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A 4ª SEMANA NOS E.ESPIRITUAIS

 

I- Introdução

                           Quando abrimos o livro dos EE., nos surpreendemos com a brevidade do texto referente à 4ª Semana. Apenas 12 números foram indicados por S. Inácio para esta última etapa.

Esta sobriedade do texto, no entanto, revela que a 4ª Semana é o ponto de convergência de toda a dinâmica dos Exercícios. Isso porque:

         1. A 4ª Semana seria um aperfeiçoamento do caminho percorrido nas três semanas anteriores,

             robustecendo as virtudes, sem deixar de insistir no afeto do júbilo de Cristo Ressuscitado.

         2. As 3ª e 4ª semanas estão estreitamente unidas, ressaltando-se a unidade e a continuidade

             do Mistério Pascal: o Senhor, morto e ressuscitado, torna-se o centro gravitacional em torno

             ao qual se articula o nosso modo de desejar, pensar e querer, isto é, o nosso sentir, decidir e

             agir. A consideração da Paixão ajuda a experimentar mais profundamente o regozijo da

             Ressurreição.

        3. A 4ª Semana se orienta para a aquisição da perfeita união com Cristo Glorioso, suscitando

             em nós uma Vida nova, espiritual e divina.

        4. A atenção, o sentir e a alegria estão concentrados no Senhor: alegra-se pela alegria de Cris-

            to. Isto significa que no coração do exercitante há uma nova harmonia, um livre fluir dos

            afetos, que  não encontra obstáculos tão fortes para fazê-lo voltar-se sobre si.

            Trata-se de uma alegria apostólica: alegra-se não somente porque se vai dar a vida, mas 

            porque os outros vão viver dessa mesma vida.

 

II- Objetivos a serem atingidos na 4ª Semana

  1. Perceber, escutar, experimentar a novidade da presença do Ressuscitado.
  2. Unir-se espiritualmente a Cristo Ressuscitado.
  3. Perceber a vitória de Cristo na Cruz, mediante a contemplação de Jesus Ressuscitado e assim confirmar o compromisso de viver a eleição.
  4. Olhar, escutar, saborear, sentir com os sentidos espirituais, como a Divindade se manifesta, agora, pelo rosto, palavras, bondade, liberdade, amabilidade do Salvador, com efeitos maravilhosos.

 

III- GRAÇA a ser pedida

1.       A graça de um amor puro e desinteressado: alegrar-me e regozijar-me intensamente por causa da grande alegria e glória de Cristo Nosso Senhor.

2.      A graça de uma nova expansão espiritual que dilata o coração na alegria do Cristo para que nos impulsione, através de uma força íntima, para Ele, a fim de que possamos saborear somente o que é d’Ele.

 

NOTA:  S. Paulo define a graça própria do mistério da Ressurreição como sendo um dom de Vida

            n’Ele. Ele é Ressuscitado para nossa justificação. Dom de infusão ou graça de um desabro-

            char da vida do homem novo no Cristo Ressuscitado. É uma Graça que traz alegria, que

            inflama, que impulsiona, que faz saborear as coisas do alto.

 

IV- O fruto da 4ª Semana

                                                Assim como S. Paulo, S. Inácio descobre a riqueza do fruto da Ressurreição

                                                que é a Consolação espiritual.

Este é o fruto especial que recebemos na 4ª Semana: uma alegria profunda, centrada no Cristo Ressuscitado. Com efeito, a Consolação espiritual é um transbordamento da fonte de águas vivas que arrebata para Cristo.

                   Aos seus amigos, aos discípulos, aos retirantes, o Cristo Ressuscitado asperge esta Vida fixan-

                   do seu olhar – função de consolador -  espalhando em seus corações esta Água viva que jorra

                   do Calvário, suscitando neles uma renovação espiritual, reconfortando-os e atraindo-os a si.

                   Esta efusão, em tonalidades que vai de uma gotinha insensível até uma corrente poderosa que arre-

                   bata, é a consolação propriamente dita.

                   Essa função de consolador Cristo exerce diferentemente conforme as circunstâncias nos dias que

                   precedem sua Ascensão.

  

Consolação para S. Inácio é todo acréscimo de: fé, esperança, caridade e toda a alegria íntima que convi-

                                                                             da e atira para as coisas celestes.

O fruto mais importante dessa 4ª Semana é a consciência de ser libertado do mal na medida da união a Cristo, trazendo assim uma confirmação na eleição.

 

V- Exigência

    Para se obter o fruto próprio dessa Semana é indispensável que tenhamos muita fé. Uma viva para:

1.      Viver a experiência do Ressuscitado como os Apóstolos, numa dialética de ausência e encontro. “Estarei sempre convosco...” (Ef. 3,17).

    2.   Compreender que Cristo e sua missão são uma mesma realidade que se faz presente em nós e

nos compromete com um estilo de Vida novo.

     3.   Para ir do DOM ao Doador; do Sinal ao Conteúdo e à Origem do sinal.

4.   Para descobrir o Cristo vivo e presente:

     4.1. a nível pessoal. Cristo vive em nós e nós no Espírito.

     4.2. a nível comunitário. Cristo cria e é centro da comunidade de irmãos, a Igreja.

                                           “Vai aos meus irmãos e dize-lhes” (Mt. 28,10). Cristo cria a comunida-

                             de e confere-lhe a missão: “Ide, pregai o Evangelho a toda criatura...” (Mt. 28,19)

   4.3. a nível cósmico. Cristo recapitula tudo n’Ele (Rom. 8,22).

                                     N’Ele tudo tem consistência. O mundo se faz transparência de Deus.

 

Muitos dos mistérios dados por S. Inácio para a 4ª Semana fornecem especial relevo à presença e ação 

de Jesus na formação de sua Igreja.

 

VI- Dinâmica da Oração

                                   Os Exercícios desta etapa devem desenvolver-se num clima de confiança, pois, pela fé, temos a certeza da presença do Ressuscitado na trama histórica. Parece que não se prevê desolações.

As indicações concernentes às contemplações da 4ª Semana são apenas acenos: indica-se os títulos, sem detalhar as partes. Não se fala mais da pessoa que se exercita, mas da pessoa que contempla.

 

A programação dos tempos de oração é como na 3ª Semana (EE. 226 e 209).

A contemplação continua sendo o modo habitual de exercitar-se. Estimula-se o exercitante a unir-se ao Cristo vitorioso sobre o pecado e a morte, e a sintonizar-se com a alegria do Ressuscitado: trata-se de uma oração de união com o Cristo glorioso.

S. Inácio sugere quatro exercícios por dia ao invés de cinco (EE. 227).

Na aplicação dos sentidos dá-se um destaque à Consolação.

O número de pontos deixa-se a critério do exercitante que a esta altura dos Exercícios já deve ser experiente em matéria de oração (EE. 228).

Apenas acena-se ao colóquio: uma vez que esta prática com o Senhor já é familiar, não há necessidade de

                                               se explicar os conteúdos; o modo de comunicação com o Senhor torna-se

                                               confidencial: o Senhor é apresentado como um amigo que consola....

 

Aos três pontos comuns às contemplações sobre os mistérios da Vida de Cristo, S. Inácio acrescenta dois outros referentes ao aspecto profundo e característico do mistério da Ressurreição. É um mistério de glória para Cristo e de plenitude de vida transbordante para nós.

Ele quer nos orientar para o fruto próprio deste mistério: nos ajuda a colher e a melhor saborear.

 

VII- Conclusão

                             A 4ª Semana é o testemunho fim onde espargimos todo o itinerário dos EE., e atrativo pleno de toda a alegria da vida renovada que deve continuar.

É o que dizemos da contemplação Ad Amorem que constitui o ponto de passagem entre os EE. e a vida.

 

 

CRISTO... DESCEU À REGIÃO DOS MORTOS (EE. 219)

 

Normalmente, no processo dos Exercícios, passamos diretamente da CRUZ ao SEPULCRO VAZIO,  do Crucificado ao Ressuscitado, sem passar com Cristo pela “região dos mortos”.

S. Inácio, porém, desejoso de SEGUIR a seu Rei no sofrimento para seguí-lo também na glória (EE. 95), não pode abandonar o seu Senhor durante o “triduum mortis”, quando Ele passa, precedendo-nos, do extremo sofrimento da morte à glória nascente da Vida nova,

 

Na  1ª contemplação (EE. 218), o 1º e o 2º preâmbulos (EE. 219-220) nos levam ao SEPULCRO; na 2ª, 3ª e 4ª aparição (EE 300-302) as referências à sepultura de Jesus são mais insistentes que o próprio texto evangélico. - Não estaria S. Inácio indicando a necessidade de submergir-se na Morte de Jesus, de ser sepultado com Ele

              para poder esperar a ação consoladora e fortalecedora de Deus que se manifesta na Ressurreição?

 

                     - Como se pode passar da SEXTA-FEIRA SANTA ao primeiro DIA da semana

                           sem unir-nos a Cristo no  SÁBADO SANTO?

Sabemos que a vida da Igreja, como também a nossa vida pessoal, é feita de longos sábados santos, nos quais nem a dor da Paixão nem o consolo da festa Pascal marcam significativamente nossos dias e nossas noites, mas simplesmente a dura e paciente espera, na fé mais despojada, de um Senhor, que se faz esperar tanto que parece que já não vai chegar mais.

É o Sábado santo de um credo pascal que sabe que amanhã florescerá a messe; mas hoje o grão caído e sepultado na terra não vê messe nenhuma. Submergido no sepulcro do Senhor, espera-se simplesmente.

Ao sentir a própria incapacidade de levar adiante a exigência do Evangelho, o exercitante se apresenta no sepulcro do Senhor de onde pode irromper a força transformadora da manhã da Ressurreição.

 

Aparição à Virgem Maria (EE. 219-220):  é como o Princípio e Fundamento das outras contem-

                                                                    plações do Cristo Ressuscitado, sobretudo porque inicia

e condensa  o objetivo que se quer conseguir nesta Semana; revela-nos qual é a situação de ESPERA e qual é o DOM recebido: a espera está na paciente união com Cristo Crucificado; o dom é o consolo, a fé, a esperança e o amor que o Espírito de Cristo derrama sobre a Igreja.

 

“Descida à região dos mortos” – como manifestação da Kénosis amorosa até o fundo; proclama

                                                          a radical solidariedade de Cristo com a lei da morte humana.

É o momento em que a solidariedade radical de Cristo com nossa morte nos faz solidários com sua

nova Vida. Como antes habitou entre nós, se solidarizou com os vivos, agora no sepulcro, é solidário com os mortos (assumiu a solidão dos mortos).

 

Em outras palavras: o Verbo de Deus se fez carne até o ponto de assumir todo o destino humano, inclusive a morte. A glória de Deus se manifesta neste “abaixamento”, limite extremo da Encarnação; Jesus Cristo desceu ao nível mais baixo da condição humana, de maneira que todos aqueles que caírem, caiam n’Ele. O quadro da descida à região dos mortos não é outra coisa que a visualização da confissão pascal:

          “Cristo ressuscitou dentre os mortos, por sua morte destruiu a morte e deu vida aos mortos”.

 

Nesta perspectiva, o mistério da “descida à região dos mortos”  e a glorificação do Crucificado revelam como a vida eterna – a RESSURREIÇÃO – é um dom puramente gratuito.

Associar-se ao Cristo em sua descida para subir com Ele significa, então, arrancar de nosso próprio coração a cumplicidade com todo tipo de morte e deixar-nos possuir pela glória de Deus.

 

“Separação, isolamento, solidão”: os Exercícios nos ajudam a afrontar toda a realidade da morte sob o

                                                               olhar do Senhor. No entanto, os EE. não abusam do pensamento da mor-te. Para S. Inácio, o homem não é um ser feito para a morte, embora saiba que é mortal. Só a vida é que conta, para avançar e  viver sempre mais. Recorre à morte de Cristo – para além da morte na Cruz – porque esta ques-tiona e interpela a vida humana. Desta maneira, podemos dizer que Jesus ressuscitou antes de morrer. Na medida em que Ele despertou, n’Ele mesmo, para esta realidade que não morre.

Assim, no ser humano, há este apelo a uma realidade que é incriada e eterna. E o que se chama de vida eterna não é a vida depois da morte, mas é a vida antes, durante e depois da morte. E que é eterna.

 

Textos bíblicos:   1) At 1,14-40         2) Mc 16,1-8               3) 1Cor. 15,12-28      4) 1Cor 15,35-58

                               5) Rom. 5,6-21      6) Rom. 10,5-17          7) Ef. 4,1-16

 

A PÁSCOA DOS CORPOS

 

“Tudo começa com o corpo. Tudo se faz pelo corpo. Tudo se inventa com o corpo.

Tudo se cria para o corpo. Tudo se desfaz com o corpo.

O corpo atrai, repulsa, repugna, une, funde, ama, separa, odeia, mata, morre.

O corpo come, se come, tem fome, tem sede, bebe, se bebe.

O corpo respira, inspira, expira, conspira, pira.

O corpo emigra, transmigra, revive, retorna, retoma, ressuscita.

Corpo físico, corpo psíquico, corpo de pedra, corpo sólido, corpo líquido, corpo gasoso, corpo espírito, corpo espinho.

Corpo animal, corpo vegetal, corpo mineral, corpo humano, corpo da terra, corpo de Deus, de deusas, de deuses.

Corpo fala, corpo cala, mil falas, falácias, audácia.

Corpo cansa, descansa, descaso, acaso, ocaso, caso, casa. Corpo bom, corpo mau.

O corpo é minha história e meu destino. O corpo é minha vida e minha morte.

O corpo é meu amor, minha paixão, minha liberdade, minha igualdade, minha fraternidade, minha sonoridade,

minha esperança, minha saudade.

O corpo é minha carne, meu sexo, meu trabalho, minha cidade,

meu país, meu mundo, minha terra, meu planeta, minha galáxia.

O corpo é meu igual, meu diferente, meu indiferente, meu mais,

meu menos, meu multiplicado, meu dividido, meu subtraído.

O corpo é meu teorema, minha hipótese, minha tese, minha antítese,

minha síntese, minha dialética, minha demonstração, minha alucinação.

O corpo é minha letra, minha linguagem, minha literatura, minha leitura, minha escritura.

O corpo é minha dor, minha angústia, minha lágrima, minha saliva, meu escarro.

O corpo é meu filho, minha mãe, meu pai, minha avó.

O corpo é meu mito, meu rito, minha ética, minha poética, minha religião, minha invenção.

O corpo é minha guerra, minha paz, minha ventania, minha calmaria, minha nostalgia.

Tudo é corpo. Nada é fora do corpo” (Ivone Gebara)

 

O Mistério da Páscoa nos coloca diante de um corpo aniquilado. O sepulcro está vazio, mas o Mestre está diante de nós, com um corpo marcado pela provação, chamando-nos pelo nome.

Ressurreição, plenitude do mistério da comunhão através dos gestos, da proximidade, do abraço...

Celebra a gratuidade do Amor de Deus que faz crescer, comunhão mágica com a criação, mistério de amor em todas as direções.

A cada abraço sentido, uma ressurreição também vivida!

Comunhão do sensível e expressão do que se toca, do que se sente no viver de corpo inteiro dentro do Mistério Pascal, mistério da Ressurreição.

Assim, em tudo que se comunga através das expressões corporais, não é apenas gesto; muito mais: vivemos o “sim” da partilha tão próprio do mistério pascal.

Gesto e gosto de pele, do sensível, do toque, da acolhida, da proximidade, da intimidade...

Momentos de se louvar a Deus através da fala do nosso corpo.

 

A experiência do encontro com o Ressuscitado nos faz também encontrar o verdadeiro lugar do nosso corpo em nossa vida. Normalmente tratamos mal nosso corpo: há muito de stres, de suspeita, medo e submissão. Sabemos muito sobre nossa mente e muito pouco sobre nosso corpo; temos uma alma livre num corpo rígido.

Esta é a revelação efetiva: nossa alma não é de todo livre se não libertamos também nosso corpo de seus hábitos rígidos, seus andares militares, suas posturas mecânicas, seus falares eletrônicos...

Uma coisa é certa: temos de recobrar a consciência do corpo. Ele a tem e está desejando comunicar-se conosco e dizer-nos como se sente no frio e no calor, no cansaço e no vigor, no sonha e na digestão, em seus órgãos e em seus sentidos, em seu bem-estar geral ou em seus sintomas especializados que em tempo nos alertam de perigos pessoais.

É preciso estabelecer o diálogo com o corpo. Não se trata apenas de uma reconciliação amistosa, mas de uma descoberta radical. Ignoramos nosso corpo, apesar de tê-lo tão próximo; é preciso dar-nos conta das riquezas que tem, o muito que sabe, a importância do que tem a nos dizer, a necessidade de seu apoio e a sabedoria de sua amizade.

Aqui está nosso melhor amigo, fielmente a nosso lado, e nem sempre o percebemos.

Tomar consciência do corpo ao começar o dia, para continuá-la em cada momento e viver os acontecimentos da jornada em companhia do corpo que aconselha, avisa e dirige.

Isso nos permite encontrar a paz corporal, o contato sensorial, o prazer orgânico, a sabedoria silenciosa, o bem-estar cinético, o sorriso ambiental...

A atenção ao corpo faz com que nossos movimentos, nossos músculos, nossos sentidos, nossos ossos... nos conduzam pelo dia com a suavidade que eles conhecem, com a sabedoria que acumulam, com a energia que possuem.

São a retomada da totalidade de nosso ser orgânico, que não é uma alma suspensa do nada, mas um organismo que vive e respira.

 

“Sentir o corpo” é um verdadeiro exercício: lento, rítmico, centrado, atento, total e cósmico.

Lento para fazer oposição à pressa inata que nos leva como loucos de um lugar a outro, querendo resolver todos os problemas do mundo no curto espaço de nossa existência.

Rítmico, deixando-se levar pelas energias substanciais da vida através da respiração tranqüila e profunda.

Centrado: centro de gravidade do corpo; é a pessoa em sua unidade eqüidistante e seu contato radial com

                   todas as extremidades.

Atento: os ritmos e movimentos do corpo facilitam a concentração e o envolvimento naquilo que se faz.

Total: todos os músculos do corpo se movem ao mesmo tempo; a contração de um repercute em todos e a

            menor alteração de uma fibra reflete na totalidade do ser.

Cósmico: nosso humilde corpo é parte da criação inteira e nosso bem-estar faz sorrir a natureza.

                 Nossa existência tem responsabilidade universal.

 

Esta atividade do organismo inteiro ou, melhor dizendo, exercícios corporais com atenção espiritual fazem bem à pessoa toda, devolvendo a ela a unidade do ser e do fazer.

São meditação em movimento, contemplação em ação, recolhimento em sua totalidade de alma e corpo, mente e coração.

Esta é a grande virtude, base de todas as virtudes: estarmos recolhidos, atentos, devotos, plenamente em contato conosco mesmo, com tudo o que somos e sentimos, com tudo o que nos rodeia, nos afeta e nos espera, com tudo o que acreditamos e tudo o que experimentamos como realidade de vida; é a plenitude de estar onde estamos, fazer o que fazemos e ser o que somos.

 

Textos bíblicos:  Jo. 20,11-18   Jo. 20,19-29  1Cor. 15,35-44

 

Na oração:  Nosso corpo é tocado pela encarnação de Jesus.  E lembre-se de que Deus conhece nos-

sa estrutura. Ele sabe de que barro somos feitos.

Reze sua humanidade, seu corpo de homem ou mulher. Leve para sua oração os desafios do cotidiano, os imprevistos da vida.

Apresente a Deus acontecimentos, pessoas, frustrações, perdas, alegrias, encontros e desencontros. Seja humano diante de Deus, deixe seu corpo falar a Deus.

Reze com seu corpo. E agradecido(a) bendiga sempre o Senhor.

 

REGRAS NO SERVIÇO DE DISTRIBUIR ESMOLAS

 

O Amor que “desce do alto” pelos pobres

O Amor que “desce do alto” contra toda pobreza

 

Estas Regras (EE. 337-344) tem como objetivo o exame do estilo de vida do exercitante.

Esta pretensão de S. Inácio fica mais clara quando as Regras são lidas no contexto do número 189 dos Exercícios, onde se refere à Reforma de vida.

Ou seja, S. Inácio se refere aqui às pessoas que “estão imersas no mundo” e que no desempenho de suas funções necessitam ter e manejar “bens temporais”.

Traço característico que define a qualidade de vida de uma pessoa que mergulhou na experiência dos Exercícios é a simplicidade de vida, entendida no sentido de um nível econômico simples e despojado.

Nos diferentes ambientes da atual sociedade de consumo associa-se a qualidade de vida a status social, a sinais exteriores de riqueza, a conquista de poder, a vaidade, a auto-imagem...

É claro que Deus deseja que todos os seus filhos e filhas tenham um nível de vida digno, que todos busquem educação de valor, uma profissão ou um trabalho que permita viver com dignidade, ter acesso a condições de vida na qual todas as necessidades básicas sejam amplamente atendidas...

Mas, onde está o limite entre as necessidades básicas e aquelas potenciadas pelo consumismo?

Onde está o limite entre o nível de vida digno e o aburguesamento?...

 

A regra de ouro e o primeiro princípio da vida espiritual consiste em sair cada vez mais de si, “do próprio

                           amor, querer e interesse”, para abandonar-se confiadamente nas mãos do Pai, à semelhança do Cristo, em tudo o que concerne à relação com as “coisas criadas”.

Para isto, a imagem referencial normativa é o Cristo, pobre e humilde, que realiza a Vontade e o projeto do Pai. Todo o amor de S. Inácio pela pobreza é um amor pelo Cristo pobre. Ser pobre porque Cristo é pobre. É Ele quem deve inspirar nossa maneira de “distribuir esmolas” e de servir os pobres.

O despojamento de todo o poder, em solidariedade para com os pobres deste mundo, é um lugar de liberdade na qual a pessoa humana mergulha pelo desprendimento no amor e a partir do qual faz a experiência de Deus como única segurança.

Ou seja, para S. Inácio, ninguém que pretenda ordenar seriamente sua vida, pode sair dos Exercícios sem ter colocado o rumo da sua existência no horizonte referencial dos pobres.

Para ele, a busca de Deus não é autêntica se não passa pelo compromisso amoroso no mundo dos pobres, e igualmente, não há compromisso pelo outro e de modo particular pelo pobre, que não seja fruto de uma descoberta do amor de Deus, que “desce do alto”.

Isto significa, concretamente, “sair de si”, revestir-se de Cristo, assemelhando-se a Ele, pobre e humilde,  por amor à humanidade.

Isto implica em distanciar-se criticamente de uma sociedade cujo objetivo último é o poder e a posse.

 

A 1ª regra (EE. 338) é teologicamente central para o entendimento do conjunto das regras.

                                 A grande intuição de S. Inácio é que o amor que nos leva a fazer o bem ao outro, não é meramente um amor de amizade (filia), mas é o amor doação, gratuito, isto é, o amor ágape.

Esta afirmação traz consigo o seguinte: o amor aos pobres é dom de Deus.

O amor aos pobres nasce do encontro vivo e existencial com o Senhor Jesus, que rico se fez pobre (2Cor. 8,9). Deus ama os pobres simplesmente porque eles são pobres.

Deus opta pelos pobres “porque assim é do seu agrado” (Mt. 11,25).

E os pobres pelos quais Deus opta são pobres efetivos, reais e concretos.

Ou seja, a opção de Deus pelos pobres é absolutamente gratuita.

A nossa opção, que é uma resposta à interpelação do rosto do pobre, nasce da absoluta gratuidade de Deus e é chamada a manifestar esta gratuidade.

 

Na medida em que o exercitante se vê interpelado pelo rosto do pobre e age, esta sua ação revela a compaixão de Deus. A nossa ação deve fazer resplandecer a compaixão de Deus por seu povo.

Para S. Inácio, a esmola só é genuína quando nela aparece a compaixão que Deus sente por seus filhos(as) mais necessitados(as).

“O critério da distribuição das esmolas não é propriamente a solidariedade humana e nem sequer a filantropia, mas o ágape de Deus que se encarna na nossa capacidade de doação e perdão. O esforço nos Exercícios de tirar de nós todas as afeições desordenadas tem como meta permitir que o ágape de Deus se apodere de nossa capacidade de amor” (P. Kolvenbach).

S. Inácio enraíza o amor concreto aos pobres no “alto”, em Deus: “... aquele amor que me move e me faz dar a esmola desça do alto, do amor de Deus nosso Senhor” (EE. 338).

O amor preferencial pelos pobres é divino, antes de ser humano. E o ser humano só pode assumí-lo como seu seja porque antes o contemplou na prática salvadora e amorosa de Jesus Cristo, seja porque este amor foi por Deus colocado no mais profundo do seu coração.

O amor preferencial pelos pobres, tal como aparece nos Exercícios, não é, portanto, algo ideológico, filantrópico ou político-partidário. É sim, algo que se configura na pobreza e humilhação concretas para encontrar-se com o Cristo pobre.

Nos Exercícios, Jesus Cristo é o pobre e o servidor por excelência, Aquele que, a partir de sua condição divina, se encarna, se esvazia.

É esse Cristo pobre a única via de acesso ao mistério glorioso do amor de Deus. A opção pelos pobres e contra a pobreza tal como aparece na obra inaciana é, portanto, uma opção de amor.

Quem é possuído pelo ágape de Deus é sensível e comprometido com o mundo dos pobres.

 

O dom da esmola para ser divino e, portanto, verdadeiro e autêntico, deve estar inserido na comunhão dos bens, no movimento amoroso dos dons que “descem do alto”.

“Ser pobre não é somente dar o supérfluo, mas questionar incessantemente, a título pessoal e comunitário, o nível de alimentação, de vestir, de habitação e de diversão, não tanto para fazer economias, quanto para poder dar aos outros, aos pobres” (P. Kolvenbach).

 

Como testemunhar que se pode ser feliz vivendo uma cultura da gratuidade, uma cultura da moderação que possibilite uma partilha dos bens mais igualitária e justa para todos os seres humanos e que favoreça melhores condições de realização humana?

Isto deve ser descoberto nos pequenos discernimentos diários, a partir de nossa opção fundamental.

Um bom critério para este discernimento sobre nossa simplicidade de vida é o “fazer-se próximo” dos pobres. Para S. Inácio “os pobres são os assessores do Rei Eterno” (Carta à comunidade de Pádua); isto significa que não podemos nos distanciar deles, pois são eles que podem dizer como nos vêem, que esperam de nós... Se eles se afastam de nossas vidas é porque nós nos afastamos deles, renunciando à nossa vida simples.

É vital descobrir se nossa vida cotidiana é egocêntrica ou excêntrica, se a missão de nossa vida está fora de nós e ao nosso redor, se temos paixão pelos valores do Evangelho encarnado nos ambientes onde marcamos presença cotidianamente...

Outro critério para verificar nossa qualidade de vida é a gratuidade, ou seja, criar espaços mais humanos de encontros, de fazer as coisas não com uma finalidade interesseira, renunciar ao clássico “toma lá dá cá”... Também podemos entender a gratuidade em não viver com a obsessão pelo êxito e pelo triunfo, senão para o serviço aos outros.

 

As Regras para distribuir esmolas são importantes e atuais porque apontam para a necessidade e possibilidade de construir uma “cultura da solidariedade e partilha”.

Seguir Jesus hoje é refazer, criativamente, a sua prática de serviço ao Reino. Assim, o exercitante é desafiado a mobilizar os seus princípios e permitir que possam emergir as suas energias solidárias.

Significa viver de modo que a solidariedade constitua um pilar em seu projeto de vida.

O envolvimento com o “outro” (excluído, pobre, marginalizado...) nos conduz à autenticidade, à libertação de apegos e avareza, à liberdade para dar e receber e a uma imensa felicidade.

O encontro com o “outro” marginalizado dá um toque especial à nossa espiritualidade e nossa espiritualidade faz nossa ação mais radical – mais enraizada em si mesma e vai mais a fundo nas raízes da injustiça. Aproximar-se do pobre e deixar-se “afetar” pelo seu sofrimento torna-se a maior fonte de nossa espiritualidade.

Suas “fraquezas” suscitam em nós o melhor de nós mesmos e ao nos envolver afetivamente em sua vida fazem com que vivamos um misto de ternura e indignação  a que chamamos compaixão.

 

Na experiência de “convivência” com os pobres adquirimos os valores evangélicos da capacidade de celebrar, da simplicidade, da hospitalidade... Eles tem um jeito de nos trazer de volta para o essencial da vida. Eles são uma fonte de esperança, uma fonte de autenticidade. Eles se tornam nossos amigos.

        “Nosso compromisso de seguir o Senhor pobre, naturalmente nos faz amigos dos pobres” (S. Inácio).

 

Enfim, os Exercícios, escola de liberdade cristã, dão ao amor preferencial pelos pobres, por todos os pobres, a verdadeira dimensão cristã: a resposta livre ao amor pelos pobres que Deus desde o alto revela em Cristo pobre, rico em Espírito.

 

TRÊS MODOS DE ORAR SEGUNDO S.INÁCIO

 

Fazem parte da 4a. Semana; provavelmente se referem às formas de oração

na vida cotidiana, pois há referência a um ambiente mais distendido.

 

Primeiro modo de orar (EE. 238-248)

Trata-se de um modo de engajar-nos, com toda nossa existência cotidiana, numa oração concreta e realista.

Tal modo consiste numa série de exercícios que estimulam a pessoa a progredir na virtude.

É um método de revisão rezada da vida.

                    Repassar, um por um, os pontos de um assunto

         S. Inácio propõe 4 assuntos: 1) os l0 mandamentos

                                                      2) os 7 vícios capitais (e as virtudes opostas)

                                                      3) as 3 potências da alma (memória, inteligência e vontade)

                                                      4) os 5 sentidos corporais.

         Podem ser tomados outros assuntos: as 7 obras de misericórdia (espirituais e corporais)

                                                                     as 15 características da caridade (1Cor. 13).

         Consiste em deter-se em cada ponto por alguns instantes, demorando-se mais em alguns e passando mais rápido outros (conforme a necessidade pessoal).

         Este modo de orar não é propriamente um esquema, método ou exercício de oração, mas um meio

         para dispor a pessoa para progredir e para que ela reze melhor.

                Ex: (ao repassar os 7 vícios capitais): o que é preciso evitar aqui? em quê falhei?

                      ( ao repassar os sentidos corporais): como uso este sentido? como Jesus usou?

                                                                                 como fazer para imitá-lo?

 

Segundo modo de orar (EE. 249-257)

Contemplar o significado de cada palavra da oração

    S. Inácio propõe, em primeiro lugar, a oração do Pai-Nosso.

    Em outros exercícios podem ser tomadas outras orações, como a Ave-Maria, Credo, Alma-de-Cristo.

 

                Modo de proceder no exercício:

1) Posição do corpo (aquela em que a pessoa encontra maior disposição ou maior devoção).

2) Olhos: fechados ou fitos num lugar.

3) Dizer palavra por palavra. Ex: Pai.

4) Considerar esta palavra enquanto encontrar significados, sentidos novos, comparações, gosto e consolação, em considerações relacionadas com a mesma, sem se preocupar em passar adiante.

5) Terminado o tempo, recitar toda a oração de modo costumeiro...

6) Não passar à palavra seguinte, mesmo que fique muito tempo do exercício apenas em uma ou duas

    palavras.

7) No colóquio final, dirigindo-se em poucas palavras à pessoa a quem fez a oração, pedir as virtudes ou

    graças de que sentir maior necessidade.

8) Voltando a fazer o exercício, se foram tomadas no anterior só as duas primeiras palavras, repetir de mo-

    do simples estas duas primeiras palavras e deter-se na terceira palavra.

 

Terceiro modo de orar (EE. 258-260)

Orar por ritmo, ou ritmar a oração segundo a respiração

         S. Inácio propõe em primeiro lugar a oração do Pai-Nosso.

         Em outros exercícios podem ser tomadas outras orações.

 

                Modo de proceder no exercício

1) A cada aspiração ou expiração, pronuncia-se mentalmente uma palavra da oração. Ex:: Pai

2) Enquanto é dita a palavra, saborear o significado de tal palavra ou à pessoa a quem se dirige ou à nos-

    sa condição de fragilidade ou à diferença entre a nossa condição e  a da pessoa a quem se reza.

    Este método assemelha-se à forma oriental de oração, conhecida como “oração de Jesus”,  cujo  princípio de base é “fazer Jesus entrar no coração” (a fonte mais profunda da vida humana): consistia em repetir lenta e indefinidamente, ao ritmo da aspiração e expiração do ar, a invocação “Senhor Jesus, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador”.  

 

Experiência PASCAL = experiência COMUNITÁRIA

 

“É à medida que se ama a Igreja de Cristo, que se possui o Espírito Santo” Agostinho

 

A 4ª Semana dos Exercícios orienta para a Igreja, onde o exercitante há de viver e

                                                                                onde se comunica o dom de Deus.

Para S. Inácio, não há fidelidade possível a Cristo que não seja igualmente fidelidade à Igreja e na Igreja.

Pois o Cristo não veio somente para trazer uma “doutrina” ou para nos dar um exemplo. Ele empreendeu e continua a empreender uma mobilização; não há caminho evangélico que não seja ao mesmo tempo apostólico-evangelizador.

           Não há Cristo sem Igreja militante. Não há compromisso com Cristo sem engajamento na

           sua obra, sob a forma que Ele mesmo inaugurou escolhendo e enviando seus companheiros.

          Não há adesão ao Chefe sem reunir em grupo.

 

Muitos dos “mistérios” dados por S. Inácio para a 4ª Semana fornecem especial relevo à presença e ação de Jesus na formação da sua Igreja. De fato, as aparições públicas tem como pano de fundo um sentido eclesial. Remetem à Igreja como lugar de encontro com o Senhor Ressuscitado que traz a consolação.

               EE. 302 – fortalecimento de Pedro para ser a Rocha;

              EE. 303 – a presença pessoal dá lugar à comunhão em sua Pessoa;

              EE. 304 – a experiência comunitária do Senhor Ressuscitado;

              EE. 307 – a missão universal da Igreja, de proclamar a Boa-Nova;

              EE. 312 – a formação da Igreja: os discípulos enviados no poder da Ressurreição; urgência

                               apostólica: a plenitude de Cristo até que Ele volte novamente.

 

S. Inácio apresenta Jesus reconstruindo a comunidade:

              As aparições vão do individual ao eclesial, e do eclesial à missão. É na Igreja e na missão da Igreja

              onde se vive o amor universal que busca atrair todos os homens à  gratuidade do Reino de Deus.

O enraizamento eclesial será sempre para S. Inácio o sinal da fidelidade ao Senhor.

Participar da missão do Filho significa ser inserido na missão apostólica da Igreja.

            Ser de Cristo, trabalhar para Cristo, é não só ser da Igreja, senão ser Igreja, sentir-se Igreja:  eis aqui o fruto mais profundo e

            característico, o cume desta cristificação em sua dimensão  externa, universalista.

 

O principal para S. Inácio é que o exercitante não só se sinta  Igreja individualmente, mas perceba que sua vida e missão formam parte da vida da Igreja; pois Deus atua sem cessar no exercitante em função da missão eclesial que lhe confiou; sua vocação é seguir a Cristo que fundou a Igreja e que o convida a colaborar em sua difusão.

           Nesse sentido, a eleição significa estar aberto, obediente ao apelo único e singular de Deus, no seu

           serviço, e, no mesmo movimento, situar essa escuta e esse serviço no interior da comunidade cristã.

           S. Inácio atribui importância à Eleição não só a nível pessoal  mas também eclesial.  A pessoa movida pelo “magis” não pode

           permanecer indiferente nem inerte diante dos problemas que  afetam a sorte do povo de Deus.

 

Escutar o Espírito no interior de si próprio e no exterior visível e institucional da Igreja significa estar convencido de que é o mesmo Espírito que atua na própria interioridade e na Igreja comunidade.

Por isso, em caso de dúvida ou hesitação, é sempre o comunitário e eclesial que tem a última palavra.

               A liberdade interior e o Amor à Igreja constituem a atitude típica do homem eclesial,  do

              homem com autêntica sensibilidade eclesial.

                        Cristo continua atuando no exercitante através da Igreja.

                        O exercitante deve estar imbuído de mentalidade profundamente eclesial, de maneira que o seu

                        sentir, pensar, falar e agir reflitam o sentir, pensar, falar e agir da Igreja universal.

 

Além disso, o conhecimento e o amor de Cristo deve levar necessariamente ao amor à Igreja, pois Cristo chama enquanto cabeça da Igreja. SENTIR-SE IGREJA exige um contínuo discernir para perceber o modo como Cristo age na sua Igreja através do Espírito; ver o modo como Deus governa através da Igreja e empenhar-se em  realizar a missão que Ele designa a cada um na Igreja.

Sentire in Ecclesia”, “ser com a Igreja”:  uma disposição de ânimo e uma atitude que construtivamen-

                                                                        te pense, sinta e atue dentro da Igreja e com a Igreja.

 

Textos bíblicos:    1) Lc. 24,36-43         2) Jo. 21,1-14            3) Mc. 16,9-14           4) Col. 3,1-17

                                 5) 1Cor. 12,4-31       6) Ef. 4,1-16              7) At. 2,41-47; 4,32-37

 

RESSURREIÇÃO

 

“Lembra-te de Jesus Cristo Ressuscitado dos mortos” (2Tim. 2,8)

 

Seguindo todo o mistério de Jesus, encontramo-nos agora no ponto central da História da Salvação: a experiência do Cristo Ressuscitado.

      A RESSURREIÇÃO de Cristo foi o sim de Deus ao Crucificado; foi a resposta de Deus ao grito

                                     de Jesus na Cruz;

      A RESSURREIÇÃO manifesta a fidelidade de Deus a Jesus: não o abandonou;

      A RESSURREIÇÃO é a confirmação da Pessoa-Obra-Mensagem de Jesus de Nazaré;

      A RESSURREIÇÃO está intimamente unida à vida, pregação, anúncio do Reino.

 

Pela Ressurreição, Jesus se manifesta como o Senhor da Vida:

                                - Aquele que lutou pela Vida não podia ficar na morte;

                                - aquilo que parecia um fracasso é reabilitado;

                                - Ele vive entre nós; é o Senhor dos vivos e dos mortos.

A Ressurreição realiza aquilo que Jesus pregou: o Reino de Deus acontece n’Ele;

                           Deus realizou n’Ele a plenitude do Reino.

A Ressurreição é a realização do anúncio de Jesus de total libertação (inclusive da morte).

 

Na Ressurreição Deus superando a morte do homem todo cria uma Nova Vida incompreensível a partir de nossa vida atual (e de nossas leis).

É uma NOVA CRIAÇÃO de Deus. É o nascimento do HOMEM NOVO sobre o qual não pode triunfar a morte. Trata-se de um “corpo espiritual”, incorruptível, revestido de imortalidade.

Jesus não é restituído a esta vida ( Ressurreição não é “revivificação” , ou seja, voltar à vida anterior).

             Jesus não voltou à vida para depois morrer novamente. Sua vida de agora é já definitiva, no-

            va, terminada. Mas isto não quer dizer que haja uma ruptura entre sua vida antes de morrer

            e a de agora, como se não tivessem nada que ver uma com a outra.

            Em Jesus Ressuscitado há uma continuidade entre o passado e o presente.

            Por sua Páscoa, Jesus não é despojado de sua condição humana anterior.

            Ressuscitado, Ele é o Homem Novo: tem uma condição humana levada à sua plenitude e

                                   assume em sua nova Vida toda sua história passada.

            A Ressurreição de Jesus leva à plenitude sua vida, seu modo de ser.

 

A Ressurreição não pode ser objeto de análise histórica (como a vida e a morte de Jesus), pois é um

                           acontecimento real, mas meta-histórico (ultrapassa o tempo e o espaço).

A Ressurreição é um fato que escapa à história.

A Ressurreição não se prova, se vive. Trata-se de uma experiência de fé.  Esta experiência é real, mas

                           não se prova cientificamente; só para aquele que tem , que vive essa experiência.

A Ressurreição de Jesus só se pode afirmar na fé, por ser uma realidade que vai além de toda a possibilidade de verificação empírica, condição  prévia para uma pesquisa e reconstituição históricas

                                 

O acesso ao Ressuscitado nos chega como revelação mediante as aparições, isto é, o testemunho dos que “viram” o Ressuscitado. O que é histórico é esse fenômeno que acontece com os discípulos.

Ninguém “viu”  a Ressurreição; ninguém viu o mestre levantar-se do sepulcro; nenhum repórter conseguiu registrá-lo naquela hora gloriosa; nenhum cronista viu a pedra rolar; nenhum teólogo conseguiu ficar com as provas objetivas daquele evento memorável; ela não é um fato que possa ser narrado.

Tal acontecimento é perceptível tão somente pela fé.

O que possuímos são: sepulcro vazio (não é prova da Ressurreição, mas sinal: convite à fé);

                                   aparições (experiência dos apóstolos: direta, imediata, inefável).

 

A narrativa do túmulo de Jesus, aberto e vazio:

      - Jesus não está no sepulcro, não jaz entre os mortos, porque a ação poderosa de Deus o ressuscitou;

      - quem quiser encontrá-Lo não deve procurá-Lo no seu túmulo, domínio da morte, mas entre os vivos;

      - os discípulos, como todos os que lêem o Evangelho, são convidados a olhar para o futuro, donde Je-

        sus vem ao seu encontro para dar início à sua missão sempre nova.

 

 O objetivo primário dos testemunhos pascais não é dar uma informação sobre a Ressurreição de Jesus, sobre o seu corpo e feições de ressuscitado.

Diz-se simplesmente que Jesus “aparece”, “se revela”, “se manifesta”, “aproxima-se, vem, põe-se no meio”.

A insistência de Lucas e João sobre a corporeidade física do Ressuscitado (convida a ver, tocar, verificar), tem um objetivo apologético: prevenir as insinuações e suspeitas do ambiente helênico, onde o encontro dos discípulos com Jesus Ressuscitado era facilmente assimilado às visões de um espírito ou fantasma.

 

Mas os próprios evangelistas apressaram-se em dar a entender que o reconhecimento-adoração do Senhor Jesus não se funda na verificação ou constatação física, mas na sua iniciativa e palavra.

O encontro-reconhecimento de Jesus como Senhor Ressuscitado supõe uma sintonia espiritual com o seu projeto histórico.

Por isso as aparições de Jesus ressuscitado não estão ao alcance de todos indiscriminadamente, mas somente das “testemunhas escolhidas” por Deus.

As aparições de Jesus Ressuscitado aos discípulos restabelecem em nível diferente e novo o relacionamento vital que amadurecera na convivência histórica anterior à Páscoa.

 

      A RESSURREIÇÃO  é um acontecimento de fé.

                                     A fé na Ressurreição faz parte do primitivo Credo;

                                     as fórmulas de fé na Ressurreição constituem o Kerygma pascal mais primitivo; 1Cor. 15,3-11: Aquele que morreu, ressuscitou e apareceu.

 

As APARIÇÕES são revelação de Deus às testemunhas (Lc. 24,34); elas “viram” o Ressuscitado; tiveram

                           uma experiência de fé, em que o “ver” supõe a fé.

Por meio das aparições do Ressuscitado os discípulos adquiriram a certeza de que Jesus fora exaltado como Senhor. “O Senhor ressuscitou verdadeiramente”.

Na Ressurreição, as aparições incluem duas idéias principais:

           - a de Jesus que se dá a conhecer (experiência de fé);

           - a de Jesus que envia seus discípulos (a experiência da Ressurreição não é para ser guarda-

             da, mas comunicada).

As aparições acentuam uma missão.  Aparições e chamado à missão vão sempre unidas.

A Ressurreição é dom e missão.

A Ressurreição não é pura contemplação: é ação.

                           Isto significa que não se pode fazer da Ressurreição só um “fato do passado”, nem é

                           uma realidade só do “fim dos tempos”.

A Ressurreição acontece aqui e agora e caminha para a plenitude.

                           Onde há serviço, compromisso, luta, justiça, solidariedade... aí há Ressurreição.

 

A Ressurreição é penhor de Salvação:

      “Porque, se com tua boca confessares que Jesus é o Senhor, e em teu coração creres que Deus o res-

         suscitou dos mortos, serás salvo” (Rom. 10,9).

Jesus Ressuscitado é a “primícia dos que dormem”, isto é, o dom da Ressurreição de todos os mortos;

A Ressurreição é uma vitória solidária;

                                 Cristo não ressuscita sozinho, mas compartilha a Ressurreição conosco, abre possibilidade

                                 para que todos nós ressuscitemos.

                                 Sua Ressurreição atinge a realidade toda de todos os tempos (universal);

                                 Ela é compreendida como antecipação de uma Ressurreição Universal.

                                 Cristo é o primogênito entre muitos irmãos.

 

Realidade inseparável: estamos destinados a viver COM Ele e participar de sua glória.

                                   A Ressurreição de Cristo inclui a nossa Ressurreição;

                                   A Ressurreição de Cristo não só “representa” todas as ressurreições, senão que

                                                     abre o  futuro enquanto futuro de Vida; ela inicia um futuro libertador.

 

Textos bíblicos:   1) Mt. 27,62-66          2) Mt. 28,1-8           3) Mt. 28,9-15          4) Mt. 28,16-20

                                5) Jo. 11                    6) 2Tim. 2,1-13        7) Rom. 14,1-11

                          

 

RESSURREIÇÃO: afastar a pedra, derrubar muros, romper fronteiras...

 

“Um peregrino percorria seu caminho quando certo dia passou diante de um homem que parecia ser um monge e que estava sentado no campo. Perto dali, outros homens trabalhavam em um edifício de pedra.

- “O senhor parece um monge”- disse o peregrino.

- “Sim, sou um monge”- respondeu o monge.

- “Quem são aqueles que estão trabalhando na abadia?”

- “Meus monges”- respondeu – “Eu sou o abade”.

- “É magnífico”- comentou o peregrino “É estupendo ver levantar um mosteiro”.

- “Nós o estamos derrubando”- disse o abade.

- “Derrubando-o?”- exclamou o peregrino “Por que?”

- “Para poder ver o sol nascer todas as manhãs”- respondeu o abade”.

 

Estamos vivendo o “tempo pascal” e o convite é este: “sair do próprio túmulo”.

A mudança de mente, de coração, de esperança, de paradigmas... exige de nós que, de tempos em tempos, revisemos todas as pseudo-certezas de nossas vidas, conservando umas coisas, alterando outras, derrubando  idéias fixas, convicções absolutas, modos fechados de viver...   que  impedem a entrada do sol e da brisa da manhã.

Há em todo ser humano uma tendência a cercar-se de muros, a encastelar-se, a criar uma rede de proteção.

Nada mais contrário ao espírito pascal que a vida instalada e  uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores...

No campo da educação, isto significa instalar-se na repetitividade mecânica, acomodar-se aos esquemas rígidos, fechar-se às descobertas e avanços pedagógicos... Numa vida assim faltaria por completo o princípio da criatividade, a capacidade  de questionar-se,  a audácia de arriscar, a coragem de fazer caminhos  abertos à aventura e às surpresas.

 

Se queremos que a nossa vida cristã tenha a marca da Ressurreição, é necessário compreender que somos chamados a um compromisso diferente e  mais profundo: sair da reclusão de nosso mundo para entrar na grande “casa” de Deus; romper com o tradicional para acolher a surpresa; deixar a “margem conhecida” para vislumbrar o “outro lado”; afastar a “pedra” da entrada do coração para poder viver com mais criatividade...

As respostas do passado às questões atuais já não satisfazem; as velhas razões para fazer coisas novas, simplesmente já não movem os corações num mundo repleto de novos desafios.

Não há razão para permanecer nos castelos e mosteiros quando todas as circunstâncias mudaram.

É muito tarde para reconstruir nossas vidas utilizando moldes antigos.

Estamos vivendo um tempo de mudança, mas também tempo emocionante e santo.

Há um poderoso fogo sob as cinzas. Precisamos avivar a chama, acolhendo o momento presente e vivê-lo até suas últimas conseqüências. “Este é o tempo de graça, o tempo de salvação”.

Vivemos um momento de densidade única; participamos de uma sociedade rica pela diversidade e pelo pluralismo. No entanto, não teremos nada que oferecer a este mundo se não nos deixamos “empapar” pela experiência pascal. Iluminados pela luz da Ressurreição, somos impulsionados a “inventar” constantemente, a “ousar” sem medo, a “deslocar-nos” sem cessar, a  “passar para a outra margem”, na busca de um “novo começo”...

 

A possibilidade de rompermos com um hábito ou com um padrão em nossas vidas é a marca deste “dia de luz”. O primeiro ato é o de reconhecermos que nossa vida está “estreita” e que precisamos nos colocar num horizonte diferente.  A lucidez da madrugada da Ressurreição nos revela que a utopia de Jesus é possível.

Para encontrar Jesus Cristo é preciso “sair”;  é inútil permanecer no túmulo. Porque o ausente “aqui” está presente na “Galiléia”. E a Galiléia é o lugar da luta pela vida, do compromisso com a justiça e a paz... A Luz da Ressurreição de Cristo ilumina e transforma nossa existência: novas descobertas, novas intuições, nova visão... Vivemos mergulhados na magia da Luz da Ressurreição.

    Viver como ressuscitados: esta é a paixão que não nos dá repouso.

                                               Deixemo-nos iluminar, levemos a Luz nas nossas pobres e

                                               frágeis mãos, iluminando os recantos de nosso cotidiano.

 

RESSURREIÇÃO: a lucidez da madrugada

 

Ressurreição, noites que se transformam em manhãs,

invernos que se tornam primaveras, velhices que retornam às infâncias,

lagartas que viram borboletas, sapos que se descobrem príncipes,

sementes que explodem em grão, trigais que se revestem de beleza.

É a vida que vence a morte! Aleluia!”  (Inês de França Bento).

 

“Conta-se que um homem se perdeu em uma floresta. Buscou de todas as formas sair da mesma, mas não foi bem-sucedido. Ao anoitecer, quando estava prestes a se desesperar, viu ao longe uma luz.

Logo pode distinguir que se tratava de um homem com uma lanterna. Ficou exultante, certo de que estava salvo.

Aproximou-se, dizendo: “Estava perdido, mas pela graça dos céus encontrei-o!

O homem da lanterna respondeu com ar pesaroso: “Eu sinto muito... eu também estou perdido! Mas não se desespere! Você sabe por onde já buscou a saída e eu sei por onde tentei. Juntos temos mais chances de encontrarmos o caminho!”

Enquanto buscava se consolar, viu que o homem da lanterna tinha os olhos fechados. Exclamou: “Você é cego?”

- “Sim”, respondeu com naturalidade.

- “Mas, então por que você precisa de uma lanterna?”

- “Ah... a lanterna não é para mim... não é para que eu veja, mas para que os outros me vejam!”

 

Nosso recurso para lidar com a vida não é somente a “claridade”;  

há uma outra parcela de recursos que vem da “escuridão”.

A Ressurreição vem nos indicar que em nossas experiências de vida, de madrugada, existe uma escuridão que é redentora. A experiência da “madrugada da Ressurreição” nos faz entender que o escuro possui importantes jazidas de vida, que a própria claridade não dispõe...

Essa “luz oculta” é matéria-prima da esperança.

É próprio da natureza da noite desembocar no dia; a manhã que se aproxima é a revelação de que a “escuridão” não é em si a rival da vida. Nela está contida uma compreensão do dia, que a própria claridade da manhã não consegue produzir.

A “madrugada da Ressurreição” nos faz acender as lanternas do “encontro”; com isso descobriremos o outro, as relações com os outros, como recurso fundamental para enfrentar a floresta escura que se abre em infinitos caminhos.

        “Quando a noite vem/ e tudo lhe parece perdido/ pense,/ pense/ na ressurreição da aurora”

                                                                                                                                  (Renzo Ricchi)

Eis a primeira Páscoa que temos de viver, a primeira “passagem” (em hebraico, “pessah”) da argila vermelha (em hebraico, “adamah”) para a argila iluminada de nosso ser desperto, ressuscitado.

Uma Páscoa que é a passagem do velho Adão/Eva (o velho homem/mulher em nós) para o novo Adão/Eva: uma vida não bloqueada pela imposição externa, nem pela repetição do passado... mas uma vida aberta ao desconhecido, ao novo, ao surpreendente... a caminho da aurora.

 

Primeiro dia da semana de Páscoa. Este é um dia de plenitude luminosa (festividade) em expansão (aurora, saída, afastar a pedra, anunciar...).

A possibilidade de rompermos com um hábito ou com um padrão em nossas vidas é a marca deste “dia de Luz”. O primeiro ato é o de reconhecermos que nossa vida está “estreita” e que precisamos expandir nossos horizontes e sonhos. Mas para fazer isto temos que estar prontos para pagar o preço da expansão.

No relato bíblico, a saída da escravidão acontece à noite e com grande determinação e pressa.

Não há tempo para fermentar o pão, ou seja, não há tempo para apegos, para tentar encerrar todas as pendências. É partir agora ou ficar.

Aqueles que tem coragem descobrem o milagre que é a possibilidade de viver o impossível.

     O caminho do crescimento é a expansão sem sermos  possessivos.

     Ficamos “maior” cada vez que precisamos de “menos”.

 

Textos bíblicos:  Mc. 16,1-8   Mt. 25,1-13  Ex. 12,29-42

 

“O amadurecimento da experiência e uma visão de fé mais profunda

evidenciam a grande Luz que nos precede, acompanha e segue no

percurso da vida”. Deixemo-nos iluminar, levemos a Luz nas nos-

sas pobres e frágeis mãos, iluminando os recantos do nosso cotidiano.

 

RESSURREIÇÃO: dinâmico despertar da vida

 

“... viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos,

para não morrermos soterrados na poeira da banalidade” (Lya Luft)

 

Viver como ressuscitados”: esta é a paixão que não nos dá repouso.

                                                       Somos seres visceralmente “pascais”.

Páscoa é ter diante de si os desafios da vida. É preciso remover as pedras que foram

soterrando a vida dentro de nós e romper os muros que cercam nosso coração.

Viver como ressuscitados é reconhecer que nossa vida está “estreita” e que precisa-

mos nos situar num horizonte diferente. Viver é “re-criar-se”.

Em Jesus acontece algo totalmente novo; Ele traz uma nova maneira de viver que não

cabe nos nossos esquemas.. A ressurreição é uma novidade que rompe velhos barris.

A mudança de mente, de coração, de paradigmas... exige de nós que, de tempos em tempos, revisemos nossas vidas, conservando umas coisas, alterando outras, derrubado idéias fixas, convicções absolutas, modos fechados de viver... que impedem a entrada da luz da ressurreição.

Nada mais contrário ao espírito pascal que a vida instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranqüilizadores...

 

Na ressurreição, a vida é um fenômeno que emerge de forma misteriosa; ela se impõe, simplesmente.

Tal realidade desperta fascinação, provoca admiração e veneração... porque a vida é sempre sagrada. Diante dela ficamos extasiados, boquiabertos, escancarados os olhos e afiados os ouvidos. Ela nos atrai por sua força interna. A vida é sempre emergência do novo e do surpreendente. Sequer nos é permitido tocá-la de qualquer jeito. Ela exige certo rito; é proibido passar por cima dela. Somente podemos estabelecer um diálogo com ela: assim abriremos horizontes e viveremos na verdade.

 

“Viver como ressuscitados” é viver como aquelas pessoas que tiveram uma experiência limite da morte (por enfermidade, acidente...); elas experimentam uma mudança radical em suas vidas.

Sua atitude diante da vida é totalmente diferente; vêem-na com olhos novos.

Alberto Caeiro queria que voltássemos a olhar o mundo como as crianças que o estão vendo pela primeira vez. Aí, tudo é assombro, espanto, encantamento, fantástico, maravilhoso... É através dos olhos que as crianças, pela primeira vez, tomam contato com a beleza e o fascínio do mundo.

Marcadas pela ressurreição, as pessoas captam muitos detalhes que antes não haviam percebido, vivem intensamente, amam com mais paixão, prestam atenção a muitas coisas que antes lhes passavam desapercebidas. Tem um comportamento diferente para com os outros; há, nestas pessoas, mais ternura, são mais sensíveis à dor e à injustiça.

Ao saborear o presente da vida, vivem como se fossem ressuscitadas.  Crêem que, amando mais a vida, se afastarão mais da morte e resistirão às hostilidades do mundo presente.

E, no entanto, continuam vivendo na mesma casa, no mesmo trabalho, fazendo as mesmas coisas... , mas seu olhar audacioso desperta as consciências, sacode as velhas estruturas, derruba os muros da exclusão.

Olhar que se desgruda do saudosismo, do passado remoído... Olhar que rompe ataduras, desmancha condicionamentos, arranca do fatalismo... Olhar inquietante que sonda a verdade, que suscita comunhão.

 

Todos sabemos que o ser humano, embora extremamente limitado e frágil, é potencialidade de vida. E a vida não se define biologicamente pela quantidade de batidas do coração ou ondas cerebrais. 

Portador de uma vida inesgotável, o ser humano vive para mergulhar em algo diferente, novo e melhor.

Nossa vida não é um problema a  resolver, mas uma experiência a acolher, uma aventura a amar e um mistério a celebrar. Ela tem a dimensão do milagre e carrega no seu interior o destino da ressurreição.

A vida, desde o mais íntimo da pessoa humana, deseja ser despertada e iluminada em plenitude.

Vida plena prometida por Jesus: “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância” (Jo. 10,10).

Pois vida é um contínuo despedir-se e partir; é inútil permanecer junto ao túmulo. Porque o ausente “aqui” está presente na “Galiléia”. E a Galiléia é o lugar do compromisso com a vida, a justiça e a paz.

 

Textos bíblicosMt. 28,1-10   Lc. 24,13-35

 

Na oração: Para viver a partir do ser mais profundo, é preciso dedicar uma atenção especial ao próprio coração

                    e aprender a regozijar-se da maravilhosa vida de Deus em cada um de nós.

Basta um repouso e o estar-presente para fazer acalmar a agitação interior e aproximar-se da fonte da vida.

Removida a pedra, resta caminhar... E o Mestre, com um corpo marcado pela Paixão, chama-nos pelo nome...

 

A INDISPENSÁVEL ARTE DO DISCERNIMENTO

 

Segundo S. Catarina de Sena, “o discernimento não é outra coisa que o conhecimento verdadeiro que a alma há de ter de si mesma e do Eu”.

Uma das características mais indispensáveis de auto-conhecimento consiste em discernir de qual das três dimensões da pessoa (corpo, psiquismo e espírito) procedem os movimentos de consolação e desolação. Para isso é necessário conhecer as leis do próprio corpo, do psiquismo e do espírito.

 

a) É indispensável aprender a escutar a nossa corporeidade: o esgotamento físico, a falta de sono, a má alimentação, o ritmo das estações, as etapas biológicas da vida... tudo isso são, ao mesmo tempo, causas e conseqüências que ficam registradas no corpo. Em nosso corpo estão escritos todos os episódios de nossa vida. Nossos membros e nossos órgãos trazem um registro de tudo o que vivemos e, se não os escutamos, acabam passando fatura para nós.

 

b) No campo psíquico, também arrastamos atitudes que vem de muito longe: episódios ou zonas de nos-

sa vida não assumidos, relações não perdoadas, experiências não integradas...; tudo isto são focos de necroses que bloqueiam a paralisam nossas energias, e que não podemos vencer só à base de boa vontade.

De fato, dá-s um duplo princípio: o que não assumimos, não o redimimos; e ao mesmo tempo, “o que retemos ou aquilo ao qual nos resistimos, persiste,  incrusta e torna-se parasita.

Também devemos tomar consciência de outras áreas de nossa personalidade que estão em relação com o sentido da responsabilidade, o medo à transgressão, os sentimentos opressivos de culpabilidade... que temos de aprender a desprogramar, porque nos impedem crescer.

 

c) Na dimensão do espírito, não podemos deixar de trazer algo que é chave na Tradição: o discerni-

mento de espíritos. Segundo os mestres, estes “espíritos” são forças que não procedem do interior de nosso psiquismo, senão do “exterior” de nós.

Diz S. Inácio nos Exercícios: “Pressuponho que há em mim três pensamentos, a saber: o meu próprio, que surge unicamente de minha liberdade e querer; e outros dois, que vem de fora: um proveniente do bom espírito e outro do mau”. (EE. 32).

S. Paulo afirma: “O homem psíquico (quem se guia por si mesmo) não aceita o que vem do Espírito de Deus. É loucura para ele; ao pode compreender, pois isso deve ser julgado espiritualmente. Ao contrário, aquele que se deixa guiar pelo Espírito julga a respeito de tudo e por ninguém é julgado” (1Cor. 2,14-15).

O que queremos afirmar é que na Tradição cristã se considera a existência das “presenças espirituais” (tanto positivas quanto negativas) que não podem ser reduzidas simplesmente ao “campo psíquico”.

 

Aprender a discernir, ou seja, a interpretar os “sinais de Deus”, poderíamos compará-lo à aprendizagem de um idioma: no princípio só se ouvem sons; pouco a pouco, cada som é portador de um significado.

Agora bem, o discernimento não é uma técnica, mas um estado permanente de atenção e de oferta de si mesmo. Em mais de  900 cartas, S. Inácio finaliza da mesma maneira: “Que o Senhor nos dê sua graça para sentir sempre sua vontade e cumpri-la em sua totalidade”.

Na tradição espiritual, considera-se o discernimento como um “sexto sentido” ou um sentido interior.

William Blake, poeta e místico inglês do séc. XVIII, afirma que “se as portas da percepção estiverem purificadas, todas as coisas se mostrariam ao ser humano tal como são: infinitas”.  

Discernimento é dar nome à realidade descobrindo o seu sentido. Deste modo, dando um nome aos acontecimentos e às circunstâncias do dia-a-dia, temos a possibilidade de compreender o sentido da vida e das coisas. O dom do discernimento – do conhecimento transparente – se dá neste movimento de saída de si mesmo (éxtàsis) e de entrada em Deus (eustasis), no qual encontramos o clima trinitário.

 

Esta qualidade do “conhecimento interno” que leva ao esquecimento de si mesmo e que permite a transparência de Deus nas coisas, é constatada por S. Inácio: “As pessoas que saem de si mesmas e entram em seu Criador e Senhor, tem conselho, atenção e consolação freqüentes e sentem como todo nosso Eterno Bem está em todas as coisas criadas, dando a todas as coisas seu ser e conservando-as n’Ele” (Carta a S. Francisco de Borja – 1545).

 

 

CELEBRAR A RESSURREIÇÃO: ACOLHER A CORPOREIDADE

“Os cristãos incluíram uma declaração estranha no seu Credo. Diziam que criam e desejavam a ressurreição do corpo.

Como se o corpo fosse a única coisa que importasse...

Mas haverá coisa que importe mais? Haverá coisa mais bela? Ele é como um jardim, onde crescem flores e frutos...

         Cresce o riso, a generosidade, a compaixão, o desejo de lutar, a esperança;

         a vontade de plantar jardins, de gerar filhos, de dar as mãos e passear, de conhecer...

E ele transborda as águas que vão subindo, e elas saem dele, e o deserto seco vira oásis regado.

É assim: neste corpo tão pequeno, tão efêmero, vive um universo inteiro, e, se ele pudesse, bem que daria a sua vida pela vida do mundo.

No nosso corpo se revela o desejo de Deus.

Afinal de contas, o que nos segreda a doutrina da Encarnação é que Deus, eternamente, quis ter um corpo como o nosso.

Você já pensou nisto? Que no Natal o que se celebra é o nosso corpo, como coisa que Deus deseja?

 

Mas o corpo não é só fonte que transborda: é colo que acolhe.

O ouvido que ouve o lamento, em silêncio, sem nada dizer... A mão que segura a outra...

O poema que é a magia que transubstancia o mundo, colocando nele coisas invisíveis, só reveladas pela palavra...

A capacidade mágica de ouvir as lágrimas de alguém, longe, nunca visto, e chorar também...

O meu corpo transborda e fertiliza o mundo... O mundo transborda, e o meu corpo o recebe...

Tão simples, tão belo. Mas algo estranho aconteceu. Algo nos tentou, e começamos a buscar Deus em lugares perversos.

 

Pensamos encontrar Deus onde o corpo termina: e o fizemos sofrer e o transformamos em besta de carga, em cumpridor de ordens, em máquina para o trabalho, em inimigo a ser silenciado, e assim o perseguimos, ao ponto do elogio da morte como caminho para Deus, como se Deus preferisse o cheiro dos sepulcros às delícias do Paraíso.

E ficamos cruéis, violentos, permitimos a exploração e a guerra.

Pois se Deus se encontra para além do corpo, então tudo pode ser feito ao corpo.

 

Escrevi estas coisas como celebrações da Ressurreição. Na esperança da ressurreição dos mortos.

Para exorcizar a morte, que nós mesmos alimentamos com a nossa carne.

Invocações de alegria e beleza. Quem tem alegria e ama a beleza luta melhor.

Os corpos ressuscitados são guerreiros mais belos porque trazem nas suas mãos as cores do arco-íris.

E os corpos se transformam então em semente que engravida a terra para que nasça o futuro...” (Rubem Alves)

 

Acolher a própria condição de ser humano, nossa corporeidade, é já livrar-se da doença do perfeccionismo e das cobranças desgastantes de nossa sociedade.

Nossa corporeidade nos mostra como somos construtores de nosso humano de ser, com dons e limitações, com auto-enganos e busca da verdade de sermos como Deus nos quer.

Esta é a certeza revelada pelo mistério da Ressurreição: Deus semeou em nossa corporeidade os recursos

para a subida do amor. É o corpo que nos anuncia ou denuncia que estamos para cima ou para baixo, unificados ou fragmentados. Ele expressa ou encarna nossos conflitos.

Saber escutar o corpo é parte da espiritualidade. A outra parte é exercer a arte do cuidado. Quem esquece sua corporeidade, dela faz pouco caso ou a despreza na vivência da fé, não entende nem do ofício de se formar gente nem do Espírito que existe em nós para nosso crescimento humano e divino.

Nossa corporeidade é a carne na qual a Palavra de Deus se faz viva.  (Pe. Dalton Barros)

Textos bíblicos:  Sl. 139  2Cor. 4,7-15

Nosso corpo é morada de Deus. Uno e Trino.

Deus nos habita e assim nos surpreende com

sua presença. Deus e nós, sujeitos em movi-

mento de comunhão.

Está em nós porque nos quer bem, nos ama

até o fim. Deus vive em nós para nos ensinar a viver Nele e como Jesus. Ter em nós mesmos os sentimentos de Jesus exige evangelizar nossas profundezas. Dar a nosso corpo a saúde espiritual de quem se liberta dos próprios caprichos, amarras e apegos. “Foste Tu que criaste os meus rins”.   

 

PÁSCOA: noite carregada de esperança e de vida

 

O risco, a provisoriedade, a fragilidade, a fadiga, a incerteza, o medo...parecem ser os mais fiéis companheiros de caminho do ser humano.

Logo que ele nasce , começa o confronto, e talvez o encontro, com as trevas; logo que começa a viver, conhece a ameaça da morte; logo que toma consciência de si, percebe-se ameaçado pelos outros e pelo ambiente; logo que se julga seguro, conhece imediatamente a experiência da insegurança e da ansiedade.

É a experiência da presença da “noite” no ritmo da vida: noite que causa medo, provoca arrepios, impede a visão, paralisa...

Na noite, os objetos e as pessoas parecem impalpáveis, os rostos indefiníveis, o tempo interminável...

Tudo parece igual, confuso, próximo e, ao mesmo tempo, distante, inabarcável, impossível.

Na difícil tentativa de identificar aquilo que está fora, percebe-se mais facilmente a si mesmo ou a própria fragilidade: os passos incertos, as mãos vagantes à procura de um contato, os olhos escancarados no esforço para reconhecer alguma coisa, os ouvidos tensos a escutar o imperceptível, o coração enlouquecido saindo pela boca... Silêncio, desejo, espera, busca, pergunta: tudo flui, trazendo mensagens, ora tranquilizadoras, ora interpeladoras.

 

No entanto, é durante a noite que se realizam os maiores “mistérios”, aqueles que não são compreendidos mas que nos fazem compreender, aqueles que não podem ser abarcados mas que nos envolvem.

Pois, para quem tem a coragem de mergulhar na noite, no silêncio, na não evidência, alguma coisa torna-se compreensível, reconhecível, abarcável, narrável.

Lentamente, o olhar se faz penetrante, o ouvido se faz sensível, o tato se faz delicado e o imperceptível se faz concreto; o longínquo torna-se próximo, o desconhecido torna-se familiar, o extravio torna-se direção, a solidão torna-se companhia, o ignorado torna-se revelação.

A noite é o tempo do mistério e da promessa, é o lugar da espera e da realização, o espaço do desejo e do encontro, da invocação e da revelação, do sofrimento e da paixão, do silêncio e da oração, da vida e da morte, do Natal e da Páscoa...

Na noite o que conta, o que vale não se diz, não se vê, não se sabe: deseja-se, espera-se, recebe-se, realiza-se. Não é um simples eco aquela voz que anuncia no escuro o início do cumprimento de uma promessa que vem de longe e traz luz, festa, alegria, canto...

A fidelidade da promessa ouvida na noite é uma semente. Existe, mas tem necessidade de permanecer escondida. Realiza-se, mas exige habitar espaços de penumbra.

S. João da Cruz nos diz: “Conheço-a... a fonte, flui, corre, mas é de noite.

Sei que não pode existir coisa mais bela,

que céu e terra venham ali beber, mas é de noite.

Aquela fonte eterna está escondida... de lá chama todas as criaturas para que venham beber a sua água na sombra...

esta fonte viva do meu desejo a vejo neste pão da vida, mas é de noite”

 

A partir da “experiência pascal”, a noite pode espantar, mas ela sabe também guardar segredos; a morte pode se manifestar ameaçadora, mas ensina a viver; o outro pode parecer limitador, mas possibilita a consciência de si mesmo; o infinito pode suscitar inquietude, mas consegue impulsionar para o além, até acender no coração uma luz tenaz: e esperança.

O ser humano que espera, não se sacia, não fica seguro, não alcança...

Mas a esperança não é sem fundamento; não é uma ilusão e nem mesmo uma utopia; não é um sonho impossível e nem mesmo uma recordação irrecuperável; não é só futuro, mas permanece escondidamen-

te presente; não é uma morada, mas um sentimento sempre inédito.

Na noite ela se acende; na impotência, ela vence; na finitude, ela impele a caminhar.

Pregos arrancados aos pés de uma cruz, uma pedra removida, faixas espalhadas dentro de um sepulcro vazio... são os sinais que falam de uma fidelidade duradoura, de um remate certo, de um além que se faz sempre mais próximo, de uma vida ainda a caminho da plenitude.

 

A esperança é caminho e meta, posse e dom, destino e encontro, antecipação e completude, espera e busca, risco e proteção, vínculo e liberdade. A esperança é certa, mas não dá “garantia e segurança”.

“Inquieto é o coração do cristão. Estar sempre em busca, em espera: esta é a esperança...

porque a esperança é aquela que faz caminhar, que faz andar... Se se quer estar seguro permaneça fechado em casa e então esperar não tem sentido” (Massimo Cacciari).

Na madrugada da Páscoa, as mulheres correm ao sepulcro, encontram uma pedra removida, faixas espalhadas e um sepulcro vazio: Ele não estava.

De volta aos irmãos, contam o que presenciaram. Assim acontece também aos dois de Emaús: desaparece de seus olhos o viajante desconhecido que havia abrasado seus corações. E retornam aos irmãos.

A esperança é brasa, é pés, é narrativa, é assombro, é antecipação.

Não há esperança na solidão das próprias seguranças e das próprias expectativas.

A esperança se realiza no encontro, que impele a sair, a andar, a ir ao encontro, de narrar aos outros o fogo que se acendeu por dentro.

Uma humanidade incapaz de cultivar a esperança não mereceria ser objeto de consideração, porque lhe faltaria a única razão pela qual valha a pena viver.

A vida sem espera, sem desejo, sem paixão, sem esperança não é vida. Esperar além não é senão andar incansavelmente à busca de sinais da presença do Absoluto escondido no tempo e na evidência, na certeza que encontrá-los é verdadeiramente possível.

 

Um dia um discípulo pergunta ao seu Mestre:

- “Onde habita Deus?”

Responde o Mestre: - “Deus habita onde deixam-no entrar”.

Assim poderia responder a quem queira saber onde habita a esperança: “habita onde deixam-na entrar”.

E pode-se deixá-la entrar somente lá onde há encontro, onde há vida, onde há luta, onde há convívio com o outro diferente de si mesmo, onde a fragilidade e a provisoriedade parecem desnortear, onde as trevas aparecem mais fortes que a luz, onde a vida parece comprometida pela morte, onde a violência pensa ter sempre vantagem, onde o caminho se faz subida, onde a espera se confunde com a angústia.

A força da esperança está escondida justamente na sua impotência.

A Cruz permanece, mas o sepulcro é para sempre vazio.

É Ressurreição: vida plena antecipada.

 

Texto bíblico:    Mt. 28,1-10

        

 

 

CAMINHO DE EMAÚS: uma Presença instigante (Lc. 24,13-35)

 

A prisão, o processo, a crucificação e a morte do Mestre na cruz deixaram os discípulos num incrível estado de desorientação. Dois deles decidiram ir embora, deixando Jerusalém, onde tinham acontecido aqueles eventos dramáticos e chocantes.

Ambos se distanciavam da Cidade e o dia escurecia... também dentro deles.

A caminhada dos discípulos que haviam abandonado Jerusalém, cidade da esperança, dirigindo-se para Emaús, realiza-se ao anoitecer: estava escurecendo, o coração se apagando, os pensamentos tristes, os passos cansados, o horizonte obscuro. Conversavam, discutiam, mas não compreendiam o sentido dos fatos. Em seus rostos transparecia a obscuridade pela tristeza e decepção.

Os dois peregrinos tinham uma meta: Emaús, onde esperavam voltar à vida de antes ou conseguir começar a fazer algo de novo. São impelidos àquela meta unicamente pela desilusão, pela perdição, pelo pessimismo. Na verdade, ainda não eram livres e se sentiam oprimidos por uma esperança traída.

 

A vida de todo ser humano, que busca compreender o sentido dos fatos e das coisas, é como o caminho de Emaús. O fracasso da morte permanece no horizonte da vida de cada pessoa., tornando-se evidente nas coisas incompreensíveis ou nos fatos que não se consegue explicar.

Diante desta situação, apresentam-se duas tentações extremas: a fuga ou a indiferença.

Pode-se viver, fugindo de tudo o que acontece ou padecendo os eventos de modo fatal.

Jesus se torna um estranho – o único estrangeiro – para fazer entender o que aconteceu. No silêncio, deixa-os narrar. A seguir, tomando a palavra, explica as coisas “do seu modo”, à luz da Verdade.

Sem que eles percebam, Jesus os ajuda a ver os acontecimentos e a própria existência sob uma perspectiva nova. Ele se torna Palavra viva, contemplada, ouvida. Fazendo memória das suas promessas, ele enche de sentido e de esperança o coração deles, fechado na tristeza.

Antes, sem saber e, depois, conscientes, começam a perceber um raio de luz na escuridão de seu coração.

Pelas palavras do Desconhecido, conseguem dar um nome aos próprios sentimentos, às próprias expectativas, aos temores que os perturbavam.

Pouco a pouco, a Palavra se torna gesto, se torna ceia, convite, partilha, pão repartido.

Assim, toda a vida humana é resumida nesses dois gestos, simples e essenciais: a bênção e a partilha.

Jesus partilha com eles o caminho, a dúvida, a decepção, a obscuridade, a escuta, a conversa, o pão.

Ele lhes concede uma esperança, repleta de memória e de profecia.

Enfim, diante de um gesto simples e familiar, o “partir do pão”, reconhecem um rosto, o Rosto. Mas Ele desaparece. O coração arde no peito e os olhos se abrem: finalmente compreendem e voltam a Jerusalém, a cidade onde se aperfeiçoa o encontro e o reconhecimento.

 

Jerusalém é a cidade que gerou a primeira esperança naqueles dois discípulos; depois se torna contexto no

qual explode a experiência da desilusão, do medo, da morte e da falência; agora, enfim, é, mais uma vez, o lugar que acolhe a exuberância do encontro e do reconhecimento.

Os dois discípulos, logo que reconheceram o Mestre, retornaram a Jerusalém: lá o haviam conhecido; de lá se afastaram, tentando esquecer a derrota da Cruz e a comunidade amedrontada dos discípulos; para lá, enfim, retornam, a fim de transmitir a alegria contagiante do reconhecimento.

Então, a noite não os amedronta mais. Correm na escuridão, sem temor, em direção àquela Jerusalém, que não era mais cidade da morte, da Cruz, da derrota, da desilusão.

O crepúsculo que acompanhava a sua fuga se tornara uma nova aurora, repleta de esperança. Jerusalém se torna  para eles Cidade da comunidade, lugar do memorial, tempo de partilha, tempo de profecia.

 

Assim, começa algo  novo: das ruínas da derrota, do medo, da fuga, renasce uma cidade, uma comunidade nova. Os discípulos de Emaús deixam para trás o próprio passado e, junto com os Onze e os outros, que estavam em Jerusalém, começam uma vida nova.

Jesus, com os discípulos de Emaús, se faz estrangeiro e recomeça do zero: ajuda-os a reconhecer, a retomar o sentido perdido e oculto atrás da derrota e atrás da escuridão, da dúvida e da dificuldade de crer.

Sozinhos, os dois de Emaús, não teriam conseguido reconhecer: precisavam ser ajudados; o Anônimo toma a iniciativa, aproxima-se, acompanha-os, escuta-os, compartilhando, antes, o mistério do sentido das coisas, e, depois, o pão da partilha.

Agora, seus corações se tornam disponíveis à escuta, os olhos prontos a reconhecer, os pés prontos a correr, as  mãos  aprendem a repartir o pão da vida.

Ele desaparece, mas não se sentem sozinhos; a noite não é mais obscura; a mesa não está mais vazia; suas palavras narram o que viram; cada companheiro de estrada traz no rosto os sinais do Desconhecido.

 

PELAS ESTRADAS DA VIDA...

 

“Eis que dois deles viajavam neste mesmo dia para uma aldeia chamada Emaús, a sessenta estádios de Jerusalém, e conversavam sobre todos esses acontecimentos. Ora, enquanto conversavam e discutiam entre si, o próprio Je-

sus aproximou-se e pôs-se a caminhar com eles” (Lc. 24,13-15)

 

Lucas gosta de apresentar Jesus a caminho. Nos escritos lucanos o verbo

caminhar aparece 88 vezes. No relato dos discípulos de Emaús, os termos

“caminhar/caminho” aparecem no início, no meio e no fim. No livro dos

Atos dos Apóstolos, a palavra “caminho” designará a identidade e o modo

de vida das comunidades cristãs.

Lucas prolonga o tempo do “caminho” e retarda o momento do reconhe-

cimento, para mostrar que o Senhor só é reconhecido no fim do “itinerá-

rio da fé pascal”. O Ressuscitado não tem pressa. Gasta horas na companhia dos que foram e continu-am a ser seus amigos. Conversa com eles, deixando para trás os quilômetros do caminho.

Sua alegria é devolver-lhes o dom da alegria.

“O Mestre caminhava com eles no caminho, e Ele próprio era o Caminho. Viam-no com os olhos, mas não o reconheceram. Cristo, vivo, encontra mortos os corações dos discípulos, por cujos olhos foi visto e não foi visto. Viam-no e permanecia oculto para eles. Ia com eles como companheiro de caminho, e Ele próprio era o Guia. Certamente o viam, mas não o reconheciam. Haviam perdido a fé, haviam perdido a esperança.

Mortos eles, caminhavam com o Vivente, caminhavam mortos com a própria Vida.

A Vida caminhava com eles, mas nos seus corações ainda não havia vida.

Seus olhos estavam impedidos de reconhecê-lo. Porque era conveniente que seu coração fosse melhor instruído, retarda o dar-se a conhecer” (S. Agostinho).

 

Para ser discípulos e seguidores de Jesus precisamos fazer, como fizeram os discípulos de Emaús, a experiência de caminhar longamente com Ele, de ser companheiro de estrada com Ele...

Os caminhos que levam ao encontro com Jesus podem ser os mais diversos e mais ou menos longos, mas a experiência do encontro pessoal com Ele é imprescindível para conhecê-lo.

É essa experiência que muda nosso modo de pensar, de sentir e de agir; é esta experiência que nos converte em seus discípulos e seguidores.

A história dos dois discípulos é também nossa história.

Quando nos afastamos dos lugares nos quais e das pessoas com as quais fizemos a experiência do conhecimento e do seguimento de Jesus, quando desistimos de seguí-lo e empreendemos “outro caminho” que vai justamente na direção contrária, quando renunciamos ao seguimento de Jesus por achar que estávamos enganados, quando cremos que tudo terminou, quando já não cremos em mais nada, então é “o próprio Jesus” quem nos segue, caminhando ao nosso encalço.

E, depois de alcançar-nos, caminha ao nosso lado com o mesmo ritmo cardio-vascular, esperando o momento propício para retomar o diálogo conosco e para fazer arder de novo nosso coração com o calor da fé, da esperança e do amor.

 

A Graça de Deus pode atingir-nos pelos caminhos mais variados e inesperados: penetrando pelas rachaduras de nossas quedas, pelas brechas abertas em nós pelas fragilidades e pelas grandes decepções ou soprando as últimas brasas que, sob as cinzas da desilusão, ainda permanecem acesas.

Não poucas vezes é por meio do vazio deixado em nós pelas crises e perdas que Deus se introduz em nossas vidas e acaba por transformá-las radicalmente.

 

Na oração:  Só o “olhar amoroso” de Deus, que nunca desiste de buscar-nos para reconstruir-nos, conhece as

                     lonjuras dos caminhos que temos de percorrer para que nossos olhos sejam abertos.

                     Só o coração de Deus conhece a hora e o lugar em que nossos corações, mesmo estando duros e

                     desesperançados, podem ser enternecidos e entusiasmados de novo.

                     Sejam quais forem os motivos que nos levaram ao afastamento do Senhor, Ele vem ao nosso en-

                     contro percorrendo exatamente os mesmos caminhos que percorremos para nos afastarmos d’Ele.

As parábolas do Bom Pastor (Lc. 15, 4-7) e do Bom samaritano (Lc. 10,29-37) continuam a ser parábolas autobiográficas do Ressuscitado; expressam, com uma força insuperável, o comportamento de Jesus conosco.

Fazer “memória” dos momentos mais difíceis do seu caminho onde Deus se revelou presente, reconstruindo a sua história e dando sentido à sua vida.

 

 

ORAR A DESOLAÇÃO: a resposta ao “toque” do Senhor (4ª Semana)

                                                                                                                               Antonio Guillén sj

 

Os relatos das Aparições no Evangelho nos põem em contato com a situação de uma longa série de pessoas desoladas. O “golpe” da Sexta-feira Santa não pôde ser bem interpretado, de imediato, por aquele grupo de homens e mulheres. Todos “fizeram mudança”  em tempo de desolação.

As esperanças se perderam, a bondade de Deus pareceu  se esconder para sempre, a lembrança de Jesus foi reduzida a um cadáver a respeitar, e, quem sabe, uma bonita história a esquecer. Nada vivo, nada mais.

Nesse momento, o Ressuscitado se dedica a “reestruturar e a reconstruir” a sua comunidade de amigos quebrados, a mudar a “leitura” que tinham do fato acontecido por outra “nova leitura” capaz de “deixar-lhes o coração em brasas”. O grupo de pessoas quebradas, dispersas em sua desgraça, volta a reunir-se, volta a ter vida, se enche inclusive mais de vida do que antes. Contra suas próprias “barreiras” e expectativas destroçadas, “a dor acaba em alegria”

 

* Como o Ressuscitado provocou essa mudança?

* Através de quê passos foi conseguindo de cada um dos seus a recepção da “nova leitura”?

 

Nos relatos que S. João faz das “três aparições” a seus discípulos desolados, pode-se descobrir uma cadeia de sugestões para ensinar-nos a orar nossa própria desolação.

As “perguntas” do Ressuscitado vão nos indicando como apoiar-nos, para orar, “no auxílio divino que nunca nos falta, embora não seja sentido claramente” (EE. 320).

 

a) “Por que choras? (Jo. 20,13)

                                                         Maria Madalena buscava somente o corpo morto de Jesus. Alterada por sua própria obscuridade e golpeada pela dureza de suas grandes expectativas quebradas, não vê ao seu redor outra realidade a não ser a morte.

Não vislumbra outra interpretação do “túmulo vazio” a não ser uma profanação do cadáver.

Uma amargura a mais que deve se somar a uma situação desconsoladamente saturada.

O evangelista sublinha no texto a obsessiva fixação de Maria Madalena no “sepulcro” e a triste e inevitável conseqüência de “não deixar de chorar”.

Neste contexto de amargura e lágrimas, o dom do Senhor se manifesta por meio da pergunta formulada por seus “mensageiros”: “Por que choras?” “Quê angústias carregas dentro, que estão te tirando assim a vida?”

 

O apelo de nosso Deus toma, na desolação, a forma de um requerimento insistente para nos ajudar a perceber o alívio de nossa própria tristeza, como caminho para “sair de nosso próprio amor, querer e interesse”, e superar a maldade mortal da desesperança.

Custa entender que a tristeza e as próprias “feridas” sejam material de oração aceita pelo “Defensor da Vida”; no entanto, constatamos como Ele as acolhe, as transforma e lhes dá outra “leitura” nova, libertadora. Acaso haveria outra matéria melhor de oração cotidiana?

Com o “auxílio divino que nunca lhe falta”, Maria Madalena responde à pergunta e descobre, para assombro seu, que no fundo de sua pena “havia oração” (“levaram o meu Senhor”).

Sem saber como, se percebe agora capaz de deixar de olhar o “sepulcro” (“voltou-se e viu”).

Para todo cristão desolado, a nova perspectiva, desviada da fixação obsessiva na tristeza, lhe permite descobrir a proximidade do Ressuscitado doando vida. Ao responder a pergunta, aumenta-lhe a fé.

 

b) “A quem buscas? (Jo. 20,15)

                                                         O jardineiro, que Maria Madalena descobre agora a seu lado, retoma a mesma pergunta anterior, mas com mais calor e levando-a mais longe: “Por que choras, mulher? A quem buscas como solução e salvação de tanta desgraça?” Só implicitamente Maria Madalena havia respondido que  buscava um cadáver (“onde o puseste?”), e que, como tal, não podia continuar a lhe falar a não ser da morte. Agora cai na conta da insignificância de sua esperança. Para que serve um corpo morto, ainda que ela o possa controlar? Quê sentido a morte, por si só, pode dar à vida?

O Ressuscitado, ao chamá-la por seu nome (“Maria!”) se postula a si mesmo como capaz de dar-lhe um sentido positivo ao desconcerto brutal da Sexta-feira Santa. 

Alguém vivo que continua escutando, e oferecendo resposta plena “ao clamor dos que sofrem!”

O mesmo se repete em cada um de nós. A fidelidade confirmada do Senhor proclama, desde a manhã de Páscoa, que a desolação não é a última palavra, nem da História, nem de nossas pequenas histórias.

Maria Madalena se reencontra, de imediato, a si mesma, confessando o fundamento de uma esperança que já acreditava perdida: a relação viva com o Senhor (“Raboni!”).

No sentido mais verdadeiro, também ela “ressuscita” ao contato com o Ressuscitado.

Sua “ressurreição” lhe permite receber, como “apóstola dos apóstolos”, a primeira missão eclesial depois de Páscoa: “Vá dizer a meus irmãos. Subo a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus”.

Quê melhor oração poderia receber? E quê podia Maria Madalena imaginar que ia ser enviada em missão, só “um minuto depois” de sentir-se sem alegria e sem esperança?

 

Toda situação desolada esconde em seu centro esse “toque” provocativo do Senhor: “de verdade, tu, a quem buscas?” Enfrentar-se com honradez à provocação de tal pergunta, escavar a resposta  escondida nas próprias tristezas e desencantos, examinar a missão recebida do Senhor a partir desses pressupostos, permite desfrutar, de um modo radicalmente diferente, do envio do Senhor às novas tarefas e “trabalhos” requeridos. A desolação, assim aproveitada , considera por onde deu asas à confiança.

 

c) “Porque me viste, creste (Jo. 20,29)

                                                                   Tomé é vítima de seu próprio entusiasmo destroçado, e provavelmente também de seus inconfessados sentimentos  de culpa por não haver mantido seu compromisso de acompanhar o Mestre até o final. A recordação do que foi vivido (e traído) na Sexta-feira Santa o bloqueia no mesmo grau que a Maria Madalena, a Pedro e a todos os outros.

Difícil explicar-lhes nesse momento que do narcisismo ferido não se consegue nunca nenhum bem.

O narcisismo, nele mesmo, provoca o desprezo absoluto das mediações humanas. O que os outros podem trazer para tirar de cima de nós a tristeza ou o desalento que nos corroem por dentro?

 

Tomé expressa exatamente isso em sua exigência desaforada de condições para crer. Pouco depois, afortunadamente, já desfrutava dos “efeitos maravilhosos” da presença de seu “Deus e Senhor”, quando escutou suavemente d’Ele a repreensão por seu desprezo orgulhoso de tantas mediações:

“Porque me viste, creste”. “Não te bastou, Tomé, o testemunho de teus companheiros para crer?

A correção carinhosa de Jesus está apelando à experiência comum do grupo.

“É o mesmo Espírito e Senhor que rege e governa a comunidade eclesial” (EE. 365), da qual Tomé formou parte. Por que não esperou encontrar nela ajuda e auxílio contra a tentação?

Certamente, a fé é vivida, preparada e cultivada no plural.

Com freqüência, toda mínima eclesialidade é esquecida quando alguém se encontra em desolação.

Sim, o publicano que ora no templo, a desfruta, por sua humildade; mas, o fariseu que “reza” diante dele a rechaça, por sua vaidade.

Quando o Ressuscitado se aproxima de Tomé, com o coração abrandado pela “noite”, este aprendeu a ser mais “publicano” agradecido que “fariseu” auto-suficiente.

 

c) “Tu me amas (Jo. 21,15)

                                                 Pedro acreditou durante toda sua vida que Jesus lhe perguntava se “estava disposto a segui-lo, e inclusive dar a vida por Ele”.

Repetidas vezes respondeu com entusiasmo (e insensatez) a uma pergunta que não era feita a ele.

Agora, junto ao Tiberíades, depois de ter experimentado na Sexta-feira Santo o afundamento de suas forças, já é capaz de escutar a pergunta verdadeira: “Pedro, tu me amas?”.

A resposta (finalmente, humilde) deste momento re-situa a Pedro de novo na missão recebida: “apascenta os meus cordeiros”. Agora, sim, Pedro saberá cumpri-la, entregando sua vida no serviço aos outros. A amarga desolação, vivida e chorada na Sexta-feira Santa lhe desvelou, finalmente, que a pergunta fundamental do Doador é feita  sobre o amor.

 

Cedo ou tarde, o homem e a mulher espirituais acabam aprendendo de suas consolações e desolações, como Pedro, a entregar-se por inteiro e em gratuidade a seus irmãos.

Tudo o que é recebido é para ser partilhado.

O objetivo de toda vida espiritual não é ter mais consolações, senão fazer as pessoas mais dóceis a Deus, e assim, afinar o ouvido, flexibilizar a fronte, descobrir Sua presença em mais lugares, escutar Sua palavra, inclusive no silêncio, “amá-lo e servi-lo em tudo”.

Para esta finalidade, o ensinamento também das desolações, bem interpretadas, torna-se insubstituível.

Sua lição se revela cheia de “proveitos”.

 

AS ESCRITURAS AJUDAM A “LER” A VIDA

“E, começando por Moisés e por todos os Profetas, interpretou-lhes em todas
as Escrituras o que a Ele dizia respeito” (v. 27)

O trauma causado nos discípulos pela Paixão e Crucifixão do Mestre tinha ferido e endurecido seus corações e fechado suas inteligências. Eram absolutamente incapazes de compreender os caminhos do desígnio salvífico de Deus.
“Eram seus discípulos, tinham-no escutado, tinham vivido com Ele, tinham-no reconhecido como Mestre,
tinham sido instruídos por Ele, e não foram capazes de imitar e ter a fé do ladrão pendurado na cruz.
Onde o ladrão encontrou a esperança, ali o discípulo a perdeu” (S. Agostinho)

A revelação do Ressuscitado continua a ser progressiva; a pedagogia usada, porém, muda.
Para acordá-los do torpor em que se encontram, para que vejam além dos fatos brutos que os deixaram traumatizados, para tirá-los do fechamento em si mesmos e do lamento estéril, Jesus recorre à “terapia de choque” e lança ao rosto dos discípulos, ainda coberto pela tristeza e pelo abatimento, uma repreensão muito dura: “Ó insensatos e lentos de coração para crer tudo o que os profetas anunciaram!”
O “Ó” com que começa a repreensão expressa uma forte emoção.
Num primeiro momento, os discípulos devem ter ficado ainda mais desorientados
com a mudança de comportamento do peregrino, que até então tinha se mostrado
tão amável, paciente e interessado em escutá-los.

Depois da terapia de choque, Jesus retorna de novo à pedagogia do amor compre-
ensivo e paciente, explicando aos discípulos, à luz de “todas as Escrituras”, o sen-
tido de sua Paixão e Morte.
Pedagogicamente, o Mestre vai abrindo a inteligência dos discípulos para que, logo
depois, ao abrir-lhes as Escrituras, possam compreendê-las; vai abrindo seu cora-
ção para que , ao compreender as Escrituras, possam arder de amor e de alegria.
O peregrino consegue tirar do caminho a pedra de escândalo na qual os discípulos tropeçam: a incompreensão da Paixão e Morte de Jesus. Só o Senhor Ressuscitado pode fazer-lhes compreender que a Cruz não é a destruição de suas esperanças, mas o caminho para a mais plena realização da justiça e do amor de Deus. A Cruz é vitória do amor de Deus sobre todos os ódios acumulados pela humanidade, a vitória da justiça de Deus sobre todas as injustiça cometidas pelos homens, a vitória do Deus da Vida.

À medida que Jesus ia explicando-lhes as Escrituras, iam crescendo nos discípulos a surpresa e a afeição para com aquele peregrino estranho que se interessava por seus problemas como se não existisse nada mais importante para Ele que os escutar e esclarecê-los. Mesmo desesperançados, os discípulos tiham aceito participar do diálogo iniciado pelo desconhecido companheiro de caminho.

A contemplação desta cena deve ser, também para nós, um Kairós, um “tempo propício” para buscar e encontrar a resposta dada pela fé às questões terríveis que nossa razão é incapaz de resolver: o sofrimento dos inocentes, as opressões e injustiças praticadas pelos tiranos, os sofrimentos e mortes causados pela fome e pelas guerras, a devastação da terra em que vivemos, causada pelo egoísmo, pelo consumismo irresponsável, pela ânsia de ganância...
A resposta a estas questões nos é dada na vida de Jesus.
Ela nos mostra que mesmo as maiores injustiças e as violências mais atrozes são finalmente envolvidas e remidas pelo “amor extremo” de Deus, que é sempre maior que nossos fracassos e sofrimentos. Deus, sempre fiel, leva adiante seu plano salvífico, respeitando a liberdade humana.

Na oração: É o próprio Jesus, o Mestre, quem nos revela o significado de nossa própria vida.
Entremos em sua escola com grande docilidade e ouvido de discípulo.
* Façamos uma re-leitura da nossa própria vida, procurando nela as “marcas” de Deus.
* Na oração, somos convidados a interpretar a nossa própria história, percorrendo as pegadas de Deus. Trata-
se de ler o que está escrito na vida como se lêem as palavras de um texto que tem um sentido e uma direção.
* Nosso coração é como um tecido; na medida em que Deus vai escrevendo no tecido do nosso coração, nós
podemos parar para ler a lição de Deus.
* Quais são as marcas deixadas por Deus em seu coração e que você sempre “faz memória”? Para onde caminha sua vida?
* Que lugar ocupam as Escrituras na sua vida cotidiana?
 

A PEDAGOGIA DE JESUS

 

“Ele lhes disse: Que palavras são essas que trocais enquanto ides caminhando?”

 

Jesus nunca entra em nossas vidas como um intruso, mas aproxima-se sempre de nós passo a passo.

Só depois de escutar-nos e de olhar-nos em silêncio, só depois de comungar com nossa tristeza, toma a iniciativa de dialogar conosco e toca no ponto nevrálgico de nossa dor.

Porque conhece o que nos faz sofrer, sabe também como curar nossas feridas, como acalentar nosso coração, como fazer renascer em nosso interior a alegria e a esperança.

 

No caso dos dois discípulos de Emaús, depois de acompanhá-los ao longo da estrada com sua simpatia silenciosa, Jesus recorre à pedagogia da “pergunta”.

Não sabemos durante quanto tempo os acompanhou em silêncio. O que o texto evangélico diz é que, a certa altura, o forasteiro que se fez seu companheiro de caminhada tomou a iniciativa de entrar em diálogo com os dois, perguntando-lhes pelos motivos da tristeza refletida em seus rostos e da preocupa-ção que carregavam no coração, e que faziam tão lentos seus passos.

 

A pergunta de Jesus sobre o problema que causava tamanho sofrimento neles foi o ponto de partida para

                    encontrar a resposta que, no fim do itinerário, iria esclarecê-los, iluminá-los e devolver-lhes a

                    alegria e a esperança perdidas.

Logo de saída, a pergunta de Jesus fez com que o fardo que os sobrecarregava, curvando-os sobre si mesmos, começasse a ser descarregado e se sentissem mais aliviados.

Para respondê-la, os discípulos tiveram de levantar os olhos do chão e olhar para o rosto do peregrino desconhecido. Sem perceber, começam a sair de seu fechamento e a alegrar-se porque alguém está interessado em saber quais são as causas de sua tristeza e quer escutá-los.

 

A reação dos discípulos à primeira pergunta de Jesus – uma pergunta que pôs

o dedo na ferida que ainda doía e sangrava – foi uma resposta não-verbal:

                             “E eles pararam, com o rosto sombrio”.

           As “paradas” são fundamentais na vida para que a pessoa tome consciência da

           própria situação e verifique se  o caminho que está fazendo é o melhor para ela.

Jesus, como Mestre sábio, finge que não sabe o que aconteceu em Jerusalém

para que, por meio do diálogo, possa esclarecer os discípulos.

Para fazer-lhes compreender “o que aconteceu com Jesus”, não recorre a princípios

gerais e teóricos, mas parte da situação existencial em que eles se encontram nesse

momento; provoca-os inclusive para que falem à vontade das causas de sua tristeza.

Só depois de terem expressado seus sentimentos e sua interpretação dos fatos, e de ouví-los atenta e pacientemente, Jesus fará ver aos dois discípulos o sentido de sua Paixão, Crucifixão e Morte.

Através das perguntas de Jesus temos mais uma prova da delicadeza de sua amizade com os discípulos.

A pergunta do Mestre a Cléopas é um convite para que os dois expressem a admiração e o afeto que sentem por Ele. Falar do tempo em que viveram juntos, será uma forma de expressar a saudade que sentem dele e uma forma de comunhão com Ele.

A pedagogia amorosa de Jesus deu certo. Os discípulos abrem o coração e contam ao peregrino “o que aconteceu a Jesus de Nazaré”. Na resposta dos discípulos estão contidos os temas essenciais do Kerig-ma cristão; mas esse conteúdo é relatado como uma tragédia irreparável. O que aconteceu com Jesus não é contado por um coração ardente e exultante, mas por um coração ferido, desiludido e triste.

Os discípulos perderam a esperança antes do tempo, pois não esperaram o “terceiro dia”.

 

Na oração:  Procuremos identificar-nos com os sentimentos expressos pelos discípulos; sentimentos de frus-

                      tração e tristeza, por um lado, de afeição e saudade, por outro.

                      Contemplemos ainda, com os sentidos interiores, os sentimentos do coração do Ressuscitado.

 

Depois de ter contemplado longamente a cena, reflitamos sobre a pedagogia de Jesus conosco e sobre nossa re-lação com Ele.  Jesus respeita sempre nossa liberdade e nosso ritmo de compreensão dos acontecimentos.

Ele abre espaços para que possamos falar de nossas feridas, tristezas e decepções.

Antes de dar-se a conhecer, Ele vai aquecendo nosso coração e envolvendo-o com os laços do amor.

Jesus pratica uma pedagogia de simpatia amorosa, paciente e compreensiva para com os discípulos de Emaús.

 Em quê medida praticamos essa mesma pedagogia com os que estão tristes, desolados, sem esperança?

 

O SACRAMENTO DA ACOLHIDA

 

“Aproximando-se da aldeia para onde iam, Jesus fez como se fosse mais adiante.

Eles, porém, insistiram, dizendo: ‘Permanece conosco, pois cai a tarde e o dia

já declina’. Entrou então para ficar com eles”. (vv. 28-29)

 

À medida que o diálogo foi se aprofundando, os dois discípulos foram se afeiçoando ao peregrino, seus olhos foram progressivamente iluminados e seus corações aquecidos, a esperança e a felicidade foram invadindo os espaços pouco antes ocupados pelo desencanto e pela tristeza. A conversa tinha sido tão agradável, que os discípulos se surpreenderam ao constatar que já tinham chegado a Emaús.

Detenhamo-nos na contemplação dos três na encruzilhada do caminho que vai para a aldeia.

O sol acaba de se pôr e a noite começa a descer. É a hora de restaurar as forças com a refeição, a hora do descanso, a hora das confidências. O convite feito pelos dois discípulos ao peregrino tem sua razão de ser, quando a escuridão facilita os assaltos e agressões.

 

Depois do longo diálogo com o peregrino, os discípulos não discutem mais entre si, mas, unânimes, insistem para que jante e permaneça com eles naquela noite.

A insistência no convite não é um gesto meramente convencional. Lucas quer mostrar aos destinatários do Evangelho que o pedido “Permanece conosco!” expressa o desejo de ser discípulo de Jesus.

O pedido revela que os discípulos não querem perder a Luz com que tinham sido iluminados, nem o calor com que tinham sido aquecidos.

Mesmo antes de reconhecê-lo os dois discípulos intuíram que o convidado era o Sol que não conhece ocaso, o Sol que destrói as trevas do pecado e da morte, a Luz que ilumina todo homem.

 

Jesus, por sua vez, quer também prolongar a convivência com eles. O peregrino, agindo de acordo com os costumes orientais, só aceitou a hospitalidade depois de ser insistentemente rogado.

           Depois que Jesus aceitou o convite, a casa de Emaús, em vez de tornar-se um lugar de fuga e fechamen-

           to, como os discípulos pretendiam, tornou-se um lugar de acolhida e de partilha, de iluminação e ponto

           de partida para a retomada da comunhão com a comunidade dos Onze e dos demais companheiros.

Comentando esta passagem, S. Agostinho exorta os cristãos à prática da hospitalidade:

     “Que mistério, meus irmãos! Jesus entra em sua casa, torna-se seu hóspede, e

      reconhecem na fração do pão Aquele que não haviam reconhecido durante todo 

      o tempo que caminhou com eles.

Aprendei, pois, a praticar a hospitalidade; nela reconhecereis o Cristo.

Acolhe o hóspede se queres conhecer o Salvador. O que a infidelidade lhes tinha

tirado foi-lhes devolvido pela hospitalidade. Se acolheis um cristão, o acolheis a Ele.

Ele mesmo o diz: ‘Fui hóspede e me acolheste’. Demos de comer ao Cristo faminto.

Saciemos sua sede. Vistamo-lo quando está nú. Acolhamo-lo quando enfermo.

São misteres da viagem. Assim devemos viver onde Cristo está necessitado”.

 

S. Gregório Magno insiste no mesmo tema: “Recebei o Cristo em vossa mesa para

                                merecer ser recebidos por Ele no banquete eterno; oferecei agora alojamento ao

                                Cristo estrangeiro para que no momento do juízo, Ele não vos ignore como estrangeiro,

                                mas vos receba em seu Reino, como membros de sua família”.

 

Na oraçãoDetenhamo-nos mais uma vez para saborear o significado da cena. Ela nos mostra que quando pe-

                      dimos insistentemente ao Senhor para que fique conosco, Ele ouve sempre nossa súplica; e sua

                      presença ilumina e transforma nossa vida.

                      Na  verdade, é Ele próprio quem deseja sentar-se à nossa mesa; mais ainda, é Ele quem toma a ini-

                      ciativa de vir ao encontro, é Ele quem mendiga o nosso amor.

* Jesus nunca nos impõe sua presença, nunca exige de nós que nos abramos à comunhão com Ele. Espera sem-

   pre até que surja em nós, do mais profundo de nós mesmos, o desejo de permanecer com Ele.

   Mas, se deixarmos que Ele se aproxime de nós, caminhe e converse conosco, e se lhe abrirmos as portas de

   nosso coração, terminaremos sendo cativados por Ele e desejaremos que permaneça conosco.

 

Depois de contemplar o comportamento dos discípulos com Jesus e de Jesus conosco, perguntemo-nos qual é a acolhida que damos (ou não damos) às pessoas que vêm ao nosso encontro ao longo dos caminhos de nossa vida. A acolhida delas pode ser para nós um sacramento do encontro com o próprio Senhor.

 

O MILAGRE DO PÃO PARTIDO E REPARTIDO

 

“E, uma vez à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, depois partiu-o e

distribuiu-o a eles” (v. 30)

 

Contemplemos os três personagens: Jesus e os dois discípulos, reclinados à mesa de jantar.

O olhar do Ressuscitado pousa ora sobre Cléopas ora sobre seu companheiro; os olhares dos dois, por sua vez, não se desviam do olhar do peregrino. Contemplemos seus gestos e ouçamos suas palavras; ouçamos também os silêncios, tão eloqüentes quanto as palavras.

Como os discípulos de Emaús, também nós precisamos das palavras e do calor da amizade de Jesus para sair de nossa solidão e de nosso vazio interior.

Mas para que as palavras e ações de Jesus mudem nosso modo de pensar e agir precisamos “permane-

cer” longamente com Ele, ouvi-lo atentamente e contemplá-lo amorosamente.

Detenhamo-nos, pois, na contemplação dos gestos de Jesus abençoando, partindo e distribuindo o pão, gestos que os dois o tinham visto fazer tantas vezes.

 

Em contraposição à cegueira do início, a abertura dos olhos dos discípulos é enfatizada no momento em que Jesus abençoa, parte e reparte o pão,  e eles O reconhecem: “Então seus olhos se abriram e o reconheceram”. Este momento constitui o àpice de todo o relato.

No início, Jesus toma a iniciativa do diálogo, aproximando-se, perguntando, escutando; depois, ao longo do caminho, explica-lhes as Escrituras; finalmente, “partindo e repartindo o pão” como aquele que preside, dá-se a conhecer. É então que os olhos dos discípulos se abrem.

 

Imediatamente depois de ser reconhecido, o Ressuscitado deixa de ser visto. O relacionamento do Ressuscitado com os discípulos não é o mesmo que o do Jesus pré-pascal. Os discípulos sabem que, mesmo invisível aos olhos, está presente no meio deles quando se reúnem para a “fração do pão”.

“É na fração do pão onde reconhecemos o Senhor.

Se Ele só quis ser reconhecido neste momento, foi por nossa causa, foi para nós que não O devíamos ver

na sua carne, mas que devíamos comer sua carne.

Nós O reconhecemos, se cremos. Se cremos, O temos” (S. Agostinho).

 

A “fração do pão” continua a ser para os discípulos de Jesus de todos os tempos “o sinal por excelência da presença do Ressuscitado, o lugar onde eles podem e devem descobrir essa presença, e a partir do qual poderão dar testemunho da Ressurreição” (J. Dupont).

O Ressuscitado quis dar-se a conhecer aos discípulos depois de ter-lhes mostrado, à luz das Escrituras, o sentido de sua Paixão e Morte. O reconhecimento do Senhor é o momento culminante de todo o relato.

Mas para chegar a esse momento, é necessário percorrer antes um longo itinerário.

A estrutura do relato, com a explicação das Escrituras ao longo do caminho e a fração do pão no fim do caminho, quer valorizar as “duas mesas”, ou as duas partes da ação eucarística: a liturgia da Palavra e a liturgia Eucarística.

A explicação das Escrituras é necessária como preparação para a liturgia Eucarística. Mas sozinha não basta. O reconhecimento do Senhor pelos discípulos teve lugar quando Jesus “partiu e repartiu o pão” para eles. Não o tinham reconhecido pelo tom da voz, nem pelo conteúdo da conversa ao longo do caminho, mas o reconheceram pelo gesto/sinal de partir e repartir o pão.

 

Na oraçãoPara reconhecer o Senhor, é necessário que nos sejam abertos os olhos da fé; para que isso aconteça é necessário primeiro que o nosso coração “arda”. E para que

nosso coração arda é preciso que seja progressivamente aquecido pelo diálogo

de amizade, pela relação pessoal e prolongada com o Senhor.

 

* À medida que nos abrirmos ao amor de Deus que nos é oferecido nas “duas

   mesas”, seremos iluminados para descobrir esse amor que se faz presente de

   muitas maneiras na vida cotidiana.

* Alimentados com o pão da Palavra e com o pão da Eucaristia,  esse alimento

   será, ao longo dos caminhos de nossa vida, sustento para nós e ao mesmo tem-

   po “sinal sacramental”, isto é, sinal “visível e eficaz” de nosso amor e de

   nosso serviço aos que encontrarmos no caminho.

* Na oração,  perguntemo-nos como participamos da celebração da Eucaristia.

 

VOLTA PARA A COMUNIDADE: COMUNHÃO e MISSÃO

 

“Naquela mesma hora, levantaram-se e voltaram para Jerusalém”  (v. 33).

 

A experiência do encontro com o Senhor e de seu reconhecimento transforma radicalmente a vida dos que a fazem. O itinerário da fé pascal é longo e penoso, mas realiza uma verdadeira reviravolta nos pensamentos e sentimentos, nos ideais e na conduta dos que o percorrem até o fim.

Ao reconhecimento do Senhor, à iluminação da inteligência e ao ardor no coração dos discípulos, seguiu-se uma mudança imediata e radical em seu comportamento e na direção de suas vidas.

 

No momento em que o relato chega ao ápice, recomeça tudo de novo; quando o itinerário da fé pascal dos discípulos chega ao fim, começa a ser percorrido o caminho de volta para a comunidade a fim de partilhar com os outros a experiência vivida por eles.

Antes de encontrar-se com Jesus e de reconhecê-lo, o caminho empreendido pelos dois discípulos os afastava de Jerusalém e dos outros discípulos; quando seus olhos “estavam impedidos de reconhecê-lo”, a decepção, a tristeza e a falta de esperança estavam refletidas em seus rostos.

Depois que seus olhos foram abertos e o reconheceram, “na mesma hora”, sem pensar no cansaço nem na distancia do caminho, sem temer a escuridão nem os perigos da noite, os dois

discípulos empreendem juntos o caminho de volta para Jerusalém.

Para quem fez a experiência do encontro com o Ressuscitado não existe mais

medo, não existem mais obstáculos, portas fechadas, etc... que impeçam em-

preender os caminhos do anúncio do Evangelho, da comunhão e da missão.

 

Ao saírem de Jerusalém, o assunto da conversa dos discípulos era o que tinha

                  acontecido com Jesus; ao voltarem, conversavam sobre o tinha

                  acontecido com eles no encontro com Jesus.

No início, estão tristes, sem esperança e com medo do futuro; não se entendem

                  e discutem entre si sem conseguir chegar a um acordo.

Depois do encontro com o Senhor, partilham a mesma experiência e estão ansi-

             osos por partilhá-la com  os outros discípulos.

O caminho de volta, não o fazem arrastando os pés e cabisbaixos, como tinham feito o caminho de ida,

                    mas correndo, com os olhos iluminados e o coração ardendo no meio da noite.

Assim como a opção de romper com a vida e a história de Jesus os tinha leva à ruptura afetiva e efetiva com os outros discípulos, assim o reencontro e a restauração da comunhão com Jesus, agora ressuscitado, movem-nos a empreender o caminho de volta para a comunidade.

 

As experiências do encontro pessoal com o Ressuscitado são tão variadas quanto as histórias das pessoas que as fazem, são experiências absolutamente singulares.

A experiência de cada pessoa deve ser inserida, no entanto, na comunidade eclesial.

A dimensão comunitária é, portanto, constitutiva da experiência do encontro com o Ressuscitado.

Dito de outro modo, o encontro pessoal  com o Senhor edifica a comunidade.

 

Na oração: Se a experiência do encontro com o Senhor realizou também em nós a graça de um olhar novo so-

                    bre nós mesmos e sobre o mundo, nossos olhos não estarão mais tristes e fixos no chão; depois de

                    terem sido iluminados, devem estar voltados para novos horizontes, abertos pela luz da fé.

                       Onde antes só víamos injustiça, fracasso e morte, à luz da fé pascal passamos a ver um

mundo novo, remido, capaz de amar.

- À luz da fé pascal, devem mudar também nossas atitudes, nossos comportamentos  e a direção de nossos caminhos. Em vez de afastar-nos dos companheiros, na busca alucinada de um lugar de refúgio, empreenderemos o caminho de volta para a comunidade, a fim de reconstruir, pelo testemunho da própria experiência e

   pela confissão de fé no Ressuscitado, a comunidade.

- Uma comunidade que crê que “verdadeiramente o Senhor ressuscitou” não pode deixar de ser invadida pe-

   la alegria. E manifestará essa alegria de mil maneiras: no relato, na partilha, na adoração, no silêncio, no canto

- À medida que, pelo encontro e diálogo prolongados com o Senhor e seu reconhecimento na “fração do pão”,

   saímos do fechamento em nós mesmos e passamos a acreditar na presença, na ação e na força do Amor de

   Deus em nossas vidas, nessa mesma medida passamos a experimentar que somos enviados aos irmãos.

É lá, na comunidade dos discípulos, na prática da comunhão fraterna, fazemos de novo a

experiência da presença e da ação do Senhor. 

 

A EXPERIÊNCIA DOS DISCÍPULOS DE EMAÚS E A NOSSA (Lc.24,13-35)

 

“Se tivesse que dar todo o Evangelho por uma única cena na qual estivesse todo ele

resumido, eu dificilmente duvidaria, escolheria a cena

dos discípulos de Emaús” (Jean Guitton)

 

O caminho dos dois discípulos de Emaús foi uma verdadeira “páscoa”, isto é:

* a “passagem” do fechamento para a abertura, do não-reconhecimento para o reconhecimento;

* a “passagem” do abandono da comunidade para o retôrno à comunidade, do afastamento para a aproximação,

   do isolamento para a comunhão;

* a “passagem” do lamento para o agradecimento, da tristeza para a alegria, do fechamento para a partilha;

* a “passagem” do desânimo para o entusiasmo, da lentidão para a prontidão;

* a “passagem” da ruptura exterior e da dilaceração interior para a comunhão e para a paz, da cegueira para

   a iluminação;

* em resumo, a “passagem” do coração vazio e duro para o coração transbordante e abrasado.

 

O relato dos discípulos de Emaús revela-nos ainda que o conhecimento de Jesus Cristo, a amizade com Ele, a inserção na comunidade dos discípulos e o testemunho de sua ressurreição são progressivos.

Para conhecer o Senhor, é necessário caminhar com Ele, escutar longa e atentamente sua Palavra, deixar-se cativar por Ele, sentar-se à mesa com Ele e deixar que Ele parta e reparta para nós o pão da vida.

E, depois de reconhecê-lo, é necessário realizar imediatamente o “caminho de volta” para a comunidade dos seguidores d’Ele, para partilhar com eles a experiência do nosso encontro com o Senhor, professar juntos a  comum e realizar as obras do Reino.

 

Para ser verdadeiramente discípulo de Jesus é necessário percorrer o longo, difícil e fascinante itinerário da incredulidade para a fé.

No fundo do coração dos discípulos há um grande vazio que, inconscientemente, querem preencher “conversando”. Não poucas vezes é por meio desse vazio deixado em nós pela morte e sepultura do que “nós esperávamos” que Deus entra em nossas vidas e acaba por transformá-las radicalmente.

A graça de Deus pode atingir-nos pelos caminhos mais variados e inesperados: penetrando pelas racha-

               duras de nossa lógica, pelas brechas abertas em nós por grandes decepções, ou soprando as últimas brasas que, sob as cinzas da desilusão, ainda permanecem acesas.

 

 “O Mestre caminhava com eles no caminho, e Ele próprio era o Caminho.

Viam-no com os olhos, mas não o reconheciam. Viam-no e permanecia oculto para eles.

Cristo, vivo, encontra mortos os corações dos discípulos.

Ia com eles como companheiro de caminho, e Ele próprio era o Guia.

Certamente o viam, mas não o reconheciam. Haviam perdido a fé, haviam perdido a esperança.

Mortos eles, caminhavam com o Vivente, caminhavam mortos com a própria Vida.

A Vida caminhava com eles, mas nos seus corações ainda não havia vida. Porque era conveniente

 que seus corações fossem melhor instruídos, retarda o dar-se a conhecer”. (S. Agostinho)

 

Lucas gosta de apresentar Jesus a caminho. O verbo “caminhar” é usado 150 vezes no N.Testamento, dos quais 88 vezes nos escritos lucanos.

No relato dos discípulos de Emaús, os termos “caminhar/caminho” aparecem no início, no meio e no fim. No livro dos Atos, a palavra “caminho”  designará a identidade e o modo de vida das comunidades cristãs (At. 9,2; 18,25-26; 19,9.23; 22,4; 24,14).

Os caminhos que levam ao encontro com Jesus podem ser os mais diversos e mais ou menos longos, mas

                       a experiência do encontro pessoal com Ele é imprescindível para conhecê-lo.

                       É essa experiência que, em última instância, muda nosso modo de pensar, de sentir e de

                       agir. É essa experiência que nos converte em seus discípulos e seguidores.

 

“Sabendo tudo acerca de si mesmo, perguntava, porque desejava estar neles” (S. Agostinho)

No caminho de Emaús, Jesus, como mestre sábio, parte da situação existencial em que os dois discípu- los se encontravam naquele momento: provoca-os para que falem à vontade das causas de sua tristeza.

A pergunta de Jesus sobre o problema que causava tamanho sofrimento neles foi o ponto de partida para encontrar a resposta que, no fim do itinerário, iria esclarecê-los, iluminá-los e devolver-lhes a alegria e a esperança perdidas.

A pergunta de Jesus faz com que os discípulos levantem os olhos do chão e olhem para o rosto do peregrino  desconhecido. Sem perceber começam a sair de seu fechamento e a alegrar-se porque

                    alguém está interessado em saber quais são as causas de sua tristeza e quer escutá-los.

A pedagogia amorosa de Jesus deu certo: eles abrem o coração e contam “o que aconteceu a Jesus de Nazaré”. No entanto, o que aconteceu com Jesus não é contado por um coração ardente e exultante, mas por um coração ferido, desiludido e triste. A resposta dos discípulos é um resumo do querigma cristão; mas esse conteúdo é relatado como uma tragédia irreparável.

 

“Que mistério, meus irmãos! Jesus entra em sua casa, torna-se seu hóspede, e reconhecem na fração

do pão Aquele que não haviam reconhecido durante todo o tempo que caminhou com eles.

Aprendei, pois, a praticar a hospitalidade; nela reconhecereis o Cristo. (S. Agostinho)

 

Depois de um longo diálogo com o peregrino, os discípulos não discutem mais entre si, mas unânimes, insistem para que ele permaneça com eles naquela noite. O pedido “permanece conosco”, em Lucas, expressa o desejo de ser discípulo de Jesus.

Depois que Jesus aceitou o convite, a casa de Emaús, em vez de tornar-se um lugar de fuga

e fechamento, como os discípulos pretendiam, tornou-se um lugar de acolhida e de partilha,

de iluminação e ponto de partida para a retomada da comunhão com a comunidade dos demais companheiros.

 

Foi durante o jantar, na “fração do pão”, que os olhos dos discípulos se abriram e reconheceram Jesus.

A fração do pão continua a ser para os discípulos de Jesus de todos os tempos o “sinal por excelência da

                            presença do Ressuscitado, o lugar onde eles podem e devem descobrir essa presença

                            e a partir do qual poderão dar testemunho da Ressurreição” (J. Dupont).

 

A experiência do encontro com o Senhor e de seu reconhecimento transforma radicalmente a vida dos dois discípulos. O itinerário da fé pascal é longo e penoso, mas realiza uma verdadeira reviravolta nos pensamentos e sentimentos, nos ideais e na conduta dos que o percorrem até o fim.

 

No início, estavam tristes, sem esperança e com medo do futuro; depois do encontro com o Senhor, partilham a mesma experiência e estão ansiosos por partilhá-la com os outros discípulos.

Depois que “seus olhos se abriram”, passaram da mais profunda tristeza e da mais radical decepção para

                                                             uma alegria e um entusiasmo nunca antes experimentado.

Invadidos por uma imensa alegria, voltam para Jerusalém, sem pensar no cansaço nem na distância do caminho, sem temer a escuridão nem os perigos da noite.

Para quem fez a experiência do encontro com o Ressuscitado, não existe mais medo, não existem mais obstáculos nem portas fechadas, etc., que impeçam de realizar os caminhos do anúncio do Evangelho, da comunhão e da missão.

O “caminho da volta” não o fazem arrastando os pés e cabisbaixos, como tinham feito o caminho de ida, mas correndo, com os olhos iluminados e o coração ardendo no meio da noite.

 

A dimensão comunitária é, portanto, constitutiva da experiência do encontro com o Ressuscitado.

Dito de outro modo: o encontro pessoal com o Senhor edifica a comunidade.

O re-encontro e a restauração da comunhão com Jesus, agora ressuscitado, movem-nos a realizar o caminho de volta para a comunidade e para a missão.

 

Na oração:  Depois de termos contemplado a transformação realizada nos discípulos de Emaús pelo reconheci-

                      mento do Senhor, devemos refletir sobre nós mesmos, perguntando-nos como agimos e como de-

                      vemos agir.

* Se a experiência do encontro com o Senhor realizou também em nós a graça de um “olhar novo” sobre nós

   mesmos, sobre os outros e sobre o  mundo, nossos olhos não estarão mais tristes e fixos no chão.

* Depois de terem sido iluminados, nossos olhos devem estar voltados para novos horizontes abertos pela luz

   da fé.

* Onde antes só víamos tristeza, fracasso e morte, à luz da fé pascal passamos a ver um mundo novo, remido,

   capaz de amar.

* À luz do encontro com o Senhor, devem mudar também nossas atitudes, nossos comportamentos e a direção

   de nossos caminhos.

* Em vez de afastar-nos dos companheiros, realizaremos o caminho de volta para a comunidade.  

 

 

CRISTO SE FAZ CORPO...

                                                                                                              Frei Sérgio

 

Celebramos o “Corpo de Cristo”, uma das celebrações mais ricas que nos faz pensar em seu conteúdo e simbolismo... mas, que nos faz pensar então neste “Corpo de Cristo” no meio de tantos outros corpos?

Aceitamos, pela fé, a presença real de Cristo na Eucaristia; isso implica comunhão bem maior com sua vida, seu testemunho de amor, de partilha, solidariedade, dedicação pela transformação de tudo aquilo que não dignifica a vida ou não dignifica os “corpos”.

Cristo, em sua prática e prédica, sempre teve um profundo amor pelo outro, um profundo respeito pela vida e pela maneira de ser e pensar do outro, que jamais humilhou, explorou, manipulou, ofendeu, abusou, castigou, usou...

 

Participamos, com muita fé, dedicação e respeito, das celebrações do “Corpo de Cristo”,  mas pode ser que, às vezes, façamos uma profunda cisão ou ruptura entre o que celebramos e a realidade que nos cerca, ou seja, os famosos “corpos”: explorados, manipulados, usados, escravizados, destruídos...

Pode ser que, às vezes, tenhamos um profundo amor e respeito pelo “Corpo de Cristo vivo e presente na Eucaristia”, e não o vejamos nos “corpos” que estão aí, aqui, ali, lá, dos nossos lados...

Olhar da fé? Indiferença? Medos dos corpos? Amor a Cristo?...

 

Parece-me que não sabemos lidar muito bem com esse estranho e (des)conhecido que são os nossos “corpos”. Às vezes, pode ser que tenhamos um certo medo de conhecê-los, tocá-los, senti-los, acariciá-los, respeitá-los, tanto os nossos como o Corpo de Cristo.

Temos muito o que pensar e rezar diante dos corpos, tanto diante do Corpo de Cristo, como diante dos corpos que passam fome, que são explorados, que sofrem e não vamos nos esquecer: Corpo de Cristo... pão... comunhão, outro, fome, pão... partilha... celebração, amor, corpos...

 

* Me fascina Cristo diante dos corpos doentes... cura.

* Me fascina Cristo diante do corpo pecador... ama, perdoa, abençoa, encoraja.

* Me fascina Cristo diante dos corpos esfomeados: alimenta, multiplica os pães.

* Me fascina Cristo diante do corpo sem vida: levanta-te, Lázaro, vida nova.

* Me fascina Cristo... corpo, sangue, pão... vida... mudança, partilha, afeto.

* Me fascina Cristo diante do corpo da criança: brinca, anima, incentiva.

* Me fascina Cristo diante dos corpos que exploram/roubam: protesta, recusa, não façam da ca-

   sa  de meu Pai um covil de ladrões; ai de vós, fariseus hipócritas, que se preocupam demais

   com as aparências dos “corpos”... e não vêm o conteúdo.

* Me fascina Cristo na Cruz, doando seu corpo para a saúde de todos.

* Me fascina a pessoa que doa, num grande, belo e corajoso gesto de amor, seus órgãos para a

   saúde e felicidade dos outros... corpos.

 

Cristo me fascina por ter coragem de ser diferente da sua época, por ser ele mesmo e estar profundamente integrado com seu corpo, colocando-o a serviço e crescimento do outro... do outro corpo.

Como é bom termos essa oportunidade de mais uma vez celebrarmos o “Corpo de Cristo”, que nos alimenta e nos faz re-pensar nossa postura diante dos corpos... tanto do próprio Corpo de Cristo, como do corpo do irmão e irmã que amam e sofrem ao meu lado, ao nosso lado... corpos.

 

Como seria bom se pudéssemos olhar, valorizar, respeitar, amar, cuidar dos corpos dos nossos irmãos e irmãs mais necessitados do mesmo amor e zelo que temos pelo Corpo de Cristo... quem fizer isso a um menor dos meus... é a mim que o fizestes..., corpos, amor, respeito, doação.

Cristo/Eucaristia... perceber e amar a presença real de Cristo no corpo... do outro:

corpos magros, corpos altos, baixos, belos, outros nem tanto, corpos sadios, corpos doentes, corpos vestidos, corpos nus, bronzeados, sedutores, corpos nas revistas, nas televisões, nos carnavais, nas campanhas de publicidade, corpos explorados, corpos destruídos pelo trabalho, pela fome, pela exploração... corpos.

 

REGRAS PARA SENTIR COM A IGREJA

 

Com estas Regras (EE. 353-370) o exercitante é devolvido à vida normal.

Mas elas fazem parte dos Exercícios. Elas não estão colocadas casualmente no fim dos Exercícios, senão que constituem um fruto de todo o processo espiritual das quatro semanas anteriores.

Se o exercitante fez adequadamente os Exercícios, fica profundamente “eclesializado”.

Agora S. Inácio vai ensiná-lo a viver no cotidiano da Igreja. Desta forma, conservará o “sentido verdadeiro” dela, e não perderá sua profunda sintonia.

A sintonia com a Igreja só se alcança no Espírito, a partir da identificação com o Crucificado-Ressuscitado.

A Igreja, nos Exercícios, é desenvolvida a partir da experiência do Mistério de Cristo. É Ele o Senhor, o “internamente conhecido”, o amado e seguido, quem com seu chamado planta a Igreja em cada coração, filialmente configurado por seu Espírito.

O exercitante descobre n’Ele o centro de sua vida e Cristo vai lhe conduzindo à Igreja, como os seus primeiros discípulos. Essa identificação progressiva com Ele desemboca na comunidade.

Por isso, a Igreja é o lugar dos “identificados” com Cristo.

Concretamente, as “Regras para sentir com a Igreja” querem sustentar e desenvolver, no coração do exercitante, a comunhão eclesial.

 

São regras de orientação, de sentido, de sintonia, de pertença...

São regras de maturidade, que nunca poderão ser compreendidas da exterioridade.

São regras de discernimento (próprias para a 4ª Semana).

São regras centradas em atitudes, não em doutrina; não significam submissão mecânica à autoridade.

 

A atitude eclesial deve ser encontrada através do discernimento, já que se trata, em última instância, de captar e obedecer ao Espírito Santo.

Este discernimento se refere ao marco fundamental: “meu ser Igreja”  - “sentir-se Igreja”.

A comunidade de fé escuta o Espírito que fala na comunidade e fora dela.

Este Pentecostes permanente não é somente uma recordação do passado, nem a simples atualização repetitiva de um passado. É a “memória” de um presente vivo que cresce com a força do Espírito, que avança para a plenitude.

A comunhão que se vive no Pentecostes permanente é uma comunhão em tensão, própria da Igreja militante. Isso implica pluralismo, tendências, movimentos... existentes no âmbito da Igreja.

 

Obediência

Obedecer em tudo significa obedecer totalmente, até o fundo de si mesmo, com uma obediência

que não consiste só na execução do mandado, mas que empenha a pessoa inteira, até chegar a ser uma verdadeira vivência do mistério da e do amor.

É a qualidade da obediência à Igreja que aqui se pede. Não é boa uma obediência só no exterior. Só uma obediência mais profunda, mais totalizante, pode servir de base a uma vivência do mistério da Igreja.

Desnudo de si mesmo, o obediente veste-se de Deus, o qual “tanto mais enche a nossa alma, quanto mais vazia  da própria vontade a encontra” (Epp. I,551-565).

Nesse sentido podemos falar de “obediência cega” porque não olha mais o próprio querer e interesse, mas quer unicamente e procura em tudo e por tudo o maior louvor e glória de Deus.

 

O “sentir com a Igreja” não significa, portanto, submissão mecânica e passiva às autoridades religiosas. Estas também devem obedecer à Vontade de Deus.

O respeito filial e o sincero amor à “santa mãe Igreja” não são incompatíveis com o necessário espírito crítico. As “Regras para sentir com a Igreja” não nos dispensam de uma leal atitude de “vigilância crítica”, no interior da Igreja. Trata-se, antes de tudo, de uma disponibilidade do coração, ou seja, assumir uma atitude de crítica construtiva, baseada na oração e no discernimento.

A atitude eclesial justa, para autoridades e súditos, é procurar “discernir o que agrada ao Senhor”.

É necessário ser muito livre por dentro para motivar-se à verdadeira obediência.

  

Louvor

O louvor é a outra coluna de apoio para a comunhão eclesial.

S. Inácio busca enraizar no coração do exercitante esta atitude de sintonia que o ajude a ter carinho com a Igreja, “louvando” as diversas realidades vivas, através das quais a Igreja expressa sua fé.

É necessário “sentir a Igreja” em sua diversificação,  na pluralidade de seus membros, funções, carismas e expressões de fé.

Se a Igreja tem que ser para todos os homens, tem que ser variada e ativa toda ela.

Se ela aponta para Deus e seu Reino, tem que ser harmônica.

Esta harmonia é a que S. Inácio expressa na palavra “louvor”, que é uma relação de positividade que se estabelece entre o exercitante e certas realidades da vida e expressão da Igreja.

 

O louvor inaciano não é algo extrínseco a respeito da Igreja, senão que consiste em deixar que ressoe em

mim sua vida e sua expressão, com um forte sentido de pertença, inclusive no caso de que pessoalmente não me sinta inclinado a realizar em mim alguma das coisas louvadas.

Louvar não significa aprovar definitivamente e para sempre um determinado uso eclesial.

             É necessário saber louvar aquilo que num determinado lugar ou tempo é expressão adequada da

             relação da Igreja, ou uma parte ampla dela, com Deus e seus Santos.

Louvar não leva consigo fazer o que se louva, senão sentir-se muito em sintonia e comunhão com aquele

que faz. Louva-se a atividade de todo o corpo, ainda que cada membro não faz tudo o que o corpo inteiro faz.

 

O QUE FICA E AJUDA HOJE

 

01. A Eclesiologia de fundo, latente nas Regras, e que deve continuar desenvolvendo-se mais, é uma

      Eclesiologia de comunhão, à imagem e semelhança da Trindade.

02. O convite a ser Igreja, não como um marco externo de referência de nossa vida e missão, mas

      no Espírito e desde o Espírito de Jesus Ressuscitado, isto é, em seu mistério de Mãe e Esposa,

      de Corpo histórico de Jesus, sua Cabeça. Por isso pertencemos a esse Corpo, o formamos todos

      nós.

03. O sentido verdadeiro de obediência à Igreja, em ordem à comunhão e ao envio. Atenção à ação

      do Espírito.

04. A atitude de louvor, como ressonância interior da vida da Igreja. Mesmo que muitas coisas

      particulares tenham mudado seu vigor expressivo, a vitalidade da Igreja continua forte em no-

      vas expressões, tipos de comunidade e de estados de vida.

05. A acolhida positiva e respeitosa da diversidade de pessoas, carismas, ministérios, funções e ex-

      pressões de fé na Igreja.

06. O amor e o respeito à Igreja e seus membros. Isso nos impede ser superficiais no tratamento de

      qualquer problema ou assunto que surge nela. Não podemos fazer-lhe dano. Ela é “carne de mi-

      nha carne e osso de meus ossos”.

07. Acerca dos defeitos, modos de atuar ou de ser das pessoas particulares na Igreja, impõe-se

      um tratamento discreto, uma crítica positiva e cheia de compreensão, e sobretudo um acerto

      para ser eficazes em conseguir um remédio que não seja pior que a enfermidade.

08. Quando se fala da Igreja, não devemos permitir que estamos falando do Papa, dos Bispos, ou do

      magistério, ou do clero. Neste sentido, as Regras são um sério convite a recuperar a verdadeira

      imagem e palavra mesma de “Igreja” para o qual ela é em sua integridade. Para que isso seja

      possível deveremos crescer em tomar responsabilidades dentro dela.

09. O equilíbrio e serena liberdade para tratar, sem extremismos fanáticos, os problemas que agora

      nos colocamos.

10. Um louvor à renovação da Liturgia, buscando novas formas de expressão inculturada.

11. Reconhecer o fato do pluralismo no seio da Igreja. Há diferentes visões teológicas e pastorais, di-

      ferentes análises dos problemas emergentes e diferentes propostas de solução.

      Esse pluralismo será mais acentuado em tempos de mudança e de novas formas de vida eclesial

      e novas respostas da realidade social.

      Toca a cada um descobrir, entre as várias tendências e movimentos eclesiais, qual é o chama-

      mento pessoal que o Senhor lhe dirige.

12. O amor e a obediência à Igreja é consequência do amor e obediência a Cristo. O cristão ama a

      Igreja não porque ela é perfeita, mas porque Cristo a ama, assim como ela é, e cuida dela, purifi-

      cando-a e aperfeiçoando-a até levá-la à plenitude de sua santidade.

13. As tensões e sofrimentos dentro da Igreja, nos ajudam a amar a Igreja real, e não a imagem

      idealizada que dela fazemos. Do mesmo modo que vibramos com o heroísmo de uns, sabemos ter

      paciência com a mediocridade de outros.

 

AMPLIAR ESPAÇOS: dinamismo da mística inaciana

 

S. Inácio, encontrando-se em meio a um mundo em efervescência, lançou por terra as paredes dos muros dos conventos e mergulhou, junto com seus companheiros, no mar espaçoso da vida cotidiana.

O mundo em mudança será o seu novo lar; não há mais limites para os “espaços” que brotam do seu desejo de servir a Deus e à humanidade.

Para S. Inácio, os espaços nascem na imaginação; nos Exercícios Espirituais, ele nos convida, através do preâmbulo “composição vendo o lugar”, a imaginar espaços em movimento, espaços de encontro, de desafio, espaços provocativos e criativos..., enfim, espaços carregados de presença.

A “composição vendo o lugar” desperta em nós um novo “olhar” para perceber, com mais nitidez e intensidade, os espaços por onde transitamos, uma nova disposição para dar sentido e valor aos espaços cotidianos, uma nova sensibilidade para “ver” a Presença d’Aquele que ocupa todos os espaços e que nos conduz para o “lugar” da plenitude, o Paraíso re-encontrado.

Da imaginação para a realidade, da oração para a ação... aí está a força e o sentido do espaço inaciano.

Um “espaço sagrado” que nasce do coração, carregado de afeto, de inspiração, de vitalidade...

O “espaço externo” é o prolongamento do espaço saboreado internamente.

 

Rubem Alves afirma que há, dentro de cada um de nós, um jardim secreto, fechado, que precisa ser aberto. O 1o. capítulo do Gênesis nos relata que o Criador, depois de plantado o jardim, parou o seu trabalho e entregou-se ao puro prazer de contemplar aquele espaço paradisíaco. “E viu que era muito bom!”

“O sentimento de beleza é o nosso elo com o Infinito”, contesta Clarice Lispector.

Foi nas profundezas do ser humano que nasceram as sinfonias de Beethoven, as telas de Monet, as esculturas de Michelangelo, os poemas de Fernando Pessoa, o canto Gregoriano, os Exercícios Espirituais de S. Inácio...

Escrever, pintar, rir, esculpir, cantar, falar, dançar, compor, imaginar, construir, ouvir, celebrar, transformar, acreditar, crescer, agir, projetar, ler, moldar... são verbos que devem fazer parte do nosso cotidiano escolar. Há muito mais coisas dentro de nós tentando sair...

 

O profeta Isaías nos recomendar ampliar este “espaço interior”: “Alarga o espaço de tua tenda, estende sem medo tuas lonas, alonga tuas cordas, finca bem tuas estacas” (Is. 54,2).

Ampliar os espaços do coração implica agilidade, flexibilidade, criatividade e abertura às novas idéias e às novas descobertas. Algumas fortalezas e seguranças pessoais caem quando os “espaços interiores”, abra-sados e iluminados pela força do  Espírito, começam a  romper as paredes e se encarnam em “espaços exteriores”, marcados pela beleza e encantamento: espaço pedagógico, espaço celebrativo, espaço es-portivo, espaço de convivência... um espaço nobre que só tem sentido quando carregado de presenças.

 

S. Inácio, numa carta a S. Francisco de Borja (set. 1555), atribui papel especial aos colégios, os quais deveriam ser um “ornamento da cidade, e irradiar-se a todo o corpo dela”.

“Ornamento” que não se restringe à beleza arquitetônica dos espaços físicos, mas que se revela na formação humana e cristã de nossos alunos; é a “beleza” de nossa comunidade educativa, envolvida na nobre missão de ampliar mentes e corações das gerações de crianças e jovens a nós confiados.

Não tem sentido ampliar os espaços externos se nossa mente permanece estreita, se nosso coração continua insensível, se nossas mãos estão atrofiadas, se nossa criatividade sente-se bloqueada...

Espaço amplo é convite a sonhar alto, a pensar grande... ousar ir além, lançar por terra nosso modo arcaico de proceder, romper com os espaços rotineiros e cansativos.

- que os novos espaços físicos despertem novos olhares e abram “espaços” novos nos corações e

  mentes das pessoas que utilizarem deles;

- que os bancos nas praças possibilitem encontros e diálogos bem humorados, num exercício da

  “arte da conversação”;

- que as passarelas, unindo os espaços, facilitem experiências de sair de dentro para fora e de novo

  para dentro... várias exposições... e convites.

Este é o sonho que foi gestado, onde se integra a luta com a

festa, a eficácia com a beleza, a criação com a espiritualidade.

“Ter o coração maior que o mundo”: este foi o desejo que

desafiou S. Inácio; este é o desejo que nos inquieta e nos faz

peregrinar em direção a “espaços” sempre mais amplos.

 

Texto bíblicoMc. 4,35-41

 

 

A CONTEMPLAÇÃO “AD AMOREM” NOS E.E.

 

A 4ª Anotação dos Exercícios faz referência à 4ª Semana e aos modos de orar, mas não acena a esta contemplação. No entanto, é parte integrante do itinerário dos Exercícios, e provavelmente constitui uma ajuda à etapa posterior dos mesmos: a pessoa é instruída sobre como proceder e sobre o olhar contem-

                              plativo a ser conservado na vida cotidiana, para viver e reconhecer o Amor do Senhor.

 

Esta contemplação não faz parte das quatro semanas, e pode ser incluída ou separada do quadro das meditações e contemplações. Mais do que um último exercício do retiro, é a maneira de rezar de quem sabe encontrar e amar a Deus em toda sua vida; é uma maneira de ser em meio ao mundo, e uma forma de orar em todas as coisas.

           Tal contemplação resume os EE. e manifesta a atitude espiritual de fundo, a visão de mundo, a espiritu-

           alidade ao mesmo tempo forte e simples na qual o exercitante poderá viver seus trabalhos e preocupações

           cotidianas.

                                É a atitude do coração na vida cotidiana: ter ordenado os afetos e encontrado a Vontade de Deus, permitem ao

                                exercitante olhar e usar toda coisa criada tanto quanto se refira ao Criador, assim como toda coisa se torna

                                símbolo e sinal do Deus que está amando.

 

“Ad Amorem”  é uma contemplação para entrar e viver no Amor;

                           é uma síntese da vida cristã, a qual consiste na relação permanente de Amor entre o Pai 

                           e seu Filho que vive nos homens e na Criação (At. 18,28).

À base desta contemplação está o acontecimento do Cardoner: S. Inácio viu em Deus todas as coisas;

                                             compreendeu como todos os mistérios da fé e todas as criaturas procedem da

                                             Trindade, e a ela retornam. Todas as criaturas se lhe tornaram transparen-

                                              tes: em sua beleza, sabedoria e justiça, vê um reflexo do que ele percebeu de

                                              Deus na imediatez mística;

                                              descobre-se em sua verdadeira natureza como imagens parciais de Deus.

 

Trata-se de uma repetição afetiva das quatro semanas, com os seguintes objetivos:

        a) deixar-se compenetrar pelo mistério do Deus onipresente, o qual chama o homem à comu-

            nhão em sua vida, na liberdade e no amor;

        b) sentir-se amado por Deus;

        c) levar o exercitante à vida de comunhão com Deus.

 

Característica desse Amor:voltado para o serviço.

         a) O Amor em S. Inácio sempre se faz serviço, assim como todo seu serviço é inspirado e sus-

             tentado pelo amor;

         b) Mística do serviço: a contemplação desemboca na missão.

 

Nós também respondemos à comunicação de Deus: como o Amor consiste na comunicação mútua do que se é e do que se tem, a nossa resposta à gratuidade do Amor de Deus consiste em Lhe oferecermos tudo o que somos e temos ( o nosso sentir, pensar, querer e agir).

 

A “Contemplação para alcançar Amor” é uma leitura do Amor de Deus na realidade de cada dia.

            - Seu complemento é o Exame de consciência (tomada de consciência), onde se retoma o cotidiano à

               luz de Deus: trata-se de uma orientação teocêntrica, que procura compreender como é que Deus se

               manifesta através dos “movimentos interiores”, a fim de poder encontrá-lo tanto em si mesmo como

               em todas as coisas.

             - É ser contemplativo na ação, ou seja, ver que Deus está presente e atuante no mundo e nas pessoas,

               e que estamos colaborando com Ele.

             - É ver o mundo com os olhos da fé: trata-se de olhar todas as coisas, de sentí-las e avaliá-las, a partir

               de Deus e em vista d’Ele. A possibilita este olhar que “busca a Deus em todas as coisas”.

             - Em tudo, e a partir de tudo, reconhecer sempre melhor a Deus, que se uniu a nós em Jesus Cristo;

             - perceber o mistério de Deus na Criação e na História da Salvação.

 

Para S. Inácio, a devoção consiste na atitude de “encontrar a Deus em tudo”, para amá-lo e serví-lo: é a

                                         familiaridade com Deus em todas as ações da existência.

 

 

ASCENSÃO: ponto culminante da História

                              e base de nossa esperança. (EE. 312)

 

Para S. Inácio, o Cristo é a manifestação de Deus. N’Ele o invisível torna-se visível” (EE. 47).

Mas esta manifestação é transitória; o Cristo vai “desaparecer em Deus”.

Esta “desaparição” é um dos momentos essenciais da figura de Cristo para S. Inácio.

Por isso, a última contemplação dos Exercícios se realiza sobre a Ascensão, término da vida terrestre de Cristo e derradeira jornada de nosso itinerário espiritual.

                  No processo dos Exercícios, a Ascensão marca seu fim. É o último mistério que é proposto ao nosso

                  olhar. É o fim do “visível”, o término da primeira “vinda”. De agora em diante, não é mais possível

                  recorrer à imagem histórica de Cristo. Tendo subido aos céus, o Cristo escapa aos nossos olhos.

S. Inácio, seguindo o mesmo movimento, parece apagar, no fim dos Exercícios, todo o material representativo que lhe havia servido até aqui, para nos elevar a este cume.

          Não resta mais nada a contemplar da vida de Cristo.   Mas, a partir de agora, o caminho é aberto para esta contemplação mais

          alta e mais perfeita:  somos conduzidos para além de toda representação, imagens...

          A imagem de Cristo, a imagem da pura liberdade integrada no serviço, se apaga.

 

Após uma longa e dolorosa caminhada com o Cristo, S. Inácio nos faz “desaparecer em Deus”, como o Cristo da Ascensão “desapareceu em Deus”. Não há mais nada a não ser Deus.

É preciso partir, deixar o retiro para viver apostolicamente a eleição.

    A Ascensão é a conclusão da 4ª Semana, mas é ao mesmo tempo a abertura para o cotidiano, para a realida-

           de. Por isto esta contemplação está relacionada diretamente com a Contemplação para alcançar Amor.

           Esta contemplação, entendida a partir do relato lucano, arranca o exercitante do retiro espiritual e, pela

           força do chamamento do Senhor, o projeta para a tarefa apostólica da missão eclesial.

                                      

Sem dúvida, esta perspectiva está vinculada ao próprio Inácio em sua experiência dos santos lugares, onde pensava imitar o Senhor até em seus pormenores.

       É significativo que o último lugar venerado por S. Inácio e que ele leva como última recordação

       de Jerusalém seja o lugar da Ascensão do Senhor, quando Ele “deixa” a terra e envia os Após-

       tolos  a anunciar o Evangelho a toda criatura.

       A Ascensão é o lugar onde vai acontecer uma mudança profunda na vida de Inácio: ele parte

       para a missão. O desejo de seguir Jesus abrange o mundo todo.

 

Inácio deixa a Terra Santa como os Apóstolos; até o fim da vida ele será o peregrino de Cristo.

Ele é arrancado de tal experiência para adentrar-se em um caminho de seguimento de horizontes desco-

nhecidos, mas centrado no compromisso apostólico da missão na e da Igreja, por obra e força do Espíri-

to. Inácio “passa” da particularidade de um lugar para a universalidade da Igreja.

 

Pela Ascensão, o Senhor, exaltado à direita de Deus, possui a plenitude de poder:

                              “Foi-me dado todo poder no céu e na terra” (Mt. 28,18).

É o poder para “conquistar todo o mundo e todos os inimigos” (EE. 95).

É o poder que fundamenta a missão que o Ressuscitado confia aos discípulos em suas aparições.

Todos esses encontros terminam com uma missão que se confere àqueles a quem Ele aparece.

       MISSÃO, VONTADE DIVINA, que o exercitante buscou ao longo dos Exercícios e que as contem-

                                            plações da 4ª Semana situam em sua origem, o Senhor glorificado,

                                            que envia seus discípulos e lhes confia a missão que Ele recebeu do Pai.

 

Trata-se de um conjunto de perspectivas que, de forma sintética, foram consideradas na meditação do Rei Eterno (EE. 91) e que agora retornam, com nova profundidade, nas contemplações da 4ª Semana.

O que antes fora apenas esboçado em forma alegórica, vive-se agora na contemplação, dando-lhe realidade e culminando a busca do “conhecimento interno” e compromisso de seguimento.

A explicitação da meditação do Rei Eterno, de seu projeto de ação apostólica, de seu chamamento, vai se realizando nas contemplações da 2ª e 3ª Semanas. Mas é na 4ª Semana onde encontra seu pleno cumprimento, ao encontrar-se com o Senhor glorificado, que recebeu todo poder no céu e na terra, que envia seus discípulos a todo o mundo e que está presente todos os dias com os seus seguidores.

 

Textos bíblicos:   1) Lc. 24,44-52        2) At. 1,4-11            3) Mt. 28,16-20            4) Col. 3,1-17

                                5) Ef. 1,15-23          6) At. 13,44-52        7) Rom. 15,14-21

 

Tempo de eleição

 

Caixa de texto:

 

           Na era da comunicação instantânea, digital, em tempo real, o mundo, sempre apressado, interrompe a correria e olha atento para uma chaminé. Em discussão, a cor da fumaça. Instantes depois um sino secular confirma; alguém foi escolhido, houve uma eleição.

 

           Longos minutos de ansiedade e emoção. Os olhos agora fixam-se numa janela fechada por pesadas cortinas vermelhas. Outros angustiantes minutos se passam até que ela finalmente se abre e um senhor idoso, parecendo meio surpreso diante daquele espetáculo, apresenta-se na sacada e começa a saudar a multidão em várias línguas. Enfim, o anúncio esperado: Habemus Papam!!!

Um breve e surpreendente silêncio se faz na praça. Então, um nome é revelado: Joseph, Cardeal Ratzinger! A multidão explode em aplausos.

Pelo mundo afora, em inúmeras línguas, o nome é repetido entre exclamações de surpresa e outras de constatação. Já começam ali os primeiros comentários e análises de especialistas, curiosos e palpiteiros em geral.

            Mais alguns instantes, e um séqüito surge logo atrás de um crucifixo. Dentre os vários homens em vestes religiosas um se destaca. Cabelos brancos, o rosto que se fez recentemente familiar, trazendo também algo de surpresa e, ao mesmo tempo, certeza. Um sorriso tímido, as mãos unidas, ora como que abraçando a todos, ora como quem pede, como quem se conforma ou até como quem comemora.

            O homem olha a multidão. Dezenas de milhares de pessoas. Para além de toda aquela gente, por trás das lentes de cada câmera que o foca, ele sabe, milhões, bilhões de outros homens e mulheres, nesse instante olham para ele. Eu sou mais um. Os olhares se trocam, se tocam. Mil perguntas são abafadas pelos gritos e aplausos vindos da praça, pela emoção via satélite

            Olho as imagens na tela da TV e penso comigo: o que se passa na cabeça, no coração deste homem? Que sentimentos estarão presentes nessa história de vida que já percorreu 78 anos e agora tem sobre seus ombros o peso de uma outra História, milenar, mais que isso, com a idade do mundo, do Universo...?

            Ele parece me ouvir e diz:

“Depois do grandioso pontificado de João Paulo II, meus irmãos cardeais escolheram alguém com insuficientes qualidades para esta missão. Me confio à oração de vocês”.

Os gestos, as palavras, o modo de dizê-las, não tem o apelo dramático, a empatia imediata que a mídia tanto valorizava em Karol Woityla. O homem terá dificuldades de comunicação, já dizem alguns.

Ato contínuo, traço sobre mim mesmo o sinal da cruz, acompanhando a primeira benção de Bento XVI.

            A TV interrompe abruptamente a transmissão e entra no ar, invasivo, incômodo, o comercial barulhento de uma loja de eletrodomésticos.

Esse contraste me assusta, mas logo torna-se, em mim, convite a viajar no tempo, pelos caminhos da memória, contemplando traços de uma outra eleição em minha história...

            Eu pessoalmente não me lembro, mas me contaram e há um diploma que confirma. Eu fui crismado aos 6 anos de idade. Era o costume naquele tempo (mais de 40 anos atrás). Hoje parece esquisito, incoerente mesmo, quando se sabe que a Confirmação (O Crisma) é o sacramento da idade adulta da fé. Aos seis anos de idade minha fé  podia ser muita coisa, menos adulta...

            Mas fui crismado e até ganhei um padrinho, meu tio Bira. Depois disso quase completei o ciclo sacramental inteiro. Dos sete sacramentos só não recebi um: a Ordem.

Em 1997 era meu filho mais velho que se preparava para receber o sacramento do Crisma. Eu fazia parte da equipe de preparação. Na experiência dele, pude fazer a minha própria experiência de Confirmação.

            Nos anos que se seguiram, meus dois outros filhos fizeram o mesmo caminho e eu, novamente, me vi diante das promessas do Batismo, afirmando o Credo, renunciando ao Mal, revendo a vida, examinando minha caminhada de fé e meus compromissos de Igreja.

É engraçado que aqui, agora, diante da imagem do homem eleito como novo Papa, eu me sinta convidado novamente a aprofundar ainda mais minha experiência pessoal de eleição, de escolha, de opção de vida.

Aceito o convite e mergulho. No Batismo, meus pais e padrinhos elegeram por mim a Fé Cristã como caminho. Cresci e fui sendo alimentado nessa fé. A catequese da infância, a experiência do afeto familiar,  a fé extraordinária de minha mãe, as lições do Pe. Candinho na paróquia da Lagoinha, o grupo de jovens, o Movimento do TLC, tudo foi trazendo descobertas, revelações e construindo uma espiritualidade que, em mim, foi tomando forma e amadurecendo, inspirada em dois modelos: Santo Inácio de Loyola e São Francisco de Assis.

De lá pra cá, desde aquela eleição primeira, batismal, fundante e fundamental, todos os dias sou chamado à experiências várias, às vezes fragmentadas, de eleição. Pequenas e grandes escolhas que vão escrevendo minha história, delineando as marcas que vou deixando em mim mesmo e à minha volta.

Contemplando minha caminhada de vida fico imaginando onde o Espírito Santo tem mais trabalho: se lá, no Conclave, ou no silêncio do meu coração, do coração de cada ser humano...

Um amigo meio crítico, meio malicioso, falando sobre o Conclave perguntou-me dias atrás;

“Se a escolha é do Espírito Santo, não deveria haver unanimidade no resultado?”

Penso, sem nenhuma malícia, na liberdade humana. Como Deus a respeita! Penso nas inúmeras experiências que já tive, que já vi, em que o toque inspirador do Espírito de Deus não estava no gesto, no momento, mas nos seus desdobramentos. Deus frequentemente não está no tropeção, mas nas mãos que se estendem para nos ajudar a levantar e continuar a caminhada...

E na caminhada pela vida, todo dia é dia de eleição, de escolha. Somos, cada um, eleitos e também eleitores para o mais, para o melhor, para o amor maior.

A mídia vai nos lembrar ainda por algum tempo que temos um Papa! Vão esmiuçar sua vida em busca de possíveis polêmicas ou até mesmo escândalos, pois grande parte da mídia se faz disso. Mas logo, logo o fato deixará de ser novidade e as câmeras e microfones irão buscar outras notícias. Voltaremos ao cotidiano.

O vaticano também. Então, aos poucos, o cardeal Ratzinger abrirá espaço para que venha o Papa Bento XVI. Que seja bem vindo.

De minha parte, como Igreja, como membro desse Povo de Deus que caminha pela História, construindo com frágeis mãos humanas o sonho maior da fraternidade e da justiça da dignidade para todos, rezo pelo Papa, como o Papa pediu. Rezo também para que haja sempre e mais, cristãos comuns, como cada um de nós, que sejam capazes de assumir seu lugar na família, na comunidade, na História. Sem eles, sem nós, qualquer pontificado seria uma grande experiência de solidão.

As últimas palavras de João Paulo II foram: “Eu fui a vocês, vocês vieram a mim”. As primeiras palavras de Bento XVI foram: “Confio nas orações de vocês”.

Somos um Povo. Temos um Papa. Caminhemos...

 

Eduardo Machado

20/04/2005

 

CONTEMPLAÇÃO: lapidando os olhos para ver diferente

 

A contemplação inaciana é um processo que vai “configurando”  a vida da pessoa, segundo o estilo de Jesus. Um dos seus frutos é a interação da oração com a vida.

À medida que a pessoa se torna cada vez mais contemplativa em meio à atividade, o que acontece na oração afeta à vida como um todo e, em especial, às escolhas que ela faz. Sua vida começa a mudar.

A experiência tem demonstrado que a atividade de contemplar contribui de maneira decisiva para o crescimento humano em geral e para o desenvolvimento de certas atitudes e capacidades.

A apropriação contemplativa do Evangelho começa a alterar o modo como a pessoa vive e a dar à sua atividade na vida uma qualidade mais profunda de semelhança a Cristo.

É comum as mudanças aparecerem mais claramente na qualidade das reações do indivíduo a acontecimentos e pessoas que já fazem parte de sua vida cotidiana.

Em outras palavras: o exercício da contemplação tem “reflexos” na vida de quem contempla.

 

O modo de conhecer através da contemplação é diferente do modo de conhecer do empirismo e da racionalidade, da observação analítica, da reflexão racional e do estudo. Enquanto estes últimos se processam normalmente com o “hemisfério esquerdo do cérebro”  e captam a realidade fragmentada, o conhecimento da contemplação, por sua vez, se processa exclusivamente com o “hemisfério direito do cérebro” e conecta com a realidade percebida como totalidade.

S. Inácio intuiu e descobriu, na leitura de seu processo de mudança, que certos “exercícios, ao ativarem o hemisfério direito, lhe predispunham à mudança mais que outros.

Assim, colocar à disposição do exercício a imaginação, contemplar e aplicar sentidos, recordar imaginariamente para reconstruir a realidade espacial (composição vendo o lugar) e a história acontecida e visualizada (traer la historia), pensar com metáforas, ocupar consciente e expressamente a mente nos sentimentos... são atividades proposta por S. Inácio nos Exercícios e característica do modo de ativar o hemisfério direito do cérebro. De fato, conhecer e reagir afetivamente diante dos objetos, das pessoas e dos fatos confirma a convicção de que o visto, observado, contempla-do e processado com o hemisfério direito do cérebro possibilita as mudanças com maior energia.

 

A contemplação não fala por conceitos, mas por co-naturalidade com a realidade contemplada e seu mistério. Aos olhos daquele que contempla, nada escapa. Seu modo de conhecer penetra o “mistério” escondido da vida, dos outros, das coisas, e que está escondido aos olhos consumistas.

A contemplação é um “perceber” o que existe. Na contemplação diminui a consciência da diferença entre a pessoa e a realidade contemplada, e em seu lugar só há um sentido de unidade que tudo envolve.

O contemplativo jamais cairá na tentação de se apropriar da realidade e consumí-la; pelo contrário, saboreia-a , reconhecendo-lhe seu valor e sua sacralidade.

O comportamento contemplativo não se deixa dominar, porque seu olhar sereno, profundo, observador, contemplante da realidade descobre o que há por trás do sensacionalismo sufocante, mantém uma forma de sensibilidade que traz à tona, os intensos e decisivos sentimentos.

O exercício da contemplação prepara a pessoa para um modo diferente de olhar, de escutar, de observar, de se relacionar com a realidade cotidiana.

A contemplação é um modo abarcante de olhar, escutar, observar, penetrar e conhecer a realidade, além de ser um modo de interiorizar essa realidade, de acolher as riquezas e mensagens que ela revela.

Nesse sentido, uma pessoa marcada pela experiência inaciana é igual a todo mundo, mas “vê as coisas” de um modo diferente. Com um “olhar sacramental” ela é movida constantemente a perceber o “mistério que mora nas coisas e pessoas”. A abordagem contemplativa torna-se um modo habitual de “olhar” o mundo: sensibilidade para captar o mistério da presença e da ação de Deus em lugares inesperados. Quem contempla longamente os “mistérios” da vida de Jesus passa a “olhar”  as pessoas, os acontecimentos, a história e toda a Criação com o olhar de Jesus.

As pessoas verdadeiramente contemplativas em meio à vida cotidiana, desenvolvem profunda serenidade e paz interior. O olhar e a escuta são calmos e se deixam banhar pela luz criativa que vem da realidade contemplada. Da pessoa que contempla brota um respeito dinâmico que a liberta de certas manifestações egocêntricas; ao mesmo tempo em que a contemplação convida a pessoa a aproximar-se e a “entrar”  na realidade contemplada, ela mantém a distância reverencial pelo valor e pela beleza que se revelam.

S. Inácio tinha paixão pela realidade. Para ele, os contemplativos genuínos “no mundo” não têm medo de entrar em contato com a realidade e suas misturas de bem e mal, alegria e tristeza, triunfo e tragédia.

Isso porque eles carregam uma convicção profunda: de que Deus está presente e ativo em todo o mundo; de que em todas as circunstâncias “Deus trabalha” para o bem de cada um e de todos.   

 

 

CONTEMPLAÇÃO PARA EU ME DEIXAR ALCANÇAR PELO AMOR DE DEUS

 

Atitude fundamental da pessoa diante de Deus e do mundo

 

Preparar o coração

Esta contemplação não é outra coisa que uma maneira de orar para recolher os frutos dos Exercícios.

Estes se resumem no Amor e o Amor deve por-se “nos atos mais que em palavras”.

O Amor é ação. O Amor chama o Amor. “Consiste em um dom mútuo”.

O ser amado partilha com o amante a mesma vida, o mesmo bem, o mesmo poder. De tal sorte que se complementam um com o outro e se sustentam. Não são mais que um. Eles são comunidade de vida.

 

Composição de lugar: - sentir o olhar de amor infinito de Deus sobre mim;

                                        - sou objeto de um Amor incompreensível de Deus.

 

Petição:  O exercitante livre e entregue a Deus pelo fruto dos Exercícios trabalha para “buscar e

                 encontrar Deus em todas as coisas”.

                Pedirá, então, a graça de um “conhecimento interno” de todos os bens recebidos, para

                que “em tudo possa amar e servir a sua Divina Majestade”.

                AMOR que se converte em SERVIÇO e um SERVIÇO que se faz com AMOR.

               AMOR em SERVIÇO. O serviço não é mais que o amor criativo.

                AMAR e SERVIR: isso é ser contemplativo.

                SERVIR a Deus por puro AMOR: fruto dos Exercícios.

 

ExercícioQuatro pontos: quatro contemplações diferentes; quatro passos, cada vez mais profun-

                                              dos, para descobrir a presença amorosa de Deus.

                                           Quatro grandes capítulos de gratidão, compromisso e entrega.

                                              Quatro modos de orar: encontrar Deus em todas as coisas

 

1a maneira de orar: “Deus dá todas as coisas”.

                                      Ler todos os sinais do Amor de Deus e, para isto, trazer à minha memória todos

 os bens que recebi: Criação, Redenção e dons particulares.

“Trazer à memória” para saborear de novo; memória agradecida (buscar nos arquivos do coração).

                             “Aquilo que a memória amou fica eterno” (Adélia Prado).

A memória é a presença da eternidade em mim.

                                 “Memória, palácio maravilhoso, caverna misteriosa... dentro da memória estão presentes os céus, a terra e o

                                  mar... Dentro dela eu me encontro comigo mesmo... É nela que moram os segredos da vida e da morte...

                                  E andando por seus caminhos a pessoa vai à procura do obscuro objeto da nostalgia que faz o seu coração

                                  doer, e que beleza alguma é capaz de curar.

                                  Ela entra na memória como amante que vai à procura da amada, perdida...”.

Ponderar com muito amor tudo o que o Senhor fez por mim, por meio das coisas naturais e de minha

                 história passada e presente. Como Ele me cumula de seus próprios bens e, além disso, deseja

                 dar-Se a si mesmo tanto quanto pode.

                 Tudo é dom de Deus; tudo foi criado por amor para mim (Deus providente)

                 Criar um clima de ação de graças. Tudo é Graça.

Resposta: considerar de minha parte o que devo oferecer e dar a Deus: meus bens e a mim mesmo.

                  Devo saber devolver na mesma linha. Colocar à disposição dos outros os dons recebidos.

                          “Pede-me tudo o que queiras; dá-me tudo o que me pedes” (S. Agostinho).

                “Tomai, Senhor, e recebei...”

 

2ª maneira de orar: “Deus se dá em todas as coisas”.

                                      Considerar como Deus não só me concede dons, mas torna-se presente em seus

dons. Deus habita nas criaturas, no ser humano... de modo especial em mim. Sou seu Templo. Ele vem ao meu encontro. Este é o mistério do Amor: não é só dar, senão dar-se.

Deus é o princípio vital, enquanto sôpro que anima e dá “ser”, “crescimento” e “sensação”.

                                        Deus não permanece exterior à sua Criação, mas habita no meio dela. As “criaturas”

                                        são o que são devido à presença de Deus nelas. O valor e o significado últimos de to-

                                        das as coisas provém não delas mesmas, mas da presença de Deus em seu interior.

 

                                        

Deus não apenas dá as “coisas” ao homem, mas Se dá a Si mesmo no interior do seu Dom. Sua presen-

ça está em tudo. Portanto, as criaturas não são apenas dom, mas santificadas porque nelas está Deus.

São sacramento do Senhor. “Olhar o mundo como sacramento de Deus”.

Tudo está inundado de Deus; tudo é sagrado,  nada é profano

Dilatar o horizonte dessa presença. Há situações em que Deus está presente como protesto, denúncia (injustiça, violência...)

Estamos rodeados, mergulhados em Deus: “N’Ele vivemos, nos movemos e existimos”.

                               Todo o universo está permeado pela presença divina.

Resposta Considerar como eu devo, de minha parte, “querer estar em Sua presença, colaborar com Ele”.

                   Expressar nosso amor fazendo-nos presentes: na história, comprometendo-nos com ela; soli-

                   dariedade com os outros; sermos pessoas de fronteiras.

                   Estar presente nas realidades deste mundo e atento às necessidades e clamores do povo.

 

3ª maneira de orar “Deus trabalha em todas as coisas”.

                                              “Meu Pai trabalha sempre e eu também trabalho” (Jo. 5,17).

Considerar como Deus trabalha por nós, preparando pessoalmente todos os dons.

A presença de Deus é ativa: tudo está sendo construído e reconstruído por Deus. Ele é a força inesgotável de onde brota todo o trabalho do mundo. Deus continua fazendo tudo novo.

Presença dinâmica de Deus: Deus ama atuando em nossa história.

                                                A ação do Espírito Santo no interior de nosso ser formando-nos à imagem

                                                de Jesus Cristo.

Resposta:  Considerar como devo, de minha parte, trabalhar a serviço do Senhor, para sua maior glória.

                   Espiritualidade da colaboração: o lugar teológico da presença de Deus é a ação com amor;

                                                                          o trabalho é a colaboração do homem ao Deus trabalha-

                                                                          dor; saber que sempre se pode fazer algo melhor.

                   Dar sentido de amor e profundidade ao nosso trabalho; dar valor e sentido às pequenas coisas...

                   Pelo trabalho a pessoa está louvando o Pai, está salvando o mundo e está crescendo em graça.

                   Amor é servir, trabalhar: trabalhar com a mesma intenção de Deus;

                                                               trabalhar com Deus na mesma direção: aperfeiçoar Suas obras.

 

4ª maneira de orar:  “Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus”.

                                      Deus ama deixando traços e pegadas de sua perfeição divina em suas criaturas.

Deus se deixa “transparecer”  na Criação. Tudo vem de Deus e tudo leva a Deus.

Observar como todos os bens e graças “descem do alto”, como o sol desce com seus raios.

Considerar como tudo o que sou e possuo provém de Deus, se origina e se enraiza n’Ele.

Em todas as coisas aparece a sabedoria, a palavra, o dom de Deus.

A partir de Deus podemos entender e valorizar as criaturas, perceber que o mundo tem sentido e que tudo é história da Salvação.

E através da Criação podemos conhecer algo do que é Deus;

        Descobrí-Lo nos acontecimentos, nas lutas... Toda a bondade, a beleza das coisas se originam de

        Deus, são uma “imagem”  de Deus.

        Mas Deus está além das coisas; precisamos ultrapassá-las; elas são um trampolim para chegar a Deus.

Resposta: Considerar, como devo, de minha parte, amar as pessoas de tal maneira que me faça transpa-

                  rente, para que através de mim os outros possam conhecer quem é Deus.

                  Eu devo deixar “transparecer” a imagem de Deus, através da bondade, justiça, serviço...

                  Deus “passou” e “passa” por minha vida, deixando suas pegadas; através delas dar testemu-

                  nho de quem é Deus.

                  Considerar como posso “encontrá-lo em todas as coisas”  e assim oferecer-me com elas nu-

                  ma resposta de Amor ao Amor que me chama.

 

Conclusão AD AMOREM  -  viver permanente diante de Deus

                                                 - programa de vida

                                                 - estilo de vida (contemplativo na ação).

 

Textos bíblicos 1) Lc. 1,46-56           2) Fil. 1,3-12            3) Ef. 1,3-14              4) Rom. 8,28-39

                                5) Sl. 135(136)          6) Sl 106(107)          7) Sl. 103 (104)                 

 

A ORAÇÃO DOS QUE NÃO TEM TEMPO PARA REZAR

 

“Se dirigimos todas as coisas a Deus, tudo será oração” (S. Inácio a S. Francisco de Borja)

 

De sua experiência, S. Inácio retirou uma lição. Não é o tempo consagrado à oração que é decisivo, mas a atitude do coração daquele que pretende rezar. Antes de tudo, ele coloca a liberdade ou o grau de desapêgo que lhe permitirá “encontrar Deus a todo momento” para cumprir a sua Vontade.

       A pureza de intenção e o dom total de si às atividades são menos suspeitos aos olhos de S. Inácio

       do que as longas orações. Ele relativiza o aspecto do “tempo” gasto na oração, para colocar o acento

       sobre a disponibilidade do coração  (“atitude interior”).

Para S. Inácio, a oração nunca é um fim em si mesma. Ela é um meio de união com Deus.

O essencial é ser um instrumento eficaz nas mãos do Senhor.

A oração não constitui a totalidade da vida espiritual, ela não é a única maneira de louvar e servir a Deus.

 

Muitas vezes S. Inácio expressa-se com vigor quando suspeita que seus companheiros são tentados a negligenciar o trabalho para se entregar à oração. Ele afirma que:

          “a primeira maneira de servir ao próximo, para a glória e honra de Deus é o trabalho presente e a

            intenção com que se toma e ordena tudo para a edificação do próximo”.

 

Em nome de S. Inácio, seu secretário Polanco escreve:

          “Eu ressalto que Inácio prefere que se experimente encontrar Deus em todas as coisas, mais que

            lhe consagrar muito tempo em rezar... Não se deve fazer nada, com efeito, que não seja por amor

        e serviço  de Deus Nosso Senhor”.

 

Em resposta ao estudante Antônio Brandão S. Inácio escreve:

           “... mas pode exercitar-se em buscar a presença de Nosso Senhor em todas as ações, como é con-

            versar com alguém, ir e vir, divertir-se, escutar, entender, enfim, tudo o que fizermos; pois verda-

            deiramente sua Divina Majestade está em toda parte por presença, poder e essência.

            Esta maneira de meditar,  achando Deus em todas as coisas, é mais fácil do que levantar-nos às

            realidades divinas mais abstratas,  pois nossa presença diante delas exige esforço. Este excelente

            exercício nos dispõe para grandes visitas  do Senhor, mesmo no decurso de curta oração”.

 

A mesma resposta é dada ao P. Godinho, que sofria sob o pêso dos cuidados materiais de um colégio:

           “Possuir o cargo das coisas temporais pode, de certo modo, parecer como uma ocupação que distraia

            mas eu não duvido que a pureza de intenção que dirige tudo o que você faz para a Glória de Deus

            não lhe torne espiritual e muito agradável à sua infinita bondade.

            As “distrações” suportadas por seu maior serviço e em conformidade com sua Divina Vontade in-

            terpretada pela obediência, não somente podem ter o mesmo valor que a união e o recolhimento da

            contemplação contínua, mas elas ainda podem ser mais agradáveis a Deus, porque provém de uma

            caridade mais  ardente e forte”.

 

Ao P. Nicolas Berzé, que trabalhava na India, S. Inácio escreve:

           “Se o clima daí torna a oração mais difícil que aqui, haverá tanto menos razão para prolongá-la como

            aqui. É possível elevar seu espírito a Deus, no meio das atividades e dos estudos. No momento que

            se transforma tudo em serviço a Deus, tudo torna-se oração”.

 

A originalidade de S. Inácio vai bem mais longe, permitindo superar de uma vez a dicotomia entre uma atividade e os momentos de oração.

Para ele, a própria ação é oração, à medida que seja o “lugar”  do encontro com Deus.

          “Convém, portanto, no próprio coração da atividade, voltar frequentemente à oração e realizar um

           movimento circular que vai da oração à ação, e desta à oração” (P. Nadal).

 

Graças a essa mútua fecundação, o próprio trabalho torna-se parte integrante da oração.

Esta convicção de S. Inácio enraiza-se certamente em sua teologia da Criação, cujo “Princípio e Fundamento”  e a “Contemplação para alcançar amor”  nos revelam os traços essenciais: as criaturas como lugar da “presença ativa” de Deus e mesmo como “sinal” de seu rosto.

 

          Mais que um exercício, a “ORAÇÃO na VIDA” ou Oração Apostólica é, para S. Inácio, uma

         MANEIRA DE VIVER (atitude de vida).

         “É por uma graça privilegiada que o P. Inácio concebeu esse estilo de oração. De outra parte, ele

          sentia e contemplava a presença de Deus em todas as coisas. “Contemplativo na ação”, ele compre-

          endia a dimensão espiritual de todas as suas ações e de todos os seus encontros. O que lhe fazia

          dizer: é necessário  encontrar Deus em todas as coisas” (P. Nadal).

 

Fiel intérprete do pensamento de S. Inácio, P. Nadal recomenda rezar a partir das criaturas:

          “É necessário considerar pacificamente nelas a ação divina, e como essa ação é verdadeiramente de

           Deus. É necessário tudo conduzir a Deus, todo ser e toda ação. É preciso considerar como todas as

        coisas estão em Deus e agem n’Ele. Nas próprias criaturas é necessário sentir a força de Deus,

           pela qual Ele pode se fazer compreender, contemplar, amar e adorar pela criatura.

           Um coração puro, contempla Deus nos sinais e o espelha nas criaturas. Assim, tu sentirás o poder

        de Deus, sua presença, sua essência e mesmo  sua ação”.

 

Tal maneira de rezar“encontrar Deus em todas as coisas”-  é um dom de Deus. Cada um recebe

                                       esse dom na medida que Deus lhe concede, e que ele coopera com toda humil-

                                       dade, simplicidade, pureza de coração...

                                       Logo, tal oração não se improvisa. Ela é resultado de um longo aprendizado, que

                                       se inscreve no interior de uma vida espiritual bem conduzida.

Quem quer ser capaz de “encontrar Deus em todas as coisas”  deve treinar.

É aqui que os momentos consagrados a “fazer oração” se justifica.

Esses “tempos de recolhimento”  são necessários para escutar a Palavra, nutrir a fé e manter vivo o dinamismo espiritual requerido para a pureza de intenção, a liberdade e o discernimento.

 

         Uma oração excelente: “TER SEMPRE DEUS DIANTE DOS OLHOS”.

                                           ORAÇÃO CONTÍNUA: consiste numa VISÃO NOVA do mundo,

                                                                                dos homens e da história em Deus.

 

         - A oração tem seu lugar no começo de nossa ação: como ação de graças pelo que estamos dispostos

                                                                                         a fazer.

         - A oração tem seu lugar no centro de nossa ação: como invocação para fazer o que o Senhor espera

                                                                                        que façamos.

         - A oração tem seu lugar nos limites de nossas possibilidades, como súplica dirigida às possibilidades

                                                                                                          de Deus.

         - A oração tem seu lugar ao término de nossa ação: como busca de benção diante da impossibilidade

                                                                                de dispor do êxito ou das consequências de nossa ação.

         - A oração tem seu lugar na experiência de fracasso, como busca de perdão e daquela força que pro-

                                                                                            vém da ação misericordiosa de Deus.

         - A oração tem seu lugar na experiência de êxito, como gratidão que impede a autosuficiência e tor-

                                                                                       na possível o regozijo sem temor.

 

Possa o ensinamento de S. Inácio reconciliar consigo próprios tantos homens e mulheres sinceros, que sofrem e se culpam porque seus afazeres não deixam muito tempo para rezar.

 

 

CONTEMPLAÇÃO PARA APRENDER A AMAR COMO DEUS

 

Síntese e recapitulação de toda a experiência dos Exercícios e ao mesmo tempo ponto de partida que se

                                       destina a introduzir o exercitante na vida diária, com uma visão universal profun-

                                        damente cristã, a “Contemplação para alcançar Amor” é um novo modo de

                                        orar, ou seja, um modo de “encontrar Deus em todas as coisas”.

                    É a disponibilidade total ao Senhor, agora interiorizada e assimilada existencialmente.

                    Alimentado com a fonte de energia que foram as 4 semanas, o Ad Amorem transforma-se

                    em luz e calor que vão iluminar e alimentar a 5ª Semana do exercitante.

                                               Duplo dinamismo: para trás, recolhe os esforços dos Exercícios;

                                                                           para frente, de iluminação e força propulsora.

 

Contemplação para “alcançar” – dimensão ascética: nosso esforço; estender a mão para atingir

                                                                                         o objetivo (ativo);

                                                        - dimensão mística: estender a mão para receber; atitude de

                                                           humildade, acolher o Dom (passivo).

Aqui o exercitante encontra-se como que no centro do mistério único, que é ao mesmo tempo o mistério do Deus Criador e do Deus Redentor, do Deus que “dá a Vida”  e que conserva o universo, do Deus de quem tudo procede e para quem tudo retorna; em síntese, trata-se do mistério do Amor de Deus.

O exercitante encontra-se, assim, envolvido pelo Amor de Deus.

                   Este Amor ativo e primeiro de Deus suscita nele a gratidão profunda que o leva a responder

                   com a consagração da própria vida ao maior serviço e glória de Deus:

                                      “Tomai, Senhor, e recebei...”

Verdadeiro e contínuo ato de Amor, esta contemplação é a expressão ao mesmo tempo heróica e humilde da “mística do serviço”  por puro amor.

 

Os quatro pontos da Contemplação ( EE. 234-237) indicam uma verdadeira via espiritual que para o exercitan-

                              te será o lugar natural de sua oração. Trata-se de níveis de aprofundamento para descobrir a

                               presença amorosa de Deus em tudo e em todos.

São quatro graus de profundidade da fé, é um todo dinâmico: cada ponto aprofunda o outro, num movimento espiral. É todo um novo modo de orar que significa um convite a entrar mais profundamente nas maravilhas e bens do Senhor, a penetrar no seu sentido e significado e a  inserir-se no seu dinamismo.

                             

O ponto de partida e, ainda uma vez, uma história, ou seja, o exercitante deve recordar a sua história pessoal de graça, ponderar o quanto Deus tem feito por ele e o quanto Deus deseja dar-se a ele.

                  “... y consequenter el mismo Señor desea darseme en cuanto puede según su ordenación divina”.

                                      O texto espanhol deixa mais patente a infinitude e a inesgotabilidade do Dom, o qual só tem como limite a

                                      liberdade do homem e sua capacidade de acolher e suportar o Dom de Deus sem morrer.

Em segundo lugar, considerar como Deus se manifesta presente em todos os seus dons; tudo está inun-

                                 dado de Deus. S. Inácio olha o mundo como sacramento de Deus.

                                 Deus quer que vivamos reconciliados com o mundo.

Esta presença de Deus é ativa: Deus está trabalhando na história da Salvação.

Finalmente, Deus como fonte da qual procede todo bem como participação de seu infinito ser e perfeição.

 

“Reflectir en mi mismo”:  “Reflectir”- “reflejarse la luz en un cuerpo opaco” (Dicion. de Nobles).

                                    - quer expressar a refração em minha própria existência do mistério contemplado.

                                    - Como operação ativa equivale a pôr-se diante de Deus como um espelho para deixar-se orientar e

                                     “ordenar” por Ele e, consequentemente, é oferecer e devolver  a Deus o que Ele me deu.

                                    -“Reflectir” é um eco da expressão que S. Paulo utiliza em 2Cor.3,18.

                                    -“Deixar refletir” é não permitir que minha própria razão seja a medida das coisas, ou o censor que as sele-

                                      ciona, em minha relação com o Senhor.

                                    - Contemplar implica “dejarse reflejar”, não querer mediatizar nem controlar o mesmo processo orante;

                                      é evitar comparações e moralismos.

Portanto, a pedagogia do Ad Amorem abre nossos olhos para contemplar e buscar Deus em todas as coisas, a viver sempre na sua presença; é estar unido com Deus na ação; é trabalhar com Deus na mesma direção, ou seja, fazer as mesmas obras que Deus está fazendo.

Enfim, ser contemplativo na ação – agir de tal maneira que na própria ação devemos contemplar Deus.

 

ITINERÁRIO DA INACIANIDADE

 

“INACIANIDADE”: um “jeito de ser”, um “estilo de vida”

 

CAMINHO de revitalização da “identidade inaciana” dos(as) leigos(as) que

viveram a experiência dos Exercícios Espirituais.

ou

“Modo de proceder” dos(as) leigos(as), no mundo e na Igreja, a partir da

experiência dos Exercícios Espirituais.

 

 

1. Fundamentação:  Inácio de Loyola, leigo

 

Inácio de Loyola era leigo quando iniciou seu processo de conversão em Loyola e começou a reconhecer a existência de diversos espíritos em seu interior.

Era leigo quando viveu a intensa experiência de Manresa ( povoado para onde Inácio se desviou quando se dirigia para Barcelona, no início de sua peregrinação a Jerusalém, depois de ter feito a vigília de armas diante da Virgem de Monserrate. Neste povoado, junto ao rio Cardoner, um gruta de pouca profundidade, serviu a Inácio para suas práticas de oração e penitência).

Era leigo quando experimentou e escreveu os Exercícios Espirituais.

Era leigo quando começou a reunir companheiros junto dele, aos quais lhes foi dando os Exercícios, e assim foi comunicando-lhes um modo específico de ser.

 

A espiritualidade inaciana, a inacianidade, nasce como um carisma laical, descoberto por um leigo e com uma metodologia – os Exercícios – que foram concebidos  a partir desta perspectiva.

        Carisma é a maneira de captar e viver o Evangelho de Jesus. A genialidade de Inácio é que seu

                       carisma, seu modo de captar a Jesus, se fez método (nos exercícios), e por isso, pode ser

                       difundido. Esta também é a causa pela qual este carisma só pode ser compreendido em

                       profundidade, depois de ter feito a experiência dos Exercícios.

 

Somente mais tarde, e depois de muitas experiências, é que S. Inácio e seus companheiros decidem constituir a Companhia de Jesus. Mas a origem do carisma inaciano é laical: em Manresa (l522), Inácio viveu a experiência espiritual mais forte (a mesma que logo se constituiu como método nos Exercícios Espirituais), e só em l534, em Montmartre (Paris) ele faz os votos religiosos; ou seja, durante mais de dez anos ele viveu sua espiritualidade como leigo.

A Companhia de Jesus dá um modelo que como um “carisma se faz corpo”, mas não o esgota.

O carisma inaciano pode ser vivido – e é vivido – em pessoas e em instituições não jesuítas.

 

Estas afirmações adquirem força se considerarmos atentamente a história de Inácio. A fonte da espiritualidade inaciana é a experiência de Manresa, justamente depois de sua conversão.

O peregrino penitente-leigo que chega a Manresa, sai convertido num peregrino apóstolo-leigo.

Esses onze meses são dos mais decisivos na vida de Inácio e em sua obra: durante essa estadia é quando tem uma das experiências místicas que mais o marcaram: a do Cardoner. Ele mesmo, assim se expressa:

“Uma vez ia, por devoção, a uma igreja que estava mais de uma milha de Manresa. Creio que se chama São Paulo, e o caminho vai junto do rio Cardoner. Indo assim em suas devoções, assentou-se um pouco com o rosto para o rio, o qual ficava bem em baixo. Estando ali assentado, começaram a abrir-se-lhe os olhos do entendimento.

Não tinha visão alguma, mas entendia e penetrava muitas verdades, tanto em assunto de espírito, como de fé e letras. Isto, com uma ilustração tão grande que lhe pareciam coisas novas.

Não se podem declarar os pormenores que então compreendeu, senão dizer que recebeu uma intensa claridade no entendimento. Em todo o decurso de sua vida, até os 62 anos de sua idade, coligindo todas as ajudas recebidas de Deus e tudo o que aprendera por si mesmo, não lhe parece ter alcançado tanto, quanto daquela só vez.

Nisto ficou com o entendimento de tal modo ilustrado, que lhe parecia ser outro homem e ter outro entendimento, diferente do que fora antes” (Aut. 30).

 

Uma vez que se persuadiu de que não poderia viver e morrer em Terra Santa, como era seu profundo desejo desde sua convalescença, Inácio começa a formação intelectual; ele tem consciência que precisa disso para poder fundamentar e contagiar sua experiência.

Alí a vocação laical, tipicamente sua, começa a manifestar  um outro elemento importante: busca de companheiros a quem lhes vai dando os Exercícios e lhes vai comunicando um modo de ser.   

2. Exercícios Espirituais: o berço da “inacianidade”

 

O básico da espiritualidade inaciana é experimentar, sentir, fazer, saborear...

É a experiência – conhecer pelo sentir – que se vive na dinâmica dos Exercícios Espirituais.

Nos Exercícios, “experimentar” é fundamental, determinante.

Três verbos eixos são cruciais no caminho do “experimentar” nos Exercícios:

          - “sentir”- deixar que minha sensibilidade vibre da mesma maneira que vibra a de Jesus;

          - “fazer”-  fazer com e como Jesus, no horizonte da vinda do Reino;

          - “padecer”- consequência lógica de pretender o Reino à maneira de Jesus, frente ao poder

                               deste mundo que o rejeita.

Conclui-se que esta tríplice experiência – sentir, fazer e padecer – pretendida na metodologia dos Exercícios, constituirá a matriz para formar o “inaciano” em alguém. Isso é o que estamos chamando de “inacianidade”.

 

Os Exercícios Espirituais são um caminho de maturação e de crescimento.

A essência dos Exercícios não é a fixação, mas o “pôr em movimento”;  

                                           não é a afirmação dogmática-especulativa, mas a pergunta contemplativa;

                                           não é catálogo de soluções, mas a familiaridade com métodos de busca;

                                           não é o “concordismo” despersonalizador, mas a máxima personalização (e

                                                  por isso, máxima liberdade) do discernimento;

                                           não é uma pastoral de fórmulas acabadas, mas de interrogações abertas em

                                                  cadeia, com as quais vai sendo levado “até à verdade plena” (Jo. 16,13);

                                           não é ponto de chegada, mas “partidas” para novos horizontes, para novas

                                                  fronteiras, deixando-se levar pelo Espírito, que tal como vento “não se

                                                  sabe de onde vem nem para onde vai” (Jo. 3,8).

 

Para tornar possível este “experimentar”, Inácio – grande conhecedor da pessoa – aproveita dos mecanismos psicológicos que possibilitam a experiência. Tudo é mobilizado para facilitar a imersão total da pessoa na oração, na contemplação...

 

Esta experiência inicia-se com o Princípio e Fundamento.

O objetivo desta consideração nos Exercícios é, certamente, ganhar a liberdade, ganhar a “indiferença”: “é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas...” (EE. 23).

“Indiferença” entendida como liberdade frente a tudo, especialmente frente às grandes sombras da vida: a morte, a enfermidade, o dinheiro, o poder...

Esta liberdade se converterá em experiência fundante e geradora de uma série de atitudes.

S. Inácio, numa das regras pouco conhecida, diz o seguinte em torno à liberdade:

          “Conserva a liberdade em qualquer lugar, e diante de quem quer que seja, sem fazer acepção de pes-

           soas; tenha sempre liberdade de espírito ante aquilo que tens à frente; e não a percas ante obstá-

           culo algum. Neste ponto não falhes nunca”. (Epp. XII, 678-679).

Portanto, aquele que captou o carisma inaciano será a pessoa livre que não hipoteca sua liberdade por nenhum preço. Grande sinal deste novo Princípio e Fundamento é “sentir a liberdade”.

Obviamente que esta experiência não anda sozinha. Tem outras realidades que a acompanham.

 

Em seguida, a experiência da Primeira Semana é a do(a) pecador(a) perdoado(a).

Esta experiência é a que possibilita o diálogo proposto no colóquio de misericórdia: “Que fiz por Cristo? que faço por Cristo? que farei por Cristo?” (EE. 53).

Aqui nos encontramos diante do sentir que se converte num fazer, numa tarefa. Ou seja, a experiência fundamental da primeira semana é a do pecador(a) perdoado(a) a quem o perdão  se converte em missão, pois não é apesar de ser pecadores, senão precisamente por isso que a pessoa é convidada a seguir Jesus, para ser posta com Ele, na tarefa de construção do Reino.

A experiência de ser pecador(a) perdoado(a), é a que matiza e impulsiona todos os traços da espiritualidade inaciana.

 

 

 

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Continuando, temos a experiência da contemplação do Reino que nos introduz de cheio na modalidade do fazer. É fazer tudo à maneira de Jesus. E é fazer o Reino também nós. Um fazer que é também “deixar-se fazer”, deixar-se afetar – ser posto, ser eleito – deixar atuar o Espírito (a graça). Com isto inicia-se a 2ª Semana.

 

A seguir, a contemplação da Encarnação nos vai fazer “sentir” o que sentiu a Trindade, olhando com ela, para logo percebermos sua extrema solidariedade ao formular a frase: “Façamos a redenção do gênero humano” (EE. 107). A contemplação nos convida a isso também.

A contemplação de toda a vida oculta, é um caminho para aprender a sentir e a proceder à maneira de Jesus. O método da contemplação nos convida a ter seus mesmos sentimentos e seu mesmo modo de proceder.

 

Encontramo-nos, a seguir, com a chamada jornada inaciana (Duas Bandeiras, Binários, Três maneiras de humildade). Esta nos faz experimentar a compreensão mais profunda dos desejos e seu dinamismo.

Primeiro, desejar ter desejos: isto seria o nível do Princípio e Fundamento.

Depois, de uma forma mais simples – talvez no oferecimento do Reino – desejando de todo o coração.

Para, em seguida, aprender que a chave está em desejar “ser postos com o Filho”.

Experimentar este desejo, nos dispõe para a vivência da paixão (terceira semana).

 

Experimentar a paixão é o convite por excelência à solidariedade como consequência do amor.

Somos convidados a “fazer e padecer”: “que devo eu fazer e padecer por Ele?” (EE. 197).

 

Finalmente, a ressurreição – quarta semana – é experimentar a esperança e a alegria da nova vida de Je-

                                               sus: “pedir graça para me alegrar de tanto gozo e alegria de Cristo nosso

                                               Senhor” (EE. 221).

                                               É aprender a “fazer esperança” em nós e nos outros, sabendo  que é graça

                                               a pedir.

 

Os Exercícios culminam com a contemplação para alcançar amor, que é a grande síntese de tudo.

É experimentar que é o amor que deve reger, e também, que o amor se expressa concretizando-se em ações. Esta contemplação revela a chave da relação com Deus: de amante a amado, de amado a amante (EE. 231).

Em síntese: seguindo a experiência dos Exercícios Espirituais, podemos afirmar que o inaciano, a inaciana, é alguém que se formou numa escola fundamental que lhe abre ao “sentir profundo”,  ao “fazer como tarefa recebida, como dom”, e a ser capaz de “padecer” por esse Jesus encontrado no sofrimento da humanidade, para vivenciar também sua glória no contexto do Reino.

Esta é a vivência que animou aos primeiros companheiros de Inácio a buscar outros companheiros e fazer organizações a serviço dos mais necessitados; isto se fazia crucial a partir do que tinha sido vivido do encontro nos Exercícios.

 

Em suma, a experiência dos Exercícios deve estar acompanhada de uma experiência desafiante no humano, no histórico. Muitas vezes os Exercícios perdem seu caráter mordente, provocante, precisamente porque não são acompanhados ou precedidos por uma experiência de solidariedade, pelo menos em momentos sérios e significativos, com a dor da humanidade, com a injustiça e com o querer devolver o rosto humano ao mundo.

Não obstante, esta experiência de contato sério com a dor do mundo – sobretudo para os(as) leigos(as) – não está determinada unicamente por um tempo longo de contato com o sofrimento das maiorias, senão por um encontro significativo com essa realidade; um encontro que pode partir de um acontecimento inesperado ou traumático, uma experiência casual mas marcante, um diálogo profundo com alguém que compartilhou de perto essa realidade, os meios de comunicação, ou algo similar.

 

Em definitiva, uma  pessoa que fez a experiência dos Exercícios e tem experiência de ter compartilhado de perto com as maiorias necessitadas, poderá ter seguramente, em seu modo de ser e atuar, os traços da espiritualidade inaciana.  

     (Cf. Carlos Rafael Cabarrus, La espiritualidad ignaciana es laical – Apuntes sobre “ignacianidade”)

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Hoje não se pode considerar os Exercícios Espirituais de um modo isolado; deve-se vê-los como um todo: pré-Exercícios, Exercícios, pós-exercícios.

Os pré-exercícios são o vestíbulo que prepara o encontro com Deus que se realizará nos Exercícios Espirituais; e os pós-exercícios são como um “teste” para saber se os Exercícios foram autênticos, para estimular e manter o compromisso pessoal e comunitário que nasceu do encontro com o Cristo total

 

S. Inácio dá numerosas indicações práticas para aqueles que fazem os Exercícios Espirituais, mas se cala quando se trata daqueles que fizeram a experiência dos mesmos Exercícios.

No entanto, isto não nos deve estranhar. S. Inácio confia na pessoa “provada pelo fogo dos Exercícios”: ela saberá construir seu itinerário espiritual, sob a ação do Espírito.

Afinal, como se pode falar de espiritualidade inaciana, de um caminho para Deus, sem ter “tempos fortes” de oração pessoal, sem os exames de consciência cotidianos, sem os sacramentos da reconciliação e da Eucaristia, sem viver no dia-a-dia as opções que Jesus viveu, sem sua preferência pelos pobres, sem seu amor pela Igreja?...

 

É certo que S. Inácio não se preocupa com o que vai ocorrer após o retiro. Não nos diz nada sobre a passagem e o retôrno à vida cotidiana depois de um período intenso, agitado pelos espíritos; mas ele confia, sim, na experiência fundante que cada um conseguiu viver.

S. Inácio é muito consciente de que nada será como antes, senão que o exercitante continuará num discernimento orante, numa espiritualidade encarnada.

Porque “ser posto com Cristo”, graças à experiência dos Exercícios Espirituais, significa estar capacitado pelo Espírito para optar como Cristo, na realidade concreta e cotidiana da vida pessoal, social, eclesial...

 

Permanência dos Exercícios (cf. Juan Pablo Carcomo sj)

Quando o exercitante termina os Exercícios Espirituais, na verdade não põe um ponto final à experiência que o marcou durante um bom tempo. Uma ligação muito forte continua unindo-o a esta experiência, mesmo que reconhecida como realizada e passada.

Ela continua sendo atual e fonte de novos progressos. Pois a vida diária, já presente nos Exercícios, continua sendo um poderoso meio de iluminação e de aterrissagem na realidade.

 

“Fazer memória” de uma experiência.

Ao terminar os Exercícios, não é necessário um espaço e um tempo de “reajustamento” ao cotidiano. Mas, sob o ângulo do recordar, volta-se a reviver a experiência passada. Não se trata de uma lembrança qualquer, como se fosse um desfile na memória, mas sim de uma lembrança seletiva, que privilegia certos “tempos” de graças vividas com mais intensidade.

A consciência sente prazer em retornar sobre eles, em retê-los na oração, em encontrar novas certezas.

Às vezes é um texto evangélico em torno do qual se organizaram as linhas-força das quais brotaram as decisões; às vezes é um período de discernimento; ou o redescobrimento de uma experiência vivida, talvez esquecida, e de novo recuperada com a certeza de que nela se estabeleceu realmente um encontro com Deus. Os acontecimentos diários, com seu cortejo de estonteantes problemas e fracassos, são o ponto de partida desta nova atualização dos Exercícios.

 

Realiza-se assim em nós um novo assentimento ao dom recebido de Deus, de novo atualizado e aprofundado. A graça que parecia vinculada a uma fase particular do retiro, converte-se em uma nova força, enriquecida com tudo o que foi efetivamente vivido ao longo dos Exercícios. Se, por exemplo, o exercitante se detém sobre uma cena evangélica ou sobre o 3º grau de humildade, porque estes momentos marcaram fortemente sua experiência, revive-os à maneira de uma “repetição” enriquecida com tudo o que foi vivido após, de forma que se encontra algo novo, a partir do que já parecia conhecido.

 

Mas a lembrança dos Exercícios se projeta também sobre outra realidade.

O exercitante percebeu uma progressão nos diversos momentos dos Exercícios, passando de uma atitude a outra, de uma graça a outra, como por degraus que se foram sucedendo. Terminado o retiro, recordando esta sucessão, toma mais consciência de como se conduziu ou se deixou conduzir através destas etapas de seu itinerário diante de Deus.

 

 

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Tal lembrança é de suma importância. Permite à consciência ratificar o movimento pelo qual passou e, talvez, corrigir seus desvios.

Quase não era possível durante os Exercícios mesmos medir a amplitude ou a verdade total do processo. Ao contrário, na lembrança que a vida de cada dia faz brotar, o exercitante se liberta de seus Exercícios e toma uma distância que lhe permite julgá-los espiritualmente: sabe melhor que graça o conduziu, e por quais etapas.

Re-cordar os Exercícios é julgar não somente os “tempos” de luz ou conversão, mas sim e ainda mais, julgar o que o permitiu passar de um Deus confusamente percebido a um Deus lucidamente aceito.

 

A lembrança ilumina a história vivida, permitindo conhecer melhor seu percurso e sua evolução, em busca de uma maior maturidade. Terminados os Exercícios, a própria vida diária é a que ajuda a ver a força da ação de Deus, que tem movido a pessoa até o mais profundo de seu ser.

Mas este “percurso”  é revivido de um modo diferente de como foi vivido durante os Exercícios.

Não se trata agora de isolar uma etapa da outra, procurando em cada uma seu fruto próprio.

As situações da vida diária, ao fazer recordar tal ou qual “momento” vivido no decurso dos Exercícios, dão a esta lembrança todo o peso dos outros momentos dos mesmos.

Fora dos Exercícios intensivos se percebe melhor seu conjunto, como um fruto único, pois cada momento se enriquece com todos os outros. Lembrar-se, por exemplo, da “oblação” realizada ao final da contemplação do Rei Eterno é reviver também a graça do perdão e da ressurreição.

Assim, a partir da vida cotidiana e das chamadas interiormente escutadas de novo, as lembranças dos Exercícios não são somente lembranças sucessivas que se justapõem, mas cada uma delas leva em si a graça de todas as outras. Em todo momento está presente a graça total dos Exercícios, descoberta sob um aspecto pedagógico particular.

 

Depois dos Exercícios Espirituais, sob o impulso da vida cotidiana, as atapas pelas quais se passou já não têm o mesmo significado. Quando se concluiu a eleição, não se pode já recordar o tempo que a precedeu, como se estivesse marcado pela espera ou a incerteza.

Quando foi concedida a graça da oblação ao “Eterno Senhor de todas as coisas”, a lembrança da dor pelo pecado é revivida na consciência de uma maneira completamente nova. Modificando os Exercícios por esta lembrança criadora, a memória os adapta à situação que a vida apresenta hoje, e dá aos Exercícios vividos uma plenitude, da qual antes não se tinha podido tomar consciência.

A necessidade que o exercitante experimenta, no período que se segue aos Exercícios, de recolher o essencial da experiência vivida e por isso relê-la, ou “orá-la” de novo, tratando de aprofundar uma ou outra etapa, transforma-se muito frequentemente em uma evidência: os Exercícios já não são um passado do qual deverá lembrar-se para celebrar a graça recebida, mas sim um caminho aberto.

A experiência espiritual vai se fazendo mais precisa, mais intensa, mais concentrada...

 

A “experiência inacabada”

A experiência dos Exercícios produziu realmente seu fruto: o exercitante encontrou “a vontade divina na disposição de sua vida para sua salvação” (EE. 1).

Mas o movimento interior provocado pelos Exercícios não terminou. De fato, os exercitantes percebem, frequentemente com precisão que, acabados os Exercícios, a exigência nascida neles continua manifestando-se principalmente de três maneiras.

 

1. No concreto da existência diária, onde o exercitante experimenta que sua eleição é “confirmada”: estabelece-

se um acordo entre o que ele decidiu e o que vive realmente, entre as certezas experimentadas depois de um longo tempo de busca e as que nascem agora no contato com sua própria realidade.

Mas esta confirmação opera somente na situação que constituiu a matéria de uma eleição. Cada etapa dos Exercícios, cada momento espiritual vivido neste itinerário, volta a reviver na ocasião de situações humanas, nas quais o exercitante se encontra, de novo, plenamente comprometido.

Ter vivido, por exemplo, vários dias na contemplação das “Duas Bandeiras”, é ter preparado o caminho de uma libertação, cujo fruto direto terá sido a eleição. Mas, terminados os Exercícios, cada um desses momentos vividos recobra uma plenitude que ilumina o momento atual no qual terá que descobrir os sinais do Espírito de Deus, na austeridade e na humilhação.

O que o exercitante viveu como etapa de um caminho, volta-o a encontrar como luz e como forças para a situação de hoje. É então que o exercício acaba, porque é recolhido e ratificado em uma consciência que unifica em uma só experiência o fruto recebido durante os Exercícios e o fruto necessário no momento presente.

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2. Uma tal confirmação é possível porque cada etapa dos Exercícios era, para o exercitante, um dom e uma pro-

messa. Um dom recebido como resposta de Deus no momento em que ele se dispunha.

Uma promessa cuja plena realização percebia confusamente como ainda não possível.

Ser “indiferente” comportava uma firme orientação do coração para manter a liberdade das opções, mas abria também a uma atitude de acolhida de um fruto que era ainda o segredo de Deus na obscuridade de situações humanas, que a vida ordinária continuadamente desvelava.

Nos Exercícios isso acontece em cada etapa. A fidelidade cotidiana, ou melhor, a fidelidade ao cotidiano, em submissão ao Espírito de Deus, desvela pouco a pouco o que se achava contido, como uma semente, na graça que era recebida em um momento determinado.

Será necessário, depois dos Exercícios, reviver, na oração e na lembrança espiritual, a riqueza destas experiências, aparentemente fugazes, para que se descubra seu alcance.

O sentimento de uma esperança plena proporciona, dia após dia, uma nova certeza, a de ter recebido nos Exercícios graças que, para serem plenamente acolhidas, deviam manifestar-se através de toda a vida.

É possível que este sentimento de espera exista no coração de toda experiência espiritual verdadeira. Mas, no caso dos Exercícios, traz a garantia de que a experiência foi justa. Cada instante vivido diante de Deus aparece como a realização da promessa que Deus mesmo nos tinha feito no transcurso dos Exercícios.

A vida de cada dia, está cheia de chamadas, de provas, de desejos, que remetem a tal ou qual momento dos Exercícios, dando-lhes um alcance muito mais amplo do que no princípio se vislumbrou.

 

3. As indicações pedagógicas dadas por Inácio e que foram levadas à prática pelo exercitante não são abolidas

depois dos Exercícios. Muito pelo contrário, alcançam então um novo grau de eficácia nos três campos mais significativos da vida diária.

O primeiro é o que corresponde à decisão. Ao fazer a experiência de uma “eleição” o exercitante aprendeu o caminho de libertação e docilidade interiores necessários para chegar a um compromisso sério e responsável. A vida cotidiana se abre agora como campo de repetidas eleições. Sua consciência deve viver sempre nas condições de eleição já experimentada.

A matéria da decisão é outra, mas a maneira de decidir-se é sempre a mesma.

O que o exercitante descobriu nos Exercícios, vê realizado na vida, e é então quando pode dizer que os Exercícios se cumprem.

O segundo é o que se refere à oração. O exercitante se esforçou de muitas maneiras em adaptar mais sua oração para “encontrar a Deus” nela, e deixar-se conduzir por Ele.

Depois dos Exercícios, impõe-se um novo controle para manter a retidão e a pureza de coração no barulho das preocupações diárias. Não por meio de regulamentos que pretendam fixar e congelar atitudes, mas sim por meio desse recurso que se desenvolveu durante os Exercícios, como fonte de verdade e dinamismo.

Assim, cada um conheceu o que o ajuda para garantir seu olhar de fé e para viver o acontecimento atual com toda lucidez diante de Deus.

O terceiro se refere às alternâncias dos movimentos interiores de consolação e desolação. O que se manifestou ao longo dos Exercícios abriu ao exercitante um caminho para o conhecimento de si mesmo.

Ainda que a luz tenha sido suficiente para justificar decisões firmes, far-se-á mais clara ainda na medida em que, na vida de cada dia, venha a ajudar a julgar melhor as repercussões que a “ação” dos espíritos implica.

Todos os dias, em todas as circunstâncias, a consciência se encontra solicitada pelo espírito que nasce de Deus e pelo que nasce das forças da negação; mas o discernimento se realiza então, em continuidade com aquele que permitiu fazer a luz, durante os Exercícios, e manifesta nisto toda sua eficácia.

 

O período que se segue aos Exercícios é, pois, de uma singular importância.

É o que dá ao exercitante uma espécie de humilde domínio sobre a experiência que acaba de realizar: ao confirmar cada dia o que só estava iniciado como promessa, vai conseguindo uma estabilidade que inevitáveis obstáculos não poderão fazer desmoronar.

No desenvolvimento dos Exercícios é preciso discernir o que finalmente é para ele seu ponto de unidade ao redor do qual tudo se ordenou.

Para alguns se trata sobretudo de uma experiência de libertação e de liberdade.

Para outros é a serena certeza de que a passagem franqueada com a graça de Deus é irreversível.

Mas para todos se trata de uma experiência que “fundamente” uma vida: é uma solidez, cada vez mais confirmada, na medida em que, nos atos diários, leva-se plenamente a termo o que se começou.

 

 

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Para S. Inácio, a fidelidade espiritual se traduz, em primeiro lugar e necessariamente, na fidelidade ao tempo presente, ao “agora”,  ao “hoje”, para não fugir nunca da realidade.

“Buscar e encontrar a Vontade de Deus”, tanto dentro como fora dos Exercícios, implica uma contínua e permanente escuta e entrega à ação providente de Deus, no “aqui e agora” cotidianos.

Este é o “itinerário inaciano” onde cada um deixa transparecer aqueles “traços” característicos da experiência vivida dos Exercícios, agora encarnados num estilo próprio de viver, na cotidianidade da vida.

 

3. Os traços característicos da inacianidade

                                                       A pessoa inaciana, aquela que vive a inacianidade, manifesta alguns

                                                       traços típicos no seu modo de viver e de ser. Eis alguns desses traços:

 

01)  Inacianidade: êxodo da estreiteza do próprio ser à largueza do coração

02)  A experiência é a sabedoria da vida

03)  Caminho: uma chave de compreensão da espiritualidade inaciana

04)  Inacianidade: caminho para as profundezas do próprio ser

05)   Espiritualidade do encantamento

06)   Ser companheiro(a) de Jesus

07)  Mística inaciana: da experiência interior à encarnação na realidade

08)  Experiência inaciana: descoberta do mundo dos desejos

09)  O “Magis” como propulsor da caminhada

10)  Inacianidade: busca da maior Glória de Deus      

11)  Ser inaciano: busca do maior Serviço                  

12)  A Paixão pela Missão                                            

13)  Santidade: a ousadia de “deixar-se conduzir”     

14)  Uma espiritualidade de paradoxos                       

15)   Contemplativo na ação                                        

16)   Uma espiritualidade de discernimento                 

17)  Eleição em processo

18)  Comunidade Inaciana: Amigos no Senhor        

19)  Escola inaciana: um jeito próprio de rezar

20)  Inacianos: homens e mulheres do mundo

21)  Vida Inaciana: homens e mulheres de Igreja

22)  Espiritualidade do trabalho

23)  Espiritualidade do cotidiano criativo

24)  A arte da conversação

25)   Inacianidade: viver nas “fronteiras”

 

 

INACIANIDADE: caminho para as profundezas do próprio ser

 

“Santo Inácio me ensinou a teologia do coração” (S. Felipe Neri)

 

S. Inácio nos apresenta uma antropologia da interioridade, do “sentir e saborear as coisas internamente”.

Mas não se trata de uma interioridade puramente introspectiva ou sentimental, e sim uma interioridade “alterada”, “habitada” e “constituída” por uma relação com Alguém.

S. Inácio distingue 3 pensamentos que podem alterar-nos: um propriamente meu, o qual sai de minha mera

                   liberdade e querer, e os outros dois que vem de fora: um que vem do bom espírito e o outro do mau”.(EE. 32)

Isto implica  uma antropologia com alteridade, uma pessoa alterada e afetada por Outro.

A pessoa dos Exercícios se experimenta a si mesma constitutivamente alterada por Outro: “o ser humano é criado” e chamado, busca viver em sintonia com a Criação, deixando-se conduzir somente por um amor que “desce do alto”.

A interioridade, nos Exercícios, não se deleita nela mesma, senão que se constitui numa relação, na qual o Criador e Senhor se comunica à pessoa “abrazando-a” e “dispondo-a”, tirando-a de si, “alçando-a toda a seu divino amor”. Uma relação Criador-criatura na qual é desejável que não haja interferências, para que se “deixe agir imediatamente o Criador com a criatura e a criatura com o Criador” (EE. 15). Mas a relacio-nalidade, a interioridade e a alteridade encontram seu cumprimento fora de si mesmo, pois “tanto se aproveitará cada um em todas as coisas espirituais, quanto mais sair de seu próprio amor, querer e interesse” (EE. 169).

 

Toda pessoa possui dentro de si uma profundidade que é seu mistério íntimo e pessoal.

“Viver em profundidade” significa “entrar” no âmago da própria vida, “descer” até às fontes do próprio ser, até às raízes mais profundas. Aí se pode encontrar o sentido de tudo “aquilo que se é, o porque do que se faz, se espera, busca e deseja”.

A própria interioridade é a rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa que cada pessoa tem, para encontrar segurança e caminhar na vida superando as dificuldades e os inevitáveis golpes da luta pela vida.

É no “eu mais profundo”  que as forças vitais se acham disponíveis para ajudar a pessoa a crescer dia-a-dia, tornando-a aquilo para o qual foi chamada a ser.

Assim, a descoberta do nosso próprio ser profundo nos aproxima do autor da vida: Deus.

É no coração, “última solidão do ser”, que a pessoa se decide por Deus e a Ele adere. Aqui Deus marca “encontro” com a pessoa. “Deus é mais íntimo a cada um de nós do que nós mesmos” (S. Agostinho). Cada pessoa leva dentro de si mesma a “pegada” de Deus, que atua sob a forma de desejo insatisfeito.

 

A oração inaciana é o caminho interior que faz a pessoa chegar até o próprio “eu original”, aquele lugar

santo, intocável, onde reside não só o lado mais positivo de si mesma, mas o próprio Deus. Este é o nível da graça, da gratuidade, da abundância, onde a pessoa mergulha no silêncio, à escuta de todo o seu ser.

S. Inácio nos ensina o caminho através do qual descemos a uma dimensão mais profunda e assim chegamos à corrente subterrânea; aqui experimentamos a unidade de nosso ser; aqui é o lugar da transcendência, onde nossa transformação realmente acontece.

Se a nossa oração for um autêntico face-a-face com Deus, ela deverá fazer emergir à nossa consciência as profundidades desconhecidas do nosso ser. Deus libera em nós as melhores possibilidades, riquezas insuspeitas, capacidades, intuições... e nos faz descobrir em nós, nossa verdade mais verdadeira de pessoas amadas, únicas, sagradas, responsáveis... É ele que “cava” no nosso coração o espaço amplo e profundo para nos comunicar a sua própria interioridade

Os que mergulham nas profundidades do oceano interior ficam fascinados pelo esplendor daquilo que contemplam. O coração de cada um está habitado de sonhos de vida, de futuro, de projetos; sente-se seduzido pelo que é verdadeiro, bom e belo; busca ardentemente a pacificação, a unificação interior, a harmonia com tudo e com todos...; sente ressoar o chamado da verdade, o magnetismo do amor, da plenitude; sente-se atraído por um desejo irreprimível de auto-transcendência...

 

Textos bíblicosMt. 13,44-46; Sab. 7,7-30; Sl 138

 

Na oração:  Para realizar-se e desenvolver toda a sua poten-

                     cialidade, busque, na oração, cavar mais profun-

damente, até atingir as raízes de seu ser, o núcleo original de

sua personalidade. É no mais íntimo de nós que rezamos ao

ao Senhor. É no mais profundo de nossa interioridade que

escutamos o Senhor. Deixe-se invadir pela luz e pela vida d’Aquele que “armou sua tenda entre nós”. 

 

INACIANIDADE: busca da MAIOR GLÓRIA de Deus

 

“Se a glória nos é revelada na existência e na harmonia do universo, é para que nós

reconheçamos a presença ativa de Deus no mundo e ao mesmo tempo colaboremos com sua ação” (F. Courel).

 

Outro traço da pessoa inaciana, que emana dos Exercícios, é o da “maior glória de Deus”, entendida à maneira de S. Irineu: “Gloria Dei vivens Homo” (a glória de Deus é o homem vivente).

Que todas as pessoas tenham vida!  Quem tem esse carisma inaciano não busca o modo bom, mas o

                                                              melhor, o que mais toca, o que mais muda, o que faz com que

                                                              todas as pessoas tenham vida, e vida abundante.

 

A espiritualidade inaciana é uma espiritualidade da glória, da alegre certeza de que Deus triunfará.

Mas a nota característica de Inácio é de apresentar esta glória como “sempre maior”.

A fórmula “tudo para a maior glória de Deus” condensa toda a dinâmica interior do itinerário de sua vida, expressa sua atitude fundamental e motivação profunda de sua existência; ela é a meta para a qual Inácio orienta sua vida, o princípio inspirador de suas decisões, a que dá sentido à sua atividade apostólica.

A glória de Deus, buscada “em todas as coisas”, é a força interior que o impulsiona a realizar tanto as grandes empresas como os atos mais simples de cada dia. É a expressão última do dinamismo apostólico inaciano.

A mística inaciana é uma mística de retorno ao mundo e à ação apostólica. A pessoa inaciana é continua-

mente remetida à ação apostólica, à existência cristã. O serviço da glória é sua vocação, na Igreja e no mundo. Todas as suas energias, talentos, criatividade... deve estar a serviço da glória para a edificação do Reino.Portanto, a “maior glória” é um fim a perseguir, uma meta que ainda não foi realizada plenamente;

                                                      ela é um apelo constante e princípio de discernimento para eleger o me-

                                                      lhor e melhor contribuir na obra da Redenção.

 

Estar a serviço da glória de Deus significa, ao mesmo tempo, estar a serviço dos homens. Para Inácio, a “maior glória de Deus” é, com efeito, o critério proposto para verificar e julgar a qualidade de nosso serviço. Para isso, quem vive a inacianidade é alguém “excelente” em algum campo.

Não é que se queira classificar as pessoas, mas, deve haver uma excelência na pessoa - com o critério mais adequado para cada um. Excelência que não se mede nem segue parâmetros humanos, senão que se adquire ao sentir-se atraído por um Deus sempre maior

Obviamente, a excelência fundamental é o “excedente de humanidade”: o que supera a norma, o comum, o que vai mais além do lícito, do razoável... e que se mostra numa atitude para com os outros e que se aproxima da incondicionalidade na acolhida.

 

Isto quer dizer que os(as) leigos(as) inacianos(as), saídos da contemplação do Reino, manifestarão uma espiritualidade de tipo ético e não tanto cultual.

Interessa-lhes encarregar-se “daquilo que é de Deus”, à maneira de Mt. 25, no juízo das Nações.

As obras de justiça solidária são a avaliação fundamental da ação humana. Isto faz com que o “nome” de Deus seja reivindicado, fique bem inscrito na história.

E essa é a ação que atrai e seduz primordialmente. Isto envolve a destruição das falsas imagens de Deus e a oferta vivencial – a todos e da melhor maneira – do Deus que Jesus nos manifesta.

 

“O que é de Deus” para o(a) inaciano(a), está perpassado pela contemplação para alcançar Amor, onde tudo fala desse Deus que se entrega em todas as coisas e ao qual não resta outra coisa senão devol-

ver-lhe tudo, comprometendo-se com Ele, da mesma maneira que faz “o amado com o amante” (EE.231).

Por isso, o(a) leigo(a) inaciano(a) tem que estar – física ou moralmente, com algum vínculo orgânico – numa obra de “ponta”, que de alguma maneira influa para fazer as coisas

de outro modo, para servir melhor a mais pessoas, estruturalmente.

A pessoa inaciana não pode ser do comum, ainda que esteja no co-

mum, ou seja, tem que distinguir-se porque realmente vive a busca

da excelência, do magis, da maior glória de Deus, do bem mais

universal... Ela é chamada a ser vanguarda  na igreja e no mundo.

 

Textos bíblicos:   Mt. 25,31-46     Mt. l4,13-21

                              Lc. 10,29-37     Lc. 16,19-31   

 

SER INACIANO(A): busca do maior SERVIÇO

 

Se se pode afirmar que Inácio é o homem da “maior glória de Deus, esta afirmação é inseparável de outra: a de que ele é, ao mesmo tempo, o homem do “maior serviço divino”.  A glória de Deus, que é o fim último, contém em si o serviço e lhe imprime seu sentido e sua transcendência.

                       A glória de Deus e o serviço ao próximo são na realidade um só e único fim.

Por isso, nos escritos de Inácio a idéia de glória é quase sempre associada àquela de serviço aos homens.

Este serviço, para ele, tem algumas características que o distinguem e o  especificam: é um serviço maior, total, totalizante, sem fronteiras,  nunca diz “basta!”

 

“Estar com Jesus para servir”: este será o ardente desejo que inspirará toda a vida de Inácio e mo-

                                                            bilizará todas as suas forças. Ele será o homem do “maior serviço”, que se manifesta por sua urgência, transcendência, universalidade, fecundidade. O afã de servir a Deus com perfeição produz uma força interna que o estimula a ir sempre caminhando e crescendo. É o serviço próprio de um “peregrino” que nunca se cansa nem se satisfaz com o que já realizou, mas sempre se reavalia e se interroga, buscando o que mais corresponde à divina Vontade de seu Senhor.

É um serviço maior por ser um serviço a um Deus sempre maior. E por ser um serviço a um Deus que é Amor, será um “serviço amoroso”, realizado por amor. O serviço divino inaciano é um muito servir, um servir sempre mais, mas na gratuidade de um puro amor. No entanto, esse “serviço maior” terá de ser descoberto no menor, no pequeno e insignificante. É o serviço do cotidiano, como colaboração na construção do Reino.

 

A pessoa que passa pela experiência dos Exercícios, sente brotar em seu coração o afã apostólico, o desejo de corresponder à graça de Deus através do melhor serviço.

A busca do “maior serviço”,  da “maior glória de Deus”,  impede a pessoa inaciana de instalar-se num lugar determinado, numa atividade fixa. Há sempre o perigo de, ao encontrar um serviço, julgar já ter encontrado a vontade de Deus.

Mas ela deve ter uma atenção contínua voltada para o que está acontecendo em cada instante e estar vigilante para verificar se tal atividade continua sendo o melhor serviço ou não.

     A vocação inaciana ao serviço é essencialmente dinâmica, aberta, móvel, renovadora em si mesma, justamente porque

        é  “buscadora” da Vontade de Deus que se manifesta no dinamismo da vida, no  meio das múltiplas relações...

 

O(a) leigo(a) inaciano(a), na sua atitude de vanguarda espiritual, deve lançar-se a uma dinâmica ativa, buscando em cada momento e em cada situação o serviço mais eficiente e querido por Deus.

Trabalhar onde há mais necessidade, onde se espera maiores frutos, onde as pessoas possam estender a outros o bem realizado... é participar da atividade dinâmica do Deus trabalhador.

Por isso, a espiritualidade inaciana é uma espiritualidade de mudança, que se adapta às circunstâncias e às exigências de cada momento; é uma espiritualidade do risco, da pessoa de fronteira, de linha de frente.

Tal existencialismo dinâmico só é possível através da disponibilidade, abertura, docilidade ao Espírito...

Faz-se necessário “deixar-se levar” pelo Espírito, que é fonte perene de novidade e criatividade, princípio vital que nos guia segundo a nova existência em Cristo.

      A inacianidade  é uma experiência do Espírito, que cria no mais íntimo da pessoa uma exigência

      de novidade, numa atitude de buscar sempre a situação nova, própria de cada momento.

 

Mas o(a) inaciano(a) não é tanto a pessoa da novidade, quanto da exigência da novidade; injeta um espírito de novidade mesmo no velho; não se contenta com o novo encontrado... Isto impede a pessoa de cair no serviço rotineiro, de percorrer um caminho fixo ou de aferrar-se a práticas determinadas.

      Sua norma não é realizar o serviço mais seguro, o menos perigoso, o tradicional, nem tampouco

      o mais novo ou o menos novo,  senão o que Deus em cada momento vai lhe revelando.

 

Textos bíblicos:   Mt. 20,24-28     Lc. 4,38-39   Jo. 12,20-26

                              Lc. 22, 24-27    Rom. 12, 3-12

 

Na oração: Poder gastar sua vida no serviço divino de Deus nosso

                  Senhor é, para S. Inácio, não só a maior das graças, co-

mo também uma graça da qual é preciso ser digno.

Trata-se de um serviço todo ele perpassado de gratuidade e que só

pode ser desempenhado na mais absoluta gratuidade.

    “Servir a Deus por puro amor”: este é o grande fruto dos Exercícios.

 

CAMINHO: uma chave de compreensão da espiritualidade inaciana

 

“Conhece-se a Deus pelos pés” (Carlos Mesters)

 

Os Exercícios Espirituais são o fruto de um caminho de fé vivido por S. Inácio. Para ele, o caminho não é só o trajeto de uma pessoa para Deus, mas também o trajeto de Deus em sua aproximação à pessoa.

A realidade está dominada por um Deus que também empreendeu um caminho para o ser humano.

O ser peregrino por parte da pessoa corresponde ao ser peregrino por parte de Deus.

O caminho se converte, então, em caminho para um encontro mútuo, um encontro de dois peregrinos.

Tanto nos Exercícios como nas outras fontes inacianas, descobre-se que S. Inácio recorre com frequência à linguagem metafórica do caminho para descrever a mobilidade, o dinamismo do encontro pessoa-Graça. De fato, a Graça, longe de ser vista como algo estático, é apresentada como “um poder vivo, que desperta no homem um movimento. Não é um dom puramente ocasional, mas um acontecimento contínuo” (Kraus).

“Deus é o que move” (carta de S. Inácio a Alexio Fontana, 8-101555). Tal afirmação é a síntese não tanto do que é a Graça para S. Inácio, quanto de sua manifestação mais patente no acontecimento de seu encontro com o ser humano.  A aceitação da Graça, equivale, então, à incorporação a uma caminhada.

         À ação da Graça associa-se o desejo da pessoa. Na união de ambos está a condição de possibilidade

         por meio da qual a pessoa acaba constituindo-se em caminhante.

Para o povo que caminha no deserto, é essencial conhecer direções e entender ventos. E para o coração que peregrina no deserto da vida, é essencial conhecer os caminhos do Espírito e os ventos da Graça.

Esta é a grandeza do ser humano: ser um caminhante que, de acampamento em acampamento, não cessa de passar da servidão à terra da liberdade.

 

O encontro pessoa-Graça, em Inácio, é “ex-cêntrico”.

Os Exercícios conduzem efetivamente a um des-centramento, 

deslocando a pessoa e colocando-a num movimento para fora.

Não podemos esquecer aqui o princípio inaciano de que “cada

um deve persuadir-se que na vida espiritual tanto mais aproveitará quanto

mais sair do seu próprio amor, querer e interesse”(EE. 189). Em cada

exercitante brilha uma luz que aponta para a fonte e conduz para a meta que o faz peregrinar. Os Exercí-cios não ensinam chegadas,partidas. Esse é o desafio: “entrar” no caminho de Deus é viver em ter-

ra de andanças. E a pessoa, impelida e atraída pela mão divina, há de evoluir numa peregrinação sem fim.

Em nossas entranhas, fomos feitos com “fome de estrada”. Nascemos com essa inquietude: nossa vida é uma longa jornada. “Temos fome e sede de estrada, e ela está ardendo por dentro”.

Guimarães Rosa dizia que a coisa não estava nem na partida e nem na chegada, mas na travessia. A vi-

da é uma travessia. Os convites de Deus são absolutos e constantes. Se estamos apegados ao que temos, jamais seremos capazes de “fazer estrada com Deus” e participar da preciosa vida que Ele nos oferece.

        “Não tenho caminho novo. O que tenho de novo é o jeito de caminhar” (Thiago de Mello).

S. Inácio vê o exercitante em direção, em tensão-para, diante da inevitável pergunta: “que mais nos conduz para o fim que somos criados?”

A resposta a esta pergunta não se limita a um instante, senão que se prolonga sem fim num “somente de-sejando e elegendo”, num confronto contínuo com “moções” e com “espíritos”. O desafio de resitu-ar-se continuamente diante de seu fim transcendente representa para a pessoa um “pôr-se em marcha”.

Ela tem de aventurar-se, abrir-se “à Vontade divina na disposição de sua vida para a sua salvação” (EE. 1).

Se há algum significado na vida, ele se encontra no caminho, entre o aqui e algum outro lugar.

Pioneiras são as pessoas que vão a lugares em que ninguém esteve antes: “gente de fronteira”.

“Peregrino, peregrino, que não sabes o caminho: aonde vais? Sou peregrino de hoje, não me importa onde vou; amanhã? Nunca talvez. Admirável peregrino, todos seguem teu caminho” (Manuel Machado).

Jesus Cristo é o modelo de toda peregrinação; com sua peregrinação Ele abre possibilidades de outros caminhos. O Rei Eterno convoca a um seguimento que não está desligado de seu próprio caminho.

Jesus, o homem dos Caminhos, chama na vida e para a vida e põe as pessoas em movimento.

Faz-se do chamado um caminho, quando se partilha a vida com quem chamou. Responder ao chamado feito por Jesus significa tornar esse chamado um caminho de entrega e de serviço.

 

Textos bíblicos2Sam. 7,1-17     Ex. 33,7-23    Heb. 11,8-16     Mc. 10,46-52     Gen. 12,1-12

                             Na oração:  Rezar a bagagem de sua vida.

 

REZANDO A MISSÃO

 

“Eu vos precederei na Galiléia...” (Mc. 16,7)

 

1. Faça sua oração preparatória costumeira pedindo ao Senhor a graça de Ser e Fazer, já agora, o que foi

   aprendendo com Ele ao longo dos Exercícios...

 

2. Deixe vir à sua mente e ao seu coração um momento significativo de encontro com o Senhor durante

    este retiro, recompondo a cena o mais completamente possível: o lugar com todos os seus detalhes, o

    texto bíblico,  a palavra, consideração ou outro dado da experiência que lhe pareça importante.

    Reviver a experiência acolhendo os sentimentos, iluminações, o diálogo com o Senhor ou simples-

    mente sua presença...

   Memória agradecida, experiência iluminante, plenificante, estado interior intenso, solidez...

    Fique novamente com Ele deixando-se amar, deixando-se interpelar pela experiência vivida.

 

3. Retome, a seguir, no coração e na mente, os dados mais importantes do seu Projeto pessoal.

    Reviva um pouco o processo no qual se deu a Eleição, após ir percebendo os apelos.

    Retome também, em linhas gerais, o que foi acontecendo e confirmando a Eleição.

           Como se sente diante de sua Eleição? É o melhor que você pode dar?

           Você investiu o melhor de você? A Eleição lhe traz alegria, paz... ou tristeza, medo...?

    Retome esse apelo central. Deixe que o Senhor mesmo o ilumine novamente...que lhe mostre o quan-

    to há de amor d’Ele nesse processo... o quanto esse apelo central, na força do Espírito Santo, o levará a

    ser como Jesus  de Nazaré... na intimidade com o Pai... no discernir Sua Vontade a cada nova situação..

    no amar e servir como Ele fez.

 

4. A seguir, em atitude contemplativa, deixe vir a você as cenas do seu cotidiano próximo futuro.

    Use a mesma dinâmica anterior:  ver e sentir o lugar, ouvir as pessoas, o que fazem, o que dizem... e

    você sendo e fazendo como aprendeu do Senhor...

    Sinta como é bom realizar assim os seus apelos...

          “Meu jugo é suave e meu fardo é leve”...

          “Se compreenderdes o que vos fiz, sereis felizes sob condição de o praticardes...”

 

5. Deixe-se ficar assim, longamente, sendo e fazendo, como aprendeu com o Senhor...

    Retome aquelas situações que lhe causam medo, angústia ou que lhe parecem mais difíceis, exigentes...

    Importante: não se trata de vivenciar e sentir o que os outros lhe fazem mas sim o que e o como

                         você está sendo e fazendo para os outros... sempre retomando o apelo central do seu

                         Projeto de Vida e  percebendo como concretizá-lo nas situações do dia-a-dia...

                         O importante não é a ação importante, mas dar importância a toda ação.

                         Santificar-se na ação: nova, original, eficaz... ação com sentido, com direção... ação que

                                                              evita a dispersão (ativismo)... ação que leva à contemplação.

 

6. Termine a oração agradecendo ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo sua obra redentora no mundo.

    Deixe-se envolver por seu Amor... sua energia... sua presença.

    Peça a Maria que acompanhe e assista o seu caminhar e lhe ensine o segredo de sua fidelidade e seu

    silêncio.

 

Observações

1. Esta oração lhe dará uma fonte de energia transformadora.

    Ela é a concretização do “deixar-se amar... deixar-se conduzir pelo Espírito Santo”.

    Ao exercitá-la, aqui e no decorrer da vida, sentirá o quanto é libertadora e o quanto ela é garantia 

    de vida em abundância.

 

2. Nunca será demais repeti-la... ela se transformará em atitude de vida... dar-lhe-á uma nova percepção da realidade e treinará sua sensibilidade para discernir, na vida, o que vem do Senhor.

 

Texto bíblico:   2Tim. 1,6-14   (síntese de nossa experiência)