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exercícios espirituais completos para jovens - vocacional                                                    

Passos para a oração

Não será nada fácil cumprir este compromisso. Será preciso superar a preguiça e até o temor mais ou menos consciente de colocar sua vida diante de Deus. Escolha a hora mais propícia do dia, num momento em que não esteja atarefado com preocupações, trabalhos, calor ou frio, sono ou cansaço. Seria bom que a hora fosse sempre a mesma. Sugiro-lhe, para começar, um mínimo de 20 a 30 minutos diários de oração.
2. Antes de se deitar, leia rapidamente o assunto do dia seguinte. Depois de deitar-se, estando já para adormecer, pense a que hora fará amanhã sua oração e lembre brevemente o assunto. Quando acordar, pense rapidamente no assunto da oração.
3. Busque um lugar onde possa estar sozinho e sentir-se bem... Música suave, uma certa penumbra podem criar clima favorável. Se o lugar de oração for o seu quarto, você pode sentar-se no chão, sobre um cobertor dobrado, com a Bíblia e este livro perto de você.
4. Busque uma posição corporal que lhe ajude na concentração e que seja razoavelmente cômoda e tranqüila. O homem reza não só com a mente, mas com todo o seu ser, também com o seu corpo. É o homem todo que reza! Você poderá rezar de pé, sentado, de joelhos..., com as mãos abertas, juntas... procure seu modo! Evite, porém, andar ou deitar-se.
5. Fazer silêncio... Acalmar-se... suscitar desejo de ouvir a palavra de Deus... Acreditar que Deus está presente lhe escutando aqui, hoje. Feche os olhos e coloque-se diante de Deus, seja presença na presença Dele. O importante é sentir como o Pai o ama, como olha para você! Deixe que Deus se comunique com você! Se achar que aquela determinada postura corporal lhe está ajudando no seu encontro com Deus, não mude.
6. Pedir pela graça que você deseja mais profundamente dentro do seu íntimo. Pedindo, você reconhece que tudo é dom, e não fruto do seu agir. Durante o Retiro, você sempre encontrará a indicação de uma graça a pedir, como um fruto a ser alcançado naquela etapa de oração.
7. Leia com atenção e tranqüilidade a Palavra de Deus indicada, se possível em voz alta. A Palavra de Deus é interrogação que vem de fora para dentro de você.
8. Pare e saboreie interiormente, sempre que algo o atrair ou o impulsionar. Se perceber que aquele determinado pensamento lhe traz alegria e paz, não passe para a frente, fique nele. Deus lhe está falando! Faça sua oração com amor e liberdade... Mergulhe em profundidade... Falar e escutar... Louvar... Pedir... Perguntar... Meditar... Refletir... Relacionar... Silenciar... Tente não imaginar coisas por você mesmo, mas deixe o Espírito rezar através de você. Deixe-se invadir pela graça, pela gratuidade do Senhor, e seja grato para com Ele! Perguntar-se: o que Deus está querendo me dizer?... Como posso colocar em prática o que Deus está me dizendo?
9. Mantenha sempre estrita fidelidade ao tempo que, no início, você se propôs a ficar em oração. Caso o impulso seja para aumentar o tempo, faça-o tranqüilamente.
10. Saiba terminar a oração com um tempo de "colóquio", uma conversa com Deus, que consiste em "falar com Deus" e não um "falar para Deus". Agradeça a Deus este momento de oração e peça forças para viver a vontade Dele. Reze um Pai Nosso e uma Ave Maria.
11. Procure reservar sempre, no final da oração, ao menos 5 minutos para registrar num breve texto, um pouco do que aconteceu enquanto estava rezando. Muitas vezes a revisão da oração é mais importante do que a própria oração. Por meio dela deve descobrir o que Deus quer de sua vida. Deverá fazer estas revisões num caderno dedicado a este trabalho.
12. Para revisar a oração: Escreva os trechos da Palavra de Deus, pensamentos, imagens, palavras, expressões, recordações da vida que foram mais marcantes... Escreva os sentimentos que mais apareceram: paz, alegria, confiança, ânimo, coragem, abertura, experiência do sentido da vida, etc. ou inquietude, angústia, tristeza, desconfiança, desânimo, fechamento, obscuridade, confusão, irritação, etc. Veja quais foram os apelos, impulsos, desejos, inspirações... Veja quais foram as resistências, medos e repugnâncias diante do texto...
13. É aconselhável, e às vezes indispensável, que você confronte com um orientador espiritual o seu processo de oração e discernimento. É importante ter uma pessoa na qual você possa confiar totalmente, que o acompanhe no seu caminho, que o escute e o ajude a discernir, isto é, a encontrar a vontade de Deus em vocêt. Irá vendo, segundo suas necessidades, a periodicidade e a duração destas confrontações. Leve consigo as revisões da sua oração.

PARA AJUDAR A REZAR:
GRAÇA A PEDIR - "Senhor, ensina-me a rezar".
PALAVRA DE DEUS - Lc 11,1-13
REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você se sentiu na oração?

Aquele lugar santo, intocável, onde reside o lado mais positivo da pessoa, onde a pessoa encontra a sua identidade pessoal. O coração é a sua dimensão mais verdadeira, sede das decisões vitais, lugar das riquezas pessoais, onde se vive o melhor de si mesmo, onde se encontram os dinamismos do seu crescimento, de onde partem as suas aspirações e desejos fundamentais, onde percebe as dimensões do Absoluto e do Infinito da sua vida. A pergunta básica da oração: "Quem sou eu, diante do Senhor?" supõe uma tarefa pessoal de assumir a própria experiência e responsabilizar-se por ela. Sem identificação será quase impossível um encontro profundo com o Senhor. lhe aproxima do "conhecimento" de Deus. Com efeito, orar é aproximar-nos da "Verdade que nos faz livres": livre para ser você mesmo, chegar a ser aquilo a que é chamado a ser. Uma pessoa amadurece reconhecendo suas experiências e vivências, assumindo-as em sua totalidade, expressando-as, integrando-as, configurando uma identidade que tem consciência da realidade de sua vida. Na experiência de oração, o importante não é o que eu faço, mas o reconhecimento amoroso e agradecido daquilo que Deus realiza. É nessa manifestação divina que você descobre-se a si mesmo.

PARA AJUDAR A REZAR:
REVISÃO DA ORAÇÃO - É um instrumento para ajudar você a refletir sobre a experiência de oração, perceber a ação de Deus em você. Feita nos cinco minutos finais do tempo dedicado à oração, por escrito, evita que se interfira na comunicação com Deus durante a oração. Não é anotação de como você compreendeu o texto bíblico (veja 2º DIA - PASSOS PARA A ORAÇÃO - item 12). Anote apenas aquilo que foi significativo e sobre o qual será interessante conversar com seu orientador ou simplesmente para sua lembrança pessoal.
GRAÇA A PEDIR - "Senhor, que eu me conheça a mim mesmo."
PALAVRA DE DEUS - Sl 139 (138): Senhor, vós me perscrutais e me conheceis.
REVISÃO DA ORAÇÃO - Que resposta você daria para alguém que lhe perguntasse: "Quem é você?"

Três tipos de pessoas se equivocam sobre a oração:

1. Os atentos: julgam que o essencial, durante a oração, é estar atento a Deus com uma atenção sem desfalecimento. Ora, eles só chegam a breves instantes de atenção. No resto do tempo são levados por toda espécie de pensamentos, sentimentos, devaneios, impressões, que eles chamam de "distrações" porque isso os distrai de sua atenção a Deus. Não tardam a desanimar. Fazem mal: o valor da oração não se mede pela estabilidade da atenção do espírito. A oração pode ser boa sem essa estabilidade. Não está nisso o essencial. O que não quer dizer que seja inútil recorrer aos métodos e meios que favorecem a atenção.

2. Os intelectuais: imaginam que o essencial consiste em buscar e cultivar belos e profundos pensamentos sobre Deus. Radiante de contentamento quando alcançam esse objetivo, desalenta-se quando seu espírito está como que entorpecido, estéril.

3. Os sensíveis: se desesperam quando não experimentam em si impressões exaltantes ou tonificantes: por exemplo o sentimento de uma certa presença de Deus acompanhada de alegria e paz, ou então um fervor de amor, um entusiasmo. Conheceram, sem dúvida, um dia ou outro essas "impressões", e desde então vêm à oração ávidos por reecontrá-las. Perdem-se pelo caminho. No domínio da oração, é a pessoa desinteressada que vem a Deus por causa de Deus e não por causa de si mesma. "Que diferença entre o que vai ao banquete pelo banquete e o que vai ao banquete pelo bem-amado!" Fervor e abundância de sentimentos não são o essencial da oração mas um acompanhamento concedido por Deus quando Ele quiser e a quem Ele quiser.

Mas, se o essencial da oração não está nem na estabilidade da atenção, nem no "eu penso", nem no "eu sinto", onde encontrá-lo? No "eu quero", na adesão de sua vontade à Vontade de Deus. O que equivale a dizer que a oração não é questão de atenção, nem de atividade intelectual, nem de sensibilidade. Ela consiste nessa orientação que você imprime voluntariamente em seu "coração profundo". O mais importante é que na oração o "eu quero" seja definido por um lúcido e vigoroso ato de vontade. Direi, por exemplo: "o que eu quero desta oração, Senhor, é o que Tu queres". "Ponho-me, Senhor, à tua disposição". Estar verdadeiramente presente. Tornar-se presente a Deus desde o início da oração é estabelecer a relação Eu-Tu. Ele, de sua parte, lhe está presente. Você deve corresponder a esta Presença com sua presença. A relação Eu-Tu será mais cordial, concreta, viva se, ao me aproximar de Deus, procuro entrar nas suas intenções. Por que não lhe perguntar: "Senhor, que esperas de mim?" Há sempre o risco de se concentrar em si mesmo, de só ficar atento às próprias emoções. Deve privilegiar o "eu quero" porque ele é em você o que é mais você mesmo, sua vontade, sua liberdade que assume posição e compromisso. Na oração, Deus dá menos atenção aos seus desfalecimentos, às suas fraquezas, que ao seu profundo "quero ser inteiramente teu". Quando é o tédio que reina, quando você está sem pensamentos, sem amor... longe de se desencorajar, voltará com toda a tranqüilidade, toda a calma ao "eu quero". "Eu quero, Senhor, o que tu queres desta oração. Fervorosa ou desértica, como quiseres". Esses "eu quero", repetidos de tempos em tempos, são as torres que sustentam a linha de alta tensão através dos campos. Elas transportam minha oração. Reservar o espaço do silêncio na oração, pois "em matéria de amor mais vale o silêncio que um longo discurso" (Pascal). Por que querer sempre falar ou fazer quando bastaria estar, estar presente. Com Deus. Para Deus. Oferecido. Meu "eu quero" será a alma de seu silêncio. Durante a oração nos entretemos familiarmente com o Senhor de nossas alegrias e trabalhos, de nossos desejos e contrariedades, de nossa vida... Ser verdadeiro. Não se enfeitar para ir ao encontro de Deus. Com cuidado de evitar a tagarelice. "Se Deus deu ao homem duas orelhas e só uma boca, é para sugerir que se leve duas vezes mais tempo escutando que falando".

PARA AJUDAR A REZAR:
TEMPO DE ORAÇÃO - Lembre-se que o tempo mínimo inicial para a oração é de vinte minutos. O ser humano é, por natureza, disperso, e o processo de oração necessita de uma harmonização e quietude interiores que supõem dar-se um período de tempo suficiente. Este tempo está situado entre outras diferentes ocupações que você tem durante o seu dia, e, por elas, será imediatamente marcado.
GRAÇA A PEDIR:
"Senhor, que eu queira o que Tu queres de mim."
PALAVRA DE DEUS - Sb 9,1-18
REVISÃO DA ORAÇÃO - Que lhe pediu Deus nessa oração?

As pessoas são um presente. Cada um de nós é um presente que o Pai mandou bem embrulhadinho... Alguns vem num embrulho bonito, como presente de Natal, Páscoa ou aniversário; são atraentes e conquistam a gente logo de cara... "Como é bela esta embalagem!" Porém... a embalagem não é o presente... É fácil cometer este erro. Outras pessoas vem em embalagens bem simples e comuns. Quase não chamam a atenção... Porém... a embalagem não é o presente... É muito fácil cometer este erro! Existem as embalagens que se amassaram no correio... podem chegar defeituosa... Mas a embalagem, realmente, não é o presente! De vez em quando chega uma embalagem registrada. São presentes valiosos e especiais Algumas pessoas são pacotes que vem em embalagens fáceis de se abrir. Outras, é bem difícil chegar ao presente de tanto papel, papelão, caixa e durex!!! Porém, a embalagem não é o presente... Tantas pessoas se enganam, confundindo a embalagem com o presente. Às vezes, para abrir um presente, é preciso a ajuda de outras pessoas. Há presentes que parecem se recusar a serem abertos... Será que a razão é o medo? Será que dói? Talvez porque dentro da bonita embalagem se encontra um presente de pouco valor e de muita solidão, vazio... Talvez tenham sido desembrulhadas antes e o presente acabou sendo jogado fora...? Quem sabe este presente não era para mim...? Você também é uma pessoa. Logo, também é um presente. Antes de tudo, um presente para você mesmo! Será que você já deu uma olhada por dentro da sua embalagem? Será que aceita e gosta do presente que é...? Talvez tenha medo de se desapontar. Talvez não confie em seu próprio conteúdo. Pode ser que dentro da embalagem haja algo diferente do que você mesmo pensa. Talvez não tenha compreendido o maravilhoso presente que é, ou que possa vir a ser... afinal você é um presente que ainda não está pronto... que pode ser ainda mais bonito e atraente do que já é... Mas... tem que tomar cuidado para não ser apenas uma embalagem... muito bem empacotado mas com quase nada dentro. Você é um presente especial e único que o Pai preparou para o mundo. Será que os outros tem que ficar contentes só com a sua embalagem? Será que nunca chegarão a descobrir que o presente está mesmo por dentro? Para isso existe o encontro... Ele é uma troca de presentes... Seu presente é você; o meu sou eu... Somos um presente para os outros... Quando existe verdadeiro encontro com alguém, no diálogo, na abertura, na fraternidade... deixamos de ser meras embalagens e passamos a ser realmente presentes. Esta troca de presentes é algo muito especial. As pessoas vão mutuamente se desembrulhando, se desempacotando, se revelando... O conteúdo é o segredo de quem deseja tornar-se presente para os irmãos, e não apenas embalagem... A amizade é o relacionamento de pessoas que se vêem a si mesmas como um presente para o outro. O Pai lhe fez presente... O Pai lhe fez irmão... "Pois Deus amou de tal modo o mundo que deu o seu Filho único (de presente) para que todo aquele que n’Ele crer tenha a Vida Eterna..."(Jo 3,16)

PARA AJUDAR A REZAR:
HORÁRIO DA ORAÇÃO - É preciso testar qual o momento do seu dia que mais favorece o tempo de oração e para melhor realizar o que você busca. Verifique se o horário escolhido está sendo o melhor e que pontos de sacrifício serão necessários durante os Exercícios: levantar mais cedo? ver menos televisão? reorganizar seu horário pessoal? etc... Se possível, explique aos seus familiares a natureza do que você vai fazer nestes próximos meses, pedindo-lhes a colaboração para o seu tempo de oração. Talvez seja positivo pedir-lhes que rezem por você nesse período.
GRAÇA A PEDIR - Senhor, que eu tenha um coração agradecido.
PALAVRA DE DEUS - Sl 103(102) - Bendize, ó minha alma, ao Senhor!
REVISÃO DA ORAÇÃO - Quais são as motivações que movem e regem sua vida?

"Senhor, Tu és o meu Deus, há muito que te procuro com grande ansiedade. Como a terra seca do sertão à espera da chuva, todo o meu ser anseia por Ti, Senhor". (Sl 62,2)

Certo dia, um discípulo foi ter com o Mestre e lhe disse:
- Mestre, quero encontrar a Deus! O Mestre olhou o jovem discípulo, limitou-se a sorrir, sem nada dizer. O discípulo vinha diariamente procurar o Mestre, e repetia-lhe sempre as mesmas palavras. Dizia que estava em busca de Deus e que queria dedicar-se à religião. O Mestre, porém, não lhe dava atenção. Sabia o que convinha fazer. Num dia em que o calor era muito intenso, o Mestre pediu ao discípulo que o acompanhasse até o rio, próximo dali, para, juntos, atravessá-lo a nado. Lá chegando, o discípulo lançou-se à água. O Mestre o acompanhou. Quando estavam em meio à corrente, o Mestre, subitamente, agarrou o discípulo pela cabeça, afundou-o na água e o segurou lá embaixo, enquanto o pobre coitado procurava, desesperadamente, libertar-se e respirar. Quando o discípulo estava a ponto de morrer afogado, o Mestre então, largou-o e perguntou-lhe: - O que é que você mais desejava quando eu segurava sua cabeça debaixo d’água? - De ar, respondeu o discípulo. O Mestre continuou: - Será que neste instante você tem tanto desejo de Deus quanto tinha de ar debaixo d’água? E se o desejar tanto assim, encontrá-Lo-á no mesmo instante. Se, porém, você não tem tal desejo e tal sede de encontrar a Deus, é melhor que lute com toda sua inteligência, com todo seu coração, com seus lábios; do contrário, não O encontrará. Sem esta sede de Deus, você faria melhor continuar ateu. Porque um ateu pode, muitas vezes, ser sincero ao passo que você não é".

O ser humano é um ser insaciável, insatisfeito... vive eternamente buscando, sem saber o quê. Em contato com este "poço infinito" (seu interior) sente a necessidade de preenchê-lo a qualquer preço; na maioria das vezes preenche-o com "coisas", ruídos, problemas, busca de poder, posses, drogas, etc... e sente-se frustrado, porque nada lhe satisfaz. Na realidade, o único que pode saciá-lo é o encontro consigo mesmo e com Deus, no seu interior. É na dimensão mais profunda, no seu "coração" que o ser humano é divino. Por isso, é lá e somente lá que a pessoa encontra a si mesma, a sua identidade pessoal. Só o Senhor e Criador, de quem recebe gratuitamente o sopro da vida, pode preencher seu interior por completo. Portanto, o caminho da Vida é para dentro. Feliz quem encontra o caminho do coração. É no coração que está a Fonte, a Origem e o Mistério do ser humano.

PARA AJUDAR A REZAR:
HORÁRIO DA ORAÇÃO - É importante prestar atenção à influência que certas atividades da sua vida diária podem ter sobre a sua oração. Para quem tem o dia muito cansativo, talvez seja conveniente evitar a noite e dar preferência à manhã para sua oração. Não veja televisão imediatamente antes da oração. Tenha um lugar especial para a oração, não atenda o telefone. Por vezes, ajudará acender uma vela, música suave...
GRAÇA A PEDIR - Senhor, que eu tenha fome e sede de Ti.
PALAVRA DE DEUS - Isaías 55,1-13
REVISÃO DA ORAÇÃO - Qual é a "água" que seu coração busca?

Normalmente vivemos com a cabeça... Uma multidão de pensamentos, ocupações, preocupações, idéias, obsessões, recordações... lutam para ocupar o primeiro lugar em nossa mente. Pretendem organizar sua vida, programá-la e dirigi-la. Às vezes inclusive lhe exigem, lhe culpam, lhe martirizam... Esta multidão de pensamentos, obsessões, idéias, também exige dos outros, julgando-os, castigando-os, desqualificando-os. Uma cabeça assim, cheia de trabalho, se seca, se debilita, se transtorna e acaba por render-se. Não serve. Sente-se incapaz de levar a vida, de conduzi-la. Falta-lhe o calor do coração. Por que não aprendemos a viver com o coração?

O coração não é algo sentimental, emocional ou romântico. O coração é o centro do homem. O coração é o núcleo mais profundo de nossa vida psíquica e espiritual. O coração é o amor íntimo e profundo do homem, onde se encontra com o mais sólido, verdadeiro e genuíno de si mesmo... O coração é o lugar do encontro, onde a relação e o contato com as coisas, com os outros, consigo mesmo, com Deus..., Converte-se em encontro ardente e luminoso. O coração é o templo de Deus. No coração habita o Espírito de Deus, enchendo o homem de seu amor e de sua sabedoria. "Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós" (1Cor 3,16). Desde o coração se irradia o ser íntimo do homem e o Amor infinito de Deus.

Aprenda a viver com o coração... Viva com o coração... Viva desde o centro de seu ser, onde você é amor. Irradie desde o centro do seu ser o amor, como o sol irradia seus raios... Ponha o coração em cada manhã, ao despertar... E saúde o novo dia com amor. Viva desde o mais encima de seu ser sua oração ao Senhor... Ponha o coração ao olhar a si mesmo e julgue-se com bondade e compreensão... Realize cada tarefa com amor em seu coração... E viva com ânimo seus esforços e desalentos. Viva com compreensão e amor as suas falhas e limitações... Se Aceite e queira ser de verdade seu melhor amigo. Viva sua relação com os outros com amor, e veja-os com olhos suaves e compreensivos... Viva com o coração toda sua relação com os outros para que se converta em encontro cheio de amor e bondade... Escute e acolha os outros com os olhos do coração... Viva com o coração as limitações e falhas dos outros para que a compaixão e a ternura prevaleçam sobre o fechamento ou a indignação... Sirva e ajude os outros a partir do seu coração... Ponha o coração, todo seu coração, em seu encontro com Deus, na oração... Viva desde o coração quando se sinta julgado pelos outros... E escute com o coração as críticas sobre você, sobre a vida, sobre as coisas... Aceite, com simplicidade e humildade, os favores e atenções dos outros... Ponha o coração em seus lábios quando fala... Ponha amor em suas palavras quando fala dos outros, procurando não ferir, mas curar e salvar... Ponha o coração em seus juízos, para que aumente a tolerância e a aceitação... Ponha o coração em sua vida, em todos os seus aspectos... Viva desde o coração as contrariedades, as dificuldades e o sofrimento... Ponha muito amor em tudo, e irradie-o ao longo do dia... Ponha o coração em Deus, Fonte e Meta de toda sua vida... Ponha o coração em... Viva este dia com todo seu coração...

PARA AJUDAR A REZAR:
AUTOBIOGRAFIA (SUA FAMÍLIA) - A partir de hoje, fora do seu horário de oração, você vai começar a escrever a 1a. Parte da sua Autobiografia. Ela pretende ser uma ajuda para sua reflexão sobre aspectos importantes de sua vida pessoal e um meio de diálogo com seu orientador espiritual. Apresentamos a seguir alguns pontos para sua Autobiografia. Para respondê-los, leia tudo várias vezes e vá refletindo sobre cada um desses aspectos de forma muito pessoal, deixando-se guiar no que escreve por aquilo que vai surgindo sem se preocupar nem com o estilo nem com a lógica do que vai anotando. Não responda cada um dos pontos. Eles servem só como orientação. Seja espontâneo! Procure responder em momentos em que você esteja tranqüilo e possa se concentrar no que está fazendo. Essa 1a. Parte deve estar pronta até o 18º Dia.
1. Seus pais: Quem são? O que fazem? Quais são seus interesses e opiniões? Como são? (características principais de sua maneira de ser)
2. Seus irmãos: Quantos são? Que lugar você ocupa entre eles? Como são as relações deles com seus pais? Qual é o seu relacionamento com eles? Quais são os problemas mais importantes que tem com eles?
3. Ambiente de sua casa: Como são as relações com seus pais? Qual é o clima afetivo de sua casa? Quais são, a seu ver, os principais conflitos que você vive em sua casa? Como são as relações de sua casa com os amigos, parentes e vizinhos? Com quem você se entende melhor e com quem tem dificuldades, em sua casa?
GRAÇA A PEDIR - Senhor, que eu aprenda a viver com o coração.
PALAVRA DE DEUS - Isaías 43,1-5
REVISÃO DA ORAÇÃO - O que lhe parece mais importante, no qual você está pronto a investir sua vida?

Falar do desejo é falar do ser humano em sua profundidade última. O desejo é uma das expressões mais nobres da pessoa, é seu impulso evangélico vital. Como seria pobre e fria a nossa vida sem a capacidade de desejar e de expressar desejos! Por outro lado, como seriam de baixa qualidade e repetitivos os nossos desejos se não fossem "evangelizados" na escola da oração! De fato, qualquer desejo é caminho no qual podem se encontrar "expectativa humana" e "oferta divina", desejo do homem e desejo de Deus.

Deus trabalha através dos desejos, suscitando atrações, movendo nosso coração, impulsionando nossa liberdade. "Deus põe desejos em nosso coração" (EE 180) "De sua divina Majestade, da qual procede ao que se deseja" (S.Inácio) "Deus, quanto mais quer dar, tanto mais faz desejar" (S.João da Cruz) Nos desejos mais profundos habita Deus. O coração é o lugar onde os nossos desejos se confundem com os desejos de Deus.

O desejo de Deus está escondido nas consciências. Deus é o desejo maior! É Ele quem atrai, precede e desafia sempre o ser humano, provocando-o e convocando-o para além das fronteiras de seus limites. Os desejos autênticos são, antes de tudo, graça, dons do Espírito. Tais desejos sempre são autotranscendentes, isto é, nos conduzem para fora de nós mesmos, para a comunidade, a comunicação... Nos impulsionam ao serviço, ao compromisso... O ser humano é capaz de desejar quando sai de si mesmo e mergulha num mundo muito maior que ele.

Nascemos marcados pelo desejo, e nascemos assim porque Deus mesmo é a Fonte do desejo. É Deus que faz nascer o desejo. O que desejamos é Deus que no-lo concede. "Desejamos porque Deus nos faz desejar". Por isso, o desejo e a capacidade de desejar são o lugar por excelência da experiência humana de Deus. Devemos ser pessoas de grandes desejos, se queremos obter resultado. O Desejo nos introduz no mundo das idéias, dos sonhos, dos projetos... E busca o modo de concretizá-los. Desejar algo é antecipar o futuro e procurar uma maneira de torná-lo presente. Os grandes desejos são "grandes avenidas" pelas quais circula o melhor das pessoas (riquezas, intuições, "garra"...) Ter grandes desejos é já um grande passo para que se convertam em realidade. Dificilmente pode ser realizado aquilo que nem sequer foi imaginado, desejado... Um desejo sincero, repetidas vezes renovado, acaba por criar a força que nos move. As pessoas mais efetivas e criativas são aquelas capazes de liberar e desenvolver em seu interior a energia dos grandes desejos. Isso tudo nos revela que o desejo é uma força totalizante, portadora de significados, que impede a acomodação.

O desejo é aquela disponibilidade a canalizar todas as nossas energias para "algo" que consideramos central, importante em si mesmo. Através dos desejos exprimimos aquilo que mais nos atrai, aquilo para o qual se dirige o nosso olhar e que está no centro de nossa vida. A oração é um caminho para suscitar, canalizar e potenciar desejos; talvez despertar o desejo que está adormecido em nosso coração. As "vozes do desejo" são algo constitutivo desse caminho. É preciso "escavar" o desejo, para não ficar na superfície da vida e terminar por desejar muito pouco e de maneira repetitiva: não descobre Deus e sequer a si mesmo.

PARA AJUDAR A REZAR:
A GRAÇA - Ela centra-se na idéia de que o crescimento na oração é dom de Deus e não nosso trabalho pessoal. Quando você pede uma graça determinada, referente a uma área do seu viver, você a coloca aberta à ação de Deus. Com isso a graça pedida, de caráter mais geral, vai se particularizando de acordo com suas necessidades. De o seu relacionar-se com o Criador, por exemplo, pode vir-lhe consciência de uma falta de relacionamento humano por inexistência de confiança; aí você pede a graça de ser confiante para poder relacionar-se.
GRAÇA A PEDIR - Senhor, que os meus desejos me revelem quem eu sou.
PALAVRA DE DEUS - Isaías 35
REVISÃO DA ORAÇÃO - Que ideais, sonhos, projetos... Alimentam e dão sabor à sua vida?

“... Ah! Disse eu ao principezinho, são bem bonitas as tuas lembranças, mas eu não consertei ainda meu avião, não tenho mais nada para beber, e eu seria feliz, eu também, se pudesse ir caminhando passo a passo, mãos no bolso, na direção de uma fonte! ·... - Tenho sede também... procuremos um poço... ·Eu fiz um gesto de desânimo: é absurdo procurar um poço ao acaso, na imensidão do deserto. ·No entanto, pusemo-nos a caminho. Já tínhamos andado horas em silêncio quando a noite caiu e as estrelas começaram a brilhar. Eu as via como em sonho, porque tinha um pouco de febre, por causa da sede. As palavras do principezinho cansavam-me na memória. ·- Tu tens sede também? Perguntei-lhe. Mas não respondeu à minha pergunta. Disse apenas: ·- A água pode ser boa para o coração... Não compreendi sua resposta e calei-me... Eu bem sabia que não adiantava interrogá-lo. Ele estava cansado. Sentou-se. Sentei-me junto dele. E, após um silêncio, disse ainda: ·- As estrelas são belas por causa de uma”. Flor “. Que não se vê... Eu respondi” é mesmo “e fitei, sem falar, a ondulação da areia enluarada.
- O deserto é belo, acrescentou... E era verdade. Eu sempre amei o deserto. A gente se senta numa duna de areia. Não se vê nada. Não se escuta nada. E, no entanto, no silêncio, alguma coisa irradia...
- O que torna belo o deserto, disse o principezinho, é que ele esconde um poço nalgum lugar...
Fiquei surpreso por compreender de súbito essa misteriosa irradiação da areia. Quando eu era pequeno, habitava uma casa antiga, e diziam às lendas que ali fora enterrado um tesouro. Ninguém é claro, o conseguira descobrir, nem talvez mesmo o procurou. Mas ele encantava a casa toda. Minha casa escondia um tesouro no fundo do coração...
- Quer se trate da casa, das estrelas ou do deserto, disse eu ao principezinho, o que faz a sua beleza é invisível!...
E, caminhando assim, eu descobri o poço. O dia estava raiando”.(A. Saint Exupéry, O Pequeno Princípe, pp.78-80)
O deserto, na experiência bíblica, é o lugar da passagem constante da escravidão à liberdade. O deserto é a experiência pela qual Deus faz passar Israel para que surja como povo antes de entrar na Terra Nova: tempo de purificação e de vida em marcha, peregrinos apegados somente em Deus.
No deserto Israel aprendeu a descobrir e a confiar em Deus. Longe da segurança do Egito emerge o que há no fundo de seu coração. Os profetas cantam o tempo do deserto como tempo das obras maravilhosas de Deus.
O deserto é o lugar da Aliança, escola de intimidade com Deus. Jesus, como todos os profetas, antes de entrar em missão é conduzido pelo Espírito ao deserto (Mc 1,12; Lc 4,1). Jesus recorria a esta experiência em meio à sua vida ativa: afastava-se para lugares solitários (Lc 5,16).
No deserto temos a possibilidade de reconhecer a ação de Deus em nós com outra luz e com outra força. A experiência do deserto é a de um "tempo" e "lugar" de decisão, de orientação decisiva da vida. O mestre do deserto é o silêncio. O deserto tem valor porque revela o silêncio. E o silêncio tem valor porque nos revela Deus e a nós mesmos.
Quem anda no deserto sente profundamente o que é o "nada". Foi no deserto que o povo de Israel sentiu profundamente sua pequenez e total dependência de Deus. O deserto grita o nosso nada, o deserto elimina todas as distrações, o deserto nos coloca entre a areia e o céu, o nada e o tudo, o eu e Deus. O deserto é o grande auditório para ouvir Deus.

                              "O deserto é fértil" (D. Helder).

PARA AJUDAR A REZAR:
MOTIVAÇÃO - Lembre-se novamente que a revisão não é descrição passo a passo do que aconteceu na oração, mas uma tentativa de registrar a experiência no nível do sentir. A questão-chave é "o que aconteceu durante e ao final da oração?"; não que idéias, conhecimentos novos tive, mas "o que sinto/senti a respeito do que me ocorreu durante a oração".
GRAÇA A PEDIR - Senhor, vem ao meu encontro e me acompanhe neste deserto.
PALAVRA DE DEUS - Salmo 23(22) - O Senhor é meu pastor!
REVISÃO DA ORAÇÃO - Sinto vontade de fazer a experiência do deserto? Por quê?

A solidão, a solidez e a solidariedade são três dimensões da oração cristã, consideradas não como realidades paralelas, mas como três pontos de vista de uma só, rica e complexa realidade. Três dimensões que não se excluem, mas se interagem e se exigem mutuamente, num movimento circular.
A solidão é um momento fundamental na vida cristã. Sem ela a pessoa se mascara, se aliena, se dilui, se desintegra espiritualmente de tal modo que seu interior fica um imenso vazio; esse vazio, tão comum à solidão dos que permanecem fechados em si mesmos, é que gera a angústia e o desespero.
A solidão é indispensável ao ser humano engajado, por mais ativa e atribulada que seja a sua vida. Ela o impede de ser tragado pelo ativismo que põe em risco a própria eficácia da luta. Ela proporciona o recuo necessário à visão de conjunto, à crítica e à autocrítica. Nela a pessoa se abastece, recupera suas energias criativas, areja o espírito, avalia corretamente a realidade. Colocando a pessoa diante de si mesma, a solidão é como um espelho, no qual ela vê aquilo que em sua vida é detrito, é carga supérflua, poeira acumulada... E essa limpeza purifica e renova.
A solidão, tecida no silêncio, faz descobrir mais uma vez a novidade do Amor. Ela é o momento de síntese, re-união, encontro. Agora tudo em nós é gratuidade e verdade. Nesse espaço emerge toda a nossa liberdade, libertada pelo silêncio que nos faz conhecer as raízes do Amor. Somos todo intimidade. Aqui não há lugar para a farsa, para a trapaça. A intimidade revela a verdadeira identidade do ser humano. Colocados diante de nós mesmos, a solidão nos conduz para além de nós mesmos, nos fazendo viver a partir da raiz, da Fonte mesma da vida. Do silêncio que exprime amor brota à luz que aponta o caminho da interioridade: do para-além-de-nós-mesmos. Este caminho só pode ser percorrido pela pessoa enquanto ela se encontra só. Ninguém pode percorrer por ela.
A solidão, planificada na intimidade consigo mesmo e com Deus: cria uma consistência interior, solidifica opções, valores, atitudes de vida; dá segurança e firmeza nas convicções e nas decisões, fidelidade aos princípios fundamentais; faz carregar dentro de si esperanças duradouras capazes de transformar realidades mesquinhas; nutre confiança em si mesmo: daqui brota a criatividade, a busca do "novo", a aventura... Uma pessoa sem solidez se afoga na banalidade, se perde na superficialidade, não leva adiante projetos de fôlego... Uma pessoa superficial "passa" sem deixar rastro.
A solidão e a solidez, tecidas no silêncio, nos conduzem à morte de nós mesmos para que sejamos totalmente abertura e transcendência no outro e para o outro; nos fazem descobrir a novidade do Amor e nos abrem para a solidariedade. É o resultado de ultrapassar todas as alienações. Temos agora a completa posse de nós mesmos porque já não nos possuímos mais. Estamos salvos porque nos perdemos. No espaço ilimitado de nossa interioridade tudo é maravilha.
O mergulho em si mesmo, para além de si mesmo, opera a metamorfose que nos devolve à vida transfigurados pelo Amor que nos habita e planifica.


 

 

 

 

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:
A PALAVRA DE DEUS - Pode acontecer que, no seu tempo de oração, não tenha acabado de rezar toda a Palavra de Deus sugerida para a oração. A Palavra não é uma tarefa, é o lugar para encontrar a Deus. Mesmo se alguma vez não achar nenhum significado nela, peça a Deus compreensão e um coração sensível. Tanto a Palavra em que você achou um enorme significado como, pelo contrário, a Palavra em que não achou nada, serão objeto de voltar uma e outra vez, deixando que cada Palavra de Deus possa enraizar-se profundamente na sua vida. Leia a Palavra de Deus, num espírito de oração, suavemente, parando e degustando palavras e frases, falando com Deus, o Senhor, e não sentindo nenhuma pressão para terminar logo.
GRAÇA A PEDIR - Senhor, que a solidão me dê mais solidez e me faça mais solidário com meus irmãos.
PALAVRA DE DEUS - Deuteronômio 8,1-20
REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você está se preparando para a travessia do deserto?

É melhor pôr o coração na oração sem encontrar palavras do que encontrar palavras sem pôr nelas o coração “(Gandhi)

Se a” vocação “é antes de tudo chamado de Deus, a primeira atitude só pode ser descrita como escuta. Aquele que procura reconhecer sua vocação, só pode dizer como Samuel:
“ Fala, Senhor, que teu servo escuta “(1Sm 3,10).
Um discernimento em clima de escuta da Palavra de Deus, de comunicação de vida profunda, de oração intensa e constante, de diálogo sincero com Deus, é o clima para a resposta.
Vivemos num mundo marcado por ruídos externos e internos. Carregamos o ruído dentro de nós: em nosso corpo (tensões, pressas, nervosismos...), em nossa mente (“ falatório “crônico, confusão mental, perturbação...), em nossa afetividade (sentimentos negativos”, feridas “, tristeza, angústia...)
Também a nossa oração segue o ritmo dos ruídos... passa a ser não uma oração de escuta, mas um” falatório interior “, onde Deus não tem como manifestar sua voz. ·Deus não faz ruído! É”. Preciso um coração atento, em silêncio, para ouvi-lo. Urge "fazer deserto" no coração: imprescindível para se optar, para se decidir. Fazer deserto é entrar no coração, ficar aí e escutar. Porque o coração não nos engana, uma vez que o próprio Deus está no fundo de nosso ser. E no coração se exige silêncio, disponibilidade, contemplação. Este é o caminho sério para se ver, para se descobrir o plano de Deus na vida.
Acontece, normalmente, que o coração se vê invadido por um monólogo interior carregado de auto-reprovações, censura, exigências, críticas que se faz em função da auto-imagem, acusações...
A oração se converte em algo incômodo e hostil; ela passa a ser o lugar do "deveria", "teria"... Desta maneira, a pessoa não se situa corretamente na presença de Deus e nem se relaciona sadiamente consigo mesma. Daí a necessidade, primeiramente, de silenciar o ruído-nocivo, o ruído-obstáculo... Através da "escuta amorosa", ou seja, uma atitude positivamente amorosa para consigo mesmo, sentir-se valioso aos olhos de Deus, sem julgar-se, avaliar-se...
Esta "escuta amorosa" é a base para uma sadia oração e se traduz numa autocompreensão carinhosa, cálida, criativa...
Só assim, sem defesas e juízos, brotará sua palavra, seu silêncio, sua escuta...
Entrar em contato amoroso consigo mesmo na oração é deixar transparecer a ação de Deus criador, libertador, vendo a si mesmo como fruto da criação amorosa de Deus. A "escuta amorosa" de si mesmo conduz à "escuta comprometida" do Deus da Vida. Precisamos do silêncio.
Precisamos viver no silêncio e a partir do silêncio: silêncio pleno, transparente, transformante, comprometedor, que nos revela Deus e "toca" o mistério de nossa vida...

Se queremos continuar aprofundando no descobrimento de toda a riqueza de nosso ser e da presença do Senhor no nosso coração, temos que descobrir o silêncio. Só na quietude, silêncio e harmonia do seu corpo, da sua mente e do seu coração chegará a aflorar sua autêntica e verdadeira realidade, chegará a refletir a imagem de Deus que você é.
Por isso o silêncio é vazio e plenitude, ser e transparência, obscuridade e mistério. O silêncio e a escuta interior dispõem a pessoa para a resposta. Mais ainda: essa atitude harmoniosa já é resposta, porque ela faz Deus presente em seu coração.
A vida não muda; faz-se outra, imensa, forte e silenciosa; próxima e amorosa... Chegou à hora em que a vida cala e o silêncio fala.
"Deus não fala ao homem enquanto este não consiga estabelecer o silêncio dentro de si mesmo".
PARA AJUDAR A REZAR
GRAÇA A PEDIR - Senhor, ensina-me a silenciar para escutar tua Palavra.
PALAVRA DE DEUS - 1 Sm 3,1-10
REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você se sentiu na oração?

 Bebe a água da tua cisterna,  a água que jorra do teu poço “(Prov. 5,15)
A imagem do poço nos ajuda a captar o mistério profundo da pessoa, fonte rica e inesgotável. Daí a necessidade de um acesso constante a essa fonte, como uma viagem para o interior, para o coração.
Olhar para dentro de si mesmo requer coragem, empenho, luta... Normalmente vivemos na superfície, cheio de” coisas “, de ruídos... Mas o que dá valor ao poço é a profundidade (de onde brota a água viva). O que planifica o ser humano é a descoberta das riquezas interiores: desejo de autenticidade, de ser "eu mesmo", atitude de busca, busca de algo melhor, mesmo que seja mais exigente.
A água parada apodrece. O sentido da vida está precisamente em comunicar-se, em perder-se pelos outros, em partilhar.
O nosso interior é dinamismo, força, criatividade, vida sempre nova... É tempo de "olhar para dentro", de fazer uma peregrinação interior.
É tempo de ser poço. Cantar sua vida que salta como nascente. Cantar sua liberdade e sua originalidade. Ser o que se é, aquilo para o qual saiu da Montanha.
Ser poço que se alarga, ampliando a vida. Ser poço que conhece as águas. Ser poço e viver feliz. Aprender a jorrar água e a fecundar tudo ao seu redor. Onde você está deixa a alegria nas árvores com mil pássaros que saltam de galho em galho. Ser poço e jorrar vida feita água fresca para a pomba que, sedenta, desce à sua borda.
Deixar sua água livre para que o cordeiro e a ovelha, o leão e a pantera, se juntem em sua transparência. Ser poço para todos. Ser poço de onde brota a vida. Ser poço e o ser para sempre. Poço sem fronteiras. Poço transbordante. Ser feliz. Viver. Sua vida é sua luz. Sua vida estremece sua vida. Alguém vive em você. Você sabe, você experimenta. Ainda mais: é você quem vive n'Ele. A vida dele é sua vida. O viver dele é seu viver.
Para você a vida é a vida dele. Alguém vive em você no silêncio. Alguém que é como uma força de tormenta na montanha. Alguém que é como a luz transparente. Alguém que é como a beleza de uma rosa que perfuma seu ser. Alguém que conhece o bem, a verdade, a liberdade. Ser poço desde a Origem. Desde a Montanha, desde o vigor incontido do Manancial. Ser poço. Sua mãe é a Montanha. Você a leva em suas entranhas como um canto de libertação. Seu "interior" conhece a Montanha. Conhece o seu silêncio e a sua solidão. Conhece a sua interioridade e a sua profundidade. Conhece a vida. Ser poço.
Seu "interior" conhece a água do Manancial. É algo como o espírito que lhe anima. É algo como o vento que não se sabe de onde vem nem para onde vai, mas que se ouve a sua voz. É algo que lhe "marca", que lhe dá identidade.
Se a Montanha não lhe tivesse dado suas águas, se a Montanha não lhe tivesse dado sua vida de Manancial, hoje você não seria poço. Ser poço e gritar a todos sua vida, deixar a torrente transbordar como quem encontrou a brecha por onde entrar.
A torrente se fez sua liberdade e sua força. A torrente lhe deu um nome: poço. Ser poço. Ser peregrino no "silêncio". Ser dinamismo e tenda levantada em cada amanhecer. Ser para a aventura, ser para o desconhecido, ser para o novo, ser para o amanhã, ser futuro a galope de suas águas transbordantes. Ser poço.
Sentir em seu ser a vida que brota. Ser fecundo como a Montanha. Dar a vida nova como a Montanha. Saber que em sua vida há raizes eternas. Saber que vive desde a Origem.
Saber que se alargará enquanto chegue a vida da Montanha. E será cada vez mais livre. Será a harmonia que buscava. Leva-a "dentro" de si. É sua experiência. É uma voz que nasce "dentro" de você e fala no silêncio de suas águas. Ser poço e querer gritar bem alto.
Ser poço e viver. Amar sua vida e não querer abafá-la. Amar sua vida e não querer morrer "entupido" de coisas que lhe sufocam e não lhe deixam encontrar a razão de viver. Gritar que viver é sua vida.
Gritar que a vida vem da Montanha. Oh! grita à Montanha e Manancial da sua vida!

PARA AJUDAR A REZAR
GRAÇA A PEDIR - Senhor, que eu mergulhe na profundidade do meu interior.
PALAVRA DE DEUS - Ezequial 47,1-12
REVISÃO DA ORAÇÃO - A que fontes você se tem dirigido?

"O Senhor Deus plasmou o homem com o pó da terra" (Gn 2,7)

Você, naquele entardecer da criação, ouviu, sentiu passos no jardim. Era ele, o Senhor da Criação.
Aconteceu que, neste entardecer, ele parou, se inclinou, com um olhar carregado de amor. E, de repente, lhe juntou ao chão, a você, pobre e pequeno punhado de terra, e ficou lhe olhando pensativo... lhe remexeu longamente... longamente... carinhosamente...
E então, começou a amassá-lo: primeiro retirou de você uma porção de impurezas que o atrapalhavam: pedrinhas... pedacinhos de madeira... coisas secas...
E você foi ficando terra pura... do seu gosto... Fez ainda outras operações que você não compreendia, e nem deveria compreender:
                "Pode, por acaso, um vaso dizer ao oleiro:
              eu entendo disso mais do que você?" (Is 29,16)
Você nada perguntava. Oferecia simplesmente o seu ser em disponibilidade de amor. Deixava-se fazer... Deixava que Ele lhe fizesse... Deixava-se modelar... Deixava-se trabalhar... Deixava-se conduzir pelo Oleiro... sem saber o que Ele faria de você.
Não era a argila que ia decidir sobre a forma, tamanho, modelo do vaso. Porque você sabia que era obra sua que Ele transformava com amor... tudo dependia da iniciativa e criatividade do Oleiro...
Pouco a pouco foi tomando forma... uma forma e um contorno segundo o seu desejo, à maneira sua, à sua imagem!...
Prá quê serviria você no futuro?... Você não sabia...
              "... como a argila, nas mãos de um oleiro,
              assim estava você nas suas mãos" (Jr 18,6)
O Oleiro trabalha com as mãos; por isso dá um "toque" especial em cada obra que faz... Havia um trato especial, um cuidado carinhoso. Você foi tomando forma...
Foi se tornando obra de Deus, brotando da sua inteligência e da sua habilidade.
"E Ele aplicava seu coração em aperfeiçoá-lo, pondo cuidado vigilante em torná-lo belo e perfeito" (Eclo 38,31)
Depois, veio uma etapa difícil... porque foi um forno super-aquecido que deu ao barro forma e consistência...
Toda obra criada a partir da argila passa pelo crivo do fogo; isto lhe dá maior consistência, durabilidade.
É o calor e o valor de sua vida que leva a bom termo a obra de suas mãos, o seu sonho criador...
A cada vaso muito querido, Ele dava contornos diferentes e de eternidade... Se uma obra não correspondia ao gosto e querer do Oleiro, ela era desfeita e refeita... até atingir aquilo que o Oleiro sonhava. Então, você começou a olhar em torno de si... e descobria outros vasos que suas mãos hábeis e cheias de amor haviam amassado e modelado. Riqueza de diversidades, de formas, tamanhos, características...
Sem cansar-se, Ele havia até mesmo refeito aqueles que não tinham saído bem... Cada um tinha sua forma e sua cor, sem dúvida, conforme sua destinação no mundo...
Não importava o tamanho, o modelo, a matéria-prima utilizada... todos eram criados para... todos tinham utilidade.
Mas, do mais humilde ao mais rico, todos eram lindos, todos bem feitos... Ele os tinha feito como Ele os queria...
O Oleiro contemplava satisfeito cada obra saída de suas mãos; percebia que cada uma é expressão de expectativas, sonhos, projetos... do seu Criador.
"Pode, porventura, um vaso perguntar ao oleiro: por que me fizeste assim? Não tem o oleiro, poder sobre o barro para fazer da mesma argila, um vaso de uso nobre e outro de uso vulgar?" (Rm 9,20-21)
Ó Oleiro Divino, Criador e Pai, permite que se cumpra em mim a obra que começaste. Seja meu projeto o teu projeto para mim!
PARA AJUDAR A REZAR
AUTOBIOGRAFIA - Lembre-se de dar um tempo fora do tempo de oração para escrever a 1a. parte da sua Autobiografia. Não deixe para o último dia. Ela deve estar terminada até o 18º dia.
GRAÇA A PEDIR - Senhor, concede-me ser argila dócil em suas mãos.
PALAVRA DE DEUS - Jeremias 18,1-10
REVISÃO DA ORAÇÃO - Quais os seus sinais digitais divinos (as "marcas" de Deus em você)?        "Nosso interior se purifica e se restaura com o silêncio dos cumes" (Unamuno)
Subir uma Montanha exige força de vontade e esquecer-se da comodidade, droga atual que tanto debilita a colaboração, solidariedade, compreensão e entrega.
Subir à Montanha é ir descobrindo, pouco a pouco, "como Deus encheu este mundo de coisas belas e maravilhosas para que delas possamos desfrutar" (Baden Powell)
A Montanha fala sempre de realidade, de frutos, de essencias, de bem-estar, de brindar alegria para fazer felizes àqueles que a visitam. Por isso, na Montanha, nunca se conjugam os verbos: escravizar, desprezar, irritar, estafar, odiar, tiranizar, encadear, encarcerar, impôr, fazer calar, humilhar, não aceitar nem compartilhar...
A Montanha é o grande paraíso. Nela se encontra uma gama variadíssima de aves, répteis, vegetais, minerais e águas que estão, noite e dia, interpretando as melhores sinfonias da Criação. Mas na escuta de tais sinfonias há compassos de silêncio que despertam a reflexão, o louvor, a oração...
Na Montanha e pela Montanha desperta-se o mundo de fantasias, imaginação, poesia, criatividade, simbolização e transcendência, que nos conduzirá à comunicação pessoal e ao diálogo com o Senhor.
Nos caminhos das Montanhas, sentimo-nos livres de horários fixos, modas, propagandas, violências, delinquências, incompreensões e intolerâncias, e aprendemos o serviço e a entrega incondicional aos outros. Todos os grandes personagens bíblicos fizeram uma experiência de Montanha.
Jesus Cristo, homem dos "vales" (luta, compromisso, serviço...) reservou momentos de Montanha (comunhão com o Pai).
Ali Ele buscava sentido e força para a sua missão.
Nossa vida precisa alternar momentos de Montanha (plenitude, silêncio, interioridade...); isso possibilita uma prática eficaz, um compromisso duradouro, uma presença transformadora no vale.
Subir a Montanha é perceber se estamos caminhando na direção certa, tomar distância do ritmo diário, descobrir novos horizontes...
A Montanha nos faz perceber, a partir do alto, certos aspectos do vale que passam despercebidos.
A Montanha é o lugar do encontro íntimo com o Senhor e de encontro com o melhor de nós mesmos, ou, a nossa identidade.
No silêncio da Montanha podemos perceber quem somos nós, indo além de nossa aparência e captando aquilo que é essencial em nós, que é mais rico...
Os momentos de Montanha são momentos de "transfiguração", revelação de nosso ser essencial, apontando para uma direção, um sentido da vida, plenificando o nosso agir no vale, iluminando e dando sentido a tudo que fazemos.
A vida é saber integrar a vida no vale e momentos na Montanha, sem radicalizar um dos pólos.
Se permanecemos só no vale corremos o risco de nos desfigurarmos (ativismo, rotina, angústias, trabalho sem sentido; mundo fechado, sem horizontes, sem direção...)
Se permanecemos só na Montanha há perigo de fuga, alienação, falta de compromisso, medo da luta, dos desafios...
O vale é o lugar da luta, do trabalho, da construção... mas iluminado pela experiência da Montanha. Todo gesto no vale tem plenitude, tem ressonâncias, a partir da Montanha.
A Montanha também nos revela que Deus está "trabalhando" no vale. A Montanha nos devolve ao vale com outra visão, com outro dinamismo...
PARA AJUDAR A REZAR
GRAÇA A PEDIR - Senhor, dai-me ânimo e generosidade para ir ao seu encontro.
PALAVRA DE DEUS - Êxodo 3,1-12
REVISÃO DA ORAÇÃO - O que aconteceu durante sua permanência na Montanha?                                            Meu filho, dá-me teu coração" (Prov 23,26)
Os homens são como aquele grupo de turistas que decidira ir a uma alta montanha nunca escalada para descobrir a beleza, os segredos imensos e a grandeza do Criador.
Após pouco tempo de árdua caminhada uma boa parte desiste, lembrando-se das facilidades do asfalto e comodidade da planície. Cansados, desistem da aventura desnecessária.
Outros continuam... Depois de uma boa marcha, já tendo alcançado um alto plano, uma segunda parte do grupo esgotou suas reservas. Não fazem questão de voltar.
Gostam da altura alcançada. Encantam-se com a vista bela que se lhes abre, acampam na relva abundante e tratam de comer suas boas provisões. Tudo é tão belo e envolvente que decidem não prosseguir.
Mas há o terceiro grupo, os que não perderam de vista o cimo da montanha, objetivo da sua caminhada. Desejosos de ir até o ponto mais alto, continuam e conhecem os mistérios da montanha, contemplam a magnificência do Criador.
Eis os três grupos: os desanimados, os bem intencionados e os idealistas. O maior dos ideais não se impõe sob ameaça. Impondo-o, destruir-se-á a própria capacidade do homem.
O mais sublime no homem é livre. Por isso não pode haver lei de imposição para alguém escolher o ideal de servir exclusivamente a Deus, de conhecer-lhe algo dos adorados mistérios e de ser guia para que os homens descubram uma amizade tão divina.
Deus toma a iniciativa e marca um encontro conosco. Ele nos "espera" no alto da montanha; revela-se desde as nuvens e só os que consentem em fazer-se simples O encontrarão lá em cima; só os que "entram" na sua presença será concedido poder sussurrar seu Nome. Ter a consciência de que, mesmo que cheguemos até o mais alto da montanha, a vinda do Senhor será um presente gratuito que não dependerá de nosso esforço. Estar atento para acertar o caminho da subida (difícil, exigente, perigos...). Não perder de vista a meta, o objetivo a alcançar.
Não permanecer ao pé da montanha com apenas o desejo do encontro com o Senhor, sem ânimo para começar a subida. Deus tem algo para revelar somente a você.
Ter uma única preocupação: encontrar-se com o Senhor; não se perder nas coisas, não se distrair com elas.
Esvaziar-se, despojar-se... À medida que subimos aumenta o silêncio, amplia-se a visão das redondezas, abrem-se novos horizontes. Subida significa deixar nosso pequeno mundo, nossa visão estreita das coisas, deixar os ruídos, as pressas, o ativismo... Quem está no vale tem pouca visão da realidade.
Olhar de cima com os olhos de Deus. À medida que subimos, o ar vai se purificando, renovando o nosso interior. Saímos de um ambiente contaminado e trazemos dentro de nós seus efeitos: ansiedades, tensões, ruídos, busca de eficácia imediata, superficialidade, individualismo... Subir a Montanha supõe passar de uma impulsividade impaciente a uma atitude de ativa receptividade. A subida não é puro voluntarismo (esforço pessoal), mas "deixar-se conduzir". Toda Montanha guarda segredos imensos mas somente aquele que dela se aproximar os descobre. Vamos encontrar não com um Deus fabricado à medida de nossos desejos, mas com o Pai de Jesus Cristo.
PARA AJUDAR A REZAR
GRAÇA A PEDIR - Senhor, que eu me deixe conduzir por Ti.
PALAVRA DE DEUS - Êxodo 34,1-10
REVISÃO DA ORAÇÃO - Em que grupo você se situa: dos desanimados? dos bem intencionados? dos idealistas? Por quê? "Chamar-te-ei ao deserto porque eu, o Senhor, quero falar ao teu coração" (Os 2,16)

Somos todos peregrinos, pessoas num processo dinâmico.
Cada um de nós deve marchar corajosamente seguindo seu próprio ritmo, escalar sua própria Montanha, lutar por um destino que é só seu. Você é você!
Às vezes, parece-nos mais seguros continuar na velha e conhecida trilha ou ser parte do rebanho. A estrada menos trilhada parece ser a mais arriscada.
No entanto, somos todos peregrinos, cada um a caminho do próprio destino. A estrada não é igual para todos.
Cada um de nós é dotado de um potencial imenso e único. No entanto, no nosso encontro com o destino, temos de nos aventurar, correr riscos, ser rejeitados e magoados, cair e levantar de novo. Temos de aprender a superar as derrotas.
É um caminho agressivo, amedrontador, desafiante.
Vivemos uma caminhada que começa dentro de nós mesmos, nas estradas e trilhas da nossa espiritualidade e se espalha à nossa volta. Há gente que tem pressa demais.
Quer chegar tão rápido que mal percebe quanto o caminho é bonito, a paisagem confortadora e os companheiros de caminhada agradáveis e amigos.
É preciso encontrar o ritmo total. É preciso perceber que, em determinados trechos do caminho, será preciso andar mais rápido e em outros caminhar bem lentamente.
Pode ser preciso parar para recuperar forças perdidas.
Podemos precisar caminhar certos trechos apoiados em alguém. Podemos precisar ajudar algum companheiro de caminhada.
É preciso ter os olhos bem abertos para aprender bem o caminho. Quem sabe, algum dia, teremos de ser guias de outros caminhantes... por planícies ou estradas íngremes e acidentadas, às margens de um rio ou subindo uma Montanha. Caminhar é preciso, mesmo se houver riscos. É claro que é mais cômodo e seguro ficar sentado à beira do caminho. Pode-se até rir dos tombos e tropeções dos que insistem em caminhar.
Mas ficar sentado é estagnar, é não crescer, é perder o caminho e se acomodar. É aceitar ser menos. É conformar-se em ter a mediocridade como horizonte.
Quem caminha quer ser mais. Seu horizonte é o sonho, o seu ideal. Aceita desafios. É corajoso e persistente.
Faz amigos e companheiros de caminhada.
Sabe que o rumo é a felicidade e que caminhamos com os pés no chão e o coração na eternidade.
Caminhar é preciso. O seu caminho tem "coração"?

PARA AJUDAR A REZAR
ORIENTAÇÃO ESPIRITUAL - Não esqueça de buscar um orientador espiritual para acompanhar de perto sua experiência de Exercícios Espirituais. Seria bom já ter encontrado alguém. Você vai precisar dele!
GRAÇA A PEDIR - Senhor, mostra-me os teus caminhos.
PALAVRA DE DEUS - 1Reis 19,1-15
REVISÃO DA ORAÇÃO - O seu caminho tem coração? Por quê?                                                                         O que salva é dar um passo mais um passo. Sempre mais um passo: o mesmo que recomeça." (Saint Exupéry)
Deus faz uma exigência inicial em seu chamado: a exigência de "sair". Chamar é "fazer sair": sair do que é nosso, da segurança, da comodidade, do que é conhecido...
Responder é "entrar": ser convidado a "entrar" numa terra nova, num mundo que se abrirá diante de nós na medida de nossa resposta. Ir andando sem contar os passos, é início de resposta. Deus chama a cada dia para o desconhecido, para o novo... Deus nos tira de casa. Ele pede que se "deixe conduzir"... Por isso é preciso colocar-se em movimento, ser peregrino... "saber armar a tenda..." Quando o Senhor entra em nossa tenda, tudo se modifica... "
Alarga o espaço de tua tenda, estende tuas lonas sem temor, alonga tuas cordas, reforça as estacas!..." (Is 54,2) Somos tenda, lugar de encontro. Ele vem. Sua presença causa mudança, Somos tenda, lugar de discipulado: olhar, escutar e seguir. Somos tenda, lugar de unção, acolhida, serviço, adoração. Somos tenda, lugar de lava-pés, servo, mandamento novo, amizade. Somos tenda, lugar de experiência da Ressurreição e Pentecostes, oração. Somos tenda, sua realidade pessoal e lugar de encontro com o outro. Para cada pessoa Deus prepara sua própria terra.
Para cada um Deus confia uma tarefa, porque Ele chama dentro de um plano de salvação. Os grandes personagens bíblicos começam suas histórias em rítmo de "saída".
Abraão: "Sai de sua terra... e vá para a terra que eu lhe mostrarei" (Gn 12,1)
Moisés: "Vá: eu envio você para tirar meu povo do Egito" (Ex 3) Isaías: "Vá e diga a esse povo..." (Is 6,9)
Jeremias: "Vá e grite aos ouvidos de Jerusalém" (Jer 2,2)
Apóstolos: "Eles deixaram imediatamente as redes e seguiram a Jesus"(Mt 4,20)
Você: "Vinde e vêde" (Jo 1,39)
A desinstalação está na arrancada. Eles descrevem suas vidas como o passo de peregrino apoiado nos constantes chamados de Deus, que os conduzem de surpresa em surpresa, de aventura em aventura... A pátria, a casa, o que tinham... tudo fica para trás. Abre-se um novo horizonte, o de uma terra que Deus vai lhes mostrar. Caminham rumo ao desconhecido, sem esperar a terra, mas sim Deus que os guia. Não se fiam dos próprios passos, mas da Palavra de Deus que os arrancou de seu mundo com um "vá..." Suas andanças são marcadas pela "escuta". Num ato de fé, "saem" de si e "entram" em Deus. Abraão, Moisés, os Apóstolos... continuam peregrinos, continuam andando. Seu povo - nós - continuamos em terras de peregrinação. Eles abriram caminho e o caminho continua. Eles o iniciaram num raiar do dia. Agora é luz clara, para nós que queremos caminhar enquanto é dia.
PARA AJUDAR A REZAR
AUTOBIOGRAFIA - Continue com sua Autobiografia. Se não acabou de escrevê-la, amanhã é o último dia.
GRAÇA A PEDIR - Senhor, amplie o espaço da minha tenda.
PALAVRA DE DEUS - Exôdo 33,7-23
REVISÃO DA ORAÇÃO - Como está sua disposição de sair, de caminhar, de peregrinar?                               O encontro com Deus se realiza não tanto através "do que" se medita e contempla, mas "no que" acontece "naquele" que reza. O decisivo é a pessoa que reza: um "sujeito que ora", não uma "oração que se faz". O essencial não é "o que você reza", senão que, se "isso que você reza" desperta sua consciência, aviva seu coração. Você reza para inteirar-se de "quem é você" ao procurar conhecer "quem é seu Deus".
Verifique seu progresso na oração, comparando os sinais de maturidade e imaturidade na oração.
A pessoa madura ora por afeição, por desejo, por gosto, porque há algo dentro dela que a leva a orar.
O imaturo ora por obrigação interna ou externa,para cumprir normas... A pessoa madura espera sempre a surpresa, o "novo", que aconteça algo. A oração é sempre antiga e nova. O imaturo vai à oração como coisa sabida, rotineira. A pessoa madura prepara-se muito a si mesma e brevemente a matéria.
O imaturo prepara muito a matéria. A pessoa madura exige uma infraestrutura ambiental e domínio do "como". Sua oração é feita com arte. O imaturo ora de qualquer maneira, sem fazer caso à própria experiência. A pessoa madura tem idéias poucas e simples. Sente e gosta internamente. O imaturo tem idéias muitas e seletas. Sabe muito. A pessoa madura prefere repetir o que já sabe. O imaturo prefere matéria nova. A pessoa madura experimenta, sente, vive. O imaturo especula, raciocina, discorre, tira conclusões. A pessoa madura tem oração mística: o Espírito de Jesus inspira e anima a vida de cada dia. O imaturo tem oração ascética A pessoa madura usa a Bíblia sobriamente. O imaturo usa vários livros. A pessoa madura sabe calar, esperar, escutar. Fica em silêncio diante de Deus. "Calar com os lábios para gritar com o coração" (S.Agostinho)
O imaturo fala muito. Palavreado crônico. A pessoa madura tem a oração como ato de escuta, que envolve toda a sua pessoa. O imaturo só faz oração reflexiva, que envolve só uma dimensão da pessoa. A pessoa madura reza com uma frase solta muito repetida. O imaturo usa muitas palavras sensatas. A pessoa madura tem consciência de receber tudo. O imaturo tem consciência de fazer algo. A pessoa madura cultiva a esperança. O imaturo confia na eficácia. A pessoa madura deseja dar frutos. O imaturo planifica obras. A pessoa madura quer ser gratuita, tem pureza de intenção. O imaturo quer ter méritos, eficiência, gratificação. A pessoa madura lentamente, vai se transformando: "Faça-se". O imaturo faz propósitos, toma determinações: "Farei..." A pessoa madura deixa fluir, levar-se. Usa um método, mas flexível. Faz experiência de estar exposto diante de Deus. O imaturo escolhe impôr-se métodos rígidos. A pessoa madura termina a oração lentamente, sentindo o calor..., revisando o que foi vivido. O imaturo termina a oração bruscamente: ruptura. A pessoa madura tem alegria de haver vivido e convivido: "Era o Senhor..." O imaturo tem satisfação do trabalho feito. A pessoa madura tem a oração como acolhida e tudo confia ao Senhor. O imaturo tem a oração como luta consigo, contra as distrações, imagens, recordações...
A pessoa madura usa do tempo como condição para poder "acostumar-se" com o tempo de Deus. O imaturo é escravo do tempo. A pessoa madura integra "oração-vida": vida submetida ao critério de Jesus. O imaturo faz dicotomia "oração-vida" A pessoa madura busca o Senhor por Ele mesmo. Está amorosamente diante do Senhor. Tem o coração ordenado. O imaturo busca a si próprio, no centro está o seu "eu". A pessoa madura tem a oração como serena satisfação. O imaturo tem a oração como tarefa penosa. A pessoa madura tem a oração como serena satisfação. O imaturo tem a oração como tarefa penosa. A pessoa madura pensa a oração como abrir o coração para que Deus possa dar-se a si mesmo a ela. O imaturo pensa que a oração é algo que damos a Deus. A pessoa madura tem a oração como acolhida: "Deixar ser conduzido". O imaturo acha importante "fazer oração". A pessoa madura recordará sempre a oração. O imaturo esforçar-se-á por recordar a oração..
PARA AJUDAR A REZAR
GRAÇA A PEDIR - Senhor, ensina-me a rezar.
PALAVRA DE DEUS - Mt 6,5-15
REVISÃO DA ORAÇÃO - - Que sinais indicam que você está preparado para acolher o Senhor? - Como avalia seu aproveitamento nos Exercícios: fidelidade à oração, maneira de rezar, acompanhamento pessoal...?

Oração que brota do coração

"Se vocês tiverem fé do tamanho de uma
                 semente de mostarda..." (Mt 17,20)

"Tentei encontrá-lo na Cruz. Ele não estava. Fui aos templos hindus e não pude achar nenhum traço dele. Procurei-o nas montanhas e nos vales. Nem nos lugares mais altos ou nos mais profundos eu consegui vê-lo. Fui em peregrinação a Meca. Na Kaaba Ele também não estava. Perguntei aos sábios e filósofos. Estava acima do entendimento deles. Então, eu "olhei" no meu CORAÇÃO. Era lá que Ele morava - e era muito fácil falar com Ele" (Jalaludin Rumi)"
Normalmente, o ser humano se afasta do mistério da criação, do grande mistério da vida e da morte, da vertigem do infinito... porque perde o melhor da festa, ou seja, passa pela vida como um turista tolo, devorador de quilômetros, de olho no mapa, sem olhar para a paisagem. Ter fé é encarar de frente o "mistério", e se encantar com ele... A Fé é um "encantamento" e um "mergulho" confiante no infinito Amor de Deus, que aos poucos se manifesta a quem decide acolhê-lo com amor.
E esta manifestação se realiza nas coisas simples da vida. Fé e encantamento andam sempre juntas. Ter Fé não é ter certeza absoluta; é estar aberto aos desafios que a vida nos apresenta em confronto com nossa consciência e com a Palavra de Deus. Não existem respostas prontas.
A Fé provoca questionamentos, perguntas, apresenta pistas, convida a uma ampla reflexão, a um profundo mergulho no mais íntimo de cada um de nós, para que, através de nossas experiências, encontremos nossas próprias respostas.
A experiência bíblica de Deus se caracteriza por uma constante purificação e por uma atitude de busca. A Bíblia nos apresenta a experiência de um povo que sente sede de Deus, busca a sua face, é peregrino, acredita, se revolta, fabrica ídolos... mas no trajeto de sua caminhada experimenta que Deus é o Deus da Vida, da Alegria, da Festa...
É um Deus do relacionamento e da intimidade. O Deus bíblico aparece como Alguém novo e desconcertante; um Deus livre para homens livres que constroem a própria história; um Deus presente na história como Libertador.
A Fé é, pois, caminhada, movimento de abertura para o Pai, admirando-se e encantando-se com as novas descobertas e com os "mistérios" que encontra dentro da pessoa e ao seu redor. Fé é viver em "terra de andanças", "saber armar a tenda"... sair do que é nosso, da segurança, da comodidade, do que é conhecido... É "entrar" numa "terra nova", num mundo (interior e exterior) que se abrirá diante de nós na medida de nossa resposta.
Na Fé aprendemos a olhar para dentro de nós; aprendemos, então, a olhar a realidade exterior de uma maneira nova. Não apenas em nosso íntimo, mas também no exterior descobrimos a essência das coisas, o mistério da criação...
O segredo íntimo e último resume-se numa palavra: Deus.

PARA AJUDAR A REZAR
AUTOBIOGRAFIA - A partir de hoje, fora do seu horário de oração, você vai começar a escrever a 2a. parte da sua Autobiografia. Ela pretende ser uma ajuda para sua reflexão sobre aspectos importantes de sua vida pessoal e um meio de diálogo com seu orientador espiritual. Apresentamos a seguir alguns pontos para sua Autobiografia. Para respondê-los, leia tudo várias vezes e vá refletindo sobre cada um desses aspectos de forma muito pessoal, deixando-se guiar no que escreve por aquilo que vai surgindo sem se preocupar nem com o estilo nem com a lógica do que vai anotando. Não responda cada um dos pontos. Eles servem só como orientação. Seja espontâneo! Procure responder em momentos em que você esteja tranquilo e possa se concentrar no que está fazendo. Essa 2a. Parte deve estar pronta até o 12º Dia.
Suas recordações de infância:
• Conte o que lhe parece mais importante de suas recordações de criança, sejam temores, fantasias, brinquedos, personagens admiradas etc. Que elementos das recordações de sua vida de criança você sente que o marcam em sua atual maneira de ser? Suas amizades: Você é social ou solitário? Como se integra nos grupos? Custa muito falar de você mesmo? Como vê a amizade? Está satisfeito com sua maneira de relacionar-se com os outros? Depende muito do que dirão? Considera-se muito dependente ou independente dos outros?
• Seus estudos e trabalhos: Tem bom rendimento? Sente-se integrado no grupo de estudantes? Quais são seus interesses e diversões? Ocupa cargos onde estuda? Como você se sente com os professores? Como você se entendia com seus colegas de trabalho?
• Quais as experiências mais importantes na sua vida (as que, a seu ver, mais têm influenciado em sua personalidade):
- experiências positivas: acompanhadas de felicidade, gozo, êxito;
- experiências negativas:acompanhadas de depressão, tristezas, temores, fracassos e humilhações.
• Qual é a recordação mais grata e a mais triste de sua vida? Doenças e acidentes importantes...

GRAÇA A PEDIR - Senhor, aumenta a minha fé!
PALAVRA DE DEUS - Genesis 12,1-9
REVISÃO DA ORAÇÃO - Quais são os acontecimentos ou circunstâncias da vida que modificaram a sua fé em Deus, a sua vida cristã?

 

Anexo 1Princípio e fundamento
Se vocês tiverem fé do tamanho de uma
                 semente de mostarda..." (Mt 17,20)

"Tentei encontrá-lo na Cruz. Ele não estava. Fui aos templos hindus e não pude achar nenhum traço dele. Procurei-o nas montanhas e nos vales. Nem nos lugares mais altos ou nos mais profundos eu consegui vê-lo. Fui em peregrinação a Meca. Na Kaaba Ele também não estava. Perguntei aos sábios e filósofos. Estava acima do entendimento deles. Então, eu "olhei" no meu CORAÇÃO. Era lá que Ele morava - e era muito fácil falar com Ele" (Jalaludin Rumi)"
Normalmente, o ser humano se afasta do mistério da criação, do grande mistério da vida e da morte, da vertigem do infinito... porque perde o melhor da festa, ou seja, passa pela vida como um turista tolo, devorador de quilômetros, de olho no mapa, sem olhar para a paisagem. Ter fé é encarar de frente o "mistério", e se encantar com ele... A Fé é um "encantamento" e um "mergulho" confiante no infinito Amor de Deus, que aos poucos se manifesta a quem decide acolhê-lo com amor.
E esta manifestação se realiza nas coisas simples da vida. Fé e encantamento andam sempre juntas. Ter Fé não é ter certeza absoluta; é estar aberto aos desafios que a vida nos apresenta em confronto com nossa consciência e com a Palavra de Deus. Não existem respostas prontas.
A Fé provoca questionamentos, perguntas, apresenta pistas, convida a uma ampla reflexão, a um profundo mergulho no mais íntimo de cada um de nós, para que, através de nossas experiências, encontremos nossas próprias respostas.
A experiência bíblica de Deus se caracteriza por uma constante purificação e por uma atitude de busca. A Bíblia nos apresenta a experiência de um povo que sente sede de Deus, busca a sua face, é peregrino, acredita, se revolta, fabrica ídolos... mas no trajeto de sua caminhada experimenta que Deus é o Deus da Vida, da Alegria, da Festa...
É um Deus do relacionamento e da intimidade. O Deus bíblico aparece como Alguém novo e desconcertante; um Deus livre para homens livres que constroem a própria história; um Deus presente na história como Libertador.
A Fé é, pois, caminhada, movimento de abertura para o Pai, admirando-se e encantando-se com as novas descobertas e com os "mistérios" que encontra dentro da pessoa e ao seu redor. Fé é viver em "terra de andanças", "saber armar a tenda"... sair do que é nosso, da segurança, da comodidade, do que é conhecido... É "entrar" numa "terra nova", num mundo (interior e exterior) que se abrirá diante de nós na medida de nossa resposta.
Na Fé aprendemos a olhar para dentro de nós; aprendemos, então, a olhar a realidade exterior de uma maneira nova. Não apenas em nosso íntimo, mas também no exterior descobrimos a essência das coisas, o mistério da criação...
O segredo íntimo e último resume-se numa palavra: Deus.

PARA AJUDAR A REZAR
AUTOBIOGRAFIA - A partir de hoje, fora do seu horário de oração, você vai começar a escrever a 2a. parte da sua Autobiografia. Ela pretende ser uma ajuda para sua reflexão sobre aspectos importantes de sua vida pessoal e um meio de diálogo com seu orientador espiritual. Apresentamos a seguir alguns pontos para sua Autobiografia. Para respondê-los, leia tudo várias vezes e vá refletindo sobre cada um desses aspectos de forma muito pessoal, deixando-se guiar no que escreve por aquilo que vai surgindo sem se preocupar nem com o estilo nem com a lógica do que vai anotando. Não responda cada um dos pontos. Eles servem só como orientação. Seja espontâneo! Procure responder em momentos em que você esteja tranquilo e possa se concentrar no que está fazendo. Essa 2a. Parte deve estar pronta até o 12º Dia.
Suas recordações de infância:
• Conte o que lhe parece mais importante de suas recordações de criança, sejam temores, fantasias, brinquedos, personagens admiradas etc. Que elementos das recordações de sua vida de criança você sente que o marcam em sua atual maneira de ser? Suas amizades: Você é social ou solitário? Como se integra nos grupos? Custa muito falar de você mesmo? Como vê a amizade? Está satisfeito com sua maneira de relacionar-se com os outros? Depende muito do que dirão? Considera-se muito dependente ou independente dos outros?
• Seus estudos e trabalhos: Tem bom rendimento? Sente-se integrado no grupo de estudantes? Quais são seus interesses e diversões? Ocupa cargos onde estuda? Como você se sente com os professores? Como você se entendia com seus colegas de trabalho?
• Quais as experiências mais importantes na sua vida (as que, a seu ver, mais têm influenciado em sua personalidade):
- experiências positivas: acompanhadas de felicidade, gozo, êxito;
- experiências negativas:acompanhadas de depressão, tristezas, temores, fracassos e humilhações.
• Qual é a recordação mais grata e a mais triste de sua vida? Doenças e acidentes importantes...

GRAÇA A PEDIR - Senhor, aumenta a minha fé!
PALAVRA DE DEUS - Genesis 12,1-9
REVISÃO DA ORAÇÃO - Quais são os acontecimentos ou circunstâncias da vida que modificaram a sua fé em Deus, a sua vida cristã?

Anexo 02
Da fonte para o mar, de Deus para Deus

Princípio e Fundamento"Se vocês tiverem fé do tamanho de uma
                     semente de mostarda..." (Mt 17,20)

"Senhor, Tu disseste que estarias em forma de fonte, de fonte que jorra Água Viva dentro daqueles que tivessem bebido tua vida, tua pessoa, teu Evangelho.
Passeando pelas alamedas de meu coração percebi fendas abertas, rachaduras no chão, uma terra deserta...
Muitas vezes o rochedo de minha existência impede que a água brote; coloquei uma pedra no poço de minha existência e a tua Água não pôde jorrar. Faz, Senhor, que eu me torne uma fonte generosa de água; de água que vem de Teu Espírito. Teu Espírito que paira sobre a fonte de minha vida".
O curso de um rio nos ajuda a compreender a Vida, porque se assemelha ao caminho do homem. Brota límpido e claro de uma rocha ou de uma geleira, para descer ao vale, não sabendo ainda se chegará ao mar ou se terminará sua corrida num lago sem saída. As altas quedas que encontra pelo caminho dão-lhe vertigens, mas quem o observa admira a beleza de suas cachoeiras. Torna-se espelho para o verde das árvores e para as estrelas do céu; dá vida aos peixes que acolhe; mata a sede e refresca... Mas o seu caminho é de repente marcado por dificuldades: sufocado pela poluição da grande cidade, o rio perde sua limpidez e, fechado na barragem, faz-se silencioso. Vem à mente o desejo de se perguntar por que andar tanto, se andar significa perder a beleza e tornar-se inútil. Mas quando tudo parece perdido, de súbito o rio vê diante de si o Mar, sua meta. O impacto é terrível, mas purificador: as ondas salgadas erguem uma barreira e o rio deve deixar-se filtrar, lenta e pacientemente, por aquela Água nova, compreendendo finalmente o sentido de seu percurso. O que define um rio é sua Origem, o impulso primordial que continua lhe dando o ser. Também se define pelo seu Fim, o Mar, no qual se fundem e se confundem as águas. Assim, o ser humano que principia sua vida na simplicidade e na inocência de uma criança. Que no decorrer dos anos faz explodir a sua criatividade em projetos e realizações, que faz sair de si as potencialidades do amor... se encontra diante de dificuldades, canseiras e fraquezas.
O Manancial de nossas vidas é algo intacto, puro, vivo, alegre, esperançoso, porque é algo que nasce... Este mesmo Manancial, à medida que vai se convertendo em rio, muitas vezes se esparrama, perdendo a direção; outras vezes se corrompe, se deteriora... fica submetido à dispersão, ao empobrecimento... Mas como o rio que se defronta com o Mar, para desembocar e perder-se dentro dele, também o ser humano, se sabe viver sua luta cotidiana na paciência e esperança, há de encerrar sua carreira no Infinito.
Nós somos os rios que vão desembocar no Mar. Fomos chamados a sermos nós mesmos: quem nos chamou, quis dar-nos seu ser, deixar em nós um rastro de sua identidade. Ele está em nós. Nossa vocação fontal é Ele.
"Observar como todos os bens e dons descem do alto...
assim como os raios nascem do sol, as águas das fontes, etc" (EE 237)
Regressando à nossa origem, retomando o caminho das correntes, nos encontramos com o Mistério que nos alimenta: Deus. "Em Deus vivemos, nos movemos e existimos" (At 17,28) O mesmo Deus que nos chamou a ser quem somos, nos sustenta a partir de sua Vontade criativa, de seu Amor fecundo. De Deus vivemos, para Deus voltamos.
Tendo o Mar como horizonte, cada um de nós é chamado a canalizar todas as energias e forças nessa direção, a aprofundar o leito de nossas vidas por onde circula o melhor de nós mesmos, a potenciar todo o nosso ser para a dinâmica da doação e transcendência... O que chamamos Missão é só a energia pela qual nosso destino de ser em Deus, de ser por Deus, de ser com Deus, de ser para Deus, se torna fecundo, comunicativo, expansivo...

PARA AJUDAR A REZAR
ATITUDE CORPORAL - Na oração, é importante encontrar a atitude corporal que o ajude, para estar mais disponível ao Espírito. Enquanto está rezando, pode adotar qualquer posição que o ajude e mantenha-se nessa posição enquanto o ajudar a rezar. Em geral, devem-se evitar certas posições como deitar ou andar, salvo experiência contrária. Mude a posição quando isso o ajudar.
GRAÇA A PEDIR - Senhor, convence-me de que sou amado e desejado por Ti.
PALAVRA DE DEUS - Isaías 44,1-5
REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você já experimentou e experimenta o amor de Deus por você?      

Anexo 03
Sou o maior milagre da natureza

Princípio e Fundamento

Desde o começo do mundo, nunca existiu outro com minha mente, minha afetividade, meu coração... Ninguém pode, nem poderá caminhar, mover-se e pensar exatamente como eu. Todos os homens e mulheres são meus irmãos e irmãs e, no entanto, sou diferente de cada um deles. Sou criatura única, original, diferente. De agora em diante aproveitarei desta diferença já que ela é um fator que me estimula a crescer sempre mais. ... Sou o maior milagre da natureza. Não farei vãs tentativas de imitar os outros; ao contrário, revelarei minha originalidade, proclamarei minha singularidade. ... Sou um ser único na natureza. Sou um ser raro, e existe valor em tudo o que é raro; portanto sou de valor. Sou o resultado de milhares de anos de progresso; estou melhor equipado que todos os sábio que me precederam. ... Sou o maior milagre da natureza. Minha habilidade, minha mente, meu coração e meu corpo perderão seu sentido, se corromperão e morrerão se eu não fizer deles um bom uso. Tenho um potencial ilimitado. Emprego somente uma parte do meu cérebro... Existem riquezas escondidas dentro de mim. ... Sou um ser original na natureza. Não ficarei jamais satisfeito com as realizações de ontem, nem me entregarei ao louvor pessoal pelos atos que na realidade são muito pequenos para serem reconhecidos. Posso realizar muito mais... Por quê razão o milagre que me criou deve terminar com meu nascimento? Por quê não posso estender esse milagre aos meus atos de hoje? ... Sou o maior milagre da natureza. Não estou nesta terra por acaso. Estou aqui com um propósito e esse propósito é crescer até transformar-me numa montanha e não encolher-me até parecer um grão de areia. ... Sou o maior milagre da natureza. Concentrarei todas as minhas energias para fazer frente aos desafios do presente, preparando-me para os desafios do futuro... ... Sou o maior milagre da natureza. Foram-me dado olhos para que eu veja e uma mente para que eu pense e agora sei de um grande segredo da vida: percebo que todos os meus problemas, desânimos, fracassos e sofrimentos são, na realidade, grandes oportunidades escondidas. Olharei para além das aparências e não serei enganado. ... Sou o maior milagre da natureza. ... as plantas, o vento, as rochas... não tiveram o mesmo começo que eu porque fui concebido com Amor e trazido a este mundo para ocupar um "lugar" que é só meu e para a realização de uma missão. No passado não considerei esta verdade, mas de agora em diante ela dará forma à minha vida e a guiará. ... Sou o maior milagre da natureza. "Senhor, tua dádiva infinita só posso acolhê-la com estas minhas pobres mãos. Tu sabes de que barro sou feito; tão frágil e inconstante... Mas, ao contato imortal de tuas mãos, meu coração se dilata sem fim na alegria; diante de Tua presença, sinto-me sem fronteiras, sem medida... Teu olhar faz-me "buscador do mais". Esvazia-me sempre... enche-me com Tua Vida".

PARA AJUDAR A REZAR
CONCENTRAR-SE - Quando você se dirigir a Deus, recolha seus pensamentos dispersos e seus afetos de tal maneira que você se apresente diante Dele com um só coração. Comece percebendo como Ele contempla você todo o tempo, como Ele lembra de você poderosamente e com carinho... Certa quietude e concentração ajuda muito quando começamos nossa oração. Às vezes nos sentimos mais dispersos do que habitualmente e precisamos usar então algum meio para nos concentrarmos. Concentrar-se no começo da oração faz com que, normalmente, a oração seja mais fácil de ser feita.
GRAÇA A PEDIR - Senhor, eu quero e desejo reconhecer-me como dom gratuito do teu amor.
PALAVRA DE DEUS - Eclesiastico 33,7-15
REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você se valoriza? O que pensa de si mesmo?   

Anexo 04
Sou único e original

Princípio e Fundamento

"Um dia saí de casa em busca de água. Água que pudesse matar a minha sede. Andei muito.
Eu queria achar um poço, mas na caminhada só encontrei poças d'água, cisternas rachadas, baldes vazios - falsos poços.
Algo me dizia que eu iria encontrar aquele poço que eu buscava, onde a água era abundante, cristalina, verdadeira mina que nunca iria secar. Andei. Andei muito: dias, meses, anos...
Minhas sandálias se romperam, meus pés se feriram, o cansaço me tomou. Mas eu não desisti. Percorri várias cidades, campos e montanhas e a certeza crescia: "Eu vou encontrar!"
E na sede louca que me devorava, andei, busquei intuindo que estava perto de chegar. E foi nessas andanças que de repente percebi que eu estava chegando em minha própria casa.
Meu coração bateu forte. Entrei correndo, desci ao porão, cavei a terra e uma surpreendente alegria me inundou:
"Um poço muito fundo! Uma mina que não vai secar!" Destampei bem sua boca, olhei lá no fundo e gritei: "Eu te achei!"
E ele me respondeu no eco: "Te achei..."
Eu gritei mais forte: "Eu te amo!" E o eco respondeu: "Te amo..." Chorando de alegria gritei mais forte ainda: "Eu te quero!" E ele me respondeu: "Te quero..." Então, gritei o meu Nome. E foi ali, naquele momento, que a minha voz e o eco se confundiram. Meu corpo molhado na água se derramava, cantava e se identificava com o poço. E nasceu o encontro, a relação, o diálogo, o amor e a descoberta. E a gente pôde dizer, bem fundo de uma só vez, o eco e a minha voz: "Sou eu!" Porque o poço sou eu. O poço é Deus dentro de mim" Interessar-se por conhecer o Nome é interessar-se pela Pessoa. É pelo Nome que nos identificamos. O Nome próprio está relacionado com nossa realidade pessoal, única, irrepetível, singular, responsável, criativa e livre. Na Bíblia, o Nome é algo dinâmico, é um programa de vida. A troca de Nome, na Bíblia, implica uma missão que deve ser realizada pela pessoa:
"E não mais te chamarás Abrão, mas teu nome será Abraão, pois eu te faço pai de uma multidão de nações" (Gn 17,5) "Tu és Simão, filho de João: chamar-te-ás Cefas (que quer dizer pedra)" (Jo 1,42) O Nome é a pessoa. Cada pessoa é original e tem uma dignidade imensa: é Imagem e Semelhança de Deus. Tome consciência de que também você tem um Nome, é pessoa única e com características muito particulares. Com essas características você deve se colocar a serviço dos outros. Seu Nome indica alguma coisa a realizar, uma vocação, um apêlo a responder. Seu Nome secreto, Deus o conhece!...
"Eu darei um Nome Novo, que ninguém conhece senão aquele que o recebe" (Apc 2,17) Ter recebido um Nome de Deus significa tomar um lugar dentro da História e da vida, ter uma missão a cumprir.

PARA AJUDAR A REZAR
UM OLHAR DE FÉ - No dia de hoje, procure desenvolver um olhar de fé sobre tudo o que pode lhe acontecer. Sugiro que você, ao sair de casa, andando na rua, indo para o trabalho ou para a escola, procure prestar atenção às pessoas e fatos, buscando sinais da presença de Deus. Esforce-se hoje para acolher certas pessoas que o tornam inseguro por algum motivo.
GRAÇA A PEDIR - Senhor, revela-me minha identidadee e meu nome autêntico, aquele que pronunciastes no momento de me criar, para que conhecendo quem Tu és, eu possa também saber como devo agir.
PALAVRA DE DEUS - Mateus 25,14-30
REVISÃO DA ORAÇÃO - Na sua vida, o que está impedindo a manifestação das suas melhores forças, intuições, criatividade...?         

          Anexo 05
Fundamento da nossa vida

Princípio e Fundamento

"Durante 30 anos caminhei à procura de Deus, e quando, no fim deste tempo, abri os olhos, descobri que era Ele quem me procurava"" (místico árabe)

Deus nos cria porque ama e nos cria para Ele, para o Amor. Seu Amor por nós vem desde toda a eternidade:
"Com Amor eterno eu te amei" (Jer 31,3)
Porque nos ama, Ele mesmo vem até nós. Ele está no meio de nós, dentro de nós. Não somos nós que subimos até Deus, é Ele próprio que desce, que vem a nós, que nos chama a uma grande intimidade com Ele, que nos atrai e nos seduz, que dá significado à nossa existência. O nosso Deus é o Deus da Vida. Ele ama a Vida, quer Vida. Ele é a Fonte geradora e conservadora da Vida: "Pois em Vós está a Fonte da Vida" (Sl 36,10) "Sim, vós amais tudo que existe, e não vos aborreceis com nada do que fizestes. E como poderia existir alguma coisa se Vós não a tivesseis querido? Como conservaria sua existência, se por Vós não tivesse sido chamado? Mas Vós cuidais todos os seres, porque todos são vossos, ó Senhor, amigo da Vida" (Sb 11,24.26) Deus é Amor (1Jo 4,8) e cria o homem por amor e para o amor. Somos filhos de seu Amor; desde toda a eternidade Deus nos tem desejado e este desejo se tornou tão intenso que um dia nós chegamos a ser. Fomos acolhidos ainda antes de sermos criados. Ele não nos ama porque somos, senão somos porque nos ama. Seu amor existe primeiro e é incondicional. Por isso a salvação do homem é deixar-se amar por Deus e crer no seu amor. Existimos porque somos amados. Continuamos a existir porque continuamos a ser amados. Existiremos sempre porque o amor de Deus é fiel e Ele nos comunica sua Vida Eterna. O Deus que nos criou por amor tem um plano para nós; desde toda a eternidade Ele tem para cada um de nós um chamado e um projeto de realização. "Antes que fosses formado no seio materno, eu já te conhecia, e antes que tu nascesses, eu já te havia consagrado; te constituí profeta das nações" (Jer 1,5) "Javé me chamou desde o seio materno; desde as entranhas de minha mãe se lembrou de mim". (Is 49,1.5) "Aquele que me separou desde o seio materno e me chamou por sua graça". (Gal 1,15) Se descobrimos que Deus é Amor, sentimos logo que o homem é criado para Deus. Deus é o Fim para onde tendemos. Reconhecer Deus como Criador e Senhor, experienciar sua presença amorosa e libertadora em nós e no mundo, ser movido e existir em Deus, é estar convencido de que: Deus é Pai; Tudo que Deus fez era bom; Ele nos convida a sermos seus filhos feitos à sua imagem e semelhança, chamados a participar da sua Vida íntima; Ele é o único Deus, o único Senhor, que fora d'Ele é o nada, o vazio; Ele nos associou à sua obra, que nossas decisões pesam; Seria uma loucura fugir de Deus!...

PARA AJUDAR A REZAR
GRAÇA A PEDIR - Senhor, que o único fundamento da minha vida seja Jesus Cristo!
PALAVRA DE DEUS - 2Sm 7,18-29
REVISÃO DA ORAÇÃO - O que mais o aproxima de Deus?

Anexo 06
O homem é criado

Princípio e Fundamento

" Pai, tu me criaste com um imenso amor, com um amor eterno. Desde toda a eternidade pensaste em mim e na força do teu amor disseste: "Vive, quero que vivas e que tenhas vida em plenitude, à minha imagem e semlhança, uma vez que eu sou o Deus da Vida".
Amar é poder dizer "tu não morrerás nunca" e só tu, Pai, podes chamar-me à existência e dizer-me
"Eu te amo, e tu não morrerás jamais. Sou filho, precioso a teus olhos, conheces-me pelo meu nome, sou teu. Tu me conheces em toda a transparência. Plasmaste o meu interior e me teceste no seio de minha mãe, formando-me no silêncio das entranhas da vida. Tua mão me segura. Tua destra me conduz pelos caminhos da eternidade. Amar é sonhar, e como sonhaste grande, Pai, a meu respeito. Tinhas um projeto estupendo para mim, ao criar-me. Como são insondáveis para mim teus pensamentos... Criaste-me para louvar-te e adorar-te, reconhecendo-te como único Deus, o único Absoluto, e reconhecendo, na alegria, minha condição de criatura, dependente mas amada, livre mas submissa ao teu Amor, pretando-te a homenagem de minha inteligência limitada, pequeno reflexo de tua eterna sabedoria. Criaste-me também para reverenciar-te, prestando-te a homenagem de minha vontade, conformando o meu querer com teu querer, como teu Filho, Jesus, para que vivesse na verdade e gozasse da plenitude da vida. Criaste-me, enfim, para servir, prestando-Te a homenagem de todo o meu ser. Pai, tu serves porque amas. Tu és o grande servidor, porque és o Amor eterno. Como teu Filho, que não veio para ser servido, mas para servir, tu, Pai, estás sempre servindo, lavando nossos pés, enxugando nossas lágrimas, restaurando nossas esperanças falidas. Olhando para ti, Pai, compreendo que o serviço que esperas de mim, não diz respeito a ti, uma vez que de nada necessitas, és a plenitude. O serviço que esperas de mim diz respeito aos homens, meus irmãos: "Pedro, tu me amas? Apascenta minhas ovelhas". O "Princípio e Fundamento" é um texto dos Exercícios Espirituais

de Santo Inácio. Fala de Deus, do homem, do mundo... É contituído por uma série de verdades e princípios básicos para uma vida cristã profunda.

"O HOMEM É CRIADO PARA LOUVAR, REVERENCIAR E SERVIR A DEUS NOSSO SENHOR E ASSIM SER SALVO" (EE.23)

A experiência fundamental da nossa fé é saber e sentir-se criado. Isto significa que não temos nossa Origem em nós mesmos. Somos dependentes do amor daquele que nos criou, o que desperta em nós confiança e entrega a Deus que é Amor. Na nossa vida experimentamos ficar "adultos", "donos do nosso nariz". Custa-nos ser dependente dos outros, principalmente do amor, do reconhecimento do outro. Isso pode acontecer em relação a Deus... Devido a experiências negativas de não nos sentirmos totalmente acolhidos pelos outros em muitos momentos da nossa vida, temos dificuldades de admitir que Alguém nos ama gratuitamente, que Alguém nos cria e recria no amor. Quem experimenta ser criado por Deus, experimenta também uma destinação a Deus. Não fomos criados sem finalidade. O nosso fim é Deus! A atitude de resposta ao amor criador de Deus é o louvor, a reverência e o serviço. Essas atitudes indicam nosso gesto de estar voltados para Deus, entregues a Ele. Louvar, reverenciar, servir, é o resultado da experiência de se sentir uma criatura amada por Deus. Consiste em pôr sua vida na linha de realização do "sonho" de Deus: que todos nos amemos uns aos outros. Não se trata de um louvor e de uma reverência ritual, litúrgico, mas de um agir eficiente e amoroso na vida concreta. Daí concluir que o absoluto da pessoa está em servir, principalmente os pequenos, lugar de revelação de Deus para cada um de nós, salvando e salvando-se, por se estar ligado a Deus em um serviço da salvação. A salvação dada por Deus é, por um lado, ser libertado de uma situação difícil, da morte, do sofrimento, para uma situação de vida, de alegria. Mas, por outro lado, a salvação que nos concede Deus é muito mais: somos salvos porque Deus nos dá constantemente a vida, porque Deus nos criou para louvar, reverenciar e servir à sua pessoa. A salvação é: deixar-se encontrar por Deus, viver na sua comunhão! É dom de Deus! É Ele se dando a nós!

PARA AJUDAR A REZAR
REZANDO COM A PALAVRA DE DEUS - A oração é para escutar. Faça isto com a Palavra de Deus! Leia-a em voz alta, depois deixe o texto e recorde as palavras e frases que leu. Deixe-as gravar-se uma por uma na sua mente e no seu coração, pensando e sentindo cada uma delas, sempre disposto a falar com Deus e escutar o que Ele lhe quer dizer. Mantenha uma atitude de escuta!
GRAÇA A PEDIR - Senhor, que eu Te louve, Te reverencie e Te sirva no meu dia-a-dia!
PALAVRA DE DEUS - Eclo 17,1-12
REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você entende "o homem é criado para..."?

Anexo 07
Todas as coisas são criadas para o homem

Princípio e Fundamento "Tudo o mais criaste para mim, Senhor, fazendo de mim o rei de toda a criação. Criaste para mim o cosmos misterioso, que me amedronta, com suas galáxias e buracos negros, com suas estrelas e planetas. Criaste este Universo tão grande, em cujo conhecimento estamos apenas engatinhando, após tanto progresso técnico. Com os dados atualmente disponíveis, Pai, calculam que, se nosso Universo é redondo, ele teria um diâmetro de 10 a 12 milhões de anos luz! Diante dessas grandezas e distâncias, o que é a terra que nos deste por moradia, tão maravilhosa nos seus oceanos e rios, nas suas montanhas, vales e planícies, nas suas florestas e desertos, nos seus minerais, vegetais e animais? "...e Deus viu que tudo era bom!" E eu, quem sou diante de tanta grandeza? Fizeste-me o rei de toda essa grandiosa e maravilhosa criação: minhas são as galáxias e as estrelas, meus são o céus e minha a terra e tudo o que a povoa. Deste-me tudo, para que em tudo pudesse louvar-Te, reverenciar-Te, servir-Te. Desejaste que usasse de todas as criaturas livremente, tanto quanto me ajudam a crescer no amor, no dom, e assim assemelhar-me a Ti, pois Tu és o Amor, o Dom gratuito. Criaste-me livre, e desejas que eu viva na liberdade, que só é verdadeira e plena no amor. Mas meu coração, Pai, tende a apegar-se desordenadamente às criaturas, e a fazer delas meus ídolos, meus pequenos deuses, a quem presto culto e ofereço incenso.
Com frequencia, Pai, tendo a fazer de mim mesmo o meu ídolo: coloco-me num pedestal, quero ser o centro, o ponto de referência. Meu orgulho, minha auto-suficiência levam-me a prescindir de Ti, o único necessário; levam-me a "cavar cisternas, cisternas fendidas, que não retêm a água". Então fico confuso, minha inteligência e minha liberdade não tendo outro ponto de referência que a si mesmas, giram sobre si, em um universo fechado, onde não encontro respostas às questões derradeiras que me coloco ".

O Princípio e Fundamento dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio representa uma atitude existencial que decorre da experiência de ser amado e aceito, predispondo a pessoa a expressar este amor em atos, a partir de um verdadeiro abandono nas mãos de Deus. "O homem é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus Nosso Senhor e assim ser salvo. TODAS AS OUTRAS COISAS SÃO CRIADAS PARA O HOMEM, PARA AJUDÁ-LO A ATINGIR O FIM PARA O QUAL É CRIADO. DAÍ QUE O HOMEM DEVE USAR AS COISAS CRIADAS TANTO QUANTO O AJUDEM A CONSEGUIR O FIM E LIVRAR-SE DELAS TANTO QUANTO IMPEÇAM DE ATINGIR SEU FIM" (EE.23) As coisas são santas e abençoadas por Deus. Por isso são meios para buscarmos e encontrarmos nosso Deus, são meios para nossa santificação, não como indivíduo isolado, mas membro de toda a família humana de quem cada um é solidário. As "outras coisas" abrangem também dons, saúde, educação, alimentos, emprego, imagem de si, dinheiro, filosofia política, práticas de Igreja, casa, esforços apostólicos, tamanho da família, modo de educar os filhos, etc. Somos chamados para, com Deus, bendizer as criaturas, com o nosso trabalho, nosso descanso e nossa luta para que a santidade operada por Deus apareça cada vez mais. Não faz parte da fé cristã o desprezo pelas coisas criadas! As coisas criadas (objetos e seres) podem perder sua relação com o louvor de Deus e daí o seu relacionamento com elas pode ficar desordenado. Serão mais uma dificuldade que uma ajuda, tornando-se ídolos ou instrumentos do seu orgulho. Preso, por exemplo, a status e segurança, vai lhe impedir de escolher algo mais arriscado e humilde. Quando começamos a descobrir Deus como Raiz, Alicerce, Fundamento de nossa vida, as coisas ganham seu devido valor. Não as desprezamos, mas as colocamos no devido lugar em nossas vidas: o lugar do louvor a Deus, lugar da santificação do mundo e do homem. Deus, Fundamento da nossa vida, nos faz viver em liberdade: só nos ligamos às coisas na medida em que elas nos ajudam a estar mais livres para Deus e os irmãos. Ser livre significa estar ligado, preso somente a Deus. Somente desse modo você pode "se ligar" às coisas e às pessoas com liberdade...

PARA AJUDAR A REZAR
AUTOBIOGRAFIA - Lembre-se de dar um tempo fora do tempo de oração para escrever a 2a. parte da sua Autobiografia. Não deixe para o último dia. Ela deve estar terminada até o 12º dia.
GRAÇA A PEDIR - Senhor, que eu Te encontre em todas as coisas e todas as coisas em Ti.
PALAVRA DE DEUS - Lucas 12,13-21
REVISÃO DA ORAÇÃO - Se você está aberto a todos e a todas as situações, de que "coisas" necessita ser libertado?

Anexo 08
O que mais nos conduz

Princípio e Fundamento

" Às vezes, Pai, minha liberdade desordenada tende a agarrar-se às criaturas, na expectativa de que me tragam a plenitude: o dinheiro e as riquezas, com toda a aparente segurança que trazem, são um ídolo cruel e sanguinário, que exige, cotidianamente, o sacrifício de milhares de vidas humanas. Dá-me compreender e viver o que teu Filho disse: "Não podeis servir a dois senhores. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro. O prestígio, a busca de "status" e projeção, o desejo de ser conhecido e de ter um nome na terra, é outro ídolo frequentemente presente em minha vida. Sutilmente, Pai, sou levado a apropriar-me dos dons, talentos e qualidades que me deste, para minha própria exaltação, buscando a estima e a honra dos homens e deixando, em segundo plano, a glória que vem de ti. Não tenho o suficiente espírito de pobreza para reconhecer que tudo recebi de ti, e de ação de graças para agradecer-te pelos talentos recebidos. Não tenho suficiente disposição para colocar estes talentos a serviço da comunidade e do Reino, para que os homens, vendo minhas boas obras, glorifiquem a Ti, Pai, que estás no céu e não a mim. Muitos outros ídolos, Pai, ameaçam continuamente tomar o teu lugar em minha vida: a saúde, a vida longa, o prazer, o saber, o poder, o possuir... "bezerros de ouro". Com frequencia, em vez de um Deus a quem seguir e submeter-me, prefiro um bezerro de ouro, ao qual possa conduzir segundo os meus caprichos, e então torno-me escravo e perco a minha liberdade. Pediste a teu servo, Abraão, que te sacrificasse o "único filho", e ele não hesitou, porque, para ele, só tu, Pai, eras Deus, e nenhuma criatura ocupava teu lugar em seu coração, nem mesmo seu filho, Isaac. Teu Filho, Jesus, disse: "Se tua mão te escandaliza, corta-a... se teu olho te escandaliza, arranca-o..." Pai, ajuda-me a ser livre, arranca-me das prisões e dos apegos desordenados que me encerram, para que possa respirar um ar puro e abrir-me a um Mais, a horizontes mais amplos e iluminados, num crescente desejo de gastar a minha vida pelo Reino, grão de trigo que morre nos sulcos da história para gerar vida. "

Rezar sobre o Princípio e Fundamento deve levá-lo a fazer uma experiência de sentir-se amado por Deus e ao mesmo tempo libertado das suas limitações externas e internas. "O homem é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus Nosso Senhor e assim ser salvo.Todas as outras coisas são criadas para o homem, para ajudá-lo a atingir o fim para o qual é criado. Daí que o homem deve usar as coisas criadas tanto quanto o ajudem a conseguir o fim e livrar-se delas tanto quanto impeçam de atingir seu fim."
POR ISSO É NECESSÁRIO FAZER-NOS INDIFERENTES EM RELAÇÃO A TODAS AS COISAS, A TAL PONTO QUE NÃO QUEIRAMOS SAÚDE MAIS QUE DOENÇA, RIQUEZA MAIS QUE POBREZA, HONRA MAIS QUE DESONRA, VIDA LONGA MAIS QUE VIDA BREVE E ASSIM EM TUDO O MAIS, DESEJANDO E ESCOLHENDO SOMENTE O QUE MAIS NOS CONDUZ AO FIM PARA O QUAL FOMOS CRIADOS" (EE.23) "Indiferença" para Santo Inácio não significa apatia e desleixo frente às coisas, às pessoas, à vida. Significa que o homem, uma vez firmado no amor de Deus, sabendo-se amado por Ele, sente-se desapegado, livre de, equilibrado em relação às influências que possam interferir em suas escolhas, deixando-se conduzir por esse amor, aberto às diferentes possibilidades da situação concreta onde a graça possa atuar, não importando as situações difíceis que passa na vida. Não importa, nem mesmo, a morte. Assim, não dependemos de estar buscando incessantemente o que é melhor para nós, para nosso bem-estar. Tudo se torna relativo e só tem sentido no Amor que Deus é para nós. Santo Inácio não nos sugere somente desejar e escolher o que melhor nos conduz ao nosso destino, mas sugere o que Mais nos conduz a Deus. O "Mais" consiste na busca (ou ao menos no desejo) de ir além, ir mais longe, estar continuamente aberto ao imprevisto de Deus. Trata-se de um compromisso com o bem. O Espírito Santo de Jesus nos ilumina para distinguir esse Mais em cada situação de nossa vida. É só em Jesus que vemos realizado no máximo os desejos do Pai. Somos discípulos de Jesus: vamos aprender dele a realizar o que Mais nos conduz ao fim para o qual fomos criados.

PARA AJUDAR A REZAR
GRAÇA A PEDIR - Senhor, que eu seja só Teu, apegado somente ao que Tu queres e desejas para mim.
PALAVRA DE DEUS - Romanos 8,31-39
REVISÃO DA ORAÇÃO - O que mudaria em sua vida se você desejasse e escolhesse somente o que mais lhe conduz para o fim que você foi criado? Por quê?

Anexo 09
O plano de Deus

Princípio e Fundamento

Você, como todo ser humano, é dotado de uma inteligência com a qual pensa, reflete, planeja; você é dotado de uma vontade com a qual quer ou não quer executar o que sua inteligência lhe propõe, com ela você age ou cruza os braços. Porque tem uma inteligência e uma vontade você é livre para fazer isso ou aquilo, para orientar sua vida numa direção ou noutra, para abraçar esses ou aqueles valores. Além disso você é dotado de uma sensibilidade que o faz vibrar com as coisas, os acontecimentos, as pessoas ou detestá-las: sentimentos de alegria ou de tristeza, de paz ou de angústia, de ódio ou de amor, de ânimo ou desânimo. Com tudo isso você é um ser criativo, é capaz de criar uma realidade nova. Todo aquele que cria alguma coisa, a cria para um fim: cria-se uma casa para morar nela. Além disso aquele que cria, ao realizar o projeto, deseja que a execução do projeto corresponda exatamente ao que ele imaginou. Você ficaria aborrecido se o pedreiro alterasse a fachada da sua casa, mudasse a distribuição interna dos cômodos, colocando o quarto onde você pensou colocar a sala e vice-versa. Você diria: não foi assim que concebi a minha casa. E fico imaginando sua reação em face daquele pedreiro... Todo ser humano, inteligente e livre tem três relações fundamentais: uma relação com Deus uma relação com o próximo uma relação com o mundo Na nossa fé afirmamos que Deus tem uma inteligência e uma vontade e é soberanamente livre. Além disso afirmamos que Deus criou o mundo e o homem. Com sua inteligência concebeu um belo projeto de criação e com sua vontade o executou. Você já pensou alguma vez nesse projeto de Deus para o homem no mundo? Como o concebeu? Como o sonhou? O que ele queria para o homem ao criá-lo? Como Deus no seu projeto concebeu as três relações do homem? A Bíblia que é a Revelação de Deus, nos responde o seguinte: Em relação a Deus o homem é chamado a ser filho que vive na sua amizade e intimidade, aceitando sua condição de criatura e suas limitações, obedecendo filialmente Àquele que é a Fonte de sua existência e o faz existir, mas uma obediência sem temor, sem medo, respondendo ao amor de seu Pai. Em relação aos outros o homem é chamado a ser irmão, a relacionar-se com seu próximo no amor, uma vez que todos são filhos de Deus, amados por Ele. Não deveria haver dominação de uns sobre os outros, nem opressão, nem injustiças, nem ódio entre os filhos de Deus. Em relação ao mundo o homem é chamado a ser senhor. Deveria submeter o mundo com seu trabalho, deveria ser o representante de Deus no mundo de sorte que Deus continuasse através do homem, agindo e criando. Ser imagem e semelhança de Deus exprime também essa vocação ao senhorio, a ser livre diante de todas as criaturas. O homem é chamado a viver essa tríplice dimensão do filho, irmão e senhor, pelo simples fato de ser criatura e de ser homem. Respondendo a essa tríplice vocação o homem se realizaria plenamente, seria feliz. O projeto de Deus para nós é muito belo! Se vivêssemos dessa maneira!...

PARA AJUDAR A REZAR
GRAÇA A PEDIR - Senhor, que eu seja livre frente a tudo que possuo, querendo e desejando as coisas na medida em que me ajudem a viver para Ti.
PALAVRA DE DEUS - 1Jo 4,7-21
REVISÃO DA ORAÇÃO - O que você entende por "liberdade"?

Anexo 10
O mistério de Deus

Princípio e Fundamento Todos temos, em nossa vida, um absoluto, referencial de tudo o que somos e fazemos. Evidente que é Deus, diríamos. Importa, entretanto, ter claro qual Deus e se é realmente o Absoluto de sua existência. Temos em nós uma ou várias imagens de Deus. Estas, porém, podem ser falsas ou verdadeiras. Precisamos nos purificar dos falsos conceitos de Deus, purificando-nos também dos falsos deuses, abrindo-nos para o autêntico mistério de Deus revelado em Jesus Cristo.

1. FALSAS IMAGENS DE DEUS o grande ausente: um velho de barbas brancas, nas nuvens, e que não se interessa pelo mundo. o vingador: cheio de defeitos, como você, e do qual você tem medo ("o que fiz para merecer isto?"), pois nos fará pagar por todos os nossos erros. o mesquinho: que não se alegra com nossa felicidade. o opressor: que me submete a leis e normas das quais não consigo libertar-me. o pára-raios: do qual só me lembro quando algo não vai bem. o vitamina: que nos fornece um suplemente de força para passar através de dificuldades momentâneas. a máquina automática: sempre lá, pronta a socorrer minhas necessidades urgentes. Basta apertar um botão!

2. O DEUS DE JESUS, ENTRETANTO, REVELA-SE COMO: Deus que toma a misteriosa iniciativa de vir ao nosso encontro. Deus que comunica-se aos homens através de Jesus Cristo. O Mistério Incognoscível, em certo momento, toma a iniciativa em relação a nós e se aproxima para interpelar-nos. Deus do Evangelho, da Boa-Nova, do Reino, que faz nova todas as coisas. É aquele que vem trazendo a boa notícia da mudança radical da situação pessoal e social. Deus a quem Jesus reza, aquele com quem está em íntima e misteriosa união. Deus que apresenta aos homens a boa notícia do perdão, que ama os pecadores, que vai atrás dos seus filhos dispersos, os respeita até no seu erro. Deus que é o único verdadeiramente bom. Deus que merece absoluta fé e confiança. Deus criador de toda a realidade. Deus onipotente que nos guia por caminhos misteriosos, como o fez com Cristo. Deus não obrigado a fazer aquilo que esperamos que faça. Deus vivo a quem um filho pode falar. Deus acolhedor de todos, sem exceção. Deus preocupado com seus filhos. Deus a serviço dos outros. Deus presente na nossa vida cotidiana. Deus que escolhe os pobres, humildes e fracos Deus que se dá gratuitamente a todos.

PARA AJUDAR A REZAR
GRAÇA A PEDIR - Senhor, que eu coloque o meu coração em Ti.
PALAVRA DE DEUS - Lc 12,22-34
REVISÃO DA ORAÇÃO - De que falsas imagens de Deus você precisa ser libertado?

Anexo 11
Meu princípio e fundamento (I)

Princípio e Fundamento

 

Nesta etapa, você procurou tomar consciência do Amor de Deus, que está continuamente lhe criando e salvando, para em tudo você amar e servir. Para isso, você descobriu que é necessário fazer-se indiferente, tendo diante dos olhos e do coração o "MAIS". Fazendo agora uma revisão desta etapa, procure perceber como estas verdades foram criando raízes em você, para se tornarem seu Princípio e Fundamento, e peça a graça de que estas raízes se tornem cada vez mais fortes e profundas. À luz da oração desta etapa, escreva seu Princípio e Fundamento com suas próprias palavras. Expresse aquilo em que você realmente acredita, ou em que deseja sinceramente acreditar. O seguinte roteiro é para ajudá-lo nessa tarefa. Escreva livremente, deixando-se conduzir pelo Espírito, sem preocupar-se em responder as perguntas. Elas são somente uma ajuda! Deixar que o Senhor lhe olhe com seus olhos, olhos de verdade, mas sobretudo, olhos de carinho! Você dedicará a oração do dia de hoje e de amanhã para cumprir essa tarefa. Sinceramente, diante do Senhor!

PRIMEIRO OLHAR: O que tem sido positivo em sua vida? O que tem sido negativo em sua vida?

APROFUNDAR:
1. Recapitular a história de sua liberdade, de seu compromisso e de seu amor: Quais os seus desejos de amar e ser amado? Quais foram suas lutas para ser livre, para doar-se mais? Onde houve sucessos? Onde houve fracassos? Onde houve incoerências? Como tudo isso marcou seu proceder?
2. Comparar seus discursos (o que fala) com a realidade da sua vida: Quem você diz que é e quem é de verdade? Que você diz que quer e o que deseja de verdade? Que você diz que lhe move e que move realmente sua vida? Qual a história de suas justificações, racionalizações, disfarces?
3. Recapitular as motivações que efetivamente atuam em sua vida: Que uso faz e como coloca a serviço suas qualidades pessoais, seus talentos, seus dons? Apesar das provas, dos momentos duros, o que não se obscureceu, o que permaneceu firme e lhe motivou a continuar? Recapitular a história de suas feridas e de sua dor e suas repercussões na sua vida. Qual sua representação (imagem de Deus) e como esta representação interfere em tudo isto?
4. Definir e formular o Princípio e Fundamento de sua existência: Repassar as orações e fazer um balanço. Que é, de fato, o que está lhe dirigindo, orientando na vida? "Ninguém pode pôr outro fundamento senão o que foi posto: Cristo Jesus" (1Cor 3,11)

PARA AJUDAR A REZAR
AUTOBIOGRAFIA - Continue com sua Autobiografia. Se não acabou de escrevê-la, amanhã é o último dia.
GRAÇA A PEDIR - Mostra-me, Senhor, minha verdade!
PALAVRA DE DEUS - Efésios 1,3-14
REVISÃO DA ORAÇÃO - Como se sentiu na oração?

Anexo 12
Meu princípio e fundamento (II)

Princípio e Fundamento

"Senhor, Tu nos fizeste para Ti, e o nosso coração não descansa até não Te encontrar" (Santo Agostinho) O conhecimento do amor de Deus por toda a criação, e especialmente por nós, estimula a abertura da fé e uma resposta de amor. O esforço de uma resposta sincera revela, a cada um de nós, nossa pobreza radical, que nos conduz à atitude fundamental de total disponibilidade a Deus. Você deve continuar hoje escrevendo o seu Princípio e Fundamento. Ao final desta etapa, você deve verificar se no seu coração existe um desejo grande de continuar. Se existe, você vai pelo bom caminho! Se sente que ainda está lhe faltando algo, não passe adiante, não tenha pressa. Volte sobre as orações anteriores e converse com seu orientador espiritual. O amor imenso de Deus e sua ternura lhe dará segurança e esperança para viver o seu Princípio e Fundamento.

PARA AJUDAR A REZAR
GRAÇA A PEDIR - Que eu me veja, Senhor, com os teus olhos!
PALAVRA DE DEUS - João 15,1-11
REVISÃO DA ORAÇÃO - Como se sente ao terminar esta etapa? Você tem sentido, desde o início dos Exercícios, alguma mudança em sua vida, em sua maneira de se relacionar com Deus, com as pessoas, com o mundo? Tente sintetizar numa frase os frutos desta etapa.

 

1

 

A CONSOLAÇÃO

 

 

            “Temos este tesouro em vasos de barro...” (2Cor 4,7)

 

            Discernir significa “conhecer” as emoções, os sentimentos, que acontecem em uma pessoa concreta. Por isso você deve se conhecer, ter um conhecimento amplo de si mesmo. O confronto com a Palavra de Deus na oração deve ajudar nessa tarefa, “porque a Palavra de Deus é viva, eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes, e atinge até à divisão da alma e do corpo, das juntas e medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração. Nenhuma criatura lhe é invisível. Tudo é nu e descoberto aos olhos daquele a quem havemos de prestar contas” (Hb 4,12-13).  

 

            Essa Palavra atinge o coração, a fonte... Quando atinge o coração, algo acontece. Diante desta Palavra o nosso coração reage. Vêm as reações ou movimentos interiores. Ninguém fica neutro a estas. Elas podem ser: paz, perturbação, tristeza, ânimo, secura, inspiração, luz, medo, insegurança, confusão, atração por Deus... Tudo isso são moções.

            Santo Inácio divide as moções em boas e más. Chama de consolação às moções boas, que nos conduzem para Deus. Chama de desolação às moções más, que nos afastam de Deus.

            Deus se manifesta nas moções, como pequenos toques... Se há moções sempre presentes, aí há algo de Deus. As moções são a linguagem do coração. Devemos ir atrás das moções persistentes. As outras, que vem e vão, devemos desprezá-las.

            Tanto a consolação como a desolação nascem do coração e repercutem nos outros níveis da pessoa: afetivo, mental, corporal. A consolação é movimento de expansão para fora, vem de dentro e se alarga. Uma pessoa consolada sente sua afetividade tranquila, sem feridas, as idéias em ordem, a cabeça leve, o corpo leve, solto, tranquilo, uma melhor relação com os outros...

            A Consolação é um estado de ânimo forte, intenso, além do normal, perceptível. A pessoa percebe sem saber o porquê. Não é algo rápido, mas é algo que tem duração. No entanto, não se pode reter. Do mesmo modo que aparece pode ir embora. Não temos domínio sobre a consolação, não conseguimos repetí-la. Cada consolação é única, porque é graça de Deus. Ele dá a quem quiser e quando quiser. Ela é dom, não é conquista pessoal. Ela vem, entra e sai quando quer. Devemos pôr os meios para acolhê-la, buscá-la, mas não a provocamos. Para cada pessoa a consolação é única e cada uma a capta de um modo diferente.

            Não se deve confundir a consolação com estados eufóricos. A consolação é interior, silenciosa, calma, centrada em Deus e nos outros. O estado eufórico é exterior, ruidoso, o centro é a pessoa voltada para si mesma. No entanto, pode se transformar o estado eufórico numa consolação, levando-o  da exterioridade para a interioridade, na oração,  no confronto com a Palavra de Deus. Apesar dos conceitos serem pobres e frágeis para definir a consolação, podemos elencar algumas de suas características:

            - Ela é todo movimento interior que deixa a pessoa cheia de confiança em Deus, de afeição por Jesus e de abertura para os outros. É impulso para o alto, para o bem.

            - É toda alegria interior que eleva e atrai a pessoa para as coisas celestiais e para a sua salvação, tranquilizando-a e pacificando-a em seu Criador e Senhor.

            - É paz, alegria, confiança, ânimo, experiência do amor de Deus e do sentido da vida...

            - É experiência de uma presença íntima, pessoal, de ser amado gratuitamente.

            - É experiência existencial, tudo está em harmonia, unificado, integrado....

            - É sensação de liberdade, de que o melhor de nós vem à tona...

                        Quando certas consolações são “constantes” ao longo de uma caminhada, e concordam com experiências semelhantes, anteriores, então as consolações tornam-se indicação ou confirmação importante para conhecer a Vontade de Deus sobre uma pessoa. Se na sua oração ou na sua vida (comportamento, modo de ser, etc), você experimenta consolações ao se orientar para uma certa vocação específica, pode ter a certeza de que essas moções, se foram constantes, indicam a voz do Senhor que chama. Sentir em si, profunda e constantemente, a consolação ao escolher algo para o serviço do Senhor, da Igreja e do Mundo por causa do Evangelho, pode ser considerado como um convite que Deus faz.                                

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

ORAÇÃO PREPARATÓRIA -  A partir de hoje, sua oração deve iniciar sempre com essa oração preparatória: “Senhor Deus, que todos os meus pensamentos, minhas atitudes, meus desejos e minha afetividade sejam puramente ordenados para o Teu maior serviço e dos irmãos”

            Essa pequena oração é um resumo do “Princípio e Fundamento”. Nela se pede a graça básica à qual querem conduzir todos os Exercícios, e que inspira todo o seu itinerário. Ela o ajudará a pôr-se diante de Deus.

GRAÇA - Dai-me, Senhor, o dom do discernimento!

PALAVRA DE DEUS - Os 11,1-9

REVISÃO DA ORAÇÃO - O que mais lhe impressionou na oração?

2

 

A DESOLAÇÃO

           

 

            Vimos como as moções são todo movimento interior, impulso, atração da “alma” que aparecem sobretudo na oração, mas também a partir da vida, dos acontecimentos e de situações eclesiais e sociais. Como experiências espirituais concretas podem preceder ou acompanhar uma escolha, uma decisão e também decorrer dela como confirmação.

 

            Chamamos às moções boas de consolação e às moções más de desolação. Ninguém é culpado por ter más moções. Como as boas moções, as más moções também surgem sem esperar, acontecem. São reações interiores diante da Palavra de Deus. Costumamos achar que se nos sentimos mal na oração é porque não rezamos, o que não é verdade! Você rezou sim! Isso só indica que está havendo moções interiores. Santo Inácio dizia que se não há nenhum movimento na oração, algo está errado. A desolação também é fruto da oração. Se não se sente nada enquanto se reza, deve-se verificar se está rezando de modo conveniente.

 

            A Desolação é “obscuridade da alma, perturbação, incitação a coisas baixas e terrenas, inquietação proveniente de várias agitações e tentações que levam à falta de fé, de esperança e amor, achando-se a alma toda preguiçosa, tíbia, triste e como que separada do seu Criador e Senhor.” (EE 317)

 

            Vejamos outras características da desolação:

 

            - É experiência de crise, de torpor, de esvaziamento interior progressivo. É impulso para baixo, para o terreno.

            - É desânimo, pessimismo, desconfiança, aridez, desamor, frieza, ressentimento, temor, confusão, silêncio de Deus.

            - É toda frieza diante de Jesus Cristo.

            - É sentir que a mudança é impossível, por perda de confiança em si mesmo.

            - É perda de interesse pelos outros, para o serviço.

            - É experiência existencial, tudo está em desarmonia, desunificado, desintegrado.

 

            A desolação é também um estado interior intenso, fora do normal, perceptível, que repercute nos outros níveis da pessoa: afetivo, mental, corporal. Uma pessoa desolada sente sua afetividade ferida se intensificar, amargurada, confusão de idéias, apavorada, mal-estar físico, preguiça, pesada, mal-estar e desconfiança com os outros.

 

            Não se deve confundir a desolação com a depressão. A desolação tem origem numa situação interna, se dá na oração, no confronto com a Palavra de Deus, refere-se ao sentido da vida, aponta para a frente, para o novo, para o desafio. A depressão é provocada por uma situação externa, por alguém ou por uma frustração, uma derrota, minando as forças da pessoa, isolando-a, desanimando-a. A desolação está no nível da fé, a depressão está no nível afetivo. A desolação faz referência ao futuro, a depressão faz referência ao passado. A desolação pode se aproveitar de uma depressão, somar-se a um estado afetivo frágil.

 

            Quando certas desolações são constantes ao longo de uma caminhada, podem indicar resistências e conflitos diante de um possível convite ou chamado de Deus.  Se a pessoa está buscando sinceramente o Senhor e a vocação pessoal e sente confusão interior, inquietação, tristeza..., apesar da busca sincera, significa que algo não está bem com respeito à escolha. Com efeito, a doação a Deus e aos irmãos sempre deixa a pessoa intimamente satisfeita, apesar do sacrifício que exige.

 

            Deus nos ensina através da desolação. Ela pode ser lição do Senhor!

 

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

A MEDITAÇÃO - A oração própria dessa etapa é a meditação. Nela você usará sua capacidade de memória, inteligência e vontade. Através da recordação de um fato revelado (memória) e de sua compreensão íntima (inteligência) o querer profundo (vontade) se expande finalmente em amor, em comunhão e plenitude de amor. A meditação nos faz penetrar progressivamente no “mistério” ou, de outro modo, abre nosso interior mais e mais profundamente para que o “mistério” ali penetre e ali produza frutos.

 

GRAÇA - Dai-me, Senhor, o dom do discernimento!

 

PALAVRA DE DEUS - Rm 7,14-25

 

REVISÃO DA ORAÇÃO -  Que sentimentos mais ocuparam a sua oração?

 

 

3

 

REGRAS PARA AJUDAR O DISCERNIMENTO ESPIRITUAL

 

 

            Discernimento Espiritual é distinguir e conhecer o que Deus nos pede no dia-a-dia de nossa vida. Em cada um de nós estão presentes duas forças, a força de Deus e a força do mal, ou, o “bom espírito” e o “mau espírito”. O bom espírito nos leva para junto de Deus, o mau espírito nos quer afastar de Deus.

 

1. Numa pessoa que está numa vida de pecado, contra Deus:

     - o bom espírito: tentará tirá-la daí, questionando-a e fazendo-a sentir-se vazia e com remorso.

     - o mau espírito: procurará animá-la para que se afunde ainda mais no pecado: “Vá em frente!”

2. Numa pessoa que está buscando crescer na descoberta de Deus e na vivência do amor:

    - o bom espírito: vai fortalecê-la dando-lhe paz e alegria verdadeiras, removendo todos os impedimentos para que a pessoa continue nos caminhos de Deus

      - o mau espírito: vai tentar tirá-la daí colocando-lhe dúvidas, confusão, oposição, desânimo...

3. Quando estamos desolados, devemos prosseguir no caminho que seguíamos antes de cair em desolação. Nunca tomar decisões quanto estiver desolado.

4. Na desolação, não se deixe dominar, mas lutar contra:

    - ser insistente na oração, mesmo que ela seja difícil!

    - examinar mais a consciência para perceber o que levou à desolação.

    - intensificar a caridade, sacrificar-se mais pelos outros...

5. Quem estiver desolado, lembre-se de que Deus permite um tempo de provação para purificar o amor. Mantenha viva a fé mesmo não sentindo a presença de Deus.

6. Quem estiver desolado, seja paciente. Saiba aguardar o momento de sair desta situação. Ela não vai durar para sempre.

7. As causas da desolação são três, sendo uma de nossa parte e duas da parte de Deus:

    - Debilidade, preguiça ou negligência no nosso relacionamento com Deus.

    - Faz-nos notar que devemos buscar a Deus porque é bom, e não apenas pelos efeitos consoladores da sua presença. Temos tendência a buscar mais a consolação do que o Deus da consolação (o que poderia ser, no fundo, busca de nós mesmos!)

    - Faz-nos compreender que a consolação não depende de nós. É um dom que Ele nos concede por pura bondade e amor, gratuitamente.

8. Quem estiver consolado, prepare-se para enfrentar a desolação que possivelmente virá.

9. Quem estiver consolado seja humilde, reconhecendo sua pequenez e a grandeza de Deus.

    Quem estiver desolado seja forte, acreditando que Deus não nos abandonou!

10. Nunca se deixar abater pelas oposições, obstáculos, mas enfrentá-los com força e coragem.

11. Desmascarar as tentações e oposições externas ou internas comunicando-as a alguma pessoa mais experiente nos caminhos de Deus. O “segredo” nos enrola mais e mais em nós mesmos e nos impede de atingir a libertação do mal.

12. Conhecer-se a si mesmo, principalmente tendo bastante clareza dos pontos mais fortes e dos pontos mais fracos. Nossos pontos fracos serão sempre uma ameaça ao nosso crescimento para Deus. Portanto, ser prudente em não se expôr a situações que incidem sobre os pontos fracos.

13. Para perceber as moções e discerní-las, é necessário revisar sua oração:

            - Sentir - cair na conta de que alguma coisa passou dentro de você. Ex: distrações, recordações, imagens, sentimentos, frases, desejos, decisões, etc.

            - Conhecer - perceber para onde lhe levam as moções - para Deus ou contra Ele?

            - Agir - acolher as boas moções e purificar ou repelir as más moções.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

O COLÓQUIO - Você sempre deve fazer em sua oração um “colóquio” com Deus, um diálogo muito aberto, livre, espontâneo, familiar, carregado de um imenso respeito, falando com Ele como um amigo fala com outro.

            O colóquio é o ponto culminante da oração. Exprime a presença total do homem diante de Deus, a resposta à sua Palavra, o meio mais profundo de identificação com o Senhor.

            O colóquio pode ser atingido a qualquer momento da sua oração, não somente no fim. Pode mesmo prolongar-se durante todo o decurso da oração.

            Como a iniciativa é sempre do Senhor, há que deixar-se primeiro invadir pela sua Palavra, ouvir, “sentir internamente a presença e depois falar”. O colóquio brota da contemplação da Palavra de Deus e da ação do mesmo Deus no seu coração.

 

GRAÇA - Dai-me, Senhor, um coração que discerne!

PALAVRA DE DEUS - Mt 4,1-11

REVISÃO DA ORAÇÃO - Quais foram os apelos de Deus na sua oração?

4

 

O QUE SAI DO SEU CORAÇÃO?

 

 

            “...É do coração que provêm os maus pensamentos... Eis o que mancha o homem: aquilo que sai do seu coração.” (Mt 15,11.19s)

 

            O mal não se encontra fora do homem, mas no seu coração! O mal desvia todo o criado do seu caminho para Deus. O pecado é uma desordem, uma ingratidão que invadiu não só o seu coração, mas o mundo todo. Você deve perceber a ausência de Deus na sua vida de pecado.

 

            Perceber o pecado em nossas vidas é dom de Deus. Um dos efeitos do pecado está justamente em cegar-nos para perceber sua ação e presença.

 

            O pecado é uma ofensa a Deus, a nós mesmos e aos outros homens. A Deus, enquanto rejeitamos sua Palavra e seu amor; a nós mesmos, enquanto fracassamos em nossa realização ou ameaçamos nossa existência de infelicidade; aos outros, enquanto nossas más ações destróem as relações fraternas e nossas omissões e maus exemplos privam os outros de bens que lhes poderíamos proporcionar.

 

            O pecado é um império do desamor e o germe de todos os males. Sua gravidade somente se pode medir contemplando um crucifixo: o pecado mata o Filho de Deus e os filhos de Deus e muda esta terra em um inferno.

 

            “Ao final o homem destruiu seu mundo que se chamava terra.

            A terra havia sido linda até que o espírito do homem se moveu sobre a sua face e destruiu todas as coisas.

            E disse o homem: “- Que haja trevas”.

            E ao homem pareceram boas as trevas, e deu a elas o nome de Segurança; e dividiu a si mesmo em raças e religiões e classes sociais.

            E não havia nenhum entardecer e nenhum amanhecer no sétimo dia antes do final.

            E disse o homem: “- Que haja um governo forte para reinar sobre as nossas trevas... que haja exércitos para matarem-se mutuamente com ordem e eficiência em nossas trevas; cacemos para destruí-los àqueles que nos dizem a verdade, aqui e até os confins da terra, porque gostamos de nossas trevas”.

            E não havia nenhum entardecer e nenhum amanhecer no sexto dia antes do final.

            E disse o homem: “- Que haja foguetes e bombas para matar mais rápido e facilmente”.

            E houve câmaras de gás e fornos para terminar melhor o trabalho.

            E era o quinto dia antes do final.

E disse o homem: “- Que haja drogas e outras maneiras de fuga, já que há uma leve e constante moléstia - a Realidade - que estorva nossa comodidade”.

            E era o quarto dia antes do final!

            E disse o homem: “Que haja divisões entre as nações para que possamos saber quem é o nosso inimigo”.

            E era o terceiro dia antes do final.

            E por fim disse o homem: “- Façamos Deus à nossa imagem e semelhança de modo que nenhum outro deus nos faça concorrência. Proclamemos que Deus pensa assim como nós pensamos e que odeia assim como nós odiamos, e que mata assim como nós matamos”

            E era o segundo dia antes do final.

            No último dia houve um grande estrondo sobre a face da terra: o fogo queimou o lindo globo terrestre, e houve silêncio.

            E viu o Senhor Deus tudo o que havia feito o homem.

            E no silêncio que envolvia os restos fumegantes, Deus chorou.”

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

COLÓQUIO DA MISERICÓRDIA - Termine sua oração com o “colóquio da misericórdia”. Imagine Jesus Cristo pregado na cruz diante de você ou faça sua oração diante de um crucifixo! Converse com Jesus, perguntando como de Criador veio a fazer-se homem, da vida eterna veio abraçar a morte, morrendo por seus pecados. Olhando depois para você mesmo, pergunte-se o que já fez por Cristo, o que faz por Cristo e o que deve fazer por Cristo. E vendo-O assim, maltratado e pregado na cruz, deixe-se levar pelos sentimentos e afetos que lhe vierem.

 

GRAÇA - Senhor, que eu me sinta confuso porque os meus pecados não me destroem como destroem tantas outras pessoas.

 

PALAVRA DE DEUS - Gn 3,1-13

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Por onde o mal é mais facilmente acolhido por você?

5

 

UM MUNDO SEM DEUS

 

 

            Pelo pecado o homem introduziu a desordem no plano de Deus. Fez isso porque é livre e Deus aceitou correr o risco de criar o homem livre, à sua Imagem e Semelhança, mesmo com a possibilidade de o homem rebelar-se contra Ele.

 

            O homem é criado livre e pelo mau uso da liberdade recusa a ser colaborador de Deus na Criação. Deus fez o homem livre, pois a liberdade é uma nota intrínseca ao seu amor. Só há amor verdadeiro onde há liberdade, e Deus quer ser amado verdadeiramente pelo homem.

 

            Com o pecado as três relações do homem ficaram deturpadas:

 

            Em relação a Deus o homem passou de filho a rebelde, encheu-se de orgulho recusando sua condição de criatura, seu relacionamento de convivência em relação ao seu Criador, querendo ser o centro e a norma de tudo, querendo ser Deus: “sereis como Deus”. Constitui-se a si mesmo como Senhor absoluto de sua existência. Orgulhoso, desobediente e rebelde, o homem não se vê mais como filho de Deus, não se reconhece como dependente de Deus, e passa a ter medo de Deus, visto como um rival.

 

            Em relação aos outros de irmão passa a dominador do seu próximo: fecha-se no seu egoísmo e engana, usa, rouba, manipula e mata o seu semelhante. A dominação se mascara como injustiça, opressão, mentira, espoliação dos mais fracos pelos poderosos.

 

            Em relação ao mundo o homem passa de senhor a escravo: escravo de suas ambições, de um desejo incomensurável de ter, de possuir cada vez mais, a qualquer preço, mesmo atropelando, massacrando, aviltando homens e mulheres em seu caminho. É levado a colocar o sentido de sua vida naquilo que possui: dinheiro, terras, conforto, status, honrarias, mordomias... agarrando-se com sofreguidão a suas posses, torna-se insensível à miséria, à doença, à fome dos deserdados.

           

            Através da liberdade o homem organiza seu próprio projeto sem levar em conta o “sonho” de Deus. Ele quer construir sua vida a partir dos próprios critérios. Sua resposta ao Projeto do Deus-Amor foi a infidelidade, “deu as costas para Deus”, criando em torno de si um círculo de morte e destruição.

 

            Ao voltar as costas para Deus, o projeto do homem funda-se sobre o egoísmo, poder, status, riqueza... Isso significa o fracasso de seus anseios mais profundos de felicidade.

 

            Com o pecado o homem foi poluindo o ambiente e criando essa situação de desordem em que vivemos.

 

            É como a poluição de um aquário: cada torrão de barro que cai no aquário polui um pouco a água que era cristalina. O acréscimo deles vai tornando a água turva, barrenta, totalmente poluída.

 

            Cada um de nós, joga seu torrão de barro no aquário, dá a sua colaboração no mal através de seus pecados pessoais. O aquário já está poluído, isto é, criou-se uma situação de pecado no mundo a ponto de o homem perder totalmente seu equilíbrio, fruto de uma história de solidariedade do mal que vai crescendo.

 

            Neste mundo onde borbulha vida, impera ídolos que oprimem e tudo contaminam com o veneno da morte. Vivemos num mundo contaminado que nos afeta e nos infecta... somos bombardeados pelos falsos valores... sentimo-nos impotentes diante dessa realidade.

 

            E não só o mundo está seriamente doente, mas também o próprio homem experimenta dentro de si dores incríveis. Quantas incoerências, medos, complexos, angústias, ambiguidades, conflitos, pecados, invadem o coração do homem! O homem não vive, arrasta-se!

 

 

 

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

COLÓQUIO DA MISERICÓRDIA - Termine sua oração, como você fez ontem, com o “Colóquio da Misericórdia”.

 

GRAÇA - Senhor, que o teu Espírito me ajude a enxergar o mal, o pecado do mundo.

 

PALAVRA DE DEUS - Is 59,1-15

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você se coloca diante deste mundo: inconformado? revoltado? indiferente? acomodado? otimista? ativo?

 

 

AMANHÃ:

 

REPETIÇÃO - A partir de hoje e no decorrer dos Exercícios, muitas vezes você vai ser convidado a fazer uma oração de repetição. A repetição é uma forma de oração destinada a interiorizar a experiência espiritual já feita. Não se repete porque não foi bem-feita ou, simplesmente, para renovar o já realizado, mas se lança, na fé, um novo olhar que procura aprofundar a compreensão do mistério.

            A  repetição é um retorno aos sentimentos tidos na oração, dando-se atenção tanto aos positivos (consolações), como aos negativos (desolações). Procure retomar os versículos da Palavra de Deus que mais lhe tocaram ou pelos quais teve mais resistência. Retome sua revisão da oração! A repetição o guiará, pouco a pouco, a perceber as “constantes” de Deus na sua vida, manifestando a vontade de Deus sobre você.

            Não se propõe uma revisão da oração para os dias de repetição. No entanto, não deixe nunca de fazê-la, anotando o que achar mais importante na oração: trechos da Palavra de Deus, pensamentos, imagens, recordações, sentimentos de consolação ou desolação, apelos, resistências, medos...

             O que constrói o homem interiormente é a retomada permanente das experiências que viveu. Aquele que não se debruça sobre o quanto viveu permanece na superfície de si mesmo.

 

REPETIÇÃO: O QUE SAI DO SEU CORAÇÃO?

                              UM MUNDO SEM DEUS           

 

UM MUNDO SEM DEUS GERA UMA SOCIEDADE INVERTIDA

 

 

            O Projeto de Deus foi desfeito! O homem levou o egoísmo até as últimas consequências, ou seja, amou a si mesmo até o desprezo de Deus.  Disse um “não” à Vida e ao Deus da Vida, gerando fracasso, frustração e morte. A opção contra Deus e contra seu Projeto brota do interior do homem, que por sua Liberdade é capaz de recusar o Amor e destruir a relação com Deus, com os outros e com o mundo. Com isso rompeu-se a filiação divina, a fraternidade com os outros e o domínio sobre as coisas. Há uma inversão radical:

 

            - o homem, com sua soberba, sente-se como um pequeno deus: concepção de vida centrada em si mesmo e em seus interesses;

            - as coisas, o bem, o poder, o status... ocupam o lugar de Deus: vivendo para o ter e o prazer, sua conduta harmoniza-se no mal;

            - Deus não é mais o fim último, a quem se deve buscar em primeiro lugar (busca-se ter mais);

            - Deus não é mais o Criador que é amado sobre todas as coisas;

            - Deus não é mais o ser Providente de quem tudo procede e para quem tudo retorna;

            - Deus não é mais o supremo Senhor cuja vontade deve-se buscá-la;

            - a verdade, a honra, a justiça, o serviço, o compromisso... deixam de ser valores;

            - há sobretudo uma inversão radical nas relações entre as pessoas: o outro é coisificado, instrumentalizado, manipulado; direitos são desprezados; o engano, a violência, a injustiça... reinam por toda parte.

 

            Do interior do homem, o egoísmo extremado passa para suas atividades, instituições, estruturas (externalizado), provocando violência, gerando tensões, divisões...

 

            A opção contra o projeto de Deus nasce do mais profundo da pessoa e se encarna em estruturas injustas e destruidoras... O “homem invertido” gera também um “mundo invertido”. Disso resulta uma lista interminável de injustiças, misérias, explorações, crueldades, assassinatos... Há um processo de desumanização, de cristalização do Mal nas instituições: família, trabalho, economia, política, relações... As estruturas injustas são legitimadas. Há uma corrente terrível de nossa sociedade materialista e egoísta que arrasta a todos: todos estão “invertidos”.

 

            A humanidade está dividida, quebrada interiormente, desintegrada. Um “mundo sem Deus” tem como consequência o “mundo da exclusão”, “feições concretíssimas, nas quais deveríamos reconhecer as feições sofredoras de Cristo, o Senhor que nos questiona e interpela:

 

            - Feições de crianças, golpeadas pela pobreza ainda antes de nascer.

            - Feições de jovens, desorientados por não encontrarem seu lugar na sociedade.

            - Feições de indígenas e de afros que vivem segregados e em situações desumanas.

            - Feições de camponeses, que vivem sem terra, em situação de dependência.

            - Feições de operários mal remunerados e que tem dificuldades de se organizar e defender os próprios direitos.

            - Feições de sub-empregados e desempregados, despedidos pelas duras exigências das crises econômicas.

            - Feições de marginalizados e amontoados das nossas cidades.

            - Feições de anciãos, postos à margem da sociedade e do progresso, que prescinde das pessoas que não produzem.

 

            Compartilhamos com nosso povo de outras angústias que brotam da falta de respeito à sua dignidade de ser humano, “Imagem e Semelhança” do Criador e seus direitos inalienáveis de filhos de Deus” (Puebla)

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

COLÓQUIO DA MISERICÓRDIA -  Termine sua oração com o “Colóquio da Misericórdia”.

           

GRAÇA - Senhor, que eu não me acostume com o mal que está no mundo.

 

PALAVRA DE DEUS - Rm 1, 18-32

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Examinando a sociedade, sentindo de perto os seus problemas e desafios, que esperanças você carrega em sua vida?

O QUE FIZ, O QUE FAÇO, O QUE DEVO FAZER POR CRISTO?

 

 

            “Pequei, Senhor, misericódia!” (Sl 51)

 

            “Pai, tu não és o autor da morte e do sofrimento! A perdição dos vivos não te dá nenhuma alegria... Tudo criaste para a vida! És o Deus da Vida! Mas contemplando o mundo em que vivo, e revendo a história da humanidade, tenho diante de mim tantas cenas de sofrimento e de mortes violentas, que são numerosas como os grãos de areia de uma praia imensa. São cenas chocantes, como a daquela mãe nordestina que vê o seu filhinho morrer de fome e não tem nada para lhe dar de comer. O mundo que sonhaste para nós não é este, estragado por tantos males.

            Colocaste em nossas mãos recursos incontáveis, para que acontecesse uma história de irmãos, um mundo cheio de justiça e de amor, um mundo capaz de ser um lugar feliz, o lar de cada ser humano, e não um campo de batalha, onde reina a violência, o ódio, a exploração e a escravidão. Também nos deste o dom mais precioso: a liberdade. Liberdade para dizer contigo um “sim” à vida. Contudo, desde o início, o homem quis alcançar a felicidade prescindindo de Ti e de teu projeto de história. Absolutizou valores, colocando em segundo lugar a fonte da verdadeira vida... Absolutizou-se a si próprio, dilacerando-se interiormente... Então, penetraram no mundo o mal, a morte e a violência, o ódio e o medo.

            Quantas desgraças vieram! Um mar imenso de males que, com suas ondas gigantescas, foi tomando conta de tudo, estabelecendo estruturas incapazes de gerar a vida que sonhaste! Um mundo ameaçador, no qual me sinto como um náufrago em perigo de vida. Um mundo cruel, autor de muitas vítimas. É a triste realidade do pecado no mundo, fruto podre do uso indevido da liberdade.

            Pai, não só contemplo todas estas coisas, mas também elas atingiram o meu ser, causando-me sofrimentos que às vezes me fazem gemer e perder a alegria de viver. Mas não sou apenas vítima. Também sou cúmplice desta situação: quantas vezes deixei de viver como filho e irmão, colocando no centro de minhas escolhas o que não é capaz de dar espaço à verdadeira vida! Pequei, Pai! Só pensei em mim e fechei os olhos a meu irmão. Não fui presença de vida para ele e fui surdo a teus apelos. Tu vieste ao meu encontro, Pai, e eu preferi os meus ídolos... coloquei neles a minha segurança. Deixei-me levar por promessas sedutoras e consenti em tantos males...

 

            Quantas vezes fui injusto... Quantas vezes feri o outro com palavras, atitudes, ações e omissões... Quantas vezes deixei de levar em conta os ensinamentos do Evangelho... E como tenho “ficado na minha”, sem cuidar de me unir com os que se arriscam para lutar com os empobrecidos pela justiça e pelo direito? Jesus fez chegar sua voz até mim e eu fui surdo. Tu disseste, Pai: “Ouvi-o!”. E eu sei que só Ele tem palavras de vida eterna. Contudo, preferi ir atrás de falsos profetas. Desviei-me e enveredei por caminhos perigosos... Como um louco corri atrás de coisas que achei muito importantes para mim: certos bens, prestígio, comodidades... Meu coração passou a ser escravo do que considerei um tesouro. Caí na idolatria e me esqueci de Ti, o único que é Deus da Vida, fonte da verdadeira vida para nós...

 

            Agora estou aqui, Pai, contemplando Jesus na cruz, sinal de uma entrega total, de um amor que se deu por completo. E eu, o que fiz por Cristo? O que estou fazendo por Cristo? O que devo fazer por Ele?”

 

            Hoje, na sua oração, você vai olhar para si mesmo. Deus se afasta um pouco para deixar lugar a você. Você hoje vai contemplar sua própria vida. A vida que fez sem Cristo. Sua vida, apesar de todos os pesares, do seu passado e presente, é muito importante, não só para si, mas também para Deus. Até agora você a construiu um bocado afastada da vida de Deus, por isso não tinha sentido total, mas daqui para frente, e com sua graça, poderá ser diferente.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

COLÓQUIO DA MISERICÓRDIA - Termine sua oração com o “Colóquio da Misericórdia”.

 

PALAVRA DE DEUS - Sl 51(50) Tende piedade de mim, Senhor!

 

GRAÇA - Senhor, abre-me a uma vergonha profunda por tudo que tenho feito.

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - O Senhor lhe deu a graça de identificar que atitudes suas precisam de conversão, de mudança? Isso deixa você consolado?

 

 

AMANHÃ:

REPETIÇÃO: UM MUNDO SEM DEUS GERA UMA SOCIEDADE INVERTIDA

                          O QUE FIZ, O QUE FAÇO, O QUE DEVO FAZER POR CRISTO?

 

8

 

CURTINDO UMA FOME ETERNA

 

 

            “Naquele tempo um discípulo perguntou ao vidente:

            - Mestre, qual é a diferença entre o céu e o inferno?

            E o vidente responde:

            - Ela é muito pequena e, contudo, com grandes consequências. Vi um grande monte de arroz, cozido e preparado como alimento; ao redor dele muitos homens, quase a morrer. Não podiam se aproximar do monte de arroz. Mas possuíam longos palitos de 2 a 3 metros de comprimento. Apanhavam, é verdade, o arroz, mas não conseguiam levá-lo à própria boca porque os palitos em suas mãos eram muito longos. Assim, famintos e moribundos, embora juntos, mais solitários permaneciam, curtindo uma fome eterna, diante de uma fartura inesgotável. E isso era o inferno. Vi outro grande monte de arroz, cozido e preparado como alimento. Ao redor dele muitos homens famintos, mas cheios de vitalidade. Não podiam se aproximar do monte de arroz. Mas possuíam longos palitos de 2 a 3 metros de comprimento. Apanhavam o arroz, mas não conseguiam levá-lo à própria boca, porque os palitos em suas mãos eram muito longos. Mas com seus longos palitos, em vez de levá-los à sua própria boca, serviam uns aos outros. E assim matavam sua fome insaciável. Numa grande comunhão fraterna. Juntos e solidários. Gozando a excelência dos homens e das coisas. E isso era o Céu”.

 

            Pelo pecado o homem se rebela contra seu Criador e se constitui a si mesmo dono e senhor absoluto de sua existência. Pela desobediência a Deus o homem rejeita o objetivo para o qual foi criado: louvar, reverenciar e servir a Deus Nosso Senhor.

 

            O pecado é o fracasso da vida. É uma realidade que não podemos desconhecer, nem muito menos negar.

 

             “Se dizemos que não temos pecados, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1Jo 1,8).

 

            A maldade e a gravidade do pecado não se medem apenas pelo castigo que merece, mas pelo dano que produz em nós e nos outros. O pecado matou Jesus Cristo, Filho de Deus, mata os filhos de Deus, mata a cada um de nós.

 

            Hoje existe uma tendência a negar a existência do inferno ou a reduzí-lo aos sofrimentos desta terra. Se cultivamos as sementes do egoísmo, do ódio, da pobreza, da opressão, da injustiça e de todas essas realidades geradas pelo pecado, nosso mundo se converterá em um inferno insuportável. Basta tentar! Mas o inferno não é apenas uma possibilidade desta terra. É a alternativa definitiva para o homem que organiza sua vida de costas para Deus e para seus semelhantes.

            O inferno é alienação. Temos dentro de nós mesmos uma orientação para os outros e para Deus. No inferno estamos orientados para nós mesmos.

            O inferno é solidão. Perco os outros, porém não posso dizer nem saber quem são esses outros.

            O inferno é frustração. Nosso próprio eu se entende como sendo para o louvor e a ação de graças. No inferno, só poderemos grunhir, frustrado por ser para nós nossa própria verdade.

            O inferno é o absurdo. Deus escreveu em nós mesmos os valores - lealdade, fidelidade, veracidade, honestidade, serviço aos outros - que conservados poderiam ter-nos feito felizes. Mas durante nossa vida, escolhemos outros valores na esperança de que nos fariam felizes - prazer, ter poder sobre os outros, sentindo-nos totalmente seguro, gastando dinheiro e outras coisas do mesmo tipo. Agora sabemos que os valores que escolhemos eram absurdos, sem raízes no nosso verdadeiro eu. Vivemos o absurdo, agora e para sempre.

            Pensemos no inferno como essa possibilidade que nos ameaça de fracasso e destruição, a total infelicidade, eternamente.

 

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

O TRÍPLICE COLÓQUIO - A partir de hoje, até o final dessa etapa, você fará, no lugar do “colóquio da misericórdia” um tríplice colóquio: primeiro, com a Virgem Maria, depois, com Jesus e, finalmente, com o Pai, conversando com cada um deles, pedindo-lhes que atendam sua graça. 

           

GRAÇA - Senhor, que eu sinta a profunda solidão que sofre uma pessoa que recusa o amor para sempre.

 

PALAVRA DE DEUS - Lc 16, 19-31

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - O que mais o escraviza: o orgulho? o sexo? o dinheiro? o comodismo? a gula? o ódio? a incapacidade de perdoar? a insensibilidade ao sofrimento alheio? a inveja? as drogas?...

 

9

 

SANTIDADE E PERFEIÇÃO

 

 

            Vivemos a vida cristã com falta de paz e alegria. Por quê? O que nos atrapalha?

 

            Talvez seja por causa da confusão que fazemos entre santidade e perfeição. Tendemos a identificar santidade com perfeição.

            Qual o conceito que temos de perfeição? O conceito que temos de perfeição nos vem da infância: “Erramos, logo somos castigados! Acertamos, logo ganhamos uma bala!” Este conceito vai sendo agravado cada vez mais pela formação que recebemos, pelo nosso sentimento de culpa.

            Passamos a entender perfeição como: não ter defeitos, não ter vícios, não ter fraquezas, não ter falhas. Quanto mais avançamos na vida, mais notamos nossas falhas. A tendência é desanimar. Aí convém desconfiar de nossa perfeição.

            É mentira achar que se chegou à perfeição. A perfeição somos nós que fabricamos e a fabricamos para nós mesmos. A perfeição é prescindir de Deus. É pelo nosso esforço que chegamos lá. Daí, a perfeição não suporta o pecado. Ela é humilhada pelo pecado. O pecado é visto em relação ao próprio ideal, aí a pessoa se sente humilhada.

            A perfeição é querer viver só com os melhores aspectos de nós mesmos. As fraquezas, os fragmentos obscuros de nós mesmos ficam trancados no porão de nossa existência, fermentando como uma chaga secreta. A tendência é a pessoa não chegar a amar ninguém, não se abrindo na sua pretensa perfeição. Essa perfeição é uma escada que deve ser subida, degrau por degrau, para apresentar-se diante de Deus com “direitos”. Aos poucos a pessoa começa a entrar em crise e escorregar de lá para baixo. Essa crise pode ser uma graça de Deus.

            Em vez de optar pela perfeição, seria interessante optar pela santidade. Perfeição e pecado não se dão bem, como já vimos. Santidade e pecado não se excluem. Os santos são os primeiros a se reconhecerem grandes pecadores.

            Perfeição é algo que está lá no fim, e tenho que chegar lá, para ser agradável a Deus. Isso dá idéia de um Deus longe, distante. Pelo contrário, a santidade é dada por Deus.

            Santidade é a graça de transformar o Amor em atos. Fazer o bem às pessoas. Essa força não vem de nós, mas é dada por Deus. Santidade é capacidade de amar. Deus é Santo não porque é perfeito, mas porque é dom total. A santidade nos é dada agora.

            Somos humilhados quando pensamos ser alguém. Somos humildes quando aceitamos ser pobres. Jesus nos propõe que desçamos às profundidades da humildade: “Quem se exalta será humilhado, quem se humilha será exaltado”. Abrirmo-nos para a compaixão para com os irmãos.

            A santidade é essa recusa de se deixar fechar nessa fraqueza do pecado. Nós somos amados por Deus como pecadores. Jesus mesmo disse: “Eu vim para os pecadores”. A perfeição humilhada pelo pecado leva ao fechamento sobre si mesmo. A santidade nunca leva ao fechamento, mas leva ao querer ser aberto, ao abrir-se, ao doar-se cada vez mais.

            “Ide, sede perfeitos na misericórdia de Deus”. Deus não impõe condições para chegar-se a Ele. Olhar com misericórdia, como Deus nos olha, é só isso que basta. “Quando sou fraco é que sou forte”. 

            Somos filhos. Cada um de nós é o centro da ternura e das carícias de Deus. Você é único diante de Deus. Deus está satisfeito conosco, Deus vibra com suas criaturas. Não devemos nos arrastar até Deus. Até um passo em falso é um passo na direção a Ele. É maravilhoso ser tão pobre quando se é tão amado por Deus. Deixe o juízo para Deus. Ele tem compaixão.

            Devemos  ter dois pontos de referência:

 

            - a certeza do Amor de Deus por nós. Sou amado sem condições.

            - ter como meta a pessoa de Jesus Cristo. Caminhar para uma configuração à pessoa de Jesus Cristo. “Tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”

.

            Jesus é alguém que nunca viveu para si. Sempre foi um dom para o Pai, para os outros.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

PREPARAÇÃO DA ORAÇÃO - Tenha em conta que você torna mais pleno seu tempo de oração se você prepara com antecedência a sua oração. O melhor seria fazê-lo à noite, antes de dormir.

GRAÇA -  Senhor, dá-me a força do Espírito para reconhecer meus pecados e a coragem de sentir vergonha por eles.

PALAVRA DE DEUS - Lc 18,9-14

REVISÃO DA ORAÇÃO - O que é que você viu hoje na sua oração?

 

 

AMANHÃ:

REPETIÇÃO: CURTINDO UMA FOME ETERNA

                         SANTIDADE E PERFEIÇÃO

10

 

JESUS NUNCA FUGIU DA REALIDADE

 

            “O jovem Edvaldo Gomes Teixeira não era propriamente, aos 20 anos, o que se convencionou chamar de “baixinho” desde que a rainha Xuxa invadiu as telas e fantasias de milhões de crianças brasileiras. Na noite da terça-feira 10, porém, ele foi vítima de um latrocínio por quase nada, uma situação que tem aterrorizado jovens de todas as idades nas ruas e escolas do país. Ao sair da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado de São Paulo (CEAGESP), onde acabara de cumprir mais um dia de trabalho como carregador, ele e a namorada foram abordados em um ponto de ônibus por três rapazes. A cena foi rápida: os três pediram-lhe a carteira, que Edvaldo concordou em dar. Depois disso, ao verem o par de tênis “New Balance” azul que ele calçava, decidiram ampliar o roubo. Edvaldo reagiu. O tênis, comprado há quatro meses de um contrabandista na própria CEAGESP, valia quase metade do seu salário e representava, pelo menos no vestuário, que ele poderia ser igual a qualquer outro jovem de classe média ou alta. De fato, poderia ter acontecido - ou tem acontecido - a pobres e ricos indiscriminadamente. Edvaldo levou dois tiros e morreu ali mesmo.”(Istoé - 09/91)

 

            Como sair desta situação? Como passar do “homem invertido” ao “homem novo”, da sociedade egoísta à comunidade solidária, do mundo materialista ao mundo da partilha?

 

            Para saltar do “homem invertido e dividido” ao “homem ideal”, precisamos de uma Ponte. Somos incapazes de dar o salto sozinhos (há um fôsso muito grande).

 

            Deus sempre Fiel, novamente toma a iniciativa. Não abandona o homem rebelde à própria sorte; gratuitamente o amou a ponto de enviar ao mundo seu próprio Filho para retomar o Projeto original e vivificar tudo de novo.

 

            “Eu vim para que todos tenham VIDA e a tenham em abundância” (Jo 10,10)

 

            Jesus quis fazer-se presente aí onde a Vida não era abundante: o mundo dos enfermos, dos pobres, dos pecadores...

 

            Jesus lutou contra todos os males que estragam a vida e contra todas as formas de opressão que impedem a abundância da vida:

 

            - contra a fome, Ele alimentou os famintos;

            - contra a doença e a tristeza, Ele curou os enfermos e deu poder de curá-los;

            - contra os males da natureza, Ele acalmou os ventos e tempestades;

            - contra os demônios e maus espíritos, Ele expulsou-os, proibindo-lhes falar e enfrentando-os na hora das trevas;

            - contra a ignorância, Ele ensinou o povo e fez com que criasse consciência crítica frente à realidade e frente às suas lideranças;

            - contra a solidão e o abandono, Ele acolheu as pessoas e não as marginalizou;

            - contra o liberalismo opressor, Ele denunciou os fariseus e escribas legalistas que pervertiam o objetivo da tradição;

            - contra as leis que oprimem o homem e impedem o seu crescimento, Ele colocou o homem como objetivo e fim de todas as leis;

            - contra a opressão, Ele acolheu o povo oprimido e denunciou os opressores que se faziam passar por benfeitores da nação;

            - contra o medo, Ele se apresentou com a mensagem: “Não tenham medo”.

 

            Jesus gastou sua vida para fazer das vilas e aldeias de seu país, um paraíso, onde os homens e mulheres pudessem aprender a viver como irmãos, livres e solidários.

 

            Jesus denuncia todas as divisões criadas pelos homens e as combate através de atitudes bem concretas.

 

            Jesus retoma o projeto do Criador: “No começo não era assim!” (Mt 19,8). Deus criou a vida para ser bendita (Gn 1,28) e não maldita. Onde a vida não tem condições de ser bendita e abundante, lá Jesus se compadece e age.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

AUTOBIOGRAFIA (SUA AFETIVIDADE) - A partir de hoje, fora do seu horário de oração, você vai começar a escrever a 3ª parte da sua Autobiografia. Ela pretende ser uma ajuda para sua reflexão sobre aspectos importantes de sua vida pessoal e um meio de diálogo com seu orientador espiritual.

            Apresentamos a seguir alguns pontos para sua Autobiografia. Para respondê-los, leia tudo várias vezes e vá refletindo sobre cada um desses aspectos de forma muito pessoal, deixando-se guiar no que escrever por aquilo que vai surgindo sem se preocupar nem com o estilo nem com a lógica do que vai anotando. Não responda cada um dos pontos. Eles servem só como orientação. Seja espontâneo!

            Procure responder em momentos em que você esteja tranquilo e possa se concentrar no que está fazendo. Essa 3ª Parte deve estar pronta até o final desta Etapa.

 

1. Suas emoções: Sente-se amado e aceito pelos outros (em casa, pelos amigos, etc.)? É estável em suas afeições? Você sabe querer e se comprometer com o que quer? Tem tendência à tristeza ou à alegria? O que você tende a fazer quando sente raiva ou aborrecimento? O que o faz sofrer mais neste campo?

2. Suas relações afetivas: Você já namorou? O que aprendeu com seus namoros? O que pensa do casamento? Como imagina a sua “companheira” ideal? Teve alguma experiência negativa neste terreno afetivo?

3. Instrução sexual: Você pensa ter uma boa informação sexual? Tem muitas dúvidas a respeito? Como se instruiu sobre este aspecto? Que inquietações ou problemas vê em você no amadurecimento sexual e na sua educação para o amor?

 

GRAÇA - Senhor, dai-me um coração agradecido, pois Tu assumiste gratuitamente a minha vida para que eu vivesse abundantemente.

 

PALAVRA DE DEUS - Mc 2,1-12

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você atua e se prepara para se comprometer com o mundo que o cerca?

 

11

 

O CEGO DE JERICÓ

 

 

            “- Que posso fazer para alcançar a iluminação? - perguntou o discípulo impaciente.

              - Ver a realidade como ela é - disse o Mestre.

              - Bem, e que fazer para ver a realidade como ela é?

             O Mestre sorriu e disse:

             - Tenho boas e más notícias para você, meu amigo.

             - Quais são as más notícias?

             - Não há nada que possa fazer para ver. É um dom.

             - E quais são as boas?

             - Não há nada que possa fazer para ver. É um dom”.         

 

            Jesus saiu de Jericó. Veja que Jesus é o Senhor da vida! Está sempre em movimento. Só caminha quem tem vida. Já viu um morto caminhar?

            Ele caminha e leva vida aos outros. “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”.

            Uma grande multidão o seguia. Jesus nunca está só. As pessoas estão sempre atrás d’Ele. Por que será?

            Veja o seguir da multidão. É o seguir de cegos que não vêem. Não tem direção. Um seguir interesseiro, egoísta, maldoso.

            Vamos agora olhar para os cegos. Eram dois, sentados à margem do caminho. Quanta gente sentada à beira do caminho, isto é, marginalizada. Sem direito de estar no meio dos outros. Você conhece alguns assim?

            Veja como eles rezam: “Senhor, Filho de Davi, tem piedade de nós!” Eles sabem que Jesus tem uma história. Vem da descendência de Davi. Só Ele vai ser capaz de ter piedade deles que são cegos. Eles sabem que só Jesus pode curá-los. Então, rezam...

            Interessante: a multidão viu os cegos e mandava que eles se calassem! A multidão “viu”, mas não viu realmente. Não viu com o coração.

            Jesus também os viu e parou. Ele vê com o coração! Chamou-os e conversou com eles. “O que vocês querem?” Contemple esse Jesus tão humano, tão humano que é Deus...

            Veja a oração dos cegos: “Senhor, que os nossos olhos se abram!” Eles querem ver, mas ver também com o coração. Querem ser libertados de suas cegueiras.

            Quais são as cegueiras hoje e que não nos deixam ver? As pessoas, o mundo, a realidade...

            Jesus cheio de compaixão! Olhe o coração de Jesus, um coração voltado para a miséria do coração humano. Não para condenar o homem, mas para libertá-lo. Você já experimentou ter um coração misericordioso?...

            Jesus tocou nos olhos dos dois cegos. Como é importante para Jesus tocar nas pessoas. Tocar significa libertar.

            Você já fez a experiência de se deixar tocar por Jesus?

            Então os cegos já livres, libertos, são capazes de ver. E só quem vê realmente pode seguir Jesus. Foi o que aconteceu com os dois cegos... “recobraram a vista e puseram-se a seguí-lo”.

 

            “Senhor, abri os meus olhos às maravilhas do vosso amor.

             Eu sou o cego sobre o caminho. Curai-me, eu vos quero ver.”

 

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

ORAÇÃO PREPARATÓRIA - Lembre-se de iniciar sempre sua oração com a oração preparatória: “Senhor Deus, que todos os meus pensamentos, minhas atitudes, meus desejos e minha afetividade sejam puramente ordenados para o Teu maior serviço e dos irmãos”

 

GRAÇA - Senhor, envie a sua luz ao meu coração para que descubra, na paz, o meu pecado.

 

PALAVRA DE DEUS - Mt 20,29-34

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Quais são as suas cegueiras interiores que não lhe deixam se ver por dentro, ver a realidade que o rodeia, ver com o coração?

 

 

 

AMANHÃ:

REPETIÇÃO: JESUS NUNCA FUGIU DA REALIDADE

                             O CEGO DE JERICÓ

 

 

 

12

 

O EXAME DE CONSCIÊNCIA - CORAÇÃO QUE ESCUTA

           

 

            O Exame de Consciência tem como objetivo que você tenha uma vida permanente de discernimento, percebendo os movimentos do Senhor no seu cotidiano e os bloqueios que a ele se opõem. Sugiro que você inicie desde agora, não mais do que 5 a 10 minutos, todos os dias antes de dormir ou em outro horário que lhe possibilite rever o seu dia.       

            O Exame é uma excelente oração que nos permite sentir e conhecer a presença atuante do Senhor: como Ele está se manifestando na sua vida, na dos outros; como Ele está nos conduzindo, através do seu Espírito; como Ele manifesta a sua Vontade nos acontecimentos do dia-a-dia.

            O Exame cria uma disposição reverente, dócil, ou seja, sentir e reconhecer aqueles convites interiores do Senhor que guiam e aprofundam essa disposição dia-a-dia. O Exame é muito mais um “ato de escuta” da revelação do Pai sobre Seus caminhos que são tão diferentes dos nossos (Is 58,8-9).

            O Exame é um meio importante para encontrar Deus em tudo e tudo em Deus. Trata-se de uma oração contemplativa que busca a presença amorosa de Deus em todas as coisas. O Exame se converte assim numa tomada de consciência da presença atuante e criadora de Deus, rico em misericórdia, através dos acontecimentos de nossa vida diária.

            O Exame nos ajuda a desenvolver um “coração que discerne”, ativo, não só durante alguns minutos, mas continuamente. Isto é um Dom do Senhor.

            O Exame é renovação e crescimento em nossa identidade pessoal: essa pessoa singular, sendo amada por Deus e chamada por Ele no fundo de seu coração.

            Não se trata, no Exame, de uma introspecção vazia sobre si mesmo; é muito mais um encontro com o Senhor que consigo mesmo. A preocupação principal deve estar em ver como o Senhor está nos impulsionando e movendo, verificando como estamos experimentando a “atração” do Pai (Jo 6,44) em nosso interior e como nós reagimos diante dessa atração (resistência ou “deixar-se conduzir”).

 

             

PASSOS DO EXAME DE CONSCIÊNCIA

 

1. Dar graças a Deus pelos benefícios recebidos

                       

            Agradecer ao Senhor os benefícios do dia que passou. Perceber como Ele se fez presente nos gestos e atitudes pequenas, mas signficativas, gratuitas... Deixe a gratidão tomar posse de você.

 

2. Pedir luz para o conhecimento de si

 

            O Exame é um olhar sobre sua vida, guiado pelo Espírito. Ver a sua vida como Deus a vê da maneira como ela é. Pedir ao Espírito Santo que mostre a você o que ele deseja que você perceba.

 

3. Encontrar Deus em todas as coisas

 

            Este momento supõe uma atenção ao seu interior: seus sentimentos, suas disposições, os “toques” do Espírito, seus movimentos interiores... Percorra as ações, atitudes, sentimentos, que você teve neste dia que passou.  Esteja atento! Como o Senhor agiu em você? Que sinais Deus lhe deu da sua presença e da sua ação no mundo? O que Ele tem pedido? Qual a sua Vontade sobre você? Como você respondeu? Qual o ponto particular da sua vida em que o Senhor lhe pede maior conversão?

           

4. Pedir perdão

 

            Reconhecendo o infinito amor do Pai e a pobreza do seu amor, pedir perdão pelos momentos em que você fugiu, se esquivou, deixou propositadamente de responder. Confie no seu perdão e amor e se entregue a Ele!

 

5. Pedir ajuda para amanhã

 

            Peça ao Pai por suas necessidades de amanhã, desejando vivamente encarar o futuro com um olhar e um coração renovados, assumindo o futuro com alegria e esperança.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Dá-me, Senhor, um coração puro!

 

PALAVRA DE DEUS - Ef 2,1-10

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Há algo em você que precisa ser reconstruído?

13

 

A MISERICÓRDIA DE DEUS

 

 

            “Pai, quero voltar para Ti! Não mereço ser tratado como um dos teus filhos, pois desprezei a vida que me ofereceste e preferi estar longe de Ti. Reconheço que errei, e que sou pecador, criatura frágil, incapaz de corresponder a teus sonhos, contando só com minhas pobres forças. Mas sei que estás prontos a receber-me como filho! Para Ti nunca deixei de ser um filho querido, alguém muito precioso a teus olhos, a tua pedra viva e preciosa! Esta pedra caiu na lama, sujou-se, ficou irreconhecível, perdeu o seu brilho. Mas a Água Viva pode limpá-la! Ela pode voltar a brilhar como antes! Pai, lava-me de minha culpa e purifica-me de todo o meu pecado!”

 

            “Só Deus é capaz de amar a quem não é digno de ser amado”

 

            Pelo pecado pessoal e social o Projeto de Deus foi desfeito. O homem quis construir a sua vida a partir dos próprios critérios. Sua resposta ao plano do Deus-Amor foi a infidelidade. Deu as costas para Deus, criando em torno de si um círculo de morte e destruição. Isto significa o fracasso de seus anseios mais profundos de felicidade.

            É esta a nossa sorte? Há uma saída?... somos incapazes de salvar-nos a nós mesmos.

            Mas, Deus sempre Fiel, novamente toma a iniciativa. Não abandona o homem rebelde à sua sorte. Gratuitamente o amou a ponto de enviar ao mundo seu próprio Filho, para assumir a nossa miséria e vivificar de novo tudo. Podemos de novo com Ele, n’Ele, por Ele, dizer com fé um SIM a Deus e termos a vida em abundância.

            Deus olha o mundo com um olhar de misericórdia e não de condenação, e o salva.

 

            “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20)

 

            O nosso Deus é um Deus de Misericórdia. Ele se alegra e faz festa com a volta do filho pródigo ou em achar a ovelha perdida... Deus manifesta a sua fidelidade na busca do homem que se perde. O perdão é bondade e iniciativa de Deus, porque para ele cada um de nós é único, irrepetível, importante.

 

            Vejamos a parábola do Pai Misericordioso (Lc 15,11-32):

           

            - tem vocação de filho e é escravo: “Um homem tinha dois filhos...”

            - não fica satisfeito com as coisas da casa do Pai: “Pai, dá-me a parte de bens que me cabe.”

            - o Pai respeita a sua liberdade: “E o Pai fez para eles a partilha dos seus bens.”

            - longe, afastado do Pai: “... o filho mais moço, partiu para uma região longíqua...”

            - vive perdido em relação ao Pai: “... e aí dissipou os seus bens numa vida desregrada...”

            - vive uma condição humilhante: “... e ele começou a passar necessidades”.

            - percebe que está perdido: “Então, caindo em si, disse a si mesmo: Quantos operários de meu pai têm pão de sobra, enquanto eu, aqui, morro de fome”.

            - lembra da casa do Pai e contrasta com a vida que leva: “Vou ter com o meu Pai e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e contra ti...”

            - faz projeto de volta, de conversão: “E foi ter com seu pai...”

            - o Pai o vê de longe: “Ainda estava longe, quando o Pai o avistou...”

            - o filho reconhece o seu pecado e confessa confiante na certeza de ser perdoado: “O filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e contra ti...”

            - o Pai define o desvio do filho como morte e lhe faz ver na realidade o que é o pecado: “... este meu filho estava morto e voltou à vida...”

            - o filho mais velho é o único que faz a acusação; não entende o gesto do Pai, pois estava longe do coração do Pai: “O filho mais velho... encheu-se de cólera e não quis entrar”.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

COLÓQUIO - Lembre-se de fazer o colóquio no final da oração, ou em qualquer momento durante a oração, falando a Deus exatamente como um amigo o faz com seu amigo. Você pode falar sobre como é que estão indo suas coisas, explicar o que está fazendo, pedir conselho ou explicação, talvez você se reconheça culpado por algum erro ou solicite algum favor.

 

GRAÇA - Senhor, que toda a minha pessoa se volte para Ti!

 

PALAVRA DE DEUS - Lc 15,11-32

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Onde sentiu mais a presença de Deus na sua oração?

 

14

 

UM DEUS APAIXONADO PELO HOMEM

 

 

            “Às vezes, Pai, tenho a impressão de que és como tantos escribas e fariseus, como aqueles que estavam prontos a apedrejar a mulher que foi apanhada em adultério. Vejo-os diante de mim, de pé com os olhos cheios de condenação, querendo sua morte. Não foram capazes de ver senão o seu pecado. Tu, Pai, não és assim! És como Jesus, que inclinou-se e começou a rabiscar no chão. Jesus não ficou de pé, olhando a pecadora como um ser desprezível: abaixou-se, como no lava-pés da última ceia! Para Jesus, somos sempre um tesouro, que nem o pecado é capaz de destruir! Um tesouro tão precioso, que por ele Jesus derramou todo o seu sangue na Cruz! Pai, diante de mim tenho a imagem de teu Filho na Cruz e ressoam em meus ouvidos as  suas palavras: Pai, perdoa-lhes, não sabem o que fazem! Como chegou a esta condição tão humilhante, tão vergonhosa? Como foi que o Criador se fez criatura, e criatura tão rebaixada assim? Como é que da vida eterna passou para a morte temporal e morte de Cruz?”

 

            Para podermos identificar o pecado do mundo e o nosso pecado é preciso algo maior que o pecado do mundo e o nosso: o amor misericordioso de Deus. Deus nos perdoa de antemão: é o seu jeito de ser.

 

             Sabemos que o homem teve a tremenda ousadia de deturpar o plano original de Deus. Você já refletiu alguma vez sobre a reação de Deus ao ver sua obra e seu plano desfigurado pelos caprichos do homem?

 

             Vamos agora rezar sobre a atitude de Deus em face do pecado do homem.

 

            “Deus é amor” e como tal não podia reagir com vingança ou destruição do homem.

 

            Que fez? Elaborou um outro plano, mais maravilhoso que o primeiro, para “salvar o que estava perdido”: ofereceu ao homem o seu perdão em seu Filho Jesus Cristo. Deus mesmo veio ao mundo, para iniciar uma nova história, a da filiação, da fraternidade e do senhorio sobre o mundo. Ele é o novo Adão, o novo começo da humanidade segundo o plano de Deus.

 

            Jesus nos revela o amor misericordioso de Deus, através de sua Palavra e da sua atitude de perdão, o que escandalizou a muitos do seu tempo. Deus nos salva em Jesus Cristo:

           

            - Ele rompe os círculos de morte e de pecado

            - Vive o plano de Amor

            - N’Ele foi realizada a perfeita e definitiva reconciliação

            - N’Ele se viabiliza, torna presente o Amor do Pai

            - Revela o Pai Misericordioso

            - Oferece um perdão total e gratuito.

 

            “Nisto consiste o Amor: não em termos nós amado a Deus, mas ter-nos Ele amado primeiro e enviado seu Filho para expiar os nossos pecados” (1Jo 4,10)

 

            O perdão de Deus não é simplesmente “esquecimento” dos nossos pecados. O perdão de Deus é regeneração e recriação da nossa pessoa. O pecado nos divide, nos cinde. O perdão de Deus nos devolve a integridade, nos deixa inteiros.

 

            Experimentar o perdão gratuito de Deus é experimentar uma missão: fazer a reconciliação em volta de nós, a reconciliação que Cristo prometeu na sua morte.

 

            O homem não é capaz de fazer um pecado tão grande que Deus, em seu amor, não elabore um plano mais admirável ainda para salvá-lo. Deus é apaixonado pelo homem

           

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, que eu experimente a libertação que traz a Tua presença toda misericordiosa.

 

PALAVRA DE DEUS - Jo 8,1-11

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Você tem dificuldades para sentir-se perdoado ou para perdoar? Por quê?

 

 

 

 

15

 

O PERDÃO QUE NOS RECRIA

 

 

            “- O Senhor, como é Deus, não dorme nunca, claro! - perguntou o repórter.

              - Nunca! - respondeu Deus.

             - E a quê se dedica todo esse tempo livre? Lê? Pensa? Ouve música? - perguntou o repórter.

             - Perdôo! - respondeu Deus”.

 

            No princípio era a Misericórdia. Por ela fomos criados:

 

            - vir à vida foi fruto de Amor em excesso;

            - fomos criados por um gesto misericordioso;

            - fomos feitos por mãos misericordiosas;

            - idealizados por uma mente misericordiosa;

            - amados por um coração misericordioso.

 

            Aqui estamos no coração da mensagem cristã, porque está em jogo uma imagem de Deus:

 

            - é a imagem de um Pai cuja alegria é perdoar (só Deus podia “inventar” o perdão);

            - o Perdão faz com que Deus manifeste a plenitude de sua paternidade e permite ao ser humano sentir-se filho de Deus;

            - “Misericórdia é compaixão suscitada pela miséria alheia” (Aurélio);

            - Misericórdia é exatamente “ter coração” voltado para o outro;

            - a Misericórdia parte das “entranhas” de Deus e se dirige ao ser humano pecador e pobre na forma de ternura, compaixão, empatia...

 

            O perdão do Pai faz aparecer a verdade mais profunda de nós mesmos, nos faz recuperar uma estima radical que elimina todas nossas sensações de inferioridade. Antes de tudo, o perdão nos revela nossa culpa e, ao mesmo tempo, nossa dignidade. Faz-nos compreender nosso erro, mas é também mensagem eficaz de estima e de confiança: ao reconciliar-nos, Deus confia em nós e nos torna novamente dignos de seu Amor.

            O milagre é exatamente esse: poder reconhecer a própria culpa e permanecer serenos, descobrir-se pecadores sem desesperar-se e deprimir-se, sentir-se positivos porque perdoados, dignos de estima porque reconciliados.

            Quando o Pai nos perdoa, não nos desculpa simplesmente nem minimiza nosso erro, e muito menos o ignora ou apenas cancela, fingindo talvez que nada tenha acontecido. Seu perdão é ato criativo e redentivo: continua a criar em nós um coração novo.

            Perdoar é recriar. Deus recria-nos a cada instante. Cada dia que passa é um perdão sempre novo, pessoal, criativo, mas também discreto e silencioso. Vivemos mergulhados na Misericórdia.

            Quem se sente pouco perdoado não pode ser uma pessoa reconciliada. Não é verdadeira a reconciliação com o Pai que não passa através da reconciliação com o próprio eu.

            Enquanto não houver uma “experiência” plena do perdão, o pecado ou o medo do pecado continuarão a perturbar nosso presente e a deformar o passado, tornando-nos inimigos da vida.

            O perdão que nos vem do Pai, pelo contrário, nos reconcilia com a nossa história, não somente com Deus; nos faz descobrir não simplesmente o nosso mal, mas  também o nosso bem; é festa, não somente penitência...

            No coração do nosso passado há uma presença de Deus a descobrir ou um seu projeto a decifrar, presença e projeto que passam através também do nosso mal e suscitam o bem. Na vida de toda pessoa existe esse bem.

            Se o perdão é conhecer o Amor, a reconciliação com a vida será um contínuo reencontrar e reconhecer os seus sinais. E então a nossa história nos aparece sempre mais como uma grande sinfonia maravilhosa - de bondade, ternura, misericórdia, gratuidade, compreensão...

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

AUTOBIOGRAFIA - Lembre-se de dar um tempo fora do tempo de oração para escrever a 3ª parte da sua Autobiografia. Não deixe para o último dia. Ela deve estar terminada até o final desta Etapa.

GRAÇA - Pai, que o Espírito de Amor me revele o Teu rosto compassivo, manifestado pelo Teu Filho Jesus.

PALAVRA DE DEUS - Lc 7,36-50

REVISÃO DA ORAÇÃO - Está conseguindo falar com o Senhor abertamente sobre seus pecados?

 

 

AMANHÃ:

REPETIÇÃO:  A MISERICÓRDIA DE DEUS

                              UM DEUS APAIXONADO PELO HOMEM

                              O PERDÃO QUE NOS RECRIA

 

16

 

JESUS CRISTO RECONSTRÓI VASOS QUEBRADOS

 

 

            “E no entanto, Javé, Tu és o nosso Pai, nós somos a argila e Tu és o nosso oleiro; todos nós somos obras das tuas mãos” (Is 64,7)

 

            O  cego de nascimento não tem experiência da luz; nem sequer sabe o que é a luz. Era mendigo: pedia esmola sentado; ficava imóvel, impotente, dependente dos outros.

            Jesus vê na cegueira uma ocasião para a manifestação da atividade salvífica de Deus. As obras que Deus realiza consistem em libertar o homem de sua inatividade e dar-lhe capacidade de ação.

           

            “Enquanto é dia, temos de realizar as obras d’Aquele que me enviou” (Jo 9,4)

 

            Jesus passa à ação. Não consulta ao cego se ele quer ser curado, pois sendo cego de nascimento, não sabe o que é a luz e nem pode desejá-la.

            Mas Jesus não lhe tira a liberdade. Vai colocar-lhe diante dos olhos o Projeto de Deus sobre o ser humano. A decisão de recuperar a vista fica nas mãos do cego: ele terá que ir, por sua própria iniciativa, lavar-se na piscina.

            Jesus faz barro com sua saliva. Há um elemento da natureza (terra) e um elemento que é próprio de Jesus (saliva). Pensava-se que a saliva transmitia a força ou energia vital da pessoa. A saliva, como a água, é necessária para fazer o barro, resultado da mistura de ambos os elementos.

            Percebe-se claramente a intenção do Evangelista: fazer barro com a saliva significa a criação do homem novo, composto da terra/carne e da saliva/Espírito de Jesus.

            O barro refere-se à criação do homem.

 

            “Lembra-te de que me fizeste de barro” (Jó 10,9)

 

            Com o uso do barro, Jesus reproduz simbolicamente a criação do homem. O seu “amassar o barro” prolonga o sexto dia da criação: Jesus continua criando o homem.

            Com o gesto de “ungir os olhos com o barro” Jesus recria o homem, reconstrói o “vaso quebrado”. O barro modelado com o Espírito é o Projeto de Deus realizado, cujo modelo é o próprio Jesus.

            Ao ungir-lhe os olhos, Jesus convida o cego a ser homem “acabado”, reconstruído, restaurado...

            Mas a cura não acontece automaticamente: o cego tem que aceitar a luz e optar livremente por ela. A opção se manifesta no fato de ir à piscina, de caminhar livremente, de poder sair do seu lugar...

            O cego seguiu as instruções, recuperou a vista e atingiu a integridade humana. Agora ele poderá dar orientação à própria vida; não dependerá mais que os outros o conduzam. Jesus, ao dar-lhe a vista, deu-lhe mobilidade e independência. Trata-se de um morto que recebeu vida, oprimido que recebeu liberdade.

           

            “Eu Javé, chamei você para a justiça, tomei-o pela mão, modelei-o e lhe dei forma, e o coloquei como aliança de um povo e luz para as nações. Para você abrir os olhos dos cegos, para tirar os presos da cadeia, e do cárcere os que habitam nas trevas” (Is 42,6-7)

 

            A reação das pessoas (parentes, vizinhos...) manifesta a novidade que o Espírito produz: sendo o mesmo, é outro. É a diferença entre um homem sem iniciativa e sem liberdade e o homem livre. O que era cego revela a nova identidade do homem reconstruído pelo Espírito.  Ele agora é um ungido, encontrou-se a si mesmo: “Ele afirmava: sou Eu”.

 

 

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

EXAME DE CONSCIÊNCIA - Lembre-se de reservar  ao menos 5 minutos do seu dia para fazer seu Exame de Consciência. Reveja os passos do Exame (O EXAME DE CONSCIÊNCIA - CORAÇÃO QUE ESCUTA). O Exame é um meio importante para encontrar Deus em tudo e tudo em Deus, através dos acontecimentos de nossa vida diária. O Exame nos ajuda a desenvolver um “coração que discerne”.

 

GRAÇA - Senhor, faz meu coração chorar pelos meus pecados e que chorem também os meus olhos.

 

PALAVRA DE DEUS - Jo 9,1-12

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - O que precisa acontecer para você ser um “vaso novo”?

 

 

 

17

 

EIS QUE ESTOU À PORTA E BATO

 

 

            “Eis que estou à porta, e bato: Se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo” (Apc 3,20)

 

            A busca do Deus vivo transforma o nosso ser. O perdão nos recria. Maior que minhas misérias é a misericórdia de Deus. Deus nunca pergunta onde estivemos. Só lhe interessa a nossa volta. Deus é sempre fiel em seu amor, em sua aliança.

 

            Quanto mais me aproximo de Deus, mais vou sendo transformado, libertado, recriado.

 

            Deus é Pai! Deus é Mãe!

 

            “Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria nunca. Eis que estás gravado na palma de minhas mãos.” (Is 49,15s)

 

            Esta parábola nos servirá para compreender que a misericórdia de Deus é como uma casa na qual entramos, mas nossa liberdade e nosso coração também são uma casa na qual Deus entra.

           

            “O Pai chama à minha porta procurando um lugar para seu Filho.

            - O aluguel é barato - eu lhe digo.

            - Não quero alugar. Quero comprar - Ele me responde.

            - Não sei se quero vender, mas pode entrar e dar uma olhada.

            - Acho que vou - diz Deus.

            - Talvez eu lhe possa ceder um ou dois quartos.

            - Muito bom - diz Deus - Fico com dois. Quem sabe você resolva ceder mais espaço depois... Posso esperar.

            - Eu gostaria de dispor de mais, mas é um pouco difícil. Preciso de certo espaço para mim.

            - Eu sei - diz Deus. - Mas vou esperar. Gosto do que vejo...

            - Hum, talvez eu possa lhe dar mais um quarto. Realmente não preciso dele.

            - Obrigado - diz Deus. - Aceito. Gosto do que vejo...

            - Gostaria de lhe dar a casa toda, mas não tenho segurança.

            - Pense bem - diz Deus. - Não o expulsarei. Sua casa pode ser minha, e meu Filho pode viver nela. Terá mais espaço do que antes.

            - Não estou entendendo nada.

            - Eu sei - diz Deus - Mas não posso lhe dizer tudo. Tem de descobrir por si mesmo. Só compreenderá quando entregar a Ele a casa toda...

            - Isso é perigoso - eu digo.

            - Sim - diz Deus - mas não lhe custa tentar.

            - Não tenho segurança... depois lhe direi que decisão tomei.

            - Posso esperar - diz Deus - Gosto do que vejo.”

 

            Diante desse Deus, delicado, paciente e misericordioso, que tanto nos tem esperado, aproximemo-nos para:

 

            - experimentar a verdade do perdão;

            - abandonar-nos a Ele sem reservas, reconhecendo o próprio pecado;

            - deixá-Lo ser “maior” onde Ele mais gosta: no perdão;

            - acolher o dom do perdão;

            - pedir e gostar internamente a Sua misericórdia;

            - alegrar-se com a sua bondade infinita;

            - ser testemunha e sinal da sua misericórdia;

            - também perdoar.

 

 

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, que o teu perdão me transforme e cure toda ferida do meu coração.

 

PALAVRA DE DEUS - Lc 19,1-10

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como está entendendo a graça que está sendo pedida? Acha que está sendo dada?

18

 

VIVER RECONCILIADOS

 

 

            “Pai Nosso, perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e não nos deixes cair em tentação, mas livrai-nos do Mal!”

 

            A conversão, expressa em perdão e reconciliação, é o primeiro passo para curar os danos do pecado. Se às vezes o mundo vai tão mal é porque poucos estão dispostos a dar o passo fundamental de bater no peito para reconhecer sua culpa e converter-se a uma vida mais conforme aos desígnios de Deus.

            Jesus Cristo e a Igreja vêm ao encontro do pecador para oferecer-lhe o perdão e o retorno ao caminho do bem com um sacramento que exprime uma prática muito comum na vida de Jesus: o sacramento da Reconciliação, também chamado de Penitência ou da Confissão. Hoje a palavra “reconciliação” abrange melhor todo o sentido do sacramento, pois os termos “penitência” e “confissão” manifestam aspectos limitados desta realidade sacramental. O verbo “reconciliar” exprime uma disposição positiva e total de perdão, acolhimento e aproximação a nós mesmos, aos outros e a Deus.

            Todo pecado, por mais íntimo que seja, além de atingir o indivíduo que o comete, constitui-se numa ofensa a Deus e ao próximo. A ofensa ao irmão atinge aos outros e ao Pai de todos. Por isso o pecador deverá pedir perdão não só ao Pai, mas também a todos e a cada um de seus irmãos. Diante dessa impossibilidade e da incomodidade da confissão pública do pecado, Jesus Cristo constituiu como administradores do sacramento aos Apóstolos, cujos sucessores são os bispos. Estes, por sua vez, conferem este ministério aos sacerdotes.

            “Jesus soprou sobre os Apóstolos dizendo-lhes: “Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados...” (Jo 20,22s)

            Desta maneira, bispo e sacerdote têm a faculdade de conferir o perdão e reconciliar em nome de Deus, de quem são representantes e em nome da comunidade a que presidem. Neles, por sua vez, o cristão deve encontrar a Deus e a comunidade.

            Falamos que o sacramento da Reconciliação é o sacramento do perdão. O perdão, para muitos, é sinal de debilidade que humilha ou degrada a pessoa que o pede ou o concede. Para o cristão, o perdão percorre a mesma linha do Amor e é sua expressão mais sublime. Mais ainda, é o termômetro que mede sua temperatura. Quem perdoa ama muito. Quem não perdoa, ama muito pouco ou não ama. O perdão é o rosto doloroso do amor, que desmascara suas impurezas, provenientes geralmente do orgulho e do amor-próprio.

            Por outro lado, o perdão é uma realidade muito humana. Quem de nós não sentiu mais de uma vez a necessidade de pedir perdão ou de ser perdoado? Quando amamos de verdade, lamentamos a ofensa ao ser querido, buscamos um modo de reparar a falta e conseguir o perdão da pessoa ofendida. O mesmo ocorre quando fomos ofendidos e nos pedem desculpas. Somos incapazes de negar o perdão, se de fato amamos a quem nos ofendeu. A necessidade de pedir ou dar perdão chega ao ponto de exigir o encontro para exprimir ou ouvir um “sim, eu te perdôo” sincero e profundo. É a melhor maneira de tirar toda dúvida ou de saber se se verificou o perdão. Imaginar que se dá ou recebe sem esse encontro pessoal é pura imaginação.

            Assim é o sacramento da Reconciliação. É um encontro com Deus cheio de misericórdia e amor, que espera com paciência, ou até “impaciência” a nossa volta, a volta do teu “filho pródigo”: “... quando seu Pai o viu, movido de compaixão, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou!” (Lc 15,20)

            Ao perdoar-nos Deus cria em nós um coração novo, feito de acordo com o Seu, capaz de perdoar à sua maneira. Jesus colocou no perdão fraterno uma das características do ser cristão. Não pode dar o perdão quem não tem consciência de tê-lo recebido. A capacidade de perdoar é diretamente proporcional à experiência de ser perdoado. 

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

AUTOBIOGRAFIA - Continue com sua Autobiografia. Se não acabou de escrevê-la, amanhã é o último dia.

PALAVRA DE DEUS - Mc 2,13-22

GRAÇA - Senhor, dá-me um crescente e intenso arrependimento de meus pecados e uma profunda consciência do seu Amor misericordioso.

REVISÃO DA ORAÇÃO - Quais as suas disposições para seguir em frente?

 

 

AMANHÃ:

REPETIÇÃO:  JESUS CRISTO RECONSTRÓI VASOS QUEBRADOS

                         EIS QUE ESTOU À PORTA E BATO

                         VIVER RECONCILIADOS

 

O SACRAMENTO DA RECONCILIAÇÃO -  Muito lhe ajudará se no final dessa etapa você realizasse uma confissão ampla do conjunto de sua vida através do sacramento da Reconciliação. O sacramento da Reconciliação é a celebração do tocar misericordioso de Jesus que nos liberta do pecado. Dedique um tempo da sua oração para você preparar esta confissão. Depois, procure um sacerdote para realizar o Sacramento.

1

 

FAZER-SE DÍSCIPULO

 

 

            “Ó Verbo de Deus amado, ensinai-me a ser generoso, a Vos servir como mereceis, a dar sem contar, a combater sem temor das feridas, a trabalhar sem procurar repouso, e a me consumir sem esperar outra recompensa senão a de estar certo de que faço a Vossa Santíssima Vontade”(S.Inácio).

 

            A conversão do coração e o chamado para a missão são duas etapas consecutivas e inseparáveis que revelam a obra de Jesus. Ninguém pode dizer: “Senhor, afasta-te de mim que sou um pecador”, sem logo ouvir: “Vem e segue-me” (Lc 5,11). Por outra parte, ninguém pode trabalhar na obra de Cristo, sem antes ter-se reconhecido como pecador, sem anter ter feito a experiência da misericórdia, da conversão.

            Jesus Cristo nos liberta para seguí-lo. Ele nos salva, nos dá a sua vida e, sempre respeitando nossa condição de homens livres, nos convida para nos associar à sua obra: a realização do Reino de Deus (a Vontade do Pai) através deste mundo marcado pela dor, pobreza, injustiça...

            Neste empreendimento cada um de nós deve descobrir a sua maneira de melhor corresponder. Neste chamado feito a todos, devemos escutar a parte que nos cabe: que vou fazer de minha vida? a quem vou entregá-la? para que vou contribuir? Nós, na nossa pobreza, fomos convidados para colaborar com Jesus na reconstrução do homem e do Mundo. Que resposta daremos?

            Aqui não se trata tanto da grandeza da obra ou da importância daquilo que fazemos, mas do modo como Cristo quer a nossa colaboração: participar de sua vida, sofrimento, serviço, pobreza... Identificar-se com Ele. Desprender-nos de nossa maneira de viver, para revestir-nos da maneira de viver de Cristo.

            Aceitar ouvir o chamado de Jesus é aceitar por em questão nosso estilo de vida, nossos valores, nossos projetos...

 

            Hoje você fará sua oração meditando sobre o texto que vem a seguir:

 

1ª PARTE

 

1. Imagine-se diante de um líder reconhecido por todos como tal, por sua honestidade, visão, humanismo e qualidades pessoais. Ele propõe uma campanha de nível mundial, com um plano concreto e realista para iniciar uma renovação de toda a sociedade a nível pessoal e estrutural, com base para criar um mundo novo, mais justo e fraterno.

2. Este líder se apresenta diante de você, precedido por sua justa fama, para expor-lhe seu plano e está pedindo voluntários de diversos tipos:

            - Simpatizantes - que dêem apoio moral

            - Colaboradores - que dediquem parte de seu tempo

            - Comprometidos - plenamente dedicados

3. Diante deste chamado, como você responderia?

    Como se sentiria se não respondesse positivamente?

 

 

2ª PARTE

 

1. Jesus, o Filho de Deus feito homem, totalmente solidário com os homens, especialmente com os pobres e necessitados, propõe seu plano de salvação e de verdadadeira libertação da humanidade com a instauração do Reino de Deus: construir uma nova realidade, na qual todos se reconheçam e se amem como irmãos.

2. Apresenta-se a cada homem e, agora, a você, para chamar-lhe e dizer-lhe: “Minha vontade é construir o Reino de Deus. Convido-lhe para que me siga. Eu estarei com você e você estará comigo em todos os momentos. Passaremos juntos alegrias e tristezas, esperanças e dores”.

3. Os que, além de juízo e razão, tenham coração, oferecer-se-ão sem reserva, seguindo a Jesus, e colocarão suas vidas e toda a sua pessoa a serviço do Reino de Deus, dispostos a lutar contra o próprio egoísmo e contra toda a dificuldade que se apresente, e vencendo seus temores dirão a Ele: “Eterno Senhor de todas as coisas, eu faço a minha oblação com o vosso favor e ajuda, diante da vossa infinita bondade, e diante de vossa Mãe gloriosa e de todos os santos e santas da corte celestial. Eu quero e desejo e é minha determinação deliberada, contanto que seja para vosso maior serviço e louvor, imitar-vos em passar por todas as injúrias e todas as humilhações e toda a pobreza, tanto material como espiritual, se Vossa Santíssima Majestade me quiser escolher e receber em tal vida e estado!”

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dá-me a graça de não ser surdo ao seu chamado: que eu coloque toda minha criatividade, meu ânimo, minhas forças a Teu serviço.

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Diante de Cristo que te convida a seguí-lo, que te chama pessoalmente a participar de sua missão, o que você respondeu?

 

AMANHÃ:

 

REPETIÇÃO - FAZER-SE DISCÍPULO

 

2

 

A CONTEMPLAÇÃO

 

 

            “... como se eu estivesse presente, com todo acatamento e reverência possível” (Santo Inácio)

 

            A Contemplação nos Exercícios Espirituais é uma forma de oração através da qual deixamos que o Mistério da Vida de Cristo nos penetre e nos vá permeando como por “osmose” (por conaturalidade afetiva) e ao mesmo tempo vamos “conhecendo intimamente” esse Mistério insondável da pessoa de Jesus.

            Contemplar não é especular sobre um texto evangélico, nem tirar conclusões, nem sequer examinar sua vida a partir da atuação de Jesus. Trata-se de “fazer-se presente” à cena evangélica, esquecer-se de si e estabelecer uma relação de presença, de intimidade... que faça possível que a Pessoa de Jesus vá se adentrando em você.

            Na contemplação o ponto de partida não é uma recordação, senão a tomada de consciência de seu estar presente diante de “Alguém”. Estabelece-se uma relação interpessoal que suscita a atração, a sedução...

            A Contemplação é uma ajuda concreta para centrar o afeto e liberar o desejo numa só direção; é um apoio para que você “inteiro” se deixe “afetar” pela cena e permita que Deus lhe interpele desde o “acontecimento salvífico”. Então Deus tem a iniciativa e você se cala.

            Contemplam-se “Mistérios de Cristo” e isso contagia e configura interiormente a você, que logo atuará a partir desse mistério de Amor.

            A Revelação são fatos e ditos: é necessário olhar, escutar e observar as pessoas da cena. Não se trata de algo estático, mas em movimento, dramático, presente... Não se trata de reproduzir arqueologicamente uma cena; é necessário carregá-la de sentido: é Encontro com Alguém.

            Aquele que contempla também não é uma pessoa abstrata. É você, carregado com sua vida, sua história, seu temperamento, seus sonhos, suas capacidades... A Contemplação põe juntas a pessoa (e sua história) e o Mistério para que haja interação e assimilação. A Contemplação lentamente vai transformando a pessoa sem que ela o perceba. Nós nos tornamos aquilo que contemplamos.

            A Contemplação não deve ser forçada, mas “deixar-se levar”, interpelar... A Contemplação ajuda a evangelizar os nossos sentidos, reações, sentimentos... Trata-se de “cristificar” o nosso olhar, escutar, falar, agir... A Contemplação abre-nos o caminho para penetrarmos profundamente na vida, obra, missão, opções de Cristo.

            A Contemplação de Cristo não é uma simples “maneira de orar”. Significa consentir ser introduzido no “Mistério” que é Jesus Cristo. Significa deixar-se impregnar pelo modo de ser de Cristo: suas palavras, gestos, atitudes... é confrontar-se com Alguém que interpela, chama.

            Para “conformar-se” à imagem do Filho é necessário que se “entre” na Contemplação não como turista, mas como amante, não com o coração dividido, mas como pessoa que fez uma escolha de vida pelo Senhor.

            Em si mesma, a Contemplação é viva, criadora, dinâmica e continuamente renova nossas opções e atitudes profundas. Não se trata de uma atividade nossa sobre a cena, mas da atividade da cena sobre nós; vai nos modelando. Através da cena contemplada o Pai nos conforma ao Filho, esculpe em nós com o dedo do Espírito aquela imagem única de filhos no Filho que somos chamados a ser.

            A Contemplação termina na união com Deus na ação. Ela desemboca na prática. Ela não é neutra, mas comprometida. Como o verdadeiro contemplativo deve “participar da cena evangélica” assim também aquele que participa da realidade e nela se encontra inserido deve experimentar um verdadeiro Encontro com Deus. Quem faz a experiência da contemplação na oração deverá também ser um “contemplativo na ação”, isto é, no engajamento e no serviço. Tal como fazemos na oração, devemos fazer na ação, dando os passos próprios de toda contemplação:

 

            - “OLHAR as pessoas...” e nelas descobrir a Pessoa do Senhor;

            - “ESCUTAR o que dizem...”: entre todas as vozes que escutamos, perceber e discernir qual é a do Senhor e o que Ele tem a lhe dizer hoje;

            - “OBSERVAR o que fazem...”: participar, fazer-se presente... optando, colaborando de modo evangélico numa tarefa... querendo contruir a história dos homens com os valores do Evangelho.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

O COLÓQUIO - A partir de agora, quando se usa o método de contemplação, o colóquio não é somente para o final da oração, mas também durante ela, particularmente quando você se faz presente nos acontecimentos. Conversação supõe falar e escuta do outro que fala. Assim, imagine Jesus, Maria ou outra pessoa falando com você e vice-versa. Deus se manifesta também através de nossa imaginação.

 

GRAÇA - Senhor, que o teu “mistério”, no qual me faço presente, transforme a minha vida.

 

PALAVRA DE DEUS - Jo 1,1-18

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você se saiu na contemplação? Olhou as pessoas? Escutou-as? Observou-as? Que sentimentos teve?        

3

 

O AMOR DE DEUS SE ENCARNA

 

 

            Ao penetrar no Mistério da Encarnação, gesto extremo do Amor Trinitário, que encerra dentro de si o inteiro plano da redenção da humanidade; peço a graça do conhecimento íntimo de Jesus, Verbo Encarnado; que o possa conhecer por dentro - suas disposições de amor para com os homens - a fim de que mais o ame e melhor o siga.

 

            Pela tua simples Palavra, Trindade Santa, existem mundos celestes e terrestres, espaços, mares, terras, continentes; pela tua simples Palavra existem seres inanimados, animados: vegetais, animais em espécies incontáveis, em cores aos milhares. Pela tua simples e eterna Palavra existe o homem, criado à tua Imagem, destinado a plenificar a obra iniciada. “Crescei e multiplicai-vos” é a tua Palavra, ó Trindade! E, homens da raça branca, negra, amarela nascem, povoam o mundo, trabalham, convivem, comem, dormem, sonham, inventam, criam, vivem, morrem.

 

            Entretanto, ó Trindade Santa, em meio a este esplendor de vida, levanta-se o poderio de morte, nascido do mesmo ser - homem livre - criado à tua “Imagem e Semelhança”. E a liberdade, mal usada, faz vítimas: irmãos matam irmãos, nações se degladiam; ódio, inveja, soberba, orgulho, gula, calúnia, maledicência se tornam um arsenal de guerra no coração daquele que pelo Criador fora pensado para ser foco de luz e explosão de amor. Então, na eterna comunhão trinitária, nasce novo gesto de amor que, do infinito alcança o finito na história, manchada de sombras, morte e pecado, a fim de salvar, restaurar, redimir, santificar o homem decaído.

 

            E no teu seio, ó Trindade Santa, se faz ouvir, pleno de compaixão, a voz do Filho: “Eis que eu venho... fazer vossa vontade, meu Deus” (Sl 39), voz que encontra eco na filha mais bela, mais plena do Espírito que assim fala: “Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38). E, Maria Virgem, se torna santuário que acolhe a Palavra na realidade da mais pequenina parcela vital que dá origem ao Deus feito Homem. Sim, Trindade Santa, a tua filha crente, pobre, acredita na vinda de Deus misericordioso, do Deus cumpridor da promessa de libertação dos pecados de seu povo, do Deus que é Deus da justiça, no Deus que cumula os pobres de bens.

 

            E o Verbo, que era desde o Princípio, desce das alturas da glória, esconde a própria glória na pequenez de um ser que começa a existir e a se desenvolver na carne humana . “O Verbo se fez carne” (Jo 1,14).

 

            Eu te adoro, Verbo Encarnado, assumindo agora, momento para momento, a substância criada em Maria e por Maria: a água, a matéria orgânica e inorgânica vão constituindo o teu corpo, tua excelsa divindade, ó Verbo Encarnado, toca a matéria e a redime, toca a matéria e  santifica-a, toca a matéria e diviniza-a, recapitulando, recriando a obra criadora.

 

            Eu te adoro, Verbo Encarnado, assumindo o ser humano no menino de Belém, na criança e jovem de Nazaré sem privilégios e distinções, no Messias - Jesus da Palestina - totalmente despojado da realeza segundo os homens, mas construindo o Novo Reino.

 

            Eu te adoro, Verbo Encarnado, expressão suprema do amor d’Aquele que É (Ex 3,4) d’Aquele que é Amor (Jo 4,8) união do divino e do humano. Deus se revela no Homem-Deus e se torna Deus-Homem.

 

            Eu te adoro, Verbo Encarnado, entrando na história - Criatura primeira da mente divina, para o qual e no qual Deus fez o universo. Eu te adoro, Verbo Encarnado, que, assumindo a história e a realidade humana, não permites a entrega de sua trajetória ao fatalismo e ao mal.

 

            Eu te adoro, Verbo Encarnado, A e Z da humanidade, ponto de convergência dos dinamismos da história, meta final do homem e do cosmos.

 

            Eu te adoro, Jesus, ponto imã de atração para aqueles que estão na penosa e lenta ascensão para Deus.

 

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

AUTOBIOGRAFIA (SUA IMAGEM PESSOAL) - A partir de hoje, fora do seu horário de oração, você vai começar a escrever a 4ªparte da sua Autobiografia. Ela pretende ser uma ajuda para sua reflexão sobre aspectos importantes de sua vida pessoal e um meio de diálogo com seu orientador espiritual.

            Apresentamos a seguir alguns pontos para sua Autobiografia. Para respondê-los, leia tudo várias vezes e vá refletindo sobre cada um desses aspectos de forma muito pessoal, deixando-se guiar no que escrever por aquilo que vai surgindo sem se preocupar nem com o estilo nem com a lógica do que vai anotando. Não responda cada um dos pontos. Eles servem só como orientação. Seja espontâneo!

            Procure responder em momentos em que você esteja tranquilo e possa se concentrar no que está fazendo. Essa 4ª Parte deve estar pronta até o tema 11 (NOVAS REGRAS PARA O DISCERNIMENTO ESPIRITUAL)

 

1. Conceito de si: Você está satisfeito com sua atual maneira de ser e de agir? O que você gostaria de mudar? Sente-se capaz de alcançar o que deseja? Como acha que os outros o vêem? Que opinião têm eles de você? Você se preocupa muito em cuidar de sua imagem nas coisas que faz? Quais são as principais qualidades que você possui? E quais os defeitos mais graves? Como você vê e sente o seu corpo? Quais as dificuldades neste campo? Que idéias, sentimentos e aspirações você cultiva?

2. Seus ideais e aspirações: Quais as metas que gostaria de atingir nos próximos três anos? Que características pessoais gostaria de ter? Quais os principais obstáculos que você encontra para se realizar? Se você pudesse “mudar o mundo”segundo seus gostos e tendo todos os recursos pessoais para isso, como você o faria e que papel você gostaria de desempenhar? Se você tivesse todas as qualidades intelectuais e sociais, se tivesse uma família ideal, todo o dinheiro necessário e se estivesse num país que oferecesse todas as oportunidades possíveis, quais são as três profissões que você escolheria? Por quê? (Colocá-las em ordem de importância e dar os motivos da escolha.)

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

 

PALAVRA DE DEUS - Lc 1,26-38

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Qual é a interpelação mais forte que sentiu na sua oração?

 

4

 

A MÃE DO SENHOR VEM A MIM

 

 

            Depois de dizer o seu “sim” no encontro solitário com o anjo, Maria ficou literalmente grávida de Deus. Ela foi invadida por uma alegria nova, pacífica. Depois, sentiu a necessidade de comunicar aos outros sua alegria, vinda de Deus.

             Maria sai de Nazaré e dirige-se para a região montanhosa de Judá para visitar sua parenta Isabel, esposa de Zacarias, a qual tinha concebido na sua velhice. Maria leva Jesus, “com toda pressa”, como a esperança do mundo, através dos caminhos do nosso mundo, para suscitar a alegria e o louvor.

             Por ser uma viagem longa e arriscada, certamente Maria não viajou sozinha, mas com alguma das caravanas de mercadores e devotos que se dirigiam a Jerusalém. Eram necessários três ou quatro dias de viagem.

            A fé de Maria a faz disponível, obediente, pronta. Ela põe ao serviço dos outros o que recebeu por pura graça. Quando Deus entra e atua na história das pessoas, move-as para irem, “apressadamente”, ao encontro dos outros, para serví-los nas suas necessidades. Quem tem consigo o Salvador não o pode guardar só para si. Tem de levá-lo aos que estão longe, aos que estão esperando por ele, deixando nossas comodidades, enfrentando todas as dificuldades, superando todos os obstáculos, por mais difícil e longo que seja o caminho até chegar a eles.

            Com a saudação de Maria, Isabel sente a criança dar pulos de alegria no seu ventre. É João antecipando sua missão profética de precursor de Jesus: ainda incapaz de falar, dá pulos de alegria pela chegada do Messias.

            Na medida em que formos portadores de Cristo, nossa presença e nossas palavras produzirão a alegria nas pessoas que encontrarmos, como no no encontro de Maria com Isabel.

            Maria é reconhecida por Isabel como aquela sobre quem foram derramadas as bençãos de Deus, como a agraciada de Deus. É proclamada abençoada entre todas as mulheres, por ser a portadora do Messias. “Bendita és tu entre as mulheres...” O grito de alegria de Isabel expressa a chegada da salvação que entra na nossa história através de Maria.

            Maria é bendita entre as mulheres porque foi favorecida por Deus, porque Deus a agraciou com o seu amor. Ela é a Mãe do Senhor! Isabel se confessa indigna de receber “a Mãe do seu Senhor”; mas, ao mesmo tempo, considera-se feliz por ser visitada por ela.

            “Feliz és tu, Maria, que acreditaste...” Isabel proclama-a feliz, bem-aventurada, pela sua fé; por Maria ouvir, acolher e praticar “o que te disse o Senhor”, a Palavra de Deus. Maria é modelo de fé porque concebeu Jesus antes na fé do que no ventre. 

            O encontro entre as duas mães foi um encontro de comunicação e de partilha da experiência de Deus, do Mistério que cada uma delas carregava, na mais profunda alegria, do mais profundo de sua fé. No nosso mundo agitado, o imenso vazio que tantas vezes sentimos, é causado pela falta de comunicação daquilo que é mais profundo e mais essencial em nós. Esse vazio não pode ser preenchido com o consumo de bens materiais.

            Quando, movidos por Deus, vamos ao encontro dos outros, nos abrimos mutuamente, comunicamos as moções e ações de Deus em nós, também nós experimentamos uma alegria nova, de uma profundidade que não tem comparação com as alegrias causadas pelas comunicações habituais.

            A alegria invade todo este Mistério. Alegria pela chegada da salvação! A presença de Jesus em nossas vidas traz sempre alegria. A falta da verdadeira alegria é um sinal de que não experimentamos a presença do amor de Deus em nossas vidas, da falta de fé e de esperança.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

PALAVRA DE DEUS - Lc 1,39-45

REVISÃO DA ORAÇÃO - Você serve aos outros com generosidade ou facilmente encontra desculpas para não estar disponível?

 

 

AMANHÃ:

 

REPETIÇÃO - O AMOR DE DEUS SE ENCARNA

                               A MÃE DO SENHOR VEM A MIM

 

APLICAÇÃO DOS SENTIDOS - É uma outra forma de repetição da oração em que se aplicam os sentidos espirituais da fé, esperança e caridade, relacionando-os com os sentidos físicos aplicados na contemplação. Após a oração preparatória e pedido de graça, voltar sobre as contemplações a serem repetidas procurando:

            VER - as diferentes pessoas e fatos contemplados. Algo ou alguém lhe move a um ato de fé?

            OUVIR - as diferentes palavras, mensagens. Dizem algo que você pode esperar como realidade em Deus no seu futuro?

            SENTIR - nas contemplações que você repete surgem atos de amor de Deus e dos outros? Moções?

            TOCAR - percebe-se algo dos mistérios contemplados da vida de Jesus que já são “seus” de algum modo?

Terminar habitualmente com o colóquio e revisão escrita.         

5

 

A JOVEM MARIA

 

 

            “O Pai disse SIM, e algo maravilhoso aconteceu: o universo começou a existir.

            Maria disse SIM, e a esperança se concretizou: chegou o Salvador.

            Diga SIM ao Criador e, em algum lugar  uma luz se acenderá, uma esperança brotará,

            um sorriso desabrochará, uma alegria surgirá.

            Um Novo Cristo nascerá no coração de alguém, só porque você disse SIM.

            O SIM é princípio de Vida, nascente de Amor e fundamento de esperança”.

 

            Como qualquer jovem, Maria interrogava-se a respeito de seu futuro.  Sentia-se poderosamente atraída para Deus e para o serviço dos homens.

            Um dia Deus entra na sua vida e pede a sua colaboração no mistério da Encarnação. Maria soube dar seu SIM. Doou-se inteiramente. Não exigiu nada em troca, nem garantias, nem explicações. Diponibilidade total... Confiança total...

            Desde que Maria aceitou sua Missão, deixou a comodidade de uma vida pessoal. Abriu-se ao amor universal. Por ser totalmente consagrada a Deus, Maria é toda voltada para os homens.

            Maria vivia uma grande união com Deus. Estava sempre atenta à Vontade de Deus manifestada através das circunstâncias, dos acontecimentos e das pessoas.

 

            Maria foi alguém que soube correr o risco da vocação.

 

MARIA: Uma jovem em idade de opção. Uma moça de Israel, consciente das promessas de Deus a seu povo. A cheia de graça.

VOCÊ: Jovem também, diante da vida e do futuro. Consciente de ser chamado, dentro das necessidades do Povo de Deus em marcha. Com suas aptidões naturais e dons sobrenaturais. Vivendo na amizade, na graça de Deus.

MARIA: O anjo Gabriel foi o embaixador de Deus para anunciar à Virgem: “Ave... fostes escolhida por Deus...”

VOCÊ: Deus o chama de mil maneiras... e sempre lhe traz alegria. Você é escolhido por Deus: “Não fostes vós que me escolhestes, mas eu é que vos escolhi...”

MARIA: Perturbou-se com essas palavras... e pôs-se a pensar no que significaria esta saudação...

VOCÊ: Deus o inquieta quando penetra em sua vida... você precisa discernir as inspirações, os desejos que Ele suscita em você... precisa dialogar com Deus na oração...

MARIA: Não temas, tu és amada pelo Senhor. Serás a Mãe do Messias. Eis a Missão de Maria.

VOCÊ: Não tem porque temer. É amado por Deus. O Pai quer  mostrar-lhe um caminho onde quer que você realize sua missão de filho de Deus e irmão dos homens.

MARIA: Como serei Mãe, se sou virgem?

VOCÊ: Como realizará sua vocação concreta se sente ter tantas dificuldades?

MARIA: O Espírito Santo descerá sobre ti. Ele te envolverá com sua força. Nada é impossível a Deus.

VOCÊ: A vocação é obra do Espírito Santo, da força de Deus em você... Tantos já optaram antes de você... por que não poderá você também?

MARIA: Maria deu o seu SIM para sempre... o SIM que nasceu da fé, do amor e da esperança... o SIM humilde de quem se coloca à disposição de Deus e dos homens. Um SIM criador e redentor, para o bem da humanidade.

VOCÊ: Só você pode dizer o seu SIM a Deus... o SIM de cada dia, no passo da fé, da esperança e do amor... um SIM de totalidade, para a vida toda. Quem não dá tudo não dá nada. Com o Absoluto nada se regateia. Toda vez que Deus entra na vida de alguém, assume-a e coloca-a em missão.

MARIA: Sabe que sua prima Isabel está esperando um filho. Logo pensa em ajudá-la. Vai com pressa à casa de Isabel.

VOCÊ: Onde pode estar mais a serviço da Igreja e da humanidade? Em que vocação seria mais útil a seus irmãos?

 

            Foi o SIM de Maria que trouxe a Palavra de Deus até nós. O SIM de Maria nos ajuda a dizer o nosso SIM. Tudo sempre começa com um SIM!

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

 

PALAVRA DE DEUS - Lc 1,46-56

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Na sua vida, como é a sua relação com Maria, a Mãe de Jesus?

 

 

6

 

NA MANJEDOURA TU ESTÁS

           

 

            Hoje queremos contemplar o teu Nascimento, Senhor. Tudo foi preparado com muito amor, desde o início, para que este momento pudesse acontecer... Tudo estava sendo organizado para te acolher, Senhor! Tudo o que Ele fez era bonito e bom! Até o homem e a mulher eram bons! “E Deus viu que tudo o que tinha feito era muito bom” (Gn 1,31) e ficou muito contente!

 

            Mais tarde, a liberdade do homem começou a trilhar outros caminhos que não eram os do Criador. A humanidade, afastando-se do projeto do Pai, atingiu toda a criação com a sua rebeldia... As consequências foram catastróficas... Os irmãos até se matavam (Gn 4,8) e os homens tiveram medo de si mesmos, dos outros e até de Ti, Senhor! (Gn 3,10). Os efeitos foram terríveis. Houve uma ruptura total contigo, nosso Criador e com todas as criaturas. A morte se apoderou de todos nós! Era noite, Senhor, e fazia excessivo frio!

            Vendo nosso desespero, olhaste com mais amor para essa bela obra de tuas mãos. “Façamos redenção!” dissestes, e não brotou outra idéia melhor do que mergulhar na nossa treva e Te fazer um de nós. Bendita aquela noite, Senhor!

            “E o Verbo se fez carne!” (Jo 1,14) Para que nenhum de nós se pudesse sentir eternamente afastado de Ti, Te fizeste um de nós.

            Maria, tua serva fiel de Nazaré, desde cedo, ficou cheia de graça por Ti. Nela Tu nos escolhestes para acolher o Teu Filho muito amado. Realmente todos estávamos perdidos no meio de um mundo tenebroso. Ela foi a primeira a ver a luz... Foi a primeira a Te ver, amar e acolher.

            E Tu vieste ao meio de nós! Assumiste carne humana, como a nossa! E a partir desse momento toda a humanidade ficou iluminada... Teu Nascimento foi a nossa salvação!

            Mas, teu Nascimento também nos ensina outras coisas. Nasceste na periferia do poder político para que entendêssemos que não é a força do poder, seja ele qual for, que nos salva. Apareceste na periferia do poder intelectual para que compreendessemos  que, a sabedoria que nos salva, não consiste no muito saber mas no entender e acolher, como pobres e pequenos, a Ti, Jesus. Também ficaste na periferia do poder religioso, para que todos aqueles que se encontram às margens de tudo pudessem Te receber como algo próprio. Teu Nascimento, Senhor, rompeu todos os nossos esquemas... Temos de aprender a Te acolher como Tu és e não como queremos que Tu sejas. Tu és, realmente, um Deus diferente...

            Jesus, teu Nascimento Te situou dentro da nossa história, pobre história... Nasceste nos limites do tempo e do espaço, como um de nós. Não tiveste medo de entrar nessa realidade transtornada da história de um povo oprimido e indesejável, membro de uma família empobrecida, cidadão de um país marginalizado.

            Na manjedoura Tu estás como um de nós! Vejo-Te com as mãos e os pés enfaixados! Embrulhadinho, totalmente dependente de nós! Realmente Te colocaste nas nossas mãos, confiaste imensamente no acolhimento que podíamos Te dar!

            Jesus, ao Te ver tão pequenino e limitado, quero me colocar a tua disposição. Quero que minhas mãos sejam agora tuas mãos. Age por meio de mim, Senhor, e que meus pés possam levar até lá, onde Tu queres chegar. Tua Palavra, Verbo de Deus, forte e poderosa, agora é balbuciada e calada. Que a minha pobre palavra seja, agora Senhor, a Tua Palavra.

            Teu Nascimento, Senhor, tão pobre e pequeno, me desconcerta. Lembro-me de tantos nascimentos... Na vida que surge estás Tu, plenitude da Vida! Ensina-me a Te ver na vida que nasce! Que eu não fique cego diante do pobre e do pequeno!... Que eu não fique surdo diante de tanta palavra balbuciada por aqueles que, neste mundo, se parecem contigo, Senhor!

            A vida é frágil e pequena e precisa de todos nós para poder desabrochar na sua plenitude. Que a minha vida, Senhor, esteja a serviço da vida! Quero assumir, com alegria, atitudes diferentes. Não quero fazer a minha história a partir do poder, do prestígio e do prazer. Teu Nascimento me compromete com a vida e vida em plenitude (Jo 10,10).

 

            Faz-me nascer de novo, Senhor, para este novo modo de viver!

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

PALAVRA DE DEUS - Lc 2,1-21

REVISÃO DA ORAÇÃO - O que é para você Jesus fazer-se pobre com os pobres?

 

 

AMANHÃ:

 

REPETIÇÃO - A JOVEM MARIA

                          NA MANJEDOURA TU ESTÁS

 

7

 

VIMOS SUA ESTRELA

 

 

            Guiados pela estrela no céu e pela estrela de uma grande esperança no coração, os magos puseram-se a caminho. Na sua busca examinam o céu e escutam o próprio coração. Porque buscam, empreendem o caminho, vêem a estrela. Põem-se a caminho porque têm perguntas e inquietações no coração.

 

            Para chegar ao encontro com Deus é necessário atravessar, como os magos, desertos escaldantes e noites escuras, desinstalar-se, vencer novos obstáculos. Quem quer encontrar a Deus, não pode ficar preso ao passado. Precisa partir sempre de novo, mudando, cada manhã, o modo de pensar, a maneira de esperar e a forma de viver.

 

            Para encontrar Jesus é necessário a busca e o discernimento. Só começa a buscar quem tem os olhos e o coração abertos para as realidades que estão além do que vêem os olhos e do que sente o coração. Sair do nosso pequeno mundo e empreender um caminho novo. Um coração aberto e despojado saberá distinguir a voz de Deus das vozes que nos querem afastar do seu caminho...

 

            Quem é movido por uma grande esperança ou por um grande amor, tem força e entusiasmo para deixar tudo o que tem... e partir, enfrentando obstáculos, correndo riscos. A “estrela” guia nossa busca apontando para o “mais”.

 

            Muitas vezes, a estrela que nos acompanha, que nos guia e dá força para o caminho, desaparece, deixando-nos às escuras. Quando parece que Deus nos abandonou e não caminha mais ao nosso lado, então torna-se necessário perguntar: “Onde está o rei dos judeus, recém-nascido?”

 

            Herodes e os magos... Os que estão contra Jesus e os planos de Deus, e os que estão a favor de Jesus e do plano de Deus... Os que não reconhecem Jesus e os que O buscam e acolhem...

 

            Jesus nos perturba, nos assusta, nos alarma, nos ameaça?... O que há de “Herodes” em nós?... No nosso mundo?...

 

            Depois da busca e das perguntas, a estrela volta a aparecer para conduzir até o fim os que tinham sido chamados... Encontram um bebê numa casa pobre, filho de pais pobres, pobremente vestidos. O recém-nascido dorme segurado contra o peito de uma jovem mãe pobre. Ela nos apresenta e nos entrega Jesus, seu filho. Seu filho é para nós...

 

            Depois que os magos viram o menino, depois que encontraram o que buscavam, os magos não precisam mais da “estrela”. A glória de Deus não está nos astros do céu, mas na fragilidade dessa criancinha.

 

            Creram naquele menino... o adoraram... prostraram-se! Jesus Salvador e Emmanuel, “Deus conosco”. Nosso Deus no meio de nós, como um de nós! A busca de Deus só pode terminar na adoração e na entrega. Buscamos a Deus, não para tirar qualquer vantagem em proveito próprio, mas para reconhecer Deus como Deus. “Em seguida, abriram seus cofres, e ofereceram-lhe ouro, incenso e mirra”. Jesus nos espera para acolher nossos dons, nossa homenagem, nossa adoração.

 

            Todo verdadeiro encontro com o Senhor nos despoja de nós mesmos para nos enriquecer com a sua riqueza. Quem encontrou verdadeiramente a Deus, vê o mundo e as pessoas com outros olhos.

 

            Os sinais que Deus nos dá, nossas “estrelas”, nos levam sempre ao encontro com Jesus.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

 

PALAVRA DE DEUS - Mt 2,1-12

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Onde você reconhece a presença de Jesus?

 

 

 

 

 

 

8

 

A LUZ DAS NAÇÕES

 

 

            “Os meus olhos viram a vossa Salvação que preparastes diante de todos os povos, como luz para iluminar as nações, e a para a glória de vosso povo de Israel”. (Lc 2,30-32)

 

            Com alegria te vejo, Maria, seguir com José levando o Menino ao Templo... Deixa-me seguir contigo, Maria, deixa-me seguir contigo, José, por este resto de caminhada até que cantemos juntos o canto dos peregrinos da Cidade Santa. “Louva, Jerusalém, o Senhor!”.

 

            Neste caminho, sem assombro das gentes, sem noticiário, sem comoção dos grandes e poderosos deste mundo, segue Aquele que “há de reger as nações com cetro de ferro”. Como o Reino de Deus é independente do que sabem ou pensam os poderosos! Nos corações generosos e simples o bem vai-se fazendo, passo a passo, o Reino vai-se realizando como a semente em terra boa.

 

            Nesta minha estrada de todo o dia, na poeira, no peso do dia e do calor, com Jesus, Maria e José, vou seguindo o caminho do Reino do Menino, o Reino de Deus.

 

            Subimos para Jerusalém! José, ao pôr do sol, já à vista da Cidade do Grande Rei, armou sua barraca, na beira do caminho, perto das águas de Siloé. Aquele que o mundo não pode conter, aceita ficar na margem, gozando os cuidados dos pobres, em grande liberdade. Com Jesus a gente cai na conta de que o Reino passa pelo coração que aceita a pura verdade de que o humilhado é meu irmão, e de que eu sou seu devedor. Maria, com o Menino nos braços, alcança-me a graça de ter um imenso respeito pelo marginalizado!

 

            E fomos para o Templo, cantando uns Salmos: “Abri-vos, ó portas eternas, porque vai entrar o rei da glória!” José tinha arranjado um casal de rolinhas. Era a oferta dos pobres.

 

            Simeão soube discernir a Presença... Nada de miraculoso. Mas ele olhou, viu, cantou, profetizou. Sua idade avançada não o encolheu: “Tomou o menino nos braços”, e cantou com esperança: “Agora, Senhor, deixa teu servo partir em paz!”

 

            Simeão, viveste teu longo dia na esperança. Agora vês muito perto “a espada de dor”. Falas dela a Maria. O seu Menino será “pedra de tropeço, sinal de contradição”. Tens experiência: viveste e meditaste sobre o destino dos Profetas. Jerusalém costuma expulsar alguns, apedrejar outros. Mas o Menino Libertador não vai temer “quem pode tirar a vida do corpo”. Ele não tem medo, nem Ele, nem sua Mãe, nem José, de viver no meio dos pobres do mundo, de tomar a condição dos oprimidos. A espada de dor não vai destruir o amor teimoso e invencível, amor até o fim, só vai revelá-lo no coração de Jesus, no coração de Maria, no coração de José, nos corações de tanta gente.

 

            Ana, também te admiro! Com teus 84 anos não paras de amar! Anuncias “a todos os que esperavam a libertação de Israel”, a chegada do Menino! Ajuda-me, Ana, a anunciar também!

 

            Que eu tenha a graça de crer que o Reino se realiza com o seguimento fiel de Jesus pobre e humilde, com as preferências que Ele assumiu, com os empenhos que ele teve, indo nos lugares por onde ele andou!

 

            Meu Senhor e meu Deus, acolhe-me entre a tua gente, nos caminhos que escolheste. Primeiramente, na maior pobreza espiritual. Se Tu, Senhor, quiseres, também na pobreza concreta. Depois, Senhor, que também me concedas, com Cristo, experimentar a realidade do pobre, que não tem vez nem voz, sente a impotência diante dos poderosos deste mundo, sofre negligências, enganos, enfrenta filas, é anônimo e ignorado. Desde que tudo isto seja sem nenhum desagrado de tua parte, Pai cheio de Amor e Ternura!

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

           

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

PALAVRA DE DEUS - Lc 2,22-38

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você se sente diante do seu futuro?

 

 

 

AMANHÃ:

 

REPETIÇÃO - VIMOS SUA ESTRELA

                          A LUZ DAS NAÇÕES

9

 

A FUGA PARA O EGITO

 

 

            Jesus, percebo que mal acabas de armar tua tenda no meio de nós, já és expulso: “Vieste para os que eram teus, mas os teus não te receberam”.

            Vejo-te homem como nós, mas despercebido aos olhos de todos.

            Vejo que José e Maria são felizes. Têm em seu seio Aquele que vai vencer o pecado, a morte, a dor: o Filho Eterno do Pai, o Senhor da Vida, o Senhor da História.

            No palácio do tirano Herodes, fanático pelo poder e dominado pelo orgulho, há inquietação, intranquilidade... Vejo-o quando se dá conta que fora enganado pelos Magos, decidindo tua morte, Jesus, e a morte para todos os meninos de Belém e seus arredores.

            Vejo-te tão criança ainda, tão indefeso e já perseguido, já procurado para seres morto.

            Ouço: “José, levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito, porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo”. José se levanta. Chama tua querida Mãe, Maria, mulher de fé inabalável, tomando-Te nos braços, repete no gesto, o mesmo “SIM”. Ambos partem confiantes na Vontade do Pai...

            Ouço apenas os ruídos dos passos de quem caminha apressadamente. A dura e penosa viagem começa. É preciso avançar, distanciar-se, fugir, pois começa em Belém a matança dos Inocentes. Ouço o choro, os gemidos, as lamentações! Ouço, também, nas Beléns de hoje, as mães que choram seus filhos mortos ou quase mortos em seus braços...

            Olho Maria... José... É preciso caminhar, caminhar, ganhar distância para salvar Jesus. Salvar o Salvador do mundo!

            A estrada cheia de pedras, é árida e deserta...

            Na estrada da mãe Maria, de ontem, como nas estradas das mães Marias de hoje, quase não há sinal de vida. Quem as sustenta?

            Ontem como hoje, Tu Jesus, a Fonte da Vida! Tu, a “água viva que jorra para a eternidade”. Tu, que assumes a sede da humanidade sofredora.

            Mistério insondável de um Deus que se faz pequeno por amor!

            Vejo alguns viajantes cruzarem o teu caminho. Ninguém se interessa por ti, Jesus, nem por teus pais. Passam adiante. Como podem tratar assim seu Salvador?!

            Nas estradas do mundo, sem se interessarem uns pelos outros, os homens vão se cruzando. Quanto sofrimento poderia ser suavizado, se os homens, como José, mesmo sem compreender, se dispussesem a correr o risco do caminhar juntos rumo ao Egito do Projeto do Pai!

            Porque és perseguido? Que fizeste, Jesus, para os teus quererem te expulsar e te matar, antes mesmo de te conhecerem?

            Vieste trazer amor, vida, alegria, bondade e, mesmo encontrando o ódio, a morte, a tristeza, a perseguição e a guerra, lançaste neste mundo conturbado a semente do amor, da justiça, da paz que nos encarregaste de cultivar e fazer crescer.

            Lentamente a pequena caravana vai avançando. Os rostos cansados de Maria e José nos revelam a dureza da viagem. De quando em quando, uma parada para refazer as forças.

            Caminhar se tornou difícil porque a maioria dos homens te expulsaram de suas vidas. Preferiram fazer sozinhos a sua história... e muitos são os lobos e salteadores, que rondam pela estrada deserta do mundo vazio de Deus.

            Jesus, ajuda-nos a arrancar nossas atitudes de Herodes porque queremos ser outras Marias e outros Josés, capazes de enfrentar na fé, a escuridão da noite, o calor do dia, e as asperezas da estrada para salvar vidas, levando-as ao Egito do teu coração.

            Que hoje, o meu amor por Ti se traduza em compromisso com todos esses pequeninos e marginalizados da história.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

A CONTEMPLAÇÃO - Quando uma pessoa utiliza o método de contemplação, ocorre, com frequência, que venham à tona, ao consciente, lembranças da própria vida que correspondem à vida de Jesus. Permitir que isto aconteça pode ter efeitos salutares, tais como a cura de feridas passadas, percepção da presença e graça de Deus nos acontecimentos da vida, compreensão do significado e chamado contido nas experiências existenciais; Jesus se torna Senhor de nossas histórias pessoais,etc.

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

 

PALAVRA DE DEUS - Mt 2,13-23

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - De que você foge para permanecer fiel ao seguimento de Jesus?

 

 

10

 

O MENINO CRESCIA

 

 

            Com Maria, José e a multidão dos sem-nome no caminho de Belém a Nazaré por atalhos, desvios, montanhas, colinas, vales, planícies, roçados, aldeias, ruínas de antigos esplendores passados... adormecidos... Caminhante, migrante com os obrigados a migrar pelos caminhos do mundo em todos os tempos. Tu, o Caminho.

            Nazaré! Pode germinar algo de bom em Nazaré? Estas pedras podem se transformar em pão? Minúscula aldeia esquecida nas montanhas calcárias da Galiléia. Algumas casinhas, uma sinagoga, um poço: Nazaré! Nada, ninguém passa despercebido neste vaivém da vida de todos os dias. Encontros no poço profundo... de todos... água para todos, gratuita.

            Shema, Ieshua... Escuta, Jesus, o Senhor nosso Deus é Senhor Único!

            Com os demais meninos judeus, poucos, chegaste um dia, abrindo caminho, à sinagoga. A história do povo: “Meu pai era um arameu errante, peregrino. Gente pobre, fraca, faminta. Desceu para o Egito. Tornou-se forte. Numeroso. Foi escravizado. Oprimido. O Senhor, nosso Deus, com mão forte e braço estendido, nos libertou da casa do faraó. Conduziu-nos pelo deserto até a terra onde hoje nos encontramos. Por isso, não terás outros deuses diante de mim. Diante deles não te ajoelharás e não lhes prestarás culto. Só a Deus servirás.” Aliança do Senhor. Deus Único. A nuvem te envolveu. Tu passaste os dias refletindo, assimilando... crescendo...

            À noite, à luz bruxuleante da candeia, com José e Maria, a oração dos salmos. Tu, obediente a teus pais, escutando a história de tantas Marias, de tantos Josés. O Espírito do Senhor, Deus Único, está contigo. No ritmo dos dias e das noites. Do poço e da sinagoga. Do trabalho e da oração. De Nazaré e de Jerusalém... Vais penetrando os corações, vais descobrindo os caminhos e os descaminhos de teu povo. E vais te tornando forte e corajoso.

            Sem perceber os anos foram passando. Tu adolescente-adulto! Contemplo-te em todo o teu vigor. Cheio de mansidão e de fortaleza. Tuas mãos calosas, estendidas, abertas. Trabalho duro, pesado. Teu olhar profundo habituado a acompanhar o nascer do sol anunciando um novo dia de trabalho. Muito trabalho, pouco pão. Teus pés endurecidos pelas longas caminhadas sob o sol causticante, a areia quente, a pedra dura. Rosto suado. Trabalhador sempre à procura de trabalho. Oculto como o grão de trigo na terra...

            Festa da Páscoa. Jerusalém. Como em anos anteriores. Maria, José, parentes, vizinhos, conhecidos... em peregrinação. Hinos. Cânticos. Salmos. Paradas. Partilha do pão e do peixe. Cansaço do caminho. Sob a luz das estrelas, teu coração bate forte. Tantas vezes... Jerusalém! Cidade da paz! “Se conhecesses aquele que te pode dar a paz...”

            Profissão de fé com outros de tua idade, vindos de tantas regiões. Desconhecidos. Irmãos.

            Misterioso silêncio daquela liturgia nacional, universal. Rotina da vida dos homens, judeus adolescentes feitos adultos. Ninguém percebeu o teu segredo. O segredo profundo de tua intimidade com o Pai. O compromisso assumido. O Espírito recebido, acolhido. Sinto a firmeza de tua decisão... Devo ocupar-me com as coisas - a causa de meu Pai! Quanto assombro diante desse adolescente decidido a ser fiel ao Deus da fidelidade! Todos se espantam com sua sabedoria. Nunca se viu coisa igual em Israel, em toda a sua história!

            Nazaré! Obediência a Maria, a José. Sinagoga. O grande rolo nas mãos calejadas... Uma voz forte e firme ressoa nessa aldeia das montanhas da Galiléia. Tu empolgas! Seduzes. “Não é este o filho do carpinteiro?”

            Causa do Pai... coisas do Pai. Pastorear as ovelhas. Semear. Preparar a terra. Amassar o pão. Varrer a casa. Tirar água do poço. Curar feridas. Consolar. Obedecer. Não ser compreendido. Trabalhar. Buscar. Discernir.

            Tua liberdade perturba. Tu és outro. Diferente. Tu atrais para Ti.

            Nazaré! Sozinho. Único. Filho muito amado!

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

AUTOBIOGRAFIA - Continue com sua Autobiografia. Se não acabou de escrevê-la, amanhã é o último dia.

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

 

PALAVRA DE DEUS - Lc 2,41-52

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que sinais  concretos da sua vida indicam que você está crescendo nesse processo dos Exercícios Espirituais?

 

 

 

AMANHÃ:

 

REPETIÇÃO - A FUGA PARA O EGITO

                          O MENINO CRESCIA

 

11

 

NOVAS REGRAS PARA AJUDAR O DISCERNIMENTO

 

 

            Estas novas regras supõem um desejo de servir ao Senhor e seguir sua Vontade em liberdade e com generosidade. Essas regras não se referem a tentações diretas para o pecado, como as que foram dadas na 1ª Etapa. Ao contrário, tratam de considerar como o mal impulsiona uma pessoa cristã generosa para a ansiedade, medo, perturbação, angústia.

 

            No discernimento deve-se sempre perguntar pelo resultado final da moção: consolação ou desolação. No entanto, como pode haver falsa alegria e paz, tem-se de perguntar a que elas conduzem: humildade ou orgulho? centralização em si ou generosidade?  São regras para discernir entre o bom e o melhor.

 

1. Na pessoa em purificação, as causas se conhecem pelos efeitos:

            - o bom espírito leva à paz, consolação;

            - o mau espírito perturba, causa hesitações, apresenta razões aparentes, coisas boas em si, “em princípio”, mas que não são saudáveis  e depois conduzem para  a desolação.

 

2. Se não se percebe a causa aparente da consolação, não podendo atribuí-la a nada nosso, toda consolação vem imediatamente de Deus. Ela vem como dom e é sempre experimentada como algo gratuito. A experiência é sempre a de uma presença, misteriosa mas real. A pessoa se dá conta, na sua própria vida, de uma plenitude, na experiência da presença de um Outro. É próprio do Criador entrar, sair, causar moções, levando a pessoa toda ao seu amor.

 

3. A consolação com causa só é distinguível pelo fim a que visa, pois sua origem pode ser ambígua, podendo ser de Deus ou uma usurpação do mau espírito:

            - o bom espírito leva à maior consolação;

            - o mau espírito leva à menor consolação e, por fim, à desolação;

 

4. O mais típico nesta etapa é que o mau espírito se disfarce. Ele aparece disfarçado de “anjo de luz” , isto é, como dono da verdade, sob a forma de bem. Pode haver falsa consolação.  A verdade surge na medida do amor.

 

5. Examinar, nas deliberações mais importantes, onde há presença do bom espírito e do mau espírito no seu conjunto. Se o princípio, o meio e o fim são todos bons, inclinados inteiramente para o bem, é sinal do bom espírito. O mau espírito costuma cativar por meio de fervores indiscretos, que se apóiam em nossos “ideais exagerados”. O mau espírito não consola; ele usurpa a consolação, conduzindo-a a seus baixos fins. Sua estratégia não é derrubar de imediato. Tem objetivos de longo prazo. Interessa-lhe fazer decrescer, pouco a pouco, o interesse na vida espiritual.

 

6. Aproveitar as experiências de desolação para aprender a desconfiar a tempo.

 

7. Nos que progridem de bem para melhor, o bom espírito toca a alma doce, leve e suavemente, como a gota de água que penetra numa esponja. O mau espírito toca-a com dureza, ruído e inquietação, como a gota de água que cai na pedra. Aos que vão de mal a pior, os mesmos espíritos os tocam de maneira inversa. Cada espírito trata as almas semelhantes com doçura, e as dessemelhantes, com aspereza. Quando se leva uma vida espiritual, o bom espírito entra em silêncio, como em sua própria casa de porta aberta. Ao contrário, o mau espírito produz “ruído”.  É a sensação de que algo díspar entra na nossa vida. É a experiência de ter um estranho em casa...

 

8. Após uma consolação, é preciso estar atento à ação do mau espírito: agarra-se à traseira do veículo na subida, pula na boléia para acelerar a descida...

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

EXAME DE CONSCIÊNCIA - Lembra-se do Exame de Consciência? O Exame de Consciência feito cada dia, durante alguns minutos, ajuda você a manter-se atento aos Exercícios a que você se comprometeu. Ainda mais importante. Ele dá a você alguns minutos para relembrar como estão as coisas entre você e Deus.

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

 

PALAVRA DE DEUS - Jo 1,19-34

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você tem percebido a ação de Deus ou do mau espírito? Quais as moções experimentadas?

 

12

 

OS DOIS CAMINHOS

 

 

            Chegamos a um momento muito importante, no qual você é convidado a compreender a fundo o Mistério de amor e de pecado no qual estamos envolvidos. Mais do que nunca você precisa da graça de Deus, da luz do Espírito Santo para captar a realidade envolvente do pecado e a força transformadora do amor, a fim de decidir-se por um caminho.

           

O CAMINHO DO TER

            Esse caminho, que tem por trás o pai da mentira (Satanás) apresenta-se com um grande atrativo e exerce sobre as pessoas um verdadeiro fascínio, promete vida e felicidade. Mas é tudo engano, falsidade, fumaça nos olhos. Esteja agora bem atento à sua experiência pessoal e à sua observação das pessoas e da realidade que o envolve e verifique se é verdade ou não o modo como somos envolvidos pela proposta do mundo.

            Inicialmente todos são atraídos pelo desejo de riquezas, de ter muito dinheiro, muitos bens. Confunde-se riqueza com felicidade, porque a riqueza abre as portas a todos os prazeres da vida: conforto, viagens, sexo, comidas e bebidas finas, espetáculos, mordomias, etc, etc.

            Além disso a riqueza confere status. A pessoa é considerada, bajulada e elogiada, sua opinião tem peso, suas decisões têm autoridade.

            Segue-se a ambição pelo poder, a ocupar um cargo de comando para que seus interesses sejam defendidos.

            E finalmente através desse processo a pessoa chega a um grande orgulho, à auto-suficiência, considerando-se o centro e a norma de tudo, julgando-se incapaz de errar, não aceitando a menor crítica, porque é infalível e senhor da verdade. Chegado a esse ponto a pessoa torna-se incapaz de amar verdadeiramente: manipula, engana, escraviza, elimina as pessoas do seu caminho, porque não se interessa por ninguém, só se interessa por si mesma.

            O fascínio dessa proposta contudo se exerce sobre todos: os pobres sonham com ganhar numa loteria, os jovens sonham com uma carreira que os leve, não a ajudar e servir os pobres, mas a se tornarem ricos, famosos, importantes, numa vida boa, e os meios de comunicação fazem a propaganda desse projeto que é assimilado tranquilamente, sem espírito crítico.

 

 

O CAMINHO DO SER

            Jesus também promete a vida, a vida verdadeira, mas sua proposta aos olhos dos que seguem o caminho do ter é uma loucura total. Ela não se encontra no “ter e ter sempre mais”, mas no “ser e ser sempre mais”.

            Jesus convida à simplicidade de vida, ao desprendimento interior de todos os bens deste mundo, a relativizar o ter e a estar pronta a renúncias. “Todo aquele que não renuncia a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). “Felizes os que têm um coração simples, porque deles é o Reino” (Mt 5,3).

            Ora, os simples normalmente não são levados em consideração, não contam, não tem privilégios nem defensores. Seria de estranhar que os discípulos do Senhor sejam humilhados, ridicularizados, marginalizados e até mortos pelos que seguem o mundo?

            Contudo essas gozações e humilhações do mundo não lhes tira a paz, porque estão radicados no amor do Pai e buscam “não a glória que vem dos homens, mas a glória que vem de Deus”. Humildes diante de Deus e dos homens, os seguidores de Jesus abrem-se para o amor vivendo como filhos de Deus e irmãos dos homens: não se buscam a si, mas servem, ajudam, perdoam, acolhem, e interiormente saboreiam as verdadeiras alegrias de Deus.

            Esse foi o caminho de Jesus, esse é o caminho dos seus verdadeiros discípulos. Inácio de Loyola ao perceber os enganos do caminho do ter que seguia com avidez, abandona seu castelo, troca suas roupas finas com um mendigo e logo é desprezado por todos... Inúmeros são os que entram pelo caminho do ser que, contra todas as aparências, leva à verdadeira vida.   

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

TRÍPLICE COLÓQUIO - Na oração de hoje faça o Tríplice Colóquio: primeiro, com a Virgem Maria, depois, com Jesus e, finalmente, com o Pai, conversando com cada um deles, pedindo-lhes que atendam sua graça. 

GRAÇA - Dá-me, Senhor, o dom de ser apto a reconhecer as ciladas do mal nas decisões que procuro tomar e me ajude contra elas. Da mesma forma, dá-me conhecimento da verdadeira vida, para que possa tomar decisões que me ajudem a encontrá-la.

PALAVRA DE DEUS - Mc 6,17-44

REVISÃO DA ORAÇÃO - Sente os apelos dos dois caminhos em você, produzindo tensões e conflitos? Quais são suas principais tensões e conflitos? Quando é que se sente chamado, convocado, estimulado e movido pelo mau espírito ou por Jesus?

 

 

AMANHÃ:

REPETIÇÃO - OS DOIS CAMINHOS

13

 

TRÊS TIPOS DE PESSOAS

 

 

            Hoje você vai rezar para saber até que ponto está disposto a seguir Jesus Cristo. O seguimento de Jesus exige liberdade e desapego diante das coisas. Pode ser que na sua vida algo esteja lhe escravizando, interferindo na sua oferta a Deus. Pode ser medo que lhe retêm, ambição que o impulsiona, orgulho que o leva a prender outros a você...

 

            Toda opção implica uma renúncia e, por isso, toca em algo que nos afeta. Afetados, desencadeiam-se mecanismos de defesa, autojustificação, mascarando aquilo que Deus realmente nos pede. Por isso, nessa oração você vai rezar sobre a infinita capacidade que temos de nos enganar a nós mesmos.

 

            A oração quer ajudá-lo a tomar consciência dos seus condicionamentos e a recuperar a autêntica liberdade de optar.

           

            “Imagine três pessoas diferentes, boas, com consciência bem formada, devotas e de grande fé, que têm uma grande importância de dinheiro.  Agrada-lhes a sensação de ter o dinheiro e estar fazendo grandes coisas com ele. No entanto, não se sentem completamente tranquilas com o dinheiro que possuem. Parece estar contaminando suas vidas. Talvez elas gostariam de ter menos dinheiro, ou algo assim.

 

            Então, analise cada uma das pessoas, na medida em que elas aparecem e vivem essa inquietação que sentem, e reflita para ver se se identifica com alguma dessas três pessoas.

 

            A primeira pessoa teve a coragem de identificar o apego ao dinheiro e quer verdadeiramente despojar-se dele e da inquietação. Fala muito sobre o assunto, pelo menos no princípio. Mas, não emprega os meios para mudar a situação. Quer, mas não faz nada! Anos depois quando morre, ainda rica, não fez nada a respeito.

 

            A segunda pessoa  continua com sua inquietação. Tenta resolver o problema por si própria. Ela não quer conservar o dinheiro e não entende porque deve desfazer-se dele. Ainda assim, não quer viver com este espírito de inquietação que não a deixa em paz com Deus. Por isso, toma algumas medidas. Sistematicamente, faz doações aos pobres, despossuídos e necessitados, em sua maioria. Montou uma estratégia em que a situação continuasse igual. Põe todos os meios, menos o único que deveria ser colocado. Desta forma, pensa fazer as pazes com Deus. Se damos isso aos pobres, Tu deverias dar-me a paz. Pensa que Deus se deixa manipular e concorde  com sua estratégia.  No medo de perder o que tem, fica ainda mais apegado ao pouco que lhe resta e cria um Deus na própria medida. Quando vem o momento da morte, já tem feito boas obras, mas não conseguiu a paz interior.

 

            A terceira pessoa se abriu de tal modo à graça que está sempre pronta a tudo questionar. Considerou que poderia conservar o dinheiro ou também doá-lo todo. Fica assim disponível, quer para guardar, quer para deixar o dinheiro... Teve que admitir que não sabia se alguma das duas alternativas fosse resolver, de fato, o problema de sua inquietação. Por que conservá-lo? Por que doá-lo? Isto é o que fez: decidiu que não determinaria definitivamente se haveria de conservar ou doar o dinheiro. Esperaria para ver qual o significado dessa inquietação. Então, quando soubesse, agiria, conforme o Senhor o chamasse a fazer na situação concreta.  Não há nenhum obstáculo entre a sua vontade e a Vontade de Deus para ela: fica com o dinheiro e só se decide a respeito depois de descoberta a Vontade de Deus no processo de discernimento. Esta pessoa decide a partir da Vontade de Deus e não a partir do apego ao dinheiro.”

 

            Reflita sobre estas três pessoas, tentando situar-se pessoalmente..

 

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

TRÍPLICE COLÓQUIO - Termine sua oração de hoje com o Tríplice Colóquio, com Maria, Jesus e Deus Pai pedindo graça para mudar-lhe nos apegos a coisas e situações.

GRAÇA - Senhor, peço-lhe o desapego de tudo e de todos, até da minha própria sensualidade e comodidade, para seguir-Te livremente pelos caminhos que Tu quiseres.

PALAVRA DE DEUS - Lc 9,57-62

REVISÃO DA ORAÇÃO - Com qual das pessoas você se identificou e por quê? Quais os sentimentos que lhe invadiram ao pedir a Deus essa graça da disponibilidade, despojamento, liberdade total?

 

 

 

AMANHÃ:

REPETIÇÃO - TRÊS TIPOS DE PESSOAS

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QUE DEVO FAZER, SENHOR?

 

 

            Esta pergunta que Paulo fez a Cristo é a mesma que está na mente daquele que pretende, como cristão, buscar o caminho de sua vida.

            A vida de um cristão é uma grande peregrinação: caminhamos para a plenitude, para Deus. E qual é o caminho que Deus quer que você tome para chegar até Ele? Como conhecer seu caminho?

            A resposta, às vezes, surge com muita claridade. Algumas pessoas sentem e conhecem o que o Senhor quer delas e, sem ter dúvidas, caminham na realização dessa Vontade.

            Outras vezes a Vontade de Deus se manifesta através de uma atenta observação e análise das aptidões pessoais, capacidades, riquezas interiores, aspirações profundas, sonhos, inclinações constantes e permanentes, atrações, etc... É o próprio Deus que nos cumula de dons e nos capacita para fazer uma determinada opção.

            Trata-se do exercício de nossa liberdade. Isso significa que não podemos ficar passivos à espera da resposta vinda do céu. Ela é construída no dia-a-dia, nas pequenas decisões que tomamos, nos simples projetos que realizamos, etc... Nossa vida é um “treinamento” para as grandes decisões.

            Pela graça, todos somos filhos de Deus, filhos muito amados... e Ele tem uma preocupação especialíssima para com cada um. E todo ser humano é chamado a realizar uma missão que lhe é própria, única... Esta não lhe é imposta, mas é confiada à sua liberdade. Privilégio sublime que constitui a grandeza do ser humano.

            Para poder realizar esta missão, Deus nos cumula de qualidades necessárias, nos coloca em um ambiente apropriado e nos faz conhecer a sua Vontade sobre nós.

            Quando Deus dá a uma pessoa aptidões e capacidades para coisas sublimes, é claro sinal que Ele a chama para algo maior, para projetos grandes, para uma missão importante.

            É necessário, portanto, com toda humildade e verdade, descobrir em nós as “pegadas” mais profundas da passagem de Deus por nossas vidas: nossas grandes aptidões, nossa sensibilidade social, nosso espírito apostólico, nossa capacidade de atuação e de organização, nossa facilidade na comunicação, nossa gratuidade, nosso dom de simpatia, nosso espírito de recolhimento e de solidão, nossa especial facilidade para orar e mergulhar no divino.

            O grande momento da graça vem quando você se dá conta que Cristo pára frente a você, diante de você somente, põe suas mãos sobre sua cabeça, fixa seus olhos em você e com voz suave lhe chama em particular. Conhecer este chamado especial que Deus lhe dirige em particular, deve ser a grande preocupação de toda a sua vida, sobretudo naqueles momentos mais decisivos.

            O mais ardente desejo de toda pessoa é poder dizer em cada momento: estou onde Deus quer, faço sua Vontade. N’Ele confio plenamente.

            Você tem vocação para algo muito grande! Para quê? Qual vai ser a finalidade de sua vida? Quais são seus desejos, aspirações, tendências...?

            O primeiro princípio que nos pode orientar na nossa opção é este: Deus nos chama para aquele caminho de vida no qual podemos melhor serví-lo e servir os outros.

            Notemos bem que não se trata de escolher qualquer caminho bom, mas o melhor para você.

            Podemos acentuar estas duas palavrinhas: “para você”.

            Não para um ser abstrato, mas para você concretamente, com toda sua bagagem de inteligência, afetividade, simpatia, qualidades e defeitos, influências e inclinações; com todas as possibilidades que a vida lhe oferece; neste momento concreto em que você vive, diante das necessidades do mundo, da Igreja, do país, de sua localidade...

            Trata-se de um Eu bem real, de um cristão que considera sua opção à luz de seu Pai Deus, com os olhos e o coração de Cristo. E este Eu quer escolher um caminho, não um caminho qualquer, mesmo que seja simplesmente bom, mas que quer o melhor para ele.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

VIDAS DE SANTOS - Pode ser muito útil a você a leitura das vidas de pessoas de alma grande, particularmente as vidas de Santos.  Se você nunca leu a vida de um santo, é sinal de que você não está se tratando tão bem quanto mereceria.

 

GRAÇA - Senhor, quero ser livre para escolher seja o que for que o Senhor indique como seu chamado específico para mim.

 

PALAVRA DE DEUS - Lc 4,14-22

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Você já se sente preparado para uma opção decisiva na sua vida? O que está faltando?

 

 

 

 

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A VONTADE DE DEUS

 

 

            “Procurar a Vontade de Deus não é adivinhar o que Deus quer, mas amar o que Deus ama”.

 

            Como conhecer a Vontade de Deus?

 

            De quê falamos quando nos referimos à Vontade de Deus?

 

            A Vontade de Deus não pode ser um projeto existente fora de nós, ou à margem de nossa vida e de nosso mundo, e à qual haveria que ir acomodando continuamente a vida e a ação, independente do que somos ou do rumo dos acontecimentos. Tal concepção ignora o fato de que nossa própria vida e nossa própria história estão já radicalmente marcadas pela iniciativa de Deus. E a iniciativa de Deus é manifestação de seu Amor.

 

            Portanto, a busca e realização da Vontade de Deus há de levar sempre o selo da confiança, já que não nos encontramos diante de um Deus arbitrário que faz e desfaz sem atenção à realidade pessoal de cada um de nós, mas diante de um Pai-Mãe que nos criou.

 

            Buscar a Vontade de Deus consiste, de algum modo, em buscar-nos a nós mesmos, isto é, o mais profundo e autêntico de nós, fruto da iniciativa criadora e amorosa do Senhor. Trata-se daquele lugar e daquela direção profunda de nossa vida pessoal onde desvelamos a ação do Espírito que atua em nós. Nossos desejos encontram-se com os desejos de Deus.

 

            A Vontade de Deus é pois, sempre “personalizadora”. Assim, quando tratamos de conhecê-la, sempre temos de prestar atenção ao nosso interior, onde atua o mesmo Deus cuja Vontade buscamos, para comprovar se o que “parece” ser a Vontade de Deus é mediação adequada para realizar em nós aquela plenitude que é a obra própria do Espírito.

 

            “Deus, quanto mais quer dar, tanto mais faz desejar” (S.João da Cruz)

 

            A Vontade de Deus sobre nós que devemos buscar e encontrar não é uma realidade já escrita definitivamente numa lei fixa e pré-fabricada antes de nós e sem nós. Ela não é uma coisa já pronta que somente devemos descobrir, como se descobre um tesouro que alguém escondeu em nosso jardim.

 

            Com efeito, a Vontade de Deus é “aberta”, ela se encontra inscrita no dinamismo da vida, no seio de suas relações múltiplas. É um caminho a inventar, não descobrir algo oculto. Por esta razão, a Vontade de Deus vai se realizando cada dia e requer uma busca humilde, confiante e contínua.

 

            Deus não é Alguém que previu tudo, mas Aquele que ama os homens com Amor infinito. Bem longe de manipulá-las, Deus acompanha as pessoas em sua história, respeitando-lhes a liberdade e a responsabilidade própria. Deus não dirige o mundo a seu bel-prazer, uma vez que respeita muito a liberdade do homem.

 

            O Deus Criador do homem não é seu rival, mas Aquele que lhe permite ser plenamente ele mesmo. Ele está bastante presente para deixar que sejamos nós mesmos. A Vontade de Deus é que a pessoa se desenvolva na linha de seu autêntico ser e de sua identidade, através das “situações” que lhe cabe viver. Daí que introduzir-se na busca da Vontade de Deus é algo criativo, pois na gama imensa de situações que a pessoa vive se há de descobrir qual é a opção que corresponde melhor ao que agrada a Deus.

 

            Fazer a Vontade de Deus é encontrar o caminho que você mesmo traça, enquanto segue de perto a pessoa de Jesus, que já está caminhando em sua vida e vai adiante de você, e enquanto você  se identifica com Ele o mais que pode, fazendo-lhe iluminar e aquecer por seu Espírito.

 

            A busca da Vontade de Deus é uma tarefa intimamente vinculada ao ser da pessoa que busca e que, por conseguinte, se enraiza no curso de sua própria vida pessoal. Não é um fato que se improvisa e que brota da superfície de si mesmo, senão do Coração da própria existência.

 

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

GRAÇA - Senhor, quero ser livre para escolher seja o que for que o Senhor indique como seu chamado específico para mim.

PALAVRA DE DEUS - Mt 21,28-32

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como “escutou” os apelos de Deus? Acolheu com amor gratuito os “toques” de Deus?

 

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O BATISMO DE JESUS

 

 

            “Dai-nos, ó Pai, a graça de ouvir fielmente o vosso Filho amado, para que, chamados filhos de Deus, nós o sejamos de fato”.

 

            Jesus, és agora como um trigal maduro! Podes lançar-te pelos caminhos, pelas praças, pelas sinagogas, pelo templo e anunciar a novidade: o Todo-Poderoso é Amor! É Misericórdia! É Ternura! É Paixão!

 

            Teu coração urge! Coração urgente capta frequências sensíveis. Do deserto lhe vem ao ouvido: “Raça de víboras... O machado já está posto à raiz... Quem tiver duas túnicas...” (Lc 3,7). É preciso ir!

 

            Vejo Jesus no último jantar, com Maria, na humilde casa de Nazaré. Seus rostos de leve desenhados pela luz tênue da lamparina, alimentada com azeite de oliva. As marcas da serenidade e alegria não ocultam de todo uma certa tristeza pela hora que se avizinha. A Mãe, que tudo guardava no coração (Lc 2,51) e no silêncio fecundo meditava, há muito pressentia aquele momento.

 

            A Mãe fala mais com o olhar!

 

            Depois de uma pausa, em que só se ouve o silêncio, Jesus desabafa: “Devo ser batizado com um batismo e como estou ansioso até que isto se cumpra” (Lc 12,50).

 

            Ele parte. Toma o rumo do Jordão... Seus passos são rápidos. É tão sagrado o momento... Seu rosto revela um misto de alegria, perplexidade e urgência...

 

            À medida que avança, a vegetação escasseia, dando lugar ao deserto. O suor molha-lhe o rosto e a túnica. Seus lábios se movimentam ao ritmo do “Abba!”

 

            De repente vejo filas animando o deserto. Vindas de todos os quadrantes. Algumas pessoas sozinhas, outras em pequenos grupos. Todos andam, esperançosas, em direção ao Jordão.

 

            E Jesus mistura-se à massa humana. Faz-se um com os pecadores.

 

            Tu vens, Jesus, espantosamente de mansinho. Tu não vens para apagar a chama que bruxuleia e nem esmagar a cana que está rachada (Is 42,3). E tu vens, Jesus! De mansinho... que é para minar o desânimo e erguer definitivamente o mastro da esperança!      

 

            João, de cima de uma pedra, na beira do rio, com voz forte, repete: “O machado já está posto à raiz...”

 

            Jesus, buscas um batismo de penitência? Necessitas de remissão dos pecados? Mas Tu és o Filho de Deus, o Santo de Deus!

 

            Estou diante do mistério: “Ele não hesitou em deixar sua condição divina e vir morar no meio de nós” (Fl 2,7)

            Quando chega a vez de Jesus, vejo João estremecer. O seu tom de voz o trai. Parece que o profeta é tomado de uma certeza de que este é o Messias, o Enviado. “Você aqui? Eu é que preciso ser batizado por você, e você vem a mim?” (Mt 3,14)

            Jesus, Tu te fizeste pecador por causa de nós, a fim de que, por meio de ti, “fôssemos reabilitados” (2Cor 5,21). Na margem do rio, Tu desces, mergulhando fundo na noite escura da fragilidade humana.

            E o Pai não resiste e clama: “Este é o meu Filho amado, que em tudo me agrada!” (Mt 3,17)

            E te vejo novamente mergulhado no oceano infinito da ternura de Deus! Todo o teu ser é como a maré alta, e invades, acolhes, abraças, “aconchegas” o coração humano com “vagas” de compaixão: “Venham a Mim, vocês que tem sede. Venham e bebam! “(Jo 7,37-38). “Venham a mim vocês que carregam pesados fardos. Eu os aliviarei. Minha carga é suave e meu fardo é leve” (Mt 11,28s).

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

 

PALAVRA DE DEUS - Mt 3,13-17

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Quais são as implicações do seu Batismo na sua vida?

 

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A VOCAÇÃO FUNDAMENTAL

 

 

            A vocação é um mistério pessoal e eclesial, onde entram em jogo a liberdade do Senhor e a liberdade do indivíduo. É algo que acontece no mais íntimo e a partir daí repercute em todas as outras dimensões da pessoa. Há um apelo fundamental que impregna toda a personalidade. É como que o “fio de ouro” da gente, o que há em cada um de mais típico e de melhor que o faz ser ele mesmo.

            A vocação fundamental abrange três  dimensões do Ser humano e visa criar uma “unidade profunda” integrando todos os aspectos e dimensões do homem.

 

            SER PESSOA - é a mais simples exigência que a vida nos impõe e que os outros querem de nós.  Todo ser humano está chamado a ser Sujeito e a realizar a si mesmo como Pessoa. Esse processo de realização é, por sua natureza, criativo, transformador e gestador de humanidade. A personalidade é exatamente o poder de expressão que nós temos através de nossas possibilidades, de nossos sinais, de nossos sistemas de referência, de nossa corporeidade. É a nossa identidade, a nossa marca, a maneira nossa de estarmos presentes no mundo.  É a primeira resposta do homem ao chamado de Deus, que o convida a realizar-se como “gente”. Consiste em viver, pessoal e comunitariamente, valores e virtudes humanas. Ser gente com os dois pés no chão, gente que sente, que chora, que sorri, que sofre, que ama, gente que está no meio do povo, sem redomas, sem subterfúgios... que não pretende ser mais do que realmente é.

 

            ALGUNS SINAIS DE QUE EXISTE NA PESSOA UM PROCESSO INICIAL DE CRESCIMENTO NESSA DIMENSÃO: aceitação de si e dos outros; senso de responsabilidade; posicionamento crítico diante da realidade; suficiente integração da afetividade e da sexualidade; bom uso da agressividade; capacidade de interiorização...

 

            SER CRISTÃO - É viver o “ser pessoa”  à luz da fé e da mensagem de Cristo, estar marcado pelo Cristo. Ser cristão significa também “viver sob a inspiração criadora do Espírito de Cristo”. Este Espírito sempre nos levará a sermos fiéis ao Cristo dos Evangelhos (abertura para Deus e para os homens). Por isso pode-se dizer que ser cristão é viver a união com Cristo. É morrer para que o outro viva. É radicalismo no amor. Consiste sobretudo em dar continuidade à missão do Senhor, assumindo o batismo nos seus traços de chamamento à santidade (comunhão e cooperação com Deus) e em ser membro ativo de comunidade, dando testemunho do Reino (comunhão e cooperação na Igreja e no Mundo).

           

            ALGUNS SINAIS DE QUE EXISTE NA PESSOA UM PROCESSO INICIAL DE CRESCIMENTO NESSA DIMENSÃO: vivência espiritual; amor pessoal à Jesus, à Eucaristia, a Nossa Senhora, à oração; valorização da Palavra, pessoal e comunitariamente; orientação espiritual; testemunho de vida; busca de coerência entre vida e vocação; comportamento adequado ao tipo de vida que quer assumir; responsabilidade nos compromissos do dia-a-dia: estudo, trabalho, atividades; desejo do “mais” em tudo...

 

            SER IGREJA: É pertencer a uma comunidade de fé onde a Palavra, a Eucaristia, o Testemunho, são assumidos, vividos, comunicados (evangelização e compromisso). Ser Igreja significa ter um engajamento efetivo nos “ministérios” como por exemplo: anunciar a Palavra, visitar doentes, catequizar novos membros, organizar a liturgia, coordenar grupos de jovens, participar de pastorais e movimentos... Por isso o empenho, a corresponsabilidade, o compromisso na Igreja e no Mundo. Isso tudo significa assumir efetivamente as exigências do Batismo e da Crisma.

 

            ALGUNS SINAIS DE QUE EXISTE NA PESSOA UM PROCESSO INICIAL DE CRESCIMENTO NESSA DIMENSÃO: engajamento apostólico; estar comprometido com uma atividade pastoral concreta, na comunidade; ser capaz de trabalhar em equipe e ter disponibilidade para servir; amor à Igreja, aos Pastores e tendo uma dedicação especial pelos mais pobres, assumindo os riscos que isso comporta; alegria na doação; capacidade de reflexão e de revisão...

 

            A vocação fundamental  é a base para o discernimento das vocações específicas.

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

PALAVRA DE DEUS - Mt 5,1-14

REVISÃO DA ORAÇÃO - Quais são os gostos, os interesses e as inclinações do seu coração? Para onde se dirigem com mais frequência?

 

AMANHÃ:

REPETIÇÃO - O BATISMO DE JESUS

                          A VOCAÇÃO FUNDAMENTAL

18

 

APROXIMAR-SE DA PESSOA DE JESUS

 

 

            “E vós, quem dizeis que Eu sou?” (Mc 8,27-29)

 

            Aos poucos vamos dando passos importantes na nossa oração. Estamos conhecendo a Pessoa de Jesus e entrando num relacionamento pessoal e íntimo com Ele. Também estamos conhecendo o caminho pelo qual Jesus realiza o Projeto do Pai na história e percorrendo esse caminho, sintonizando-nos com Ele.

 

            A plena revelação de Deus só se deu através de Jesus Cristo: “Este é o meu Filho, o Eleito, ouvi-o sempre” (Lc 9,35). O Pai nos convida a escutar Jesus, como se nos dissesse: “Tudo o que tenho para dizer-vos, vou revelar-vos por meu Filho: Ele é minha Palavra, minha Imagem, meu rosto para vocês”.

 

            Jesus é o “homem dos Caminhos”, que chama para uma Vida Nova. A “pegada” que ele deixa ao passar é sua própria Vida partilhada. Jesus é o homem que se definiu. Ele tem um sonho, um projeto. E surge diante dos homens com força pessoal capaz de arrastar consigo. Ele “passa” e sua presença atrai.

 

            Jesus aproxima-se. Não trata de convencer, de argumentar, de fazer seguidores à base de discursos. Jesus “arrasta” porque oferece um mundo novo, uma proposta nova. Chama na vida e para a vida, e põe a pessoa em movimento, a caminho. Jesus “passa” ao nosso lado e nos desperta para a vida.

 

            Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida para todo homem que vem a este mundo. Ele abre o caminho na história, o caminho para a construção do Projeto do Pai nos corações dos homens, indicando-nos os valores, as atitudes, as preferências e os critérios para essa reconstrução. No fundo, não somos chamados para coisas nem para tarefas.Trata-se de um encontro com a pessoa de Jesus: encontro dinâmico e transformante que nos leva à identificação com Ele, reproduzindo em nós suas atitudes, sentimentos, opções, valores...

 

             É esta experiência que temos pedido: “conhecimento íntimo de Jesus Cristo”. Não se trata de um conhecimento intelectual, especulativo... significa conhecimento do coração, de afeto, de entrega... Mediante este conhecimento, a Pessoa e a Vida de Jesus penetram no mais profundo de nosso ser: nosso coração, nossos critérios, nossa maneira de viver... E nós penetramos no mais íntimo da Pessoa de Jesus: seus valores, motivações...

 

            Tal conhecimento só se dá no seguimento: somente aquele que segue Jesus pode chegar a conhecê-lo profundamente. Jesus Cristo não quer que o imitemos mas quer que o sigamos. Imitação é cópia, repetição, falta de novidade. Seguimento, ao contrário, é avanço, é continuação histórica de uma causa, de uma proposta de vida...

 

            Jesus convoca pessoas que têm espírito de audácia, de energia, de criatividade, de luta, de participação...  Neste empreendimento onde há vagas para todos, cada um de nós deve descobrir a sua maneira pessoal de melhor corresponder à proposta de Jesus.

 

            Vemos, com frequência, muitas pessoas dotadas de grandes capacidades, mas por medo, insegurança, dúvidas... renunciam multiplicar e desenvolver suas qualidades e embarcam na realização de projetos minúsculos. São chamadas para “coisas maiores” e, no entanto, limitam-se a realizar o menor; são impulsionadas para o Mais e contentam-se com o Menos. Enterram suas aspirações mais profundas, seus sonhos mais nobres. Diante do convite para um “novo passo”, voltam para trás; falta-lhes uma injeção de idealismo e de sonhos, de generosidade e serviço. Passam a vida... sem dar sentido à ela.

 

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

 

PALAVRA DE DEUS - Mc 1,14-45

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Qual o aspecto da vida de Jesus que mais lhe custa viver? mais lhe questiona? mais lhe assusta?

 

 

 

 

 

19

 

A VOCAÇÃO DO LEIGO CRISTÃO

 

 

            Ser leigo cristão é uma explicitação da “Vocação Fundamental” segundo um estilo de vida, uma maneira de viver, de reproduzir o Cristo. À essa explicitação ou desdobramento da “Vocação Fundamental” chamamos “vocação específica”.

 

            O leigo é um cristão que vive sua vocação batismal. Cabe ao leigo construir o Reino de Cristo no mundo, transformando as estruturas injustas, pela presença dos valores evangélicos no âmbito da família, da escola, do trabalho, da política, etc., e sentir-se  co-responsável no serviço da Igreja, através dos ministérios leigos.

 

 

            NO MUNDO -  Pelo testemunho de sua vida, por sua palavra oportuna e sua ação concreta ele tem a responsabilidade de ordenar as realidades do mundo (a família, a educação, as comunicações sociais, a política, etc) para pô-las a serviço da instauração do Reino de Deus.

            Em todas as realidades do mundo o leigo deverá buscar e promover o bem comum: na defesa da dignidade do homem e de seus direitos; na proteção dos mais fracos e necessitados (crianças, anciãos, marginalizados, jovens desorientados, desempregados, operários, camponeses...); na construção da paz, da liberdade, da justiça; na criação de estruturas mais justas e fraternas. Deste modo o leigo tornará a Igreja presente e ativa no meio dos homens, no meio do mundo, dando um verdadeiro testemunho do Evangelho na construção do Reino.

            NA IGREJA - marcado pela “consagração batismal” e membro do povo de Deus, o leigo é chamado a ser um fermento de santidade, testemunhando as riquezas de seu Batismo e de sua Confirmação. O leigo, consciente de sua realidade de “batizado” vai assumindo trabalhos diversificados, dentro das comunidades eclesiais.

            O desempenho de um ministério é uma forma de responder ao chamado de Deus, de viver a vocação apostólica que todos recebem no batismo. Os ministérios leigos são tarefas exercidas em benefício da comunidade como: ministro extraordinário da Palavra, da Eucaristia, catequista, pastoral dos enfermos, animador da comunidade, organizador da liturgia, ser líder nos movimentos de jovens, de adultos...

            Desta forma o leigo contribui para construir a Igreja como comunidade de fé, de oração, de caridade fraterna. Faz isto por meio da catequese, da vida sacramental, da ajuda a seus irmãos.

            O leigo pode viver sua vocação formando uma família, através do matrimônio. O matrimônio é um compromisso de amor, uma aliança de pessoas à qual se chega por vocação amorosa do Pai que convida os esposos a uma íntima comunidade de vida e de amor, cujo modelo é o amor de Cristo à sua Igreja. A maioria das pessoas segue esta vocação.

            A lei do amor conjugal é: comunhão e participação, não dominação de um sobre outro; uma exclusiva, irrevogável e fecunda entrega à pessoa amada, sem perder a própria identidade; uma aliança, amizade profunda, mútua, gratificante, vivificada pelo acolhimento, a doação, a comunhão, a fidelidade, o perdão e a transparência.

            A missão dos esposos é buscar a plenitude do próprio ser por uma realização plena numa vida a dois, como expressão do amor mútuo; colaborar com Deus na transmissão da vida e educação integral dos filhos; servir à causa do Reino, pois os esposos são para si mesmos e seus filhos testemunhas da fé e do amor de Cristo, testemunhas da fecundidade da Igreja, enquanto colaboram na formação de homens e de cristãos autênticos.

            ALGUNS SINAIS DE UM CHAMADO PARA A VIDA MATRIMONIAL: o desejo de santificar-se no mundo; partilhar a vida com outra pessoa que inspira confiança e com a qual se prevê uma experiência de complementação e de felicidade; a alegria serena e livre em pensar que pode constituir uma família; uma clara inclinação para a paternidade ou a maternidade responsável; amor às crianças e o desejo de ter filhos; a alegria que se espera ter em gerá-los e criá-los; o desejo de ser apóstolo em seu ambiente.

            Muitos leigos há que não se sentem chamados nem à vocação matrimonial, nem à vocação consagrada. Querem, simplesmente, ser solteiros e só solteiros. Nesse estado de solteiro dedicam à Igreja todas as energias de sua vida, dispondo-se ao serviço de irmãos carentes e de comunidades abandonadas. É uma verdadeira vocação!

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

PALAVRA DE DEUS - Jo 2,1-11

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que desejos, tendências, necessidades afetivas e sexuais, experiência de vida e modo de agir podem indicar que o matrimônio seja uma vocação para você? Por quê?

 

 

AMANHÃ:

 

REPETIÇÃO - APROXIMAR-SE DA PESSOA DE JESUS

                          A VOCAÇÃO DO LEIGO CRISTÃO

 

20

 

TRÊS MODOS DE AMAR

 

 

            “Eu quero e desejo e é minha determinação deliberada, contanto que seja para vosso maior serviço e louvor, imitar-vos em passar por todas as injúrias e todas as humilhações e toda a pobreza, tanto material como espiritual, se Vossa Santíssima Majestade me quiser escolher e receber em tal vida e estado!” (Santo Inácio)

 

            Vai se fazendo necessário avaliar o nível do nosso amor para com o Senhor, nos situando mais plenamente na luz de Deus.

 

            Os três modos de amar são nossa resposta ao amor de Deus por nós. São também três modos de reconhecer que sou criatura e três  modos de permitir que Deus modele meus valores.

 

            Esta oração se dirige diretamente ao coração, pois se trata de ser tocado no mais íntimo, de ser irresistivelmente atraído e contagiado pelo estilo de vida de Jesus Cristo.

 

            Os três modos de amar são um processo de esvaziamento de si mesmo para encher o coração da capacidade de amar e de chegar a uma entrega total. Somente a partir do amor é que a nossa vontade poderá se manter no seu propósito. Sem o amor, a pura “força de vontade” cai. É necessário ter um profundo amor a Jesus Cristo para aceitar seu caminho, mesmo que este caminho implique a Cruz. Esta é a lógica do Amor, incompreensível aos olhos dos homens.

           

             1º MODO DE AMAR - Vejo o mundo como ele é. E a mim mesmo, desejando certas coisas. Compreendo, porém, que não sou eu quem determina quais desejos me conduzem a uma vida mais autêntica e a uma completa felicidade. Eu dependo de Deus para isso. Deus, o Senhor e Criador, colocou em mim e para mim, certos valores, de forma que quando eu avalio qualquer coisa ou ato, não posso fazê-lo levando em conta somente minhas próprias normas. Deus estabelece seus valores. Eu dependo de Deus através de minha consciência. Vivo para obedecer a Deus, que se manifesta no meu espírito. Deus colocou no mais profundo do meu ser o anseio de chegar até Ele e eu decidi realizar o desejo de me entregar a Ele, acima de qualquer outro desejo e nada fazer que me afaste d’Ele.  É o caminho dos mandamentos.

 

            2º MODO DE AMAR - Brota em mim o desejo de encontrar a Deus e aumentar o meu amor por Ele. Não perco tempo “fugindo do pecado”, mas dedico meu tempo buscando a Deus. Neste estado de ânimo, sinto-me numa perfeita disponibilidade à graça, mesmo em coisas pouco importantes. Houve em mim uma mudança, escolhendo amar a Deus e não apenas lhe obedecer. Vejo como a minha vida seria inútil se, por exemplo, me entregasse totalmente a fazer algo que gosto. Bobo seria eu se dependesse de coisas materiais para a minha felicidade, pois elas não duram. Isto o vejo e sinto desde o fundo do meu ser. Há em mim uma disposição de aceitar qualquer coisa, pois aceito que o mundo e tudo o que ele contém é do Senhor.  É o caminho da indiferença.

 

            3º MODO DE AMAR - Jesus Cristo me atrai e me enche com seu amor. Chego a amá-lo até o ponto de querer ver como Ele viu, sentir como Ele sentiu, apreciar o que Ele apreciou, viver, enfim, como Ele viveu. Ele se humilhou de tal modo, que se entregou totalmente, vivendo como os pobres, fazendo com que os mais humildes e rejeitados se sentissem acolhidos ao seu lado, sempre servindo. Ele se manteve firme, mesmo quando as decisões que tomou sob a inspiração do Espírito o conduziram a um grande sofrimento e a uma morte cruel. Vejo que quero seguir seus passos em tudo isso. Conscientemente renuncio a todo desejo de ser famoso, poderoso, rico e tido por sábio. Quero viver como Ele viveu. Eu aceito o que Deus, meu Senhor, quiser de mim. É o caminho do seguimento de Cristo.

 

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

TRÍPLICE COLÓQUIO - Na oração de hoje faça o Tríplice Colóquio: primeiro, com a Virgem Maria, depois, com Jesus e, finalmente, com o Pai, conversando com cada um deles, pedindo-lhes que atendam sua graça. 

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

 

PALAVRA DE DEUS - Mt 19,16-22

           

REVISÃO DA ORAÇÃO - Com que forma de amar você se identificou? Por quê?

 

 

21

 

O CHAMADO DE PEDRO

 

 

            Há muita gente que ouve Jesus. Ele está perto do lago, vê duas barcas com os pescadores que já desceram e estão limpando as redes. Sobe numa daquelas barcas, a de Pedro. Pede que a afaste um pouco da margem e, sentado, pôs-se a ensinar.

            Podemos imaginar o sentimento de Pedro que fica envaidecido pelo fato de que foi escolhida sua barca. Pedro está vivendo um momento de euforia.

            Acabado o discurso, Pedro pensa em descer à terra e receber os cumprimentos do povo. Mas Jesus, sem mais, diz-lhe que se faça ao largo e lance as redes. Certamente, há uma mudança em Pedro... Da resposta que ele dá pode-se adivinhar que em sua mente surgem dúvidas sobre as palavras do Mestre porque a hora já está adiantada, a pescaria acabou e não há peixes.

            Provavelmente Pedro pensa na figura que farão se depois não acontecer nada. É um instante difícil no qual a confiança de Pedro no Mestre pode ficar abalada: talvez lhe conviesse negar-se simplesmente a isso, evitando esta prova que poderia levá-lo ao ridículo diante do povo.

            “Trabalhamos a noite toda e não pescamos nada”. Sensação de cansaço... Se ceder a este cansaço estará recuando diante do oferecimento de Jesus. Se, ao contrário, Pedro se decidir superar tanto a fadiga que o oprime como também o ridículo que o ameaça, então teremos um homem que supera a própria desconfiança: “Na tua Palavra lançarei as redes...”. Notemos quanto há de profundo nesta expressão que na Bíblia designa a atitude do homem diante de Deus.

            Pedro passa a ser a figura do homem que se compromete também nas coisas pequenas e simples mas que exigem certa decisão. Sai dos cálculos e se atira, confiando na Palavra do Senhor.

            Os que calculam muito, os que estão continuamente preocupados consigo mesmos, com as vantagens que possam obter, os que querem verificar tudo para ver se coincide ou não com as próprias seguranças, não são aptos para o seguimento de Jesus.

            Na realidade, o seguidor de Jesus revela-se precisamente nestes momentos. É questão de “arriscar”, de dar algum passo além daquilo que é puramente seguro e sólido. “Quem se arrisca, pode errar; quem não se arrisca, já errou”.

            No fundo, é o próprio Pedro que pula para fora da barca para lançar-se ao lago. É o amor que suscita no homem este atirar-se. Pedro é tocado por Jesus na sua disponibilidade para aquela capacidade de risco... E a rede lançada na Palavra de Jesus se enche... Chegam outras barcas e também estão para afundar.

            Vendo isso, Pedro se lança aos pés de Jesus, dizendo: “Afasta-te de mim, pois sou homem pecador”.  Colocado diante da santidade de Deus, Pedro sentiu que muitas coisas de sua vida não funcionavam.

            Jesus leva Pedro a provar um ato de confiança; leva Pedro a uma sincera purificação, à humildade, ao reconhecimento da necessidade da misericórdia de Deus... Pedro deu um passo tão decisivo de libertação interior que todos os temores que antes podia ter com relação àquilo que pensa e diz o povo, foram superados.

            Jesus forma o seu seguidor através destes saltos de confiança, com a apresentação de seu poder; gradualmente, faz emergir um verdadeiro sentimento penitencial.

            O episódio se encerra com uma última reviravolta da realidade. Pedro espera que o Senhor o confirme em seu sentimento de penitência, mas Jesus lhe diz: “Não temas; doravante, a partir deste momento, serás pescador de homens”.

            É uma reviravolta da situação. Desde homem confiante fez um homem que soube reconhecer espontaneamente a própria pobreza; agora, deste homem humilhado na sua pobreza, faz um homem cheio de confiança.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

PERSEVERANÇA E ALEGRIA - Algumas vezes pode acontecer de entrarmos num tempo de secura ou mesmo de confusão e desencorajamento. Com ela aprendemos a perseverar em nosso trabalho e sabemos também que o dom da alegria é verdadeiramente um dom, que nós nem o merecemos por nós mesmos nem o recebemos por nosso esforço.

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

 

PALAVRA DE DEUS - Lc 5,1-11

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - O que é que está lhe “amarrando”, impedindo-o de lançar-se mais, “arriscar-se”, dar o passo decisivo?

 

 

 

 

 

22

 

A VOCAÇÃO SACERDOTAL

 

 

            O sacerdote é um cristão assinalado pelo Sacramento da Ordem que o põe a serviço do Povo de Deus. Cabe a ele, como ministro, servo, pastor e mediador, suscitar e dinamizar comunidades vivas de fé, de evangelização, de testemunho e de espírito missionário, em comunhão com os fiéis.

 

            Como pessoa assinalada pelo sacramento do Batismo, o sacerdote se sente e se faz irmão entre irmãos; a eles se doa; amigo de todos. Faz-se presente na vida dos homens, partilhando e vivendo seus anseios, suas alegrias, seus problemas.

 

            Como pessoa assinalada pelo sacramento da Ordem, o sacerdote consagra a vida para continuar entre os fiéis a presença visível de Cristo Cabeça e Pastor. Sinal radical de entrega ao Senhor para serví-lo na pessoa dos irmãos é o dom do celibato.

 

            O sacerdote assume e vive a missão salvífica de Cristo consagrando-se plenamente e com competência, ao ministério:

 

            - da Palavra: O sacerdote é um “especialista” da Revelação pela palavra e pela vida. À luz da Palavra tenta descobrir a vontade de Deus e responder aos “porquês” existenciais dos homens. Ele é um homem de Deus. Só lhe é dado ser profeta na medida em que tenha feito a experiência do Deus Vivo. Só esta experiência o fará portador duma Palavra poderosa para transformar a vida pessoal e social dos homens, de conformidade com o desígnio do Pai.

 

            - dos Sacramentos: sobretudo a Eucaristia que constrói, une os homens como irmãos e sela a aliança com o Pai. Pela mediação do Sacerdote, a oblação de cada pessoa torna-se “oblação” de Cristo.

 

            - da Ação Pastoral: guiando, orientando, valorizando os “ministérios” dos fiéis que ele ama intensamente. Ele “serve a Deus na pessoa dos irmãos”. É o Pastor.             

           

            Como pessoa ligada ao Bispo, o sacerdote vive em união com ele e com os demais presbíteros, unindo, construindo e desenvolvendo a comunidade eclesial.

 

            Se o Sacerdote pertence a uma Diocese é um Sacerdote diocesano. Se ele pertence a uma Congregação ou Ordem Religiosa (salesiano, fransciscano, jesuíta...) é um Sacerdote religioso.

           

            Vejamos algumas características do Sacerdote:

 

            - Ter sido escolhido por Deus para continuar a missão redentora. Ligação profunda e amiga com Ele. Presença especial do Senhor na Igreja e no Mundo.

            - Convivência fraterna/paterna com os leigos, solidariedade: ajudá-los a conseguir com dignidade o que lhes é devido por direito, acompanhando-os na busca da verdadeira justiça e liberdade.

            - Experiência de amor fraterno e amigo das pessoas que sentem toda gratidão por quem se sacrifica em seu favor. A austeridade do celibato se suaviza pela amizade e comunhão com as pessoas...

            - A plenitude humano-divina que brota de uma dedicação total aos irmãos e a unção do Espírito que faz participar o sacerdote das alegrias do Ressuscitado.

 

            O jovem que pretende ser sacerdote deveria:

 

            - estar vivendo uma profunda experiência de fé, no seguimento de Jesus Cristo;

            - estar inserido e comprometido com uma comunidade cristã;

            - ter espírito apostólico e sensibilidade para trabalhar com o povo;

            - ter consciência de ter sido escolhido por Deus para um ministério especial;

            - ter as disposições para aceitar e viver o celibato.

 

            A consciência do chamado brota de uma experiência interior tanto mais límpida quanto mais autêntica e livre. Só há sinal de vocação autêntica, se for testemunhada pela vida, pelo comportamento.

 

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

 

PALAVRA DE DEUS - Lc 10,25-37

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que desejos, inclinações, capacidades, experiência de vida e modo de agir podem indicar que a vida sacerdotal seja uma vocação para você? Por quê?

 

 

 

AMANHÃ:

 

REPETIÇÃO - O CHAMADO DE PEDRO

                          A VOCAÇÃO SACERDOTAL

 

A ORAÇÃO DE REPETIÇÃO - Quando você fizer repetição, poderá retomar algo das suas orações (textos ou versículos da Palavra de Deus, pensamento, sentimento...) onde você descansa, silenciosamente, no acontecimento ou no fato da vida de Jesus mesmo. Este estar aí quieto, que em sua aparência não parece nada de especial, é uma oração de muito fruto. Volte para aquele momento. Mesmo se você não encontrar aquela quietude outra vez, você está muito próximo de aprender muito sobre Deus e sobre você mesmo.

 

23

 

TER OS OLHOS SEMPRE FIXOS NO SENHOR

 

 

            “Certo dia, um jovem monge foi encontrar um velho monge, cheio de idade e de experiência, dizendo-lhe:

            - Mestre, explica-me por que tantos jovens procuram a vida monástica e tão poucos perseveram nela. Por que tantos jovens voltam para atrás?

            Respondeu o velho monge:

            - Veja bem: é como um cão que via uma lebre. Ele se põe a correr atrás da lebre, latindo forte. Outros cachorros escutam o cão que late, correndo atrás da lebre, e também se põe a correr. São muitos cães, correndo juntos e latindo; mas apenas um viu a lebre e somente este a segue com os olhos. Num certo momento, um após outro, todos os cães que não viram a lebre de verdade começam a cansar e perder o fôlego: não aguentam mais; estavam correndo apenas porque ouviram o latido daquele único cão que viu a lebre. Este fixou os olhos na meta de modo pessoal e chega ao fim de seu objetivo: capturar a lebre.

            E arrematou:

            - É assim que acontece com os monges: somente aqueles que verdadeiramente fixaram seus olhos na pessoa de Jesus Cristo, nosso Senhor Crucificado, é que conseguem chegar até o fim”.

 

            Quem fixar os olhos em si mesmo, nunca dará o passo, porque nunca sairá de si mesmo. E a vocação é uma saída da própria terra.

 

            Só quem puser os olhos Naquele que chama é capaz de dar o passo. Só quem crer na pessoa de Jesus Cristo será capaz de abandonar tudo para seguí-lo.

 

            A vocação exige “perder a vida”, perder os cálculos, as lógicas, as seguranças, a família, a posição... perder tudo.

 

            “Ganhar a vida” é arriscar-se, é lançar-se confiado em Cristo, é deixar que Ele vá fazendo o caminho em mim, é despojar-se, desnudar-se...

 

            O chamado de Deus desfaz todos os nossos caminhos, porque os d’Ele são outros. Deus sempre nos chama para algo novo, maravilhoso...

 

            O caminho que você segue acaba sempre por lhe conduzir. Descobrir o caminho, é direcionar a existência. Descobrir o caminho, na vida, é saber de onde ele parte e para onde chega. Olhar o futuro com esperança.

 

            Para onde você está indo? Em que direção? Vale a pena viver para fazer o que você está fazendo neste momento?

 

            Numa sociedade cansada, cheia de ansiedade, como pode o jovem anunciar um futuro de esperança?

 

            O mundo de hoje precisa de uma vida nova, de uma juventude pura nas idéias, forte e exigente no viver, sincera e sofredora no amor. Uma juventude com uma palavra nova, diferente para os homens. Uma juventude com o olhar centrado no sonho de Jesus: o Reino.

 

            Revolucionar o mundo é sacudí-lo para que abra os olhos à realidade definitiva: Jesus Cristo.

 

            “Dá-me percorrer contigo, Senhor, tua terra de andanças. Dá-me seguir a Ti somente. Tu passaste deixando tuas “pegadas” no pó da estrada, e sem perguntar “por que” muitos te seguem. Vais sem nada, peregrino, caminhando qual romeiro; e vais chamando seguidores, que te sigam sem nada levar. Quem se atreve a pisar descalço tuas pegadas, sempre em marcha? A cidade não é teu caminho, é dura para as tuas sandálias. Gostas de deixar na terra a marca de tuas pegadas. Senhor dos Caminhos que tiram as pessoas da segurança, dos seus, das suas casas, de seus bens... e os atira a seguir teu passo feito atalho estreito, num convite para onde quer que vás. Quero ser caminhante, de coração pobre e livre, feito tenda aberta em teu chamado. Amém”.

 

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

PALAVRA DE DEUS - Jo 1,35-51

REVISÃO DA ORAÇÃO - Jesus, hoje, passa e continua chamando: estou convencido de que o chamado é para mim? a quê sou chamado?

 

24

 

A VOCAÇÃO RELIGIOSA

 

 

            O Religioso é um cristão consagrado a Deus pelos votos. Vive em comunidade, compromete-se a seguir radicalmente o Senhor, colocando-se a serviço da Igreja e do Mundo com total gratuidade. Cabe a ele testemunhar proféticamente o Deus vivo e o Reino de Deus como valor absoluto e definitivo.

            A motivação fundamental para assumir a Vida Religiosa é o seguimento radical do Senhor até a identificação com ele. O Senhor vai se tornando, cada vez mais, o centro unificador e dinamizador da vida. A entrega a Ele por amor se explicita no serviço à Igreja e a todos os homens, sobretudo aos mais empobrecidos. A entrega ao Senhor encontra seu sinal nos votos:

            - Pobreza: ser livre para partilhar a vida dos pobres. Despojamento, uso dos bens em função da missão. Deus o único apoio... Supõe muita liberdade interior, muito desapego;

            - Obediência: ser livre para assumir a missão do Senhor renunciando à realização de um projeto pessoal. Supõe plena disponibilidade e co-responsabilidade, reconhecendo que o Senhor chega através das mediações dos superiores (Igreja-Congregação-Comunidade);

            - Castidade: ser livre para uma vida de amizade e de comunhão pessoal aberta a todos, especialmente com aqueles que vivem a mesma missão. Supõe maturidade psicológica e afetiva.

            A identidade da Vida Religiosa articula-se a partir de três eixos fundamentais:

 

            - Experiência de Deus: é a condição necessária para que o Religioso se firme, cada vez mais, na sua entrega ao Senhor e possa viver todas as exigências da Missão e da Vida Comunitária. Na prática, consiste em sentir que Jesus se torna cada vez mais importante. Conhecê-lo, imitá-lo, seguí-lo se torna uma busca e o desejo mais profundo. Por causa dele, os outros são amados. O amor a Jesus se concretiza em serviço aos irmãos na Igreja e no mundo. A Palavra, a Eucaristia, a vida fraterna, o serviço tornam-se fonte inesgotável de experiência e de confirmação. A oração conduz a um compromisso com a vida real e a realidade leva o religioso a ter momentos fortes e constantes de oração.

 

            - Vida Comunitária: é o sinal do amor transformador que o Espírito infunde no coração dos que buscam viver em comum e em comunhão. A comunidade fraterna se constrói a partir de relações interpessoais, nas quais se valorizam a amizade, a maturidade, como base humana indispensável para a convivência, numa dimensão de fé, pois quem chama é o Senhor, num estilo de vida mais simples e acolhedor, com diálogo e participação. A comunidade fraterna vivida em espírito de fé e respeitando as exigências básicas da convivência oferece grandes vantagens: facilita o crescimento humano e vocacional da pessoa, permite a experiência do discernimento comunitário, cria condições para planejar e avaliar as atividades pastorais, ajuda a desenvolver e consolidar a vida de fé, facilita a vivência e partilha da vida de oração, a Palavra, a Eucaristia, o Testemunho.

 

            - Missão: pela disponibilidade, aceita um estilo de vida organizado em vista do Reino e suas exigências, se dispondo para isso e vivendo para isso.

                       

            A Vida Religiosa exige:

            - ter como centro de sua vida e de suas aspirações o Cristo Vivo;

            - suficiente liberdade diante da família, para saber viver longe dela;

            - ter um desejo real de uma vida austera, simples e pobre;

            - viver em comunidade, estabelecendo e mantendo relações humanas e não conflitivas;

            - ter amor pela Igreja concreta e histórica e por seus Pastores;

            - estar disposto a servir em qualquer lugar ou missão que lhe for indicada;

            - levar uma vida comprometida e solidária;

            - afinidade pessoal com o carisma da Congregação e um verdadeiro amor por ela;

            - possuir as capacidades humanas suficientes para a missão própria da Congregação;

            - certo nível de tolerância diante da frustração e de bom manejo da agressividade.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

           

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

PALAVRA DE DEUS - Lc 10,1-12

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que desejos, inclinações, capacidades, experiência de vida e modo de agir podem indicar que a Vida Religiosa seja uma vocação para você? Por quê?

 

AMANHÃ:

 

REPETIÇÃO - TER OS OLHOS SEMPRE FIXOS NO SENHOR

                          A VOCAÇÃO RELIGIOSA

 

25

 

A CASA DE MEU PAI

           

 

            Jesus sobe a Jerusalém para celebrar a Páscoa. A cidade estava repleta de peregrinos vindos de todas partes... Tendas levantadas ao longo das muralhas... Soldados romanos que estavam por toda parte, nas ruas e nas praças, vigiando o movimento das multidões do alto da Torre.

 

            No templo, Jesus olha de maneira especial os cordeiros que iam ser sacrificados; encontra os comerciantes que vendiam bois, ovelhas e pombas, vítimas para os sacrifícios; vê os trocadores de moedas, que eram necessários para facilitar a troca do dinheiro romano pelo dinheiro que era permitido usar no Templo.

 

            Com um chicote, expulsa os animais. Jesus derruba o dinheiro dos trocadores pelo chão e vira-lhes as mesas. Manda embora os vendedores de pombas.

 

            “... Não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes” (Jo 2,16)

           

            A casa do Senhor é lugar de encontro com Ele e com os irmãos. Um encontro que não pode se reduzir a uma presença passiva ou à um monólogo, uma repetição de fórmulas... O encontro com Deus deve ser realizado num verdadeiro e vivo relacionamento, como entre pai e filhos em feliz contato de amor.

           

            “O zelo da tua casa me consome” (Sl 68,10)

 

            Os discípulos se recordaram dessas palavras de Jesus. O recordar dos discípulos é obra do Espírito. Não é uma recordação rude, material; é uma interpretação do acontecimento, feita à luz do mesmo Espírito...

 

            Jesus efetivamente é devorado de zelo, mas este zelo também o devorará, quer dizer, o levará à morte.

 

            “Que sinal nos apresentas tu, para proceder deste modo?” (Jo 2,18)

 

            A oposição e a incredulidade...  Exigem de Jesus uma legitimação para justificar o seu procedimento com os comerciantes e trocadores de moedas. Eles queriam ver um milagre que o pudesse legitimar... Jesus penetra e conhece o coração do homem... Não era um pedido sincero, esconde uma recusa... Pedem um sinal e parecem dispostos a crer em qualquer sinal que seja; mas na realidade não é assim... Jesus se recusa a satisfazer o pedido: o homem deve aprender a ler os sinais que Deus oferece e não pretender obter outros.

 

            O que legitimava Jesus a proceder assim é a sua filiação divina. Sua autoridade tinha um único fundamento: a Vontade do Pai.

 

            O verdadeiro culto só pode constituir na mais pura e incondicional entrega à Vontade de Deus. O culto não vale pela observância de preceitos, mas exclusivamente pela entrega sem reservas, pelo abandono Àquele que nos chamou para o seu eterno amor.

 

            “Destruí este templo e eu o reerguerei em três dias... Ele falava do templo do seu corpo” (Jo 2,19)

 

            Cristo é a nova proposta de Deus aos homens. Quem quer adorar a Deus em espírito e verdade deve fazê-lo em Cristo. Mas isso exige a fé... É a fé em Deus e em seu amor e no perdão que torna aceita a oração...

 

            Cristo é o verdadeiro templo, o lugar único da presença salvadora de Deus em nosso meio. Cristo é o novo templo  no qual podemos falar a Deus.

 

            Também hoje necessitamos nos purificar das formas de falsa piedade, para fazer ecoar a Palavra de Deus que é libertação, justiça, salvação.

 

            Sem amizade à Cristo ninguém compreende verdadeiramente o seu mistério.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

 

PALAVRA DE DEUS - Jo 2,13-25

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que coisas você sente que precisam ser expulsas da sua vida, que atrapalham o seu encontro com Deus?

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VOCAÇÃO DO LEIGO CONSAGRADO

 

 

            O Espírito Santo suscitou em nossos dias este novo modo de vida consagrada, como outra forma de doação de si mesmo, a que se entregam pessoas que permanecem inteiramente na vida como leigos.

            Dentro da vocação do leigo há lugar para diversos caminhos espirituais e apostólicos que dizem respeito à cada pessoa. No trilho de uma vocação de leigo “comum” florescem vocações de leigos “consagrados”. Neste âmbito podemos lembrar também a experiência espiritual que recentemente amadureceu na Igreja com o desabrochar de diversas formas de Institutos Seculares. Aos fiéis leigos abre-se a possibilidade de professar os conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência por meio dos votos ou das promessas, conservando plenamente a própria condição de leigo.

            Instituto Secular é um instituto de vida consagrada no qual os leigos, vivendo no mundo, tendem à perfeição da caridade e procuram cooperar para a santificação do mundo, principalmente a partir de dentro.

            Pertencer a um Instituto Secular é uma forma de servir ao Reino, onde o mundo é o lugar de adoração do Pai e as próprias ocupações do mundo são os instrumentos de serviço aos irmãos.

            Os membros de um Instituto Secular identificam-se com a Igreja. Eles são uma presença no mundo para santificar, consagrar e fazer incidir sobre ele os valores da justiça, amor e paz. Por sua consagração buscam harmonizar os valores autênticos do mundo de hoje com o seguimento de Jesus Cristo vivido a partir da sua inserção no mundo.

            Os membros de um Instituto Secular mantém entre si a comunhão e a fraternidade próprias do seu modo de vida e assumem por vínculos sagrados os conselhos evangélicos, fazendo profissão deles de maneira mais íntima e particular, sem emiti-los publicamente:

 

            - pelo voto de pobreza, procuram seguir a Cristo por um despojamento afetivo e efetivo, fazendo-se solidários também com os mais pobres;

 

            - pelo voto de obediência, buscam a total dependência da vontade de Deus, procurada num diálogo sincero com os responsáveis e através dos acontecimentos e situações de vida pessoal, social e eclesial;

 

            - pelo voto de castidade, fazem-se sensíveis e abertos às necessidades e sofrimentos de todos.

 

             Por uma “vida perfeita inteiramente consagrada a santificação”, os membros desses Institutos participam da tarefa de Evangelização da Igreja, no mundo e a partir do mundo, onde a sua presença age como um fermento. Seu testemunho de vida cristã visa organizar as realidades do mundo de acordo com Deus e impregná-lo com a força do Evangelho. A missão específica do leigo consagrado é santificar o mundo,  por um:

 

            - espírito crítico (discernimento);

            - um agudo senso de responsabilidade e coerência;

            - uma boa dose de “utopia” (esperança no Ressuscitado).

 

            Desta maneira os membros dos Institutos Seculares buscam:

 

            - responder de maneira direta ao grande desafio que as atuais mudanças culturais estão lançando à Igreja: dar um passo na direção das formas de vida que o mundo urbano-industrial exige, evitando o secularismo.

            - resolver a tensão entre a abertura real aos valores do mundo moderno (autêntica secularização cristã) e a plena e profunda entrega de coração a Deus (espírito de consagração).

 

            Os Institutos Seculares significam uma valiosa contribuição pastoral e ajudam a descobrir novos caminhos para a Igreja.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

PALAVRA DE DEUS - Mc 4,35-41

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que desejos, inclinações, capacidades, experiência de vida e modo de agir podem indicar que ser leigo consagrado seja uma vocação para você? Por quê?

 

 

AMANHÃ:

 

REPETIÇÃO - A CASA DE MEU PAI

                          VOCAÇÃO DO LEIGO CONSAGRADO

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JESUS PREPARA OS SEUS SEGUIDORES PARA A MISSÃO

 

 

            É bonito ver como Jesus prepara e acompanha os seus amigos, os Apóstolos, na nova Missão. No acompanhamento dá forma humana à nova experiência que Ele mesmo tem do Pai.

 

            Depois de chamar os Apóstolos, Jesus continua lhes dando uma sólida formação. Dedica à formação dos Doze suas melhores forças e seus ensinamentos mais claros. Em particular lhes revela o sentido último das palavras que disse em público. O fundamental, nesta formação, é o “estar com Ele”: através da convivência, vai cimentando uma sólida amizade com Ele.

 

            Nesta convivência com Jesus os Apóstolos vão se formando, “conhecendo” o mistério de sua vida e conhecendo o mistério do próprio chamado.

 

            Nesta pedagogia da formação é importante assinalar o fato de que Jesus entendeu radicalmente que a Vocação dos Apóstolos era um Dom do Pai: “Pai, rogo pelos que me deste, porque são teus” (Jo 17,9). Procurou que nenhum se perdesse: cuidou-os, amou-os e, finalmente, encomendou-os à força do Espírito Santo.

 

            Vejamos alguns pontos da pedagogia de Jesus na formação dos seus seguidores:

 

1. Confronta-os com os problemas e necessidades do povo: “Onde vamos comprar pão para o povo comer?” (Jo 6,5)

 

2. Reflete com eles as questões que o povo levanta: “Vocês acham que esses galileus eram mais pecadores que os outros?” (Lc 13,1-5)

 

3. Leva em conta a opinião e o sentir dos outros, pois faz levantamento da realidade: “Quem dizem os homens que eu sou?” (Mc 8,27-29)

 

4. Faz revisão depois da missão: “Não se alegrem porque os maus espíritos lhes obedecem, mas fiquem alegres porque os nomes de vocês estão escritos no céu” (Lc 10,20)

 

5. Critica-os quando brigam pelo primeiro lugar (Lc 9,46-48) e quando mandam as crianças embora (Mc 10,13-15).

 

6. Explica por que falharam e ajuda-os a discernir e usar os intrumentos certos na missão: “Essa espécie de demônio não sai a não ser pela oração” (Mc 9,28-29)

 

7. Procura ter momentos a sós com seus discípulos para poder instruí-los: “Tendo partido dali, atravessaram a Galiléia. Não queria, porém, que ninguém o soubesse. E ensinava os seus discípulos” (Mc 9,30-31)

 

8. Interpela-os quando são lentos demais: “Nem assim compreendem?” (Mc 8,21; 17,17)

 

9. Ao povo fala em parábolas, mas aos discípulos ele explica tudo em casa: “E não lhes falava a não ser em parábolas; a sós, porém, explicava tudo a seus discípulos” (Mc 4,34; 7,17)

 

10. Prepara-os para o conflito: “Se perseguiram a mim, também vão perseguir a vocês” (Jo 16,33; Mt 10,24-25).

 

11. Defende-os quando são criticados: “Enquanto o noivo está com eles, eles não podem jejuar” (Mc 2,19; 7,5-13).

 

12. Cuida do descanso deles: “Vamos sozinhos para algum lugar deserto, para que vocês descansem um pouco” (Mc 6,31).

 

13. Cuida da alimentação deles após uma noite de pescaria: “Logo que pisaram em terra firme viram um peixe na brasa e pão” (Jo 21,9)

 

14. Desperta neles a vontade de rezar: “Senhor, ensina-nos a rezar como João ensinou a seus discípulos” (Lc 11,1). E ensina como rezar (Lc 11,2-13; Mt 6,5-15).

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

AUTOBIOGRAFIA (SUA VOCAÇÃO) - A partir de hoje, fora do seu horário de oração, você vai começar a escrever a 5ªparte da sua Autobiografia. Ela pretende ser uma ajuda para sua reflexão sobre aspectos importantes de sua vida pessoal e um meio de diálogo com seu orientador espiritual.

            Apresentamos a seguir alguns pontos para sua Autobiografia. Para respondê-los, leia tudo várias vezes e vá refletindo sobre cada um desses aspectos de forma muito pessoal, deixando-se guiar no que escrever por aquilo que vai surgindo sem se preocupar nem com o estilo nem com a lógica do que vai anotando. Não responda cada um dos pontos. Eles servem só como orientação. Seja espontâneo!

            Procure responder em momentos em que você esteja tranquilo e possa se concentrar no que está fazendo. Essa 5ª Parte deve estar pronta até o tema 35 (O RISCO DA DECISÃO)

 

1. Quanto tempo faz que brotou em você uma “inquietação” vocacional? Que fatos ou circunstâncias o levaram a pensar num chamado para uma vocação? Que tem feito para ir amadurecendo uma decisão neste campo?

2. Se sua inclinação é para a vocação de leigo, que tipo de leigo você gostaria de ser e que compromisso você assumiria na Igreja e no Mundo?

3. Se é a vocação sacerdotal que o atrai, que tipo de padre gostaria de ser e qual seria a sua missão?

4. Se o seu desejo é para a vida religiosa, que tipo de religioso você gostaria de ser e qual o seu compromisso de consagrado?

5. Se você gostasse de ser leigo consagrado, onde e como você iria viver a sua vocação?

6. Qual é a imagem pessoal que você tem de um religioso, de um sacerdote ou de um leigo consagrado?

7. Você acha que a Congregação ou o Seminário podem satisfazer suas aspirações? Por quê?

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

 

PALAVRA DE DEUS - Mt 10,1-20

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - O que está faltando e poderia ajudá-lo a amadurecer sua opção vocacional?

 

28

 

MATURIDADE HUMANA E CONSISTÊNCIA VOCACIONAL

 

 

            Para que um jovem seja considerado “idôneo” para assumir uma vocação, requer-se um grau de maturidade que ofereça uma séria probabilidade de um normal desenvolvimento, no sentido de uma maturidade sempre mais plena. Eis alguns quesitos importantes:

 

1. Tolerância com a frustração e com a ambiguidade das situações - O imaturo não suporta a frustração e a incerteza da situação. As reações estendem-se da crítica corrosiva e do fechamento diante dos outros até a desorganização da personalidade.

2. Controle da ânsia e da insegurança -  O perigo desorganiza emotivamente e provoca reações desproporcionadas e do tipo infantil. Seu controle pode ser fruto de um mecanismo de defesa.

3. Resistência às solicitações - Frente às solicitações, a pessoa madura permanece senhora de si, coerente, unificado, confiante para fazer escolhas e solidez para levar adiante seus projetos.

4. Adaptação à situações novas - Diante de uma inovação, quem é maduro é capaz e livre para adaptar-se, é disponível, não se desorganiza emotivamente. O imaturo sente-se ameaçado, tem reações infantis, custa deixar a dependência do seu anterior modo de vida.

5. Capacidade de autocontrole - A pessoa madura é coerente com os próprios princípios, aceitando e observando as leis por convicção e com liberdade. O imaturo agarra-se às pessoas ou normas para sentir-se seguro, e acaba tornando-se escravo delas.

6. Comportamente flexível e criativo - A pessoa madura adapta-se às exigências do ambiente, promovendo um crescimento em si mesma e nos outros. O imaturo fixa-se rigidamente em posições egocêntricas, despreocupado com as exigências dos outros.

7. Aceitação do passado - As lembranças, felizes ou dolorosas, não provoca sentimentos inúteis na pessoa madura. Ela revê a própria história como história de salvação, rompendo seus laços neurotizantes, curando-se das imagens negativas ou aureoladas de si mesmo, libertando-se das imagens enraizadas nas situações traumáticas de sua história de vida.

8. Memória agradecida - A memória é o arquivo dos registros vividos que nos (des)governam. Toda conversão também é conversão da memória. Uma pessoa ressentida com sua história pessoal e familiar, rancorosa, também será doente na mente, no coração e na consciência. A vocação poderia ser como uma defesa contra a mudança de vida. Só uma memória agradecida pode registrar um chamado de Deus a uma novidade de vida.

9. Capacidade de dar e de receber - Quem é maduro doa-se aos outros, desfruta uma liberdade interior, usufrui do que lhe é oferecido. O imaturo não se abre, não se doa, não acolhe, não aceita os outros. Ela se sente ameaçada pelos outros, embora necessite de tais relações.

10. Aceitação do sentido de culpabilidade - Quem é maduro aceita os insucessos e erros cometidos e os utiliza para empreender um comportamento mais correto e construtivo. No imaturo a culpa o bloqueia, faz com que assuma atitudes improdutivas, desproporcionais, auto-punitivas.

11. Capacidade de esperar - A pessoa madura vive sem pressa, confiante no futuro. O imaturo não suporta esperar, não sabe protelar a satisfação dos próprios impulsos, teme perder a ocasião. É imediatista, intolerante com a rotina, impaciente, agindo sob impressões formadas rapidamente.

12. Poder de sublimação - A pessoa madura identifica a auto-realização com a consecução de valores que ela sente como um bem para si mesma. Ela se engaja e investe na meta que se propõe. Enfrenta as privações exigidas sem frustração. Encontra uma satisfação básica, sem a gratificação dos impulsos. Não nega as exigências da natureza, mas organiza-se por valores transcendentais, que o impele para uma sadia “combatividade”.

13. Conscientização - Quem é maduro é consciente das próprias ações, intenções e sentimentos. Não nega os sentimentos e os fatos desagradáveis, nem projeta sobre outros os próprios defeitos.

14. Elaboração das perdas - Viver as perdas é uma arte. Quem não aprende a perder não cresce. As perdas são consequencias de escolhas e decisões. É dolorosa a condição de renunciar. Há defesas internas contra as perdas: depressão, ansiedade, medos, indiferença emotiva...

15. Amor sociocêntrico - A auto-aceitação da pessoa madura lhe permite ter relações interpessoais abertas, não competitivas ou agressivas, evitando toda dependência... Se auto-determina, avalia-se objetivamente, é capaz de tomar decisões com a ajuda dos outros, assumindo sua liberdade.

            Um bom nível de maturidade humana e vocacional proporciona serenidade, segurança e felicidade contínua e, também, capacidade de relacionar-se com os outros e consigo mesma.

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

PALAVRA DE DEUS - Mt 14,22-33

REVISÃO DA ORAÇÃO - Você julga ter uma suficiente maturidade para decidir livremente? Por quê?

 

AMANHÃ:

REPETIÇÃO - JESUS PREPARA OS SEUS SEGUIDORES PARA A MISSÃO

                          MATURIDADE HUMANA E CONSISTÊNCIA VOCACIONAL

29

 

CINCO PÃES E DOIS PEIXES

 

 

            “...Em verdes pastagens me faz repousar!

            Preparais para mim a mesa!...” (Sl 22)

 

            Jesus se retira numa barca com os seus discípulos. Ele busca o deserto, um lugar solitário, para ficar a sós com o Pai. A sós para orar...

 

            Mas, o silêncio é subitamente quebrado. Alguém aponta na direção da costa para onde a barca se dirige. Uma multidão está se encaminhando para lá, a pé. São doentes em busca de saúde, pequenos agricultores, desempregados, pessoas sozinhas, talvez cheias de medo e angústia.  Eles vão em busca de Jesus, o profeta nazareno, que consolava e curava!

           

            “... vendo esta numerosa multidão, moveu-se de compaixão para ela e curou seus doentes” (Mt 14,14)

 

            Apesar de ver frustrado seu desejo de solidão, Jesus não perde a calma. Ele ia ao lugar deserto conduzido pelo amor; o mesmo amor que o une ao Pai e ao seu povo. Jesus não pensa só em si. Ele ama muito... se comove...

 

            O cair da tarde... Os discípulos estão cansados e contrariados com o povo. Não estavam preparados para isso, permanecem passivos, sem iniciativa. Até querem dar uma ordem a Jesus:

 

            “Este lugar é deserto e a hora é avançada. Despede esta gente para que vá comprar víveres na aldeia!” (Mt 14,15)

 

            Os discípulos pensam apenas em si. Que cada um cuidasse dos seus afazeres!

 

            Mas o que o Senhor deseja é a solidariedade... O que o povo mais precisa não é cuidar cada um de si, mas viver em comunhão, numa comunidade de vida, que escute a Palavra, que partilhe a vida e se comprometa com o Reino.

 

            “- Dai-lhes vocês mesmos de comer!

             - Mas, nós não temos aqui mais que cinco pães e dois peixes.” (Mc 14,16-17)

 

            O pouco é muito nas mãos do Senhor! E é isso o que Jesus pede de nós: o pouco que temos. É ele quem multiplica...

 

            O povo se senta sobre a grama, É guiado e alimentado por Jesus...

 

            Jesus continua preparando os discípulos, ao lhes confiar pequenas responsabilidades e serviços.

 

            Jesus ordena que se sentem em grupos e, com autoridade e simplicidade, toma os pães e os peixes, levanta os olhos ao céu, abençoa-os, parte os pães e entrega-os aos discípulos, que os distribuem ao povo.

 

            Jesus é todo gratuidade... fonte de alegria...

 

            “Todos comeram e ficaram saciados, e, dos pedaços que sobraram, recolheram doze cestos cheios.” (Mt 14,20)

 

            A multidão se sente satisfeita. Sentiram o sentido da solidariedade e como o Senhor é bom. Sentiram-se gente importante para Jesus, que os acolheu, sarou e alimentou. Os discípulos certamente se sentem orgulhosos do seu Senhor e felizes de colaborar com Ele. Todos ficaram saciados! Só Deus sacia o coração humano! Sem Ele o caminho da vida é árido demais.

 

            Será que todos aprenderam a lição da partilha?

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

PALAVRA DE DEUS - Mt 14,13-21

REVISÃO DA ORAÇÃO - Quais são seus “cinco pães e dois peixes”? Ou seja, em que você se sente pobre, necessitado?

30

 

ELEMENTOS FUNDAMENTAIS NO DISCERNIMENTO VOCACIONAL

 

 

1. O chamado é de Deus! Ele chama e dá graças para a resposta. Por isso é necessário desenvolver em nós uma capacidade de escuta da Vontade do Pai. Colocando-nos em contato com Ele nos tornaremos aptos para captar esse chamado do Senhor, que respeita a nossa liberdade e não pode ser fruto do temor. A Vocação é radicalmente “se Deus quer”.

 

2. O ser humano é essencialmente “um ser em vocação”. Ser chamado é reconhecer que somos radicalmente Dom Gratuito, pelo qual devemos dar graças. Quem não tem o sentido do dom, jamais terá o sentido da vocação; nunca se sentirá chamado, porque é prisioneiro de si mesmo. Viver, existir, já é vocação, antes de qualquer outra particular vocação, que não será outra coisa senão estar a serviço dessa Vida. Deus, presente no mundo e na história através dos acontecimentos e situações, das pessoas que nos interpelam, se faz também presente na vida de cada um de uma forma personalíssima, única e irrepetível.

 

3. Não se pode, por exemplo, pensar na vida sacerdotal ou religiosa como um assunto de dignidade pessoal. A vocação não é dignidade pessoal, não é promoção nem social nem humana. O sentido mais profundo da vocação é serviço, compromisso, luta...

 

4. Todos somos chamados à santidade. Para alcançá-la, a vida religiosa e sacerdotal não é um caminho exclusivo, nem é o único caminho. Trata-se de descobrir o segredo que Deus tem para confiar a cada um. Qual é a missão concreta e pessoal dentro da Igreja que Deus quer para você?

 

5. A vocação religiosa e sacerdotal tampouco nos separam do mundo e das pessoas. Elas nos lançam no coração do mundo. E a Igreja está projetada para os problemas dos homens, para estabelecer a reconciliação dos homens entre si e com Deus.

 

6. A Vocação esta orientada definitivamente  para a missão. É preciso vivê-la como uma inserção na Igreja, Igreja Comunhão, gestora de comunidades. Não conseguimos nada tendo gente virtuosa e individualmente “perfeita” se é incapaz de propiciar um diálogo de comunhão, de partilha, de solidariedade. Toda vocação deve ser capaz de assumir as grandes perspectivas da Igreja, a serviço do mundo. Não podemos falar em vocação sem assumir as opções da Igreja: a opção pelos pobres, a visão de uma Igreja servidora, as comunidades eclesiais, etc. Este é o caminho que a Igreja nos indicou para conseguir a instauração do Reino. As vocações não são para jovens perfeitos, mas para pessoas que queiram trabalhar pelo Reino.

 

7. A opção que você vai fazer deve ter em conta o que você é, os seus gostos, as suas aptidões, suas inclinações, atrações... e deve lhe permitir viver feliz, em harmonia consigo mesmo, com os outros e com Deus. As inclinações, para serem tomadas a sério, devem ser constantes e permanentes, marcadas por convicções... e não caprichos passageiros, nem sentimentalismos momentâneos. Analisar as inclinações profundas e superiores de seu ser.

 

8. Há certas condições humanas que são indispensáveis para o discernimento vocacional, como: constância; equilíbrio afetivo, experiência heterosexual normal; conhecer, aceitar e assumir sua realidade, suas limitações; capacidade de renúncia; responsabilidade para assumir tarefas de serviço ao outro; bom relacionamento e convivência; abertura às realidades do mundo; amor a Jesus Cristo; vivência cristã comunitária; oração; espírito de sacrifício; engajamento apostólico; experiência de Deus; capacidade de escolha, de opção e de decisão; conhecimento realista de si e das diversas vocações; serenidade e paz interior; personalidade bem integrada; receptivo às correções e críticas; senso crítico que permite relativizar as coisas...

 

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

             

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

 

PALAVRA DE DEUS -  Mt 16,13-23

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Você é uma pessoa indecisa? Em que situações esta indecisão se faz mais forte?

 

 

AMANHÃ:

 

REPETIÇÃO - CINCO PÃES E DOIS PEIXES

                          ELEMENTOS FUNDAMENTAIS NO DISCERNIMENTO VOCACIONAL

31

 

ELE PROCURAVA VER

 

 

            “Jesus entrou em Jericó e estava atravessando a cidade. Havia ali um homem rico, chamado Zaqueu, que era chefe dos cobradores de impostos. Ele procurava ver quem era Jesus.”(Lc 19,1-3)

 

            Zaqueu é um homem que busca. Na sua procura, esquece-se de si próprio. Procura porque está insatisfeito, descontente consigo e com tudo o que o rodeia.

             Ele procurava ver quem era Jesus. Tinha ouvido falar d’Ele mas ainda não o conhecia. Agora era a oportunidade. As oportunidades são como as águas de um rio: irreversíveis; se não se aproveitam no momento que acontecem, nunca mais volta. Zaqueu sabia disso.

 

            “... mas não podia por causa da multidão, pois era muito baixo. Então, correu adiante da multidão e subiu numa amoreira para ver Jesus, que devia passar por ali...”. (Lc 19, 3-4)

 

            Como sempre sucede, uma multidão de obstáculos se opunham entre Zaqueu e Jesus.

            Zaqueu fez o que pôde. Superou os obstáculos, e não se importou, nem um pouco em se fazer de ridículo subindo numa árvore. Venceu todo preconceito humano para chegar a Jesus.

 

            “... Quando Jesus chegou naquele lugar, olhou para cima e disse a Zaqueu:

            - Zaqueu, desça depressa, porque preciso ficar hoje em tua casa...” (Lc 19,5)

 

            O mais lindo do relato é ver que, se Zaqueu se interessava por Jesus, Jesus, fazia tempo, já se preocupava por Zaqueu: ele conhece-o pelo nome. O que busca, já muito antes, é procurado pelo Senhor! Como dizia uma velha senhora: “Embora não pensemos n’Ele, Ele continua pensando em nós”.

 

            “... Então, Zaqueu desceu depressa, e o recebeu em sua casa com muita alegria. Todos os que viram isto começaram a resmungar:

            - Este homem vai se hospedar na casa de um pecador!...” (Lc 19,6-7)

 

            Zaqueu acolheu Jesus na sua casa, e o fez com muita alegria. Como não podia deixar de acontecer, houve “fofocas” a respeito disso. Você já reparou que quando alguém se converte ao Senhor, sempre suscita a ira e a inveja daqueles que vivem sob a orientação de falsos mestres?

            “... Depois Zaqueu se levantou, e disse ao Senhor:

            - Escute, eu vou dar metade dos meus bens aos pobres. E se tenho roubado alguém, vou devolver quatro vezes mais.

            Aí Jesus disse:

            - Hoje a salvação entrou nesta casa...” (Lc 19,8-9)

 

            Zaqueu converteu-se realmente. Ele compreendeu que a fé não é algo só para ser vivido entre quatro paredes, mas que deve ter uma conotação social: “a metade dos meus bens pertence aos outros”.

            Zaqueu percebeu que sua riqueza acumulada não podia ser uma expressão verdadeira de fraternidade e justiça.

            Zaqueu hoje é você...

 

            ... Se existir um certo vazio interior que o faz procurar algo mais profundo e verdadeiro;

            ... Se você se interessa realmente por saber quem é Jesus sem se importar pelas gozações e comentários que seus gestos de aproximação levantem nos outros, naqueles outros que ouvem falar d’Ele, o vêem, mas nada fazem;

            ... Se diante dessa procura você, sendo chamado pelo seu nome, interiormente, o aceita e o segue, mesmo sabendo que esse Cristo é radical, incomoda, e que todos os outros começam a resmungar falando mal de você;

            ... Se você fosse ainda mais adiante, despojando-se todos os seus excessos, optando por uma vida simples, onde o SER é mais importante que o TER e que, este como aquele, devem estar a serviço dos outros.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

AUTOBIOGRAFIA - Lembre-se de dar um tempo fora do tempo de oração para escrever a 5ª parte da sua Autobiografia. Não deixe para o último dia. Ela deve estar terminada até o tema 35 (O RISCO DA DECISÃO).

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

 

PALAVRA DE DEUS - Lc 19,1-10

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você tem colocado tudo o que é e tem a serviço dos outros?

32

 

MOTIVAÇÕES

 

 

            Toda opção deve se submeter à pergunta:

 

            - por quê o matrimônio?

            - por quê o sacerdócio?

            - por quê a vida religiosa?

            - por quê leigo consagrado?

 

            Por baixo de cada comportamento, por baixo de cada opção há uma variedade de motivações possíveis, algumas belas, outras menos nobres e genuínas. São as causas mais profundas do comportamento humano. O importante é perguntar qual delas predomina.

 

            A pessoa é como um iceberg: vemos apenas a ponta da grande massa que aflora sobre a superfície. Assim é o ser humano: vemos as ações dele mas... e o seu coração? o que ele busca? O coração não se vê, mas é ele que  nos faz viver ou morrer. E é o coração da pessoa que Deus quer.

 

            Perguntar pelo coração é perguntar pelas motivações profundas, aquelas forças internas que brotam, regulam e sustentam as nossas ações mais importantes. Portanto, motivação pode ser definida como um fenômeno dinâmico resultante das forças que impelem para um objetivo. Estas forças tem como origem tanto o mundo interior do indivíduo como o ambiente externo no qual ele está imerso. Tal motivação é que pode justificar o grau de genuidade da vocação.

 

            A pessoa chamada sente a necessidade de amadurecer sempre mais a própria identidade humana, de ir ao encontro das suas aspirações e de desenvolver as próprias aptidões naturais, de modo a atingir uma plenitude de vida também a nível humano, mediante a sua vocação.

 

            As motivações que orientam para uma perfeição humana, são plenamente válidas e aceitáveis, desde que sejam integradas com as motivações sobrenaturais (seguimento de Cristo, doação aos outros...) Deus chama o homem real e, para que seja chamado, é necessário que seja humano. Se ele não deseja a Deus de modo humano e se não sente a sua vocação com uma certa alegria, deve-se suspeitar que teria uma vocação de tipo neurótico, que vê apenas o sacrifício, a renúncia, a negação das alegrias, etc... A opção não deve substituir o humano, mas penetrá-lo e purificá-lo aos poucos, desenvolvendo a pessoa.

 

            Deve-se ter presente que as motivações válidas acham-se sempre misturadas com motivações inconscientes e infantis. Daí a necessidade de uma “purificação” das motivações vocacionais. Tal purificação constitui uma tarefa que cada um deve realizar durante toda a vida.

 

Motivações oblativas, maduras e válidas - brotam num clima de liberdade, são integradas num desenvolvimento equilibrado da personalidade e estão ligadas à essência da vocação. Por ex: a doação gratuita e alegre ao serviço dos irmãos e do Reino. A motivação suprema e central de uma “vocação cristã” consiste em descobrir e assumir por “escolha pessoal, incondicional e amorosa”, o Senhor, entregando-se a Ele com vontade firme e capacidade de sacrificar todo o resto para viver este amor pessoal. Tal amor pode preencher as necessidades da pessoa. Esse amor consiste na doação total, libertadora e gratuita em favor do Reino.

 

Motivações egocêntricas conscientes: se prendem a necessidades reais e pessoais. Por ex: gosto pelo estudo, pela solidão, pela ordem, pela liderança, etc. Há motivações onde o emocional tem a primazia: euforia, exaltação, idealismo irreal, etc. São motivações insuficientes para justificar a vocação, mas não são necessariamente contra ela. É preciso evitar que predominem na escolha, mas integrá-las com motivações mais profundas.

 

Motivações egocêntricas inconscientes: correspondem e dependem de necessidades profundas (carências). Podem provocar comportamentos descontrolados: atitudes de autodefesa, agressão, domínio, inferioridade, etc. Independem da vontade e diminuem o grau de liberdade e de responsabilidade da pessoa, pois esta as desconhece. Deste contexto podem brotar vocações falsas, com insuficiente consistência. Por ex.: vocações como busca de refúgio, de valorização, de vantagens materiais, de segurança, de uma família...; vocação como dever, garantia de salvação, medo da sexualidade, fuga do mundo; compensação de situações de inferioridade, sentimentos de angústia, dificuldades em enfrentar a vida e seus desafios.

 

            Certos comportamentos levam a suspeitar da presença delas: não admitir ser questionado sobre a sua opção; ter pressa para levar a termo a decisão; recusar em se fazer conhecido pelo Orientador; repugnância em aceitar certas exigências; certeza absoluta da vocação; ter comportamentos ambivalentes (quedas frequentes, decisões novas, resultados aparentes...)

 

            Na oração, nas distrações, no cotidiano da vida... prestar atenção ao que se quer, ao que se busca e como se busca e perguntar-se: por quê e para que faço isso?

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

 

PALAVRA DE DEUS - Mc 8,34-38

REVISÃO DA ORAÇÃO - Você se sente chamado a renunciar a algo para seguir Jesus? Como se sente?

 

 

 

AMANHÃ:

 

REPETIÇÃO - ELE PROCURAVA VER

                          MOTIVAÇÕES

 

33

 

É BOM ESTARMOS AQUI

 

 

            Como já vimos, Jesus tinha o hábito de retirar-se algumas vezes para a solidão dos montes para orar. O monte como lugar do encontro com Deus. Desta vez ele toma a iniciativa de levar consigo três dos seus discípulos.

            Foi transfigurado... Jesus muda de figura, aparecendo com uma aparência diferente da habitual. Em Jesus resplandece a glória do Pai!

            Assim como a experiência do amor, da comunhão, de uma profunda alegria, é capaz de iluminar de dentro o rosto de um jovem, transfigurando todo o seu ser, o rosto e o corpo todo de Jesus transbordam toda sua beleza interior, a beleza de sua alma unida à Deus.

            O esplendor do seu rosto era como o do sol... A luz não vem de fora nem paira “sobre” Jesus. A luz sai de “dentro dele”, emana dele próprio, porque lhe pertence... “Eu sou a luz do mundo!”... A fonte dessa luz é a glória de Deus, revelando que Jesus, no seu ser profundo, é Deus mesmo.

            Estar transfigurado seria o estado normal de Jesus. Uma vez, porém, que “o Verbo se fez carne e acampou no meio de nós” (Jo 1,14), “não se apegando ciosamente à sua condição divina, mas esvaziando-se a si mesmo e assumindo a condição de servo, fazendo-se um homem como os outros”(Fl 2,6-7), Jesus passou a ser visto pelos homens como um homem entre tantos.

            Jesus transfigurado é o nosso destino futuro: no Reino do Pai os justos também brilharão como o sol, transfigurados pela ação do Espírito do Senhor, garantia da nossa ressurreição futura. Ser transfigurado é uma aspiração enraizada no mais profundo do coração dos homens.

            Moisés e Elias, a Lei e os Profetas, não só estão com Ele, mas conversam com Ele: para realizar o desígnio salvífico de Deus, para abrir a todos os homens o acesso ao Pai, é necessário que Jesus suba a Jerusalém e sofra muito antes de entrar na sua glória.

            Pedro, um discípulo espontâneo e decidido, generoso e prestativo, e ao mesmo tempo imediatista, ingênuo e míope. Ele quer prolongar esse momento de felicidade e de glória que está vivendo. Ficar para sempre na tenda, na presença de Jesus transfigurado. Não compreende a necessidade do caminho do sofrimento, da humilhação e da cruz. Pedro “não sabia o que dizia”.

            E você: compreende o caminho de Jesus, a necessidade de passar pelo sofrimento no seguimento de Jesus? Ou quer sempre de novo instalar-se e acomodar-se no que é bom, no que é gostoso, interrompendo o caminho que sobe para Jerusalém?

            Uma nuvem desce sobre Jesus e envolve também os discípulos.  “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo, ouvi-o sempre!” Jesus é o Filho, o Amado, o Eleito. Sua missão se realiza pelo caminho da obediência até a morte.

            No monte da transfiguração, Jesus, “o Caminho”, mostra aos seus discípulos qual é o caminho que eles tem de seguir: o caminho da cruz e da glória. Só se chega à glória passando pela cruz. Todos os caminhos de todos os que querem seguir a Jesus desembocam sempre, mais cedo ou mais tarde, no caminho da cruz.

            O Pai tem de insistir em que escutemos o Filho sempre! Para viver no seguimento de Jesus, como discípulo, é necessário ouvir e acolher a palavra de Jesus. E viver dela. Diante dela, muitas vezes, o homem é invadido pelo medo, fica prostrado “com o rosto no chão”. Mas, Deus nos levanta, nos liberta do medo e nos põe em pé para uma vida nova. Só pode estar em pé diante de Deus aquele que Deus levanta. “Levantai-vos e não tenhais medo”. Os discípulos não têm motivo para temer, pois Jesus continua ao seu lado, próximo e familiar, mesmo despojado de sua glória.

            Esta experiência do encontro com Deus pode e deve ser feita ao longo do nosso caminho de subida para Jerusalém como discípulos e seguidores de Jesus. Haver contemplado o rosto transfigurado de Jesus iluminará nossa caminhada, mesmo durante as noites...

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

           

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

 

PALAVRA DE DEUS - Mt 17,1-9     

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você vê e sente o sofrimento, as dificuldades, as incompreensões na sua vida?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

34

 

ESTÍMULOS E DEFESAS DIANTE DA OPÇÃO

 

 

            I - ESTÍMULOS - forças internas e externas que podem ajudar a motivação para a opção como também distorcer sua autenticidade.

 

            1. INFLUÊNCIAS:

 

            - de ordem moral: Ex: seja perfeito! Você deve salvar-se e salvar seus familiares! Você nasceu para ser padre ou religioso, não para se casar...

            - de ordem econômica e familiar: Ex: fugir da pobreza; ajudar os pais; deixar um ambiente difícil, etc.

            - identificações: ser como...; necessidade de imitar alguém; conseguir realizar-se como um colega, um amigo...

 

            2 - APOIOS:

            - considerando a sua vida, de que mais você precisa? Ex: proteção, bem-estar, auto-promoção, projeção social, cultura...? Superação de sentimentos de inferioridade? Busca de valorização, de gratificação junto dos outros? O povo, o grupo...

            - necessidade de realização pessoal...?

            - busca de proveitos pessoais? Afinal, por que escolher esta vocação? Por que não outra?

 

            3 - COMPENSAÇÕES:

            - você se percebe como alguém que sente a necessidade de preencher vazios, de superar dificuldades profissionais, escolares, afetivas...? Isto tem algo a ver com a sua vocação? Como?

            - você já passou por algumas decepções fortes que atualmente o levariam a procurar numa vocação uma solução? Quais?

            - você sente falta de uma família, de uma mãe, de um pai e espera encontrar isso numa vocação?

 

            II - DEFESAS - condicionamentos conscientes ou inconscientes que podem impedir uma decisão mais autêntica e livre. Podem substituir as verdadeiras motivações e assim enfraquecer a segurança na opção.

 

            1 - FUGAS: a vocação que você deseja estaria dependendo de situações difíceis que você vive e das quais tenta se afastar? Ex: ambiente de casa; tensões de convivência; futuro cheio de interrogações? fuga da solidão? pouca saúde? fuga do mundo perturbador e sedutor?... etc.

 

            2 - BLOQUEIOS:

 

            - na área da afetividade e da sexualidade - Medo do corpo; não aceitação da sexualidade; devaneios eróticos persistentes; traumas sexuais; obsessões; tabus; fixação sobre uma pessoa com apego exagerado; desvios sexuais - homossexualismo, ausência de desejos e de problemas neste campo -; distúrbios físicos, etc...

            - na área da agressividade - forte inibição para o diálogo e a criatividade; incapacidade de decidir, de arriscar, de assumir responsabilidades; inconstância; excessiva timidez; autodefesa constante; ou também exagero na manifestação da agressividade, prejudicando os outros em casa, no grupo...

            - na área da autenticidade e valorização pessoais - máscaras; fingimento; duplicidade por causa do medo e da insegurança; segundas intenções; complacências - agradar para não ser prejudicado; negativismo; desconfiança de si e dos outros; auto-depreciação; pessimismo acentuado; negação do valor pessoal;  autovalorização excessiva; teimosias; etc.

 

            3 - ÍDOLOS:  um ídolo é o que você absolutiza e não abre mão dele. Existe algo que você segura com todas as suas forças? interesses pessoais, idéias fixas, posicionamentos radicais, etc...

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

AUTOBIOGRAFIA - Continue com sua Autobiografia. Se não acabou de escrevê-la, amanhã é o último dia.

GRAÇA - Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de Jesus que se faz homem por minha causa para que possa amá-lo e seguí-lo mais de perto.          

PALAVRA DE DEUS - Mt 20,20-28

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que estímulos e defesas podem distorcer as motivações da sua opção?

 

 

AMANHÃ:

REPETIÇÃO - É BOM ESTARMOS AQUI

                               ESTÍMULOS E DEFESAS DIANTE DA OPÇÃO

35

 

O RISCO DA DECISÃO

 

 

            Seria impossível decidir ou optar por uma vocação sem o prévio itinerário que você acaba de percorrer, ou seja, “fazer-se livre”, “tirar as afeições desordenadas”, disposição de generosidade e de liberdade interior para acolher o projeto de Deus para você.

 

            A partir da oração de amanhã passará a considerar sua opção! Procurará reservar um tempo maior para fazer sua “Eleição”!

 

            Consideremos, na oração de hoje, que toda opção é uma tomada de decisão e que toda decisão pressupõe um risco, um misto de desejo e medo.

 

            Existe, na natureza humana, a tendência natural de ultrapassar o imediato, para arriscar novos horizontes; necessidade de afrontar o perigo, de tentar, de se aventurar. A isso chamamos de desejo.

 

            Mas existe também a tendência oposta, de se poupar e de se acautelar; a necessidade inata de evitar o perigo, de se afastar dos obstáculos, de repetir o passado. A isso chamamos medo.

 

            Desejo e medo são dois aspectos contraditórios, porém, sempre presentes.

 

            A necessidade de reagir, determina que é necessário superar, com tenacidade, as dificuldades, expôr-se à mudança, deixar-se desafiar.

 

            A necessidade de evitar o perigo, ordena fugir das situações embaraçosas, não se expôr, justificar-se.

 

            Tais necessidades são tendências inatas à ação, constituem-se numa quantidade de energia psíquica que impele a agir. Não podem, todavia, determinar a ação por si sós. São simples tendências, insuficientes para levar à ação. Não contém um sentido obrigatório de percurso, e sim, uma direção preferencial. Para que a ação tenha sequência faz-se necessário um ato de vontade.

 

            O assentimento à necessidade de evitar o perigo cria o medo, ao passo que o assentimento à necessidade oposta transforma-se em coragem.

 

            Uma das características profundas do ser humano consiste em desejar, ser confrontado com algo que supera a sua limitação, a sua finitude, a ordem sensível ou intuitivo-emocional. Este anseio pelo infinito toma conta de nosso espírito, sem entretanto, destruir o que de finito e limitado há em nós.

 

            Dai a dialética presente em nosso ser, entre o Infinito a que tendemos com nosso ideais e o Finito de nossa realidade. O ser humano é capaz de crescer e de regredir, de abrir-se e de fechar-se, de viver e de sobreviver. Estes dois aspectos não se excluem, antes são contemporaneamente ativos: trata-se de averiguar qual deles prevalece.

 

            O ser humano que confia é também o ser humano que teme: o ato de coragem contém, também, o medo. Esperança e dúvida, temor e coragem, criatividade e rotina, andam juntas.

            O que é que transforma a tendência em ação? De que modo a tendência ao medo torna um homem medroso, ao passo que, ao mesmo tempo faz que, num outro, predomine o desejo?

            A resposta está na força de atração dos valores e, principalmente, em sua capacidade de provocação. Os valores religiosos estimulam o ser humano a ir sempre além, a ousar e a esperar. Portanto, constituem um desafio para o medo e um incentivo para o desejo. Os valores funcionam como algo que elimina o medo e estimula o desejo.

            O ser humano torna-se medroso ou corajoso de acôrdo com o objetivo que ele próprio se propõe. De acôrdo com o quadro de referência escolhido, dará uma orientação diferente para suas tendências inatas: o chamado a uma vida mais elevada torna-o corajoso.

            O ser humano torna-se corajoso quando toma a decisão de arriscar.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

           

GRAÇA - Mostra-me, Senhor, o melhor caminho para seguir-te!

 

PALAVRA DE DEUS - Jo 6,60-71

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como se sente diante de um momento de decisão? Por quê?

 

36

 

ELEIÇÃO I

 

 

            Nos Exercícios Espirituais o processo de decisão recebe o nome de Eleição.

            A Eleição é um instante divino em que você, de modo pessoal e livre,  tocado pelo Espírito do Senhor,  discernindo as moções que Deus foi deixando no seu coração durante todo seu itinerário de oração, pode concretizar sua opção por uma vocação (matrimonial, sacerdotal, religiosa, leigo consagrado...)

            Para fazer uma boa Eleição, é preciso estar no estado de disponibilidade da “terceira pessoa” (TRÊS TIPOS DE PESSOAS) e do “2º modo de amar” (TRÊS MODOS DE AMAR). Se você não se sente livre para acolher ou deixar tal bem segundo agrade ao Senhor, ou sente que existe algum ponto do seu viver que não pode ser tocado, melhor seria esperar e amadurecer, voltando às meditações anteriores, sobretudo ao “FAZER-SE DISCÍPULO”, “OS DOIS CAMINHOS” e “TRÊS TIPOS DE PESSOAS”. Se você sente uma grande abertura, um grande amor, um grande apego ao Deus de Jesus Cristo e, por causa dele, é capaz de relativizar todas as outras coisas criadas, você pode entrar em eleição, ou seja, perguntar a Jesus qual é a sua vocação.

            No processo de decisão, “que o seu olhar seja simples”, isto é, que olhe sua decisão como um meio para realizar a finalidade de sua vida: louvor a Deus e serviço aos homens.

            Sua oração hoje será um Exercício de Eleição. É necessário dar um tempo maior e fazê-lo sem pressa, com calma e tranquilidade. Você deve seguir o método proposto, em clima de oração, na presença do Senhor, conversando com Ele, pedindo-lhe a graça...

            Há três modos pelos quais você pode conhecer qual é a sua opção. Esses diversos modos lhe ajudam a ter certa certeza sobre em que vocação pretende seguir a Jesus Cristo. No Exercício de hoje veremos o 1º e o 2º modo.

 

            1º MODO - A opção é sentida, percebida, com muita certeza, clareza, evidente. É algo repentino, decisivo, forte.  A pessoa não têm dúvidas. Algo semelhante aconteceu com São Paulo e São Mateus ao seguirem a  Jesus Cristo!

 

            Reflita um momento se sua situação é essa... A resposta só pode ser “SIM” ou “NÃO”.

 

            Você sente que isso acontece com você?

 

            2º MODO - É o modo da maioria das pessoas. A certeza e a clareza vêm através da experiência de consolações e desolações, da experiência do discernimento dos espíritos. É bom retomar as revisões da oração e estar atento aos sentimentos, apelos, resistências, etc. do seu processo de oração.

 

            Responda por escrito:

 

            1. Quando pensa que pode seguir totalmente a Jesus Cristo na vida de matrimônio, no mais profundo do seu coração,  diante do Senhor, que sentimentos têm?

            2. Quando pensa que pode seguir totalmente a Jesus Cristo como sacerdote, no mais profundo do seu coração, diante do Senhor, que sentimentos têm?

            3. Quando pensa que pode seguir totalmente a Jesus Cristo na vida religiosa, no mais profundo do seu coração, diante do Senhor, que sentimentos têm?

            4. Quando pensa que pode seguir totalmente a Jesus Cristo como leigo consagrado, no mais profundo do seu coração, diante do Senhor, que sentimentos têm?

 

            Releia os sentimentos que teve em cada uma das opções. Perceba:

 

            1. Quando pensa no matrimônio para seguir a Jesus, seu coração fica contente?

            2. Quando pensa no sacerdócio para seguir a Jesus, seu coração fica contente?

            3. Quando pensa na vida religiosa para seguir a Jesus, seu coração fica contente?

            4. Quando pensa em ser leigo consagrado para seguir a Jesus, seu coração fica contente?

 

            Onde você foi capaz de responder “SIM” parece que o Senhor o chama a seguí-lo nesta vocação. Mas, não se precipite...

            Amanhã faremos o Exercício sobre o 3º modo de fazer Eleição.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Mostra-me, Senhor, o melhor caminho para seguir-te!

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que sentimentos experimentou durante o exercício de Eleição?

 

 

37

 

ELEIÇÃO II

 

 

            Vamos continuar com a Eleição para encontrarmos realmente a melhor vocação para você seguir Jesus Cristo. Já vimos o 1º e o 2º modo. Hoje nosso Exercício será sobre o 3º modo.

 

            3º MODO - o discernimento se faz através da razão iluminada pela fé. É um tempo tranquilo. Nele se verifica os argumentos prós e contras sobre determinada vocação.

 

            Você deverá fazer o exercício por escrito. Tome uma folha para cada vocação: matrimônio, sacerdócio, vida religiosa, leigo consagrado. Em cada folha faça duas colunas, uma para as “razões a favor” e outra para as “razões contra”.  

 

            1. RAZÕES A FAVOR

 

            Você deve considerar e pensar quantas vantagens ou proveito decorrem para você, pelo fato de escolher tal vocação, olhando unicamente o serviço de Deus e dos irmãos.

 

            - Quais as razões a favor mais importantes, que você encontra para seguir Jesus no matrimônio? Escreva o maior número possível...                    

            - Quais as razões a favor mais importantes, que você encontra para seguir Jesus no sacerdócio? Escreva o maior número possível...                    

            - Quais as razões a favor mais importantes, que você encontra para seguir Jesus na vida religiosa? Escreva o maior número possível...                    

            - Quais as razões a favor mais importantes, que você encontra para seguir Jesus como leigo consagrado? Escreva o maior número possível...                      

 

 

            2. RAZÕES CONTRA

 

            Do mesmo modo, considere e pense nas desvantagens e perigos que decorrem para você, pelo fato de escolher tal vocação, olhando unicamente o serviço de Deus e dos irmãos.

 

            - Quais as razões contra mais importantes para viver sua vocação cristã no matrimônio? Escreva o maior número possível...

            - Quais as razões contra mais importantes para viver sua vocação cristã como sacerdote? Escreva o maior número possível...

            - Quais as razões contra mais importantes para viver sua vocação cristã na vida religiosa? Escreva o maior número possível...

            - Quais as razões contra mais importantes para viver sua vocação cristã como leigo consagrado? Escreva o maior número possível...

 

            3. Depois que assim refletiu e raciocinou sobre os “prós” e “contras” da escolha de uma vocação, pare um pouco sobre cada uma das folhas e verifique as duas colunas. Examine profundamente, com sua razão e inteligência, as razões a favor e as razões contra. Sinta para onde pende o seu coração, para onde se inclina... A favor... Contra...

            Escreva os sentimentos do seu coração sobre cada uma das vocações.

           

            4. Orando na presença do Senhor, releia os sentimentos que escreveu sobre cada uma das vocações, e perceba novamente:

 

            1. Quando pensa no matrimônio para seguir a Jesus, seu coração fica contente?

            2. Quando pensa no sacerdócio para seguir a Jesus, seu coração fica contente?

            3. Quando pensa na vida religiosa para seguir a Jesus, seu coração fica contente?

            4. Quando pensa em ser leigo consagrado para seguir a Jesus, seu coração fica contente?

 

            Onde você experimentou na oração consolação, alegria e paz, parece que Deus o quer nessa vocação!

            Amanhã, ainda teremos um exercício de Eleição!

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Mostra-me, Senhor, o melhor caminho para seguir-te!

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que sentimentos experimentou durante o exercício de Eleição?

38

 

ELEIÇÃO III

 

 

            Continuemos com a Eleição... 

 

            O Exercício deverá ser feito seguindo o roteiro, sempre em clima de oração, na presença de Deus, contando sempre com a sua graça e o seu Espírito.

 

            Procure responder, por escrito, a cada passo. Isso é muito importante!

 

            1. Em 1º lugar, lembre-se que o amor que move você a fazer ou escolher algo “deve vir do alto, do amor do mesmo Deus”, de maneira que, ao escolher um Caminho de vida esteja consciente que o faz somente pelo Senhor.

 

            2. Imagine um homem que nunca viu nem conheceu e a quem deseje toda felicidade. O que lhe diria que fizesse e que vocação o aconselharia escolher, para maior glória de Deus e serviço aos irmãos?

            Você seguiria para si o mesmo conselho que propôs àquele homem? O que lhe propôs?

            - a vida matrimonial?

            - o sacerdócio?

            - a vida religiosa?

            - ser leigo consagrado?

 

            Por que você escolheu para aquele homem essa vocação?

            Por que você escolheu para você essa vocação?

 

            3. Imagine que você está terminando a vida, às portas da morte, isto é, para apresentar-se diante de Cristo.  Como gostaria de apresentar-se diante de Cristo? Que caminho você teria seguido? Que opção gostaria de ter feito? Quereria ter escolhido...

            - a vida matrimonial?

            - o sacerdócio?

            - a vida religiosa?

            - ser leigo consagrado?

 

            Guiando-se, pois, por essa sua escolha, decida-se!

 

            4. Imagine que você está diante de Cristo, no dia do julgamento final. Vendo toda a sua vida, que teria feito Cristo em seu lugar? Qual vocação Ele lhe aconselha escolher? Ele escolheria para você...

            - a vida matrimonial?

            - o sacerdócio?

            - a vida religiosa?

            - ser leigo consagrado?

 

            A escolha que Cristo faria para você no dia do julgamento final, adote-a agora, para que naquele momento experimente inteira alegria e paz.

 

            5. Nesta altura, leve em consideração  a opção que você fez hoje com a que fêz nos outros exercícios de Eleição. Anote no seu caderno o que você está sentindo ou vivendo no mais íntimo do seu ser. Se você sente, frente à opção, paz, claridade, alegria... isso será sinal de que você optou bem. Ao contrário, se você se sente confuso, inquieto e triste em sua opção, isto indica que algo foi mal e que você terá que revisar o processo e voltar a eleger.

            O compromisso com Deus, ainda que custe, sempre lhe deixa, no interior do seu ser, profundamente satisfeito. O mar poderá estar agitado na superfície, mas no fundo encontra-se sereno; e isto é ação do Espírito.

 

            6. O discernimento e a opção que você acaba de fazer é o remate de uma caminhada, uma busca, na fé, da Vontade de Deus para você. Como conclusão, num clima de confiança, ofereça ao Senhor sua opção. Peça-lhe que se digne recebê-la e confirmá-la, isto é, que ele mostre de alguma forma que a aceita e concorda com ela.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Mostra-me, Senhor, o melhor caminho para seguir-te!

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Que sentimentos experimentou durante o exercício de Eleição?

 

 

 

1

 

COMO UM MANTO ESTENDIDO

 

 

            Começa uma nova Etapa... Trata-se de confirmar a Eleição. A Eleição só é válida quando vem do alto. Também sua confirmação deve provir do alto. Já não se trata da minha Eleição, mas “do que Deus quer de mim”. Deixemos que ele atue em nós, sem medo, sem impotências: foi a você, ser limitado, pobre e sem forças, que o Senhor confiou a sua Eleição.

 

            A confirmação não se avalia por resultados externos (dar certo, sucesso, etc), mas pelo fruto no coração. A confirmação é uma especial experiência de consolação interior dada por Deus a quem pede, percebida pelo discernimento das moções interiores.

 

             Como meio para conseguir esta confirmação se propõe a contemplação do Mistério Pascal: Morte e Ressurreição do Senhor.

 

            Essa terceira etapa dos Exercícios Espirituais visa fortificar e dar coragem, liberdade e convicção no seguimento de Jesus. Tomada a decisão, você começa a descobrir o preço da fidelidade no seguimento. Contemplar a Paixão de Jesus é dizer “sim” ao que Deus quer de você, aceitando os riscos imprevisíveis da sua opção.

 

            É a experiência do “doar-se e perder-se até a morte” por aquilo que se acredita e se ama. Experiência de uma identificação com o Cristo que sofre injustamente por ser fiel ao Pai, comprometido definitivamente com os valores do Evangelho. Experiência do Cristo pobre, humilde e humilhado que tem o rosto concreto dos pobres e dos excluídos da nossa sociedade.

 

            É tempo de pedir confirmação da sua opção!

 

            “Eis que vem o teu rei montado num jumentinho!” (Jo 12,15)

 

            Jesus se aproxima espontaneamente da Paixão, para consumar o mistério de nossa salvação.

 

            Está, pois, de livre vontade, a caminho de Jerusalém. Vem, mas não rodeado de pompa... Pelo contrário, vem manso e humilde, e se apresenta com vestes pobres...

 

            Os peregrinos eram acolhidos na Cidade Santa com uma saudação. Do mesmo modo, a multidão entoa um canto, onde Jesus é aclamado como o Rei-Messias, o enviado de Deus, aquele que traz enfim a paz prometida!

 

            “Hosana ao Filho de Davi! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus!” (Mt 21,9)

 

            Jesus, montado num jumentinho, quebra todas as expectativas do povo de um Messias triunfador e poderoso. Ele se apresenta como um rei humilde, humilhado, pobre e sofredor, que salvará o seu povo, não pela imposição da violência, mas deixando-se violentar, ele mesmo, para poder ser o primeiro a perdoar. Só assim, ele poderá trazer a paz!

 

            É assim que Jesus é aclamado como Rei. É enquanto Rei que Ele entra em Jerusalém para ser crucificado. Não lhe tomam a vida, mas é Ele quem a dá porque Ele é Rei.

 

            “Eu vim para servir, não para ser servido” (Mc 10,45)

 

            Jesus se apresenta a nós tão manso, Ele que é a própria mansidão, para vir e entrar em intimidade conosco e, tornando-se um de nós, erguer-nos e reconduzir-nos a ele.     

 

            Ouça a pergunta feita por todos: “Quem é este?”  Cada um de nós tem de dar uma resposta a esta pergunta. Somente pela fé somos capazes de dar uma resposta perfeita a esta pergunta. É unicamente pela fé que podemos enxergar a realidade profunda do mistério da pessoa de Jesus.

 

            Corramos juntos com Aquele que se apressa para a Paixão e, como os que foram ao seu encontro, estendendo no caminho seus mantos e ramos de oliveira, ofertemos a nós mesmos, prostrando-nos a seus pés como mantos estendidos.

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

CONFIRMAÇÃO - A sua Eleição deve receber “confirmação” da parte do Senhor. A confirmação não se avalia por resultados externos (dar certo, sucesso, etc.), mas pelo fruto no coração (Gl 5,22-25). Não é também uma sensação de alívio ou contentamento, nem o olhar que cai sobre uma passagem da Bíblia. A confirmação é uma especial experiência de consolação interior dada por Deus a quem a pede. Pode ser percebida de forma dramaticamente iluminativa, direta (mas é raro), ou pelo discernimento de consolações e desolações, caracterizada por: estarem centradas em Jesus; darem consciência realística do desafio e sofrimento envolvidos no eventual seguimento; senso de paz, mesmo na dificuldade; crescimento e confiança em Deus; humildade e dependência do Senhor; desejo acentuado de unir-se a Jesus pelo seguimento.

 

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

 

PALAVRA DE DEUS - Mt 21,1-11

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como é o Jesus que você tem descoberto até aqui, nesta Etapa do Retiro?

 

2

 

CORPO DADO E SANGUE DERRAMADO

 

 

            “Sou trigo de Deus, serei triturado para tornar-me o puro pão de Cristo” (S.Inácio de Antioquia)

 

            É próprio do coração do homem partilhar, com aqueles que ama, suas emoções, pensamentos e desejos. Participar de uma refeição com os amigos não é só partir e repartir a comida e a bebida, mas sobretudo partilhar o mais profundo que existe nos corações. É o próprio coração que se parte e reparte.

 

            Jesus, sabendo que sua vida estava chegando já ao fim, reuniu os seus companheiros, os seus amigos ao redor de uma mesa... Companheiro, aquele que come do mesmo pão, que comunga da mesma vida... A alegria em estar com os seus...

           

            “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna... Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e Eu nele” (Jo 6,56)

 

            O Mistério da Eucaristia, a chegada da hora de Jesus Cristo, a hora da entrega da vida verdadeira, o grande sinal do amor e fidelidade de Deus aos homens. Não é a celebração só da Paixão, mas de toda uma vida de amor, de entrega e de abertura para uma nova vida que é a doação contínua da vida.

 

            A entrega do Corpo e do Sangue do Senhor é um convite a que todos nós entreguemos continuamente a nossa vida pelos irmãos. A Eucaristia é o momento desse apelo de Deus para nós. Se você quer ter vida, dê a vida. O “segue-me” chega até aí.

           

            “Tomai e comei, isto é meu corpo!

          Tomai e bebei, isto é meu sangue!

          Fazei isto em memória de mim!”

           

            O Pai formou um Corpo para o seu Filho pelo Espírito Santo. O Corpo de Jesus! Um corpo que o situava, com o qual Ele se exprimia. Pelo corpo Jesus se doava inteiramente aos outros. Seu amor transparecia através dos olhos, do rosto, das mãos e no modo de andar. No Corpo de Jesus, formado pelo Espírito e não pela vontade do homem, o Pai manifestava à humanidade o seu Amor eterno. O Corpo do Senhor é manifestação do amor. É dom que o Senhor faz de Si mesmo, o dom total.

 

            Cada vez que ouvimos estas palavras na Eucaristia devemos pensar nos outros... Ser como Jesus: dar tudo sem tirar nada... “Fazei isto” é o esforço de sair de si, dos seus interesses, para pensar no bem do outro e se comprometer com a sua felicidade.

 

            Neste mistério podemos ver “até que extremo o Pai nos amou”!

 

            Aqueles que celebram a Ceia do Senhor, em espírito e verdade, levam para sua vida diária a prática da comunhão que aprenderam do Senhor: ser fermento no mundo, para que se torne justo e fraterno.

 

            Como pode ser que, após tantos anos de vida cristã, ainda nos limitemos a considerar a Eucaristia como simples cerimônia ou mera devoção entre tantas outras? Ela é o centro de tudo. É ela que transforma um cristão num homem que dá testemunho.

 

            Qual é a sua atitude, as motivações mais profundas do seu coração? Você vive para si ou para os outros? Você se encontra unido a Jesus e a seus irmãos mais necessitados? Ou você prefere tentar fazer sua vida sozinho?

 

            A Eucaristia é um convite a partilhar toda sua vida com todos os homens.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

VISITA AO SANTÍSSIMO SACRAMENTO - Poderia ajudar a rezar este mistério da Eucaristia fazê-lo em alguma igreja ou capela, diante do Sacrário, na presença eucarística do Senhor. Ou, então, dar algum tempo, durante estes dias, para visitar o Santíssimo Sacramento, com todo amor e reverência.

 

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

 

PALAVRA DE DEUS - Mt 26,17-30

           

REVISÃO DA ORAÇÃO - Você está disposto a partilhar não só o Corpo e o Sangue do Senhor mas, também, a sua própria vida?

 

 

 

AMANHÃ:

 

APLICAÇÃO DOS SENTIDOS - Você se lembra da “Aplicação dos Sentidos”? (Ver “A Mãe do Senhor vem a mim” - 2ª Etapa). Seria bom continuar aplicando-a durante os Exercícios de Repetição. Volte sobre as contemplações a serem repetidas procurando:

            VER - as diferentes pessoas e fatos contemplados. Algo ou alguém lhe move a um ato de fé?

            OUVIR - as diferentes palavras, mensagens. Dizem algo que você pode esperar como realidade em Deus no seu futuro?

            SENTIR - nas contemplações que você repete surgem atos de amor de Deus e dos outros? Moções?

            TOCAR - percebe-se algo dos mistérios contemplados da vida de Jesus que já são “seus” de algum modo?

 

REPETIÇÃO: COMO UM MANTO ESTENDIDO

                          CORPO DADO E SANGUE DERRAMADO

3

 

AMOU-OS ATÉ O FIM!

 

 

            “Jesus levanta-se da mesa, depõe o manto e, tomando uma toalha, cinge-se com ela, depois coloca água numa bacia e começa a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com a qual estava cingido” (Jo 13,4-5)

 

            Jesus, pegando os gestos de acolhida e serviço que se usava em seu tempo, lava os pés dos seus Apóstolos!  Você é convidado a colocar-se no meio deles, que têm os pés lavados, que recebem o incomparável serviço de Cristo.

 

            É preciso olhar para Jesus, ouvir o que Ele diz, ver o que Ele faz. As palavras e o gestos manifestam o mais profundo da pessoa humana. Jesus está todo inteiro na menor das suas ações, no menor dos seus gestos. Suas palavras são acompanhadas por atitudes e gestos concretos, não ficam vazias, sem sentido, sem convencer ninguém. Tudo nele manifesta o amor.

 

            O Criador se põe aos pés da sua criatura... Pede-lhe permissão para amá-la, pois nada pode realizar sem o consentimento dela... “Deixa-te lavar os pés...”

 

            E nós queremos sempre manifestar a Deus o nosso amor, sem entendermos que Ele nos amou primeiro. Trata-se de recebê-lo aos nossos pés para que Ele nos mostre com que amor Ele nos ama.

 

             Se não formos capazes de compreender o amor de Deus por nós, nos sentiremos mal, como Pedro: “Não, Senhor, jamais me lavarás os pés!” Pedro deixa Jesus lavar os pés sem compreender a sua iniciativa, o amor que o Criador tem para com a sua criatura, pondo-se aos pés de sua criatura.

 

            No Evangelho de São João, o lava-pés se dá durante a ceia. Portanto, Judas se achava ainda presente entre os Apóstolos, e Jesus também lhe lavou os pés; não obstante, Judas “não estava limpo”.

 

            No gesto do lava-pés, se oculta o Mistério do despojamento do Filho de Deus, que vem para servir e purificar...

 

            Jesus quer que seus discípulos aceitem e continuem esse ato de aniquilamento. Ao mesmo tempo que se coloca aos pés de sua criatura, Ele nos mostra com que amor devemos amar uns aos outros, pois cada pessoa é, no fundo, aquela mesma diante da qual Jesus se põe de joelhos, para que aprendamos por este gesto a grandeza do homem. Jesus se coloca de joelhos diante do homem para que descubramos a sua dignidade e nos amemos como Ele nos amou!

 

            “Se, portanto, Eu vos lavei os pés, também deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que como Eu vos fiz, também vós o façais”(Jo 13,14)

 

            Humildade não quer dizer que o inferior se disponha a prestar serviço ao superior. A verdadeira humildade é totalmente diferente; nela, o superior serve ao inferior. A humildade reveste-se da forma mais sublime, quando ela se curva diante do pecador, não como juiz, mas como Salvador e Libertador. Toda a vida de Jesus não é outra coisa senão esse único e sublime ato de verdadeira humildade.

 

            Colocar-se à disposição do outro é colocar-se também numa perspectiva de Reconciliação. Amar de verdade é viver na dimensão da busca do que une e nunca do que separa. Reconciliar-se, deixar-se lavar é condição para ter parte com Ele.

 

            O seguimento de Cristo pressupõe disponibilidade para o serviço fraterno. No Reino de Deus não cabem ambições de domínio e de fazer carreira. No discípulo de Jesus há de se prolongar e permanecer operante o sentimento de humildade.

 

            O Senhor está aos seus pés, e de todos os que sabem acolhê-lo!

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

 

PALAVRA DE DEUS - Jo 13,1-17

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - De quem você já lavou os pés? Quem já lavou os seus pés?

 4

 

FICAI AQUI E VIGIAI COMIGO

 

 

            Depois da esperança, da paz, da majestade da última ceia, a oração de Jesus no monte da Oliveiras mostra o aspecto doloroso que a Paixão tem para ele. A agonia no monte das Oliveiras é o momento mais obscuro para Jesus e para seus seguidores. Aqui aparece toda a verdade de sua humanidade, o que faz dele nosso irmão e nosso Salvador no mais profundo de nossa miséria.

 

            Na vida de todo homem existem momentos tristes e profundamente amargos. Momentos de profunda angústia e tribulação, quando a vida toda parece se desmoronar e perder o seu sentido. O homem se sente só...

 

            Jesus permanece fielmente humano, tateando na noite.  Quem está com ele: Pedro, que espera o Messias triunfante e chega mesmo a indicar-lhe caminhos; Tiago e João, que pedem o primeiro lugar...

 

            Momentos de medo, perturbação, inquietação...

 

            “...Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26,38)

 

            Jesus está triste. Esta tristeza de Jesus diante da sua morte nos ultrapassa. Diante de Jesus que afirma a sua tristeza, é melhor ficar em silêncio para ouvir a ressonância de sua voz.

 

            “... Meu pai, se é possível, afasta de mim este cálice!” (Mt 26,39)

           

            A uma hora atrás, Jesus acabara de oferecer o cálice de seu sangue, na última ceia. Agora Ele parece hesitar. Ele se pergunta se vai aceitar ou recusar.

 

            Jesus distingue com aterradora claridade duas vontades. Foi o momento da prova.

 

            Duas vontades enfrentadas violentamente: “o que eu quero” e “o que Tu queres”. Foi um momento horrível. Jesus desceu nesse momento até o último limite do homem. Nesses momentos, a nossa  tentação é por um Deus que se manifeste, que intervenha...

 

            Jesus hesita durante uma ou duas horas entre a recusa e a aceitação. Ele não recusa, mas sua aceitação é lenta e dolorosa. Jesus volta duas, três vezes aos discípulos, à procura de conforto. Pedro, Tiago e João estão por fora, e por isso dormem... Não o sono do cansaço, mas o sono que conhecemos, algumas vezes, em nossas vidas, o sono de fuga, quando se trata de tomar uma decisão que nos incomoda, para evitar encarar a realidade.

 

            Mas, além da própria morte, além do sofrimento, Jesus sabe que a Vontade do Pai é Vida. Se a Vontade do Pai se cumprir, a consequência não será a morte, mas a Vida, pois Deus não quer a morte. 

 

            “Meu pai, se não é possível que este cálice passe sem que eu o beba, faça-se a tua vontade!” (Mt 26,42)

 

            Por fim, Jesus se entregou como um filho submisso nas mãos do amado Pai com o “faça-se o que Tu queres”. Jesus está entregue ao único plano de Deus. Jesus abandona sua causa a um outro. Ele tinha amado com todo o seu ser, ele tinha servido a uma única idéia: glorificar o Pai no meio dos homens... Agora, ele abandona-se ao mistério da insondável bondade do Pai. E o abandono foi a libertação da “angústia e do terror”, e produziu na alma de Jesus os frutos habituais de todo abandono: consolação, paz, tranquilidade e sobretudo uma satisfação por ter feito o ato supremo de amor...

           

            “Chegou a hora: o Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores... Levantai-vos, vamos! Aquele que me trai está perto daqui” (Mt 26,45-46)

 

            Jesus foi muito sensível à amizade, mas nesta hora todos o abandonam...Quando todos o abandonam, sobra a pergunta: vale a pena?  Pois, o sofrimento não tem sentido. É algo de absurdo! Mas, aquele que segue Jesus na sua agonia, não se desespera, mas crê...

 

            “Feliz é aquele que nas aflições continua fiel. Porque sabem que quando a sua fé vence essas provações, vocês aprendem a ter mais paciência...” (Tg 1,2-4)

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

ESCRÚPULO - O escrúpulo consiste na dúvida que nos impede de decidir. Neste sentido, é uma derrota da liberdade que, prisioneira da dúvida provocada pelo mal, nem o derrota, nem consegue fazer o bem. O mau espírito procura confundir a pessoa, fazendo-a perceber erro em tudo ou, ao contrário, a dar menor atenção ainda a suas falhas. Reagir, em ambos os casos, implica buscar o meio termo e não o excesso contrário.

 

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

 

PALAVRA DE DEUS - Mt 26,31-46

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você experimenta “compaixão” de forma concreta na sua vida?

 

 

 

AMANHÃ:

 

REPETIÇÃO: AMOU-OS ATÉ O FIM!

                           FICAI AQUI E VIGIAI COMIGO

 

5

 

OS DISCÍPULOS O ABANDONARAM

 

 

            Jesus introduziu uma novidade total na vida das pessoas, inclusive no campo religioso. Jesus se distanciou da concepção vertical de um Deus que entra na história para corrigir, dominar; que discrimina entre puros e impuros. Ao contrário, proclama um Pai que vem em graça, que se aproxima dos impuros, dos estrangeiros, dos que a religião considera como pecadores.

 

            A morte de Jesus é o resultado do anúncio da Boa Nova. Tudo vai ficando escuro na vida de Jesus e o céu parece desabar. É a hora das trevas!

 

            Jesus Cristo não “sofreu” a Paixão no sentido de “suportá-la”. Ele a assumiu. Nossa atitude diante do sofrimento pode ser tríplice: de fugir, de rejeitar e de assumir. A fuga não é atitude e só acrescenta mais sofrimentos aos que já se tem. O suportar não é cristão. Só o assumir é cristão.

 

            Na prisão de Jesus, dois rostos se encontram: Jesus e Judas. Judas, um doz Doze, se torna guia para a companhia de soldados encarregada da prisão. Judas tinha mergulhado na noite, símbolo das trevas que habitavam nele... É sob a figura de Judas que agora avança na direção de Jesus o princípe deste mundo.

 

            Na cultura de Jesus, o beijo é sinal de afeto e comunhão. Por isso, é desgostosa demais a cena de Judas que beija Jesus para traí-lo. Que decepção! Amar, confiar e ser traído, abandonado e pisado por aquele que dorme na mesma casa e come na mesma mesa...

 

            A reação dos Apóstolos diante desta cena, a reação de Pedro:

 

            “... desembainhou a espada e feriu um servo do Sumo Sacerdote, decepando-lhe a orelha” (Mt 26,51)

 

            Porém, Jesus disse:

 

            “- Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão...” (Mt 26,52)

 

            Os Apóstolos queriam fazer alguma coisa! Pedro é generoso. Pedro ama o Mestre. Quer dar a vida por Ele. Porém, quer dar a vida defendendo-O, matando e lutando até morrer!

 

            Jesus reage à essa tentativa de violência praticada por Pedro. Jesus e os discípulos, que o seguem, não esperam a salvação da violência, e sim da força de um amor que cura e pensa as feridas da violência.

 

            Deixar-se prender. Não se defender. Deixar-se conduzir como a ovelha que se leva ao matadouro! É a vontade do Pai! É um Jesus obediente, que aceita livremente a Paixão e a transforma em dom, em revelação de amor.

 

            Pedro não compreende mais nada. Seu gesto manifesta uma última, profunda incompreensão do caminho do Messias, que não é o poder e sim o da livre doação, e que não se subtrai à fraqueza que marca o amor porque é precisamente na aceitação desta fraqueza que se cumpre o desígnio do Pai. Pedro tinha previsto tudo, exceto o que está acontecendo.

 

            Jesus sofre diante da violência injusta de uma prisão durante a noite, mandada pela autoridade, que mais parece uma captura, como se ele fosse um malfeitor perigoso. Ele é vítima de uma trama dos chefes, que por sua vez se revelam servidores de um poder obscuro, violento e mentiroso.

 

            Quando estaremos preparados para o inesperado como se fosse a coisa mais ordinária da nossa vida? Jesus está nos pedindo que nos preparemos para o inesperado!

 

            Jesus está com as mãos ligadas. Não se defende, deixa-se prender, Ele, o Todo-poderoso. Fraqueza, humildade de Deus.

 

            “Então, os discípulos o abandonaram e fugiram” (Mt 26,56)

 

            O que mais dói: se sentir abandonado por tudo e todos. Os planos que construímos, as obras que realizamos, os relacionamentos interpressoais mantidos parecem ruir. Não fica nada, apenas um coração partido, uma mente cansada e Deus.

 

            A glória de Deus se manifesta em Jesus que se deixa prender. Porém, para descobrir esta glória, precisamos de um olhar penetrante, do olhar da fé.

           

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

 

PALAVRA DE DEUS - Mt 26,47-56

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como se dá a presença da cruz na sua vida de seguimento de Jesus?

 

6

 

NÃO CONHEÇO ESTE HOMEM

 

 

            Jesus é trazido diante de Anás e Caifás na sessão noturna do Sinédrio. É a história de um homem levado a um tribunal de outros homens para ser julgado.  Jesus está diante daqueles que, oficialmente, representam a religião, representam Deus, diante do poder legítimo.

 

            Já se sabe desde o início que não existe saída. Ele já esta julgado: sua vida, o fato de não ser um sacerdote, mas leigo, e não situado dentro do sistema, do aparato religioso de seu tempo, fazendo uma crítica radical, gera a alternativa: ou o Deus de Jesus, da fé, ou o Deus da religião oficial estabelecida.

 

            Quando se lê hoje nos processos que muitas pessoas foram jugadas injustamente, sem possibilidade de prova ou defesa, é bom pensar em Jesus Cristo e ver o que ele sofreu. O tribunal não precisava de provas porque já o tinha condenado antecipadamente.

 

            Qual é a atitude de Jesus quando é acusado injustamente diante dos poderes religiosos? Cala-se! Depois, quando a pergunta essencial é feita, responde claramente e simplesmente que  Ele é o Filho de Deus.

 

            “Eu sou. E vereis o Filho do homem sentado à direita do poder de Deus, vindo sobre as nuvens do céu” (Mt 26,64).

 

            E depois de dizer o que tinha que dizer, Ele entra de novo no silêncio. Este silêncio não é desprezo, nem ódio, nem desforra. Jesus não julga. Disse o que o Pai lhe mandou dizer e agora entra no silêncio.

 

            São dois modos para chegar a Deus... Para os judeus, é por práticas privilegiadas (culto, sacrifícios, ritos), lugares especiais (Templo). Para Jesus, é pelas pessoas, particularmente os excluídos e rejeitados pelo sistema, mesmo que religiosamente diferentes.

 

            Olhemos agora para Pedro... Ele segue Jesus de longe, para ser fiel à sua promessa de fidelidade corajosa. Mas quando Pedro se acha descoberto e suspeito de aderir ao grupo de Jesus, como galileu, a coisa se torna perigosa e ele nega a sua qualidade de discípulo. É o homem que, querendo ser fiel a Deus baseado em sua própria força, acaba sendo infiel.

 

            De uma parte o amor e o dom de Cristo, a coragem de Jesus no testemunhar sua missão, de outra, a infidelidade e a fraqueza do discípulo. A coragem de Jesus tem sua origem na comunhão com o Pai, a fraqueza do discípulo na presunção de si.

 

            Olhemos para nós e não tanto para Pedro. Todo homem é assim. É como se Jesus nos dissesse: “Fui Eu que escolhi você. Você deveria confiar mais em mim e não em sua própria força. Aprenda isso de uma vez para sempre”.

 

            “Pedro recordou-se do que Jesus lhe dissera: Antes que o galo cante, negar-me-ás três vezes”. E saindo chorou amargamente” (Mt 26,75)

 

            Nós somos sim e não. Através de nossa fidelidade-infidelidade perpassa a fidelidade de Deus. O que interessa é a mudança de Pedro, que, nesse momento, recorda a “palavra do Senhor”. É esta palavra que suscita o seu arrependimento.

 

            “Bem-aventurados os que choram porque serão consolados” (Mt 5,4)

 

            Assim, Pedro torna-se o modelo dos que se convertem. Ele redescobre o seu Senhor após a experiência do medo e do escândalo diante da humilhação de Jesus.

 

            Veja a atitude de Jesus e aprenda a não se preocupar tanto com procurar defesas. Não somos chamados a defender-nos ou a julgar os outros, mas a testemunhar o amor de Deus em todas as partes e por todas as pessoas.

 

            Exercite hoje a oração despojada... Não se preocupe com conclusões nem com muitas idéias. A resposta já está dada.  Aprofunde sua experiência de vazio e solidão. É abandonado por todos, traído por Judas, negado por Pedro... O importante é assimilar tudo sem pressa...

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

 

PALAVRA DE DEUS - Mt 26,57-75

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Sua opção vocacional continua se confirmando? Que sinais parecem surgir?

 

 

 

AMANHÃ:

 

REPETIÇÃO: OS DISCÍPULOS O ABANDONARAM

                           NÃO CONHEÇO ESTE HOMEM

 

7

 

QUE MAL FEZ ELE?

 

 

            A contemplação e oração que você está fazendo pretendem duas coisas: penetrar no mais profundo do sentimento de Jesus para captar melhor seu amor por você e por todos os outros homens e olhar a paixão da humanidade que hoje sofre, padece, é torturada e crucificada para que tome uma atitude corajosa diante de tal situação.

 

            Os chefes judeus conduzem Jesus ao governador Pilatos. Diante de Jesus estão os judeus e Pilatos.

 

            Pretendendo eliminar Jesus, preparam acusações políticas mentirosas e descaradas. Acusam Jesus de uma atividade subversiva por dois motivos: por se proclamar Messias, título que para efeitos políticos equivale ao de rei; e por motivos político-religiosos, convidando o povo a boicotar os romanos, recusando o tributo. A acusação é muito grave, porque faz de Jesus um rebelde, punível por alta traição.

 

            Pilatos interroga Jesus acerca da acusação principal: “Tu és o rei dos judeus?”. Jesus não nega, mas afirma que é Rei. No entanto, Jesus é um Rei diferente, que vive para servir, não para ser servido. Sua idéia de Rei é diferente de Pilatos, dos chefes judeus, do povo... “Eu não acho neste homem culpa alguma”...

 

            Os judeus e Pilatos chantageiam-se mutuamente, e a chantagem é possível porque ambos estão fechados ao dom de si; salvar sua pele lhes importa mais que a verdade.

 

            Pilatos envia Jesus a Herodes, pois Jesus era da Galiléia. Herodes tinha se interessado por Jesus, primeiro por curiosidade, depois com intenção hostil. Mas agora, no encontro final com Jesus, a sua curiosidade ficou decepcionada. Para Herodes Jesus não passa de um coitado, um visionário, um idiota pretendente ao trono...

 

            Pilatos e Herodes se convencem da inocência de Jesus, mas o poder, por não ter a verdade como sua última instância, não hesita em pisotear o inocente. O poder leva em si uma dinâmica de opressão que não é concebível no Reino de Deus. Quantos Pilatos e quantos Herodes existem, ainda, na nossa história!

 

            A morte de Jesus situa-se no final de uma série de infidelidades contra o projeto de Deus.

 

            Os judeus se solidarizam com o agitador e homicida Barrabás e pedem sua libertação, enquanto para o inocente Jesus reclamam em altos brados a morte de cruz... Pilatos, por fim, se faz covarde e cúmplice dos judeus, e cede à pressão do povo e entrega Jesus à morte.

 

            A paixão de Jesus é um pouco a paixão de nosso povo, que vive e sofre sem comover a ninguém, sem impressionar nossa sensibilidade. O homem, que foi criado para ser irmão dos outros homens, converteu-se, pelo seu egoísmo, em inimigo e assassino do seu irmão.

 

            Como Jesus, hoje, também milhares de nossos irmãos são condenados à exclusão. Muitos, devido à estrutura de nossa sociedade, não podem participar dos bens necessários para uma vida digna: falta casa, trabalho, saúde, educação. Enfim, temos muitos irmãos que não se sentem gente, tal é a situação em que vivem. Milhões de pessoas diariamente se defrontam com o problema da fome... São pobres, não têm saúde, inspiram medo, enfeiam a cidade, sofrem todo tipo de violência e quando morrem são entrerrados como indigentes.

 

            Os pequeninos, os marginalizados, os velhos, os doentes, os prisioneiros, não têm nada para lhe dar, somente eles, só. Por isso eles desafiam e incomodam o nosso amor. O amor que ama sem olhar o que o outro possui é amor verdadeiro. O que deve ser amado é o homem, aquilo que ele é!

           

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

 

PALAVRA DE DEUS - Lc 23,1-25

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você carrega a sua cruz de cada dia?

           

8

 

ESCURECEU-SE O SOL

 

 

            “Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto” (Jo 12,24)

 

            O caminho agora é este... não há retorno. Há na existência situações a partir das quais não se pode mais voltar, momentos em que não se pode mais recuar. A morte está ao final do caminho! Jesus bem o sabe!

 

            Neste caminho aparece a Cruz! A Cruz é gloriosa para quem tiver este olhar de fé para contemplar nela o Corpo do Senhor. Na Cruz Cristo manifesta a totalidade do seu Amor. A Cruz que Ele toma é o homem, a pessoa; não só a humanidade sofredora mas a humanidade inteira.

 

            “... Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu na sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de Cruz...” (Flp 2,6-8)

           

            Jesus vai morrer fora de Jerusalém, a Cidade Santa, que antes o aclamava como Rei. Ele não é orgulhoso no seu sofrimento. Sabe ter necessidade do outro. Aceita a ajuda de um estrangeiro, Simão Cireneu. Ele consola as mulheres de Jerusalém, cheio de ternura e misericórdia. Ele não olha para si e sim para os outros!

 

            Quem é Simão Cirineu, hoje? Quem são as mulheres de Jerusalém? Quem são os príncipes dos sacerdotes? Quem são os malfeitores? Quem é o centurião? Quem é o bom ladrão?

 

            Jesus é despojado de tudo. Só resta nele sua fé no Pai e o seu amor por todos nós.

 

            “Pai, nas tuas mãos entrego o meu Espírito!” (Lc 23,46)

 

            Por um breve momento, o pecado arrancou do mundo a verdade, a justiça, o amor, a liberdade, a vida, a luz, a alegria, a esperança... Jesus! Foi pisado, triturado, esmagado!

 

            “Alma de Cristo, santificai-me.

             Corpo de Cristo, salvai-me.

             Sangue de Cristo, inebriai-me.

             Água do lado de Cristo, lavai-me.

             Paixão de Cristo, confortai-me.

             Ó bom Jesus, ouvi-me.

             Nas vossas chagas, escondei-me.

             Não permitais que me separe de vós.

             Do inimigo maligno, defendei-me.

             Na hora da minha morte, chamai-me.

             E mandai-me ir para vós.

             Para que vos louve com os vossos santos

             Pelos séculos dos séculos. Amém!”

 

            A Paixão de Jesus purifica toda vaidade, todo orgulho, toda sensualidade. Deixe-se interpelar, mais uma vez, pelo amor de Jesus. Será que sua vida não poderia ser um pouco mais austera, mais simples, mais verdadeira? Medite um pouco nas consequências trágicas da mentira e do pecado.

 

            A Paixão de Jesus continua acontecendo cada ano, em cada cidade, nos prostíbulos, nalgumas delegacias, nas fábricas... acontece com os pobres, com os posseiros, com marginais e estudantes, com mulheres da vida... A Paixão de Jesus Cristo é a paixão da humanidade que sofre, violada e explorada, nos seus direitos. Nos porões da humanidade, milhões de irmãos que não têm voz, que não têm nome, continuam sofrendo a paixão de Jesus Cristo.

 

            Que é que você faz diante deste drama? Que faz diante de semelhante paixão? Participa? Crucifica? Omite-se? Cala-se? Foge?

 

            Não podemos fechar os nossos olhos diante dos sofrimentos e injustiças que sofrem os homens. Será que Jesus morreu à toa?

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

 

PALAVRA DE DEUS - Lc 23, 26-49

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como a Paixão de Jesus, e a de tantos irmãos, move o seu coração e os seus braços para uma vida misericordiosa?

 

AMANHÃ:

 

REPETIÇÃO: QUE MAL FEZ ELE?

                              ESCURECEU-SE O SOL

 

9

 

AS ÚLTIMAS PALAVRAS

 

 

            Você se lembra do 3º modo de amar? É isto: aceitar o Cristo Sofredor. Já não se trata apenas de evitar o pecado, mas sim de aceitar a graça e o dom de ter a sorte do Cristo humilhado e sofredor.

 

            A contemplação do Cristo em seu mistério de dor e sofrimento nos ensina a compreender que o sofrimento faz parte de nossa vida. Não temos que buscá-lo mas sim assumí-lo numa atitude de solidariedade com todo homem sofredor.

 

            Na vida de Jesus Cristo existiu um caminhar para o Pai, em atitude de entrega e serviço aos irmãos. Todo o caminho de Jesus entre os homens foi uma "Via Sacra", um caminho santo, na qual em cada momento, pode-se contemplar sua fidelidade à Vontade do Pai.

 

            Olhe a sua própria Via Sacra! Sua vida é "sacra", santa? Qual a sua atitude diante dos acontecimentos e das pessoas? Para onde você olha: para si mesmo ou para os outros? Qual a sua atenção aos que encontra no caminho? Para você, agora é o momento da transformação de sua vida em Via-Sacra, caminho santo e santificado pelo de Jesus Cristo.

 

            Recordemos, nesta oração de hoje, as sete últimas palavras de Jesus na cruz. Deixe que elas ecoem em sua vida e o questionem.

 

1. “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34).

 

            Em contraste com o comportamento dos soldados, dos chefes e também da multidão, Jesus invoca sobre todos o perdão do Pai. A invocação de Jesus é a última proposta de conversão oferecida a seus perseguidores.

 

2. “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43)

 

            Jesus na cruz não salva a si mesmo, mas aos pecadores que se convertem e confiam nele. Dessa forma, Ele revela o rosto salvador de Deus. Deus é salvador não porque O tira da cruz, mas porque permanece fiel ao amor também na situação mais extrema. O bom ladräo defende Jesus e reconhece a sua inocência, e depois proclama a sua total confiança nele. Então o pecador arrependido pode escutar a "Boa Nova", a salvação que consiste na comunhão com Jesus no Reino de Deus. Para Jesus não há situação humana de miséria e de pecado que exclua alguém da salvação: também para o bandido que morre há esperança de futuro.

 

3. “Mulher, eis aí o teu filho. Eis aí tua Mãe “(Jo 19,26-27)

           

            Jesus, na Cruz, dá o que tem de mais preciosa, a sua Mãe, ao discípulo amado, João, que a levou para sua casa. A Mãe de Jesus torna-se a Mãe do discípulo e de todos os discípulos. O discípulo amado representa todos os discípulos de Cristo, a Igreja. Assim, a Mãe de Jesus, perto da cruz de seu Filho, tornou-se a Mãe da Igreja.

 

4. “Tenho sede” (Jo 19,28)

 

            Jesus é Aquele que dá a água da vida. Pede, mas para dar. Jesus pede de beber, mas de seu lado aberto sairão sangue e água.

 

5. “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34)

 

            Não é um grito de desespero, pois o Pai não se alegra vendo seu Filho sofrer. É uma oração de súplica, o primeiro versículo do Salmo 22, um salmo portador de uma esperança de salvação para todos os homens e para todos os que morrem. Jesus se oferece aos homens como Salvação!

 

6. “Tudo está consumado” (Jo 19,30)

 

            Não significa que chegou o fim, mas sim, que a Vontade do Pai foi realizada, em tudo e perfeitamente. E a vontade que o Pai confiou ao Filho era levar ao fim a sua obra: a revelação do amor. Amor que tem sua origem na comunhão entre Pai e Filho e sua realização humana na fraternidade humana. A cruz é o momento do cumprimento da missão de Cristo, na qual tudo é desvelado e levado à plenitude.

 

7. “Pai, nas tuas mãos entrego o meu Espirito” (Lc 23,46)

 

            A vida de Jesus foi uma contínua entrega nas mãos do Pai, para fazer a sua vontade e ser fiel à sua Missão. O que o Pai queria era que Jesus, em qualquer momento e circunstância, boa ou adversa, da sua vida, fosse capaz de permanecer fiel. Na hora da morte Jesus, fiel até o último momento, se entrega totalmente a seu Pai, como para dizer-lhe: "Sim, Pai!".

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

VIA-SACRA - Hoje ou nos próximos dias, você pode achar útil fazer toda a Via-Sacra. Procure uma igreja ou capela onde possa percorrer as “estações”, voltando sobre os acontecimentos da Paixão do Senhor.

 

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

 

PALAVRA DE DEUS - Mt 27, 32-56

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você percebe as consequências da sua opção vocacional na sua vida concreta?

 

10

 

A FIDELIDADE DE JESUS NOS CONFLITOS

 

 

            “Não vim trazer a paz, e sim a espada” (Mt 10,34)

 

            Tudo o que Jesus faz - suas atitudes, seus gestos, suas palavras - revelam uma nova visão das coisas, um novo ponto de partida, uma nova ordem, um novo projeto.

 

            Vivendo e anunciando a Boa Nova do Reino, Jesus vai provocando conflitos. Encontramos o conflito já no centro do mistério da Encarnação:

 

            “Ele veio para os seus, mas os seus não o receberam” (Jo 1,11)

 

            Jesus não buscou o conflito (já que trazia uma mensagem de misericórdia e fraternidade) mas conheceu uma das experiências conflitivas mais dramáticas da história humana.

 

            Jesus se tornou um sinal de contradição porque permaneceu absolutamente fiel a uma mensagem, a um modo de agir e a uma missão que havia recebido do Pai e que devia realizar com critérios e opções coerentes com o conteúdo do seu Evangelho.

 

            Falar em conflito na missão de Jesus é o mesmo que falar de Fidelidade de Jesus. O que tem valor em sua vida é seu Amor Fiel, e não os conflitos em si mesmos.

 

            A dimensão conflitiva da fidelidade de Jesus à missão é o resultado do confronto entre sua missão (que anuncia a justiça do Reino e as Bem-aventuranças), e a realidade que não quer ouvir e rejeita a novidade do Reino. Jesus não cria conflitos, Ele os revela e os constata, ao dar testemunho das exigências do Amor.

 

            Combatido e puxado por todos os lados, Jesus resiste fiel a algo que está dentro d’Ele, só n’Ele e no mais profundo do povo pobre e sofrido. É aquela semente de resistência de que fala o profeta Isaías:

 

            “Machucado não machuca, injustiçado não responde com injustiça, quebrado não quebra” (Is 42,1-4)

 

            No fim, ficou só e abandonado, exatamente como o povo de seu país.

 

            Morre abandonado, soltando um grito (Mc 15,37). É o grito dos pobres!

 

            Morre acreditando que Deus ouve o grito dos pobres.

 

            Morre acreditando que a vida pisada é mais forte que o poder que a pisa, mais forte que a morte.

 

            Morre acreditando que Deus liberta o seu povo com Poder Criador que vence a morte. E no “terceiro dia” o Pai o ressuscitará.

 

            O conflito faz parte da vida do cristão; ele vive na luta.

 

            O conflito perpassa nossa vida pessoal e comunitária; não é acidente de percurso, é permanente.

 

            O conflito é um instante difícil, de parada, de mal-estar, de busca sofrida, mas é importante para purificar as pessoas, revigorar a mística e ressaltar os valores e ideais de vida.

 

            O conflito é um momento de redifinição, de adequação à realidade e de crescimento em todas as dimensões.

           

            Há pessoas que dissimulam o conflito para salvar a aparência da unidade. Outros recorrem ao poder. Eles eliminam o conflito, abafando, reprimindo, afastando os que causaram o conflito...

 

            Aprendemos a ignorar os conflitos, mas raramente a enfrentá-los.

 

            Como transformar o conflito em fonte de fé, esperança e amor? Como crescer e amadurecer no conflito? Como viver o Evangelho no conflito?

 

            No Evangelho, conflito e crise são dados que marcam o itinerário da maturidade do seguidor de Jesus. Não há maturidade e crescimento pessoal sem passar pelas “crises conflitivas” de crescimento, de aprendizado e de educação para a liberdade.

 

            O conflito leva à maturidade e pressupõe maturidade para ser assumido e superado.

 

            A Espiritualidade é a resposta que damos às crises e aos conflitos; é o modo como assumimos, é o sentido que lhes damos...

 

            Deus também se revela no conflito. Nos conflitos há uma manifestação do Espírito (fogo, dinamismo...). O conflito é um “ensaio de esperança”, uma certeza de que o Espírito “renova todas as coisas sobre a face da terra”. O conflito é certeza da novidade que vem. Por isso exige um discernimento permanente.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

 

PALAVRA DE DEUS - Is 52,13­ - 53,12

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Qual é a sua experiência de perdão?

 

 

AMANHÃ:

 

REPETIÇÃO: AS ÚLTIMAS PALAVRAS

                          A FIDELIDADE DE JESUS NOS CONFLITOS

 

11

 

ENVOLVERAM-NO EM PANOS

           

 

            "Essa cova em que estás com palmos medida

             É a conta menor que tiraste em vida.

             É de bom tamanho, nem largo nem fundo

             É a parte que te cabe deste latifúndio.

             Não é cova grande , é cova medida

             É a terra que querias ver dividida.

             É uma cova grande pra teu pouco defunto

             Mas estarás mais ancho que estavas no mundo.

             É uma cova grande pra teu defunto parco

             Porém, mais que no mundo te sentirás largo.

             É uma cova grande pra tua carne pouco

             Mas a terra dada não se abre a boca" (João Cabral de Melo Neto)

 

            O que nós vimos em Jesus no momento do sofrimento é que o amor triunfa efetivamente sobre o pecado, dor, morte. E ele se torna para nós "caminho" para que também triunfemos sobre o pecado, dor, morte, e até mesmo sobre o medo destas realidades, se nos associamos a seu Amor incondicional.

 

            Através da compaixão, encontramos significado para nossos próprios sofrimentos, na medida em que, à luz da cruz do Senhor, eles são identificados como consequência da doação amorosa, do sair de si por causa dos outros.

 

            Esse dia você vai passar junto ao sepulcro. E você o poderá passar como os Apóstolos talvez o tenham passado, com Maria e todos eles, entre si, relembrando os acontecimentos em que tomaram parte na vida de Jesus.

           

            "Maria da noite escura, ó Mãe, Mãe da solidão

             Teu filho morreu, morreu numa cruz

             Teu filho morreu, morreu por amor!

 

            Maria da noite escura, ó Mãe, Mãe da solidão

            Eu quero saber, saber o porquê

            Por que faz sofrer o Amor ao morrer!"

 

            O sepultamento de Jesus foi realizado de maneira apressada por causa do descanso do sábado judaico. O autor deste último gesto de piedade humana para com Jesus é um dignitário judeu, pertencente talvez ao grupo dos nobres anciãos, membro do Sinédrio, rico proprietário, originário de Arimatéia, que pode dispor em Jerusalém de um túmulo talhado na pedra.

 

            José de Arimatéia é um homem justo, porque dissociou-se de seus colegas no julgamento contra Jesus, e vive à espera do Reino de Deus. É um homem aberto ao futuro e à esperança.

 

            "Ele o desceu da cruz, envolveu-o num pano de linho, e colocou-o num sepulcro, escavado na rocha, onde ninguém ainda o havia sido depositado..." (Lc 23,53)

 

            Jesus teve um sepultamento digno e honrado num sepulcro novo, como convinha ao Senhor. Antes, as mulheres que sempre seguiram a Jesus desde a Galiléia preocuparam-se em terminar o embalsamento logo após o repouso do sábado, providenciando desde a tarde da sexta-feira os óleos e aromas.

 

            Para que todos possam ter vida em abundância, é necessário que sepultemos todo egoísmo, todo o ódio, toda a ganância e exploração.

 

            As mulheres fiéis, que seguiam a Jesus, observam a sepultura... É uma vigília de espera...

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

 

PALAVRA DE DEUS - Lc 23,50-56

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você relaciona as “cruzes” da vida com a experiência da cruz de Jesus?

12

 

QUE FOI, POVO MEU, QUE TE FIZ?

 

 

            Hoje e amanhã você vai fazer uma repetição de toda a Paixão de Jesus. Trata-se, mais do que contemplar as ações externas de Jesus - seus gestos e palavras - de descobrir nelas o Coração de Cristo, as motivações profundas pelas quais Ele caminhou através da solidão e do abandono a um total despojamento de si mesmo, até a morte de Cruz.

 

            Diante do projeto do Pai, pergunte-se sobre a sua Eleição: ela se mantém diante do sofrimento, sobretudo quando este sofrimento é aquele do Senhor?

 

            Olhe para Cristo para deixar-se transformar interiormente pela contemplação de Cristo na sua Paixão. É pela contemplação de Cristo na sua Paixão que chegaremos à transformação que desejamos. Esta contemplação nos transformará mais que todos os esforços que podemos fazer.

 

            Nessa Etapa aprofundamos o que temos recebido, através de uma fé concreta na pessoa de Jesus Cristo. Diante do Cristo que sofre, saímos das nossas imaginações e fantasias, para nos colocarmos diante de um Cristo real e concreto.

 

            Na sua contemplação contemple a liberdade de Jesus. É ele que, livremente, se aniquila, humilhando-se até a morte. 

 

            Entre silenciosamente na sua oração para deixar-se impregnar e receber o que Deus quer lhe comunicar.

 

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

 

PALAVRA DE DEUS - Jo 18, 1-40

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Diante das cruzes do caminho, quais são as suas palavras e gestos?

 13

 

UM CORAÇÃO ABERTO

 

 

            Você continuará hoje a sua repetição da Paixão do Senhor, fazendo o que fizeram Maria, João, Pedro, Madalena, Marcos, José de Arimatéia, e todos os discípulos naquele sábado posterior à morte de Jesus. Eles voltaram muitas vezes sobre os acontecimentos dos dias anteriores.

 

            Continue contemplando o Amor de Jesus Cristo aos homens. Ele não se preocupa consigo, ao passo que nós sofremos sempre a tentação de nos fecharmos em nós mesmos, de olharmos muito para nós quando estamos doentes, aflitos, preocupados... E, além disso, queremos ser o centro das preocupações dos outros. Olhe para o Pai, olhe para Cristo e olhe para os irmãos.

 

            Que sua oração o ajude a penetrar mais profundamente no Mistério, descobrindo o sentido da glória de Deus manifestada na Cruz de Cristo.

 

PARA AJUDAR A REZAR:

 

GRAÇA - Senhor, dai-me a graça de sentir compaixão por Ti, que sofre por causa de mim.

 

PALAVRA DE DEUS - Jo 19, 1-42

 

REVISÃO DA ORAÇÃO - Qual o fruto que você conseguiu nessa Etapa?

 

Jesus Ressuscitou!

Vamos avançando no nosso Retiro... Entramos hoje na nossa última Etapa... O nosso processo de conhecimento do Senhor e de identificação com Ele ficaria incompleto sem esta nova Etapa: a contemplação do Mistério de Jesus Ressuscitado. A Ressurreição é a vitória do amor! De fato, a experiência da Ressurreição deve ser o Centro, o ponto culminante deste Retiro. A Cruz não é a última palavra de Deus. A Ressurreição mostra que a Cruz é o primeiro passo para a vida: "Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto" (Jo 12,24) Se a Paixão foi o "SIM" do Crucificado ao Pai, a Ressurreição foi o "SIM" do Pai ao Crucificado. É a confirmação da Pessoa, da obra e da mensagem de Jesus de Nazaré. A Ressurreição é a realização do anúncio de Jesus de total libertação, inclusive da morte. Trata-se de uma vitória solidária. Cristo abre possibilidade para que todos nós ressuscitemos. Jesus vem dar uma resposta ao eterno problema do pós-morte: "Eu sou a Ressurreição!" Para Jesus o Amor tem a última palavra. Por isso tem sentido a luta, o sofrimento, o trabalho pelo Reino... tudo é transformado. Apesar de tantos sinais de morte, a Ressurreição já se faz presente e atuante em nosso meio. Onde há serviço, compromisso com o outro, comunhão entre as pessoas, luta em favor da justiça... aí já está presente a Ressurreição. O cristão é chamado a ser Testemunha da Ressurreição, a ser sinal de Vida. Crer na Ressurreição significa compromisso com o Reino de Deus hoje. Vamos rezar nestes dias sobre as "aparições" de Jesus. Elas não devem ser reduzidas a fenômenos místicos, algo de miraculoso, de extraordinário, tornando-se visível a certas pessoas. São sobretudo a manifestação da divindade na humanidade de Jesus, expressão de um "caminhar na fé", que progressivamente acolhe o Cristo como vivo, e participa da libertação que traz consigo o Ressuscitado. De fato, Cristo não apareceu a ninguém que não tivesse fé. Segundo o ritmo das resistências e maturação da sua fé, o Ressuscitado se manifestou, mais ou menos claramente, à Madalena, às mulheres, a Pedro, aos discípulos de Emaús, aos apóstolos reunidos, a Tomé... As aparições constituem portanto a experiência pessoal, na fé do Cristo Vivo, de não procurá-lo mais entre os mortos; experiência que é acompanhada essencialmente da libertação de tudo aquilo que poderia prender até aqui a pessoa. Libertar para uma adesão mais total ao Cristo, ao amor e à vida eterna. Continuemos, na nossa oração, na atitude de escuta que é a de aceitação da revelação tal qual ela nos vem de Jesus Cristo. A atitude de escuta exige atenção e profundidade de oração. Peçamos a graça de viver a dimensão do Cristo ressuscitado. Isso exige grande despojamento e vivência nova na realidade da fé. Somos chamados a olhar para a frente... Cristo aparece às mulheres e a Madalena: elas correm anunciá-lo aos outros... Cristo espera os Apóstolos na Galiléia: ele vai à frente deles...
PARA AJUDAR A REZAR
TEMPO DE ORAÇÃO - Proponho que, nesta Etapa, você reduza um pouco seu tempo de oração. Coloque-se, nesses dias, numa atitude de celebração: busque cores e músicas alegres, faça coisas que possam fazer os outros felizes.
GRAÇA A PEDIR - Senhor, dá-me a graça de alegrar-me intensamente com a alegria e a glória da Tua Ressurreição.
PALAVRA DE DEUS - Marcos 16,1-11
REVISÃO DA ORAÇÃO - Quais as experiências de Ressurreição na sua vida?

Ele não está aqui!

A Ressurreição é um mistério no sentido pleno da palavra. Não podemos explicá-la, apesar de crermos nela. A Ressurreição é um mistério com que devemos aprender a viver. Se não podemos dizer o que é a Ressurreição, digamos pelo menos o que ela não é! A Ressurreição não significa que Cristo só continua vivendo na nossa lembrança, porque mantemos vivas entre nós as suas lembranças, transmitindo-as uns aos outros, de modo que o seu nome nunca desaparecerá deste nosso mundo. Se fosse assim, Cristo estaria vivo graças a nós, quando somos nós que vivemos graças a Ele. A Ressurreição não significa que dá para a gente viver, e até mesmo viver feliz, encarando a morte. Não há nem céu e nem inferno. Encontraremos a felicidade e a liberdade nesta terra. Aqui é o céu! Não há nenhum mistério na Ressurreição! Ora, diz S.Paulo, "se temos esperança em Cristo tão somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens" (1Cor 15,19) A Ressurreição não consiste na simples volta de um falecido à vida terrestre, como o caso de Lázaro. Não é este o caso de Jesus. Lázaro voltou da morte à vida e tinha de morrer de novo. Cristo não voltou à vida, mas entrou numa vida nova, atravessando a morte. Ele já não tem a morte diante de si. A Ressurreição é uma vida nova, sobre a qual a morte já não tem domínio. Esta deve ser a causa de nossa alegria. Era isso que contagiava as pessoas na Igreja primitiva, porque os primeiros discípulos viviam uma relação pessoal com Cristo, na qual a Ele se confiavam sem reserva. Os Apóstolos eram testemunhas da Ressurreição. Irradiando a alegria e a fé no Senhor Ressuscitado, somos verdadeiros Apóstolos, seja qual for o trabalho que fazemos. A oração desta etapa é uma oração para pedir a alegria. Esta alegria se encontra no Cristo Ressuscitado que vive em nossos corações pela fé. É também toda a criação renovada, o Paraíso reencontrado. Não se contempla a Ressurreição do Senhor pensando em si mesmo ou em seu proveito próprio. Nos alegramos por causa da alegria do Cristo Ressuscitado. É por causa da alegria dEle que somos felizes! Sua alegria é a nossa. Ele nos atrai para esta alegria. Eis que o Cristo Ressuscitado faz ouvir o seu canto de Amor por você. Ele vem te reencontrar. Ele vem buscá-lo de novo. Ele lhe faz entrar num mundo novo. Você e Ele se tornam um só coração. É a presença do Espírito do Ressuscitado que o torna Um com Ele. É esta presença que realiza a Ressurreição: o Cristo se torna presente àqueles que lhe são unidos pelo coração. Santo Inácio nos pede reparar no papel de Consolador que Cristo Ressuscitado desempenha, comparando-O ao modo como os amigos costumam consolar-se uns aos outros. Uma vida nova se inicia, um novo modo de existir. Esta Presença escapa à percepção do mundo: "O mundo já não me verá. Vós, porém, me tornareis a ver, porque eu Vivo e vós vivereis" (Jo 14,19) Em Jesus é instaurado um novo modo de ser da criatura. Pela humanidade ressuscitada de Jesus, entramos nas profundezas do Mistério de Deus. Começa para nós a vida na transformação do amor à qual a humanidade está destinada. Entra-se numa presença amorosa que não podemos manter, porque é dom...

PARA AJUDAR A REZAR
AUTOBIOGRAFIA (SUA PARTICIPAÇÃO NA IGREJA) - A partir de hoje, fora do seu horário de oração, você vai começar a escrever a 6ª parte da sua Autobiografia. Ela pretende ser uma ajuda para sua reflexão sobre aspectos importantes de sua vida pessoal e um meio de diálogo com seu orientador espiritual. Apresentamos a seguir alguns pontos para sua Autobiografia. Para respondê-los, leia tudo várias vezes e vá refletindo sobre cada um desses aspectos de forma muito pessoal, deixando-se guiar no que escrever por aquilo que vai surgindo sem se preocupar nem com o estilo nem com a lógica do que vai anotando. Não responda cada um dos pontos. Eles servem só como orientação. Seja espontâneo! Procure responder em momentos em que você esteja tranquilo e possa se concentrar no que está fazendo. Essa 6ª Parte deve estar pronta até o tema 9 (CONTINUANDO A DISCERNIR) História de sua fé pessoal: O que tem ajudado você a assumir de forma pessoal sua fé: fatos, pessoas, atividades, acontecimentos, etc.? Como você cultiva sua fé? Que formação tem recebido? Sua participação na Igreja: Tem sido ativa ou passiva? Em que grupo, atividades ou movimentos tem participado? De que maneira? O que você acha da atuação da Igreja no Brasil? E na sua diocese? O que mais lhe chama a atenção? Por quê? Que compromisso você está assumindo nesse contexto? Seu compromisso com o mundo: Que tipo de engajamento assume diante dos grandes problemas sócio-econômico-políticos de sua cidade, região etc? Citar fatos e dados concretos. Que reações você experimenta interiormente diante da situação dos empobrecidos e injustiçados? Isso o impulsiona a se posicionar e a assumir gestos concretos de libertação e solidariedade? Quais? Por quê?
GRAÇA A PEDIR - Senhor, dá-me a graça de alegrar-me intensamente com a alegria e a glória da Tua Ressurreição.
PALAVRA DE DEUS - Mateus 28,1-10
REVISÃO DA ORAÇÃO - Quais os sinais de Ressurreição que você vislumbra no mundo de hoje?

AMANHÃ - REPETIÇÃO - JESUS RESSUSCITOU! ELE NÃO ESTÁ AQUI!

Eu o irei buscar

"Abri ao meu amado, mas ele já se tinha ido, já tinha desaparecido; Ouvindo-o falar, eu ficava fora de mim. Procurei-o e não o encontrei; Chamei-o, mas ele não respondeu. Se encontrardes o meu amigo, que lhe haveis de dizer? Dizei-lhe que estou enferma de amor". (Cant 5,6-8)

Maria Madalena, apesar do sepulcro vazio e da presença dos anjos, pensa em tudo, menos na Ressurreição. Fica pura e simplesmente perplexa e corre para avisar os discípulos. Pedro e João... os dois discípulos correm... João chega primeiro ao sepulcro, mas não entra; é Pedro quem entra primeiro para ver. Ambos entraram e viram, mas só João viu e creu. É o discípulo a quem Jesus amava... Não se encontra Deus senão depois de O ter há muito tempo desejado Maria encontra o sepulcro vazio mas não entende o sinal; não percebe mais além das aparências. Continua reclusa na sua tristeza, pensando em furto do cadáver. A partir desta profunda cegueira é conduzida à fé. Maria passa do pranto à alegria, da mais profunda incompreensão à fé. Maria já não está diante de um sepulcro vazio, mas diante de Jesus mesmo. Contudo, o coração da mulher está ainda cego, incapaz de reconhecer o Senhor. Ela é tentada a voltar à experiência que tinha de Jesus antes da sua Ressurreição. Jesus não sai do sepulcro para retomar o fio interrompido da existência terrena. Ressurgir, agora, significa subir ao Pai, não uma volta a experiência anterior. Jesus entra numa condição nova. Maria Madalena não reconhece o Senhor pela mera visão dele. É preciso uma palavra do Senhor para que a luz se faça. Basta uma Palavra, ouvida dentro do coração. É sempre a iniciativa de Jesus que provoca o reconhecimento. Jesus a chama pelo nome: "Maria". "O Pastor chama as ovelhas pelo nome e elas reconhecem sua voz" (Jo 10,3) O Ressuscitado aparece "novo" aos olhos de quem o vê e é preciso ter olhos "novos" para reconhecê-lo. Depois de reconhecê-lo, ela é ainda incapaz de avaliar a novidade da comunhão que lhe está sendo oferecida. Maria é convidada a sair de sua tristeza, a não curvar-se sobre si, a não tentar fazer voltar o passado. Ao invés, deve abrir-se aos irmãos e compreender a necessidade de relações novas com Cristo. Aí encontrará a alegria, a paz, o dom do espírito, o perdão dos pecados. "Maria Madalena correu para anunciar aos discípulos que ela tinha visto o Senhor e contou o que ele lhe tinha falado" (Jo 20,18) O apelo da Ressurreição é para mais. Não podemos acomodar-nos em situação alguma, por melhor que ela seja. Quando a gente se acomoda "mata a vida". E é mais fácil acomodar-se na glória do que na dor... A fé não é para ser vivida individualmente. É a comunidade que recebe esse dom. Mesmo os que a recebem individualmente, como Maria Madalena, são chamados a vivê-la comunitariamente. A maneira com a qual Jesus se deixa achar pode nos desconcertar. Não O encontramos da maneira que esperávamos. É a passagem a outra realidade. É a passagem do visível ao invisível. É a entrada no mundo da fé.
PARA AJUDAR A REZAR
GRAÇA A PEDIR - Senhor, dá-me a graça de alegrar-me intensamente com a alegria e a glória da Tua Ressurreição.
PALAVRA DE DEUS - João 20, 1-18
REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você experimenta a alegria e a glória como graça que vem de Jesus?
AMANHÃ - REPETIÇÃOEU O IREI BUSCAR

Por que estais tristes?

Através das aparições de Jesus Ressuscitado, o Senhor nos faz entrar pouco a pouco no mundo da fé e "experimentar os verdadeiros e santíssimos efeitos de sua Ressurreição" (Santo Inácio) Jesus que está além de tudo se manifesta pelos seus efeitos. O Deus invisível se torna visível e sensível a nós, não diretamente, mas pelos efeitos que Ele opera em nós. Reconhecemos a ação do Senhor Ressuscitado pelos efeitos de sua presença. Hoje ficaremos com esta entrada no mundo da fé contemplando a manifestação de Jesus aos discípulos de Emaús. Os dois deixam a comunidade porque não tinha acontecido o que eles "esperavam". Iam dizendo do seu sofrimento, como meio de encontrar alívio. Iam conversando e discorrendo: "Que se pode fazer?" Gostaram tanto de Jesus. Estão procurando encontrar a razão para os últimos acontecimentos em Jerusalém. Enquanto caminham, desolados, a conversação continua... na tristeza. Jesus toma a liberdade de apresentar-se a eles para formá-los interiormente. "De que estais falando pelo caminho, e por que estais tristes?" (Lc 24,17) Como? Não é possível? Não estás sabendo? Acaba de acontecer. Há apenas três dias. Sexta-feira. Estamos no primeiro dia da semana. Não estás sabendo! Todo mundo deveria estar sabendo das nossas dores! Não precisamos dizê-las! Então, os discípulos vão conversando com Jesus, sem reconhecê-lo. Jesus fica silencioso. Jesus deixa-os falar, desabafar, dizer todos os seus sentimentos. "Nós esperávamos" que Ele fosse resolver nossos problemas, quebrar os nossos galhos, porque era um homem extraordinário. É justamente a partir destas razões de tristeza que vai fazê-los encontrar a alegria. Chama-os sem inteligência e tardos de coração, não no sentido físico mas de abertura ao Espírito. Vai-lhes explicando as Escrituras a partir da visão do Ressuscitado e começa a ser entendido. O que Jesus faz é dar-lhes uma perspectiva de presença interior. Porém, estes dois discípulos ainda não o reconheceram. Não sabem quem Ele é. Mas vamos olhar para eles. No começo, era uma caminhada pesada. Não olhavam para o vizinho. Estavam curvados. Dificilmente tiveram uma palavra amiga para o peregrino desconhecido. Agora eles levantam a cabeça. A sua caminhada é totalmente diferente. Estão totalmente felizes, mas não estão reconhecendo ainda o Senhor que se manifesta pelos efeitos de sua presença. O primeiro efeito da presença do Senhor é a alegria: a passagem da tristeza à alegria a partir das próprias causas de tristeza. Jesus está ao lado deles, caminha com eles, é verdadeiramente um companheiro de caminhada. Chama-os sem inteligência e tardos de coração, não no sentido físico mas de abertura ao Espírito. Vai-lhes explicando as Escrituras a partir da visão do Ressuscitado e começa a ser entendido. É convidado a entrar com eles, a sentar-se à mesa. "... estando sentados juntos à mesa, Ele tomou o pão, deu graças, partiu e lhes serviu o pão. Então se lhes abriram os olhos e O reconheceram... mas Ele desapareceu aos seus olhos" (Lc 24,30-32) É muito curioso! É justamente no momento em que eles O reconhecem que desaparece. Tornou-se-lhes invisível, fazendo-os entrar com Ele no mundo do invisível. Não estão tristes... É a passagem da presença corporal para a presença espiritual. Os dois discípulos ficaram tão entusiasmados que voltaram imediatamente à Jerusalém para anunciar aos irmãos a notícia. E, naturalmente, caminhando, pensavam no que iam dizer aos Apóstolos... Quando chegam, pensavam que eram os únicos, mas há outros que também fizeram a mesma experiência. É a experiência da verdadeira vida fraterna fundamentada sobre a fé em Jesus Cristo. É a passagem da presença espiritual à presença fraternal.

PARA AJUDAR A REZAR
GRAÇA A PEDIR - Senhor, dá-me a graça de alegrar-me intensamente com a alegria e a glória da Tua Ressurreição.
PALAVRA DE DEUS - Lucas 24,13-35
REVISÃO DA ORAÇÃO - Que transformação o Cristo Ressuscitado traz à sua vida?

A paz esteja convosco

As manifestações do Cristo Ressuscitado se dão inicialmente a pessoas isoladas: Maria, Pedro, João. Entretanto, Ele vai sempre enviando as pessoas à comunidade. Hoje vamos contemplar uma manifestação de Jesus Ressuscitado à comunidade. A fé é provada na pessoa de Tomé. "A paz esteja convosco!" (Jo 20,19) A paz é sinal da presença de Deus. Paz interior não é ausência de dificuldade, luta ou sofrimento. A paz da consciência está em a gente se sentir bem diante de Deus e dos homens. Não é o pensar "o que dirão de mim" e sim pensar como pessoa livre, tranquila. Isso é muito importante para as decisões pessoais. Na presença de Cristo vivo, perceber como Ele pacifica interiormente o homem. Ele é a raiz da Paz entre os homens; tira o medo, faz voltar a alegria... Deixar que esta paz penetre fundo em você; é o Dom de Cristo, mas é um dom que se conquista. Esta paz o mundo não a pode dar. É preciso dar testemunho da presença desta paz num mundo tão atribulado. Jesus nos pacifica diante do mistério de sua Cruz. A Ressurreição passa pela Cruz. Não se desesperar diante do sofrimento, perseguição, dificuldades... O sofrimento e a perseguição são continuação do mesmo mistério da vida-morte de Jesus. "Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio..." (Jo 20,21) Depois de desejar a Paz, Jesus Cristo dá a Missão para os discípulos, a mesma Missão que o Pai lhe dera: estabelecer a Comunhão com o Pai e a fraternidade entre os homens. Todos os fiéis são chamados pelo Batismo a participar da missão de Cristo. Dentre os fiéis, uns são chamados para a vida matrimonial, outros para a vida sacerdotal. Alguns, ainda, para serem leigos consagrados, outros para a vida religiosa. Todos são chamados a continuar a Missão de Jesus... Somos servidores para a edificação da Igreja, Dom de Cristo Ressuscitado à humanidade. Ele se faz presente pelo seu Espírito, que estabelece um grupo de pessoas fracas e limitadas, mas que crêem no seu nome, para serem germe de Unidade, Esperança e Salvação, Comunhão de vida, caridade e verdade, enviados a toda parte, como Luz do Mundo e Sal da Terra. Pertencemos a esta Igreja. É dentro dela que podemos ser Testemunha da Ressurreição. Em Jesus a Missão de cada um de nós encontra sua confirmação. "Recebei o Espírito Santo." (Jo 20,22) O Espírito é Dom do Ressuscitado, sem o qual não é possível realizar uma obra evangelizadora. É o Espírito quem dá força, coragem...A missão que recebemos se realiza no Espírito. A força do Espírito nos faz criaturas novas e diferentes. "Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados..." (Jo 20,23) O distintivo da comunidade cristã é o perdão. Jesus só é nosso Senhor quando vivemos o perdão mútuo. A fé passa pelo testemunho dos homens. Tomé recebe o testemunho da comunidade: "Vimos o Senhor". Entretanto, não o aceita. Coloca uma condição. O desafio é ver o sinal dos pregos e colocar o dedo na chaga! Jesus não foge dele. Oito dias depois, Jesus se manifesta a ele e fala com ele para deixar-se tocar. É então que Tomé exclama: "Meu Senhor e meu Deus!" A fé não deve estar no que se vê e toca mas no que ultrapassa os sentidos e chega à expressão máxima de ato de fé. Trata-se de tocar o visível para atingir o invisível.

PARA AJUDAR A REZAR
AUTOBIOGRAFIA - Lembre-se de dar um tempo fora do tempo de oração para escrever a 6ª parte da sua Autobiografia. Não deixe para o último dia. Ela deve estar terminada até o tema 9 (CONTINUANDO A DISCERNIR).
GRAÇA A PEDIR - Senhor, dá-me a graça de alegrar-me intensamente com a alegria e a glória da Tua Ressurreição.
PALAVRA DE DEUS - João 20,19-29
REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você vive a gratuidade na vida cotidiana?

AMANHÃ – REPETIÇÃO POR QUE ESTAIS TRISTES? A PAZ ESTEJA CONVOSCO

Senhor, tu sabes que te amo

Na oração de hoje, Jesus se manifesta na simplicidade de uma reunião fraternal, conversando com seus Apóstolos... Simplesmente está com os seus Apóstolos junto ao lago. Estão reunidos junto ao lago Simão Pedro, Tomé, Natanael, os filhos de Zebedeu e dois outros discípulos. Eles vão pescar... Precisam fazer alguma coisa, visto que o Senhor não está mais entre eles... Naquela noite, porém, Pedro e os Apóstolos passaram uma noite difícil em que não pescaram nada. Podemos imaginar muito bem as suas conversas. Na manhã, Jesus estava na praia. Mas, os discípulos não o reconheceram. Ele esta aí e eles não o sabem. Acontece tanto na nossa vida! A uma ordem de Jesus, lançam novamente as redes e pescam uma grande quantidade de peixes. Esses são os fatos na sua simplicidade puramente exterior. Eis o que se vê. Porém, João, aquele que vê as coisas de uma maneira diferente dos outros, que através do visível atinge o invisível, vendo o resultado da pesca, diz: "É o Senhor!" Pedro se atira ao mar. Excelente maneira de atingir o Senhor! O Senhor está ali... É assim que ele se manifesta. Porém, para reconhecê-lo precisa o olhar penetrante da fé. Você já descobriu a sua maneira de ir ter com o Senhor? Jesus os espera com peixe assado e pão! Uma situação pequena e humilde, a mais humana possível. Come-se juntos. E o Senhor esta aí. Basta simplesmente estar aí. E neste silêncio eles O reconhecem e se reconhecem mutuamente entre si. Não é um silêncio embaraçoso, é o silêncio que está além da palavra, que manifesta que há realmente reconhecimento, pois alguém não pode reconhecer o outro senão no silêncio. Depois de muitas palavras, quando alguém torna-se capaz de calar diante do outro, talvez seja o sinal de uma presença cuja profundeza não se conhecia antes. Da mesma maneira, na oração, quando ela chega a esta profundeza de silêncio, talvez neste momento exista realmente a verdadeira presença. Não há nada para dizer, como entre duas pessoas que se amam. É só gostar, saborear, gozar da presença mútua... Pedro é convidado a reafirmar três vezes seu amor por Cristo. E a resposta é bem mais humilde depois de ter passado pela experiência da infidelidade na Paixão... "Tu conheces tudo, sabes que te amo!" (Jo 21,19) Todo aquele que responde como Pedro escuta as palavras de Jesus: "Apascenta minhas ovelhas..." (Jo 21,19) Depois disso vem o "segue-me dirigido a Pedro. Ele escutou o mesmo chamado no princípio da vida pública de Jesus. Até agora, porém, não contava senão consigo mesmo. Depois compreendeu que era atrás de Jesus que devia seguir, e não ir na frente. Compreendeu que o amor que tinha ao Senhor era um amor recebido, um amor que vinha do Alto e se derramava nele. Então ele reconheceu a fonte do Amor. Eis a verdadeira humildade. O chamado é algo permanente e a resposta deve ser feita em um nível de maior profundidade. Para salvar é preciso amar. Só quem ama e vive a intimidade do amor é capaz de guiar as ovelhas. Olhemos para nossa vida comunitária, nossa Igreja. Deveríamos formar comunidades onde o Amor fosse o único bem. O apelo à conversão é sempre apelo à volta à simplicidade desta verdade: Deus criou o homem por amor, acompanha o homem por amor e o salva por amor. Custa-nos entender isso porque os critérios de Jesus Cristo são diferentes dos nossos. No Reino o Maior é aquele que serve...

PARA AJUDAR A REZAR
GRAÇA A PEDIR - Senhor, dá-me a graça de alegrar-me intensamente com a alegria e a glória da Tua Ressurreição.
PALAVRA DE DEUS - João 20,19-29
REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você responde concretamente à presença exigente e fiel do Senhor em nossa vida?

Estou sempre com vocês!

Hoje nosso Senhor Jesus Cristo subiu ao céu; suba com ele o nosso coração".

A Ascensão é a última manifestação que Jesus dá dEle mesmo e que assegura aos Apóstolos que está sentado no céu. Não um Deus chegou a Deus, mas um homem, Jesus, chegou em Deus. A humanidade de Jesus agora é gloriosa. Neste corpo glorificado do Senhor que sobe aos Céus, podemos admirar os três modos de presença de Jesus Cristo. O primeiro modo é a presença histórica, quando Jesus caminhava entre nós, sobre a nossa terra. Este modo de presença não mais existe. No segundo modo, ele aparece neste mesmo corpo, mas um corpo glorioso, ressuscitado, liberto dos limites do primeiro modo de presença. Porém, há um terceiro modo do Corpo de Cristo que é o Corpo de Cristo na Eucaristia. É a presença sacramental, é a presença eucarística do Corpo do Senhor que passou pela morte e que agora é glorificado. Este Corpo nos é dado no Pão e no Vinho, para nos comunicar a graça da Ascensão, isto é, a graça de passar através das realidades deste mundo sem nos deixar escravizar por elas, conservando-nos espiritualmente livres. Pela Ascensão, Jesus continua purificando os Apóstolos, que ainda esperam a restauração do reino de Israel. Jesus, com uma paciência extraordinária, continua a purificar a esperança de Israel. "Não vos pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder." (At 1,7) Vivemos um tempo de espera. Jesus é presença na esperança. O Senhor está presente no meio de nós até a consumação dos séculos. É a esperança que nos purifica, nos santifica, nos transforma. Os sacramentos despertam e nutrem a nossa esperança. É o tempo da Igreja, o tempo e o espaço do Cristo glorioso. Na Igreja já se vive a Ressurreição! A Ascensão nos confere a graça da Missão. Todos seremos chamados a testemunhar no poder do Espírito. "Descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria até os confins do mundo" (At 1,8) É no poder do Espírito que os Apóstolos poderão testemunhar o Cristo Ressuscitado que subiu ao Céu. Da mesma maneira a Igreja, cada um de nós, só poderemos ser testemunhas do Cristo Ressuscitado na força do Espírito. "Homens da Galiléia, por que ficais aí a olhar para o Céu? Este Jesus que acaba de vos ser arrebatado para o céu, voltará do mesmo modo que o vistes subir para o Céu" (At 1,11) Então, eles voltaram para Jerusalém... Não se trata de ficar olhando para o alto, mas de trabalhar na força do Espírito... É tempo de olhar para o mundo e descobrir nas pessoas a presença do Ressuscitado... A nossa missão não é fuga da realidade, mas nos faz viver na esperança na realidade de cada dia... É a vida concreta que pede nosso olhar, nosso agir... O mundo está cheio da presença e do amor de Deus! Ele caminha conosco! Estamos chegando ao final do nosso Retiro! Vamos, nos próximos dias, seguir a ordem de Jesus para os Apóstolos, ordenando-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem aí o cumprimento da promessa do Pai: o Espírito Santo. Nesta espera de fé há uma presença especial: a de Maria, Mãe de Jesus.

PARA AJUDAR A REZAR
GRAÇA A PEDIR - Senhor, dá-me a graça de alegrar-me intensamente com a alegria e a glória da Tua Ressurreição.
PALAVRA DE DEUS - Atos 1,1-12
REVISÃO DA ORAÇÃO - No clima consolador desta etapa, como está se confirmando sua opção vocacional?

AMANHÃ
AUTOBIOGRAFIA - Continue com sua Autobiografia. Se não acabou de escrevê-la, amanhã é o último dia.
REPETIÇÃO:SENHOR, TU SABES QUE TE AMO
 Continuando a discernir

ESTOU SEMPRE COM VOCÊS!

Algumas sugestões para continuar o processo de amadurecimento humano e discernimento que confirme a sua opção vocacional:

1. Empenhar-se seriamente para continuar crescendo na sua maturidade humana e vocacional: aceitar-se a si mesmo, a própria história, integrando-a; responsabilidade nos compromissos assumidos: autenticidade e franqueza; capacidade de tomar decisões e constância em assumi-las; atitudes serenas e críticas diante da realidade, sem demasiado envolvimento emocional que altera uma visão objetiva das pessoas e dos acontecimentos; uma suficiente liberdade diante da família (saber viver longe dela sem saudade excessiva), dos amigos, do trabalho, das maneiras de vida do mundo (diversões, festas, roupas, conforto...) favorecer o desabrochar de uma afetividade sã: amizades, compromissos, trato simples e pessoal, aceitar os outros... desejo real de vida austera, de renúncia de muitas coisas, de vida solidária com os mais pobres; procurar canalizar as energias sexuais e agressivas, tendo delas uma visão sadia e positiva; passar de uma vocação "emotiva" para uma vocação "engajada", onde você esteja comprometido; se você tem vocação para a vida sacerdotal, religiosa ou de leigo consagrado, perceber se existe uma afinidade com o carisma da Congregação, do Instituto secular, do Seminário. Os elementos básicos devem ser conhecidos antes de entrar. verificar se possui os recursos humanos suficientes para os futuros empenhos de vocações concretas (estudos, aptidões, saúde, liberdade criativa...)
2. Descobrir e viver cada vez mais, o Evangelho de Cristo e afeiçoar-se profundamente à pessoa do Senhor. Isso supõe que se interiorize, com constância, a Palavra e se viva a Eucaristia (fazer-se Dom).
3. Todo desejo de crescimento autêntico na linha da vocação exige um encaminhamento sincero e autêntico na vivência cristã: uma vivência-testemunho da Vocação Fundamental; assumir com generosidade o ser cristão; mostrar a sua conversão pelo testemunho de vida; necessidade de coerência de acordo com a nova visão de vida e vocação; esforço para superar as dificuldades; assumir o dia-a-dia dentro de um compromisso concreto, pois toda vocação se descobre, se confirma e se constrói dentro da vida real e das exigências diárias, no cumprimento fiel e constante do dever-missão: estudo, trabalho, engajamento... desejo e vivência real do "Magis": mais oração, mais disponibilidade, mais firmeza na auto-disciplina, no engajamento, na criatividade, maior compromisso com a Igreja e com o Mundo.
4. Cuidar para que desabroche uma liberdade de opção cada vez maior: procurando ser você mesmo, livre de pressões externas (família, amizades, influências) e internas (fugas, compensações, auto-realização...) procurar ter uma suficiente clareza, segurança e alegria interior face à decisão vocacional que tomou (ou que deve ser tomada) e ter a força para superar as dificuldades que encontra na sua realização (na família, no trabalho, no âmbito da afetividade e sexualidade, do conforto...)
5. Facilitar o processo de discernimento vocacional com o auxílio de um orientador: participar de grupos vocacionais abrir-se "plena e profundamente" com o Orientador. Quanto mais plena, mais se acerta...
6. Assumir uma tarefa apostólica dentro da Comunidade Eclesial partilhando com os outros: o tempo, os dons, o saber, a criatividade, a corresponsabilidade... cada um segundo puder; capacidade de se inserir e viver numa comunidade e trabalhar em equipe; disponibilidade para as exigências do grupo, da comunidade eclesial, dos movimentos... capacidade de estar atento aos múltiplos apelos de Deus, da Igreja, do Mundo; ter um amor preferencial pelos pobres, uma necessidade de serví-los, de lutar por eles, de solidarizar-se por uma vida mais simples, austera, comprometida.

PARA AJUDAR A REZAR
EXAME DE CONSCIÊNCIA - Certamente, já quase no final da sua experiência, você se acha carregado de uma bagagem de vida espiritual. É necessário continuar atento à vida, a capacidade de discernir a presença do Senhor naquilo que você vive. O Exame de Consciência é um dos elementos espirituais que mais lhe poderá ajudar a envolver-se plenamente no mistério pascal do Senhor Jesus. Não deixe de fazê-lo!
GRAÇA A PEDIR - Senhor, que eu me deixe conduzir pelo vosso Espírito!
PALAVRA DE DEUS - Atos 1,12-14
REVISÃO DA ORAÇÃO - Quais foram os apelos de Deus na sua oração?

Que projeto de vida quero construir?

"Celebro a alegria de viver! Conto meus anos não pelo tempo mas pelo espaço que faço em meu coração. Não pelo número de troféus de minhas conquistas mas pelo gosto de aventura de minhas buscas. Não pelas vezes que cheguei mas pelas vezes que tive coragem de partir. Não pelos frutos que colhi mas pelo terreno que preparei e as sementes que lancei. Não pela quantidade dos que me amam mas pela medida de meu coração, capaz de amar a todos. Não pelas desilusões que tive mas pela esperança que infundi".

Fizemos juntos uma significativa caminhada: buscamos, através da oração, uma intimidade com Deus, um maior conhecimento de nós mesmos, dos outros, da realidade que nos cerca... Sabemos que a oração é uma escola onde se aprende a viver o presente, o "aqui e agora". Ela é, ao mesmo tempo, o lugar onde se realiza a "re-leitura" da própria vida e da realidade, a partir do "olhar divino". A ajuda que a oração presta à vida passa pela lenta transformação da pessoa, que não se isola da realidade histórica mas que se compromete com ela, a partir de dentro. Nesse sentido, a oração não é um enfeite da vida ou um luxo intelectual. Ela compromete, questiona, exige mudanças... O Encontro com Deus nos faz "diferentes"... nos lança para o Encontro com os outros e com o mundo. Portanto, depois de ter analisado as luzes e inspirações recebidas do Senhor, as aptidões que lhe deu, as inclinações profundas e superiores de seu ser... é chegado o Momento de dar um passo a mais: a elaboração de um Projeto de Vida pessoal como um meio para concretizar a sua opção vocacional. A medida que contemplamos a Vida de Jesus percebemos em que direção nos sentimos movidos por Deus, e nesta direção realizar, então nosso Projeto, em vista de um maior serviço. Quem está em estado de crescimento espiritual está continuamente em "estado de decisão", de opção... Deus vai exigindo progressivamente à medida da resposta e da generosidade da pessoa. A capacidade de optar faz do ser humano um peregrino, uma pessoa sempre em mudança, uma pessoa para a qual a vida é um caminho aberto em contínua busca, humilde e paciente, da Vontade de Deus. O termo Projeto, projetar-se quer dizer jogar-se mais para frente, para além de si; implica, pois, uma superação de si mesmo ou seja, capacidade de tender para algo que está além da pessoa e que a realiza plenamente; algo que está além daquilo que a pessoa já sabe, já conhece...; algo que atrai fortemente o indivíduo, um ideal a ser amado, uma missão a cumprir; uma força que rompe os limites estreitos da pessoa... Fazer um Projeto exige certo grau de liberdade interior. Liberdade de projetar-se para uma realidade nova. Liberdade arriscada de exigir algo mais de si mesmo. Liberdade corajosa de pensar, sentir e agir de maneira inédita, renovada... O Projeto de Vida deve se articular em tôrno dos seguintes componentes: um senso de identidade pessoal (quem sou eu?) os caminhos novos que se abrem, que preparam o futuro, que coloca você em situação de iniciativa e criatividade. uma série de valores, convicções, crenças... uma união a Cristo servidor, com desejos de tornar-se com Ele mais humilde, disposto para viver o seu Evangelho. um modo de ser e agir que revelam a qualidade e as prioridades de sua vida. a consciência de pertencer a um grupo, como ponto de referência para se compartilhar a vida. No Exercício de amanhã você rezará e elaborará o seu Projeto de Vida.

PARA AJUDAR A REZAR
ORAÇÃO PESSOAL - É bom começar a abrir espaço e dedicar tempo para pensar seriamente sobre o que vai fazer para manter-se em contato com Deus, o seu Senhor, depois que tenha terminado os Exercícios. Continuará dedicando um tempo à oração pessoal? Com que frequência na semana? Qual seu tempo de duração? Tenha em mente que tudo aquilo que você faz tem grande significado não somente para você, mas também para aqueles que Deus lhe deu para amar e para você ser amado por eles, e ainda mais para sua família, sua comunidade e sua Igreja.
GRAÇA A PEDIR - Senhor, que eu me deixe conduzir pelo vosso Espírito.
PALAVRA DE DEUS - Filipenses 3,4-16
REVISÃO DA ORAÇÃO - Como você se sente diante do seu futuro?

Meu projeto de vida

4ª Etapa No processo dos Exercícios, a oração ajudou à Eleição, onde você fez sua opção vocacional. Ainda na oração, sua Eleição foi sendo confirmada. Agora, a oração desemboca na elaboração e realização de um Projeto de Vida que dê consistência e continuidade à sua opção vocacional. Isso significa recuperar a capacidade de dar à própria opção um sentido mais coerente, mais consciente, mais autêntico, mais aberto... que se revela nas atitudes e condutas pessoais. Isso significa recuperar a capacidade de dar à própria opção um sentido mais coerente, mais consciente, mais autêntico, mais aberto... que se revela nas atitudes e condutas pessoais. Esse Projeto de Vida é a coluna vertebral da existência; é o fio condutor que perpassa todas as dimensões da pessoa (corpo, mente, afetividade, relações, compromissos...) Uma pessoa sem Projeto é um ser alienado, disperso, desinteressado, distraído, manipulável, instalado... É alguém que não faz opções talvez porque lhe assusta exercer sua liberdade. É alguém irresponsável, que não tem resposta adequada aos desafios históricos aos quais se vê submetido. A pessoa que sabe quem é e decide o que quer ser, realiza essa decisão ao formular um Projeto de Vida.

PASSOS PARA A ELABORAÇÃO DO PROJETO DE VIDA:
1. Procure um lugar tranqüilo, coloque-se na presença de Deus e tenha consciência e fé de que o Senhor está com você, envolvendo-o com seu Amor e o iluminando-o com sua Luz. pacificando-o interiormente.
2. Veja a si mesmo diante de Deus, dos Anjos e dos Santos, que esperam tudo de você, que confiam em que saberá concretizar o que sente ser a Vontade de Deus. Eles estão "torcendo" por você.
3. Peça a graça: "Dá-me, Senhor, o dom do discernimento, para que eu faça o que Tu queres!"
4. Lendo o caderno do Retiro (idéias, sentimentos, frases ou palavras mais repetidas...) e recordando o que mais o impressionou nesta experiência, responda por escrito, sem se alongar demais, à pergunta: sobre que valores, atitudes e comportamentos você vai fundamentar sua vida e caminhar de hoje em diante?
5. Dos aspectos mais importantes de sua vida (personalidade, família, estudos, colégio, trabalho, amizades, namoro, os pobres, a comunidade eclesial, Deus...), escolha um a três que você acha que precisa melhorar mais, mudar ou aprofundar.
6. Responda mentalmente a duas perguntas sobre o aspecto escolhido: o que tem de deixar de fazer já? o que tem que começar a fazer já?
7. Escreva em forma de propósitos as respostas às duas perguntas anteriores. Os propósitos devem ter três características: ser radicais: que possam ir à raiz daquilo que você considera mais importante e proveitoso para sua vida. ser concretos: não ficar em coisas vagas, mas em ações concretas e precisas; ser poucos: "quem muito abarca, pouco aperta"; dê-se por satisfeito com um, dois ou três propósitos assumidos.
8. Dos meios anteriormente mencionados (Ver tema 9 - CONTINUANDO A DISCERNIR) escolha os que considere que melhor ajudarão a realizar seu Projeto de Vida.
9. Como conclusão, e num clima de confiança, ofereça ao Senhor seu Projeto de Vida. Peça que se digne recebê-lo e confirmá-lo.
10. Verifique o que você está sentindo ou vivendo no mais íntimo do seu ser. Se você sente, frente ao Compromisso: paz, alegria, claridade... isso será sinal de que você realizou bem o seu Projeto. Ao contrário, se você se sente confuso, inquieto, triste... isto indica que algo não está bem e que você precisa revisar o processo e voltar a elaborar o seu Projeto.
11. Procure agora o seu orientador para uma avaliação global do que você viveu e decidiu com relação ao seu Projeto de Vida.

Contemplação para alcançar o amor (I)

"Eu vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim; a minha vida presente eu a vivo na fé no Filho de Deus que me amou e se entregou por mim" (Gl 2,20)

Estamos chegando ao fim da 4ª Etapa e também dos Exercícios Espirituais. É preciso fazer um apanhado de tudo, uma pequena síntese, para viver, no dia-a-dia, a grande aventura da fé. Propomos rezar no dia de hoje a "Contemplação para alcançar o Amor". A intenção de Santo Inácio é que nos tornemos "contemplativos na ação", encontrando Deus em todas as coisas. Deus o ama, mas como você pode amar a Deus? Como resposta a esta questão é que Inácio propõe a Contemplação para alcançar o Amor. Alcança-se o Amor, pede-se o Amor... Santo Inácio de Loyola diz que, antes de entrar em oração, convém notar duas coisas: o Amor consiste mais em obras do que em palavras; o Amor é comunicação mútua, isto é, que aquele que ama dê e partilhe com o amado o que tem ou pode, e igualmente, por sua vez, o amado com o que ama. O Amor é dom e comunicação. Nós o desejamos, mas ele não se realiza senão em Deus. Por isso, você é convidado nesta Contemplação, a pedí-lo.

PASSOS PARA A ORAÇÃO:
1. Considere-se diante de Deus nosso Senhor, dos Anjos e dos Santos que intercedem por você.
2. Peça a graça: "Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de tantos benefícios que recebi de Ti, para que eu, reconhecendo-os inteiramente, possa em tudo Te amar e servir".
3. Trazer à memória, novamente, todos os benefícios que já recebeu: a Criação, a Salvação, seus dons particulares, ponderando com muito afeto quanto Deus fez por você, quanto lhe deu daquilo que tem, e consequentemente como este mesmo Senhor deseja dar-se a si mesmo, quanto dele depender, conforme a sua vontade. Como você é alcançado pelo amor de Deus no dom da vida, caminhos, quedas e conversões, história; os outros na sua vida: amizades, amores, vocação, apelo a participar do "sonho" de Deus. Tudo é dom do Senhor para você. E em seguida, refletindo consigo mesmo, considere como é justo que você se ofereça e dê à Deus todos os seus bens e a você mesmo com eles, como quem oferece um presente, com toda afeição. Terminar agradecendo a Deus por tudo e se oferecendo, repetindo a oração de Santo Inácio: "Tomai, Senhor, e recebei, Toda minha liberdade e a minha memória também. O meu entendimento e toda a minha vontade Tudo o que tenho e possuo, Vós me destes com amor. Todos os dons que me destes, com gratidão vos devolvo. Disponde deles, Senhor, segundo a vossa vontade. Dai-me somente o vosso amor, vossa graça. Isto me basta, nada mais quero pedir".
4. Contemple agora como Deus se faz inteiramente presente no dom de amor: na criação, nas pessoas, nas plantas, nos animais, em você mesmo, dando-lhe a existência, a vida, a sensibilidade e a inteligência: e tendo-lhe criado à imagem e semelhança dEle, fez de você um templo seu. Em seguida, pense como deve fazer-se presente à Ele, colocando a sua pessoa diante dEle. Termine agradecendo a Deus por tudo e renovando a oferta de si mesmo, rezando a oração de Santo Inácio.
5. Por fim o Colóquio e um Pai-Nosso
 Contemplação para alcançar o amor (II)

6. Revisão da Oração - Que sentimentos mais ocuparam a sua oração?

"Tudo é vosso! Mas vós sois de Cristo
                      e Cristo é de Deus!" (1Cor 3,22-23)

Continuamos hoje mergulhando-nos na realidade que é o Amor e aprendendo concretamente no aqui e agora de nossa vida a servir e amar a Deus em todas as coisas. Nós não nos apossamos desse Amor nem o despertamos em nós mesmos. Rezamos para recebê-lo, esse Amor que "desce do céu" e penetra em nosso coração. Rezamos para reconhecê-lo nas circunstâncias do dia-a-dia de nossas vidas. Ser contemplativo na ação é encontrar a Deus em todas as coisas, ser capaz de reconhecer o Amor que nos circunda, o Amor em que estamos imersos, o Amor do qual tudo procede e para o qual tudo retorna. Ser contemplativo na ação significa que devemos encontrar a Deus na ação, no trabalho, no estudo, no trato com as pessoas, como o encontramos na oração. Tudo manifesta a presença de Deus. E já que Deus pode ser encontrado em todas as coisas, qualquer coisa se torna importante. Em todas as coisas respira-se Deus.

PASSOS PARA A ORAÇÃO:
1. Considere-se diante de Deus nosso Senhor, dos Anjos e dos Santos que intercedem por você.
2. Peça a graça: "Senhor, dá-me o conhecimento íntimo de tantos benefícios que recebi de Ti, para que eu, reconhecendo-os inteiramente, possa em tudo Te amar e servir".
3. Contemple como Deus age e trabalha nos dons de amor, fazendo-se presente pela graça que é colocada em todas as coisas criadas sobre a terra, e em você mesmo. E isso nos céus, nas plantas, nos frutos, nos animais, etc., dando-lhes e conservando-lhes o ser. Em seguida, reflita consigo mesmo, pensando em como deve responder, agindo no aperfeiçoamento da criação, dos outros e de você mesmo, trabalhando para o serviço de Deus e dos homens na Igreja, na nova criação, para sua maior glória. Termine agradecendo a Deus por tudo e oferecendo-se a si mesmo, rezando a oração de Santo Inácio. "Tomai, Senhor, e recebei, Toda minha liberdade e a minha memória também. O meu entendimento e toda a minha vontade Tudo o que tenho e possuo, Vós me destes com amor. Todos os dons que me destes, com gratidão vos devolvo. Disponde deles, Senhor, segundo a vossa vontade. Dai-me somente o vosso amor, vossa graça. Isto me basta, nada mais quero pedir".
4. Contemple como todos os bens e todos os dons vêm de Deus: a justiça, a bondade, a piedade, a misericórdia, etc., assim como os raios derivam do Sol e as águas, de sua fonte, etc. Deus é o Dom. Ele se dá até chegar ao ponto de fazer-se fonte de vida para todos. Termine depois refletindo que é a partir desta realidade que você pode retornar a Deus, em tudo experimentando a sua presença, devendo ficar disponível para acolher a vontade de Deus que só quer o seu bem. Agradeça a Deus por tudo e ofereça-se a si mesmo, rezando a oração de Santo Inácio.
5. Por fim o Colóquio e um Pai-Nosso
6. Revisão da Oração - Que sentimentos mais ocuparam a sua oração?

Um coração novo

 "Dar-vos-ei um coração novo e em vós
                      porei um espírito novo..." (Ez 36,36)

Jesus Cristo falou muitas vezes do Espírito Santo. Prometeu enviar o Espírito Consolador, aquele que ia dar a verdadeira compreensão de tudo o que Ele tinha dito e realizado. É a esse Espírito que vamos dirigir-nos neste último dia do nosso Retiro. O Espírito age hoje! O Pai cria, através do sopro do Espírito, toda a vida. Ele movimenta tudo, recria, dá um coração novo. O Espírito quer realizar em nós sua obra. De nossa parte é necessário continuar aprofundando na escuta, atenção e acolhida do dom de Deus. O Espírito Santo é a plenitude de tudo quanto Deus tem que dar. Ele santifica, fortifica, consola. Aquece quando estamos frios. Ele ajuda, cura. Torna flexível o que é rígido, purifica, ilumina na escuridão. Ele é fogo, tempestade, luz e orvalho. Ele é sopro, o dedo de Deus... Renova continuamente a face da terra. O nosso Retiro terminou! E agora? Você chegou ao último dia deste Retiro que um dia começou. Convido-o a olhar para trás por alguns instantes. Lembre-se como começou a fazer este Retiro: seus entusiasmos, suas crises e dificuldades, seus êxitos e inquietações de ir em frente, sua inconstância e preguiça. Bem, apesar de tudo, aqui continua você. Estou certo de que se você chegou até aqui é porque, dentro do seu coração, ecoaram vozes e sentimentos que vinham de Deus. Este Retiro que você acaba de fazer lhe proporcionou um encontro em maior profundidade com Jesus. Este encontro deve ter deixado marcas em seu coração, em sua vida. Encontrar uma pessoa nunca nos deixa indiferentes: alguma coisa acontece em nós... no outro... Desencadeia-se um processo. Contemplar a Jesus... ouvi-Lo... conhecê-Lo melhor... faz com que cresça nosso amor por Ele e desperta em nós o desejo de sermos um pouco mais como Ele. O encontro sério com Jesus provoca em nós mudança, conversão. Espero que seja algo assim que você esteja sentindo? Creio que é motivo de alegria e motivo de agradecimento a Deus, que o conduziu pelo Caminho da Verdade e da Vida. A experiência do Retiro é como uma semente que foi depositada na terra e que deverá crescer. Esta experiência proporcionou a você: discernir a sua opção vocacional; perceber em que deve melhorar, mudar algo em sua vida; tomar consciência das dificuldades que possivelmente surgirão. Cuidado agora! Não desanime! Será pelos frutos que se poderá julgar dos benefícios recebidos. O importante é você estar disposto a mudar, a dar novo rumo à sua vida, a tocar para a frente, seguindo aquilo que você optou, entendeu e percebeu. A tendência para o mais e a disponibilidade parecem ser as características fundamentais de quem optou por uma vocação. Por isso, na sua vida você deve cultivar estas características. Fazendo isto você estará colocando a sua pedra na construção do Mundo novo, coisa que ninguém pode fazer por você. Quem sabe outros farão o mesmo depois? O exemplo contagia... Peça ao Senhor a graça de aceitar e confirmar a sua opção vocacional e de ajudá-lo a realizar o seu Projeto de Vida no seu dia-a-dia. A Palavra de Deus permanece para sempre!

PARA AJUDAR A REZAR
GRAÇA A PEDIR - Senhor, que eu me deixe conduzir pelo vosso Espírito.
PALAVRA DE DEUS - Atos 2,1-13

REVISÃO FINAL:
• Onde mais sentiu o Senhor agindo em você neste Retiro?
• Continuará a fazer oração diária? revisão escrita? orientação?
• Pretende continuar com o exame de consciência, como verificador da sua opção vocacional, base do seu Projeto de Vida?
• Como você está se sentindo agora, ao terminar o Retiro? Por quê?