. Podemos dizer que o mecanismo de recompensa cerebral é importante para a preservação da espécie, e ninguém é contra o prazer. Ao contrário, deveríamos estimular o surgimento de inúmeras fontes de prazer. Mas isso tudo é muito traiçoeiro, pois a dependência química cria uma ilusão de prazer que acaba perturbando outros mecanismos do nosso cérebro.

Quando uma pessoa fuma um baseado, maconha, a pessoa fica relaxada, findo o efeito, a ansiedade aumenta, pois a sintoma de abstinência é imediata. É o que os estudiosos chamam de “efeito rebote”. Para entendermos melhor este efeito ou fenômeno rebote, vamos usar um outro exemplo mais corriqueiro: toma-se um analgésico, alivia-se a dor, mas ao passar o efeito do remédio, a dor volta. Como os analgésicos não foram feitos para serem utilizados todos os dias, acabam gerando uma série de efeitos colaterais, desde gastrites, passando por sangramentos no tubo digestivo, úlceras, insuficiência renal e até certos tipos de câncer. O mais trágico é que estes analgésicos, chamados de "comuns", podem ser obtidos livremente em qualquer farmácia.

Outras drogas têm efeito diferente, o efeito rebote está na impossibilidade de sentir prazer sem a droga. É o caso da cocaína, pois passada a excitação que ela provoca, a pessoa não volta ao normal. Fica deprimida, desanimada. Tudo perde a graça. Como só sente prazer sob a ação da droga, torna-se um usuário crônico. Às vezes, tenta suspender o uso e reassumir as atividades normais, mas nada lhe dá prazer. Parece que o cérebro perdeu a capacidade de experimentar outras fontes de prazeres, ao invés desse prazer artificial que a droga proporcionou.

O Dr. Charles Schuster do Departamento de Psiquiatria e Farmacologia da Universidade de Chicago, demonstrou que pessoas que usam muita cocaína, tanto na quantidade como na freqüência, podem sofrer o fenômeno de "rebote", significando que no inicio há estimulação pelas drogas e depois vem a depressão, devido à diminuição provocada pela cocaína, de certas substancias químicas essenciais ao cérebro. Numa tentativa de recapturar o sentimento de exaltação previamente sentido, o indivíduo aumenta o uso da droga, e seu uso continuado aumenta a vulnerabilidade aos perigos da mesma. Ai mora o perigo, caro amigo, pois essa é uma das tragédias a que se expõem os dependentes químicos.

No processo de recuperação, quando a pessoa se esforça para não usar a droga, é fundamental ajudá-la a reencontrar fontes de prazer, independentes da substância química. Eu tenho procurado levar a essas pessoas o conhecimento de si mesmas, de seu temperamento, personalidade e vícios emocionais, bem como o encontro com o plano de Deus em suas vidas. Busco levá-las a um encontro pessoal com Jesus Cristo, único que pode curá-las e resgatar-lhes a auto estima e amor próprio.

Quem está de fora dificilmente entende o comportamento do dependente. “Esse cara, em vez de estar namorando, indo ao cinema, estudando, fica cheirando cocaína ou fumando crack”? É o que normalmente todos pensam. Isso dá a sensação de que o outro é fraco, com comportamentos desprezíveis e dignos de desprezo. Mas quem está passando por isso, vê a realidade de forma diferente. Na verdade, essa pessoa está doente. Seu cérebro está doente, com a sensação de que não existe outro prazer além da droga. Isso acontece também com o cigarro, que se torna uma fonte preciosa de prazer para os fumantes, e assim adiam a decisão de parar de fumar por medo de perdê-la. Eu mesmo sou um exemplo disso, pois deixei de fumar a mais de 20 anos e até hoje sinto vontade, mas digo ao meu ser: isto me fará mal, estragará a minha saúde, e simplesmente não fumo!

A maioria das pessoas não se considera viciada, porém a experiência que tenho tido, me faz acreditar que o comportamento vicioso prevalece em nossa sociedade. A maioria das pessoas bebe com moderação, mas algumas fazem uso abusivo do álcool. Há quem fume maconha ou use cocaína esporadicamente, mas existem os que fumam crack ou outra droga o dia inteiro. Porque essa diferença? A resposta está na droga ou no usuário? Parte da resposta está na tendência ao uso crônico e também na história de cada pessoa. Temos de relacionar o quando começou a usar? Como tem tido os sintomas da síndrome de abstinência? Além disso, o que vai fazer com que repita a experiência do uso da droga não é só a busca do prazer, mas a tentativa de evitar o desprazer que a ausência da droga produz.

Portanto o vício ou dependência é um processo de aprendizado. O fumante, por exemplo, pela manhã já manifesta sintomas da abstinência. Fica irritado e sua capacidade de concentração baixa. Ele fuma, o desconforto diminui. Vinte minutos depois, o nível de nicotina no cérebro cai, voltam os sintomas da abstinência e ele vai aprendendo a usar a droga pelo efeito agradável que proporciona, mas volta usar a maldita droga, muito mais para evitar o desprazer que sua falta produz.

Podemos observar então, que o vício ou dependência é fruto, do mecanismo psicológico, que a um só tempo induz o indivíduo a buscar o prazer e evitar o desprazer, e também das alterações físicas cerebrais, farmacológicas, que a droga provoca. Essa influência mútua entre aspectos psicológicos e o efeito físico irão determinar o aspecto dos sintomas de abstinência de cada pessoa.

Tenho podido observar que a compulsão é menor naquelas pessoas, que toleram a abstinência, o não uso da droga, um pouco mais. Normalmente em 15 dias já começam a diminuir os sintomas da abstinência. Mas, é maior nas que a inquietação é intensa, diante do menor sinal da síndrome de abstinência.

Podemos concluir que a dependência química pressupõe o mecanismo psicológico de buscar a droga e a necessidade biológica que se criou no organismo. Disso resulta a diversidade de comportamentos dos usuários.

A maconha é um bom exemplo. Seu uso compulsivo hoje é maior do que era há 20, 30 anos e, de acordo com as evidências, quanto mais cedo o indivíduo começa a usá-la, maior é a possibilidade de tornar-se dependente. Como garotos de 12, 13 anos, e às vezes até mais novos, estão usando maconha, atualmente o problema se agrava. Além disso, segundo estudos da UNIFESP (Universidade Federal do Estado de São Paulo), as concentrações de THC (princípio ativo da maconha) aumentaram muito nos últimos tempos. Na década de 1960, andavam por volta de 0,5% e agora alcançam 5%. Portanto, a maconha de hoje é 10 vezes mais potente do que era naquela época.

Diante disso, a Escola Paulista de Medicina sentiu a necessidade de montar um ambulatório, só para atender os usuários de maconha, e há uma lista de espera composta por adolescentes e jovens adultos desmotivados, que fumam 6 ou 7 baseados (cigarros de maconha) por dia e não conseguem fazer outra coisa na vida. Isso não acontecia quando a concentração de TSH era mais fraca e o acesso à droga mais restrito. Portanto caro amigo: cuidado! Hoje é bem mais fácil de se tornar um viciado ou dependente químico. E eu tenho observado como os efeitos são danosos, tanto para a pessoa, como para todos os que convivem com ela, bem como para toda a sociedade!

 Infelizmente em nossa sociedade existem muitos mitos, muitos dizem que quando uma pessoa ansiosa fuma maconha, fica mais relaxada. Mas tudo isso é um triste engano. Temos de distinguir, na droga, o efeito imediato do efeito cumulativo. De maneira geral, sob a ação da maconha, a pessoa ansiosa relaxa um pouco, mas esse é um efeito de curto prazo. O álcool também relaxa num primeiro momento. No entanto, as evidências demonstram que nas pessoas ansiosas, seu uso crônico aumenta os níveis de ansiedade, porque o cérebro reage tentando manter o sistema em equilíbrio.

Se alguém usa um estimulante, passado o efeito, o cérebro não volta ao funcionamento normal imediatamente. Surge o efeito rebote. Isso ocorre com qualquer droga. Tanto com a maconha quanto com o álcool, findo o efeito depressor, o efeito rebote elevará os níveis de ansiedade.  Por exemplo, a maconha diminui a concentração, a memória e a atenção. É um efeito bastante rápido. Estudos mostram que, se alguém usar maconha num dia e medir os níveis de memória e concentração no outro, eles estarão ligeiramente alterados. Isso tem um impacto bastante negativo na vida dos adolescentes. Tenho visto adolescentes totalmente esquecidos e com sérias dificuldades de aprendizado. Jovens que já haviam concluído o colegial, e não conseguiam realizar uma simples conta de somar ou diminuir. Fazê-los retornar ao estudo e trabalho é muito difícil, pois suas capacidades estavam muito diminuídas, tornando a volta ao lar, emprego e seu ambiente algo quase impossível.

É engano pensar que existe droga que melhore o desempenho intelectual. Existem sim pessoas criativas que usam drogas e produzem coisas criativas. Mas, se elas não fossem criativas por natureza, não haveria droga no mundo capaz de produzir esse resultado. Meu amigo não entre nessa, toda droga é uma droga!

Em relação à saúde, existem ainda os efeitos crônicos das drogas, por exemplo, o efeito mais grave da cocaína são os problemas cardíacos e cardiovasculares. Quando associada ao álcool, então, ela é uma das principais causas de infarto do miocárdio em adultos e jovens.

Tenho observado com as pessoas em recuperação, e até em pessoas que tenham passado por algum trauma, seja por perda de um parente próximo ou até, e principalmente por um problema de desajuste familiar, como infidelidade ou mesmo o comum: “meu amor terminou” ou “nosso gênio é incompatível”. O trauma causado pela não aceitação destas situações traumáticas e da própria síndrome da abstinência de uma determinada droga que tenha se envolvido, faz com que a pessoa inicie um tratamento médico com determinada substancia, para um propósito especifico, e após algum tempo (meses ou anos), esta pessoa continua usando essa substancia sem supervisão médica porque considera que sem ela não consegue dormir, isto acaba configurando uma toxicomania.

Assim como acontece com o alcoólatra, esta pessoa também confere a uma determinada substancia poderes sobre sua própria vida (dependência psicológica) e ambos sofrerão a Síndrome de Abstinência (dependência física) se a droga for retirada, pois droga é qualquer substância, exceto a comida, que tem determinados efeitos sobre qualquer sistema ou órgão do corpo, efeitos esses que podem ser benéficos ou maléficos.

Uma "droga” como o álcool ou cigarro, não é necessariamente destrutiva, bem como uma medicação nem sempre é saudável. Hoje em dia as pessoas acabam se viciando pelo uso indiscriminado de substancias até benéficas, visando muitas vezes coisas que lhe incomodam, ou fascinam, tais como: beleza exterior, emagrecimento, corpo atlético e “sarado”, ou o uso prescrito de vitaminas e sais minerais e o abuso não supervisionado de tais substâncias.

É muito importante lembrar que as drogas mudam a química do organismo e que os indivíduos reagem de formas diferentes à mesma droga. Uma medicação que é saudável para alguém pode ser prejudicial ou até fatal para outros.

Uso de droga ou remédios, referindo-se a substâncias legais como o álcool, cigarro e remédios prescritos, é definido como tomar uma determinada substância com um propósito determinado e nas doses e freqüências apropriadas. O distúrbio no uso de drogas começa no tomar uma substância adequada para o propósito, mas não na dose e freqüência apropriada. O uso deliberado de uma substância não para seu propósito original, mas de forma a resultar em dano para a saúde ou habilidade funcional podemos considerar como um abuso de drogas, isso é, por exemplo: foi receitado pelo medico um calmante para ser tomado na dosagem x. Se a pessoa sentir como "agradáveis" os efeitos do medicamento e passar a tomar 2 x, por sua conta e risco, isso passa a ser distúrbio no uso, porque está tomando uma droga para um determinado propósito mas de forma inadequada.

Começa a se tornar abuso, quando o medicamento passa a ser usado em tal excesso que, os efeitos colaterais da medicação (no caso de um calmante: alteração dos reflexos, sonolência, etc.) passam a ser mais importantes que a própria medicação, trazendo conseqüências na habilidade funcional. Se alguém dirigir um carro sob os efeitos de qualquer droga que diminua os reflexos, a probabilidade de acidentes aumentará na proporção direta da diminuição da capacidade reflexa de reagir.

É muito importante entender, que o uso de medicações por conta própria, pode causar transtornos e até dependência e causar comprometimento da saúde, devido aos efeitos diretos e indiretos da droga. Podemos citar um exemplo bem comum no uso errado e indiscriminado de substâncias medicamentosas, tal como, tomar antibióticos para gripe. Antibiótico como o próprio nome diz, é contra bactérias. A gripe é causada por vírus. Assim, não obtemos o efeito desejado, isto é livrar-nos do sintoma desagradável da gripe. Mas, com esta atitude errada, podemos provocar, pelo uso indiscriminado, uma diminuição da resistência do organismo às bactérias, de maneira a ficarmos vulneráveis a qualquer ataque das mesmas, pois o uso continuado de alguma droga, pode levar a tolerância, que consiste no organismo criar resistência aos efeitos da droga, sendo necessárias doses cada vez maiores para a obtenção do mesmo resultado.

Tudo isso é muito perigoso, temos de estar muito atentos, pois os efeitos colaterais que surgem são os mais diversos. Por exemplo, uma pessoa que desenvolve tolerância aos efeitos do álcool, será mais resistente aos efeitos dos barbitúricos, os quais, são classificados como sedativos. E o pior de tudo é quando a pessoa desenvolve dependência física da droga que pode ser descrita como um estado, no qual o organismo se ajustou à presença da droga. Quando a droga é retirada, surgem claros sintomas físicos de abstinência, geralmente envolvendo desconforto e dor.

Caro amigo você não pode imaginar, caso você nunca esteve próximo de uma pessoa que está tentando, ou sendo forçado a deixar de usar uma determinada droga. A pessoa fica totalmente transtornada, tendo terríveis alucinações, saindo totalmente da realidade. Poucos suportam estes terríveis efeitos, a maioria acaba desistindo da abstinência e volta ao uso, e na maioria das vezes até aumenta as doses. Quem está tentando ajudar estas pessoas, chega até a ter vontade de mandar a pessoa a usar, para que se livre da síndrome da abstinência. É triste, degradante e estressante para todos os envolvidos. Os médicos, enfermeiros e profissionais nem sempre tem a paciência suficiente de suportarem juntos do recuperando estes efeitos, e muitas vezes partem para o uso de medicamentos, sedativos e antidepressivos que acabam causando nova dependência, ou até algumas vezes aceleram o óbito do dependente. Em casos extremos, os efeitos de uma retirada súbita podem ameaçar a vida porque o organismo tornou-se dependente da droga. Quantos dependentes eu vi serem levados em estado coma alcoólico ou de “delirius tremus” para a santa casa, e lá ser ministrado uma injeção de determinado “calmante”, e a pessoa vir a morrer, pois houve uma alteração súbita do metabolismo da pessoa.

 Sintomas de abstinência tendem a ser o oposto dos efeitos da droga propriamente dita. No Brasil, Masur e Carlini no livro "Drogas - subsídios para uma discussão" definem dependência como o quanto a droga interfere na vida das pessoas, passando a ser o maior valor, e reservando o termo "Síndrome de Abstinência" como característica da dependência física.

E não pára por ai, existe outro efeito que pode ser tão ou mais destrutivo que a dependência física. É a dependência psicológica que pode ser definida, como um estado caracterizado pela apreensão emocional e mental, uma terrível ansiedade pelos efeitos da droga e por uma busca persistente da mesma. Durante a recuperação do dependente, a dependência psicológica não deve ser subestimada. Na realidade dependência física e psicológica funciona, em geral, simultaneamente, e não consegui definir, nem nos estudos que tenho feito, nem na prática com dependentes, qual das duas pragas se aloja antes, pois não é fácil separar os efeitos psicológicos dos físicos.

 Como vemos, neste assunto, tudo é muito perigoso e preocupante, pois se pode abusar tanto de drogas receitadas, pois não podemos esquecer que os “remédios” são drogas e se os usarmos errados ou por conta própria, trarão danos sérios à nossa saúde; também das drogas ilícitas, e ambas podem causar dependência psicológicas e/ou física. Algumas pessoas tornam-se dependente de medicação para alteração de humor, indutores de sono ou antidepressivos quando este risco ainda não havia sido reconhecido ou ainda no caso de médicos não acompanharem seus pacientes com o devido cuidado.

Resumindo tudo o que já falamos, sinto já ter entrado demais nestes assuntos, mas foi levado pela preocupação e experiência que tenho obtido nas pastorais que ajudo.  Pudemos refletir sobre dois conceitos fundamentais: o de dependência e o de síndrome de abstinência.

Segundo Henry Ey, na quinta edição do Manual de Psiquiatria, A Dependência ou Toxicomania: "é um problema que depende tanto da evolução social, econômica e espiritual das sociedades, quanto do caráter mórbido do indivíduo drogado e de seus motivos inconscientes. Assim, a conduta toxicomaníaca constitui uma perversão que satisfaz completamente a sua necessidade (busca do prazer, fuga do sofrimento)".

Bem caro amigo leitor, nestas simples reflexões de leigo sobre nossas compulsões e apegos desordenados às substâncias ou medicamentos que nos acalmem, tranqüilizem ou nos curem, temos podido concluir, através de nossas experiências e estudos nesta área, que vício ou dependência é uma procura compulsiva e contínua da felicidade fora de nós mesmos, apesar de sempre nos iludirmos com esse contentamento. Mais precisamente, podemos definir vício como a procura externa, compulsiva e contínua, pode nos levar à dor e ao conflito. Esse é o caminho do ego, que nos leva ao egoísmo, preocupação excessiva com o nosso prazer e bem estar, sem nos importarmos com os problemas que podemos causar aos outros, e a sociedade como um todo.

Drogas: era possível uma nova "página da vida"?

          As ondas de violência que se sucedem no Rio de Janeiro e em outras cidades nos provocam e nos interrogam. A proximidade do Carnaval é uma grande ocasião para levar a sério o problema ou para enterrá-lo de uma vez. Entre as causas variadas e muito complexas consideremos apenas uma: o uso e o comércio das drogas.

Quantas outras pessoas devem morrer em assaltos ou overdoses para ficarmos sensibilizados? Antes se dizia que a droga era dos ricos; depois virou da classe média e agora atinge a classe popular e os pobres.

A droga tem a ver com o grande problema da felicidade. É usada para anular a ânsia e sentir uma espécie de entusiasmo. Como se a razão da felicidade tivesse acabado, o entusiasmo morto, as pilhas esgotadas. (como se faltasse o ar. E aí se começa a respira-Ia, a branquinha, seu ar falso e doente.

A droga é usada para aumentar as performances, como se a vida em si fosse insuficiente. Isso significa que vivemos num clima onde faltam sempre mais as razões para sermos cheios de entusiasmo, ativos, dinâmicos diante da realidade. E então se recorre a ela, a maga branca e terrível. Como se não fosse mais possível encontrar em nós, nas amizades, no amor, uma força para encarar a vida e seus compromissos.

Fé e razão

Faz tempo que a Igreja Católica (em 2001 foi feita a Campanha da Fraternidade "Vida sim, drogas não") e as várias religiões alertam sobre esta profunda crise de sentido que a sociedade do consumo, do mercado e do instinto alimenta. Não é apenas a fé que está em crise, é a própria razão, que sozinha se limita aos aspectos imediatos da realidade sensível sem percorrer a aventura do significado. Por isso, o Papa Bento XVI afirmou na Alemanha e na Turquia que a razão técnico-cientílica precisa do aporte das tradições religiosas para oferecer uma esperança a nosso tempo.

Segundo a visão bíblica hebraico-cristã, a pessoa humana é o ponto mais alto da criação, porque tem uma dignidade infinita, é "Imago Dei", imagem de Deus. Nunca pode ser utilizada como um instrumento, porque o homem é filho de Deus e não é escravo de ninguém. Ele é chamado à felicidade plena e à solidariedade no relacionamento com a natureza, com os outros e com Deus. Ele é sujeito e não objeto, não é coisa. Ele tem um coração feito para o infinito, que pulsa de um desejo infinito e que as coisas finitas não podem preencher de forma satisfatória. Nem as drogas; mas só um encontro, o abraço do mistério infinito, mais fascinante que as drogas.

O uso das drogas e a liberdade

De vez em quando ficamos assustados diante dos delitos, dos atentados e das mortes. Mas, muitas vezes, é apenas a sensação de um momento. Atitudes irresponsáveis não geraram um maior senso crítico, mas apenas maior consumo. Pelo pouco que sei, nunca apareceu uma novela que abordasse diretamente esse problema como lema central, mostrando as conseqüências imediatas c a destruição das pessoas e das famílias que a droga produz.

Tantas páginas da vida são tratadas com arte e maestria; esta página não. Seria tão útil que um instrumento assim mostrasse a questão de forma atualizada, viva, não moralista, e tivesse uma clara função pedagógica. E junto aos meios de comunicação pedimos aos educadores, às autoridades públicas, a coragem moral, política, o amor para alertar sobre certas leviandades e para reverter muitos lugares comuns. Por exemplo, a permissão do uso de drogas leves e o juízo duro sobre as pesadas. Ou considerar a droga como um fenômeno controlável, uma diversão apenas um pouco ousada, ou um relaxamento inocente de fim de semana. Ao passo que não é isso, mas é uma besta que devora o coração da vida, que é feita de liberdade e de compromisso com a realidade.

O uso da droga revela que a realidade não tem motivações adequadas para sustentar o entusiasmo e a liberdade. Aí, com todas as críticas ao modelo neoliberal, adora-se o ídolo do consumo. Será essa a direção que artistas, políticos e educadores querem dar á sociedade para sustentar a nossa esperança? Ou não e verdade que outro mundo é possível também nesse campo. Agora também, na véspera do Carnaval? ( DOM FILIPPO SANTORO

é Bispo de Petrópolis (RJ) e Membro da Comissão Episcopal Pastoral para a Doutrina da Fé)

 

O que são Drogas e para que Servem

retirado do livro Drogas: uso, mau uso e abuso
Dra. Patrizia D. Streparava
Psic. Virgínia G. M. Rocha

Uma droga é qualquer substância, exceto a comida, que tem determinados efeitos sobre qualquer sistema ou órgão do corpo, efeitos esses que podem ser benéficos ou maléficos.

Uma "droga"- como o álcool - não é necessariamente destrutiva, e medicação nem sempre é saudável. Uma diferenciação similar pode ser feita entre o uso prescrito de vitaminas e sais minerais e o abuso não supervisionado de tais substâncias.

É muito importante lembrar que as drogas mudam a química do organismo e que os indivíduos reagem de formas diferentes à mesma droga. Uma medicação que é saudável para alguém pode ser prejudicial ou até fatal para outros.

A - DEFINIÇÕES

Uso de droga: referindo-se a substâncias legais como o álcool e remédios prescritos, foi definido como tomar uma substância com um propósito determinado e nas doses e freqüências apropriadas.

Distúrbio no uso de drogas : é tomar uma substância adequada para o propósito mas não na dose e freqüência apropriada.

Abuso de drogas : é o uso deliberado de uma substância não para seu propósito original mas de forma a resultar em dano para a saúde ou habilidade funcional.

 

Por exemplo : foi receitado pelo medico um calmante para ser tomado na dosagem x. Se a pessoa sentir como "agradáveis" os efeitos do medicamento e passar a tomar 2 x, por sua conta e risco, isso passa a ser distúrbio no uso, porque está tomando uma droga para um determinado propósito mas de forma inadequada.

Só se torna abuso quando o medicamento passa a ser usado em tal excesso que:

Os efeitos colaterais da medicação (no caso de um calmante, alteração dos reflexos, sonolência, etc.:) passam a ser mais importantes que a própria medicação, trazendo conseqüências na habilidade funcional. Se alguém dirigir um carro sob os efeitos de qualquer droga que diminua os reflexos, a probabilidade de acidentes aumentará na proporção direta da diminuição da capacidade reflexa de reagir.

Comprometimento da saúde devido aos efeitos diretos e indiretos da droga. Exemplo : tomar antibióticos para gripe. Antibiótico como o próprio nome diz, é contra bactérias. A gripe é causada por vírus. Assim, não obtemos o efeito desejado (livrar-nos do sintoma), mas podemos provocar, pelo uso indiscriminado, uma diminuição da resistência do organismo às bactérias, de maneira a ficarmos vulneráveis a qualquer ataque das mesmas. O uso continuo de alguma droga pode levar a tolerância, que consiste no organismo criar resistência aos efeitos da droga, sendo necessárias doses cada vez maiores para a obtenção do mesmo resultado.

 

Tolerância cruzada : é a relação entre diferentes drogas da mesma classificação. Uma pessoa que desenvolve tolerância aos efeitos do álcool, por exemplo, será mais resistente aos efeitos dos barbitúricos, os quais, são classificados como sedativos.

Adição : refere-se ao abuso crônico de substâncias legais ou ilegais. Muitos especialistas atualmente preferem o têrmo "dependência da droga". A Organização Mundial de Saúde (OMS) define "dependência" como um estado onde drogas auto-administradas produzem dano ao indivíduo e à sociedade.

Dependência física : é descrita como um estado no qual o organismo se ajustou à presença da droga. Quando a droga é retirada, surgem claros sintomas físicos de abstinência, geralmente envolvendo desconforto e dor. Em casos extremos, os efeitos de uma retirada súbita podem ameaçar a vida porque o organismo tornou-se dependente da droga.

 

Sintomas de abstinência tendem a ser o oposto dos efeitos da droga propriamente dita. No Brasil, Masur e Carlini no livro "Drogas - subsídios para uma discussão" definem dependência como o quanto a droga interfere na vida das pessoas, passando a ser o maior valor, e reservando o termo "Síndrome de Abstinência" como característica da dependência física.

 

Dependência psicológica : é definida como um estado caracterizado pela preocupação emocional e mental com os efeitos da droga e por uma busca persistente da mesma. A dependência psicológica não deve ser subestimada. Pode ser tão ou mais destrutiva que a dependência física.

Na realidade, dependência física e psicológica em geral funcionam concomitantemente, e não sabemos ainda qual das duas se instala antes, não sendo fácil separar os efeitos psicológicos dos físicos.

O Dr. Charles Schuster do Departamento de Psiquiatria e Farmacologia da Universidade de Chicago, demostrou que pessoas que usam muita cocaína, tanto na quantidade como na freqüência, podem sofrer o fenômeno de "rebote", significando que no inicio há estimulação pelas droga e depois depressão, devido á diminuição provocada pela cocaína de certas substancias químicas essenciais ao cérebro. Numa tentativa de recapturar o sentimento de exaltação previamente sentido, o indivíduo aumenta o uso da droga, e seu uso continuado aumenta a vulnerabilidade aos perigos da mesma.

Pode-se abusar tanto de drogas receitadas quanto das ilícitas e ambas podem causar dependência psicológicas e/ou física. Alguns pacientes tornaram-se dependente de medicação para alteração de humor e indutores de sono quando este risco ainda não havia sido reconhecido ou ainda no caso de médicos não acompanharem seus pacientes com o devido cuidado.

Resumindo, temos dois conceitos fundamentais : o de dependência e o de síndrome de abstinência.

Segundo Henry Ey, na quinta edição do Manual de Psiquiatria, A Dependência ou Toxicômania:

"é um problema que depende tanto da evolução social, econômica e espiritual das sociedades, quanto do caráter mórbido do indivíduo drogado e de seus motivos inconscientes. Assim , a conduta toxicômaniaca constitui uma perversão que satisfaz completamente a sua necessidade (busca do prazer, fuga do sofrimento)".

 

Neste relato usamos os termos Toxicômania e Dependência como sinônimos, no sentido de conduta de vida, isto é, forma de viver. Consideramos Dependência todas as vezes que houver uma "necessidade imperiosa" do uso de um ou diversos produtos chamado Drogas, fora do processo médico de tratamento.

Por exemplo : Se uma pessoa iniciou um tratamento médico com determinada substancia, para um propósito especifico, e após algum tempo (meses ou anos), esta pessoa continua usando essa substancia sem supervisão médica porque considera que sem ela não consegue dormir, isto configura uma Toxicômania.

Assim como acontece com o alcoólatra esta pessoa também confere a uma determinada substancia poderes sobre sua própria vida (dependência psicológica) e ambos sofrerão a Síndrome de Abstinência (dependência física) se a droga for retirada.

A única diferença se faz no tipo de Síndrome de Abstinência que se desenvolve, dependendo de fatores tão variados quanto: tipo de droga usada, fatores constitucionais, hereditários, de alimentação e de hábito de vida.

Ronaldo Laranjeira é médico psiquiatra, coordena a Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas na Faculdade de Medicina da UNIFESP (Universidade Federal do Estado de São Paulo) e é PhD em Dependência Química na Inglaterra.


Dependência química

As drogas acionam o sistema de recompensa do cérebro, uma área encarregada de receber estímulos de prazer e transmitir essa sensação para o corpo todo. Isso vale para todos os tipos de prazer - temperatura agradável, emoção gratificante, alimentação, sexo - e desempenha função importante para a preservação da espécie.
Evolutivamente o homem criou essa área de recompensa e é nela que as drogas interferem. Por uma espécie de curto circuito, elas provocam uma ilusão química de prazer que induz a pessoa a repetir seu uso compulsivamente. Com a repetição do consumo, perdem o significado todas as fontes naturais de prazer e só interessa o prazer imediato propiciado pela droga, mesmo que isso comprometa e ameace sua vida.

Busca do prazer total

Drauzio - Você acha que um dia aparecerá uma droga cujo mecanismo de ação se encarregue de nos deixar felizes sem provocar malefícios no cérebro?
Ronaldo –Não acredito. Fica difícil imaginar uma droga que aja só no centro de prazer sem perturbar os demais mecanismos bioquímicos do cérebro que é um órgão complexo e evolutivamente preparado para vivenciar muitas formas de prazeres sutis. Para tais estímulos, está aparelhado. Para os advindos das drogas, não.

DrauzioVocê não acha que o homem está sempre à procura do prazer total?
Ronaldo – A busca do prazer é uma característica positiva do ser humano. No caso das drogas, porém, ao querer superar a própria biologia por um artifício grosseiro, ele acaba se empobrecendo. O desejo de intensificar o prazer ao máximo empurra o homem para uma guerra que jamais será vencida.

Mecanismo geral da dependência

DrauzioQue mecanismo do corpo humano explica o processo de dependência da droga?
Ronaldo – Acho importante destacar que existe, no cérebro, uma área responsável pelo prazer. O prazer, que sentimos ao comer, fazer sexo ou ao expor o corpo ao calor do sol, é integrado numa área cerebral chamada sistema de recompensa. Esse sistema foi relevante para a sobrevivência da espécie. Quando os animais sentiam prazer na atividade sexual, a tendência era repeti-la. Estar abrigado do frio não só dava prazer, mas também protegia a espécie. Desse modo, evolutivamente, criamos essa área de recompensa e é nela que a ação química de diversas drogas interfere. Apesar de cada uma possuir mecanismo de ação e efeitos diferentes, a proposta final é a mesma, não importa se tenha vindo do cigarro, álcool, maconha, cocaína ou heroína. Por isso, só produzem dependência as drogas que de algum modo atuam nessa área. O LSD, por exemplo, embora tenha uma ação perturbadora no sistema nervoso central e altere a forma como a pessoa vê, ouve e sente, não dá prazer e, portanto, não cria dependência.
Vários são os motivos que levam à dependência química, mas o final é sempre o mesmo. De alguma maneira, as drogas pervertem o sistema de recompensa. A pessoa passa a dar-lhes preferência quase absoluta, mesmo que isso atrapalhe todo o resto em sua vida. Para quem está de fora fica difícil entender por que o usuário de cocaína ou de crack, com a saúde deteriorada, não abandona a droga. Tal comportamento reflete uma disfunção do cérebro. A atenção do dependente se volta para o prazer imediato propiciado pelo uso da droga, fazendo com que percam significado todas as outras fontes de prazer.

DrauzioVocê diz que a evolução criou, no cérebro, um centro de recompensa ligado diretamente à sobrevivência da espécie. As abelhas, quando pousam numa flor e encontram néctar, liberam um mediador chamado octopamina, neurotransmissor presente nas sensações de prazer. Esses mecanismos são bastante arcaicos?
Ronaldo – O sistema de prazer é muito primitivo. É importante para as abelhas e para os seres humanos também. A droga produz efeito tão intenso porque age nesses mecanismos biológicos bastante primitivos.

DrauzioMecanismos tão arcaicos assim representam uma armadilha poderosa. Na verdade, provoca-se um estímulo forte que está mexendo com milhares de anos de evolução.
Ronaldo – Acho que estamos cada vez mais valorizando esse tipo de mecanismo. A droga é um fenômeno psicossocial amplo, mas que acaba interferindo nesse mecanismo biológico primitivo.

Síndrome de abstinência / efeito rebote

DrauzioComo se manifesta o efeito rebote?
Ronaldo – O mecanismo de recompensa cerebral é importante para a preservação da espécie e ninguém é contra o prazer. Ao contrário, deveríamos estimular o surgimento de inúmeras fontes de prazer. A dependência química, entretanto, cria uma ilusão de prazer que acaba perturbando outros mecanismos cerebrais. Se fumando um baseado a pessoa relaxa, findo o efeito, a ansiedade ganha força, pois a síndrome de abstinência é imediata. É o chamado efeito rebote.
A cocaína age de forma diferente. O efeito rebote está na impossibilidade de sentir prazer sem a droga. Passada a excitação que ela provoca, a pessoa não volta ao normal. Fica deprimida, desanimada. Tudo perde a graça. Como só sente prazer sob a ação da droga, torna-se um usuário crônico. Às vezes, tenta suspender o uso e reassumir as atividades normais, mas nada lhe dá prazer. Parece que, por vingança divina, o cérebro perdeu a capacidade de experimentar outras fontes que não a desse prazer artificial que a droga proporciona.
Essa é uma das tragédias a que se expõem os dependentes químicos. No processo de reabilitação, quando a pessoa pára de usar droga, é fundamental ajudá-la a reencontrar fontes de prazer independentes da substância química.

Drauzio Quem está de fora dificilmente entende o comportamento do dependente. “Esse cara, em vez de estar namorando, indo ao cinema, estudando, fica cheirando cocaína ou fumando crack”, é o que normalmente todos pensam. Isso dá a sensação de que o outro é fraco, com comportamento abjeto, digno de desprezo. Quem está passando por isso, vê a realidade de forma diferente?
Ronaldo – Na verdade, essa pessoa está doente. Seu cérebro está doente, com a sensação de que não existe outro prazer além da droga. Isso acontece também com o cigarro, uma fonte preciosa de prazer para os fumantes que adiam a decisão de parar de fumar por medo de perdê-la. De fato, 30% dos fumantes, logo depois que se afastam da nicotina, apresentam sintomas expressivos de depressão e precisam ser medicados com antidepressivos.

Associação perigosa da cocaína com álcool

DrauzioPor que o usuário de cocaína bebe tanto?
Ronaldo – De alguma forma, o álcool faz com que a pessoa se sinta mais liberada e use cocaína, um estimulante potente. Para diminuir a excitação, ela torna a beber e, como num círculo vicioso, a usar cocaína. A confusão cerebral aumenta consideravelmente e a tendência é beber ou cheirar mais. Trata-se de uma reação perturbadora em que o álcool incentiva o consumo de cocaína e vice-versa.

Drauzio Fico assustado com a quantidade de bebida destilada que o usuário de cocaína consome.
Ronaldo – A cocaína aumenta a resistência ao álcool, porque um pouco de seu efeito depressor é atenuado pela cocaína. Por outro lado, a pessoa tolera quantidades maiores de álcool porque precisa abrandar os efeitos altamente excitantes da cocaína.
Sempre é válido repetir que álcool e cocaína representam uma das associações de drogas mais perigosas que existem. Ao que parece, tal associação dá origem a uma terceira molécula extremamente tóxica para cérebro e para o músculo cardíaco.

DrauzioNo Carandiru, vi meninos de 20 e poucos anos com infarto do miocárdio ou derrame cerebral puxando o braço ou a perna depois de uma seção de crack ou de uma overdose de cocaína. Isso acontece freqüentemente?
Ronaldo – Infelizmente, no Brasil, não há dados precisos sobre o que aconteceu com os usuários de cocaína porque o sistema médico não é muito coordenado. Se eles existissem, ficaríamos horrorizados.
Tivemos uma pequena experiência acompanhando, por cinco anos, o primeiro grupo de usuários de crack que foi internado em Cidade de Taipas, interior de São Paulo. Era uma população de classe média baixa. No final desse período, 30% tinham morrido em acidentes ou por morte violenta. Neste caso, as famílias não sabiam dizer quem eram os responsáveis pelas mortes: os traficantes ou a polícia.
Não sabemos se isso ocorre com todos os usuários de crack. Temos certeza, porém, de que poucas doenças apresentam esse índice de mortalidade.

 

Características comportamentais dos usuários

DrauzioO uso crônico do álcool provoca uma série de alterações que todo mundo conhece e reconhece. Em relação às outras drogas, de acordo com sua experiência pessoal e não com as definições dos livros, quais as principais características do usuário?
Ronaldo – No ambulatório da Escola Paulista de Medicina que atende usuários de maconha, pude notar que há dois grupos distintos. Um é constituído por jovens que perderam o interesse por tudo o que faziam. Não estudam nem trabalham. Estão completamente desmotivados. É o que chamamos de síndrome amotivacional. O nome é feio, mas pertinente. O outro grupo é formado por pessoas nas quais se estabelece uma relação complexa entre maconha e doenças mentais como psicose e depressão. Não se sabe se a maconha produz a doença mental. O que se sabe é que ela piora os sintomas de qualquer uma delas, seja ansiedade ou esquizofrenia.

 

Ação e efeito das diferentes drogas

Drauzio -Teoricamente, quando a pessoa ansiosa fuma maconha, fica mais relaxada. Você acha que isso é um mito?
Ronaldo – É importante distinguir, na droga, o efeito imediato do efeito cumulativo. No geral, sob a ação da maconha, a pessoa ansiosa relaxa um pouco, mas esse é um efeito de curto prazo. O álcool também relaxa num primeiro momento. No entanto, as evidências demonstram que nas pessoas ansiosas seu uso crônico aumenta os níveis de ansiedade, porque o cérebro reage tentando manter o sistema em equilíbrio. É o efeito de homeóstase. Se alguém usa um estimulante, passado o efeito, o cérebro não volta ao funcionamento normal imediatamente. Surge o efeito rebote. Isso ocorre com qualquer droga. Tanto com a maconha quanto com o álcool, findo o efeito depressor, o efeito rebote elevará os níveis de ansiedade.

DrauzioComo age a maconha na memória?
Ronaldo - A maconha diminui a concentração, a memória e a atenção. É um efeito bastante rápido. Estudos mostram que, se alguém usar maconha num dia e medir os níveis de memória e concentração no outro, eles estarão ligeiramente alterados. Isso tem um impacto bastante negativo na vida dos adolescentes.
Na verdade, não há droga que melhore o desempenho intelectual. Nós sabemos que pessoas criativas usam drogas e produzem coisas criativas. Se elas não fossem criativas por natureza, não haveria droga no mundo capaz de produzir esse resultado.

DrauzioQuais são os efeitos crônicos da cocaína?
Ronaldo – Em relação à saúde, o efeito mais grave da cocaína são os problemas cardíacos e cardiovasculares. Quando associada ao álcool, então, ela é uma das principais causas de infarto do miocárdio em adultos jovens.

 

Dependência é um processo de aprendizado

DrauzioA maioria das pessoas bebe com moderação, mas algumas fazem uso abusivo do álcool. Há quem fume maconha ou use cocaína esporadicamente, mas existem os que fumam crack o dia inteiro. O que explica essa diferença? A resposta está na droga ou no usuário?
Ronaldo – Parte da resposta está na tendência ao uso crônico e na história de cada pessoa. Quando começou a usar? Como interpreta os sintomas da síndrome de abstinência? Além disso, o que vai fazer com que repita a experiência não é só a busca do prazer, mas a tentativa de evitar o desprazer que a ausência da droga produz.
A dependência é um processo de aprendizado. O fumante, por exemplo, pela manhã já manifesta sintomas da abstinência. Fica irritado e sua capacidade de concentração baixa. Ele fuma, o desconforto diminui. Vinte minutos depois, o nível de nicotina no cérebro cai, voltam os sintomas da abstinência e ele vai aprendendo a usar a droga pelo efeito agradável que proporciona e para evitar o desprazer que sua falta produz. A dependência é fruto, então, do mecanismo psicológico que a um só tempo induz o indivíduo a buscar o prazer e evitar o desprazer e das alterações cerebrais que a droga provoca. Essa interação entre aspectos psicológicos e efeito farmacológico vai determinar o perfil dos sintomas de abstinência de cada pessoa. A compulsão é menor naquelas que toleram a abstinência um pouco mais, e maior nas que a inquietação é intensa diante do menor sinal da síndrome de abstinência. Resumindo: a dependência química pressupõe o mecanismo psicológico de buscar a droga e a necessidade biológica que se criou no organismo. Disso resulta a diversidade de comportamentos dos usuários.
A maconha é um bom exemplo. Seu uso compulsivo hoje é maior do que era há 20, 30 anos e, de acordo com as evidências, quanto mais cedo o indivíduo começa a usá-la, maior é a possibilidade de tornar-se dependente. Como garotos de 12, 13 anos, e às vezes até mais novos, estão usando maconha, atualmente o problema se agrava. Além disso, as concentrações de THC (princípio ativo da maconha) aumentaram muito nos últimos tempos. Na década de 1960, andavam por volta de 0,5% e agora alcançam 5%. Portanto, a maconha de hoje é 10 vezes mais potente do que era naquela época.
Diante disso, a Escola Paulista de Medicina sentiu a necessidade de montar um ambulatório só para atender os usuários de maconha e há uma lista de espera composta por adolescentes e jovens adultos desmotivados, que fumam 6, 7 baseados por dia e não conseguem fazer outra coisa na vida. Isso não acontecia quando a concentração de TSH era mais fraca e o acesso à droga mais restrito.

Drauzio - Quando se conversa com usuários de maconha de muitos anos, eles lastimam que a droga tenha perdido a qualidade. Sua explicação prova exatamente o contrário.Terão essas pessoas desenvolvido um grau de tolerância maior à droga?
Ronaldo - Acho que a queixa é fruto de um certo saudosismo, uma vez que há tipos de maconha, entre eles o skank, que chegam a ter 20% de THC. Na Holanda, foram desenvolvidas cepas que contêm maior concentração desse princípio ativo, o que faz com que a maconha perca a classificação de droga leve e se transforme numa substância poderosa para causar dependência. Deve-se considerar , ainda, como justificativa da queixa que o uso crônico causa sempre certa tolerância.

Drauzio - No Carandiru, minha experiência mostra que há quem fume um baseado a cada 30 minutos. Uma droga que exija tal freqüência de consumo não pode ser considerada leve, não é verdade?
Ronaldo – Infelizmente não existem drogas leves, se produzirem estímulo no sistema de recompensa cerebral. Em geral, as pessoas perguntam: mas se a droga dá prazer, qual é o problema? O problema é que ela não mexe apenas na área do prazer. Mexe também em outras áreas e o cérebro fica alterado. Diante de uma fonte artificial de prazer, ele reage de modo impróprio. Se existe a possibilidade de prazer imediato, por que investir em outro que demande maior esforço e empenho? A droga perverte o repertório de busca de prazer e empobrece a pessoa. Comer, conversar, estabelecer relacionamentos afetivos, trabalhar são fontes de prazer que valorizamos, mas não são imediatas.

 

Obs: há tanto livro para ser escrito.

Tanta música para ser composta......

 

Tratamento do alcoolismo

Padrões de consumo de álcool


DrauzioÉ enorme o número de pessoas que bebe. Do ponto de vista médico quando se diz que uma pessoa é alcoólatra?
Ronaldo – É preciso estabelecer uma distinção entre três padrões de consumo de álcool. Há os que não têm problemas ao beber, os que fazem uso abusivo do álcool e os que são dependentes dessa substância. Hoje está mais ou menos estabelecido que a pessoa sem problemas, se for um homem saudável, pode beber o equivalente a dois ou três copos de vinho, ou dois copos de chope ou uma dose pequena de destilado. Em se tratando de mulheres, as doses deverão ser um pouco menores, já que elas são mais sensíveis aos danos biológicos provocados pela bebida. Esse padrão de uso contido do álcool é o que a maioria das pessoas desenvolve.
Número substancial de pessoas, porém, faz uso nocivo do álcool, pois ocasional ou regularmente bebe acima das quantidades supra-citadas. Se numa festa, a pessoa bebe cinco copos de cerveja ou três de uísque, está ingerindo mais do que seu organismo tolera em termos de intoxicação alcoólica.
É claro que do ponto de vista biológico beber regularmente três doses de uísque ou de pinga causa impacto biológico significativo como hipertensão arterial ou doenças gástricas e hepáticas relacionadas ao consumo de álcool. A pessoa pode não ser dependente, mas nem por isso deixa de lesar o organismo quando exagera na bebida.

DrauzioMuitas pessoas que saem do trabalho e param no bar ou bebem costumeiramente quando chegam em casa se negam a reconhecer o problema que esse hábito representa.
Ronaldo – No Brasil, 13% da população masculina adulta têm problemas com álcool e dois terços desses 13% abusam de seu uso. Bebem três doses de uísque - ou uma dose substancial que vale por três - e dizem: não sou alcoólatra porque só bebo isso e mais nada.

DrauzioVocê classificaria essas pessoas como alcoólatras?
Ronaldo – Não. Tecnicamente a Organização Mundial de Saúde considera que essas pessoas fazem uso nocivo do álcool, mas não chegam a ser dependentes, porque conseguem passar alguns dias sem beber, não bebem pela manhã nem sentem necessidade premente da bebida em outros momentos. Muitas adotam um padrão razoavelmente regular de consumo. Às vezes, só bebem nos finais de semana, por exemplo, mas bebem grandes quantidades o que não as preserva dos efeitos nocivos físicos e comportamentais do álcool.
No Brasil, esse padrão de uso está se tornando típico dos adolescentes. Mais expostos à cultura que valoriza e facilita o consumo de álcool do que os jovens de anos atrás, exageram nas doses nos finais de semana. Estudos não deixam dúvida que esse aumento progressivo de consumo está diretamente relacionado com o crescimento do número de acidentes de trânsito ou domésticos e de casos de violência.
O uso nocivo do álcool sempre envolve risco: risco físico para a saúde e risco comportamental para o ambiente. Uma sociedade complexa como a nossa não está aparelhada para proteger o indivíduo intoxicado. Inúmeras pesquisas a respeito do assunto deixam claro o grande custo social do uso nocivo do álcool.
Vivemos numa cultura que estimula e facilita o consumo de bebidas alcoólicas. Os anúncios publicitários passam a impressão de que álcool não faz mal. Muitos pais dizem – meu filho só bebe, não usa drogas – como se isso não representasse motivo para preocupações. Na realidade, se computarmos o número de acidentes e mortes causado por drogas, especialmente entre jovens, o do álcool dispara na frente de qualquer outra como o principal responsável.

 

Mecanismo biológico da dependência


DrauzioQuais são as pessoas que você classifica como alcoólatras?
Ronaldo – A pessoa torna-se alcoólatra à medida que prolonga e repete o uso nocivo do álcool e surgem as ressacas de repetição. O que é a ressaca? De alguma forma, é a resposta do cérebro a uma dose excessiva de álcool.
Existem dois componentes da ressaca. Um é o componente tóxico do álcool. Um vinho de baixa qualidade provoca pior ressaca porque contém mais impurezas, mais metanol, mais chumbo. O outro componente é a ação farmacológica do álcool no cérebro. O álcool é um depressor do sistema nervoso central e o cérebro responde com o efeito rebote se exposto a quantidades maiores dessa substância. Ao contrário do efeito relaxante e agradável das doses iniciais, a pessoa acorda no dia seguinte à bebedeira mais excitada, irritadiça, inquieta e ansiosa, mas se sente melhor se começa a beber mais cedo, porque alivia os sintomas da crise de abstinência. As ressacas de repetição fazem parte dessa síndrome e são uma forma de o corpo demonstrar que se ressente da falta do álcool.
Dessa fase em diante, a pessoa bebe não mais porque seja agradável nem socialmente oportuno, mas para atenuar o desconforto provocado pelo próprio álcool. Esse é mais ou menos o mecanismo biológico da dependência de álcool. Quando o quadro se agrava, as pessoas já despertam com tremores, suando, muito irritadas e tensas. Bebem pela manhã para se sentirem mais calmas e continuam bebendo durante todo o dia para aliviar os sintomas de abstinência.

DrauzioOs sintomas de abstinência vão ficando cada vez mais freqüentes e intensos?
Ronaldo – Vão ficando, e a pessoa tem de usar a própria substância com que se intoxicou para aliviar os sintomas. Nisso se constitui basicamente o mecanismo da dependência.

DrauzioÀs vezes, as pessoas dizem: hoje não estou bom para beber ou hoje estou ótimo para beber. O que explica essa sensação diferente de um dia para o outro?
Ronaldo – Acho que o álcool é uma droga que produz tantos efeitos que, às vezes, por uma série de problemas físicos, a pessoa pode não se sentir disposta para beber. No entanto, para a grande maioria que se encontra no processo de uso nocivo ou de dependência não existem dias mais ou menos confortáveis em relação ao álcool, porque a necessidade de beber sempre fala mais alto. É isso que evidencia melhor a transição entre uso nocivo e dependência. Quanto mais dependente a pessoa for, maior a necessidade e menos dias ruins para beber.

DrauzioNa verdade, vai ter dia ruim para ficar sem beber…
Ronaldo – Os dias serão ruins se o dependente não beber. O tremor e a irritação aumentam e ele não consegue controlar-se nem funcionar direito. É um mecanismo parecido com o da dependência do cigarro que, de certo modo, é mais poderoso ainda. Os sintomas de abstinência são intensos, porque o cérebro reclama da falta de nicotina. No caso dos alcoolistas, reclama da falta de álcool.

 

Ressaca


DrauzioPor que a ressaca não é sempre igual? Às vezes, é mais intensa embora a pessoa tenha bebido proporcionalmente menos.
Ronaldo – A intensidade da ressaca depende, em parte, da qualidade da bebida. Dependendo da quantidade ingerida, em geral o bom uísque escocês e o melhor vinho francês provocam ressacas mais leves, mais relacionadas ao efeito farmacológico do álcool.
Já misturar bebidas - vinho, cerveja, destilados, licor de ovos, seja lá o que for - provoca ressacas muito piores porque além do álcool etílico foram ingeridos vários outros componentes tóxicos dessas bebidas.
Resumindo, dois fatores influem na intensidade da ressaca: qualidade e composição da bebida e quantidade de álcool ingerida.

DrauzioQuer dizer que a crença de que misturar bebida não é bom tem certo fundamento?
Ronaldo – Tem muito fundamento. Misturar bebidas significa ingerir outros componentes nocivos além do álcool etílico.

 

Cultura familiar e predisposição genética


DrauzioCertas famílias têm uma concentração maior de pessoas com problemas relativos ao uso de álcool. Há fatores genéticos envolvidos com o alcoolismo?
Ronaldo – Para analisar histórias familiares de pessoas envolvidas com álcool, é preciso fazer distinção entre cultura da família em relação ao uso dessa substância e aspectos genéticos. Por exemplo, em determinadas famílias existem mais médicos ou advogados e não se pode falar em força da genética na escolha dessas profissões. Trata-se, sem dúvida, de um componente ambiental transmitido de geração para geração que vai influenciar as escolhas pessoais.
No meu ponto de vista, esse componente familiar é o argumento mais poderoso para explicar por que se repetem casos de problemas com álcool em certos grupos familiares que valorizam e facilitam o uso do álcool. Em relação aos homens, beber significa uma espécie de rito de passagem para a vida adulta e sinal de masculinidade.
Há também evidências muito firmes de que existe uma vulnerabilidade biológica ao álcool em membros de uma mesma família que se sentem muito bem quando bebem. Esse lado reforçador do álcool é poderoso especialmente se o indivíduo estiver inserido numa cultura que valoriza o seu uso. A tendência, nesse caso, principalmente dos homens, é repetir esse comportamento e, geração após geração, o consumo de álcool será um problema para eles. Ao contrário, no entanto, existem famílias em que pesam mais as reações tóxicas que o álcool produz. É o que acontece com certas famílias de japoneses que apresentam deficiência de uma enzima, levando à produção de acetaldeído, responsável por intenso mal-estar mesmo quando as doses ingeridas forem pequenas. Essas estão biologicamente protegidas porque naturalmente são desestimuladas para repetir o consumo.

 

Perfil de personalidade dos alcoólicos


DrauzioAlém desses fatores familiares genético-comportamentais, que tipo de personalidade aumenta o risco de uma pessoa desenvolver alcoolismo?
Ronaldo – Muito já se escreveu sobre o perfil de personalidade associado ao uso de álcool. Nas décadas de 1950 e 1960, pensava-se que existiria um tipo de personalidade que favoreceria o alcoolismo. As pesquisas não confirmaram essa suposição e estudo recente que acompanhou pacientes alcoólatras durante 60 anos não possibilitou determinar um perfil de personalidade característico dessas pessoas.
No entanto, alguns traços de personalidade são fatores de risco para a dependência de álcool. A impulsividade e irritação que marcam o jeito de ser de determinadas pessoas ou a timidez e isolamento social de outras são características que facilitam o consumo de álcool uma vez que ele pode ser utilizado par atenuar essas dificuldades. A tendência do sujeito impulsivo que se beneficia do efeito relaxante do álcool é, sem dúvida, repetir o consumo. O indivíduo mais tímido, mais isolado socialmente que descobre no álcool um instrumento para melhorar sua performance social, vai valer-se dele em várias ocasiões.

 

Opções de tratamento


DrauzioSob o ponto de vista comportamental, que recursos de tratamento existem para as pessoas dependentes de álcool, que não conseguem passar um dia sem beber?
Ronaldo – Antes de se iniciar o tratamento da dependência química do álcool é indispensável fazer uma avaliação clínica apurada para avaliar qual o tipo de tratamento adequado para cada caso. A população de dependentes de álcool é bastante heterogênea. Um alcoólico só é igual ao outro se olhado à distância. O sofrimento é sempre diferente.
Logo de cara, deve-se avaliar se além da dependência química existe uma co-morbidade psiquiátrica, principalmente depressão e ansiedade. A associação desses transtornos com álcool é muito comum e demanda tratamento especifico.
Esse diagnóstico é importante para resolver a maior parte dos problemas e melhorar o desconforto que provocam. É comum instalarem-se quadros de depressão e ansiedade a partir da terceira década de vida e existe uma relação significativa entre uso de álcool e esses transtornos psiquiátricos. Nesses casos, tratar só do alcoolismo e esquecer a depressão de nada adianta porque ela é um mecanismo poderoso que induz as recaídas.
Por incrível que pareça, o fato de a pessoa ter as duas doenças melhora o prognóstico, se elas forem identificadas e o paciente receber tratamento efetivo para cada uma delas. Controladas a depressão e a ansiedade, o fator de risco que estaria perpetuando a dependência do álcool desaparece e a evolução do quadro é muito melhor.
Para as pessoas sem transtornos psiquiátricos, mas dependentes de álcool, existem inúmeras opções de tratamento. No Brasil, porém, há escassez de oferta. Na realidade, na linha de frente, destacam-se os Alcoólicos Anônimos, grupo de auto-ajuda que existe em mais de 50 países e há mais de 80 anos, com larga experiência no atendimento de dependentes de álcool. Eles oferecem um tratamento bom e barato alicerçado na generosidade de voluntários que se predispõem a ajudar o próximo a vencer um problema que de certa forma também é deles. É um trabalho maravilhoso, absolutamente fundamental na área do alcoolismo. Os AA são o sal da terra no sentido de facilitar o acesso e a adesão ao tratamento sem levar em conta cor, origem, sexo, nem condição socioeconômica. Quem se adapta aos grupos de auto-ajuda, deve procurar e permanecer nos grupos do AA.
No entanto, por vários motivos, um contingente significativo de pessoas não se adapta à cultura do grupo ou porque elas são portadoras de co-morbidade psiquiátrica, ou porque não se entrosam com os demais participantes. Para essas pessoas, seria necessário oferecer opções de tratamento que incluiriam terapias de grupo e individuais, mas nem sempre isso é possível.
Atualmente, evoluíram muito as terapias psicológicas e a tendência é enfocá-las no comportamento ligado ao beber. Terapeuta e bebedor juntos devem identificar quais os fatores de risco para a ingestão de álcool. É muito comum a pessoa pertencer a um círculo de amizades que perpetua o hábito de beber. Nesse caso, ela deve reinventar um esquema ou estilo de vida do qual a bebida não faça parte e buscar fontes de apoio que o ajudem a não beber. De certo modo é isso que fazem os Alcoólicos Anônimos. Ao se filiar ao grupo, o dependente que passava horas e horas nos bares passa a conviver com uma rede social de pessoas abstinentes e essa diferença é fundamental para o controle da doença.

Drauzio - Realmente ajuda muito estar perto de gente que não bebe.
Ronaldo – Essa rede social protetora é muito importante nos AA como em qualquer outro sistema de tratamento. Ajuda muito ter amigos para os quais se possa telefonar sábado à noite e marcar um programa que não envolva álcool. Por isso, a orientação é sempre buscar relacionamentos sociais com não-bebedores e desenvolver formas de lazer distantes da cultura do bar.
O propósito da terapia individual é fundamentalmente prevenir a recaída que caracteriza a maior parte dos casos de dependência. Identificar fatores de risco e desenvolver estratégias de comportamento para não recair é uma linha de conduta importante no tratamento psicológico do alcoolismo.

 

Tratamento farmacológico


Drauzio– No passado, o único tratamento farmacológico do alcoolismo era constituído pelo célebre Antabuse, um remédio que as mulheres punham na comida dos maridos e que provocava uma reação terrível quando eles bebiam. Muitos achavam que a bebida estava lhes fazendo mal e paravam de beber. Esse tratamento ainda aceito ou é considerado um método pré-histórico?
Ronaldo – O Dissulfiran, que é o componente do Antabuse, continua com a aprovação do FDA e ainda é usado se a pessoa estiver de acordo em receber esse tipo de medicamento. É um remédio bom e barato para o tratamento do alcoolismo. Quando o paciente concorda com o uso do Dissulfiran e entende seu mecanismo de funcionamento, ele serve como breque psicológico diante da bebida. De fato, antigamente, as mulheres colocavam esse remédio na comida dos maridos sem seu conhecimento, mas o mais comum era eles deixarem de comer em casa e continuarem bebendo no bar.
Hoje existem novos medicamentos que diminuem a vontade de beber. Pode parecer estranho, mas é exatamente isso que fazem. Eles agem sobre a ação do álcool no cérebro e não só diminuem a vontade de beber como diminuem os efeitos agradáveis do álcool.

DrauzioEles intensificam também os efeitos desagradáveis?
Ronaldo – Não chegam a provocar efeitos desagradáveis, mas interferem no efeito reforçador do álcool. Mais de 15 estudos atestaram o efeito do Naltrexone (nome da substância química desse remédio). Sob o efeito desse medicamento, as pessoas sentem menos os efeitos agradáveis da bebida e perdem a vontade de continuar bebendo.

DrauzioÉ uma droga fácil de administrar? Provoca efeitos colaterais desagradáveis?
Ronaldo - Na verdade, o Naltrexone é uma das drogas mais seguras em psiquiatria. O paciente toma um comprimido de 50mg por dia e quase não há efeitos colaterais. No começo do tratamento, ele pode sentir um pouco de náusea que desaparece em poucos dias. Seu efeito sobre a vontade de beber não é absoluto, mas no mínimo dobra a chance de a pessoa permanecer abstinente ao longo de semanas ou, na pior das hipóteses, a beber menos. O Naltrexone não representa a cura para o alcoolismo, mas melhora muito a evolução do quadro.

DrauzioMas é importante que o dependente queira tomar o remédio para o tratamento ter sucesso.
Ronaldo – Esse é o grande problema: a adesão ao tratamento. É preciso convencer o paciente a tomar o remédio por vários meses ininterruptamente. A irregularidade no uso da medicação prejudica os resultados e desestimula o paciente. Há pessoas que tomam o remédio um dia ou dois, param porque beberam ou vão beber e depois voltam a tomar a medicação, o que prejudica seriamente o tratamento.

Drauzio Além do Naltrexone existem outros medicamentos que ajudam a tratar do alcoolismo?
Ronaldo – Existe o Acamprosato, muito utilizado na Europa e que possivelmente será aprovado pelo FDA. Ele diminui também a vontade de beber. Sua ação farmacológica é um pouco distinta e mais prolongada do que a do Naltrexone.
Recentemente, foi publicado um estudo sobre um medicamento anticonvulsivante chamado Topimarato, utilizado em outros quadros psiquiátricos que parece diminuir também a vontade de beber e aumentar os períodos de abstinência por semanas.
Esses quatro medicamentos – Dissulfiram, Naltrexone, Acamprosato e Topiramato - são bons coadjuvantes nos tratamentos do alcoolismo, pois ajudam no processo de abstinência e na prevenção das recaídas.

 

Álcool


Quando se fala em dependência química, a preocupação maior é com as drogas ilícitas, cocaína, maconha, crack, ecstasy, entre tantas outras. No entanto, o grande inimigo está camuflado sob o manto do socialmente aceitável. O álcool nem sequer é considerado uma droga que causa dependência física e psicológica por grande parte da sociedade. Sua venda é livre e ele integra a cultura atual ligada ao lazer e à sociabilidade. Uma reunião em casa de amigos, o happy hour depois de um dia estafante, a balada de sábado à noite, a paradinha no bar antes na saída do escritório não têm sentido sem a bebida alcoólica.
O efeito relaxante das doses iniciais, porém, desaparece com o aumento do consumo. Se o convívio com uma pessoa embriagada incomoda, isso não é nada diante dos males que o álcool pode causar e que não se restringem às doenças do fígado. A labilidade emocional que num instante transforma o alcoolista risonho num indivíduo violento é responsável não só pelo aumento da criminalidade, mas também pela desestruturação de muitas famílias.
Beber com moderação é possível, mas raros são os que reconhecem estar fazendo uso abusivo e nocivo do álcool. Muitos ainda não são dependentes, mas incorrem em riscos que deveriam e poderiam ser evitados. Não se pode esquecer de que a grande maioria dos acidentes ocorre quando está no volante uma pessoa alcoolizada.