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A 2A. SEMANA DOS EXERCÍCIOS

 S. Inácio sai da 1a. Semana de seus próprios exercícios atraído pela pessoa de Jesus Cristo a quem sente como seu Salvador e Redentor. Não só deseja não tornar a ofendê-lo mais, mas quer seguí-lo de perto.

Seu mais ardente desejo é “conhecer Jesus” profundamente para poder amá-lo mais e seguí-lo melhor.

       Meditando nas cenas do Evangelho desde a Encarnação até a Paixão e Ressurreição de Jesus,

       Inácio penetra profundamente nas “intenções” de seu Mestre, isto é, em seu espírito e em seus princípios, diametralmente opostos aos deste mundo: pobreza e humildade contra riqueza e orgulho.

       Um resumo de tudo isto encontramo-lo no Sermão da Montanha (Mt 5,1-11) no qual Jesus mostrou

       ao mundo a maneira de ser feliz.

       Inácio abraça a pobreza e as humilhações para imitar a Jesus pobre e humilhado, e sente que deste

       modo está sob sua bandeira; deseja seguir Jesus em sua paixão e morte para participar com Ele em

       sua glória e ressurreição.

             Assim foi o fruto que S. Inácio tirou da 1a. Semana. E o seu fruto?

 

Esta 2a. Semana dos Exercícios Espirituais de S. Inácio o convida a seguir adiante se:

           - se desencadeou em você uma dinâmica de audácia e generosidade;

           - percebe que o que você busca já está às mãos;

           - você quer colocar sua vida em comunhão com Cristo.

 

Ao experimentar a salvação, a redenção, você se sente salvo e tem a necessidade de anunciar a salvação aos outros. O humilde se faz audaz porque se deixa levar como instrumento de Deus para construir seu Reino.  Esta 2a. Semana se centra no essencial da experiência cristã:

                                       Relação interpessoal, por “conhecimento interno”

                                     Com Cristo, Senhor, exclusivo e único de minha existência

                                       Que chama, pessoalmente, aqui e agora,

                                       Por amor, fora de lógica, de cálculo, de interesse...

 

É a etapa caracterizada por uma polarização mais expressiva na pessoa de Jesus Cristo, uma vez que seu sentido consiste em buscar a “conformidade” com o Senhor.

É a passagem da escravidão do pecado ao serviço amoroso de Cristo;

à consciência da própria desintegração segue a fase de reconstrução e de busca da pedra angular sobre o qual o Senhor convida a fundar a própria vida e a crescer.

É um caminho de recomposição da pessoa do exercitante em torno e em referência à pessoa de Jesus.

O objetivo desta Semana é oferecer uma escola de oração e um instrumento de decisão, através dos quais se possa reconstruir e aprofundar a própria vida.

A petição constante desta fase é o “conhecimento interno” do Senhor, para que mais se possa amá-Lo    e seguí-Lo. Somente pode haver conhecimento pessoal verdadeiro se aquele que aspira conhecer o outro situa-se desarmado diante do mesmo.

A palavra de ordem continua sendo o sentir: perceber algo através de uma experiência interna.

 

A contemplação torna-se o método habitual: através da mesma a atenção se desloca da consideração das

                            coisas à participação na Vida de Cristo, num conhecimento cada vez mais íntimo, que

                            se exprime no ato de falar de coração a coração.

                            Caso isso não ocorresse, o caminho dos Exercícios reduzir-se-ia apenas à transmissão de

                            idéias ou às recomendações moralizantes.

 

O estar e repousar nos Mistério é favorecido pelas  repetições.

O cume do aprofundamento da familiaridade com o Mistério revelado é atingido com o colóquio, no final de cada contemplação, e com a aplicação dos sentidos, ao fim do dia.

 

Sugestões para a oração

                                               Você está iniciando agora outra “forma inaciana de oração” que se chama

                                                contemplação (cf. anexo).

Ao perguntar-se “aonde vou e para quê” e começar a pacificar-se, você deve mirar a cena”.

Trata-se de fazer um exercício de imaginação, no qual a pessoa entra na cena, olha as pessoas, escuta o que falam, observa o que fazem, pergunta, opina... deixando-se “afetar”.

O quê busco

                        Em todas estas contemplações você deve pedir:

        - Conhecimento interno de Jesus – conhecê-lo por “dentro”:

1.       Seu estilo, coração, amabilidade, grandeza de ânimo...

2.      Seus interesses reais, como Ele prescinde de muitas coisas, pois vive em função da Glória do Pai;

3.      Como seu único horizonte é o Reino: sente-se identificado com ele.

        - Amá-lo intensamente: que isto seja o mais importante de sua vida.

        - Seguí-lo muito de perto, seguir suas pisadas... na primeira linha...

 

                         Para a oração durante o dia, recorde o seguinte:

 

Pela manhã (brevemente)

       - escutar o Senhor que necessita de mim hoje para fazer crescer o Reino;

       - imaginar que o Reino é seguir os passos de Jesus que está aqui, compartilhar da mesma missão...

       - ouvir o chamado, sentir-me chamado por Deus em Jesus Cristo;

       - pedir para “não ser surdo”... mas diligente em fazer o que me pede.

 

Ao longo do dia (iluminar com alguns “flashes”)

       - repetir: uma frase de disponibilidade que lhe diga algo, tirada do texto dos Exercícios ou da Bíblia.

 

À noite (antes de dormir)

       - se você entende a jornada como um acompanhar a Jesus em seu trabalho de construir o Reino, é

         lógico que à noite, quando já terminou a tarefa encomendada, você queira comentar com Jesus como

         foi o dia, se se conseguiu os objetivos da missão encomendada...

         Por isso, trata-se de fazer um diálogo cordial, de amigos que tem uma problemática comum, os

         mesmos interesses a realizar...

  

“...ASSENTOU-SE UM POUCO COM O ROSTO PARA O RIO (S. Inácio, Aut.30)

“Uma vez ia, por devoção, a uma igreja que estava mais de uma milha de Manresa.  Creio que se chama São Paulo, e o caminho vai junto do rio. Indo assim em suas devoções, assentou-se um pouco com o rosto para o rio, o qual ficava bem em baixo. Estando ali assentado, começaram a abrir-se-lhe os olhos do entendimento. Não tinha visão alguma, mas entendia e penetrava muitas verdades, tanto em assunto de espírito, como de fé e letras. Isto, com uma ilustração tão grande que lhe pareciam coisas novas. Não se podem declarar os pormenores que então  compreendeu, senão dizer que recebeu uma intensa claridade no entendimento. (Nisto ficou com o entendimento de tal modo ilustrado, que lhe parecia ser outro homem e ter outro entendimento, diferente do que fora antes)” (Aut. 30).

 

Este texto da Autobiografia de S. Inácio nos remete à experiência fundante de sua vida.

No espaço entre a estrada e o rio revela-se o “caminho do Amor de Deus” rumo ao ser humano. Esta experiência significa abertura, dilatação do coração na fé, expansão da consciência ao ver que tudo parte  de Deus (Fonte do rio da vida) e tudo volta para Deus (rio que mergulha no Mar).

No fundo do seu coração, S. Inácio acolhe, escuta e reconhece o murmúrio da voz de Deus, que, como um rio calmo e ao mesmo tempo vivaz, o acompanha da nascente ao mar aberto.

Na música da torrente que se precipita, ressoa a alegre certeza: “Eu me tornarei o mar!”.

O rio pode e acaba se tornando o mar. A água menor que se movimenta é atraída em direção à água maior do Oceano. Precipitando-se sempre para a frente, o rio se move através de mil obstáculos, e seu movimento encontra a sua finalidade e o seu repouso quando alcança o mar.

A experiência de S. Inácio à margem do rio Cardoner o conduz à outra fonte, aquela que brota do coração, e que estava ressequida, impedindo-o de reconhecer o murmúrio da água viva.

    “Uma água viva murmura dentro de mim e me diz: Venha para o Pai” (S. Inácio de Antioquia)

 

Algo disto é o que todos e cada um vivemos ao percorrer os caminhos deste mundo.

Uma e outra vez em nossas vidas, depois de haver buscado em vão por  rincões e encruzilhadas o sentido de nossas existências, nos “assentamos um pouco com o rosto voltado para o rio da história”.

Sabemos que todo ser humano sente em seu interior a força do Espírito que rompe as barreiras de seu egoísmo, que o expande para além de si mesmo, que o arranca de seus “lugares estreitos”...

Nesse sentido, os “Exercícios” são uma experiência de rompimento  de fronteiras profundas, de deslo-

camento para novos horizontes, de alargamento do coração... um movimento de expansão de todo o ser. “Experiência” que implica emoção e descoberta, com sabor do risco,  da criatividade, da ousadia...

Dos Exercícios surge uma pessoa internamente reconstruída, com vontade de sair daquilo que a limita, empobrece, degrada...; é a experiência de alguém que é impelido a lançar-se, a assumir novos riscos, a deslocar-se para as novas encruzilhadas de si mesmo e da história.

Para “entrar em Exercícios”, é preciso tornar-se velejador de mar aberto, livre e desprendido,  deixando-se conduzir pela correnteza do rio... e “passar para a outra margem”.

No começo dos Exercícios, a pessoa é convidada a sair de sua rotina,  a abrir-se para o novo, para o diferente, ultrapassando o “próprio amor, querer e interesse”.

“Entrar em Exercícios” é iniciar uma travessia, sem saber exatamente as surpresas que vai encon-trar, pois  “o vento sopra onde quer”, como o Espírito. O exercitante é “como quem está numa bar-ca, no meio do rio e não rema constantemente, mas, às vezes, se deixa levar pela correnteza”.

“Passar para a outra margem” exige mudança de atitude, pôr-se a caminho, êxodo, sair-de-si...

Sair da margem conhecida, velha, rotineira... para encontrar a nova margem da relação, dos sonhos...;

lugar provocador de mudanças, de onde brotam as grandes experiências, as intuições, os ideais vitais...

 

Sentados às margens de um riacho silencioso ou ruidoso, podemos atingir experiências imprevistas e surpreendentes, ou reconhecer, através do murmúrio das águas, “vozes novas” que nos incitam a peregri-nar para as regiões desconhecidas do nosso próprio interior. Só assim,

poderemos vislumbrar o outro lado e tocar as raízes  mais profundas

que dão sentido e consistência ao nosso viver.

 Textos bíblicosEz. 47,1-12   Is. 43,16-21   Mc. 4,35-41

 Na oração: Recordar (lembrar com o coração) dimensões da vida que precisam ser ampliadas a partir da experiência dos Exercícios.

Recordar medos, entraves, obstáculos... que limitam sua vida interior.

Há algo amarrando seu barco? Qual é o seu estado de ânimo e disposição?

 

EXERCÍCIO DO REINO, ou a coragem de arriscar

 “Quem quiser vir comigo...” (EE. 95)

Para S. Inácio, seguir Jesus Cristo é aderir a Ele incondicionalmente, é “entrar” no seu caminho, recriá-lo a cada momento e percorrê-lo até o fim. Seguir é deixar-se configurar, isto é, movimento pelo qual a pessoa vai sendo modelada à imagem de Cristo.

O seguimento de Jesus Cristo pressupõe uma pessoa capaz de sair de si mesma, de descentrar, com coragem de arriscar. Sem se abrir ao “magis” que habita o coração humano não haverá desejos de Cristo.

Diante do Cristo que chama, a pessoa tem de sentir provocada, chamada a superar-se, desafiada a arriscar e a ser “mais”.

Nesse sentido, o “Exercício do Reino”(EE. 91-98) tem como finalidade despertar no interior da pessoa a capacidade de entusiasmo pela pessoa de Jesus Cristo e sua causa, o Reino. A pessoa deve mobilizar todas as suas energias, criatividade, riquezas interiores, desejos, aspirações... para o Reino.

 Para S. Inácio, a vida de uma pessoa vale pela causa à qual se entrega. Por isso o “Exercício do Reino” provoca na pessoa uma garra, uma vibração e um entusiasmo pela proposta de Jesus.

Este exercício é uma prova de audácia e coragem, uma provocação à generosidade da pessoa.

É preciso sonhar alto, ter ideais, ser uma pessoa corajosa e marcada pela esperança para poder “escutar” o apelo de Cristo; é preciso ser apaixonado, deixar-se empolgar, aceitar correr riscos na vida para saber o que significa o “comigo” de Cristo; é indispensável uma enorme generosidade para se dedicar incondicionalmente a uma grande causa; é preciso forte dose de ousadia e coragem para transcender-se, ir além de si mesmo...

Chegamos à pós-modernidade com enorme carga de medo; medo cruel que alcança todo mundo, medo que afeta os corajosos e agride os ousados.

O medo corrói as fibras humanas, asfixia talentos, esvazia a vida e mata a criatividade.

O medo encolhe o ser humano, inibe a decisão e bloqueia os movimentos em direção ao “mais”.

É urgente substituir a cultura do medo pela cultura da audácia e da coragem.

O “exercício do Reino” visa despertar as fontes da coragem e varrer todo sentimento de fraqueza e impotência perante o medo.

 A coragem é modo de ser, é estilo de vida; quem é corajoso, é personalidade inquebrável.

A coragem é vigor existencial que perpassa todas as fibras do ser humano.

A coragem é aliada do amor, da vida, da criatividade...

A coragem afugenta o medo, desbloqueia energias, impulsiona decisões, levanta projetos, acorda sonhos...

A coragem é lúcida, não salta no escuro; é reflexiva, é escolha ponderada, discernida... não ímpeto explosivo.

A coragem é ação discreta, é persistente, é fiel.

A coragem é ativante; leva a agir com a alma e com o coração, com obstinação e com risco.

A coragem tem espírito de vanguarda; não se amoita na retaguarda.

A coragem tem fundamento no caráter e nos valores basilares.

A coragem é também “construção”, é conquista laboriosa e pertinaz.

                Ser corajoso é ser audacioso, capaz de acolher, de atrair, de ser solidário...

                Ser corajoso é comprometer-se existencialmente. É arriscar-se.  (cf. Juvenal Arduini)

 

Uma das características do ser humano é a capacidade de assumir compromissos. Comprometer-se é empenhar-se radicalmente, é arriscar-se num projeto ousado, é envolver-se numa causa inovadora. No compromisso, joga-se a própria vida. Em Cristo, a pessoa encontra a realização da empresa mais nobre e a garantia de poder entregar-se a ela sem enganar-se.

 

Textos bíblicos:  Mt. 10,1-16  Mc. 3,7-19  

                             Mc. 10,17-21

Na oração:  A oração deve atingir o mundo dos desejos, aspirações, sonhos, valores, esperanças...

Uma oração que não possibilita a expressão desse mundo interior é superficial.

                       - Quais são seus sonhos?

                   - Que esperanças você carrega no coração?

                    - A quê você se anima a gastar a sua vida?

 

EXERCÍCIO DO REINO

A experiência da MISERICÓRDIA de Deus provoca o desejo de dar uma resposta generosa e radical à pergunta: que farei por Cristo?

Conversão - Missão: duas etapas consecutivas e inseparáveis; Cristo nos liberta para o seguimento.

 

Exercício do REINO: o dia no qual S. Inácio propõe este “exercício” é um dia de transição: passagem

                                        entre a 1ª e 2ª semana dos Exercícios. A vivência da 1ª Semana não significa que

                                        a passagem para a 2ª Semana seja automática.

Antes de começar a “contemplar a vida do Rei Eterno” (EE. 91), é preciso ser consciente de que existem condições humanas prévias para poder “escutar” o chamamento ou “seguir” a Jesus.

O chamado de Cristo é dirigido ao ser humano.

Não há experiência espiritual que se sustente sem uma base humana consistente.

Sem se abrir ao “magis” que habita o coração humano não haverá “desejos” de Cristo.

Nenhuma dimensão da vida pode ficar de fora. Diante de Cristo a pessoa tem que se sentir pro-vocada, chamada a superar-se, desafiada a ser “mais”. Por isso a estrutura humana da pessoa constitui a base para poder “ver” e “escutar” a Cristo que chama. Em dois sentidos:

a)  no sentido de uma solidez (humana, psicológica, etc.);

b)  no sentido das condições ou pré-disposições sem as quais o chamamento de Cristo ressoaria no vazio.

     É preciso sonhar alto, ter ideais, ser uma pessoa de desejos e de esperança para poder “escutar” o apelo de  Cristo; é preciso ser apaixonado, deixar-se empolgar, aceitar correr riscos na vida para saber o que significa o

     “comigo” de Cristo;  é indispensável uma enorme generosidade, capaz de dedicar-se incondicionalmente a uma grande causa para  descobrir que, entregar-se a Cristo sem limites, não é algo insensato.

Se o “chamamento do rei temporal ajuda a contemplar a vida do Rei Eterno” (EE.91) é porque na experiência humana fundamental ressoa, desde o início, a marca ou o chamado de todo ser humano a transcender-se, a ir além de si mesmo. Essa é a razão pela qual o “exercício do Reino” está construído sobre a estrutura humana dos desejos profundos.

O seguimento de Cristo pressupõe uma pessoa capaz de sair de si mesma, de deixar-se des-centrar...

 O Evangelho pode ser lido a partir de múltiplos pontos de vista. S. Inácio destaca um ponto: a perspectiva do chamamento que Jesus dirige às pessoas, junto com a resposta que tal chamamento exige: o seguimentoA pessoa e o chamado de Jesus centram todo o entusiasmo do exercitante.

Por isso mesmo, S. Inácio faz uma seleção de passagens evangélicas, propondo aquelas que mais ressaltam esta  perspectiva do chamamento-seguimento.

Nos EE., o seguimento de Cristo pobre e humilde é uma dinâmica de desejos, de afetar-se, de querer...

           Para S. Inácio, seguir é aderir incondicionalmente a Jesus Cristo; é “entrar” no seu caminho, recriá-lo em cada momento e percorrê-lo até o fim.

           Seguir é deixar-se con-figurar, isto é, movimento pelo qual a pessoa vai sendo modelada à imagem de  Cristo; é caminho de “re-composição” pessoal em tôrno e em referência à vida e pessoa de Jesus.

           A vida de Jesus Cristo se torna norma, uma maneira de proceder, um estilo próprio de ser: “não sou eu mais que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gal 2,20).

           O  seguimento é tarefa aberta e sempre inacabada. Ele pode e deve encontrar encarnações concretas.

           Neste sentido, estimula e dinamiza o crescimento interior.

 A centralidade de Cristo não se capta fora do seguimento. Não é uma doutrina que se ensina nem uma visão histórica que se assume, mas uma realidade que se experimenta.

Jesus teve de criar seu caminho. Não o recebeu já feito. Sua vocação e missão era confrontada com a realidade. Desse confronto foi-lhe resultando uma contínua interpretação do Projeto do Pai para si.

Somos convidados a refazer em nossa vida esse mesmo processo de Vida, confrontando permanentemen-

te a realidade com suas necessidades e desafios e as percepções que vamos adquirindo do seguimento de Jesus. Imersos nos “mistérios” de Jesus, vamos percebendo, no confronto com a nossa vida concreta, as exigências do seguimento de Jesus.

Como pano de fundo está a experiência de S. Inácio.

Ele retrata sua experiência mística nos Exercícios Espirituais como seguimento de Jesus no sentido de  conhecê-Lo cada vez mais  para mais amá-Lo e assim seguí-Lo, na “Eleição de vida” ou na sua “Reforma”. Só o objeto da Eleição pode chegar a concretizar o seguimento de Cristo. “Objeto de Eleição” enquanto é reconhecido como modo, lugar, forma, fator e circunstâncias nas quais se encarna a dinâmica do seguimento.

O seguimento é um acontecimento pessoal. Não é uma simples adaptação ao modelo (imitação), mas u-

ma autêntica “criação”, inspirada sim, por Aquele a quem se segue, mas de caráter autônomo e sob a ple-

na responsabilidade do seguidor. Visto a esta luz, o seguimento é sempre fecundo.

 Finalidade do exercício:

* despertar no interior da pessoa a capacidade de entusiasmo pela pessoa de Jesus Cristo e sua causa;

   sem esse entusiasmo por Cristo e sem este desejo de aprofundar no seu mistério, não tem sentido as

   contemplações da 2a. Semana, pois toda ela tende a mostrar-nos até onde nos pode levar o desejo de

  “estar  com Ele”;

* ajudar o exercitante a mobilizar todas as suas energias, criatividade, riquezas interiores, desejos, aspirações... para o Reino;

* provocar uma garra, vibração... por uma empresa nobre. Para S. Inácio, a vida de uma pessoa vale pela

   causa à qual se entrega Em Cristo, S.Inácio encontra a realização da empresa  mais nobre e a garantia

   de poder entregar-se a ela sem equivocar-se. Ninguém se engana seguindo Jesus. Tudo o que podia ser o

   ideal de sua vida, o que podia dar-lhe sentido, Inácio o centra agora na pessoa de Cristo.

* é preciso resgatar a experiência humana que está em jogo como condição necessária para a experiên-

   cia espiritual que o exercitante está chamado a fazer.

* este exercício é uma prova de audácia, uma provocação à minha generosidade: a quê me animo gastar

   minha vida? Verificar se o desejo de “fazer algo por Cristo” tem raízes, tem consistência...

* se o chamamento de Cristo não faz estremecer a pessoa nos fundamentos da sua vida é muito provável

   que esse chamamento seja ilusório.

 Mudança de ótica: - deixar de “olhar” para si, para centrar a atenção em Cristo; o exercício está ordenado a uma busca, compromete a caminhar;

                                - doravante, o progresso da pessoa se fará em confronto com a vida de Cristo. Cada

                                  “mistério” contemplado constitui uma interpelação que espera e exige  resposta;

                                - trata-se de “olhar, escutar, observar”, de deixar-se iluminar por essa maneira de

                                  ser, de descobrir a atualidade e a significação desse “mistério” para a própria vida;

                                - o próprio Cristo se apresenta todo o tempo como Alguém que “passa”, é peregrino

                                  é Aquele que convida a colocar-se em marcha com Ele: companheiro de estrada;

                                - aqui aparecem duas imagens queridas por S.Inácio na compreensão da missão de

                                  Cristo: peregrinação (Cristo passa por vilas e cidades)   trabalho (todo tipo de obras).

E isso no mundo: ir lá onde as pessoas vivem e trabalham”. Cristo nos chama a situar-nos no mais íntimo da experiência humana, quando o mundo recebe a promessa do Reino.

Nessa meditação, portanto, aparecem duas características fundamentais e centrais na espiritualidade inaciana: profundo amor pessoal a Jesus Cristo (seguimento) busca permanente do “magis”.

 Encontrar-se com Jesus é encontrar-se com o Reino de Deus. Jesus se põe totalmente a serviço da “causa” de Deus; Ele é inseparável de sua obra: o Reino que anuncia e que Ele faz presente.

O Reino condensa e leva à plenitude todas as aspirações humanas.

O tema do rei e do Reino”, nos Evangelhos e nos Exercícios encerra, evidentemente uma utopia. Não perder de vista esta utopia é algo essencial em Inácio. Cada qual deverá dar nome à utopia que lhe move. Inácio pôs um nome, que obedecia a seu universo simbólico. Com ele viveu e marcou todos os passos de sua vida. Essa é a força da utopia que é capaz de abarcar o ideal maior, mas que chega a encarnar-se numa decisão muito precisa.

 A resposta do exercitante ao chamamento não é um sim dado a uma utopia simplesmente, mas à causa que em Jesus se realizou e, por Ele, pode realizar-se em quem decide seguí-lo.

A palavra Reino é um conceito dinâmico, é uma referência a algo que está acontecendo e que irrompe com força. As imagens que Jesus utiliza são imagens de crescimento: semente, fermento... O que acontece não é uma intervenção de Deus a mais; é a última, a definitiva. Jesus é consciente de que com Ele começou uma história nova. A esperança se fez realidade. A consumação do mundo está começando.

Jesus não define o que é o Reino. Ele o encarna em suas palavras e em sua vida; é algo que irrompe.

Se queremos saber o que é o Reino, devemos colocar-nos a caminho com Jesus: Ele é o Reino. Ele o vive primeiro, vai adiante e convida a “vir comigo”.

CONTEMPLAÇÃO INACIANA

“... como se eu estivesse presente, com todo acatamento e reverência possível” (EE)

 A CONTEMPLAÇÃO nos Exercícios é uma forma de oração através da qual deixamos que o Mistério da Vida de Cristo nos penetre e nos vá permeando como por osmose (por “conaturalidade afetiva”) e ao mesmo tempo vamos “conhecendo intimamente” esse mistério insondável.

             “Contemplar não é especular sobre um texto evangélico, nem tirar conclusões, nem sequer examinar  minha vida a partir da atuação de Jesus. Trata-se de fazer-me presente à cena evangélica, esquecer-me de mim e estabelecer uma relação de presença, de intimidade... que faça possível com que a Pessoa de Jesus vá se “adentrando”  em mim.

Na contemplação o ponto de partida não é uma recordação, senão a tomada de consciência de meu estar presente diante de Alguém. Estabelece-se uma relação interpessoal que suscita a atração, a sedução...

A contemplação  é uma ajuda concreta para centrar o AFETO e liberar o DESEJO numa só direção;

é um apoio para que a pessoa inteira se deixe “afectar” pela cena e permita que Deus lhe interpele desde o “acontecimento salvífico”. Então Deus tem a iniciativa e a pessoa cala.

Contemplam-se mistérios de Cristo e isso contagia e configura interiormente a pessoa.

             A REVELAÇÃO são fatos e ditos: é necessário olhar, escutar e observar as pessoas da cena. Não se trata de algo estático, mas em movimento, dramático, presente... Não se trata de reproduzir arqueologicamente uma cena; é necessário carregá-la de sentido: é encontro com Alguém.

 

Aquele que contempla também não é uma pessoa abstrata. Sou eu, carregado com minha vida, minha história, meu temperamento, meus sonhos, minhas capacidades...

A contemplação põe juntas a pessoa (e sua história) e o mistério, para que haja interação e assimilação.

A contemplação lentamente vai transformando a pessoa sem que ela o percebe.

                                    “Nós nos tornamos aquilo que contemplamos”.

A contemplação não deve ser força, mas “deixar-se levar, interpelar...”

A contemplação ajuda a evangelizar os nossos sentidos, reações, sentimento, impulsos...

                               “Trata-se de cristificar o nosso olhar, escutar, falar, sentir, agir...”

A contemplação abre-nos o caminho para penetrarmos profundamente na vida, obra, missão, opções,

                             atitudes, valores... de Cristo.

A contemplação de Cristo não é uma simples “maneira de orar”; significa consentir ser introduzido no

                            “mistério” que é Jesus Cristo; significa deixar-se “impregnar” pelo modo de ser de

                             Cristo: suas palavras, gestos, atitudes... é confrontar-se com Alguém que chama.

Para conformar-se à imagem do Filho é necessário que se entre na contemplação não como turista, mas como amante; não com o coração dividido, mas como pessoa que fez uma escolha de vida pelo Senhor.

        Em si mesma, a CONTEMPLAÇÃO é viva, criadora, dinâmica e continuamente renova nossas opções e  atitudes profundas. Não se trata de uma atividade nossa sobre a cena, mas da atividade da cena sobre nós; vai nos modelando. Através da cena contemplada o PAI nos conforma ao FILHO, esculpe  em nós com o dedo do ESPÍRITO SANTO

        aquela imagem única de “filhos no  Filho” que somos chamados a ser.

Progressivamente, a contemplação vai criando um “sexto sentido”: o sen-

sus Christi”, ou seja, a assimilação progressiva do modo de ser de Cristo.

A contemplação inaciana termina na união com Deus na ação. Contemplase um Cristo dinâmico, que realiza o Projeto do Pai e nos convida a trabalhar

com Ele. A contemplação inaciana desemboca na “prática”;  ela não é neutra, mas comprometedora. Como o verdadeiro contemplativo deve “participar 

da cena evangélica”, assim também aquele que participa da realidade e nela

se encontra inserido deve experimentar um verdadeiro “encontro” com Deus.

Quem faz a experiência da contemplação na oração deverá ser um contemplativo na ação, isto é, no engajamento e no serviço.

Tal como fazemos na oração, devemos fazer na ação; dar os passos

próprios de toda contemplação, isto é:

   - OLHAR as pessoas... e nelas descobrir a Pessoa do Senhor;

   - ESCUTAR o que dizem...: entre todas as vozes que escutamos,

     perceber e discernir qual é a do Senhor e o que Ele tem e me dizer.

   - OBSERVAR o que fazem...: participar, me fazer presente... optando, colaborando de modo evangélico numa tarefa... querendo construir a história dos homens com os valores do Evangelho.

 

CONTEMPLAÇÃO DA ENCARNAÇÃO  (EE. no. 101-109)

 

O relacionamento das Pessoas Divinas entre si é tão vasto que o mundo inteiro nele cabe

Contemplar: estar com Deus no Templo, no lugar de sua presença”. O ponto de partida de toda contemplação é o olhar contemplativo amoroso das Três Pessoas Divinas. A partir deste divino olhar contemplativo é que a pessoa é chamada a olhar, escutar, observar...

Contemplar a Trindade é contemplar sua obra criadora, redentora e santificadora e, concretamente, ser admitido a colaborar com essa obra.

          É muito importante para Deus que sejamos mais gente, mais humanos; daí a Encarnação.

                 “A glória do homem é Deus; porém o receptáculo de toda a ação de Deus, da sua sabedoria e do seu poder é o homem” (S. Irineu).

 

Para S. Inácio, a Encarnação começa com um “olhar”, com um modo de olhar que compromete o interior da realidade trinitária. O exercício da “contemplação da Encarnação” consistirá em acompanhar o olhar amoroso e compassivo de Deus sobre o mundo, em contemplar Deus que contempla o mundo, em ver a humanidade com os olhos de Deus, como Deus a vê.

     Olhar o mundo em que vivemos com os olhos de ternura, de misericórdia e de compaixão de Deus.

Uma vez que Deus se fez carne e entrou nas coordenadas do nosso espaço e do nosso tempo, só podemos ouvir sua voz na nossa história.

A contemplação da “história da Encarnação”, longe de ser uma evasão da história, é o meio de encontrar a Vontade de Deus na história da própria vida.

Ali, na marginalidade, a Palavra se faz história, contingência, solidariedade e fraqueza; mas podemos também acrescentar que por isso mesmo a história, a nossa história, se faz Palavra (Diaz Mateos).

   Com espantosa audácia, S. Inácio nos apresenta um Deus contemplativo,  que olha e vê;

    um Deus comprometido com a vida e a salvação do gênero humano; um Deus compassivo que se deixa atingir e comover pela “cegueira”, a morte e a  condenação de “todos os homens”. Mais admirável que o Deus da Criação,  que disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gen. l,26), é o Deus da Redenção que, no seu diálogo intratrinitário, diz: “Façamos a redenção do gênero humano” (EE. 107).

 A encarnação é a revelação de um Deus surpreendente: da Virgem Maria “... nascera o primeiro louco de Deus e, que surpresa!, era o próprio Deus” (M. Evdokimov)

        Deus responde ao espetáculo de devastação e de perdição da humanidade com a “determinação” da

        Encarnação, com um novo gênesis, uma re-criação da humanidade.

        Em virtude da Criação e da  Encarnação, nada é profano para quem sabe “olhar”.        

        Tudo está grávido da presença amorosa de Deus.

                 “E o Vento se fez Evento, e o Afeto se fez Feto... a Palavra se fez Carne” (Rubem Alves)

 Encarnação do Filho de Deus: lugar por excelência para aprendermos que Deus e o Homem não são adversários, mas diferenças que se amam.

      “A abreviação, a epítome de Deus é o homem... Quando Deus quer ser não-deus, surge o homem.  E se o próprio Deus é homem

       e o permanece eternamente, é coibido ao homem pensar pouco de si, pois ele pensaria, então, pouco de Deus,... então o homem é eternamente o proferido Mistério de Deus,  que participa eternamente do Mistério de seu fundamento” (K. Rahner).

 Preâmbulos:

 

1. Traer la historia”:  História como mensagem, enquanto Palavra de Deus dirigida a mim nesta situação concreta. História como verdadeiro lugar teológico da experiência, epifania, onde

     Deus se deixa encontrar e se faz entender pelo ser humano. Ao “trazer essa história” para o momento presente no exercício da contemplação, somos convidados a participar desse movimento, e a deixar-nos mover

     na mesma direção do desígnio salvífico de Deus.

        História”: relatos de um acontecer que permite a identificação afetiva simples e espontânea;

                          : contemplação da Trindade  x  contemplação do Mundo – parece duas realidades distantes, separadas. O sim  de Maria é o elo de ligação.

                          : Encarnação – contraste entre a grandiosidade da visão da Trindade e a simplicidade da

                                                     aceitação de Maria

2. Composição vendo o lugar:

    Há um ponto geográfico em nossa terra onde se unem o Mistério de Deus e a história dos homens. 

    A espiritualidade inaciana é descendente, luminosa. A luz vem de Deus e atinge tudo; tudo tem sentido.

    O “lugar” humano passa de um espaço indefinido, longínquo (toda a terra) a um “lugar” santo, definido, que se pode reconhecer e detalhar de forma imediata (a casa, os aposentos, as palavras de Maria...).

    Deus escolhe a simplicidade, a pequenez...

    Deus é MAIOR porque se faz o MENOR: integra tudo, nada escapa da ação salvadora de Deus.

    A Encarnação, embora seja um mistério de dimensões universais, só pode ser vista e  contemplada no  particular, à medida que vai se concretizando na história.

 

3.  Petição: CONHECIMENTO-AMOR-SEGUIMENTO

                      Conhecimento interno: entendendo como interno a Jesus (não ficar no aspecto externo de sua vida; graça de conhecer o mais íntimo de sua pessoa, de sua vida e de sua missão, de seus pensamentos e sentimentos...) e interno a nós (conhecimento que chega ao mais profundo de nosso ser e nos transforma).

      Buscando o “conhecimento do Senhor”,  o ser humano caminha também para o “conhecimento

      de si próprio”. O conhecimento do Senhor e o conhecimento de si próprio, ambos da ordem da

      graça,porque revelam ao homem, ao mesmo tempo, como ele “conhece” o Senhor e como é por Ele

     “conhecido”.  Conhecimento de coração, de afeto, de entrega...

      Relação existencial, um encontro com a Pessoa de Jesus.

      Não se trata de um conhecimento intelectual, especulativo, psicológico... mas de um conhecimento vital:

      conhecimento que penetra em Jesus Cristo e penetra em nós; permite conhecer a raiz profunda de sua Vida interior; sintonizar-se dom seus critérios, atitudes e atos ( “hábitos do coração”).

      Conhecimento dinâmico e transformante que nos leva à identificação com Cristo.

      Conhecimento que penetra até o coração e se traduz na vida real em gestos próprios de Cristo.

      Conhecimento-Amor-Seguimento: como um círculo; somente aquele que segue, pode chegar a  conhecê-lo e amá-lo (Apóstolos).

 

Pontos: OLHAR-ESCUTAR-OBSERVAR

* Enfatizando os contrastes que formam a diversidade de composição do gênero humano (brancos, ne-

   gros...) S. Inácio abre o olhar do exercitante para a universalidade contrastada da história; toda ela vai

   ser enriquecida pela Encarnação que começa a partir da iniciativa trinitária e da resposta fiel de Maria.

* A Encarnação do Verbo se dá neste mundo de miséria, de dor, de contrastes. A Encarnação não é um

   acontecimento isolado, mas atinge a todos. Muda-se a situação de todos e da História (Nova Criação);

   abre-se para todos os homens um novo “Kairós”,  uma nova possibilidade de Salvação.

   “Deus fez-se homem”: entra na história dolorosa dos homens para intervir nela, salvando-a. Na En-

   carnação, Deus se revela como Deus próximo, de comunhão e de solidariedade com o ser humano.

* Há uma inversão radical de toda a realidade: o divino faz-se humano e o humano faz-se divino.

   O Filho “entra” num mundo de conflito, num mundo que lhe é hostil. A História na qual Cristo “en-

   tra”   adquire também um valor definitivo: passa a ser História da Salvação.

   Pela Encarnação de Cristo mudou-se a situação de perdição e de morte na qual todos os homens esta-

   vam presos. Ele traz Vida nova: Eu vim para que todos tenham VIDA (Jo l0,l0)

* Assim como a Encarnação do Verbo foi determinada a partir de um “olhar” que saiu do coração de

   Deus, que pousou sobre o mundo e que voltou ao seu coração,  estremecendo-O de compaixão e mo-

   vendo-O à ação, assim toda decisão-ação apostólica, para que dê frutos de salvação, tem de ter sua

   origem num olhar misericordioso, comovido; um olhar que move a querer participar do sofrimento dos

   que sofrem...

 Reflectir para sacar provecho...”:  Reflectir: reflejar-se la luz en un cuerpo opaco (Dicion. Nobles)

 “Reflectir” não é reflexionar, senão projetar sobre minha própria vida o Mistério contemplado, para deixar-me iluminar e mover pelo Espírito; pôr-se diante de Deus como um espelho para deixar-se orientar e ordenar por Ele.

Na contemplação inaciana há também um tempo para a reflexão, mas a partir da atividade contemplativa. A Luz do mistério contemplado deve “refletir-se”, ter reflexos, na pessoa que contempla, na sua inteligencia, na sua vontade e no seu comportamento (cf. 2Cor 3,18)

 

Textos bíblicos1) Rom 1,18-32          2) Is 59               3) EE. 101-109          

   4) Jo 1,1-14       5) Lc 1,26-38             6) Lc 1,39-56      7) Fil. 2,5-11

 

APLICAÇÃO DOS SENTIDOS (EE. 121-126)

Na contemplação evangélica nos aproximamos da cena e do mistério nela relatado por meio dos sentidos da visão e da audição (olhar as pessoas, escutar o que falam”).

A aplicação dos outros sentidos terá lugar conforme voltemos sucessivamente à cena, por meio de repetições que nos ajudem a passar do global ao particular, do exterior ao interior, da inteligência ao coração.

        Com efeito, por meio dos cinco sentidos, passamos do mais distante ao mais próximo:  vemos o que ainda não conseguimos escutar (uma pessoa ao longe sem ruído de passos); escutamos o que ainda não conseguimos sentir com o olfato; sentimos o odor antes de poder tocar (uma flor, uma comida...), e o saborear nos faz estar mais próximo ainda que o tocar.

         Vamos passando do mais exterior ao mais íntimo.

 

O mesmo dizemos dos sentidos interiores ao contemplar as realidades espirituais.

Esta compreensão interior e intuitiva do mistério contemplado, feita na fé e graça do Espírito, se apoia no trabalho (da imaginação, dos sentidos) e na passividade (recebo o que está oculto/revelado na cena).

O mistério toma corpo.

 Modo de proceder

* Preparar meu tempo de oração sobre um texto já contemplado. O “olhar” sobre as pessoas, a “escu-

   ta” de suas palavras ou o “sentir” internamente me introduziram já no interior da cena.

* Entrar na oração de maneira habitual: imaginar o lugar pelo qual desejo entrar e seguir mais uma vez o  caminho que vai do mais exterior ao mais interior.

* Entro no que vejo, e o que vejo entra em mim.

* Deixo que cheguem aos meus ouvidos interiores as palavras, o silêncio. Procuro, com paz, aproximar-

   me cada vez mais à interioridade do mistério através dos aspectos concretos da cena.

* Sinto, toco, saboreio como se estivesse presente: os objetos, a atmosfera, a infinita suavidade e doçura” da  divindade, segundo a pessoa que contemplo.

* Demoro-me neste conhecimento interior, às vezes sensível, mas respeitoso, do Senhor. Tocar com o  

   tato, assim como abraçar e beijar os lugares onde tais pessoas pisam e se detém, procurando sempre tirar proveito disso”(EE. 125).

* Posso permanecer, gratuitamente, nesta relação profunda e simples com o mistério de Deus que se en-

   trega a mim nesta cena. Saboreando o que me é concedido, disponível e aberto, acolhendo o DOM.

* Recolho por meio dos sentidos o que aflora desta cena.

* Termino concretamente: uma expressão pessoal ao Senhor, uma ação de graças ou uma oração da Igreja

          Como diz S.João da Cruz falando da contemplação em relação à meditação:

            “A diferença que há entre ir agindo e saborear já da obra feita, e a que há entre ir recebendo e aproveitando já do recebido, ou a que há entre o trabalho de ir caminhando e o descanso e quietude que há no final; que é também como estar preparando a comida ou estar comendo-a e saboreando-a já preparada”.

                                                                                             ( A subida ao Monte Carmelo,L.2.c.14,no. 7)

 Alguns pontos importantes

- Não se trata de buscar sensações, mas de buscar o Senhor e de tirar proveito.

- A oração contemplativa é chamada a dar frutos na vida cotidiana: estes são prova da autenticidade de minha oração.

- A imaginação espiritual recebe mas não violenta. Não se deixa levar pelo imaginário.  No coração da oração contemplativa se vive uma certa pureza e desprendimento. Estar sempre “puramente ordenado a serviço e louvor de sua divina Majestade...”

- O conhecimento interno que obtenho nela fica verificado e autenticado pelo que foi revelado pelo Senhor à Igreja e que professamos na fé.

 

Por quê aplicar nossos SENTIDOS a uma cena bíblica?

             Orar com os sentidos sobre uma cena bíblica tem seu fundamento na fé:

* O VERBO fez-se carne e corpo. Sua Palavra viva não pode chegar até nós fora de nossas faculdades 

   humanas, inclusive corporais, através das quais captamos as realidades espirituais.

* A Aplicação dos sentidos é sinal de uma oração simplificada, que chegou ao coração.

   Se é verdadeira, nos dará paz, humildade e simplicidade; se forçada, nos cansará e se desviará.

* As repetições e a aplicação dos sentidos nos unificam pouco a pouco.

   A pessoa inteira se “recolhe” para o essencial e “colhe” um fruto maduro.

* Deus responde nela à petição da graça: “conhecimento interno do Senhor, para que mais o ame e o

   siga”.

 “A práxis expontânea depende da sensibilidade e enquanto essa sensibilidade não for evangelizada, não podemos ter certeza de reagir evangelicamente na vida.

Por isso S. Inácio convida o exercitante a se aplicar assídua e amorosamente, usando olhos e ouvidos, tato, gosto e olfato no exame da cena contemplada, com a esperança de que fiquem tão banhados e atingidos por ela que, quando mais tarde entrarem em contato com a vida real, possam reagir diante dela com uma sensibilidade nova, diferente, transformada.

Só assim a práxis espontânea será uma práxis evangélica”. (J. Antonio Garcia Rodrigues).

 Modo de proceder

 a) Trazer pela memória, com a ajuda das revisões da oração, o que de mais significativo aconteceu em você, na contemplação dos textos.

 b) Tomar um aspecto central (imagem, atrativo profundo, uma disposição interior, abandono, confiança...) e “saborear internamente”. Deixar que este aspecto vá penetrando todo o ser.

 c) Tomar consciência de uma presença; aí, permanecer longamente, silenciosamente, procurando entrar em sintonia com seus sentimentos, estabelecendo a comunicação pela comunhão, o que só acontece quando duas pessoas que se amam estão presentes uma à outra.

     Repousar silenciosamente n’Ele, de maneira intuitiva, sem discorrer.

 

d) O importante não é se preocupar com os cinco sentidos; não é se preocupar em usá-los durante o exercício.

     O importante é fazer uma oração não discursiva, uma oração mais simples, de sintonia profunda, de comunhão.

 e) Quando este clima interior de intimidade não for possível, não inquietar-se.

    Deixar o Espírito Santo, que vive em nós, falar e não importuná-lo com a nossa ansiedade.

 

 

NASCIMENTO DE JESUS (EE. no. 110-117)

 Uma antiga tradição religiosa afirma que a maior seriedade de Deus aconteceu quando Ele virou menino

 Olhando, escutando e observando o que faz Jesus Cristo nos diversos “passos” de sua vida, a pessoa vai sendo transformada e configurada a partir de dentro, pelo mesmo Espírito de Jesus.

A contemplação vai conformando  a pessoa a Jesus, cristificando seu olhar, escutar, observar...  sua pessoa, enfim. Trata-se de impregnar o visual, o auditivo e o prático humano do olhar, do escutar, do falar  e do agir  de Cristo.

                             Cristo é o centro de toda a experiência dos Exercícios Espirituais.

 Composição vendo o lugar: compor-nos, situar-nos, fazer-nos presentes à contemplação para que

                                                     esta não seja recordação de algo distante na história, mas a experiência

                                                     de um mistério que se nos faz novamente presente.

     Preâmbulo topográfico: consiste em introduzir-se no interior da realidade da cena, usando a imaginação. S. Inácio deseja intensamente que a pessoa, ao fazer os Exercícios, se 

                                              introduza tão plenamente quanto lhe for possível no exercício, com todas as

                                              energias e  habilidades, com todas as forças e criatividade...

A “composição vendo o lugar” é o lugar da oração, o lugar da experiência e da práxis de Jesus, que se deverá tornar, durante o tempo da experiência, o lugar da experiência e da práxis do ser humano.

 

Recuperar o papel da imaginação como lugar onde se elabora a sensibilidade mais profunda.

                              A imaginação é uma força poderosa e complexa: toca o mais profundo de nosso ser.

                              A imaginação é capaz de visualizar possibilidades e alternativas ilimitadas.

                                                           Cada dia nos oferece novas oportunidades, novas experiências.

        “A imaginação é o começo da criação. Imaginamos o que desejamos; desejamos o que imaginamos e finalmente criamos o que desejamos” (George B. Shaw)

A função da imaginação inaciana está mais dirigida a centrar nossa afetividade que a fabricar interiormente uma imagem determinada a qualquer preço.

                                          Por  que será que Jesus nasceu pequenino e pobre?

       É que nada é digno de Deus, nada está à sua altura para poder acolhê-lo.

       Nenhum tipo de ornamento, nenhum palácio, nenhuma forma de sabedoria humana. Por isso, Deus

       resolveu escolher um lugar onde não houvesse nada, onde não houvesse concorrências ridículas.

                      Deus só se manifesta onde Ele é tudo.

       Na manjedoura, na verdadeira pobreza. Em Maria, na pobreza do coração.

       Se meu coração se transformar  em manjedoura, Deus se fará pequenino para nele vir nascer de novo.

 Jesus nasce na periferia do mundo, na periferia do poder  político (Roma), do poder religioso (Jerusalém), do poder intelectual (Grécia).

Jesus nasce, vive e começa a falar a partir da margem geográfica, cultural, religiosa e econômica.

O próprio Jesus é margem: Belém e o Calvário são os dois extremos periféricos – início e fim- de toda uma vida desinteressada e pobre.

      Todos tinham os olhos voltados para o centro.

 Jesus, no entanto, movimenta-se em direção contrária: sobe, a partir da mais baixa periferia para o centro.

 Jesus des-centraliza o mundo a partir da periferia e torna-se o centro da história.

 A vida de Jesus é ex-cêntrica, porque não combina nem se ajusta com a construção social de todos aque les que controlam o mundo a partir do centro.

              A ação de Deus provoca um deslocamento geográfico, social e religioso.

              Todo aquele que pretende encontrar-se com Jesus terá de voltar a cabeça e peregrinar em direção à margem.

              Cada passo na direção das periferias do mundo também é um passo contemplativo em busca do

              encontro com o Senhor da História, que nos chama de baixo e de fora.

 Louca aventura amorosa de Deus: loucura que tem no velho adágio dos primeiros padres da Igreja a

expressão desconcertante: Deus se fez homem para que o homem pudesse ser feito Deus”.

Deus se encarnou porque se enchera de simpatia para com Sua Criação (Ele não disse que tudo era bom?) e se apaixonara pelo próprio ser humano a ponto de querer ser também um deles.

 

Assim, embelezaria muito mais o inteiro universo e divinizaria o ser humano, homem e mulher. Em função disso se deu a Encarnação e o Nascimento de Jesus, e não por causa do pecado.

      Deus não se fez carne para, em primeiro lugar, redimir os seres humanos decaídos.

      Encarnou-se fascinado pela humana natureza, para glorificar a Criação e enriquecer o teatro da glória cósmica.

      Só a partir daí, apiedou-se de Seus irmãos e irmãs pecadores e os salvou com Seu amor, com Sua vida,com Sua luta, com Sua Cruz, com Seu Sangue e principalmente com Sua Ressurreição.

      Deus preferiu nascer como corpo, apesar de todos os riscos, inclusive o de morrer.

      Porque as alegrias compensavam. E nasceu, declarando que o corpo está eternamente destinado a uma dignidade divina.

      Curioso que os homens prefiram os céus, quando Deus prefere a Terra.

 

Jesus é, ao mesmo tempo, o esvaziamento do divino e a sublimidade do humano.

Olhando para a Criança de Belém, o poeta português Fernando Pessoa nos sintetiza esse paradoxo de Jesus.

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro

E a criança tão humana que é divina.

 

Foi descobrindo a infância eterna de Deus que o poeta francês Paul Claudel converteu-se ao cristianismo em uma noite de Natal.

Na criança, na manjedoura, no recém-nascido de Belém, ele descobriu com espanto e admiração a mais perfeita expressão da própria existência de Deus e, em conseqüência disso, toda a sua vida se transformou.

O Natal é o momento preciso em que a eterna juventude de Deus, a eterna infância de Deus, invade nosso mundo e ali se estabelece para sempre.

Em Jesus, a eternidade penetrou no coração do tempo, no coração da história e no coração humano.

 

Textos bíblicos:    Is. 9,1-6          Lc. 2,1-8          Lc. 2.9-20         Mt. 2,1-12      

                               Gal. 4,4-7       Lc. 2,21-32       Lc. 2,33-40    

 

REGRAS para ajudar o discernimento espiritual – 2ª Semana (texto adaptado)

 

1. EE. 329 É próprio de Deus, quando atua na pessoa, dar verdadeira alegria e gozo, tirando toda a

                     tristeza e perturbação. Ao contrário, o mau espírito luta contra esta alegria e consolação

                     espiritual, trazendo   razões aparentes e frequentes enganos.

 

2. EE. 330 É só de Deus dar consolação “sem causa precedente”, isto é, sem nenhum sentimento ou

                      conhecimento de algum objeto que seja prévio a esta experiência e seja causa dela.

                      As consolações que nos chegam “diretamente” ao nosso coração sem passar por nossas

                      faculdades (memória, entendimento, vontade) vem certíssimamente de Deus. Porque Deus,

                      como Pai de nossos corações, pode “entrar” sem necessidade de passar pela porta dos

                      sentidos. As características que deixa são grande amor à sua divina pessoa.

 

3. EE. 331 Com “causa precedente” pode dar consolação tanto o bom espírito como o mau. Esta

                     consolação tem fins contrários: o bom espírito busca o proveito da pessoa, para que vá de

                    “bem a melhor”;  o mau espírito, ao contrário, procura levar a pessoa ao que é pior.

                     O mau espírito chega até o coração passando pelas portas dos sentidos, faculdades mentais

                     e afetivas. Como saber quando é do bom ou do mau espírito? Pelos efeitos: Gal. 5,16-23

 

4. EE. 332 É próprio do mau espírito atuar sob a “aparência de bem”.  Entra com pensamentos

                     bons e santos, para depois (pouco a pouco) procurar levar a pessoa para as suas perversas

                     intenções.  O mau espírito pode disfarçar-se de bom anjo (“como anjo de luz”) seja dando

                     ele uma consolação boa, ou aproveitando uma consolação do bom espírito.

 

5. EE. 333 É preciso considerar o processo dos pensamentos: se no princípio, meio e fim tudo está 

                     bem, inclinado ao bem, é sinal do bom espírito. Mas se no processo dos pensamentos algo

                     está mal ou menos bom do que a pessoa trazia, é sinal claro do mau espírito. Também é sinal

                     do mau espírito quando a pessoa se inquieta e perde a paz  e a tranquilidade que tinha antes.

                     A verdadeira e a falsa consolação partem de uma mesma situação. À medida que avançam

                     vão se separando, até chegar a encontrar-se em situações opostas.

                     O que vem de Deus começa bem e termina melhor.

                     O que não vem de Deus começa bem e vai se desviando lentamente.

                     Segundo esta regra, não se trata unicamente de discernir o bem do mal de maneira objetiva, 

                     como na 1ª Semana, senão que se trata de identificar o que é “menos bom” para a pessoa

                     Não está aqui em jogo a eleição entre o bem e o mal, mas a eleição entre um bem menor e

                     outro maior, uma eleição que vai de um bem menor anterior a um bem maior futuro.

                     Dois critérios para analisar  este processo:

                          Intelectual: seguir o objeto que desejamos. Ver se desejamos um objeto menos perfeito que o que desejávamos antes ou nos desvia da meta à qual queremos chegar.

                          Afetivo: seguir o “estado de ânimo” em que nos deixa o desejo de um objeto (tristeza, secura, aridez...)

 

6. EE. 334 É conveniente, quando a pessoa se dá conta da presença do mau espírito que está atuando,

                     que olhe o processo dos “bons pensamentos” que lhe apresentou e como pouco a pouco

                     procurou desviá-la, para que esta experiência lhe sirva mais adiante.

                     Conhecendo o engano do mau espírito, é bom fazer duas coisas:

                         * Fixar-se bem qual foi a primeira boa idéia por onde ele começou a aproveitar-se dela.

                         * Analisar depois todo o “discurso dos pensamentos” pelo qual o mau espírito levou

                            até fazer-lhe perder a paz e a alegria espiritual

                       Não se trata de fazer tragédias ao constatar que foi enganado. É aceitar que o joio e o trigo estão misturados e vivos.

                       Quando há aceitação desta realidade, depois de analisada, o passado bom e o ruim se convertem em fonte de graça.

                       Mais importante que ver o estado em que nos encontramos, é ver a atitude de progresso. Se continuamos na dinâmica de resposta ao chamado de Cristo, o importante não é o ato em si, senão se o ato se converte em fonte de graça,

                       de libertação, de crescimento, de integração...

7. EE. 335 Aos que procedem de “bem para melhor”,  o bom espírito entra com doçura, leve e suave

                     Aos que procedem de “mal para pior”,  o bom espírito entra com estrépito e força.

                     O mau espírito procede de modo contrário: nos que vão de bem para melhor, entra com

                     força. E nos que vão de mal a pior, com suavidade.

                    

8. EE. 336 Discernir o núcleo da “consolação sem causa precedente” do que vem depois. Quando a

                     consolação é sem causa, a pessoa deve ter presente quando se produziu tal consolação, para

                     saber localizá-la e diferenciá-la de outros processos. Muitas vezes, num 2º momento, a pes-

                      soa, por seu próprio pensamento e sentimento, pode desviar a orientação que Deus quer.

                      Porque a pessoa, depois de uma grande consolação, pode ficar entusiasmada e começar a

                      crer que todos os pensamentos e sentimentos que tenha, são do bom espírito.

                      Em toda consolação existe um “segundo tempo”: o estado de ânimo que se cria na pes-

                      soa como fruto da ação de Deus. É o momento de estarmos de sobreaviso, pois facilmente

                      projetamos  nossa problemática psicológica e a confundimos com a ação de Deus.

                      E pode nos levar a tomar atitudes equivocadas crendo que provém de Deus quando, na rea-

                      lidade, é fruto nosso.

 

Quadro comparativo da ação do mau espírito

 

ESPÍRITO DO MAL                       1ª SEMANA                                  2ª SEMANA

 

1. EXPRESSÃO                                 Sentimentos (EE. 315)                       Razões aparentes (EE. 329)

                                           Sentimentos de estar abando-           Razões não centradas no amor,

                                                          nado e necessitado de consolo           mas em si mesmo.

2. PONTO DE APOIO               Feridas (EE. 327)                              Fervores,ideais exagerados

3. MEIOS QUE USA                Desolação (EE. 315)                           Falsa consolação (EE. 331)

4. ESTRATÉGIA                     Arrasar (EE. 317)                               Minar a longo prazo  (EE. 332)

5. TÁTICA                                        Cumplicidade (EE. 326)                      Camuflagem (EE. 329)

6. TENTAÇÃO                       Mal evidente (EE. 317)                       Mal para mim (EE. 332)

7. SINAIS                           Perceptíveis (EE. 317)                        Encobertos (EE. 332)

8. EFEITOS                          Mal-estar, desalento (EE. 317)         Confusão, vacilação (EE. 333)

9. CARACTERÍSTICAS              Covarde,cresce com meu                   Teimoso, desgasta-me aos pou-

                                                                        medo (EE. 325)                                     cos (EE. 333)

10. MODO DE VENCÊ-LO           Fazendo o oposto                    Descobrindo a trajetória (334)

                                                           Agindo contra (EE. 319)                    Descobrindo o enfraquecimento

                                                           Abrindo-se (EE. 326)

 

Como distinguir a falsa da verdadeira consolação?

* Na falsa consolação não há uma experiência de presença íntima de Alguém, do amor gratuito...

* Empolgação com as coisas de fora, com algo que se apresenta como um grande bem e que deve ser

                       feito rapidamente. Fogo de palha. Certa agitação exterior. Exagera o fervor.

* Pressa: pensando em fazer muito e com pressa, acaba-se em nada.

* Na falsa consolação a alegria é pela percepção de algo que me exalta.

* A falsa consolação faz barulho; está mais na linha do discurso, e por isso, incoerência de vida.

* Bom espírito: o equilíbrio, a medida, a persistência; isso requer tempo, paz, tranquilidade...

* Mau espírito: vai no sentido do excesso, provocando inquietação, confusão... Ativismo.

* A verdadeira consolação está ligada a um movimento de expansão no Amor, onde o centro é Deus

* A falsa consolação está ligada a um movimento de expansão de si mesmo, onde o centro é o eu.

 

Exemplos de falsa consolação na Autobiografia de S. Inácio:

         “...começou a estudar com muita diligência. Mas uma coisa o impedia muito, e era que vinham-lhe novas inteligências de coisas

          espirituais e novos gostos; e isto com tanta força, que não podia estudar  como lhe era necessário” (Aut. 54).

         “Quando ia deitar-se, muitas vezes lhe vinham grandes notícias, grandes consolações espirituais, de modo que, faziam-lhe

          perder muito tempo que tinha destinado para dormir, que não era muito...”(26).

 

Exemplo de ação do mau espírito

O mal, por exemplo, poderá fazer alguém perceber suas qualidades (o que é positivo), e desenvolver um sentimento de não necessitar de ninguém mais, nem mesmo de Deus, e em tôrno disto, toda a vida é organizada de modo auto-suficiente (orgulho). O bem não vai dizer que alguém não tem qualidades, mas, ao contrário, as atribui à sua fonte. A estratégia do mau espírito consiste em manter a ambiguidade em tudo. Não é fácil descobrí-la claramente porque vem misturada com a ação de Deus, ou com os sinais de Deus, e contudo, pouco a pouco, vai levando a pessoa para algum fim mau. Mina as forças do espírito, remove os pilares da pessoa; tende a debilitar seu centro de personalização.

 

VIDA OCULTA DE JESUS (EE. no. 132-134)

 

“Não oculteis a vida oculta de Jesus” (Pe. Kolvenbach)

 

A vida oculta coloca em evidência nossas motivações e nossos valores mais profundos.

É a importância do não importante.  O importante é ser significativo e não importante! Cuidado

com os critérios do mundo... de buscar os primeiros lugares... o poder... a fama... a eficácia acima de tudo!

Jesus nos ensina, em Nazaré, o valor das coisas corriqueiras, quando são feitas com dedicação e carinho.

É uma teologia do trabalho! O fazer, seja qual for, segundo suas motivações, é redentor!

Não são as coisas que nos fazem importantes, mas nós que fazemos qualquer coisa ser importante!  

                                          

                                           É o sentido que damos à nossa vida e à nossa ação que fazem com que estas sejam

                                           significativas ou não. Somos nós que damos significado às coisas e não o contrário!

      Quando são “as coisas importantes” que nos fazem importante, e se “essas coisas”, um dia desaparecem,

      parece como se a própria vida  perdesse seu  sentido...  Na escola da vida, Jesus também foi aprendiz.

      Aprender é conseqüência básica da dinâmica da Encarnação. Lucas o confirma:

                 “Jesus crescia em sabedoria e em graça, diante de Deus e diante dos homens” (Lc. 2,40.50).

      Portanto, Jesus viveu a vida como um processo lento e progressivo, a partir da própria condição humana no

      meio dos seus, no meio do povo e em vista do Reino de Deus, graças a uma criatividade transformadora.

                      

A vida de Nazaré coloca os critérios evangélicos na nossa cabeça e no nosso coração.

A vida de Nazaré chega à nossa vida em muitos momentos (serviços ocultos, doença, rotina...). Jesus

nos convida a entrar na sua casa para aprender d’Ele e com Ele os valores do Evangelho.

É difícil compreender a “normalidade” da vida de Jesus Cristo; parece até que o Reino não tem exigências sobre a sua Vida. Identificando-se com a vida de todo mundo mostrava que a salvação não consiste em coisas extraordinárias e em gestos fantásticos, mas na adoração do Pai em espírito e verdade”.

Jesus gasta praticamente toda sua Vida nesta humilde condição; passou desapercebido como Messias.

         O Reino se revela no pequeno, no anônimo e não no espetacular, no grandioso.

         Ele está misteriosamente se realizando entre nós.

Podemos dizer que esta página é, em certo sentido, a apologética do cotidiano, das horas, dos meses, dos anos escondidos, da vida monótona, provinciana, não-escrita, de Jesus.

Para o plano de Deus é importante inclusive quem vive em Nazaré, de onde não pode vir nada de bom ou que seja digno de ficar registrado nos anais da história.

 

No A.T. existe a literatura sapiencial, que é uma verdadeira celebração do Deus cotidiano, isto é, do Deus que se revela não por gloriosos acontecimentos histórico-salvíficos, mas na simplicidade dos atos e dos dias. Todo o horizonte rural ou urbano, no qual se passa a vida de cada dia, torna-se um sinal contínuo de Deus, que fala discretamente nas pequenas coisas.

Essa atenção à simplicidade do cotidiano, à natureza da Galiléia, à mensagem que Deus esconde nos homens, nas coisas, nas horas, é uma constante na pregação de Jesus.

Nazaré é o sinal da “epifania”  de Deus nas pequenas coisas, é o sinal da palavra divina escondida  nas

             vestes  humildes da vida simples, é o sinal do sorriso de Deus para a rua de nossa casa.

Tanto em Nazaré quanto na vida pública, Jesus nos comunica uma profunda união com o Pai.

Jesus recorre em seu íntimo ao Pai, numa oração confiante e de entrega.

Jesus sente quando o Pai o chama a mudar o estilo de vida escondido. Ele está atento aos “sinais dos tempos e sabe discernir nesses sinais a Vontade do Pai que o chama a mudar de caminho, a deixar sua terra, a lançar-se numa aventura. Começa uma vida itinerante, missionária, despojado de tudo.

 

Na oração: descobrir o significado profundo da vida cotidiana mais simples: trabalhos, relações, família... Na

                     vida de todos nós há momentos em que Deus intervém, tirando-nos de Nazaré para a vida pública.

O dom fundamental a ser pedido é o da fidelidade, da constância, da sabedoria que sabe reconhecer as sutis palavras de Deus, ocultas no interior das pessoas de sempre, dos fatos habituais, da monotonia doméstica.

A vida cotidiana exige não apenas fidelidade, mas também amor, gratuidade. Ainda que o itinerário de Naza-

pareça pobre, se o percorremos com fidelidade e amor, ele se insere no projeto de Deus, fica iluminado...

Para atravessar a Nazaré cotidiana é preciso aprender a dimensão perfeita do amor, que é doação silenciosa, é oblação alegre e livre.  Nazaré pode transformar-se em Jerusalém quando, quem a habita, deixa-se possuir

                                               pela totalidade do amor no coração.

Textos bíblicos:    Mt 2,13-23      Lc 2,41-52    Lc. 10,38-42      Mt.6,25-34     Ecle. 3,1-15

 

 

PREÂMBULO PARA CONSIDERAR ESTADOS DE VIDA (EE. 135)

 

“Venir en perfección en cualquer estado o vida...”


No número 135 dos Exercícios Espirituais, S. Inácio faz uma distinção, ou uma diferenciação entre dois estados de vida. Qual é o espaço, a partir do qual ele faz essa distinção?

                            Para ele, o espaço ou o lugar onde esses dois estados de vida se diferenciam é a Igreja  

                            ( cf. o número 177, onde ele fala dos dois estados de vida que acontecem “dentro dos

                            limites da Igreja). Igreja que, antes de mais nada, é um espaço materno.

                            Portanto, trata-se de uma distinção que só tem sentido entre filhos.

 

A distinção entre os dois estados de vida nunca será uma distinção de categoria, de classe, de gênero, 

                    ou uma distinção que estabeleça uma diferença que rompa a fraternidade.

                    Segundo S. Inácio, ter um estado de vida ou outro na Igreja é um dom de Deus.

                    É o próprio Deus que estabelece as “diferenças”. Se é um dom, é para o enriquecimento da

                    fraternidade fundamental numa Igreja que é mãe.

 

Além do estado de vida que cada um de nós tem na Igreja ser um dom de Deus, S. Inácio supõe que exista também a liberdade de escolha desse estado de vida.

No mesmo número 135 dos Exercícios, ele declara que “nós devemos nos dispor para “venir en perfección” em qualquer estado de vida que Deus Nosso Senhor nos der a escolher”.

O dom de Deus suscita a nossa liberdade de escolha; é dom de Deus que é oferecido à nossa liberdade.

O estado de vida  que tenhamos ou venhamos a ter na Igreja não pode ser nunca uma imposição.

 

          - Quais são os estados de vida que, para S. Inácio, existem dentro da Igreja?

         - Como fala S. Inácio da distinção ou das diferenças dentro da Igreja.

 

A 1ª parte do Preâmbulo parece caminhar no sentido de valorizar uma opção de vida consagrada ou, pelo menos, de uma vida segundo os conselhos evangélicos. Ao contrapor “primeiro”  e “segundo” estados de vida, parece o santo contrapor “observância dos mandamentos”  e “perfeição evangélica”. Ou seja, vida leiga, feita de pertença familiar, obediência aos pais, etc. e vida consagrada, feita de dedi-cação ao puro serviço de seu Pai eterno, isto é, de devotamento em tempo integral  ao serviço de Deus

Em seguida, porém, nosso olhar se surpreende com o rumo que toma a reflexão do santo.

O exemplo que usa para descrever tanto um como outro “estado”  é Cristo nosso Senhor. Ao afirmar

que o mesmo Cristo vive nos dois “estados”, S. Inácio deixa uma abertura para considerar que tanto um como outro são cristificadores ou crísticos e, portanto, geradores de uma vida a caminho da perfeição.

 

S. Inácio continua: não se trata apenas de “considerar”  um ou outro “estado”, mas de, contemplando a vida de Cristo – que passa pelos dois “estados”  -, começar a investigar e perguntar em que vida ou estado se quer servir sua Divina Majestade. Não se trata de pedir com um viés predeterminado, mas de pedir deixando à liberdade criadora do Espírito determinar em que direção ou “estado”  vai se configurar nossa vida de serviço a Deus e aos outros.

 

S. Inácio, nos Exercícios, quer fazer uma distinção, mas não quer utilizar palavras que vão definir cada um dos lados dessa distinção. Ele fala de “estados de vida”  evidentemente, porque se se trata de liberda-

de, então tem de haver mais de um. Ele fala dos “estados de vida”  e os define como primeiro e segun-

do. Ele não diz que o primeiro seja leigo e o segundo seja religioso.

Diz simplesmente: “o primeiro estado e o segundo estado”.

             Ambos os estados de vida, primeiro e segundo”, ele diz que foram vividos por Jesus Cristo. Qualquer distinção que venha a ser feita entre modos diferentes de viver na Igreja tem que  encontrar, sempre, em Jesus Cristo, a sua raiz.

             Jesus Cristo viveu, ele mesmo, e experimentou os dois estados de vida que existem na Igreja.

 

Esses “dois estados de vida” que S. Inácio não define, ambos são considerados como vocação de Deus, que nos chama a um ou a outro estado de vida. Seja o primeiro ou seja o segundo, trata-se de um chamado, uma vocação, uma graça de Deus. Escolher qual o estado de vida que Deus quer para mim e que no seu querer Ele me dá a escolher, é responder a um chamado de Deus.

- Em que consiste o “primeiro estado”?

- Em que consiste o “segundo estado”?

 

O primeiro estado (não está falando de vida leiga ou de vida sacerdotal) para S. Inácio, consiste na obser-

                                 vância dos mandamentos.

                                 Esse estado de vida é o estado em que Jesus viveu a observância dos mandamentos.

                                 Viveu a vida de uma maneira em que os mandamentos de Deus são obedecidos.

O segundo estado encontra a sua diferença no que S. Inácio chama de perfeição evangélica.

                  A distinção entre esses dois estados de vida não passa, portanto, pelo leigo ou religioso, leigo ou 

                  padre. Pode ser um padre que, de alguma maneira, se contenta com a observância dos mandamentos.

                  Pode ser um leigo que procura a perfeição evangélica.

                  Isso significa que, para S. Inácio, os “estados de vida”  não são algo já definido e definitivo.

 

Finalmente, depois de fazer essa diferença entre os estados de vida, S. Inácio escreve:

        “Mas todos devemos nos dispor para “venir en perfección” em qualquer estado de vida que Deus nos  der a escolher”.

Trata-se simplesmente de dispor o coração em total indiferença e liberdade para que Deus possa agir com seu Amor sempre criativo e novo.

Sem discriminar esse ou aquele estado, sem valorizar mais um que o outro, S. Inácio destaca apenas a liberdade que se oferece à Liberdade Divina que atua e conduz, soberana e amorosa, à vida ou estado em que mais será servida, em que o Reino mais se fará realidade.

 

Nada de juízos de valor! Apenas a comunicação imediata do Criador com a criatura, único caminho capaz de levar qualquer um ou qualquer uma – religioso(a) ou leigo(a) – à perfeição da comunhão com Deus, do seguimento de Cristo e do serviço aos irmãos.

Portanto, em qualquer “estado de vida” a pessoa deve se esforçar para “venir en perfección”.

A distinção que S. Inácio faz está nessa palavra: evangélica – perfeição evangélica.

A distinção está no adjetivo. Qualquer cristão, para S. Inácio, deve procurar, no seu estado de vida, caminhar em direção à perfeição evangélica.

 

O que significa evangélica para S. Inácio?

           É o que vamos encontrar no exercício das Duas Bandeiras, onde ele fala de pobreza, de menosprezo e humildade (ele não fala de pobreza, castidade e obediência).

S. Inácio sabia que na Igreja existem leigos, religiosos, padres. Mas ele não via, nessas distinções que existem dentro da Igreja, que a diferença estivesse constituída pelo grau.

A diferença está na maneira como os leigos, sacerdotes e religiosos escolhem a possibilidade que Deus lhes dá de viver como Jesus Cristo.

A distinção passa pelo modo como nos sentimos chamados a seguir Jesus Cristo.

                   Imitar e seguir Jesus Cristo é algo que todo cristão, em qualquer estado de vida, deve fazer. Esse é o trabalho da contemplação que, tirando-nos das circunstancias do nosso viver, vai como que nos transportando para a vida de Jesus

                   Cristo, vai fazendo com que a  Vida de Jesus Cristo venha para a nossa vida.

                   Esse ir e voltar ou esse sair para a vida d’Ele, e voltar para a nossa vida trazendo as características  da vida d’Ele é o

                   grande trabalho dos Exercícios.  É aí onde cada um de nós, na sua situação, pode experimentar o dom da livre escolha

                   do  modo de viver cristãmente, em qualquer estado de vida que Deus nos dê para escolher.

 

É assim que o fato de Jesus Cristo ser o exemplo para qualquer homem ou mulher, leigo ou religioso, se torna de verdade, concreto. Não há uma receita inaciana para viver como leigo, como padre ou como religioso. Isso só pode ser conhecido por cada um, na medida em que, contemplando Jesus Cristo, vai experimentando pela ação do seu Espírito em nós, o que é que concretamente cada um de nós pode fazer. Ou então, como pode chegar à perfeição.

 

A distinção, portanto, está entre aquilo que a mim, ou a outro, Deus pede.

A “perfeição evangélica”  pode ser escolhida na vida religiosa ou fora da vida religiosa.

A perfeição e o que estabelece uma distinção na Igreja é sempre em função de um apelo de Deus ao qual

a pessoa responde livremente. Não é, portanto, uma questão de grau ou uma questão de mais ou menos.

 

Perfeição não é acabamento. Perfeição não é um ideal inatingível.

Perfeição é a capacidade de ir até o fim.  Ser perfeito não é ser acabado de acordo com um modelo pré-estabelecido.

Perfeição é essa capacidade de andar num caminho sem desistir. Ir até o fim. A palavra grega téleios, formada do substantivo télos,

               que significa fim. Uma pessoa perfeita é uma pessoa que caminha até o fim.

                     “Tendo amado os seus que estavam no mundo, os amou até o fim” (Jo. 13,1).

 

 

Ser perfeito não é algo que nós conseguimos.

A perfeição não é um estado permanente. Por isso é que, de Jesus Cristo, S. Inácio fala que é Alguém que devemos conhecer e amar para seguir.

A vida cristã é esse seguimento.

Segue até chegar ao fim como Ele foi até o fim.

S. Inácio expressa isso quando ele fala que a perfeição na vida espiritual consiste na capacidade de sair do próprio amor, do próprio querer e do próprio interesse.

Portanto, trata-se de chegar à perfeição em qualquer estado de vida.

               

                                                                            (cf. Pe. Ulpiano, Revista Magis, 1999)

 

 

 

 

EXERCÍCIOS para verificar o nosso SEGUIMENTO de Jesus

 

1) PARA A INTELIGÊNCIA:     O que significa seguir a Jesus?

2) PARA A VONTADE:            Como estou disposto para o seguimento?

3) PARA A AFETIVIDADE:      Como estou identificado com Jesus?

 

Meditações inacianas: apoio para o discernimento, para fazer opções concretas, no seguimento de

                                            de Jesus Cristo. Verificar nossas reais disposições.

 

DUAS BANDEIRAS – DUAS PROPOSTAS

 

Objetivos: teste da inteligência; dar critérios para discernir, clarificar nossas idéias, iluminar a inteligência,

                    saber distinguir o que é de Cristo e o que é do inimigo;

                 : verificar a autenticidade de nosso seguimentoquê Cristo queremos seguir?

                   Tentação de manipular Cristo à nossa imagem, condescendente e indulgente com nosso egoísmo

                   (somos tentados a ler o Evangelho a partir de nossos interesses, ideologias, maneiras de ser e viver,

                   desfigurando a pessoa de Cristo, modelando-o ao nosso gosto);

                 : conhecimento claro dos critérios de Cristo, lucidez para perceber dois dinamismos opostos,

                   duas estratégias diferentes, dois caminhos contrários...

                 : Duas Bandeiras, juntamente com as meditações do Reino  e Binários, dão a chave para a contem-

                   plação dos mistérios da vida de Cristo; são como o fio condutor que nos guia através dos mistérios.

         

A contemplação dos diversos “mistérios” da Vida de Jesus deve levar ao aprofundamento e à assimilação

dos aspectos e atitudes que aparecem programaticamente nas meditações  inacianas (Bandeiras, Reino, Binários) e que constituem o fundamento necessário para a eleição ou reforma de vida.

 

Duas Bandeiras: o seguimento de Jesus é luta; nosso coração é campo de batalha;

                              : a inteligência deve captar duas táticas – um possível engano e uma busca da verdade 

                                                                                                no espírito de Jesus.

Pedir: claridade e lucidez para perceber dois chamados contrários em minha vida;

          : conhecimento para discernir quando Jesus é quem me chama e quando é o mau espírito que me

            engana.

Composição vendo o lugar: imaginar-me e recordar em que mundo estou, em que país, cidade, e co-

                                                    mo em cada área de minha realidade vivo duas tendências radicais e  opostas: Jesus e seu espírito me chama à liberdade e o mau espírito à opressão.

Estamos num mundo de ambigüidades; sofremos pressões dos dois lados (ação da graça X ação do mau espírito). Saber distinguir os espíritos que  lutam em mim, saber distinguir as motivações profundas de meu agir, deixando-me atrair pelo Evangelho.

 

1a. Parte: O CAMINHO DO POSSUIR

 

* APEGO A ALGO (“coisas”, riquezas, talentos...)

* LEVA AO APEGO A SI (tenho algo, logo sou alguém = Eu com muitas coisas como fonte da felicidade e da segurança mais profunda)

* PASSO A PREFERIR-ME AOS OUTROS (“eu sou mais do que eles” = Eu acima dos outros como

                                                                         fonte de felicidade e da segurança mais profunda)

* E DAÍ CHEGO À HONRA VÃ, À AUTO-SUFICIÊNCIA, soberba, absolutização do EU, incapacidade de um dom autêntico, de amar.

 

         - Considerar como o mau espírito chama, convoca, estimula e move todas as pessoas (em todos os lugares

            e continentes) e também a cada um de nós;

         - Considerar igualmente de que modo ele trabalha em cada um de nós: de um modo progressivo, seduzin-

            do primeiro pelo ter dinheiro/riquezas, para seguir com prestígio/honras e finalizar com a ânsia de po-

            der/soberba. 

         - Considerar como o mau espírito nos lança na corrente natural de nossa sociedade, tanto pelos meios de

            comunicação, como pelo modo de trabalhar que têm as instituições, pela forma de se dar a valorização

            “normal” das coisas, etc., levando-nos a reproduzir e integrar um dinamismo de sociedade de consumo,

            de sociedade que busca o prestígio para proveito próprio e que acumula poder em benefício de poucos.

 

         - Considerar como o mau espírito – e seu dinamismo – quer encarnar-se e predominar em nossas atitudes

           para atrair-nos como militantes deste sistema que vai oprimindo cada vez mais e produzindo cada vez

           mais excluídos.

                                   Riqueza-honra-soberba: daqui decorre todos os outros vícios.

Riqueza: primeira e mais importante tática do inimigo; as outras vem confirmar a primeira (a origem de

                todos os males é o amor ao dinheiro 1Tim.6,9-l0). As riquezas exercem um fascínio sobre os

                homens.

                Verificar nossos bens com os quais nos identificamos:

                        - bens materiais: comodidade, segurança, posse...

                        - bens sociais: prestígio, fama, ser bem quisto...

                        - bens corporais: aparência, imagem...

                        - bens de ordem psicológica, de ordem intelectual, afetivo...

Honra: a partir da busca de riqueza segue-se a busca do apreço dos outros (nos leva à vaidade, orgulho,

             posição social, status, estima, fama...). Relaciono-me com os outros para submetê-los a mim.

Soberba: opinião errônea de mim mesmo. Fazer crer que sou mais que os outros; auto-suficiência; des-

                prezo dos outros; sentir-se independente de Deus. “Eu sou o centro” e não Deus...

 

 

2a. parte: O CAMINHO DA SOLIDARIEDADE

 

Primeiro passo: propõe a relativização do ter (desprendimento, desapego) e estar pronto a renúncias

                           (pobreza). O principal para ser feliz é ser filho(a) e irmão(ã). Esta é a grande riqueza.

                           Quanto às coisas, é capaz de abrir mão de tudo, se necessário; aberto à solidariedade.

                           Pobreza implica respeito às coisas (elas tem um valor, carregam uma riqueza para todos).

 

Segundo passo: não basta ser livre em relação às coisas para ser feliz; é preciso não estar preso ao que dizem, à situação que ocupa na sociedade, ao status... é preciso liberdade interior em relação à honra, prestígio... estando pronto a passar por humilhações, ser tido por louco, se isto for mais importante para ser mais solidário... Propõe a felicidade e a segurança profunda a partir da morte do sonho de “ostentar grandeza”.

 

Terceiro passo: mas não basta a liberdade interior em relação ao ter e ao prestígio. É preciso liberdade

                           interior em relação a si mesmo. Quem ama coloca no centro a pessoa amada. Está pron-

                           to para servir. Quem chega a isto (humildade), é capaz de um Amor sem reservas,

                           pronto para sacrificar tudo. A humildade é andar na verdade; é reconhecer Deus como

                           Absoluto; é reconhecer a verdade de meu ser (abertura, disponibilidade a Deus...)

                           Em hebraico, pobreza e humildade tem a mesma raiz: inclinar-se, curvar-se diante

                           de Deus, submissão amorosa...

Pedagogia de Jesus: leva ao desapego das coisas, depois ao das honras e por último à grande abertura

                                 aos outros, com muito desejo de estar a serviço. E a partir disto, leva a todo o bem.

 

         - Considerar como Jesus chama, convoca, estimula e move todas as pessoas, em todos os lugares e mo-

           mentos da história, e a cada um de nós, pedindo:

               * não absolutizar dinheiro-riqueza-comodidades-consumo;

               * não entregar a própria vida para a escalada de prestígio, honras, boa-posição;

               * não admitir a primazia de nenhum poder sobre as pessoas, nem o manejo das pessoas.

            De modo que:

               * diante do dinheiro, lutar para viver com simplicidade, em favor do pobre e de seus interesses,

                  inclusive podendo implicar para alguns viver com eles e como eles;

               * diante da escalada de honras e influências, lutar pelos direitos e igualdade de todos, através do

                  empenho constante, sem admitir outra honra a não ser servir aos demais;

               * diante da primazia do poder, lutar em favor do marginalizado e do despossuído, dos que foram

                  despojados de sua dignidade, de sua liberdade, de sua voz, de sua participação...

          - Considerar como Jesus – e seu dinamismo – quer viver em nós, em cada uma de nossas atitudes, de

            tal modo que sejamos militantes da libertação integral de todos no seu seguimento.

 

Textos bíblicos:    1) EE. 136-148       2) Ef. 6,10-20            3) Gal 5,13-25           4) Mt 13,24-30

                                                                   5) Mt 5,1-11              6) Fil. 2,5-11             7)  Mt 4,1-11

 

 

 

EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS: escola do afeto

 

“O afetivo é o efetivo”

 

EXERCÍCIOS: experiência afetiva de encontro consigo mesmo e com Deus, visando uma transformação;

: integração e harmonização de todo o ser, tendo como critério a vida e obra de Jesus Cristo;

: leitura orante da vida; experiência de escuta da vida, a partir de Deus... na oração;

: “peregrinação interior” levando a um auto-conhecimento (visão mais ampla de si mesmo);

: despertar um novo dinamismo, suscitar novas energias... em vista do futuro;

: trazer à tona as riquezas acumuladas no próprio interior;

: abrir novos horizontes e apontar um sentido para tudo;

: descoberta das fraquezas e limitações para poder trabalhar sobre elas;

 

S. Inácio sabe manejar muito bem  toda sorte de movimentos psicológicos e espirituais internos. Ele percebe com facilidade e perspicácia o que acontece em seu interior, seus sentimentos e movimentos íntimos, descobre suas causas e efeitos, faz uma “leitura” de si mesmo (a “lição” de Deus).

Os EE. estão cheios de uma psicologia dos afetos.

Afetos: atrações, inclinações, força, tendência... que nos move para algo ou alguém, para um direção (tende a fixar-se).

Afeição: é a inclinação para uma pessoa ou um objeto, motivada pelo amor que se tem à mesma.

               Não se trata de algo passageiro, mas de um estado peculiar, constante e duradouro.

               A afeição é como que o motor de nossa existência; está em contínuo movimento... dando sabor e calor à vida.

Em cada ato de virtude ou de pecado que praticamos houve uma “afeição ordenada” ou “desordenada” (aderência afetiva).

As afeições se conservam (repetição das histórias de virtude ou de pecado) e se expandem (crescimento na virtude ou no pecado), configurando-se uma estrutura. A estrutura de bons ou maus afetos: os afetos se “auto-realizam”(buscam gratificações), se “auto-regulam” (não agem contra si mesmos) e se auto-transformam” (tendem a expandir-se).

 

Os afetos são a mediação (intermediários) entre o “eu” e o mundo. De acordo com nossa natureza, os afetos tendem a sair, a se projetar, a se orientar (apegar-se) às coisas, pessoas, status, poder...

A formação dos afetos está em relação com a história de cada pessoa: surgiram a partir de experiências feitas de atrações, repugnâncias, gratificações, medos... A partir dessas experiências os afetos tendem a fixar-se: aderências afetivas  que procuram gratificações afetivas.

Na dinâmica dos Exercícios, trata-se de recuperar a história pessoal, pois o exercitante percebe uma “aderência afetiva” (fixação afetiva) a coisas, pessoas... que somada a outras, passam a constituir uma estrutura de “maus afetos” (“afetos desordenados”).

Com as “afeições desordenadas” e “aderências”, a pessoa perde sua liberdade afetiva e não pode encontrar a Vontade de Deus sobre si mesma.

A conversão consiste, então, na libertação dessas “aderências” ou “apegos”; pode-se tomar consciência deles e, com a graça de Deus,  possibilitar uma libertação.

EE. 50: “Movendo mais os afetos com a vontade”

              A vontade procura levar os afetos na direção oposta às “aderências afetivas”.

              Só se pode seguir a Jesus, recuperando a liberdade afetiva, re-orientando os afetos na direção d’Ele e de seu Reino.

 

O apego às coisas e às pessoas impede-nos de mover com facilidade. Perdemos o fluxo da vida, o impulso do movimento, a suavidade do “deslizar pela existência”. Por isso, o desprendimento interior é a grande virtude da vida que realça a riqueza de cada situação e de cada momento.

O método dos Exercícios nos propõe uma maneira prática de ir limpando os “canais” de nossa existência para que não se grudem em nós as “aderências” e não se entorpeça o nosso fluir; também nos ajuda a verificar e desvelar os apegos que nos vinculam a pessoas e objetos em nossa passagem pela vida.

Não é que não se deva amar, entregar-se ao que se faz e desfrutar o que pode ser desfrutado.

Pelo contrário, vivificar o presente realça o seu sabor. Mas é preciso fazer isso sem compulsão, sem ansiedade, sem estar apegado a nada e a ninguém. Ser “possessivo” destrói, a longo prazo, a posse.

Aferrar-se às coisas ou às pessoas debilita nossa relação com elas.

 

Que são “afeições desordenadas”?

- O que é “ordem”, “desordem”?

1. Dizemos que um aposento está “ordenado” quando todos os móveis estão em seus lugares; aqui sugere

    “harmonia” de conjunto.

2. “Ordem” também é usada para indicar precedência, sucessão. Uma fila de alunos está ordenada quan-

    do um sucede o outro.

Nos Exercícios, a “ordem” na afetividade significa que Deus é de fato o primeiro amor, que antecede a qualquer outro. Daí nasce a “harmonia interior”.

Quando se ama a Deus, todos os elementos de nossa vida, todas as afeições, todas as potências do espírito encontram-se em “seus lugares”, produzindo uma deliciosa experiência de paz.

afetos organizados negativamente por acúmulo de “experiências negativas”. Para atingí-los, S. Inácio coloca “cargas afetivas opostas” (pessoa de Jesus, Reino, as petições...). Trata-se de re-orientar os afetos do exercitante.

Sabemos que não se pode suprimir (matar) os afetos; o que se pode fazer é mudar a orientação (“ordenar”) dos afetos, ou seja, re-orientar as “aderências afetivas” de certos objetos ou pessoas para para algo transcendente. É o que S. Inácio procura nos Exercícios: re-orientar (ordenar) os “afetos desordenados” para o amor a Jesus Cristo.

Os afetos se “orientam” e se “ordenam” segundo não só o valor do objeto em si, mas também e principalmente pelo valor subjetivo que é dado ao objeto.

 

Na psicologia dos afetos, acontece uma experiência sempre que se dá uma modificação afetiva. E só há modificação afetiva com conteúdo afetivo. Se não se dá essa modificação afetiva, não se viveu uma experiência.

Os afetos se modificam e a conversão implica essa modificação afetiva. Importa que, depois da experiência, percebo que “não sou mais o mesmo”.

A “experiência afetiva” consiste numa relação nova que se estabelece entre os objetos e o “eu”.

Na experiência dos Exercícios, trata-se da relação personalizante alicerçada na pessoa de Jesus Cristo e nos valores do Reino.

A experiência tem demonstrado que a pura idéia não implica uma mudança no nível afetivo.

As idéias, sozinhas, não atingem a afetividade, a não ser que a essas idéias sejam acrescentadas uma carga afetiva.

As idéias associadas aos afetos são o suporte da Fé, uma vez que esta implica uma doutrina, uma teologia... mas deve ser traduzida existencialmente na vida.

 

Nos Exercícios, S. Inácio fala de Deus, Jesus Cristo, Missão, Reino... em termos vitais, porque para mudar afetivamente é necessário um “objeto” ou “alguém” que possa provocar na pessoa uma repercussão afetiva. Deve ser algo gratificante e plenificante para a afetividade e que venha de fora dos afetos.

Se apresentamos um Deus atraente, compassivo, criador..., se apresentamos Jesus que nos seduz por sua verdade, sua personalidade, sua ternura, suas atitudes perante as pessoas e instituições, sua liberdade, seu perdão, sua coerência na verdade e no amor..., seremos “afetivamente impactados”.

Se Jesus Cristo atinge assim nossa afetividade, provocará um contraste entre Ele e nossos “afetos desordenados”.  Começa, então, lentamente, um re-ordenamento dos afetos para Ele e seu Reino.

Para provocar o “impacto afetivo”, S. Inácio apresenta, nos Exercícios, os chamados pontos para a oração, que são um “objeto” que vem de fora e que questiona a organização da “estrutura afetiva” presente no exercitante.

Os “pontos” orientam nossos afetos para algo transcendente, que plenifica a vida. Isso possibilita a realização de uma experiência afetiva nova e uma nova estruturação dos afetos (e por conseguinte, uma verdadeira conversão).

Com o afeto centrado na pessoa de Jesus e no seu Reino, abre-se o caminho para encontrar a Vontade de Deus para a nossa vida.

 

Três modos de AMOR (submissão amorosa a Deus)

 

Objetivos: teste do coração; processo de esvaziamento de si mesmo para encher o coração de amor,

                    para chegar a uma entrega total;

                  : experienciar a essência do Evangelho como adesão progressiva, incondicional e afetiva à

                    Vontade do Pai, realizada em Jesus.

                        Esta consideração avalia meu afeto, revela a densidade que tem o compromisso de seguir

                        a Jesus e estabelece uma dinâmica de questionamento e maior radicalização.

                Trata-se de verificar minhas disposições internas, abrindo-me um caminho que vai exigindo,

                        a cada passo, mais liberdade e disponibilidade para o seguimento de Jesus.

 

Três graus de humildade: (EE. 165-168) -  diz respeito ao mais profundo do afeto e do coração

                                                 humanos. Trata-se de deixar-se tocar, seduzir, apaixonar-se.

                                                 Trata-se de uma experiência de ser atraído a um novo modo de ser hu-

                                                 mano, a uma nova práxis, um “outro” serviço, uma experiência de ser

                                                 configurado à práxis do serviço de Deus, no Filho.

            Constitui-se como horizonte utópico, como meu ideal nunca plenamente realizável. Isso impede

            a acomodação, a “fossilização espiritual”. Esta utopia não nasce do voluntarismo; nasce de toda

            a tática cristã de “deixar-se levar”.

            Três maneiras de humildade me indica até que ponto devo seguir Jesus; revela-me uma profundidade cada vez maior da palavra seguimento.

 

             Esta consideração é como um “pano de fundo” durante o processo de Eleição, como algo para

             “ruminar” durante esse tempo.

             Nas Três Maneiras de Humildade se trata do “Amor de Deus” que leva consigo “obediência” à

             Lei de Deus (1a.maneira), “serviço de Deus Nosso Senhor” (2a. maneira), e finalmente “identificação com Cristo” (3a.maneira).

             É reduzir e empobrecer os Exercícios considerá-los só como um método de “tirar as afeições desordenadas” (EE. 1) e de não determinar-se por elas (EE.21). O segredo dos Exercícios é desenvolver,

             dar espaço a outras “afeições” (“os que quiserem mostrar maior afeição”; “para mais afeiçoar-se”).

 

Depois de verificarmos a clareza de nossa inteligência  quanto aos critérios para o seguimento de Jesus (Duas Bandeiras) e depois de verificarmos a qualidade de nosso “querer profundo” diante do que parece ser da Vontade de Deus (Binários), vem a vez de verificarmos o que sentimos, como está nossa afetividade::

       - “Como estou IDENTIFICADO com Jesus?

       - “Minha AFEIÇÃO a Cristo é capaz de levar-me até onde?”

       - “Como me SINTO ligado a Cristo?”

 

1.     Alguns poderão dizer: Sinto-me tão ligado ao Senhor, que não quero fazer nada que me separe d’Ele”.

   “Senhor, eu tenho guardado os mandamentos desde a minha juventude” (Mc. 10,20)

 

2. Outros poderão dizer: Sinto-me tão ligado ao Senhor, que quero buscar sempre o que me aproxime d’Ele.

                                               Quero realizar o que é do gosto d’Ele, mesmo que me custe”.

               “Senhor, te seguirei para onde quer que vás” (Lc 9,57)

 

3. Outros ainda poderão dizer: Sinto-me tão ligado ao Senhor, que quero o que mais me identifica com Ele”.

             “Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gal. 2,20).

 

Nos três casos temos Amor e retratam três modos de Humildade, porque o que ama coloca em primeiro lugar a pessoa que ama, o Senhor. O personagem central é o Amado.

 

1. No 1o. MODO DE AMOR olha-se sobretudo o negativo: não quero fazer nada que nos separe. É evitar o pecado. Trata-se de um amor sério. É uma atitude de começo que não se pode desprezar. Baseia-se na obediência à Lei de Deus (EE. 165).

                                               Fidelidade a Deus; consciência de ser criatura, dependente. Amor incondicional a Deus: que Ele seja o Absoluto. Deus é Criador, Senhor.

 

2. No 2o. MODO DE AMOR já se olha mais além: “Não só não desejo o que nos separe, mas desejo

                                                                          buscar o que nos aproxima”.

                                              É uma situação de indiferença entre muitas coisas do mesmo nível e até

                                               de abertura ao que é mais  conforme com o caminho de Jesus.

                                              Vai mais além da Lei. É entrar na dinâmica do amor maduro. Trata-se da

                                               pessoa movida pelo Amor de Cristo.  É o lugar da disponibilidade.

                                               Deus quer seu Amor em todas as coisas e tudo o mais é relativo.

                                               Marca a orientação fundamental da pessoa para Deus.

                                               Há um Amor superior, Deus, que relativiza tudo. Significa estar disposto

                                               a ser indiferente a todas as coisas; servir a Deus totalmente, em qualquer

                                               situação. Diante de várias opções de serviço, a razão não vê peso maior

                                               de glória (igual glória a Deus”).

 

3. No 3o. MODO DE AMOR não só há o desejo de não fazer o que nos separe e de buscar o que nos aproxima, mas uma preferência  pelo que Jesus abraçou e padeceu.

                                              Há um desejo ou desejo do desejo de identificar-se radicalmente com

                                              Jesus pobre e humilde, com a “Kénosis” do Senhor.

                                              É o amor terminal, limite. Amo de tal maneira a Deus que amo inclusive

                                              a Cruz de Cristo. É a loucura do Amor: dar a vida como Cristo.

                                             “Eu me inclino mais a isso movido por sua Graça...” (EE.167-168).

                                              Diante de várias opções escolho a que mais parece com a escolha de Cristo.

 

O 3o. modo só se justifica com aquela “razão do coração que a razão não entende”.

Supõe uma afeição completa e total pela pessoa de Jesus Cristo. Trata-se de uma opção por amor, ser colocado junto com Cristo pobre, perseguido, humilhado... Elejo o que mais me identifica com Ele.

Coloco-me, por princípio, onde Ele mais se revela – estar COM Jesus onde Ele está e COMO Ele; participar da sorte d’Ele, enquanto de mim dependa.

É a plenitude da liberdade de espírito e da confiança n’Ele. É o cume do Amor.

Quando se trata de optar pelo que mais conduz à maior glória de Deus, esta mesma se subordina a outro movimento mais profundo: a identificação com Jesus Cristo.

Há como um mimetismo do Amor, o querer parecer-se com o ser amado, ter seus gostos, assumir sua causa e as conseqüências, etc... Parecer-se mais com Jesus, querendo e escolhendo mais pobreza e humildade.

        Este desejo ardente de identificação não pode ser fruto do esforço humano mas dom e Graça de Deus.

        É uma “Opção seduzida”: é Deus que toma a iniciativa e atrai a pessoa para o cume do Amor.

        A opção seduzida conta com a possibilidade da Cruz; sabe que o discípulo não é mais que seu Mestre.

        O seguimento de Cristo não é só questão de opção pessoal: eu elejo o Mestre, valores,

        lugares da  realidade na qual tenho de atuar (puro voluntarismo).

        A Opção supõe que o sujeito põe em marcha seus mecanismos de desejo, de querer, de vontade. É meu

                        “eu” que dita o seguimento, e isto é perigoso, porque rompe toda possibilidade de alteridade 

                        com o Outro.

        Mas esta opção tem de “ser seduzida”, ficando o seduzido envolvido pela misericórdia, ternura, justiça,

        bondade... de Deus.

 

Conclusão: lucidez espiritual (bandeiras), liberdade de decisão (binários) e afeto à pessoa e vida de Jesus (três maneiras de humildade) são elementos essenciais para poder fazer uma opção cristã de vida. Para fazer um bom discernimento é preciso ter o coração polarizado, centrado em Cristo.

 

Textos bíblicos:   1. EE 164-168        2. 1Cor. 1,17-31              3. Gal. 2,15-21          4. Fil. 3,4-21

                                 5. 2Cor. 4,7-18       6. Col. 1,24-29                7. 1Tes. 2,1-12

 

 

E.E: experiência de encontro com o Cristo das estradas poeirentas

 

“Se você não mover os pés, não reconhecerá o ritmo da vida”

 

Os Exercícios Espirituais são o fruto de um caminho de fé vivido por S. Inácio. Para ele, o caminho não é só o trajeto de uma pessoa para Deus, mas também o trajeto de Deus em sua aproximação à pessoa.

A realidade está dominada por um Deus que também empreendeu um caminho para o homem.

O ser peregrino por parte do homem corresponde ao ser peregrino por parte de Deus.

O caminho se converte, então, em caminho para um encontro mútuo, um encontro de dois peregrinos.

Cada ser humano é um “homo viator”, é um caminhante; ele não recebe a existência pronta.

Seu caminho pessoal tem de ser desbravado com criatividade, ousadia e destemor.

S. Inácio não fecha em nenhum momento o encontro pessoa-graça; ao contrário, ele o projeta para o fu-               turo, para situações inéditas, para horizontes desafiadores... Esse horizonte sempre aberto é, no entanto, essencialmente imprevisível e em contínuo desafio, ao qual se abre o peregrino.

                                “Sou uma partida em todas as portas” (Zaratustra).

 

Os E.E. não ensinam chegadas, partidas. Esse é o desafio: “entrar”  no caminho de Deus é viver em terra de andanças.  É a pura alegria de navegar; é preferível navegar a atracar no porto.

               “Antes navegar, livre, nos mares da incerteza, na esperança de horizontes,

                que habitar, seguro, nos charcos onde o naufrágio é impossível...” (Rubem Alves)

Guimarães Rosa dizia que a coisa não estava nem na partida e nem na chegada, mas na travessia.

A experiência dos Exercícios é “experiência de travessia”, onde cada um constrói seu caminho diferente, original, não-normal... como Cristo.

                “Não tenho caminho novo. O que tenho de novo é o jeito de caminhar” (Thiago de Mello).

No seguimento de Jesus não há caminho, mas caminhos; não há traçado comum, mas trajetórias diferentes, ainda que confluentes.

Para S. Inácio, fica possibilitada sempre a aparição de uma resposta de seguimento que não é única em seu formato final, mas plural. E isso porque em sua base há uma palavra soberana de Deus dirigida à liberdade soberana de sua criatura. De ambas nascerá uma resposta selada por uma originalidade singular.

 

A “dynamis” do encontro pessoa-graça se configura como um caminho de cristificação.

A “busca” ou a “eleição” à qual se convida o exercitante, se há de fazer “juntamente” (EE. 135) com a contemplação da vida de Cristo. A liberdade não está desprovida de referência, senão que se apóia nos marcos decisivos da existência de Cristo.

           Cristo é o modelo de toda peregrinação; com sua peregrinação Ele abre possibilidade de outros caminhos. O Rei Eterno convoca a um seguimento que não está desligado de seu próprio destino: sua oferta é um “quem quiser vir comigo há de trabalhar comigo, para que, seguindo-me na pena, também me siga na glória” (EE. 95). Em suma, o parâmetro de evolução espiritual é o próprio Cristo e sua vida.

 

Jesus, o Homem dos Caminhos, chama para uma Vida nova. Chama na vida e para a vida e põe as pessoas em movimento, a caminho. A “pegada” que Ele deixa ao passar é sua própria Vida partilhada.

Jesus é o homem que se definiu. Ele tem um sonho, um projeto. E surge diante dos homens com força pessoal capaz de sacudi-los e colocá-los em movimento. Ele “passa” e sua presença os atrai arrancando-os da acomodação. Faz-se do chamado um caminho, quando se partilha a vida com quem chamou. Responder ao chamado feito por Jesus significa tornar esse chamado um caminho de entrega e de serviço.                                                  

                             - a quê sou chamado?

 

Textos bíblicos:    Mt 3, 13-17,  Lc. 5,1-12     Mt. 4,17-25

Procure rezar o seu Batismo. Sua adesão ao projeto de Deus.

Em Mc 1, 14-45 Busque fazer o caminho com Jesus. Observe como Ele age. 

 

Na oração:    Jesus das estradas poeirentas

                          “Dá-me percorrer contigo, Senhor, tua terra de andanças. Dá-me seguir-te a Ti somente.  Tu passaste deixando  tuas “pegadas” no pó da estrada, e sem perguntar “por que” muitos te seguem. Vás sem nada, peregrino, caminhando qual romeiro;  e vás chamando seguidores, que te seguem sem nada levar. Quem se atreve a pisar descalço tuas pegadas, sempre em marcha? A cidade não é teu caminho, é dura para as tuas sandálias. Gostas de deixar na terra a marca de tuas pegadas. Senhor dos Caminhos, que tiras as pessoas da segurança, das suas casas, de seus bens... E as atrai para seguir teu passo, feito atalho estreito, um convite para ir onde quer que vás. Quero ser caminhante, de coração pobre e livre, feito tenda aberta em teu chamado. Amém!”  

 

A DINÂMICA DA ELEIÇÃO

 

   Durante a 2a. Semana dos E.E. o exercitante entra no processo da ELEIÇÃO.

Ela começa com a contemplação da partida de Cristo Nosso Senhor de Nazaré para o Rio Jordão e o seu batismo (EE 273). É o momento do reconhecimento da motivação de fundo do lugar existencial, da orientação concreta de vida na qual o Senhor o chama.

A ELEIÇÃO representa o momento de encarnar, numa opção concreta, a OPÇÃO fundamental de fazer algo por Cristo, já vivida no colóquio de misericórdia da 1a. Semana.

Os E.E. vão mais além de uma simples decisão humana; ajudam a entender a DECISÃO de Deus, a VOCAÇÃO pessoal, o convite a um PROJETO único e irrepetível que cada ser humano tem de realizar na história pessoal e coletiva, na qual se encontra situado existencialmente.

A ELEIÇÃO nos E.E. se processa num nível muito mais profundo. Está relacionada à orientação do nosso ser interior, à atitude básica, existencial que governa todo o nosso estilo de vida, à noção fundamental, rica e profunda, em torno da qual tudo o mais se organiza e que unificará a nossa vida e a simplificará cada vez mais.

A descoberta dessa orientação supõe uma longa preparação interior que revela os obstáculos profundos ( afeições desordenadas) que se erguem na nossa vida à verdadeira liberdade espiritual, tudo para que nós possamos nos dedicar inteiramente  a trabalhar com Cristo na  instauração do seu Reino.

 

     A ELEIÇÃO é a experiência de ser escolhido por Deus para um determinado estado de vida ou uma

        atividade específica; é a descoberta da Vontade de Deus sobre a própria vida; é um ideal de santidade, que é realizado por Deus, e é a obra de Deus em nós.

               “...operai a vossa salvação com temor e tremor, pois é Deus quem opera em vós o querer e o

                operar, segundo a sua Vontade” (Fil. 2,12-13).

     A ELEIÇÃO supõe que nossos pontos de vista se situam sob a luz e o impulso do Espírito Santo.

        Começa pelo desejo de seguir Jesus Cristo, querendo-o de maneira única; tudo o mais deseja-se

        somente dentro desta vontade.

 

As decisões brotarão no momento em que a pessoa estiver madura para assumir sua responsabilidade, com a graça de Deus. S. Inácio não detalha o caminho a ser seguido: trata-se de discernir as exigências particulares e atuais da Vontade de Deus. O importante é que o exercitante se sinta na liberdade dos filhos de Deus, de modo que somente o Espírito Santo inspire suas decisões pessoais, e que, após o retiro, se sinta responsável de sua existência como filho(a) de Deus.

 

          A palavra decisão não é empregada por Inácio para definir a eleição; ele usa o substantivo eleição (36

          vezes) e o verbo eleger (21 vezes)  que a caracterizam e a qualificam como passividade e atividade.

          Nos E.E., o exercitante pede a graça para que Deus lhe manifeste o que quer dele (“pedir a Deus Nosso

          Senhor queira mover minha vontade e pôr  em minha alma o que eu devo fazer...” EE 180).

          Está longe aquele desejo de ser ele o único ator de sua história pessoal; eleger implica ter em conta

          Alguém maior que ele e outra Vontade distinta da sua.

 

A ELEIÇÃO não é o mero fruto de uma decisão, depois de uma reflexão prévia, mas o resultado de uma decisão depois de escutar a VOZ de Deus como guia e condutor das histórias pessoais.

     A maior liberdade está precisamente na concordância de meu querer com o querer e a vontade divina.

Todo o processo dos E.E. é uma progressiva purificação até chegar a fazer de toda ELEIÇÃO uma descoberta e nunca uma construção pessoal da Vontade de Deus. Descobre-se esta Vontade num processo de busca e escuta humilde e confiada, onde o Senhor se faz presente e se manifesta.

Cabe ao exercitante buscar sempre, mas é Deus quem se faz encontrar; ele deverá constantemente buscar a Vontade divina para colocá-la em  prática, mas deve aceitar que será sempre Deus quem a faz conhecer como um DOM seu, inteiramente gratuito.

Daí que a ELEIÇÃO não é um processo da pessoa fechada em si mesma, mas uma atitude de abertura constante, de escuta fiel à ação e aos sinais de Deus no próprio coração e na história.

 

     A ELEIÇÃO é, pois, o fruto de um processo pessoal no qual a AÇÃO do Espírito Santo tem um papel de-

     terminante. A pessoa, na liberdade interior ou com atitude de “indiferença”, deve eleger aquilo pelo qual

     se sinta atraída, depois de uma atividade interior de discernimento das moções  que percebe.

 

“TRÊS CLASSES DE HOMENS”três atitudes diante do SIM

 

Tática inaciana: despersonaliza o problema projetando-o em terceiras pessoas para logo aplicá-lo a si

                             mesmo. Esta meditação (EE. 149-157) permite alcançar maior maturidade, tanto me-

                             diante a libertação das resistências mais profundas quanto caminhar firme, na liberda-

                             de interior, pelo  caminho indicado pelo Espírito de Deus.

                         Queremos fazer a Vontade de Deus mas... temos resistências e apegos.

 

Objetivos: provar a sinceridade do meu querer (querer movido pelo AMOR que vem do alto”);

                   : teste da vontade; pôr à prova minha resposta;

                   : desvelar os enganos na escolha dos meios para o fim que pretendo;

                   : desvelar os “afetos desordenados” que poderiam falsificar uma boa eleição;

                   : aprofundar minha liberdade e a atuação da minha vontade;

                   : aqui os bons desejos são postos à prova. O desejo de servir a Deus encontra obstáculos;

                   : estar disposto a renunciar tudo aquilo que aprisiona a liberdade (não há possibilidade de

                     opção a não ser na liberdade);

                   : desprender-se de todo afeto não-ordenado.

 

1o. preâmbulo: históriatrês grupos de pessoas recebem uma quantidade de “ducados”; todos

                                                 querem salvar-se, desembaraçando-se do peso que o apego das coisas traz.

                                                 Três grupos de pessoas que querem tirar a afeição pelo dinheiro e servir a

                                                 Deus. Ante o desejo de deixar os “ducados”, reagem de maneira diferente.

                                                 Se somos governados pelos afetos desordenados (alienação) não encontramos a Vontade de Deus.

                                                 O que está em questão é a afeição e não a coisa.

 

2o. preâmbulo: composição vendo o lugar – a presença da Corte Celestial é o lugar onde, por

                                                                                   diversas vezes, S. Inácio exorta o exercitante a

                                ver-se e perceber-se. Por esse meio o exercitante é lembrado constantemente que 

                                não está sozinho, que sua aventura pelos caminhos de Deus não constitui algo isola-

                                lado, mas herança precedida, rodeada, envolvida por uma comunidade de fé, que de

                                todos os lados o acompanha, confirma, dirige...

 

3o. preâmbulo: pedir o que quero e desejo – a graça para escolher o que mais contribui para

                                                                                    a glória de Deus e um maior serviço.

 

Pontos: ao estar diante de algo que parece ser a vontade de Deus, verificar, antes de dar o sim, a qua-

                lidade deste sim. Podem aparecer, então, três atitudes:

 

1a. SIM = NÃO: “Quereria”, mas não põe os meios para servir. Vai adiando sempre. Não é problema

                            de inteligência (ele sabe); é problema de vontade.

                            Apego exagerado às coisas; não faz nada para libertar-se.

                            O 1o. Binário (EE. 153) representa a atitude daqueles cujos desejos permanecem só

                             desejos, dando voltas em si mesmo até o fim da vida. São aqueles que tem um desejo

                            “teórico” mas não operante. Ficam, por isso, infecundos: “quereriam...” mas nunca

                             chegam a nenhum tipo de compromisso. Estes desejos, mesmo não sendo desordena-

                             dos, paralisam a pessoa em seu caminho vital.

 

2a. SIM, “MAS COMO EU QUERO”: Sabe e quer servir a Deus, mas com uma condição: ficar  com os

                                                            “ducados”;

          - o problema não é a coisa, o bem adquirido, mas a afeição, a inclinação para a “coisa”; há uma

            espécie de lei da gravidade da pessoa para uma realidade humana determinada; trata-se de uma

            força, ou  conjunto de forças, que move a querer eficazmente ou a não querer;

          - faz de tudo para justificar a posse dos bens, com a desculpa de servir a Deus; põe os meios, mas 

            não o meio eficaz; este meio é tão importante que faz tudo para que Deus o aceite;

 

 

          - está tão apegado à coisa que se pergunta de tal modo que Deus responde afirmativamente; ele traz

            Deus para si, para justificar a posse;

          - manipulação de Deus para santificar seus afetos desordenados;

          - aparência de servir a Deus, mas está servindo a si mesmo;

          - o discernimento se converte em buscar razões para justificar sua posição; faz pequenas reformas

            mas sem deixar a “coisa”;

          - faz com que o Projeto de Deus se acomode ao seu projeto;

          - põe condições;  seguimento de Cristo com os próprios critérios;

          - quer fazer a Vontade de Deus e está disposto a fazer algo, menos uma coisa: deixar o bem adqui-

            do; retém o bem e pergunta pela Vontade de Deus;

          - é a atitude da dupla intenção, a do duplo fim: quer tirar o mau afeto, mas retendo a coisa à qual

            está mau afetado. É como se dissesse: “Eu quero um Deus que queira o que eu quero”; no

            fundo é “fazer um deus” de sua afeição desordenada.

 

                         Temos muitos aspectos, posições, cargos, possessões, atitudes, obras, opções, idéias...

                         que consideramos como Vontade de Deus; na realidade é projeção de nossos desejos, de nos-

                         sa vontade, de nós mesmos. Quem não está disposto a deixar algo, confessa que não está de

                         fato desprendido dela. É preciso disponibilidade total para encontrar a Vontade de Deus.

 

3a. SIM, “COMO TU QUERES E QUANDO TU QUISERES”: liberdade total

 

          - sente-se interiormente livre (“indiferença”) para que Deus disponha dele como quiser; coloca

            os meios necessários para o serviço;

          - sinceramente quer buscar o que Deus quer e está disposto a sacrificar o meio, se for da Vontade

            de Deus; desapego;

          - aceita o Cristo como Ele é; decisão firme para seguí-lo o mais perto possível;

          - desapega-se do bem para poder perguntar pela Vontade de Deus.

                         Para fazer um verdadeiro discernimento tem de estar no 3o. Binário, não desejando nenhuma coisa a não ser o maior serviço e glória de Deus.

 

Na oração: em quê situação eu me encontro?  quais são os meus “ducados”?

                     que fazer para aderir-me a Cristo incondicionalmente?

                     meu coração está livre? meus afetos são retos e ordenados?

                     estou na legítima “indiferença”?

 

Terminar fazendo o colóquio das Duas Bandeiras.

Começar a pensar na REFORMA de Vida (EE.135).

 

EE. 157 e 17: tática para mover nossa afeição desordenada (apegos).

                           É conveniente pedir para ser posto naquilo que me custa, fazendo o contrário das minhas afeições e interesses. Contudo, na perspectiva de deixar que Deus me coloque aí. Não se trata de puro voluntarismo.

Mais do que técnicas concretas, o que importa aqui é a atitude que por detrás delas se esconde. Enfrentar-se, opor-se, ser firme, atacar. Dar-se conta das tendências no coração que podem viciar uma decisão, e corrigi-las rapidamente, pondo-as a descoberto e pedindo a Deus que nos leve precisamente na direção oposta.

Ao pedir o oposto do que instintivamente queremos, nos situamos no tom, no ambiente, na expectativa da alternativa temida (a pobreza); essa postura interna elimina temores, alivia cargas, endireita razões e equilibra o processo eletivo para que possa funcionar em liberdade.

A graça e as bênçãos de Deus acompanham a generosidade da pessoa que chega a pedir na oração o que mais teme. Ao pedir, aceita; e ao aceitar, perde o medo.

              E ao perder o medo, se prepara para a tranqüilidade e o equilíbrio, que são clima essencial de toda

              eleição sadia. O temor sempre foi um mal conselheiro.

 

Textos bíblicos:     1. EE. 149-157         2. Mc 10,17-22          3. Lc 9,57-62         4. Mc 10,23-31

                                   5. Mc l,16-20            6. Mc 8,31-38            7. 1Tim. 6,3-10

 

 

ELEIÇÃO: construção da própria identidade

“Quem sabe o que quer e onde quer chegar, escolhe o caminho certo

e o jeito de caminhar” (Thiago de Mello)

 

S. Inácio acreditava que a tomada de decisão é crucial para a vida e o crescimento dos cristãos.

É pela eleição que, juntamente com Deus, criamos nossas individualidades.

Por isso ele propôs meios pelos quais costumamos tomar decisões sob a orientação do Espírito de Deus.

Nesse contexto de eleição, ele formulou e utilizou as “regras para o discernimento”.

Sabemos que a Eleição primeira, ou basilar, concerne à orientação fundamental da nossa vida espiritual – nossa vocação pessoal cristã à plenitude, à santidade. Os “objetos” de escolha são meios em vista deste fim, e devem estar de acordo com o mesmo.

Conforme a natureza de seu objeto, o processo de Eleição pode ser encaminhado nas seguintes direções:

 a) escolha de um estado de vida: consagração afetiva a uma pessoa (matrimônio), consagração afetiva a

      Deus (vida religiosa), entrega a uma missão específica...

 b) aprofundamento da eleição: como toda escolha é histórica, ou seja, está sujeita a aumentos e diminuições, segue-se a importância de que a mesma seja cultivada;

 c) re-orientação da escolha: se após algum tempo percebe-se que a decisão esteve viciada, não havendo

      conhecimento claro de si, a pessoa tem o direito e a necessidade de se decidir novamente, agora diante da verdade, e livremente, para seguir o que considera ser melhor.

 

Segundo S. Inácio, a partir de três tempos podemos tomar, diante do Deus vivo, as decisões que irão moldar nossa vida. Embora ele sugerisse que esses três tempos são independentes e se excluem uns aos outros, a experiência mostra que muitas vezes eles se sobrepõem ou se complementam.

Encontramos esses três tempos nos Exercícios Espirituais, números 175-177

1º tempo: S. Inácio fala sobre a certeza intuitiva que a pessoa tem sobre o objeto de escolha, atração que traz

uma convincente qualidade de verdade.

Embora possamos ser incapazes de prová-lo, temos a íntima confiança de que Deus a iniciou, abençoou ou inspirou. S. Inácio descreve aqui aquele tempo privilegiado de percepção ou introspecção que muitos experimentam e seguem com coragem, convicção e dedicação.

 

2º tempo: S. Inácio descreve o tempo de consolação e desolação como procedimento de eleição, e é aqui que

utiliza as Regras de discernimento. O procedimento de eleição pressupõe que, com bastante freqüência, experimentamos um tempo de certezas e de dúvidas, de força alegre e de fraqueza debilitante, de consolação e de desolação que se alternam.

Também pressupõe que essas realidades interiores constituem uma porta para entender a linguagem de Deus falada dentro de nosso ser. Essas realidades manifestam uma espécie de instinto inato entre o Espírito de Deus e o exercitante, de modo que as decisões que vão em direção a Deus estimulam a paz interior, a harmonia e a consolação interior.

As pessoas trazem dentro de si sua experiência personalizada de Deus. Têm acesso a uma linguagem interior que Deus inicia e que é “falada” como consolação espiritual.

Nesse sentido, as Regras de discernimento proporcionam diretrizes e critérios sobre a natureza, o valor e os propósitos da consolação espiritual. Embora não sejam infalíveis, as experiências de consolação trazem consigo uma dimensão de certeza que identificamos prontamente com a ação de Deus. Costumam ser atribuídas à presença e à ação do Espírito Santo.

Decisões em harmonia com essas experiências interiores estimulam ou causam consolação. As decisões que nos afastam de Deus levam à desolação interior.

 

3º tempo: É o tempo da inteligência iluminada pela oração, com freqüência chamado de método de prós e

contras. Aquele que vai tomar a decisão reúne e avalia as vantagens e desvantagens e, a partir dessa avaliação, escolhe a alternativa que lhe pareça mais razoável.

O método de prós e contras é aconselhado durante um período tranqüilo, quando são somos movidos de nenhum modo palpável pelo Espírito de Deus. Nessa ocasião, examinamos o assunto com cuidado e oração, tentando escolher um padrão de comportamento que esteja em razoável consonância com a presença de Deus em nossa vida.

É útil usar o terceiro tempo mesmo quando a clareza e a convicção estão presentes. Invariavelmente, a clareza intuitiva do 1º tempo e a consolação do 2º tempo enfraquecem e quase desaparecem. Quando isso acontece, é fortalecedor conhecer as razões e os motivos que subsistem e continuam a apoiar e até a reforçar a(s) decisão(ões) que tomamos.

Trabalhando juntos, a razão e o afeto proporcionam forte estímulo para implantar a decisão vivificante à qual deram origem.

AS BEM-AVENTURANÇAS (EE.278)

 

“... nós sabemos que não fazemos nada a não ser pregar o testemunho

subversivo das BEM-AVENTURANÇAS, que revolucionaram todos os

           valores ao proclamar: - felizes os pobres,

                                              - felizes os que tem fome e sede de justiça,

                                              - felizes os que sofrem” (Oscar Romero)

 

O Evangelho que foi depositado nas mãos da Igreja é um programa para alcançar a felicidade, a vida ditosa, prazerosa, bem-aventurada.

No meio dos discípulos começa-se a realizar e se propaga o anseio de toda a humanidade:

           “Ditosos (felizes) os que seguem os meus caminhos...,

            quem me encontra (a sabedoria), encontrou a Vida e alcançou o favor do Senhor””  (Prov. 8,32.35).

 

Na boca de Jesus brilha sempre a palavra chave: “Felizes”.

Anuncia um Reino de Deus que é oferta de felicidade e caminho para conseguí-la.

       Tanto em Lucas como em Mateus, as BEM-AVENTURANÇAS abrem dois grandes discursos

       inaugurais de Jesus, denominados, respectivamente, Sermão da Planície (6,20-49) e Sermão da

       Montanha  (5-7). Nelas está contida a quintessência do projeto de felicidade do Pai celeste para seus

       filhos.

 

A felicidade, proclamada aqui por Jesus, é já uma realidade presente na sua pessoa e na sua missão.

Todas e cada uma das bem-aventuranças são autobiográficas. Jesus viveu-as durante 30 anos antes de proclamá-las. Elas são, portanto, a expressão do que constitui o centro mesmo da sua pessoa e da sua missão, dos seus sentimentos, atitudes; numa palavra, do seu mistério.

Poderíamos dizer que as bem-aventuranças são o auto-retrato de Jesus.

Elas são o compêndio do ministério de Jesus. Não é lei que se impõe por si mesma; é confissão: “o Reino  chegou”.

 

As BEM-AVENTURANÇAS são essencialmente cristocêntricas.

Elas põem o discípulo no seguimento de Cristo e como Cristo, fazem-lhe percorrer o itinerário de um aniquilamento. Da pobreza à perseguição.

                           Da carência de bens à carência de tudo, até da liberdade e integridade física.

Este esvaziamento progressivo é itinerário inevitável do discípulo bem-aventurado porque segue os passos d’Aquele que nasceu pobre e se foi empobrecendo tanto mais quanto mais sofreu a perseguição até a morte.

 

As BEM-AVENTURANÇAS não são formuladas negativamente, nem na forma de um código moral, mas de maneira positiva e aberta. Não é pura doutrina, mas estilo de vida, um modo de proceder...

Jesus não prega diretamente uma moral. Proclama a irrupção  da graça, do amor, da misericórdia, da justiça de Deus na história da humanidade. Porque tem a certeza de que chegou a hora de Deus intervir na história, Jesus fica feliz e proclama “felizes” os até agora indefesos, oprimidos e marginalizados, mas que mantiveram viva a confiança em Deus.

        Detrás de cada uma das BEM-AVENTURANÇAS há séculos de promessas e de esperanças.

        Jesus é a encarnação de todas as esperanças do povo de Israel. As multidões acorrem ao seu

        encontro para serem alimentadas com o pão da Palavra, aliviadas de seus fardos e curadas de

        suas doenças...

 

Os enunciados das BEM-AVENTURANÇAS soam à primeira vista como “idealistas”, “utópicas”, absolutamente irrealizáveis no mundo em que vivemos. Não existem de fato proposições mais paradoxais, isto é, mais à margem, mais contrárias e mais opostas à opinião comum, sobre a natureza e sobre os caminhos da felicidade, que as bem-aventuranças evangélicas.

No entanto, elas são as propostas ao mesmo tempo mais “realistas”, mais “revolucionárias” e mais “eficazes” jamais pronunciadas.

 

 Elas passam pela liberdade diante das coisas e não pelo consumismo predatório e escravizador;

        passam pela humildade, a mansidão, a compaixão solidária, a fome e sede de justiça, e não pela

                     prepotência, a violência, a opressão, a dureza de coração;

        passam pelo olhar limpo, nascido de um coração honesto e leal, e não pelos  jogos interesseiros e

                    mesquinhos do poder;

        passam pela perseguição por causa da justiça e não pelo triunfo com as armas da mentira.

 

As BEM-AVENTURANÇAS são a exposição mais exigente e, ao mesmo tempo mais fascinante, da doutrina e da “intenção de Cristo”. Elas são a plenificação daquilo que é o mais humano.

Em hebraico, o termo “infelicidade” quer dizer “estar parado”. A “felicidade” está em caminhar.

                      A bem-aventurança é “andar”.  

 

Na oração:

À diferença e todos os mistérios contemplados até agora, na contemplação deste mistério o cenário permanece imutável. Jesus vai ficar o tempo todo falando no mesmo lugar, sem mover-se.

Ele ocupa o centro da cena e é o único ator. Por isso, nosso “olhar”, “escutar”, e “observar” devem permanecer, ao longo de toda a contemplação, fixos na sua pessoa e nas palavras que saem de sua boca; e ouvi-las como dirigidas direta e pessoalmente a cada um de nós.

S. João da Cruz põe na boca de Deus estas palavras:

   “Se já te falei todas as coisas em minha Palavra, que é meu Filho, e não tenho outra, que te posso eu

    agora responder ou revelar que seja mais do que isso? Põe os olhos só nele, porque nele te tenho dito e

    revelado tudo, e o encontrarás tudo, porque Ele é toda minha locução e resposta, e é toda minha visão e

    revelação; o qual vos tenho já falado, respondido, manifestado e revelado, dando-vo-lo por Irmão, Com-

    panheiro e Mestre, Preço e Prêmio”.

 

Talvez o melhor modo de fazer esta contemplação seja um dos “modos de orar” propostos por S. Inácio:

          “Contemplar o significado de cada palavra da oração” (EE. 249).

Justamente nisto deve consistir nossa principal atividade contemplativa neste mistério.  Permanecer na consideração de cada uma das palavras ou frases das bem-aventuranças tanto tempo quanto nelas encon- trarmos significações, comparações, gosto e consolação, em considerações relacionadas com a mesma (EE. 252).

Ao orar as bem-aventuranças deste modo, “ruminando-as”  uma por uma, frase por frase, fixos os “olhos da imaginação” na pessoa de Jesus que as proclamou e as viveu, elas vão se tornando substancia da nossa vida espiritual, das nossas atitudes, das nossas opções, das nossas práticas...

 

Mesmo que não possamos separar as Bem-aventuranças , para considerá-las uma a uma, podemos, no entanto, fixar nossa atenção e “saborear interiormente”  uma bem-aventurança cada dia, para viver na  vida diária o valor evangélico que ela contém.

Pode-se tomar uma postura de contemplação estando no Monte das Bem-aventuranças, sentado, escutando e olhando a Jesus.

 

Na noite anterior ao primeiro dia, pode-se ler o texto completo das Bem-aventuranças.

 

Dia 1: Considere hoje a “pobreza de espírito”. Procure convencer-se que o Reino de Deus, a fraternida-

           de é possível. O termo hebraico “anawin” (pobres) indica pessoas “encurvadas”. Trata-se da po-

           breza como esvaziamento pessoal e dependência de Deus.

           “Pobre de espírito” indica dinamismo; o espírito é sopro, força vital.

 

Dia 2: Considere e examine hoje a mansidão. Propõe-se a mansidão como uma via de felicidade. Como

           está a mansidão em você? Você vive num ambiente onde há mansidão, tolerância, compreensão...?

           Manso não é debilidade, mas força suavizada.

           Quando Deus prometia a posse da terra, por meio dos profetas, fazia pensar que todas as suas aspi-

           rações se veriam cumpridas: longa vida, um reino de justiça, tempo clemente com chuva para as ter-

           ras...

 

Dia 3: Considere hoje em você e no ambiente que vive o valor bíblico “dos que choram”. Isto é, busque

           despertar em você e nos outros a sensibilidade e a esperança  de uma justiça para todos.

           Deus prometeu a Abraão uma benção e salvação para toda a humanidade. Tome consciência do

           consolo que o faz feliz; sinta que Deus lhe quer bem e cuida de todos.

 

Dia 4: Considere hoje a “fome e sede de justiça”. É um modo de viver a felicidade. Hoje, isto se chama

           solidariedade, colaboração, compartilhar, renúncia de privilégios em favor dos outros, serviço e tra-

           balho para que os outros cresçam... Durante o dia ilumine seus pensamentos e a realidade que o ro-

           deia com a luz da justiça...

 

Dia 5: Considere hoje a “misericórdia”, a compaixão. É um mandato de Jesus Cristo ser misericordioso

           como o Pai é misericordioso...

 

Dia 6: Considere hoje a “pureza de coração”. Pode-se chamar isto de intenção reta, o desejo de fazer

           bem as coisas... no momento adequado, fazendo-as completas, acabadas...

 

Dia 7: Considere hoje a “paz”, o trabalho para conseguir a paz. É um fruto da justiça, mas é um DOM do

           Senhor, que se consegue com o coração limpo e com o trabalho pela justiça...

 

             Ao iluminar os acontecimentos de sua vida cotidiana com os “flashes” sugeridos por esta passagem da

             vida de Jesus, peça ao Pai que o coloque junto a seu Filho, como Inácio pedia, para que possa conhecê-

             lo melhor, amá-lo mais e ser-lhe mais fiel em seu serviço a Ele e aos outros.

 

 

TENTAÇÃO SOB APARÊNCIA DE BEM (EE. 332)

 

Havia um sufi santo que rezava todas as noites antes de deitar-se; mas uma noite se esqueceu e, quando já estava dormindo, notou que alguém o sacudia e lhe dizia:

- “Levanta-te e faze a oração da noite, pois a esqueceste”.

Ele se levantou logo e se pôs a orar, mas antes olhou um momento para ver quem era que o havia despertado e para agradecer-lhe. Qual não foi sua surpresa quando, olhando bem, viu que quem o havia despertado era nada menos que o demônio Iblis em pessoa. Quis certificar-se e perguntou:

- “És tu o demônio?”

- “Sim”.

- “Não entendo. Eu julgava que o papel do demônio era fazer com que as pessoas não rezassem, e agora verifico que o demônio me

    desperta e me lembra de fazer a oração que eu havia esquecido. Não entendo.

- “Posso explicar. Sim, eu faço com que as pessoas não rezem.

    De fato, alguns dias atrás, eu mesmo te fiz sentir muito sono e dormiste sem fazer a oração. Lembras?

    Eu fiquei satisfeito, mas na manhã seguinte, quando acordaste e te lembraste de que não havias feito oração na noite anterior, 

    sentiste tal dor e contrição que ganhaste muito mais mérito diante de Deus com tua penitência e arrependimento do que terias

    ganho com a oração. Assim é que hoje não quero que aconteça o mesmo.

    Não quero que despertes amanhã com remorso por não teres rezado e ganhes outra vez mais mérito, pois isto me deixa em má

    situação. Por isso faze o favor de levantar-te e rezar agora como Deus manda, e nada de tolices e arrependimento amanhã!

Com isto Iblis foi embora e o sufi rezou.

 

Na 2ª Semana dos Exercícios Espirituais supõe-se uma adesão afetiva maior a Deus e ao que Ele quer.

                   A pessoa já está firmada em razões que a lançam para um seguimento mais de perto de Jesus.

                   Mas pode não ter clareza sobre o concreto deste seguimento.

                   Esta falta de clareza é o ponto vulnerável para os “ataques” do inimigo, o qual joga muito

                   com“razões aparentes” (razões não centradas no amor, mas em si mesmo) e na apresentação

                   de “coisas boas” (em si), mas que são um “mal” para a pessoa ou na pessoa.

 

Na 2ª Semana, os pontos fracos são os pontos fortes. Onde somos humanamente fortes, aí o espírito do

                         mal pode entrar: nossos talentos, capacidades... podem nos levar ao orgulho, auto-sufici-

                         ência... desviando-nos do Evangelho.

O “mau espírito”  apresenta coisas boas em, “em princípio”, mas que não são saudáveis para mim, no caso específico. A ação do “mau espírito” na 2ª Semana é cativar-nos não pela “debilidade”, senão aproveitando os “fervores indiscretos”, que se montam sobre nossos “ideais exagerados”.

Estes fervores ou ideais exagerados – que não tem como fazer-se viáveis – são o lugar de cultivo de todas as artimanhas na 2ª Semana, tanto pelo conteúdo do fervor (cuja base é um ideal exagerado) como pelo gosto do fervor mesmo.

Algumas características dos “ideais exagerados”:

- é uma artimanha que se monta sobre algo positivo, sobre uma qualidade pessoal;

- como o que propõe não tem “viabilidade” de implementação, há um tom de idealismo exagerado

- atender a este discurso faz perder o tempo presente em vista de um futuro; não aproveita o

  “fazer” atual para pensar o que se poderia fazer amanhã;

- há uma tendência a converter-se em juiz e critério de verdade a respeito da vida dos outros;

- o fruto final é o endeusamento, a soberba que afasta radicalmente do plano de Deus para cada um

- um efeito sociológico disso é que este “ideal” tende a “vacinar” os outros; em vez de provocar

  seguimento  e desejo de imitação, gera resistência à linha proposta;

- por sua mesma essência, os ideais exagerados tem como veículo um “discurso”. Quando se

  apoiam em  algo do sentimento, estes ideais se convertem em “fervores indiscretos”.

 

O fervor indiscreto tem muito em comum com o ideal exagerado, mas tem também algumas diferenças:

- leva em conta algo positivo de nossa sensibilidade: atitudes que são boas em si, talvez as melhores;

- fomenta  ações e atividades bem concretas;

- estas ações tem a característica de serem abruptas ou provocadas por “arrebatamentos”;

 - sensação de que ninguém pode ser “meu juiz”, que o que faz é inusitado e ninguém poderia

   compreender. Não partilha com ninguém;

 - há em todo fervor indiscreto um tom de valentia, ao supor que tem mais força para realizar o

   que lhe afervora, ou que conta com muita graça de Deus. Não há discernimento na indiferença;

- em vez de servir aos outros, de afervorá-los, o resultado é que se consome, se queima, se acaba...

 

Texto bíblico:   Lc 14,28-33

                                       

 

JESUS DIANTE DE PESSOAS (EE. 282)

 

“... para restituir a liberdade aos oprimidos” (Lc. 4,18)

 

“O sinal de autenticidade de qualquer vida interior, isto é, de qualquer relação com Jesus Cristo, é a descoberta do próximo ( Schutz)

         Em Jesus de Nazaré oferece-se a face humana de Deus: todo gesto seu, todo aspecto de sua verda-

         deira e plena humanidade é aparição de Deus entre os homens; todos os gestos de Jesus nos falam

         da ternura do Pai; Deus, em sua plenitude, é plenamente solidário com o ser humano.

                     “Diminuir a HUMANIDADE de Cristo é diminuir a sua DIVINDADE”.

 

Deus não concorre com o homem em Jesus: o humano é plenamente assumido e radicalmente valorizado na história do Filho.

A ação de Jesus é toda como uma evocação ou uma parábola viva da ação de Deus... o seu comportamento 

                                      é a  transcrição do comportamento de Deus” (C. Duquoc).

Jesus convive, a maior parte de seu tempo, com aqueles que não tinham lugar dentro do sistema social-religioso existente. Ele se coloca ao lado dos excluídos e dos últimos da história:

         - acolhe os “imorais” (prostitutas e pecadores), os “marginalizados” (leprosos e doentes), os “he-

           rejes”(samaritanos e pagãos), os “colaboradores” (publicanos e soldados), os “fracos e os po-

           bres” (que não tem poder nem saber);

         - os que não tem lugar recebem um lugar.

 

Nós cristãos deveríamos aprender a “ver os grandes acontecimentos da história do mundo a  partir de baixo, da perspectiva dos inúteis, dos suspeitos, dos maltratados, dos que não tem poder, dos oprimidos, dos desprezados, numa palavra: da perspectiva dos   que sofrem” (D. Bonhoeffer).

O “novo” na opção pelos pobres não reside, em primeiro lugar, no interesse pelos “pobres”, mas na inversão de ótica. Não se trata tanto de uma ação caritativa (embora nunca pode faltar quando estamos diante do pobre concreto), mas sobretudo de fazer o próprio pobre sujeito histórico e protagonista de uma sociedade nova marcada por maior humanidade, partilha, solidariedade, convivência fraterna e justiça.

 

Na oração: contemplar Jesus diante de pessoas concretas

                          - Amor especial a cada pessoa (relação íntima, delicada...)

                          - acolhe a todos com bondade e compreensão

                          - rompe as convenções sociais da época.

                 : deixar que a atitude de Jesus frente às pessoas penetre na minha vida e me transforme;

                 : “entrar” no coração de Jesus e aprender d’Ele o jeito de tratar as pessoas.

 

CONHECIMENTO INTERNO: é, antes de tudo, uma relação existencial, uma experiência de vida, um

                                                 encontro com a pessoa de Jesus, que a partir de nossa própria profundida-

                                                 de vai à profundidade do Senhor e vice-versa.

                  Mediante este conhecimento  a pessoa e a vida de Jesus penetram no mais profundo de nos-

                  so ser: em nossa consciência, coração, critérios, gostos, maneiras de viver... e nós penetramos

                  no mais íntimo de sua pessoa: sua visão do  mundo, seus critérios, seus valores e suas opções e,

                  de uma maneira especial, sua  relação com o Pai.

CONHECIMENTO dinâmico e transformante: nos leva à IDENTIFICAÇÃO com Cristo.

CONHECIMENTO interno: caráter sapiencial e cordial da experiência. Trata-se, no exercitante, de 

                                           um conhecimento total e que não termina em um enriquecimento de

                                           idéias, mas em uma adesão. O verbo “affectar” joga um papel central

                                           nessa experiência, equivalente ao do “conhecer bíblico”.

Para a Sagrada Escritura conhecer uma coisa é ter experiência direta dela; está além do saber humano.

Conhecer alguém é entrar em relações pessoais com ele, adquirir um compromisso real com profundas

                               conseqüências. Por isso: cada momento de nossa vida deve ser confrontada com a

                                                           de Jesus;  cada momento da vida de Jesus deve questionar a nossa.

Seguir Jesus: significa viver n’Ele, participar de sua Vida, reproduzir em nós suas atitudes interiores,

                       seus pensamentos e sentimentos mais íntimos, toda sua Vida.

 

Textos bíblicos:   1) Jo 4,1-42            2) Lc 6,6-11                3) Lc 7,36-50               4) Jo 9

                                  5) Lc l9,1-10          6) Jo 8,1-11                 7) Jo 5,1-18

 

 

MISERICÓRDIA = COMPAIXÃO

 

“Tende em vós os mesmos SENTIMENTOS de Cristo Jesus” (Fil.2,5)

 

Segundo S. Inácio, o “mistério” contemplado deve projetar-se em nossa vida (refletido); trata-se de colocar a própria experiência vital diante do Mistério e assim fazer a contemplação o mais existencialmente possível, visando chegar a uma decisão de vida.

 

CONHECER – AMAR – SEGUIR: para S. Inácio (partindo da experiência bíblica)  o ser humano conhecer e esse conhecer não é estático, mas dinâmico, transformador e que leva ao compromisso.

É reduzir e empobrecer os Exercícios considerá-los só como um método para tirar as afeições desordenadas” (EE. 1), “sem determinar-se por elas” (EE. 21).

O segredo dos Exercícios é desenvolver, dar espaço a outras “afeições”  (“os que quiserem mostrar maior afeição”; “para mais afeiçoar-se” EE. 97; 164).

Trata-se de um conhecimento que avança para o centro mesmo de Cristo, que não se detém nem se satis

faz com o nível de “seu modo de proceder”, nem sequer com o nível de seus critérios e valorações, mas que aspira “conhecê-lo” como é conhecido (1Cor 8,5), e entrar em relação com Seu modo de ser Filho.

 

      O caminho do “conhecimento interno” é o da consideração das obras de Jesus.

      A variedade de ações, gestos, atitudes... apresentam, a partir de diferentes ângulos, a pessoa do Senhor.

      A pessoa, seu coração... se nos revela por suas obras.

      O interior do coração de Jesus aparecerá no exterior de cada uma de suas obras, expressões de seu Amor.

      Através do “conhecimento interno” mergulhar nos sentimentos de Jesus Cristo; cristificar ou

                                                                  evangelizar os próprios sentimentos.

         JESUS e SENTIMENTO referem-se mutuamente.

         Jesus não passa “friamente” por nada. Ele não passa friamene ao lado da fome, doença, angús

         tia, morte... não passa friamente ao lado das multidões e dos indivíduos que não tem pastor al-

         gum. Seu SENTIMENTO  está sempre engajado: Ele é o homem da prontidão de sentimentos,

         que com todos partilha esses sentimentos. Sente-se “tocado” pela dor e miséria.

         E jamais fica em sentimentalismos supérfluos: sua empatia e simpatia extravasam-se em

         ações comandadas pelo sentimento. Seu simpatizar-se é uma “ação da vontade”; sua empatia

         torna-se,  espontaneamente, ato e ação.

         O sentimento de Jesus é “espontâneo”, que flui e jorra.

         O sentimento de Jesus é “seguro”; nele não notamos hesitação ou vacilação alguma; esta se-

         gurança é designada pela expressão “agir com autoridade”.

         O sentimento de Jesus é um “sentimento de valor”. Expressa-se com isso a mais íntima essência do seu sentimento puro. O genuíno sentimento sempre toca um valor máximo ou mínimo.

         O sentimento é sempre uma espécie de “valorização interna”, de “avaliação”.

                                     “O sentir comunica a alguém, através do tom do sentimento, o valor das coisas” (Jung).

         Jesus toma as pessoas pelo seu lado mais valioso, acolhe-as por seu valor próprio, por serem a

         imagem de Deus. O sentimento de Jesus é “criativo de valores”. Ele cria novos valores na li-

         nha do evento histórico. É um sentimento que instaura valores.

        Jesus, tendo este tipo de sentimento, é um verdadeiro inovador e descobridor.

         O sentimento de Jesus é “oniabrangente”. A função do sentimento de Jesus não é diminuta e

         estreita; ao contrário, é ampla e abrangente (lírios, aves do céu, crianças, pecadores, multidão)

 

Os Evangelhos destacam os profundos sentimentos  de humanidade, compaixão, empatia, ternura e solidariedade misericordiosa de Jesus.

Muitas vezes é mencionado que o Senhor foi “comovido até as entranhas”  e teve “frêmitos de compaixão”; trata-se de sentimento eminentemente humano.

                       - tem compaixão da multidão “porque estava cansada e abatida” (Mt 9,36);

                       - diante de um leproso fica “movido de compaixão” (Mc 1,40);

                       - o mesmo em relação aos dois cegos de Jericó (Mt 20,34);

                       - comovente é o gesto compassivo para com a viúva de Naim (Lc 7,13);

                       - a sensibilidade de Jesus encontra sua expressão mais forte no episódio de Lázaro. Suas

                         emoções e lágrimas traduzem um afeto terno e profundo, que brota de um coração intima-

                         mente tocado pela dor (Jo 11,33).

 

Tornar presente o Pai como Amor e Misericórdia, é para Jesus o cerne de sua missão de Messias: toda a

                           sua vida foi uma eloqüente demonstração da misericórdia divina para com os homens.

                           Através dos seus sentimentos Ele revela o rosto humano de Deus.

 

        “MISERICÓRDIA é COMPAIXÃO suscitada pela miséria alheia” (Aurélio).

 

Fundamentalmente, a misericórdia significa assumir como própria a miséria do outro, inicialmente como

                                                         sentimento que nos comove, mas que, logo em seguida, leva à ação.

                               A misericórdia parte das “entranhas” e se dirige instintivamente ao próximo na for-

                                                         ma de ternura, compaixão, simpatia.

                                                         Este impulso do coração conjuga-se com um sentimento de fidelida-

                                                         de a si mesmo numa comunhão de vida e de destino com o irmão

                                                         que  sofre.

 “Quando você sofre, eu também sinto este sofrimento e tudo em mim se empenha para que você encontre libertação”  (Abbé Pierre)

 

Misericórdia é exatamente: “ter coração” para o outro, dando preferência aos pequenos e pobres.

                           É captar no próprio coração o grito do irmão: “venha em meu socorro”.

A misericórdia é a caridade que “toma mãos e pés”,  ou seja, o amor que se declara, age e manifesta.

                          Não pode ficar oculto no coração. Sua própria natureza exige que se revele.

                          Percebe-se que a misericórdia, como manifestação típica da caridade, não é apenas um

                          sentimento, mas uma ação decidida e generosa, capaz de transformar e libertar.

                                 Ela é inseparável da justiça e se concretiza no partilhar.

                                 Não se trata de ‘dar” ao outro qualquer coisa, mas de admiti-lo em nossa vida.

                                 Ela não conhece limites em suas afeições e seus dons (2Cor 12,15).

                                 A caridade como misericórdia é “plenitude transbordante” (Fil 1,9; 2Cor 8,7),

                                                     desejosa a se devotar e servir totalmente (Gal 5,13).

A misericórdia é o coração que “tem olhos”, simultaneamente lúcido e extremamente terno e sensível.

                                “A MISERICÓRDIA é a perfeição do grande mandamento do Amor” (B. Haering), é o âmago da vidacristã em seguimento a Cristo.

                                                       Só se torna realizável em nós pelo fato de nós mesmos sermos acolhi-

                                                       dos na misericórdia divina e podermos assim participar do amor de

                                                       Deus.

 

Misericórdia - “estilo” de vida cristã;

- modalidade específica de viver os valores do Evangelho;

- traço característico do seguimento de Jesus.

 

Textos bíblicos:   1) Mt 14,13-21             2) Mc 1,40-45             3) Mt 20,29-34         4) Lc 7,11-17

                                 5) Jo 11,17-44              6) Mt 15,32-38           7) Lc 10,29-37

 

 

CONSOLAÇÃO: critério de Eleição

deus fala através da consolação

A consolação é uma "moção"; é pois algo que está em nós, mas não é nossa; há um agente atuando em nosso ser. Na consolação o Ser que atua e age em nós é nada menos que o próprio Deus. A consolação, em síntese, é a ação de Deus no ínterior de nosso ser, a comunicação do amor divino.

Deus comunica seu amor como somente Ele pode fazê-lo. Abre as portas do amor e a

pessoa se sente inundada.

A esta moção de consolação, S. Inácio atribui explicitamente dois elementos que se

constituem em critério de Eleição:

a) "Vai aquietando a alma e pacificando-a em seu Criador e Senhor", isto é, a consolação produz necessariamente a pacifícação interna, faz sentir essa conaturalidade entre o objeto da consolação e as aspirações mais íntimas e profundas da pessoa, é o "elemento subjetivo".

E uma paz unificar! te e construtiva: trata-se de uma paz que está próxima da certeza, que é sinal do Espírito no qual se conseguiu unificar um bom número de elementos aparentemente contraditórios; a paz que é, ao mesmo tempo, humilde e audaz*prudente e lançada e, enfim, que está cheia de iniciativas. A razão profunda que nos vai permitir compreender as coisas é que Deus constrói; Deus ajuda uma pessoa a fortalecer-se, a enriquecer-se, a integrar cada vez um maior número de elementos. Por que? Porque Deus, em definitivo, é a Vida e a Fonte da vida e diante d'Ele há outra força que é uma força de destruição, uma potência de morte.

b) "E a alma inflamada no amor de Deus aspira, decidindo-se, a coisas sempre maiores". Este é o sentido fundamental da regra inaciana do "princípio, meio e fim". É o "elemento objetivo".

Será "tudo bom" se o que se propõe ao exercitante é conforme ao Princípio e Fundamento e à doutrina verdadeira de Cristo, dentro da Igreja... para glória de Deus. Em S. Inácio, a consolação tem um efeito pragmático e apostólico. A consolação por excelência é a "confirmação"; é ali onde se percebe a força e o sentido dela.

Confirma-se um modo de proceder; confirma-se um caminho começado; confirma-se uma

eleição de vida.

Outros critérios complementares de Eleição                                                                                             ^

1. O equilíbrio, a medida. O Espírito de Cristo trabalha sempre em nós, no sentido do equilíbrio, do que convém à nossa psicologia, às nossas forças espirituais, à nossa constituição somática, à nossa saúde... O mau espírito vai sempre no sentido do excesso, do desmedido. Uma pessoa pode desviar-se aparentemente para algo melhor e, contudo ter passado para algo excessivo, e em definitivo para algo pior para ela.

2. A coerência e as "constantes" da açáo de Deus no nosso "eu profundo", O discernimento de espíritos e, portanto, a Eleição, só se podem fazer dentro de uma história, A vida de Deus no "eu profundo" é sempre coerente: E>eus vai agindo e convidando a pessoa - ordinariamente - dentro de um contexto, isto é, dentro de um temperamento determinado, de umas forças espirituais e psicológicas, de moções experimentadas antes, de determinações anteriormente tomadas, de certas formas de oração, de tendências anteriores. Esta história não deve sei' desconhecida nem minimizada (processo de continuidade)

3. A duração do desejo, isto é, não algo repentino, mas duradouro: nos momentos mais densos da vida, ele volta

4. A qualidade do desejo; sempre que vem me deixa em paz, animado, tranqüilo, unificado. Se não consigo concretizá-lo logo, não fico angustiado nem ansioso (paciência, fidelidade, constância...).

5. A capacidade para o difícil: é sinal que o Espírito de Deus age em nós. Se estamos na paz e na alegria quando o objeto da Eleição se orienta para algo de austero e difícil, é sinal indubitável da presença do Espírito.

6. O mau espírito excita a imaginação, exige a realização imediata, ele nega o tempo. A maneira do Espírito é, em definitivo, apaziguamento do ser, confiança em Deus, abertura aos outros. "Pêlos frutos se conhece a árvore".

7. Quando o exercitante está em Eleição, os pensamentos provenientes da consolação o movem e dirigem a uma alternativa da Eleição. Não apenas a própria consolação é uma atração afetuosa para essa alternativa como admiração, carinho, gosto, alegria para tal ou qual estado de vida; mas também os pensamentos que brotam do tal afeto espiritual, conduzem para a mesma alternativa: "é o que sempre quis"; "fora disso nada me faz feliz..."

 

 

 

 

 “COMO CRISTO N. SENHOR ACALMOU A TEMPESTADE - EE.279

 

A mensagem dos textos evangélicos que falam das “tempestades”  é nitidamente eclesiológica. As cenas simbolizam a relação de Cristo com a Igreja. A barca com os discípulos no meio do lago, no meio da noite, no meio da tempestade, representa a Igreja, sacudida pela fúria dos elementos desencadeada contra ela; uma igreja aparentemente frágil, impotente e abandonada, lutando para encontrar um rumo no meio da noite.

                 Jesus revela-se no meio das provas e liberta-nos do medo e da dúvida.

 

Aparentemente, Jesus está ausente quando seus discípulos se encontram no meio da tempestade, em perigo de morte. Na realidade, Jesus está sempre unido à sua Igreja, orando pelos seus; e na hora certa manifesta o seu poder, libertando-os do medo e infundindo-lhes ânimo. A Igreja tem de perseverar na mesmo quando é agitada e açoitada pelas ondas e pelos ventos das provações e perseguições.

Pedro, na sua relação com Jesus, representa a figura do discípulo. Nas suas palavras, ações e atitudes mostra

            como não deve e como deve se portar o discípulo de Jesus na Igreja. Pedro é exemplar na grandeza  e 

            na fortaleza de sua fé; mas Pedro é igualmente o exemplo da pequenez e da fraqueza de fé dos discípu-

            los de Jesus. Em Pedro convivem ou se alternam com extraordinária rapidez os arranques de generosi-

            dade e os recuos diante das dificuldades, a coragem e a covardia, a que tudo ousa e a “pouca fé”...

            As fraquezas e as infidelidades de Pedro são, porém, sempre de novo restauradas por Jesus.

 

Aqui está a atualidade permanente do mistério que vamos contemplar.

A da Igreja que somos nós, a de cada um dos discípulos, tem, como a de Pedro, altos e baixos.

Cada um de nós é, como Pedro, ora pedra viva, rocha, ora pedra de tropeço no caminho, escândalo. Todo discípulo de Cristo vive alternadamente a separação e o encontro, vive o medo e a , mas uma que está sempre ameaçada pelas águas do medo e da dúvida.

      Mesmo quando se considera adulto, autônomo, auto-suficiente, senhor da natureza e da história, o ser humano, quando mergulha até o fundo de sua existência, também se experimenta como  criatura limitada e frágil.

      Uma frase de dois monossílabos: “SOU EU!” é suficiente para tranqüilizar-nos. Basta saber que é  Ele, o Mestre”, o “Senhor”, para perder o medo e recobrar a confiança.  Quando reconhecemos sua VOZ, sua PRESENÇA, ainda que nos encontremos no me-

      io das piores  provações, não precisamos  de nenhum outro sinal.

 

Passemos para a outra margem (Mc 4,35)

Jesus nos convida a sair da nossa própria margem, para ir à margem do Outro e dos outros.

“Passar para a outra margem” exige mudança de atitude, pôr-se a caminho, êxodo, sair-de-si.

O exercitante tanto aproveitará em todas as coisas espirituais, quanto sair do seu próprio amor, querer e interesse” (EE. 189)

A experiência dos Exercícios é a experiência da travessia, sem saber exatamente as tempestades ou calmarias que virão, porque “o vento sopra onde quer”, como o Espírito.

Há uma tendência em nós de acumular coisas, estilos de vida, idéias, convicções, vivências não trabalhadas, traumas, fracassos... que se tornam um peso, carga em excesso...

Isso dificulta a travessia, nos leva ao imobilismo, à acomodação, e ameaça afundar o barco da vida. A tem-

pestade é o momento de tomada de consciência que estas “coisas”  não tem sentido; é preciso jogá-las ao mar. É dificil deixar a carga (nosso passado conhecido) e partir para o novo (outra margem desconhecida).

 

Não lhes será dado outro sinal senão o do profeta Jonas  (Mt 12,39)

O livro de Jonas é o livro da “travessia” de todos os medos, dúvidas, resistências...

Jonas é um homem que tem medo de mudanças, que foge de sua identidade,  de sua palavra interior,

         que foge de sua vocação, da missão que recebeu de Javé.

         A recusa da Palavra interior, a recusa do Desejo do Senhor, vai desencadear ondas de mal-estar.

         É este o símbolo da tempestade que vem agitar a barca de Jonas. Jonas “mergulha”  e o mar se

         acalma. Estar em harmonia consigo mesmo não acarreta conseqüências  nefastas para ninguém.

         A “passagem através do mar” é a condição para nos tornarmos autênticos.

Na oração: ao contemplar a relação de Pedro com Jesus estamos nos contemplando a nós mesmos; nosso entusiasmo por Jesus e sua proposta é sincero, mas não está ainda suficientemente purificado.

                          Escutar repetidamente as palavras do Senhor: “TENDE CONFIANÇA! SOU EU! NÃO TEMAIS!”

 

Textos bíblicos:    1) Mc 4,35-41          2) Mt 14,22-36            3) Jo 21,1-14           4) Mt 16, 13-23

                                  5) Lc 5,1-11            6) Jonas 1                    7) Jonas 2

 

 

COMO CRISTO EXPULSOU OS VENDILHÕES DO TEMPLO (EE. 277)

 

A fidelidade de Jesus nos CONFLITOS

 

“Não vim trazer a paz, e sim a espada”  (Mt 10,34).

“Eis que eu envio vocês como ovelhas no meio de lobos...”  (Mt 10,16).

“A Criação toda geme e sofre dores de parto. E não somente ela, mas também nós”  (Rom. 8,22).

 

                              Jesus é claro: apresenta-nos as conseqüências do seu seguimento.

                              Quem vive radicalmente o Evangelho, vai ser rejeitado, perseguido...

Tudo o que Jesus faz – suas atitudes, seus gestos, suas palavras -  revelam uma nova visão das coisas,

                                     um novo ponto de partida, uma nova ordem, um novo projeto.

                                     Jesus encarna-se num mundo fechado, dividido, conflituoso...

                                     Faz-se presente no mundo da dor: enfermos, pobres, pecadores... a partir daí pro-

                                     põe um projeto novo.

 

Vivendo e anunciando a Boa-Notícia  do Reino, Jesus vai provocando conflitos.

Encontramos o conflito já no centro do mistério da Encarnação: Ele veio para os seus, mas os seus não

                                       o receberam” (Jo1,11). Isso vai se prolongar durante toda a sua vida.

Jesus não buscou o conflito (já que trazia uma mensagem de misericórdia e fraternidade) mas conheceu uma das experiências conflitivas mais dramáticas da história humana.

          Há um traço na personalidade de Jesus que os Evangelhos destacam: Ele era um “transgressor”.

          Rompeu com a família, afastou-se da vida normal que todos levavam, rompeu com as tradições de seu

          povo, violou a lei do sábado, não respeitou as hierarquias, a ordem estabelecida, revelou-se livre perante

          o Templo, o culto...

          Sua transgressão decorria da percepção de situações extremamente injustas vigentes na sociedade e das

          quais as primeiras vítimas eram os excluídos. Jesus optou por ficar do lado das vítimas.

 

Jesus passou a viver a partir de um sonho primordial: o REINO.

Isso lhe conferiu um poder acima de todos os poderes, o poder de curar os doentes, interpretar os sinais dos tempos...

A riqueza original desse sonho primordial não se “encaixou” nos esquemas dos fariseus ou saduceus, essênios ou zelotes, nem se deixou instrumentalizar pela instituição do Templo ou da sinagoga.

                  Jesus era LIVRE e essa LIBERDADE nos fascina até hoje.

O encantamento, a sensação linda de se viver uma grande experiência mística manifestou-se por toda a vida de Jesus. Ele vivia o tempo todo no “pique”  dessa experiência religiosa que via em Deus um Pai, nos companheiros via irmãos e amigos e nos acontecimentos, o sopro do Espírito.

        Isso inquietava as instituições; o carisma inquieta e perturba a racionalidade da instituição.

        A atuação de Jesus provoca conflito entre sacerdócio e profetismo, entre carisma e poder,

        entre livre expressão religiosa e rigidez institucional.

        Jesus nos ensinou a libertar as forças do sonho, da poesia, do profetismo, do carisma, a empol-

        gar-nos com a vocação que vem de Deus e a migrar do cativeiro do farisaísmo para a liberdade.

 

Desde o início de sua vida pública Jesus exerceu considerável poder de sedução sobre as massas da Galiléia. As multidões o seguiam pois “ensinava com autoridade e não como os escribas” (Mt 7,29).

Sua ascensão sobre o povo não tinha nada de improvisado, era fruto de anos de solidariedade com o povo simples.

          Essa sedução e conseqüente capacidade de aglomeração popular foram as verdadeiras causas de

                                 sua condenação pelas autoridades judaicas.

 

Jesus se tornou um sinal de contradição porque permaneceu absolutamente fiel a uma mensagem, a um modo de agir e a uma missão  que havia recebido do Pai e que devia realizar com critérios e opções coerentes com o conteúdo do seu Evangelho.

Falar em conflito na missão de Jesus é o mesmo que falar da fidelidade de Jesus.

O que tem valor em sua vida é seu amor fiel,  e não os conflitos em si mesmos.

  

         A dimensão conflitiva da fidelidade de Jesus à missão é o resultado inevitável do embate entre sua

                                              missão (que anuncia a justiça do Reino e as bem-aventuranças) e a realidade

                                              que não quer ouvir e rejeita a novidade do Reino.

         A conflituosidade na vida de Jesus proveio do choque entre as exigências do Amor e a realidade injusta e

                                        pecadora. Jesus não cria conflitos; Ele os revela e os constata, ao dar testemunho das

                                        exigências do amor.

 

* Como transformar o CONFLITO em fonte de fé, esperança e amor?

* Como crescer e amadurecer no CONFLITO? Como viver o Evangelho no CONFLITO?

              - O conflito faz parte da vida do cristão; ele vive na luta.

              - O conflito perpassa nossa vida pessoal e comunitária; não é acidente de percurso, é permanente.

              - O conflito é um instante difícil, de parada, de mal-estar, de busca sofrida, mas é importante para

                                 purificar as pessoas, revigorar a mística e ressaltar os valores e ideais de vida.

              - O conflito é um momento de redefinição, de adequação à realidade e de crescimento em todas as

                                 dimensões.

              - De uma forma por si mesma desconcertante e misteriosa, o conflito constitui um chamado do Senhor

                uma Graça para seguir Jesus perseguido, com uma opção mais madura e com motivos mais purifica-

                dos.

              - Deus também se revela no conflito;

  nos conflitos há uma manifestação do Espírito (fogo, dinamismo...);

                 o conflito é um “ensaio de esperança”,  uma certeza de que o Espírito renova todas as coisas

                                     sobre a face da terra”;

                 o conflito é certeza da novidade que vem, quando o Espírito a suscita e a anuncia; por isso exige

                                      um discernimento permanente.

              - No Evangelho, conflito e crise são dados que marcam o itinerário da maturidade do seguidor de Jesus

                Não há maturidade e crescimento pessoal sem passar pelas “crises conflitivas” de crescimento, de

                aprendizado e de educação para a liberdade.

              - O conflito leva à maturidade e pressupõe maturidade para ser assumido e superado.

                A espiritualidade é a resposta que damos às crises e aos conflitos; é o modo como os assumimos,

                                              é o sentido que lhes damos...

                                              A única espiritualidade autêntica é a que brota do seguimento, e portanto, não é

                                              o conflito que santifica, mas a identificação com Jesus, vítima de conflitos e per-

                                              seguição.

                                              Jesus é o modelo de como viver a experiência do conflito como espiritualidade.

 

Textos bíblicos   1) Jo 2,13,25           2) Mt 10,16-39                3) Mt 12,1-21                4) Mt 23

                                  5) Mt 13,53-58       6) Mt 21,23-32                 7) Lc 11,37-54

 

A VONTADE DE DEUS

 

“O nosso querer deve ser movido pelo querer que vem do alto” (EE)

 

* Como conhecer a VONTADE DE DEUS?

* De quê falamos quando nos referimos à VONTADE DE DEUS?

 

A Vontade de Deus não pode ser um projeto existente fora de nós, ou à margem de nossa vida e de nosso mundo, e à qual deveríamos ir acomodando nossa vida e nossa ação, independentemente daquilo que somos ou do rumo dos acontecimentos.

Tal concepção ignora o fato de que nossa própria vida e nossa própria história estão já radicalmente marcadas pela iniciativa de Deus. E a iniciativa de Deus é manifestação de seu Amor.

Portanto, a busca e realização da Vontade de Deus há de levar sempre o selo da confiança, já que não nos encontramos diante de um Deus arbitrário que faz e desfaz, sem atenção à realidade de cada um de nós, mas diante de um Deus PAI-MÃE que nos criou.

 

              Buscar a Vontade de Deus consiste, de algum modo, em buscar-nos a nós mesmos, isto é, o mais profundo e autêntico de

              nós, fruto da iniciativa criadora e amorosa do Senhor; trata-se daquele lugar e daquela direção profunda de nossa vida pessoal onde desvelamos a ação  do Espírito que atua em nós. Nossos desejos encontram-se com os desejos de Deus.

              Viver a partir de dentro: Deus habita no mais profundo de nós mesmos e realiza sua obra fazendo-nos nós mesmos, fazendo-nos pessoas únicas, originais, sagradas...

              No mais profundo de cada pessoa habita o Espírito que, como “Senhor e doador da Vida e como Criador, configura

              sua existência. Aqui se manifesta a ação personalizadora de Deus; este mesmo Deus nos individualiza de maneira totalmente original e irrepetível.

A Vontade de Deus é pois, sempre “personalizadora”.

Assim, quando tratamos de conhecê-la, sempre temos de prestar atenção ao nosso interior, onde atua o mesmo Deus cuja vontade buscamos, para comprovar se o que “parece” ser Vontade de Deus é mediação adequada para realizar em nós aquela plenitude que é a obra  própria do Espírito.

 

Deus, quanto mais quer dar, tanto mais faz desejar” (S. João da Cruz).

* Não há busca da Vontade de Deus sem interioridade ou capacidade de entrar dentro de si, sem prática de

   discernimento espiritual.

* A Vontade de Deus sobre nós que devemos buscar e encontrar não é uma realidade já escrita, fixa e pré-fa-

   bricada antes de nós e sem nós; ela não é uma coisa já pronta que somente deveremos descobrir, como se des-

   cobre um tesouro que alguém escondeu em nosso jardim; ela se encontra no dinamismo da vida, no seio de

   suas relações múltiplas e requer uma busca humilde, confiante e contínua.

* Deus não é o demiurgo onipotente que previu tudo, mas Aquele que ama os homens com Amor infinito.

* Bem longe de manipulá-las, Deus acompanha as pessoas em sua história, respeitando-lhes a liberdade e a

   responsabilidade própria.

* Não há “plano” de Deus e Ele não “dirige” o mundo a seu bel-prazer, uma vez que respeita muito a liberda-

   de do homem; de fato, se Deus age, não age fora das leis do mundo e da sucessão de  nossas ações humanas.

* Bem mais que isso, sua providência funda nossa autonomia.

   Ele está bastante presente para deixar que “sejamos nós mesmos”.

* O Deus Criador do homem não é seu rival, mas Aquele que lhe permite ser plenamente ele mesmo.

 

A Vontade de Deus é essencialmente de natureza dialogal.

A Vontade de Deus não está em competição com a do ser humano; ela não se apresenta de maneira despótica, coercitiva, alienante, impositiva. Deus não passa por cima da liberdade humana; dinamiza-a, a partir  de dentro, em todos aqueles que se abrem à sua graça.

Ela  favorece e respeita a liberdade humana com a qual entra em diálogo. A liberdade de Deus desperta a nossa liberdade. O exercício mesmo de nossa liberdade forma parte do plano divino.

                              Podemos dizer que nossa vontade fica incluída no “querer”  de Deus.

                              Deus e o homem estão indissoluvelmente unidos.

 

A Vontade de Deus e a vontade do ser humano entram verdadeiramente em diálogo.

O Espírito se une a nosso espírito. “A fé é a reciprocidade de dois fiat, de dois sim, o encontro do amor descendente de Deus e do amor ascendente do homem. A voz de Deus é silenciosa, exerce uma pressão infinitamente leve, jamais irresistível” (Evdokimov)

                                                   

A decisão tomada no discernimento espiritual se torna assim uma decisão conjunta, “conjugal”.

É o que expressa a Carta dos Apóstolos reunidos em Jerusalém, às Igrejas da Síria:

        “Pareceu bem ao Espírito e a nós nos vos impor outro peso...” (At. 15,28).

 

Ao criar-nos livres, o sonho de Deus consiste em fazer-nos capazes de responder ao seu Amor.

Não se trata de uma vontade imperativa. No meio onde as pessoas se amam não se manda, manifesta-se um desejo ao outro. Podemos falar, então, de satisfazer o desejo de Deus.

Deus nos revela seu desejo de ver-nos plenamente humanos.

O Deus que nos criou sem pedir o nosso consentimento, nunca nos impõe missão alguma sem o nosso consentimento. Ele suscita nossos desejos, atrai, convida... mas respeita sempre nossa liberdade.

A Vontade de Deus é um Amor que nos atrai. A vontade de Deus supõe uma pessoa cheia de desejos e sempre em movimento, sempre em realização e maturação cada vez maior.

A Vontade de Deus toma forma na decisão da pessoa verdadeiramente livre.

Ela será a vontade da pessoa, inspirada pelo puro Amor (Ame e faça o que quiser).

       Nossas decisões serão tanto mais livres e fecundas, quanto mais unidos estivermos com Deus,

                                  quanto mais confiarmos na sua graça; mas elas tem que ser tomadas por nós.

 

A Vontade de Deus eu a descubro no momento mesmo em que, sintonizado aqui e agora com Ele,

                                  construo a minha vida segundo o que “eu quero e desejo”. Minha tarefa mais

                                  essencial como homem ou mulher não é encontrar um “objeto” (a Vontade de

                                  Deus em mim), para conformar-me a ele, mas um Sujeito, uma Pessoa, que desde

                                  sempre me ama e atua em mim e  em torno a mim.

A Vontade de Deus vem de encontro à minha vontade (quando esta é oblativa), e reforça-a, intensifica-a ... Trata-se de “deixar-me encontrar por Ele” e pôr-se a cooperar com Ele, que age em mim.

Fazer a Vontade de Deus é “fazer o que eu livremente quero e desejo”, enquanto me deixo abraçar por Ele. O discernimento torna-se espontâneo, intuitivo, brota do coração com naturalidade...

            Reconheço que minha decisão se encontra com a Vontade de Deus quando posso afirmar

            que ela me faz mais livre, isto é, se traz à minha vida coerência e sentido, se ela unifica o

            meu passado e se abre um novo futuro.

           Encontro meu caminho que eu mesmo traço, enquanto sigo de perto a pessoa de Jesus, que

            já está caminhando em minha vida e vai diante de mim, e enquanto me conformo (me iden-

           tifico) a Ele o mais que posso, fazendo-me iluminar e aquecer por seu Espírito.

 

Não existe nenhuma senda já traçada diante de mim, e nem caminho que seja minha senda. Só existe o Senhor. Sua vontade sobre mim não a encontro fora de mim, mas em mim, no eu profundo.

     Conformar-se, abandonar-se, aceitar, escolher a Vontade de Deus é conformar-se a Ele, abandonar-se a Ele, aceitar e escolher a

      Ele, sintonizar-se com Ele, que nos precede no caminho.

      A Vontade de Deus é expressão do “gosto” de Deus. Buscar a Vontade de Deus é entrar em sintonia  com o “gosto” de Deus e

      deixar-se mover pelo desejo de responder ao seu Amor.

      Procurar a Vontade de Deus não é “adivinhar” o que Deus quer mas amar o que Deus ama.

      O objetivo do discernimento não é descobrir os “segredos” escondidos de Deus, mas buscar o melhor  para mim, aqui e agora.

 

Este modo de conceber a Vontade de Deus nos livra de todo fatalismo e de todo quietismo. Com efeito, a Vontade de Deus não está pronta, é “aberta”; não é algo que esteja escrito definitivamente em nenhum livro. Ela respeita nosso ritmo, a nossa situação atual, as circunstancias  que nos cercam... Ela vai se realizando na medida em que vamos crescendo, amadurecendo, multiplicando nossos dons...

                A vontade ou o  plano de Deus é que a pessoa se desenvolva na linha de seu autêntico ser e de sua

                identidade, através das situações que lhe cabe viver. É um caminho a inventar, não descobrir algo

                oculto. Por esta razão, a vontade de Deus vai se realizando cada dia.

Daí que, introduzir-se na exploração do querer divino é algo criativo, pois na gama imensa de situações

continuamente mutáveis, há que se descobri qual é a opção que corresponde melhor ao que agrada a Deus. A busca da Vontade de Deus não é um mecanismo rápido de exploração, um trabalho isolado da vida pessoal e extrínseco a ela, senão tarefa intimamente vinculada ao ser da pessoa que busca e que, por conseguinte, se enraiza no curso de sua própria vida pessoal.

Não é um fato que se improvisa e que brota da superfície de si mesmo, senão do coração da existência.

A Vontade de Deus é que todos alcancem a plenitude humana de Cristo.

A Vontade de Deus em minha vida é a maneira como deixo que se realize em mim a figura de Cristo (configurar-se ao estilo,

                              ao modo de viver, de amar e de ser de Cristo).

Portanto, não se pode entender Vontade de Deus como algo estático, pré-determinado, algo escrito atrás de uma nuvem que eu, com sorte, vou descobrir.

Trata-se, sim, de uma realidade dinâmica que vai ganhando corpo em mim, de uma história de amizade que vai se  concretizando e ganhando contornos e se purificando ao longo da caminhada.

A tarefa de identificar o que Deus quer numa situação e momento determinado tem um estilo próprio.

Não é empenho somente intelectual, senão vivencial. Isto é, implica, junto com a inteligência, todo o campo pessoal afetivo e sensível.

Nesse nível, o Amor de Deus pelos homens é fundamentalmente libertador, porque dá ao ser humano a possibilidade de encontrar o sentido último de sua existência e de seu destino.

         O seguimento de Cristo, como caminho único para reconhecer e fazer a Vontade do Pai,

         se configura, pela ação do Espírito, de modo completamente pessoal e criativo.

 

A preparação para encontrar a Vontade de Deus, concebida como um momento denso da vida de uma

pessoa que busca abrir-se a Ele, é tarefa exigente, mas “suave e leve”, porque se vai preparando de maneira pausada no viver cotidiano e na conversão contínua, e logo se consuma em momentos mais fortes da vida, que de modo algum hão de ser duros nem traumáticos.

 

Concluindo: podemos dizer que “Vontade de Deus é aquilo que eu, no fundo, quero, à luz do Espírito San-

                                                      to, depois de tirados os obstáculos”.

a) “Aquilo que eu, no fundo, quero...”

É o que eu quero e não o que me apetece. O apetecer é sensível e nem sempre está de acordo com a vontade profunda. Ex: não me apetece trabalhar, mas no fundo eu sei que devo e desejo cumprir esta obrigação...

É no profundo do nosso coração que podemos “ouvir a voz” do Espírito.

O próprio Jesus experimentou isto na Agonia: “Pai, não se faça o quero (=apetece), mas Eu quero o que

                                                                           Tu queres (faça-se a tua vontade)”.

E S. Paulo dizia: “não faço o bem que quero, mas aquilo que não quero” (Rom. 7,20);

Há uma divisão em nosso interior; é pois preciso libertar o nosso querer que está envolvido pelos apeteceres, medos, paixões, atrações imediatas...

 

b) “...à luz do Espírito Santo...”

Porque o querer move-se sempre sob alguma luz, algo que o atrai. É a questão das motivações e dos objetivos. A Vontade de Deus não é o meu querer motivado (iluminado) só pela ciência, ou a psicologia, ou a sociologia... apresentando-me o que é bem nesses campos.

A vontade busca sempre um bem, e aqui é o bem que o Evangelho apresenta como “bem para mim”- aquilo que sinto (no fundo) que me identifica com Jesus, com os seus mandamentos e estilo de vida, com a construção do Reino.

Esses bens é o Espírito Santo que os mostra e os torna atrativos para a pessoa.

Trata-se, pois, de se deixar mover pelo espírito de Deus e não por outros espíritos.

 

c) “... depois de tirar os obstáculos”.

Obstáculos à ação do Espírito, que vem de fora: a mentalidade dominante, as pressões sociais, as chamadas “tentações”...; e vem de dentro: os medos, os preconceitos, o comodismo-egocentrismo e todas as defesas perante aquilo que pode parecer exigente ou vai pôr em cheque o que parece mais fácil e mais feliz.

Faz-se necessário “descascar a cebola”, ou seja, tirar todas as capas (e escamas de nossos olhos) que não nos deixam ver bem e que nossos egoismos e apeteceres nos prendem e escravizam .

Quando começo a libertar-me disso, então pode vir à tona o meu querer que, passado o momento de agitação, confusão ou medo, encontrará a paz ao identificar-se com o Evangelho, ao assumir e aceitar os movimentos profundos.

Então a Vontade de Deus para mim é que eu colabore com Ele para viver evangelicamente cada momento da minha vida, e a própria orientação a dar à vida.

 

 

Três facetas da busca amorosa:

 

1. DEIXAR-SE TRANSBORDAR:  “Abbá, Pai... não  o que eu quero, mas o que tu queres” (Mc. 14,36).

Deus é Deus e deve ser alcançado com todo o coração, com toda a mente e com todas as forças.

Esta disposição básica apresenta três traços importantes:

 

   a) Situar-se diante de Alguém

A busca da Vontade de Deus sobre a própria vida é muito mais uma relação pessoal que reflexão racional. É, como em toda relação sadia, a tarefa de pôr-se diante da pessoa de modo desinteressado, valorizando mais o quem (sua pessoa, seus interesses, sua maneira de ser, etc) que o quê (análise da realidade, idéias, motivos...).  É uma conseqüência da natureza da vida de fé: relação amorosa com Deus que entrou em diálogo vivo com cada um de nós.

Buscar sua Vontade é tratar de conhecer a melhor maneira de responder a seu amor.

 

   b) Arriscar-se a confiar

A relação de fé há de ser filial: “que sejamos chamados filhos de Deus, e o somos de verdade” (1Jo. 3,1). Daí que na laboriosa rota do descobrimento da Vontade de Deus o maior risco não é errar, mas mover-se na ansiosa atitude do explorador que nunca sabe se o caminho escolhido vai acabar bem ou mal.

O crente sabe que, da parte de Deus, tudo conduz a bom termo. Quem busca a Vontade de Deus não se encontra diante de um tribunal severo, senão diante do Pai que revelou seu coração em Jesus, que sempre repete a quem estabelece relação com Ele: “não tenhas medo!!!”

 

    c) Averiguar “o que agrada a Deus

“O que agrada a Deus” ilumina bem tanto o caráter “aberto”  da Vontade de Deus como o estilo de sua busca. Como nas relações humanas de amizade ou de afeto filial, quem busca conhecer a Vontade de Deus  trata de distinguir “o bom, o agradável, o perfeito”. Portanto, a pessoa se guia pela sintonia com o “gosto” de Deus e movida pelo desejo de responder a seu Amor.

 

Para S. Paulo, capacitar-se para conhecer a Vontade de Deus consiste numa transformação pessoal que possibilita a sintonia mais perfeita possível com o Senhor.

O estilo da exploração espiritual da Vontade de Deus é existencial, pessoal. Porque, como nas relações humanas, conhecer o que agrada a alguém é resultado de um conjunto de experiências, disposições e conhecimentos relativos a uma pessoa, que vão muito mais além do mero conhecimento intelectual (trato, compreensão, afeto, reflexão, etc...).

 

2. HUMANIZAR-SE“Eleitos em Cristo” (Df. 1,4)

O encontro com Deus e sua Vontade, que pede transcender-se a si mesmo, exige ao mesmo tempo, numa experiência que só é explicável desde o mistério humano-divino de Jesus, humanizar-se n’Ele.

 

a) Dizer sim à realidade

Jesus o Homem e todo o humano são mediação indispensável para o acesso ao Deus transcendente.

O itinerário da busca da Vontade de Deus passa necessariamente pela humanização, pela assunção da própria vida e da vida da sociedade na qual a pessoa se acha imersa.

A realidade forma parte da história da salvação e que deve ser aceita e abraçada ativamente. Integrar o real (corporal-espiritual, social, profissional...) na experiência espiritual.

Dizer sim à realidade comporta viver imerso na vida individual e social deixando-se impregnar por ela; assumi-la como é, e portanto, captá-la em sua verdade; e finalmente, reagir de modo humano nela e ante ela.

 

   b) Evangelizar a realidade

A realidade é polivalente e permite múltiplas leituras ou interpretações. Daí, pois, que é necessário situar-se no ângulo de visão do Evangelho se se quer captar a perspectiva cristã da Vontade de Deus.

 

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“Evangelizar a realidade”  significa, em 1º lugar, leitura evangélica da realidade, ver as coisas como Jesus vê. Nem tudo é graça, mas tudo pode ser visto sob o ângulo da graça. Nada escapa do ocular da graça.Além disso, exige também acomodar os fatos a esta interpretação evangélica, reagir como reagia Jesus em situações semelhantes.

Se o aproximar-se da realidade há de ser feito segundo Jesus, impõe-se, para quem busca conhecer a Vontade de Deus, uma tarefa de evangelização do coração, isto é, das atitudes profundas, para não confundir qualquer leitura da vida e qualquer bem intencionada reação ante os acontecimentos, com a maneira de ver e fazer de Jesus.

Só tem garantia de aproximar-se do conhecimento do que Deus quer quem se submerge responsavelmente na vida humana com seus componentes pessoais e estruturais, individuais e sociais; quem sabe captar a verdade e a bondade das coisas e, ao mesmo tempo, procura reagir de modo humano e solidário.

Acreditamos, portanto, que há duas fontes de acesso à Vontade de Deus sobre nós: a realidade e a revelação, não percebidas paralelamente, mas dialeticamente articuladas. A realidade empresta-nos olhos para ler a revelação, e a revelação, por sua vez, lança suas luzes sobre essa realidade.

 

3. VIVER A PARTIR DE DENTRO:  “Se vivemos pelo Espírito, atuemos segundo o Espírito” (Gal. 5,25).

As duas dimensões da busca da Vontade de Deus, consideradas anteriormente, “descentram” a pessoa: deixa-se transbordar pelo Deus transcendente e humaniza-se ao estilo de Jesus de Nazaré.

Estas duas dimensões, duas caras de uma única realidade, vão unidas à terceira: viver a partir de dentro.

Deus habita no mais profundo de nós mesmos e realiza sua obra revelando nossa verdadeira identidade.

 

Concluindo...

 

A espiritualidade inaciana nunca entendeu a Vontade de Deus como algo estático separado de Deus.

Quando buscamos a Vontade de Deus, estamos buscando a Deus – a Deus que atua e trabalha no mundo.

A espiritualidade inaciana parte da intuição de que tudo nos vem do Pai em Cristo e volta ao Pai por meio de Cristo.

Por isso a Vontade de Deus situa o apaixonado Amor criador de Deus no centro de tudo quanto existe. Este Amor divino dá origem à vida humana como dá origem a todos no universo.

 

Portanto, quando busco a Vontade de Deus, estou buscando minha própria origem.

Em minha origem está minha finalidade original, minha razão de ser.

A Vontade de Deus – e isto é o Princípio e Fundamento – é a que me está fazendo. Busco a Vontade de Deus para saber quem sou.

Ser criatura quer dizer ser querido pelo Criador. Se é importante saber quem sou, é indispensável saber que Deus me quer e saber, além disso, o que Ele quer de mim e para mim.

 

“E nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que O amam” (Rom. 8,28)

 

 

A TENTAÇÃO DE FAZER O BEM

 

O desejo de fazer o bem é o grande valor de nossas vidas; mas, precisamente por ser tão importante, é preciso entender o “desejo de fazer o bem”,  examiná-lo e purificá-lo para que, ao fazer o bem aos outros, não prejudiquemos a nós mesmos e àqueles a quem queremos ajudar.

Na tradição inaciana fala-se da “tentação sob aparência de bem” como perigo e armadilha na qual podemos cair em meio aos nossos bons desejos de servir.

Tais desejos podem se degenerar em vaidade, orgulho, necessidade própria, manobra oculta para servir a nós mesmos enquanto parecemos servir aos demais, dependência ou compulsão. Por ser coisa tão boa, expõe-se precisamente a pequenos desvios que podem desembocar em grandes desordens.

 

Trata-se de não macular a generosidade do serviço com a mistura do egoísmo.

S. Inácio fala da “discreta caridade” ou caridade discernida, ou seja, verificar se por detrás da prática do bem não existe forças ocultas, motivações frágeis e egoístas... que acabam contaminando e tirando o sentido evangélico de toda caridade.

O desejo de fazer o bem começa sempre puro e limpo, como o traço mais nobre do coração humano; mas

precisamente por sua importância e por sua força, pode ir se desviando gradualmente até mudar sua direção e atuar contra o próprio bem que pretendia realizar.

S. Inácio nos oferece um critério claro para desmascarar possíveis desvios na prática do bem: “se o princípio, o meio e o fim é inteiramente bom, inclinado a todo bem, este é sinal do bom anjo” (EE. 333).

Este critério esclarece a necessidade de combinar o sentido último da vida com o sentido parcial de cada ação. O caminho é vislumbrado de longe e corrigido a cada passo, conforme andamos.

Nosso olhar não pode se desviar do fim para o qual fomos criados: “louvar, reverenciar e servir a Deus”.

 

“Fazer o bem” tem de surgir por si mesmo, da paz do coração e da plenitude do ser, e não ser proposto como algo acrescentado, imposto por si próprio ou cobrado pelos outros.

O que nasce do “desejo distorcido” (desordenado) causa danos a longo prazo, enquanto o que nasce do “ser profundo” (divinizado) dá frutos e realmente faz bem a todos.

Para compreender melhor, podemos usar a imagem da árvore, parábola de vida e fecundidade.

A árvore simplesmente “é”, e de seu ser nasce o crescer, o subir, o dar folhas e frutos. Isso sai de dentro dela, vem de suas raízes afundadas na terra, sobe junto com a seiva vital que circula por seu tronco e seus galhos, se abre na folhagem que a cobre, e explode alegremente nos frutos que levam sua vida e chegam às mãos das pessoas.

 

Esta é a lição: que aquilo que eu faço venha de dentro, de minhas entranhas, de minhas raízes, de meu ser,

quase como se não pudesse evitar, como a inspiração do poeta, a criatividade do artista...

Que aquilo que eu faço seja o florescer de minha existência, não o resultado procurado e planejado de uma

necessidade, de uma cobrança pessoal ou do grupo, de um propósito sem direção...

Que eu não faça o que faço só pelo desejo do fruto, e sim como expressão espontânea do que sou em liberdade e gratuidade.

Aquilo que faço passa a ser expressão de minha vida e de meu sentimento, é uma prolongação de minha vida,  a manifestação natural das minhas inspirações mais profundas...

No  dia em que eu puder dizer que minhas ações são na verdade um prolongamento existencial de mim mesmo, elas ganharão todo o seu valor e toda a sua força.

 

Mais uma vez, S. Inácio nos oferece um outro critério para verificar a autenticidade das nossas ações.

Antes de qualquer atividade, perguntar a si mesmo: “Por que faço isso? Para quem faço? Qual é a intenção, a motivação do meu agir?... É para o Reino? para Deus? para o bem do outro?... ou para minha projeção pessoal? ou vaidade espiritual? ou busca da fama, do prestígio?...”

Uma outra lição aprendemos da árvore: respeitar as estações. Não forçar a primavera quando é inverno, nem o verão quando é primavera. Cada coisa no seu tempo, no seu ritmo. Quando imponho resultados por minha cobrança ou por minha decisão, por melhores que sejam, estou violando ritmos ocultos e dinamismos naturais. Nada de urgências, de calendários artificiais, de horários inoportunos... Que os frutos amadureçam no seu tempo e caiam por si mesmos no dia que estiverem maduros.

Não fazemos o bem por estatística ou por projeto mas por espontaneidade e pela vida. O que nos sai de dentro realmente é o que nasce em seu tempo em sua estação, é o fruto suculento que dá forças ao peregrino em seu caminho.

 

ENCARNAÇÃO: “pensar pouco do homem é pensar pouco de Deus”

 

“Uma lenda muito antiga conta que, certa feita, homens muito ricos de sabedoria e bens, saíram de onde estavam e foram à procura de um grande rei. E sondaram suas cartografias e perscrutaram os astros e indagaram os postulados divinatórios e, assim seguros, puseram-se a caminho e viram, no céu, a sua estrela.

Mas, baixando os olhos para a terra, nada mais foi-lhes dado contemplar senão apenas uma criança, ornada de simplicidade e de um raio de luz.

Assim também nós: procurando Deus, se vasculharmos o transmundo, veremos uma pálida claridade.

Mas se, seguindo os rastros desta luz, voltarmos nosso olhar para este mundo, lá estará ele: Jesus de Nazaré

É diante deste homem verdadeiramente, assim simples e em abismo de luz, que nossa fé dobra espontaneamente os joelhos e, com sorrisos de alegria, ousa dizer:

                         “Verdadeiramente, o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo. 1,14).

 

A doutrina cristã afirma que em Cristo a natureza humana foi assumida, não aniquilada, não violentada e nem usada como roupagem para sua visibilidade, mas assumida. Se a natureza humana, na sua integridade, foi assumida pelo Verbo da Vida, é porque ela em sua naturalidade é marcada pela bondade.

                       “E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom” (Gen. 1,31).

Poder “ser assumida”  é sua possibilidade natural. Do contrário, Deus teria que, antes, modificá-la em sua constituição. Se tal não se deu é porque a natureza humana, em si mesma, “é referenciabilidade iluminada ao mistério infinito da plenitude”.(K. Rahner)

 

Quando a natureza humana é, em Jesus Cristo, abraçada por Deus como sua própria realidade, então o ser humano chega lá onde ele, no mais profundo de si mesmo, já estava sempre a caminho.

Assumida por Deus em caráter absoluto e irrevogável, a natureza humana pertence à realidade do próprio Deus. O “divino faz-se humano e o humano torna-se divino”.

É a aceitação e acolhida, em definitivo, de nossa humanidade para dentro de seu eterno mistério.

Em Jesus Cristo, definitivamente sabemos: o ser humano não é um animalzinho de estimação do seu Criador. Antes, ele está em mútua relação com Deus e é seu parceiro; ele é a concreção daquilo que Deus, em si, não é e não tem e por isso admira e ama.

Com razão dizia S. Agostinho: “Poder ter fé, assim como poder ter caridade, é próprio da natureza dos

                        homens; ter , porém, bem como ter caridade, é próprio da graça daqueles que crêem”.

                                                  

Da mesma forma Deus é para o homem aquilo que o homem, em si, não tem e não é e, por isso, incansavelmente, deseja e busca. Embora inscrito no mais profundo da alma humana e na mais secreta esfera do mundo, o Advento de Deus em nossa carne jamais deixará de ser um evento imprevisível, uma imaniputável dádiva da Graça. E como Graça é única e irrepetível.

           Eis porque a Encarnação de Deus em Jesus Cristo outra coisa não é senão um caso singular

           do amor de Deus aos homens e da inquieta busca humana pelo infinito. Como liberdades

           que se amam, Deus é o mais secreto íntimo do homem, assim como o homem e intrínseco a

           Deus mesmo. Por isso, “pensar pouco do homem é pensar pouco de Deus”.

 

* Neste mundo, onde encontrar uma clareira, em que possa se dar o encontro entre Deus e os homens?

* Há um caminho de acesso a Deus que não comece nem além nem aquém dos horizontes deste mundo,

  mas sobre “esta terra onde a nossa alma erra”?

Este caminho é possível; o cristianismo quer ser, fundamentalmente, este caminho, por crer e assegurar que seu evento central, Jesus Cristo, é não apenas a máxima revelação de Deus aos homens, mas igualmente o desvelamento histórico do homem, em sua verdade matinal.

Ele é, no mundo e sobre a terra, a resposta às nossas buscas: “dentro da condição humana, já estamos em

                                                                        Deus, quando somos homens e mulheres ... verdadeiramente.

Esta é a coluna mestra do Cristianismo: se Deus se fez homem é porque há em Deus algo de huma-

                       no e se o homem pode ser assumido por Deus, em sua Encarnação, é porque há,

                       no ser humano, uma capacidade para Deus.

Jesus Cristo revela ao ser humano sua própria realidade. A figura de Jesus é a expressão máxima da humanidade. N’Ele ela chegou à sua plenitude. “Tão humano assim, só pode ser Deus mesmo” (L. Boff).

Em Jesus se manifesta o excesso do humano; em cada ser humano se revela algo de Jesus. Jesus realizou todas as possibilidades da humanidade. “Jesus manifestava a Deus no excesso de sua humanidade”.

 

 

 

EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS: escola do afeto

 

“O afetivo é o efetivo”

 

EXERCÍCIOS: experiência afetiva de encontro consigo mesmo e com Deus, visando uma transformação;

: integração e harmonização de todo o ser, tendo como critério a vida e obra de Jesus Cristo;

: leitura orante da vida; experiência de escuta da vida, a partir de Deus... na oração;

: “peregrinação interior” levando a um auto-conhecimento (visão mais ampla de si mesmo);

: despertar um novo dinamismo, suscitar novas energias... em vista do futuro;

: trazer à tona as riquezas acumuladas no próprio interior;

: abrir novos horizontes e apontar um sentido para tudo;

: descoberta das fraquezas e limitações para poder trabalhar sobre elas;

 

S. Inácio sabe manejar muito bem  toda sorte de movimentos psicológicos e espirituais internos. Ele percebe com facilidade e perspicácia o que acontece em seu interior, seus sentimentos e movimentos íntimos, descobre suas causas e efeitos, faz uma “leitura” de si mesmo (a “lição” de Deus).

Os EE. estão cheios de uma psicologia dos afetos.

Afetos: atrações, inclinações, força, tendência... que nos move para algo ou alguém, para um dire-

             ção (tende a fixar-se).

Afeição: é a inclinação para uma pessoa ou um objeto, motivada pelo amor que se tem à mesma.

               Não se trata de algo passageiro, mas de um estado peculiar, constante e duradouro.

               A afeição é como que o motor de nossa existência; está em contínuo movimento... dando sa-

                                bor e calor à vida.

Em cada ato de virtude ou de pecado que praticamos houve uma “afeição ordenada” ou “desordenada” (aderência afetiva).

As afeições se conservam (repetição das histórias de virtude ou de pecado) e se expandem (crescimento na virtude ou no pecado), configurando-se uma estrutura. A estrutura de bons ou maus afetos: os afetos se “auto-realizam”(buscam gratificações), se “auto-regulam” (não agem contra si mesmos) e se auto-transformam” (tendem a expandir-se).

 

Os afetos são a mediação (intermediários) entre o “eu” e o mundo. De acordo com nossa natureza, os afetos tendem a sair, a se projetar, a se orientar (apegar-se) às coisas, pessoas, status, poder...

A formação dos afetos está em relação com a história de cada pessoa: surgiram a partir de experiências feitas de atrações, repugnâncias, gratificações, medos... A partir dessas experiências os afetos tendem a fixar-se: aderências afetivas  que procuram gratificações afetivas.

Na dinâmica dos Exercícios, trata-se de recuperar a história pessoal, pois o exercitante percebe uma “aderência afetiva” (fixação afetiva) a coisas, pessoas... que somada a outras, passam a constituir uma estrutura de “maus afetos” (“afetos desordenados”).

Com as “afeições desordenadas” e “aderências”, a pessoa perde sua liberdade afetiva e não pode encontrar a Vontade de Deus sobre si mesma.

A conversão consiste, então, na libertação dessas “aderências” ou “apegos”; pode-se tomar consciência deles e, com a graça de Deus,  possibilitar uma libertação.

EE. 50: “Movendo mais os afetos com a vontade”

              A vontade procura levar os afetos na direção oposta às “aderências afetivas”.

              Só se pode seguir a Jesus, recuperando a liberdade afetiva, re-orientando os afetos na dire-

              ção d’Ele e de seu Reino.

 

O apego às coisas e às pessoas impede-nos de mover com facilidade. Perdemos o fluxo da vida, o impulso do movimento, a suavidade do “deslizar pela existência”. Por isso, o desprendimento interior é a grande virtude da vida que realça a riqueza de cada situação e de cada momento.

O método dos Exercícios nos propõe uma maneira prática de ir limpando os “canais” de nossa existência para que não se grudem em nós as “aderências” e não se entorpeça o nosso fluir; também nos ajuda a verificar e desvelar os apegos que nos vinculam a pessoas e objetos em nossa passagem pela vida.

Não é que não se deva amar, entregar-se ao que se faz e desfrutar o que pode ser desfrutado.

Pelo contrário, vivificar o presente realça o seu sabor. Mas é preciso fazer isso sem compulsão, sem ansiedade, sem estar apegado a nada e a ninguém. Ser “possessivo” destrói, a longo prazo, a posse.

Aferrar-se às coisas ou às pessoas debilita nossa relação com elas.

 

Que são “afeições desordenadas”?

- O que é “ordem”, “desordem”?

1. Dizemos que um aposento está “ordenado” quando todos os móveis estão em seus lugares; aqui sugere

    “harmonia” de conjunto.

2. “Ordem” também é usada para indicar precedência, sucessão. Uma fila de alunos está ordenada quan-

    do um sucede o outro.

Nos Exercícios, a “ordem” na afetividade significa que Deus é de fato o primeiro amor, que antecede a qualquer outro. Daí nasce a “harmonia interior”.

Quando se ama a Deus, todos os elementos de nossa vida, todas as afeições, todas as potências do espírito encontram-se em “seus lugares”, produzindo uma deliciosa experiência de paz.

afetos organizados negativamente por acúmulo de “experiências negativas”. Para atingi-los, S. Inácio coloca “cargas afetivas opostas” (pessoa de Jesus, Reino, as petições...). Trata-se de re-orientar os afetos do exercitante.

Sabemos que não se pode suprimir (matar) os afetos; o que se pode fazer é mudar a orientação (“ordenar”) dos afetos, ou seja, re-orientar as “aderências afetivas” de certos objetos ou pessoas para para algo transcendente. É o que S. Inácio procura nos Exercícios: re-orientar (ordenar) os “afetos desordenados” para o amor a Jesus Cristo.

Os afetos se “orientam” e se “ordenam” segundo não só o valor do objeto em si, mas também e princi-

                palmente pelo valor subjetivo que é dado ao objeto.

 

Na psicologia dos afetos, acontece uma experiência sempre que se dá uma modificação afetiva. E só há modificação afetiva com conteúdo afetivo. Se não se dá essa modificação afetiva, não se viveu uma experiência.

Os afetos se modificam e a conversão implica essa modificação afetiva. Importa que, depois da experiência, percebo que “não sou mais o mesmo”.

A “experiência afetiva” consiste numa relação nova que se estabelece entre os objetos e o “eu”.

Na experiência dos Exercícios, trata-se da relação personalizante alicerçada na pessoa de Jesus Cristo e nos valores do Reino.

A experiência tem demonstrado que a pura idéia não implica uma mudança no nível afetivo.

As idéias, sozinhas, não atingem a afetividade, a não ser que a essas idéias sejam acrescentadas uma carga afetiva.

As idéias associadas aos afetos são o suporte da Fé, uma vez que esta implica uma doutrina, uma teologia... mas deve ser traduzida existencialmente na vida.

 

Nos Exercícios, S. Inácio fala de Deus, Jesus Cristo, Missão, Reino... em termos vitais, porque para mudar afetivamente é necessário um “objeto” ou “alguém” que possa provocar na pessoa uma repercussão afetiva. Deve ser algo gratificante e plenificante para a afetividade e que venha de fora dos afetos.

Se apresentamos um Deus atraente, compassivo, criador..., se apresentamos Jesus que nos seduz por sua verdade, sua personalidade, sua ternura, suas atitudes perante as pessoas e instituições, sua liberdade, seu perdão, sua coerência na verdade e no amor..., seremos “afetivamente impactados”.

Se Jesus Cristo atinge assim nossa afetividade, provocará um contraste entre Ele e nossos “afetos desordenados”.  Começa, então, lentamente, um re-ordenamento dos afetos para Ele e seu Reino.

Para provocar o “impacto afetivo”, S. Inácio apresenta, nos Exercícios, os chamados pontos para a oração, que são um “objeto” que vem de fora e que questiona a organização da “estrutura afetiva” presente no exercitante.

Os “pontos” orientam nossos afetos para algo transcendente, que plenifica a vida. Isso possibilita a realização de uma experiência afetiva nova e uma nova estruturação dos afetos (e por conseguinte, uma verdadeira conversão).

Com o afeto centrado na pessoa de Jesus e no seu Reino, abre-se o caminho para encontrar a Vontade de Deus para a nossa vida.

  

 

PREPARAR-SE PARA O ENCONTRO

Vestir o coração e pôr-se a caminho

"A um ou dois passos do lugar onde farei a contemplação ou meditação, ficarei de pé, por um espaço de um Pai-Nosso, e levantando ao alto o pensamento, considerarei como Deus nosso Senhor me vê, etc, e farei um ato de reverência ou de humildade" (EE. 75).

Este modo de proceder, proposto por S. Inácio, nos pede que façamos uma breve parada prévia, para não chegar à oração como a uma "tarefa a mais do dia"; assim tomamos consciência da grandeza

d'Aquele a quem vou orar.

1. Trata-se de um encontro vivo, com o Senhor vivo.

2. Não é nem um objeto, nem um "camarada", nem meu espelho: é o Outro, Senhor, Amigo... Deus, Pai-Filho-Espírito Santo. Ele é quem "me olha"primeiro, e eu me encontro com seu olhar.

3.  Estou recolhendo todo meu ser, para centrá-lo em Deus.

Cada um encontra sua própria liturgia que mais lhe ajuda no encontro com seu Deus: gestos ou palavras para saudar o Senhor.

Buscar a atitude mais apta, por uma parte, para expressar o respeito que desejo mostrar durante a oração, e por outra, a respeito de meu estado físico ou psicológico.

•    Não se trata de fazer ascética durante toda a oração.

•    Não se trata de "repousar-se nos jardins maravilhosos do Senhor".

•    Não se trata de permanecer imóvel, paralisado numa determinada posição durante todo o tempo
da oração: orar não é transformar-se numa pedra de gelo;                                                                           v
orar é "continuar vivendo". Simplesmente, humildemente.

•    Trata-se simplesmente de orar também com o corpo, ou com uma parte do próprio corpo.

•    Trata-se de empregar os meios mais aptos para o fim que se pretende.

Fazer silencio, fisicamente (lugar, respiração).

Um silêncio de encontro, de respeito, que se cria quando, verdadeiramente, estou aí, presente a Alguém, com tudo o que sou, disponível. Imagem da "terra disposta"... Tal como sou, não como me imagino ser.

Não basta a ausência de ruído exterior que, por outra parte, pode revelar nossa agitação in­terior. Seria ilusório querer esvaziar nosso espírito de tudo o que nos preocupa, por meio de toda uma série de técnicas prévias.

Orar não é fazer o vazio. É ser de verdade e estar presente. É encontrar o Deus vivo, tal como sou, com tudo o que sou e carrego. _     Deus não sai ao nosso encontro num lugar "asséptico"de nós mesmos.

Tranquilizar-me, fazer silêncio, na fé, dar-me conta de Quem é Aquele que desejo en­contrar, no amor.

Para S. Inácio, o mundo interior é como um mar de coral: é muito possível levantar um mapa de suas

profundezas, confrontando as experiências dos grandes amigos de Deus.

Mas este mapa nunca deixa de ser provisório, incompleto: uma vida secreta transforma sem cessar os

recifes e modifica o traçado de canais. A cada marinheiro cabe descobrir por si mesmo o próprio caminho,

e seguí-lo.

A sensibilidade despertada nos Exercícios nos capacita para contemplar o que faz Deus e o que nós

fazemos; capacita-nos para olhar, escutar, saborear e sentir como as duas linhas se cruzam, se separam,

se buscam, até confundir-se em um coração que não sabe mais distinguir entre vida espiritual e vida do

mundo, fazendo que toda a vida seja ífVIDA no Espírito".

A "vida no Espírito" é toda a vida, que nasce d'Ele e por Ele é transformada.

 

 

JESUS ORANTE NOS ENSINA A ORAR

 

A experiência dos Exercícios Espirituais gira ao redor da distinção entre ouvir e escutar”.

                         Ouvir se refere mais ao sentido exterior ou externo, “o que vem de fora”. Escutar se refere mais ao sentido interior ou espiritual, “o que vem de dentro”, “escutar a música do coração”, ou “o canto interior”, é como “pôr um amplificador no coração...”

Não se trata de julgar o que se escuta do seu interior; trata-se de chegar a descobri-lo e expressá-lo.

Aguçar a “escuta interior” vem a ser o mesmo que recordar (re-cor-dar) – “dar de novo o coração”

Esta “recordação”  é gratificante, pois Deus nos chama para os seus intentos de amor, querendo se servir

                            de nossos sentimentos, de nossa inteligência e do nosso coração, para o bem dos outros.

                                         “Enquanto caminha pela vida, meu irmão, minha irmã,não importa qual seja sua meta, esteja atento(a) ao que você tem, não fique preso(a) no que não tem...” (John Powell).

É muito importante “captar a própria interioridade”, trabalhar sobre ela, buscando com realismo descobrir, descrever e posteriormente discernir as diversas moções que se dão no processo dos Exercícios.

“Sentir e gostar interiormente” em contraposição a um saber mais “conceitual-intelectual”.

 

Passos para a oração

                                        O mesmo Jesus que antes, vendo a multidão imensa, vai ao seu encontro, sente compaixão dela, cura os doentes e alimenta a todos, agora, depois de haver saciado sua fome, despede-a e sobe ao monte para orar a sós com o Pai, sem ser perturbado por ninguém.

Nos Evangelhos encontramos várias passagens nas quais Jesus é apresentado orando na solidão da noite.

Em geral, a oração solitária de Jesus precede ou segue a algum acontecimento muito importante.

O Mistério da vida e da missão de Jesus pode ser expresso condensadamente no binômio Abba-Reino.

O Reino que Jesus anuncia e torna presente com palavras (discursos, parábolas, diálogos...) e com sinais (curas, acolhida dos pecadores, dos pobres...) é o Reino do Pai, do seu Abba, que Ele nos revela como sendo também o nosso Abba, o Pai querido que ama a cada um de nós com uma ternura infinita.

 

Como o Reino que Jesus proclama é o Reino do Abba, assim também o Abba que Jesus revela é o Abba do Reino. Por isso, toda forma de oração, toda forma de relacionamento com Deus que não levar ao serviço concreto do Projeto do Pai, não é a oração do discípulo de Jesus, é uma oração alienada.

Uma oração que não se traduz em compromisso com a justiça do Reino, que não se traduz em serviço aos mais necessitados, não é de fato dirigida ao Deus de Jesus.

Pela razão evidente de que o Deus que Jesus nos revelou é o Deus Abba do Reino, e o Reino proclamado por Jesus é o Reino da justiça e da misericórdia, cujos destinatários privilegiados são aqueles que mais precisam da justiça e da misericórdia de Deus, isto é, os pobres e os pecadores.

 

Na oração: deter-se na contemplação desta dupla dimensão do ministério de Jesus, a qual nos revela o mais profundo da sua vida: a oração e a ação, a solidão e a solidariedade, a intimidade mais profunda com o Pai e o engajamento mais radical no serviço aos necessitados.

Em Jesus, estas duas dimensões são vividas não só como complementares, mas como necessariamente referidas uma à outra.

 

Contemplar Jesus orando no silêncio da noite, em profunda e prolongada comunhão com o Pai.

                      A sua solidão não é uma solidão vazia. Está habitada pelo projeto do Pai, pelo sonho do Reino,

                      pelos rostos dos prediletos do Reino: os pecadores, os pobres, os doentes, os oprimidos...

Quando Jesus parece estar mais afastado deles é quando na realidade está em mais profunda comunhão com eles, quando aparentemente está mais solitário é quando é mais solidário.

Petição: pedir a Jesus que Ele nos ensine a orar ao Pai como Ele orava; penetrar um pouco na intimidade da oração d’Ele.

                    Na nossa oração podemos nos apropriar de algumas orações ou palavras de Jesus que aflorarem espontaneamente à

                    nossa memória e convertê-las em nossa própria oração, fazendo com que elas saiam do nosso coração.

                    Podemos também rezar a partir do coração de Jesus a oração que Ele nos ensinou, e que Ele mesmo rezou melhor que

                    ninguém: “PAI-NOSSO”.

 

Textos bíblicos:   1) Mt. 14,22-23      2)Mc. 1,32-39      3) Lc. 5,12-16      4) Lc. 6,12-16

                                5) Mt. 26,36-46     6) Lc. 11,1-5         7) Mt. 6,5-13

 

 

 

ENCARNAÇÃO: “condescendência de Deus”

 

“Ao se encarnar, quis atingir tal profundidade que qualquer futura queda

seria uma queda nele mesmo” (H.U. Von Balthasar)

 

Ao contemplar o mistério da Encarnação contemplamos o mistério de Deus, que é comunhão intratrinitária e ao mesmo tempo, o mais profundo do mistério do homem, criado para a comunhão com Deus e com todos os homens.

É justamente através da encarnação do Filho, da sua Kénosis, do seu “abaixamento” e “esvaziamento”, que Deus manifesta sua majestade e sua grandeza, seu poder e sua glória.

 

     A glória de Deus manifesta paradoxalmente seu máximo esplendor na fragilidade da “carne” do Verbo.

     A forma em que se manifesta o poder e a glória de Deus é a do Amor “con-descendente”, a da misericórdia

     e da compaixão, que “desce” em busca dos perdidos, que “desce” até a condição de perdição dos “homens

     que Deus ama”, para salvá-los. A única explicação da “descida” de Deus é o seu “amor compassivo”, seu

     “amor apaixonado”, “paixão do seu Amor”.

    A razão última da Encarnação é o próprio Deus. Porque “Deus é Amor” (1Jo. 4,8) e o Amor exige proximi-

    dade e comunhão de vida e de destino, Deus sai de si, num êxodo de Amor, para autocomunicar-se pessoal-

    mente a nós na sua plenitude, conservando sua infinita plenitude; para poder partilhar em tudo nossa vida,

    “menos no pecado” (Heb. 4,15).

            A indigência e a impotência dos homens atrai a plenitude do poder e da graça de Deus.

            Para nos libertar do cativeiro, o Filho de Deus assume a condição de escravo.

            Assume nossa “carne”, ferida e caída, para elevá-la à dignidade de filhos e filhas de Deus.

           “Esvazia-se” de sua glória para plenificar-nos e glorificar-nos.

 

No momento em que o Verbo de Deus se faz homem, o homem chega à plenitude de sua realização, para o qual tendia sempre sem nunca poder alcançá-la: ser abertura total a Deus.

A descida de Deus até o homem é a que possibilita a subida dos homens até Deus.

No Verbo feito homem nos é revelada a grandeza, a dignidade, o mistério inesgotável do homem: o homem finito tem acesso ao infinito, entra em comunhão com o infinito, recebe uma dignidade infinita.

                       “Assumiu nossa Humanidade para fazer-nos participantes de sua Divindade”.

Este mundo nunca deixará de ser finito, frágil... tenda precária, imprópria e indigna para Aquele que ima-

                     ginamos nas alturas inalcançáveis ou nas profundezas impenetráveis, mas é o único lugar

                     que ora é  possível a Deus estar junto dos homens e aos homens estarem perto de Deus.

 

1º preâmbulo: “a história” (EE. 102)

                                                                   Desde o primeiro preâmbulo, a contemplação da Encarnação está toda ela estruturada e dinamizada pelo olhar.

A SS. Trindade, que envolve com um olhar saído de suas entranhas de misericórdia e de compaixão a

                                       humanidade pecadora, é a outra face da realidade, mais verdadeira e mais poderosa do

                                       que a face do pecado e da perdição.

                                       A vida e a comunhão, o amor e a graça de Deus, não só são mais fortes que o pecado,

                                       a divisão e a morte, mas os precedem: desde toda a eternidade, as três pessoas decidem

                                       salvar a humanidade pela Encarnação do Verbo.

                                       Foi no diálogo intratrinitário, nascido do seu olhar sobre o mundo, onde tudo começou.

                                       A história que o exercitante tem de contemplar, acompanhando o olhar da SS. Trinda-

                                       de, é a da perdição-salvação da humanidade na sua totalidade.

                                       Com a entrada do Verbo na nossa história, começa a história humana do Verbo de

                                       Deus.

 

A Encarnação é o ponto de chegada de toda a história anterior de salvação e de perdição da humanida-

                         de. Mas é sobretudo o ponto de partida de uma nova Criação, de uma nova humanidade.

                         Na Encarnação do Verbo de Deus nossa história torna-se sua história, nosso tempo

                         torna-s seu tempo. O Deus transcendente e incompreensível tornou-se proximidade

                         máxima num tempo e num espaço de nossa história: na carne de Jesus de Nazaré.

 

Através dessa forma de contemplação, somos atingidos em todas as dimensões de nossa personalidade: nos nossos sentidos, na nossa inteligência e no nosso afeto.

 

Porque o mundo em que Deus se encarnou é o nosso mundo, é esse mundo o que temos de contemplar na Encarnação: o mundo no qual nós vivemos com suas divisões e injustiças, ódios e mortes...

            Olhar o mundo em que vivemos com os olhos de ternura, de misericórdia e de compaixão de Deus;

                      ver o mundo, em todos os tempos e lugares, sendo remido e conduzido de volta a Deus;

                      ver sempre, todos os dias, todas as pessoas e todas as coisas com o olhar entranhável com que

                            Deus as olha e ama desde toda a eternidade, é uma das maiores graças que nos podem ser con-

                            cedidas. Esse foi o olhar de todos os convertidos, de todos os místicos, de todos os apóstolos.

 

2º preâmbulo: “composição vendo o lugar” (EE. 103)

                           A história a ser contemplada está inscrita num tempo e num espaço, num “aqui”, num “agora” e num “como”. O olhar contemplativo vai se concentrando e particularizando cada vez mais.

Passa da totalidade e da universalidade da terra e da humanidade na sua diversidade, para um lugar deter-

minado, num espaço definido: “a casa e os aposentos de Nossa Senhora”.

Na contemplação inaciana da Encarnação Deus contempla o mundo e o que vê é a diversidade.

Podemos dizer que Deus, à vista das diversas nações, raças, culturas e religiões, ama a todos e quer que vivam na paz, solidariedade e dignidade, e que colaborem para implantar a justiça, a harmonia social, os direitos humanos e o respeito pela obra de Suas mãos, o mundo criado.

Deus se compraz na diversidade... mas a humanidade não está preparada para viver sua diversidade em paz. Deus agiu sempre e age agora nesta diversidade.

         Ao entrar na nossa história, Deus armou sua tenda no meio de nossas tendas.

 

3º preâmbulo: “pedir o que quero” (EE. 104)     “Pedir conhecimento interno do Senhor que

                                                                              por mim se fez homem”.

         O adjetivo interno  refere-se primeiramente a Jesus Cristo: é pedida a graça de conhecer o mais íntimo de

         sua pessoa, de sua vida e de sua missão, de seus pensamentos e de seus sentimentos, do seu mistério...

Mas o “conhecimento interno” de Jesus Cristo nos atinge também a nós no mais profundo de nós mesmos, no nosso próprio mistério e em todas as dimensões de nossa vida.

Ao meditar o “que por mim se fez homem”, somos envolvidos no mistério contemplado.

As duas dimensões são inseparáveis, na linha da mística paulina: “Eu vivo, mas já não sou eu que vivo,

                                                                                                 pois é Cristo que vive em mim” (Gal. 2,20).

Em segundo lugar, pedimos que esse “conhecimento interno” nos leve a um Amor sempre maior a Jesus Cristo: “para que mais o ame”, e a um seguimento mais radical: “e o siga”.

 

Na Oração:

Com “os olhos da fé” temos acesso ao mistério de Deus e podemos olhar o mundo com os olhos de Deus.

Esta visão do mundo dos desesperançados e desesperados, quando é feita com os olhos da Trindade, é de uma extraordinária fecundidade apostólica.  Ela gera, naquele que contempla, “entranhas de misericórdia” e leva à

entrega e ao compromisso  em favor dos perdidos.

Quem, movido pelo desejo de imitar e seguir a Cristo, se perguntar: “Que fiz por Cristo? que faço por Cristo? que farei por Cristo?” será movido a dar uma resposta que o levará à Encarnação no mundo dos homens, a ser presença eficaz na realidade que vive.

 

Textos bíblicos1) Heb. 2,1-18      2) Rom. 8,1-17       3) Ef. 1,3-14       4) 2Tim. 1,6-14

                               5) 1Jo. 1,1-4        6) Gal. 4,1-7           7) 2Cor. 5,11-21

 

 

 

AS SURPRESAS 5E DEUS  (Mt. 1,18-25

"O mundo certamente não morrerá por falta de maravilhas, mas sim. por f alta de maravilhar-se" (Chesterton)

O texto evangélico afirma claramente o conflito vivido por José. Ele viveu a experiência de uma verdadeira "noite escura", do "silêncio de Deus". Mais uma vez é Deus quem toma a iniciativa. Na narração de Mateus, o anjo comunica ao embaraçado José o mistério que está acontecendo na sua esposa. Por essa revelação do anjo, José é atingido como que por um raio, é tomado de surpresa. A sua noite, o seu silêncio, o seu sono, a sua rotina diária são quebrados por uma novidade absoluta. O Natal é, por sua própria natureza, uma surpresa que quebra a solidão de um homem abandonado a si mesmo, aos seus desertos desolados, aos seus egoísmos, à sua morte.

"Brilhou no céu uma estrela, mais luminosa do que qualquer outra, a sua luz ultrapassa qual­quer palavra, a sua novidade desperta estupefação" (Inácio de Antioquia).

Faz-se necessário recuperar o sentido da surpresa, que é a atmosfera do tempo de Natal, recordar que a visão bíblica da história dirige-se para uma meta surpreendente, encontrar novamente a capacidade de maravilhar-se,

José era um pobre noivo, pertencente a uma nação oprimida e a uma categoria social esquecida, mas con­serva límpidos os olhos do espírito, prontos para perceber a maravilha que está germinando na sua vida. Devemos recobrar o sentido da expectativa, da novidade, da coragem»

"Os bens mais preciosos não devem ser buscados, mas esperados" (Simone Weil).

Com essa espera de Deus, com essa esperança, com o vivo sentido da parusia ("vinda"), o cristão pode dar sabor à sua vida, muitas vezes modesta e simples como a de José,

O Natal quer reafirmar a possibilidade de uma alternativa, da chegada de um hóspede inesperado, porque é "boa nova", é evangelho.

O cristão não deve jamais cair na resignação, mas permanecer em vigília, na expectativa. O cristão deve ser uma surpresa para os outros, com seu gesto de amor imprevisto, com sua palavra que reanima, com sua visita que consola, com sua atenção para com todos os que levam uma vida obscura e monótona. O cristão olha o mundo com inteligência, sim, mas também com a simplicidade das pombas; sabe intuir o bem secreto, também sabe apreciar a poesia da vida e da natureza. Porque no traçado das horas e dos dias, Deus prepara sempre a sua novidade, a sua surpresa, o seu dom natalício.

José, "homem justo": paia alguns o termo é sinônimo de "delicadeza ou piedade", para outros significa "respeito, reverência" em relação ao mistério de Maria, para outros

ainda é um título jurídico, "obediente à lei".   O justo por excelência é Deus, fiel à Aliança, que com

constância, continua seu projeto salvífico, não obstante as rupturas provocadas pela infidelidade humana. O homem justo é aquele que, como Abraão, acolhe na fé o plano de Deus e com Ele colabora. José é "justo" porque adere ao misterioso desígnio de Deus, é justo porque confia em Deus, arrisca com Deus, ainda que os contornos do seu projeto permaneçam obscuros e, em certos aspectos, incompreensíveis.

José se coloca, portanto, na linha das grandes figuras de crentes da história da salvação. O seu é um

exemplo de silenciosa dedicação ao Reino.

Mergulhados naquilo que é margem, na superfície das coisas, perdemos de vista o essencial, isto é, a adesão a Deus e ao seu plano de amor, de verdade, de justiça.

"Mós buscamos o absoluto, mas paramos nas coisas* (Novalis).

O justo tende para o infinito, o seu modelo é Deus mesmo, o Justo; ele quer ser santo como Deus é Santo; seu alimento é fazer a Vontade do Pau à justiça exterior, farisaica, ele opõe a justiça da fé e do coração. Portanto, o termo justo quer indicar a abertura e a adesão à ação suprema de Deus. Podemos dizer que o aparente vazio da paternidade legal de José revela, na verdade, plenitude e grandeza. Na "justiça" de José resplandece mais uma vez "o paradoxo evangélico da força da fraqueza" (João Paulo II),

O "justo" José viveu no dia-a-dia a fidelidade à Lei de Deus, Mateus repete três vezes que ele se levantou para fazer o que lhe foi revelado como Vontade de Deus. José soube acolher também, na obediência e no amor despojado, a missão que Deus lhe confiou.

Na oração: Durante a contemplação devemos deter-nos particularmente na figura de José. Ele teve seus pensamentos próprios, suas preocupações e suas provações, suas perguntas dilacerantes e suas dúvidas angustiantes. Mas Deus nunca deixa de atuar no meio das nossas noites, dúvidas, provações. Ele conhece nossos pensamentos etemores e, no momento certo, nosliberta dos nossos medos e nos dá a conhecer sua Vontade.

 

  

DUAS MÃES, DOIS HINOS  (Lc. 1,39-56)

 

“A fé é a reciprocidade de dois fiat, de dois sins, o encontro de amor descendente de Deus e do amor ascendente do homem. A voz de Deus é silenciosa, ela enerce uma pressão infinitamente leve, jamais irresistível” (P. Eudokimov)

 

Quando Deus entra e atua na história das pessoas, move-as para irem “apressadamente” ao encontro dos outros, para servi-los nas suas necessidades, para comunicar a alegria pela salvação recebida, e para alegrar-se com os outros pelas graças que eles receberam.

          Quem foi “agraciada” por Deus não fica só contemplando as maravilhas que Deus realizou nela, mas

          sai para proclamá-las.

          Quem tem consigo o Salvador não o pode guardar só para si.

A expressão “apressadamente” quer sublinhar a atitude interior de fé e de obediência de Maria.

Sua “pressa” está dinamizada pelo fervor interior, pela alegria e, sobretudo, pela fé.

 

A Visitação realiza o encontro entre a mãe do precursor do Messias e a mãe do Messias, e no entanto, tu-

                 do se desenvolve numa casa normal, entre gente simples, na árida região montanhosa da Judéia.

                 A atmosfera é de alegria. A Palavra de Deus adentra a intimidade e o calor familiar de uma ca-

                 sa, e anuncia um evento glorioso e universal.

                       Os hinos querem justamente assinalar este cruzamento da pobreza e da glória, do finito e

                       do infinito, do humano e do divino.

 

Todo o Evangelho da infância está envolto um clima de oração, a qual se espalha como uma brisa que penetra e interpreta todos os acontecimentos.

Os cânticos presentes no texto de Lucas exercem a função de interpretar  a história, penetrar os segredos da ação de Deus, consolar e revelar.

Além disso, tem uma qualidade comum e constante: nascem e se alimentam na Bíblia.

               O ponto de partida dos dois hinos é a teologia dos “anawin”,  os pobres de Javé, ou seja, a

               corrente espiritual herdeira da teologia bíblica do “resto” de Israel.

 

Cantando o Magnificat ou o Benedictus, a Igreja repete a mesma oração que exalta o triunfo de Deus, conseguido não através da força, das manobras políticas, da prepotência militar ou econômica, mas através dos simples, dos pobres, dos esquecidos dos anais da história política.

Essa é também a intuição de todos os homens que buscam a Deus com o coração sincero.

 

A oração de Isabel (vv. 42-45): trata-se de uma proclamação; a verdadeira oração não é principalmente

                                                              expressão de um sentimento, mas celebração e reconhecimento da ação de Deus nos pobres e nos humildes.

O Pai, através do instrumento frágil de uma mulher, ignorada pela sociedade oriental, apresenta ao mundo a sua Salvação.

O grito de alegria de Isabel expressa, com o pulo de alegria de João, a chegada da Salvação que entra na nossa história através de Maria. É um convite a todos para que se unam ao seu louvor e à sua alegria.

As palavras de Isabel são a primeira profissão de fé em Jesus como Messias, isto é, como “Cristo”.

 

Magnificat:  a primeira reflexão que aflora, nasce do próprio tom, exultante, festivo, alegre.

                        É um convite a descobrir o Deus da alegria e do sorriso.

O ser humano é convidado a juntar-se ao jogo puro e bondoso de Deus, rompendo os esquemas do agir frenético e egoísta, introduzindo a contemplação, a esperança e o amor.

A alegria de Deus se reflete no ser humano justo como graça. E então,

                “o homem brincará com o céu, a terra, o sol, com todas as criaturas;

                 todas as criaturas experimentarão o prazer, o amor, a alegria lírica;

                 e contigo vão rir, e tu, por teu lado, rirás com elas” (Lutero).

 

Contra uma concepção cada vez mais “econômica” do mundo, contra o triunfo do possuir, do ter, da escravidão das coisas, o Magnificat exalta a alegria do partilhar, do perder para encontrar, do acolher, do admirar, da felicidade da gratuidade, da contemplação, da doação.

O ser humano, e todo o seu ser, transforma-se então em louvor de Deus.

 

         O cântico de Maria é um resumo de todas as esperanças de Israel  e, ao mesmo tempo, uma

         expressão condensada da fé, da esperança e do amor da Igreja, o novo Povo de Deus.

         Maria canta agora a realização das esperas e das esperanças cantadas, nas horas de júbilo e

         nas horas de pranto, pelo povo de Israel.

 

As promessas do Magnificat não são uma utopia nebulosa.

Elas estão fundamentadas na esperança-certeza da fidelidade amorosa de Deus.

        O Magnificat, na sua estrutura fundamental, é o canto das escolhas caprichosas de Deus, que tem um

        “fraco” pelos pobres, por todos os infelizes e os oprimidos; poder e riqueza não gozam de nenhum prestí-

        gio aos seus olhos.

 

Mas no Magnificat há algo mais: há a convicção de que Deus reverterá a sorte desta invertida história humana. O poder e a riqueza foram derrubados, são ídolos mortos.

Por fim, no Magnificat, a oração  louva as grandes coisas realizadas por Deus, os atos salvíficos de De-

                                       us, sua fidelidade, sua palavra eficaz, seus atributos fundamentais, que Maria reú-

                                       ne na trilogia poder-santidade-misericórdia.

                                       Maria interpreta o sentido da própria vida partindo da experiência de Israel e da

                                       Bíblia. O ponto de referência é o plano da história da salvação.

                                       É sobre essa passado-presente salvífico que se constrói o futuro da fé e da

                                       esperança.

 

Como fazer esta contemplação?

                                                         Quem ocupa o centro da cena, do começo ao fim, é a figura de Maria. Nela devem concentrar-se, portanto, nosso “olhar, escutar, observar”.

Por isso, talvez, o melhor modo de fazer esta contemplação seja o que propõe S. Inácio no “segundo modo de orar” (EE. 249-257), isto é, “contemplar o significado de cada palavra” ou frase, demorando-se “na consideração dela (da palavra ou frase) tanto tempo quanto nela encontrar signifi-

cações, comparações, gosto e consolação, em considerações relacionadas com a mesma” (EE. 252).

 

Se optarmos por este método de “considerar”, “contemplar” e “ruminar” todas e cada uma das palavras que saem do coração e dos lábios de Maria, certamente não nos faltará assunto para várias horas de contemplação.

Nenhum outro texto nos revela de maneira tão densa e tão profunda a vida interior de Maria, os pensamentos e os sentimentos que invadem sua alma, a consciência de sua missão, sua fé e sua esperança, sua experiência de Deus, enfim.

                   Rezar as “marcas salvíficas” de Deus na própria história pessoal.

                   Não podemos esquecer o que Deus fez ao longo da história da salvação e o que fez particular-

                   mente por nós na história de nossa vida.

 

Pedir a graça:  Ao longo da contemplação devemos pedir que as palavras de louvor e de libertação can-

                            tadas por Maria penetrem no nosso coração e produzam frutos de conversão, de alegria e de gratidão; devemos pedir especialmente a graça de louvar a Deus, de cantar com um coração transbordante de júbilo, pela salvação recebida.

Peçamos também que as palavras do Magnificat transformem nossos valores, nossas atitudes e nossas práticas na linha da justiça e da misericórdia do Evangelho do Reino, proclamado por Jesus e antecipado no cântico de sua mãe.

 

 

QUANDO A ORAÇÃO BROTA DO HÚMUS...

 

Sabemos que Deus nos fala não só através da Bíblia, da Igreja, dos acontecimentos, mas também através de nós mesmos, daquilo que nós pensamos e existimos, através de nosso corpo,  de nossos sonhos, e ainda através de nossas feridas e de nossas fraquezas... e até mesmo através de nossos pecados.

Ao longo da história, homens e mulheres experimentaram a limitação e o fracasso na vivência espiritual, mas sempre de novo se levantaram de suas próprias cinzas e retomaram o impulso para uma vida melhor.

 “Não são as virtudes que nos abrem o acesso a Deus, mas a fraqueza humana e até mesmo o pecado”.

Tal afirmação pode causar estranheza, mas é a pura verdade.

Se queremos fazer a experiência do encontro com Deus, no cotidiano da vida, temos de tomar consciên-cia de nossa limitação, conviver com nossas próprias paixões e aceitar com humildade a nós mesmos.

      “Se queres chegar ao conhecimento de Deus, trata de antes conhecer-te a ti mesmo” (Evrágio Pôntico)

 

O “subir”  até Deus passa pelo “descer”  até às profundezas da própria realidade pessoal.

Nesse sentido, o caminho para Deus não é visto como uma estrada de mão única que nos leva sempre para o alto, em direção a Deus. Pelo contrário, o caminho para Deus passa pela limitação e fragilidade, pelos erros e desvios enganosos, pelo fracasso e pela decepção consigo mesmo.

A verdadeira oração, dizem os antigos monges, surge do mais profundo de nossa miséria, e não das nossas virtudes. Para eles, a oração vinda das profundezas da existência é a oração que caracteriza a vida cristã, e precisamos viver a experiência do “fracasso” para chegar à verdadeira oração.

“Todo esforço que fazemos por meio da ascese e da oração para nos apossarmos de Deus é um esforço na direção errada; com isto nós nos tornamos semelhantes a Prometeu, que quis se apossar do fogo do céu. É importante que reconheçamos até que ponto este esquema de perfeição persegue uma rota que contraria ao que Jesus mostrou no Evangelho...

Jesus não construiu nenhuma escada de perfeição pela qual nós pudéssemos subir, degrau por degrau, para no fim chegarmos à posse de Deus, mas mostrou um caminho que leva às profunde-zas da humildade... Temos, pois, que escolher, na encruzilhada, o caminho que iremos seguir para chegarmos a Deus. O caminho de ‘cima’ ou o caminho de ‘baixo’?

Com base em minha experiência, eu desejaria dizer-vos logo de partida: se quereis chegar a Deus através do heroísmo e da virtude, isto é problema vosso. Tendes o direito de fazê-lo; mas advirto-vos que, com isto, ireis bater com a cabeça na parede.

Se, ao invés, quiserdes seguir o caminho da humildade, tendes que abraçá-lo com sinceridade, e não podeis ter medo de descer até o mais profundo de vossa miséria”. (Jean Lafrance)

 

A palavra latina “humilitas” está relacionada com “húmus”, com terra.

Ser “humano” é reconhecer-se terroso, argiloso; é por essa razão que somos todos irmãos já que somos todos feitos de argila. Somos “argila” e devemos cuidá-la, cultivá-la e fornecer-lhe as condições para mantê-la aberta ao Transcendente. A “humildade” é a própria essência do ser humano; ela é a própria condição para ser aquilo que se é: para ser “humano”. Essa é a verdade de nossa humanidade.

A humildade, portanto, é o reconciliar-nos com a nossa condição terrena, com o mundo de nossos instintos e paixões, com o nosso lado sombrio.

Nós temos necessidade de bastante contato com o chão de nossa existência para que o salto para Deus possa acontecer. Tudo quanto existe em nós em termos de sentimentos, necessidades, paixões e fantasias tem que ser apresentado a Deus, para que Ele o transforme.

A transformação interior só pode acontecer quando tudo quanto está em nós é referido a Deus, ao Deus que nos ama e nos conduz à verdade de nossa existência.

Tudo quanto pensamos e sentimos acontece na presença de Deus, do Deus que nos olha com bondade e compaixão e que vê até o fundo de nossos pensamentos e sentimentos.

 

A humildade é a coragem de aceitar a verdade sobre si mesmo; ela é o lugar onde nós podemos ir ao en-

                       contro do Deus verdadeiro.

A humildade é acolher os próprios limites e aceitar o Infinito que está presente nesses limites.

A humildade é, justamente, aceitar ser argila no qual se manifesta a Luz.

Só ali, no mais profundo de nossa condição argilosa, é que a verdadeira oração pode se fazer ouvir.

“Descer” à nossa realidade, significa considerar a experiência da impotência e do fracasso como o lugar da verdadeira oração e como chance de chegarmos a uma nova relação pessoal com Deus.

Na perspectiva cristã nada se perde; na oração aprendemos a acolher e a conviver com os cacos e frag-mentos de nossa vida, e a partir daí, com a graça de Deus podemos construir algo novo e surpreendente.

Para André Louf o caminho para Deus passa sempre pela experiência da própria fraqueza.

Quando não conseguimos mais nada, quando tudo nos foi retirado das mãos, quando somos forçados a constatar que fracassamos, aí é também o lugar onde já não nos resta outra coisa senão entregar-nos nas mãos de Deus, abrir nossas mãos e apresentá-las vazias a Deus.

A experiência de Deus nunca é uma recompensa pelo nosso esforço, mas sim, a resposta à nossa própria fraqueza. Entregar-se a Deus é a meta de todo caminho espiritual.

 

A oração brota deste ponto zero, onde nossas forças desmoronam, onde nos defrontamos com a nossa extrema fraqueza.

Assim, o nosso coração torna-se um “coração contrito”, um coração despedaçado e oprimido.

E com o coração, também todos os nossos planos de “perfeição” humana.

Neste coração dilacerado e oprimido, onde só a fraqueza e a impotência ainda estão presentes, aí a força de Deus pode manifestar-se e reassumir tudo de novo.

Precisamente a queda, o fracasso, o pecado... podem ser para nós o pedagogo que nos guia no caminho para Deus. “Tua queda te há de educar” (Abade Doroteu).

 

 

OS MAGOS, PORQUE BUSCAM, PÕEM-SE A CAMINHO (Mt 2,1-12; EE 267)

 

Para encontrar Jesus, é necessário sair da própria terra e ir ao seu encontro

 

Por que os Magos deixaram sua terra e se puseram a caminho?

Guiados pela estrela no céu e pela estrela de uma grande esperança no coração, começam a peregrinar.

Na sua busca, examinam o céu e auscultam o próprio coração. Porque buscam, empreendem o caminho.

           “Não se puseram a caminho porque viram a estrela, mas viram a estrela porque se puseram a

            caminho” (S. João Crisóstomo).

Põem-se a caminho porque têm perguntas e inquietações no coração. São o símbolo dos que buscam.

           “Anunciam e perguntam, crêem e buscam; simbolizando aqueles que caminham na fé e desejam

            a realidade” (S. Agostinho).

 

Às vezes, é depois de uma longa caminhada quando temos de enfrentar as maiores provações e as perguntas mais dilacerantes e perigosas.

Essas perguntas fazem parte da providência de Deus. Na verdade, Deus está presente nelas, porque são perguntas por Ele.

Depois de empreender o caminho do êxodo, de atravessar o deserto e a noite, quando a estrela que nos acompanhou, orientou e deu força ao longo da travessia, desaparece, deixando-nos às escuras; quando parece que Deus nos abandonou e não caminha mais ao nosso lado, então torna-se necessário perguntar.

 

Por quanto tempo os Magos caminharam?

Não sabemos. O que sabemos é que caminharam juntos, em comunidade.

Por isso chegaram juntos. O longo caminho da busca, feito no despojamento e na obediência aos sinais de Deus, enfrentando o cansaço e os obstáculos, a incompreensão e o menosprezo, só pode ser feito em comunidade.

Só ajudando-se e animando-se mutuamente, carregando o peso uns dos outros, durante o calor do dia e durante a escuridão da noite, é possível chegar à meta.

          Para chegar ao encontro com Deus é necessário atravessar, como os Magos, desertos escaldan-

          tes e noites escuras, desinstalar-se e romper com o convencional, vencer novos obstáculos e

         refutar velhos argumentos. Quem quer encontrar a Deus, não pode ficar preso ao passado.

          Precisa partir sempre de novo, com o coração cada vez mais leve, porque mais livre; mudando,

          cada manhã, o lugar, o modo de pensar, a maneira de esperar e a forma de viver.

 

Desde o 1º momento de nossa existência, somos viatores, viandantes, peregrinos.

Mas, para onde caminhamos? Caminhamos para Deus, porque Ele é nossa origem; nosso destino é “buscar e encontrar a Deus”.

Para encontrar Jesus, é necessário, em 1º lugar, buscá-lo e querer encontrá-lo;

                                                      em 2º lugar, perceber e discernir os sinais exteriores e interiores de

                                                                         sua epifania.

Para ver os sinais como sinais, é necessário estar aberto a eles. E só está aberto a eles quem busca. E só

começa a buscar quem tem os olhos e o oração abertos para as realidades que estão além das aparências.

Para captar e discernir os sinais,  é necessário uma ótica nova, é necessário o êxodo interior e exterior.

 

A busca e o discernimento são imprescindíveis, mas não são suficientes.

Para chegar ao encontro com Jesus é necessário ainda deixar-se comover pelos sinais percebidos e discernidos, é necessário deixar-se mover e guiar por eles ao longo de toda a caminhada.

        Quem parte impelido por esse dinamismo, é porque de alguma maneira já viu o que busca.

        Quem é movido por uma grande esperança ou por um grande amor, tem força e entusiasmo pa-

        ra deixar tudo e partir.

        Partir disposto a enfrentar todos os obstáculos e a correr todos os riscos.

A “estrela” que guia nossa busca continua sempre apontando para mais verdade, mais entrega, mais justiça, mais comunhão... Ela continua iluminando através das nuvens, das decepções, das noites, dos sofrimentos...

Ela continua a brilhar sempre, de uma ou de outra forma, no firmamento do coração.

 Quando os Magos chegam a Jerusalém, ninguém sabe de nada. Cada nova surpresa supera as anteriores.

Em vez da alegria esperada, encontram o medo nos olhos das pessoas.

Em vez da riqueza e da glória do rei recém-nascido, encontram um bebê numa casa-gruta pobre, filho de pais pobres, pobremente vestido.

       “Sua fé foi mais penetrante que o olhar, porque viram coisas humildes e entenderam coisas

         elevadas” (S. João Crisóstomo).

       “Aqueles (magos) buscavam na terra destes (dos judeus) o que estes não reconheciam na sua terra. En-

        tre estes encontraram, sem fala (recém-nascido), aquele que os judeus negaram quando ensinava” (S.

        Agostinho).

 

O que os olhos dos Magos vêem ao entrar na casa é a fragilidade e a impotência do recém-nascido.

Mas o que esses mesmos olhos – acostumados a auscultar os céus e treinados no discernimento do que o coração sente – reconhecem , depois de guiados pela estrela e ilustrados pelas Escrituras, é o Rei de todos os povos e de toda a Criação.

O longo itinerário da busca de Deus só pode terminar na adoração e na entrega.

A entrega de nós mesmos na adoração é o Dom mais perfeito e mais agradável ao Deus que nos amou até o extremo de querer viver nossa vida mortal, para fazer-nos participantes de sua vida eterna.

 

Desde a época dos Santos Padres, os três presentes oferecidos pelos Magos são vistos como símbolos da fé, da oração e das boas obras.

          Ao longo do caminho que nos conduz ao encontro com Deus vamos enchendo nossas mochilas

          com ouro do amor que não esmorece, do incenso que aspira sempre a mais, da mirra dos

         sofrimentos e das feridas da caminhada.

          O “Deus-conosco” nos espera para acolher nossos dons, que tem sua origem n’Ele;

                                        espera-nos para acolher nossa homenagem e nossa adoração.

 

Maria é caracterizada, no momento culminante do relato, como aquela que está ao lado de Jesus.

           Enquanto toda Jerusalém se turba com Herodes, Maria está com Jesus.

           Ela não é nomeada pelo nome, mas é apresentada como “sua mãe”.

               “Sua maternidade é mais importante que seu nome” (R.A Díez).

           Maria nos apresenta e nos entrega Jesus, seu filho. Seu Filho é para nós.

 

Quem faz a experiência desse encontro com Deus, não pode deixar de comunicá-la aos outros. Todo verda-

deiro encontro com o Senhor nos despoja de nós mesmos para nos enriquecer com a sua riqueza.

E esta é inesgotável. Quanto mais é comunicada aos outros, maior é a alegria de quem a comunica.

Quem encontrou verdadeiramente a Deus, vê o mundo e as pessoas com outros olhos; torna-se testemunha da esplêndida Notícia de Deus para todos os que encontra no seu caminho.

       Como cristãos, somos todos “apóstolos”, “enviados”.

       E o enviado deve ir aonde é chamado pela missão.

           “Se eles (magos) percorreram um caminho tão longo para vê-lo recém-nascido, que desculpa terás tu

            se nem sequer fores ao bairro ao lado para visitá-lo enfermo e encarcerado”? (S. João Crisóstomo).

 

Na oração:

 

- Quais são as perguntas que mais lhe inquietam?

- O que está impedindo você caminhar?

- Há alguma “estrela” abrindo horizontes para você?

- O que há de “herodiano” no nosso mundo e em nós mesmos? quais são as causas, as manifesta-

   ções e os  efeitos das nossas inseguranças, do fixismo em torno do próprio eu, dos nossos impulsos

  destruidores.

 

Petição: peçamos a graça de sermos libertados das atitudes e comportamentos que geram opressão,

             perseguição e morte; e graça de saber descobrir e discernir no céu, na história e em nós

               mesmos os sinais externos, as moções interiores e os caminhos que levam ao Deus da Vida

               e à Vida plena  dos homens que Deus ama.

 

 

COTIDIANO: LUGAR DO EXTRAORDINÁRIO

 

Geralmente não nos damos conta de que estamos envolvidos pelo cotidiano.

Na maioria das vezes, o cotidiano resume-se num fazer tão “normal” que, por causa dele, fazemos coisas que não faríamos se pudéssemos tomar distância e refletir a respeito do que estamos fazendo.

Na vida cotidiana, as pessoas correm o risco de serem apenas imitadoras ou repetidoras, pois

temem se perderem na busca do novo; as respostas são confirmadas, mesmo que estas

sejam velhas e desfocadas e as perguntas são silenciadas.

Fechado em si mesmo o cotidiano torna-se pesado, desinteressado e frustrado.

 

No entanto, no seio do cotidiano pode brotar uma mudança, uma transformação.

No cotidiano se encontram as “pequenas práticas com sucesso”.

O cotidiano pode significar um avanço na aceitação do “pequeno”, das coisas

mais simples... tudo tem sentido, tudo é digno de ser cuidado.

“O cotidiano costura muitas iniciativas, muitas práticas pequenas, que en-

laçadas vão formando uma transformação maior. Em vez de um grande

projeto, pequenas ações. O cotidiano educa para uma entrega a uma cau-

sa maior a partir dos pequenos gestos” (P. Libânio).

As “ações cotidianas insensatas” podem ser “sensatas” (com sentido), se percebermos Deus presente nelas. Descobrir a presença divina escondida no cotidiano é encontrar-se acolhido pelo abraço do Criador que nos envolve. É o cotidiano que nos prepara para as grandes decisões.

É na realidade diária que cada cristão é chamado a viver em comunhão com Deus e entrar na dinâmica do Espírito Criador, que o anima no compromisso com o mundo e o leva a transformar as situações de morte em vida, como fez Jesus. É a fidelidade ao cotidiano que possibilita a transformação da realidade.

 

A revolução  é a transformação do cotidiano. As revoluções que são feitas pela violência e não mudam os cotidianos (no pensar e no agir), são passageiras. Permanecem as que mudam o cotidiano.

Nesse sentido, o cotidiano que conserva, também pode provocar o surgimento do novo;

                          o cotidiano que aliena, também está grávido de utopia;

                          o cotidiano que nos acomoda, também pode ser o lugar da audácia e da iniciativa.

 

A espiritualidade é a contracorrente do cotidiano. Se, de um lado, o cotidiano nos arrasta para a repeti-

              ção e a conservação, de outro lado, a espiritualidade nos impulsiona para a busca e a descoberta.

Se permanecermos simplesmente no cotidiano, então nos tornaremos medíocres e nos contentaremos com o “menos”.

A espiritualidade abraça tudo, dá significado a cada ação e situação cotidianas; nada daquilo que é huma-

                              no lhe é estranho; não é algo de aristocrático, de solene e oficial, mas ela se veste com

                              roupas despojadas da vida cotidiana.

                              É a sabedoria que o ser humano pede como dom ao Senhor, para que ela esteja ao seu

                              lado na labuta da vida cotidiana (Sl. 9,5.10).

A realidade cotidiana é o lugar onde somos chamados a viver a espiritualidade cristã e a deixar-nos conduzir pelo mesmo Espírito que animou Jesus e o levou a inserir-se na trama humana e a assumir o risco da história. Ser cristão inserido no mundo, em meio às agitações cotidianas, é acima de tudo ter Jesus como modelo de vida: suas palavras, suas ações, seu modo de relacionar-se com o Pai e com os irmãos...

A espiritualidade cristã é a espiritualidade do cotidiano, que conserva sua força transformadora, que é capaz de despertar o espanto e a admiração, apontando sempre para um horizonte mais amplo e mais rico;

é a espiritualidade que reacende desejos e sonhos novos, que suscita energias em direção ao mais;

é a espiritualidade que faz descobrir, escondida no cotidiano, uma Presença absoluta que nos envolve;

é a espiritualidade que faz saborear o eterno e o Absoluto no ritmo doméstico e cotidiano da vida...

é a espiritualidade que projeta a vida a cada instante; abre espaço à ação do Espírito para que Ele nos

                                expanda, nos alargue e nos impulsione para horizontes novos.

 

Texto bíblicoGen. 18,1-15      (cotidiano de Abraão: lugar do encontro com o Senhor).

 

Na oração:  Como é o seu cotidiano? rotina e repetição ou desafio e criação?

                      Como está sua vida cotidiana familiar? Nela há lugar para a esperança e para o novo?

                      Você é alguém que normalmente assume novos desafios ou sente medo de mudanças?   

 

 

NÃO OCULTEIS A VIDA OCULTA DE JESUS

 

“Se, às vezes, há um fastio na rotina, não raro ela revela um

mistério insondável” (F. Cláudio Van Balen)

 

A vida oculta de Jesus coloca em evidência nossas motivações e nossos valores mais profundos.

É a “importância do não importante”.

O importante é ser significativo e não ser importante!

Cuidado com os critérios do mundo... de buscar os primeiros lugares... o poder... a fama, o status... a eficácia acima de tudo!

Jesus nos ensina, em Nazaré, o valor das coisas cotidianas, quando são feitas com dedicação e carinho.

É uma teologia do trabalho: o “fazer”, seja qual for, segundo suas motivações, é redentor; não são as coisas que nos fazem importantes, mas somos nós que fazemos qualquer coisa ser importante.

É o sentido que damos à nossa vida e à nossa ação que fazem com que estas sejam significativas ou não.

Somos nós que damos significado às coisas e não o contrário!

Quando são as “coisas importantes” que nos fazem importantes, e se “estas coisas” um dia desaparece-

rem, é como se a nossa própria vida perdesse seu sentido...

 

Na escola da vida, Jesus também foi aprendiz.

Aprender é conseqüência básica da dinâmica da Encarnação. Lucas o confirma:

                 “Jesus crescia em sabedoria e em graça, diante de Deus e diante dos homens” (Lc. 2,40.50).

Portanto, Jesus viveu a vida como um processo lento e progressivo, a partir da própria condição humana, no meio do seu povo e em vista do Reino de Deus, graças a uma criatividade transformadora.

 

A vida de Nazaré coloca os critérios evangélicos na nossa cabeça e no nosso coração.

A vida de Nazaré chega à nossa vida em muitos momentos (serviços ocultos, rotina, doença...). 

             Jesus nos convida a entrar em sua casa para aprender d’Ele e com Ele os valores do Evangelho.

É difícil compreender a “normalidade” da vida de Jesus; parece que o Reino não tem exigências sobre sua vida. Identificando-se com a vida de todo mundo Jesus mostrava que a salvação não consistia em coisas extraordinárias ou em gestos fantásticos, mas na “adoração do Pai em espírito e verdade”.

Jesus gasta praticamente toda sua vida nesta humilde condição; passou desapercebido como Messias.

           O Reino se revela no pequeno, no anônimo e não no espetacular, no grandioso.

          Ele está misteriosamente se realizando entre nós.

Podemos dizer que esta página é, em certo sentido, a apologética do cotidiano, das horas, dos meses, dos anos escondidos, da vida monótona, provinciana, não-escrita, de Jesus.

Para o plano de Deus, é tão importante o que acontece em Nazaré, de onde não pode vir nada de bom, quanto aquilo que é digno de ficar registrado nos anais da história.

 

No A.T. existe a literatura sapiencial, que é uma verdadeira celebração do Deus cotidiano, isto é, do Deus que se revela não só nos grandes acontecimentos histórico-salvíficos, mas na simplicidade dos atos e dos dias. Todo o horizonte rural ou urbano, no qual se passa a vida de cada dia, torna-se um sinal contínuo de Deus, que fala discretamente nas pequenas coisas.

Essa atenção à simplicidade do cotidiano, à natureza da Galiléia, à mensagem que Deus esconde nas pessoas, nas coisas, nas horas, é uma constante na pregação de Jesus.

Nazaré é o sinal da “epifania” de Deus nas pequenas coisas, é o sinal da palavra divina escondida nas

             vestes humildes da vida simples e cotidiana. Nazaré pode transformar-se em Jerusalém quando, quem a habita, deixa-se possuir pela totalidade do amor no coração. Ainda que o itinerário de Nazaré pareça pobre e humilde, se o percorrermos com fidelidade e amor, ele se insere no projeto de Deus, fica iluminado, tem um novo sentido...

 

Texto bíblico  Lc. 2,39-52

 

Na oração: descobrir o significado profundo da vida cotidiana

                     mais simples: trabalho, família, relações...

* Para atravessar a Nazaré cotidiana é preciso aprender a dimen-

   são perfeita do amor, que é doação silenciosa, é oblação feliz.

* O dom a ser pedido é o da fidelidade, da constância, da sabedo-

   ria que sabe reconhecer as sutis palavras de Deus, ocultas no interior das pessoas de sempre, dos fatos habitu-

   ais, da monotonia doméstica, do ritmo cotidiano.         

 

 

 

MINHA VIDA COTIDIANA É MEU GURU (monge anônimo)

 

“Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia a própria dificuldade” (Mt. 6,34)

 

Com estas palavras, Jesus estabelece a diferença entre o modo pagão e o modo cristão de viver o cotidiano. A “cotidianidade” de nossa vida está tecida de coisas “ordinárias”, contraposta ao que ocor-

                  re de maneira “extra-ordinária”.

Falamos de uma cotidianidade humana, isto é, daquelas atividades de nossa vida diária que, embora irrelevantes em sua aparência, tem uma razão de ser, uma motivação e um modo de fazer-se que não se deve à mera casualidade ou a um impulso instintivo de repetição ou automatismo.

O cotidiano é o que vivemos e/ou fazemos cada dia: o conjunto de circunstâncias, atividades e rela-ções que formam a trama da vida de uma pessoa por

meio das quais Deus atua nela e ela se relaciona com

Deus. Sua característica é a estabilidade, pois tende-

mos a criar hábitos de atitudes e conduta, que em cer-

to sentido condicionam nossa vida para o bem ou pa-

ra o mal.

O cotidiano é o meio no qual o amor toma densidade e se expressa preferentemente.

Podemos afirmar que a pessoa “vale pelo que ama”, e ama o que valoriza e na medida em que o valoriza.

Não basta conhecer para amar o conhecido; é necessário dar valor e calor àquilo que se conhece.

Ninguém ama pelo mero fato de conhecer. É certo que o processo para chegar ao amor começa geralmente pelo conhecimento; mas ninguém dá o salto direto do conhecimento ao amor;

é necessário passar pela experiência. O cotidiano torna-se o “lugar” das experiências.

 

Nesse caldo de cultivo, o Amor se dirige a pessoas concretas e reais, se renova a cada dia, aprende a expressar-se sem buscar gratificações imediatas, converte as dificuldades em estímulos e se exercita na fidelidade a toda prova. É esta fidelidade no cotidiano que possibilita a transformação da realidade.

Tem-se dito que “a humildade do amor é o dom da vida cotidiana”, a humildade do amor sem “brilho”...

O amor é precisamente o lubrificante que dá sentido à vida cotidiana e lhe faz superar as dificuldades

              inerentes à mesma: o desprendimento de si mesmo, a busca da verdade e do bem comum, a aten-

              ção ao que facilita a vida dos outros... se tornam “normais” quando se cultiva o amor.

O amor se mede pelas obras. “O amor deve consistir mais em obras do que em palavras” (EE. 230).

                                                “Obras são amores, e não boas razões”.

Para S. Inácio e sua espiritualidade, Amor é Serviço, é trabalhar com Deus na mesma direção.

A identificação entre amor e trabalho é encontrado no mesmo Deus, que é Criador porque é Amor.

Mas o cotidiano tem um perigo que é a rotina, essa sensação de fazer tudo mecanicamente, inclusive o sagrado, e de perder com isso o ardor do novo ou o impacto do extraordinário. Quando esse perigo se torna real, o amor se converte em costume e a num conjunto de respostas já prontas.

Que fazer então?

Quando a vida cotidiana do cristão se torna monótona e se faz “normal”, é necessário sacudí-la com algum “detalhe anormal”, que ajuda para revigorá-la e dar-lhe fecundidade.

Neste sentido, os tempos de oração são os momentos privilegiados para que toda pessoa consciente de sua responsabilidade social e empenhada na transformação de seu “entorno” sócio-cultural, possa encontrar em sua vida cotidiana a fonte e sua fecundidade transformadora.

Tais “momentos” ajudam a propiciar o primado do amor acima do ter, saber e poder;

possibilitam fomentar o valor fundamental das pessoas acima das obras e instituições;

impulsionam a promover a solidariedade acima dos impulsos do egoísmo;

facilitam abrir horizontes de esperança no poder do amor e do bem, acima do mal;

dinamizam a criar âmbitos de diálogo acima da imposição e do domínio sobre o outro.

 

Texto bíblicoLc. 10,38-42

                                                     O Espírito nos faz abrir os olhos às realidades novas em nossa vida cotidiana;

 mas nossos olhos somente se abrirão se formos fiéis à voz do Espírito nos simples atos de nossa vida cotidiana.

 

Na oração: suas atividades diárias formam parte do seu caminho para Deus? Você tem consciência que cada

                     dia é um “tempo de graça”? Você “apalpa” a presença de Deus nas “rotinas diárias”?

 

A ORAÇÃO NO COTIDIANO FRAGMENTADO

 

Nossa sociedade é movida pela urgência ansiosa de eficácia a curto prazo, de resultado imediato, sem respeitar ritmos e processos.

Mais do que nunca precisamos buscar e entrar no “tempo de Deus”, no ritmo dos processos profundos onde brota a atração pela pessoa de Jesus e seu Reino.

Ao contemplar Jesus de Nazaré na sua vida cotidiana, será mais fácil, depois, descobrir os seus traços no nosso ritmo cotidiana, nas ocupações habituais e, sobretudo nos rostos costumeiros e conhecidos das pessoas nas quais Ele está hoje “novamente encarnado”.

A oração  nos ajuda a liberar o nosso “olhar” para contemplar a realidade de outra maneira.

Com isso, poderemos descobrir melhor no nosso cotidiano o que há de novidade positiva e salvadora, de dom de Deus para todos.

Através da oração, mergulhamos nas grandes calmarias, nas noites de Sábado Santo, onde tudo parece estancar-se, adentrando-nos no mistério de Deus, até que as situações, os acontecimento, as pessoas... ressuscitem ao “terceiro dia”.

Nas contradições inevitáveis da vida, tentamos resistir “pascalmente” para inventar o novo e nos comprometer com o que é ainda germinal, com o pequenino grão de mostarda que traz misteriosamente dentro de si a força de uma grande árvore.

 

Contemplar não é idealizar, mas ter uma sensibilidade que possa acolher a novidade de Deus hoje, em nosso cotidiano. Isto requer um trabalho de purificação daquilo que nos foi imposto e ao mesmo tempo uma educação contemplativa na maneira de perceber o novo, o surpreendente... a partir da contemplação dos “mistérios” de Jesus.

Este é o desafio: criar uma “nova sensibilidade contemplativa” em meio a este mundo novo; deveríamos buscar, com regularidade, espaços não contaminados, ecologicamente sadios , para desintoxicarmo-nos e entrarmos no ritmo da contemplação.

Precisamos desalojar de nosso interior as presenças suspeitas que invadem nossa privacidade e seqüestram o espaço do coração, para, assim, encontrarmos nossa própria solidão dentro da qual poderemos construir a consistência de nossa identidade e originalidade únicas, irrepetíveis, recebidas de Deus a cada dia, num diálogo sem fim.

Viver intensamente com Deus supõe entrar numa aventura sem fim. Precisamos de uma nova “sensibili-

dade espiritual” para fazermos uma experiência nova de Deus; já não se pode continuar olhando, ouvin-

do, tocando, saboreando... de maneira antiga. “Eis que eu faço novas todas as coisas”. (Apoc. 21,5)

 

Este é o sentido da nossa existência: viver a relação “mística” com Deus, não como algo pontual e esporádico, mas como um  encontro que se aprofunda cada vez mais e que abarca a realidade cotidiana por inteira.

É questão de vida ou morte, de ser ou não ser, o despertar de uma vida de oração intensa e contínua, onde o desejo de Deus e de seu reinado integre, no centro de nossa afetividade, todas as dimensões de nosso ser e todos os aspectos da nossa realidade cotidiana.

Nesse sentido, a “oração deixa de ser interpretação de texto para ser interpelação da vida”.

 

Por isso, faz-se necessário crescer nos diferentes modos de oração:

a) A contemplação pessoal para um encontro inesgotável com Deus vai crescendo e aprofundando cada dia.

b) A oração de discernimento para distinguir bem, dentro de nós e na realidade na qual vivemos, a presença do

    Espírito com suas propostas e suas moções e a presença do “mau espírito” com suas seduções disfarçada.

c) A contemplação na ação, para descobrir Deus como a última dimensão de toda a realidade, e para unir-nos a

                                               Ele no trabalho criador e criativo.

d) A celebração comunitária, para festejar na comunidade a certeza de que toda a história avança para a pleni-

                                                  tude definitiva da reconciliação em Cristo.

 

A realidade cotidiana é o lugar onde somos chamados a viver a espiritualidade cristã e a deixar-nos conduzir pelo mesmo Espírito que animou Jesus e o levou a inserir-se na trama humana e a assumir o risco da história.

Ser cristão inserido no mundo, em meio às agitações cotidianas, é acima de tudo ter Jesus Cristo como centro da vida: suas palavras, suas ações, seu modo de relacionar-se com o Pai e com os irmãos...

O cristão é chamado a viver no seu dia-a-dia esta mística do amor da maneira como Jesus viveu (na família, no trabalho, no descanso, na luta em favor da vida, nos compromissos sociais-eclesiais...). 

 

 

 

A FUGA DE UM EXILADO  (Mt. 2,13-18)

 

“Sem êxodo e sem exílio, não há libertação”

 

Jesus nasce num mundo hostil. Ele foi perseguido pelos “donos do poder” desde o início de sua vida.

O não reconhecimento de Jesus por Herodes e por Jerusalém antecipa a rejeição, a condenação e a morte de Jesus na Cidade Santa, no lugar onde Jesus encontrará a maior hostilidade.

             “Ensinaram a outros a fonte da Vida e eles morreram de sede” (S. Agostinho).

O paralelismo entre Jesus e Moisés, de um lado, e entre Herodes e Faraó, de outro, é claro.

Há também um paralelismo entre Jesus e o povo de Israel: Jesus revive na sua própria história a história do seu povo chamado por Deus do Egito. “Do Egito chamei meu filho” (Os. 11,1).

 

A narrativa evangélica não é, pois, uma historiografia, não é uma seqüência neutra de fatos; ao contrário, é meditação, reflexão sobre o sentido oculto e teológico dos fatos.

                   A perseguição e o exílio logo no início da vida de Jesus mostram o realismo da Encarnação.

                   Ao entrar na nossa história, o Filho de Deus esvaziou-se de sua glória e assumiu nossa condição

                   humana, com todas as conseqüências: pobreza e impotência, trabalhos e fadigas, perseguições e

                   ameaças de morte por parte dos poderosos de turno.

Jesus e seus pais são simples exilados, parte da corrente ininterrupta de vítimas do poder, que são obriga-das a percorrer lugares inóspitos, desertos, cidades estrangeiras, gente hostil, durante o percurso dos séculos. Jesus e seus pais são irmãos de todos os refugiados políticos dos países repressivos.

             Já desde pequeno Jesus se alinha com os pobres, com os últimos.

             Ele é um Deus frágil que arma tenda nos acampamentos dos exilados, nas favelas da miséria total;

             é um Deus que escolhe ser mais pobre do que suas próprias criaturas, porque as raposas tem tocas e as aves do céu, seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt. 8,20).             É um Deus que acompanha e partilha a sorte dos fugitivos, que é condenado como ateu e blasfe-

             mador, que é expulso para fora das aldeias, que é crucificado e mandado para fora da segurança,

             da tranqüilidade dos muros da cidade.

             Para Ele permanecem cerradas as portas de ferro dos palácios.

              “Deus é impotente e fraco no mundo, e assim, e somente assim, fica conosco e nos ajuda...

                Cristo ajuda não em virtude da sua onipotência, mas em virtude do seu sofrimento” (Bonhoeffer)

 

O alarme diante da notícia do nascimento do “rei dos judeus” encaixa perfeitamente no contexto de mentiras e complôs, de terrores e furores dos últimos anos de Herodes.

A história humana e o solo do nosso planeta sempre estiveram manchados de sangue. O massacre por razões de estado sempre foi uma das práticas mais experimentadas, carregando consigo o triste cortejo de repressões, torturas, prisões, violações dos direitos civis.

De fato, nessa vítimas inocentes que Mateus relata, estão representados todos os inocentes que foram ex-

terminados no decorrer da história, cujos nomes não estão registrados nos arquivos da repressão mas ape-

nas no “livro da vida” de Deus. Entre essas v