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PREPARA-TE PARA AMANHÃ DE MANHÃ... (Ex. 34,2)

 

“Nosso interior se purifica e se restaura com o silêncio dos cumes” (Unamuno)

 

Um turista americano estava na Índia num dia dedicado à peregrinação ao topo de uma Montanha sagrada.

Milhares de pessoas se preparavam para a íngreme subida.

O americano, acostumado a exercícios físicos e se julgando em boa forma, decidiu participar da experiência.

Vinte minutos depois, completamente sem fôlego e quase incapaz de dar mais alguns passos, viu passarem facilmente por ele mulheres carregando bebês e frágeis velhinhos apoiados em bastões.

- “Não consigo compreender” – disse ele a um amigo indiano – “como é que essa gente consegue e eu não?”

O amigo respondeu:

- “É porque você tem o hábito tipicamente americano de ver em tudo um teste. Você encara a Montanha

   como uma inimiga e se dispõe a derrotá-la. A Montanha, naturalmente, também luta e é muito mais forte

   que você. Nós não vemos a Montanha como uma inimiga a vencer.

   Nosso objetivo é uma unidade com a Montanha e, assim, ela nos levanta e nos carrega pelo caminho”.

 

Texto bíblico   Ex. 34,1-10

 

Imagem bíblica da Montanha: todos os grandes personagens bíblicos fizeram uma experiência de monta-

                                                 nha (lugar de intimidade com Deus; lugar do chamado e da missão; lugar

                                                 da bênção e do envio...)

Deus toma iniciativa e marca um encontro conosco; Ele nos espera na alto da montanha; revela-se no meio das nuvens e somente aqueles que se fazem “simples e despojados” O encontrarão lá em cima.

A Montanha é o lugar do encontro íntimo com o Senhor e encontro com o melhor de nós mesmos (nos-

                      sa identidade); no silêncio do monte poderemos perceber quem “somos nós”.

A experiência de Montanha significa experiência de “transfiguração”, ou seja, nos revela nosso ser essencial, nos faz ir além de nossa aparência para captar nossa riqueza interior, nosso “eu original”.

Além disso, os “momentos” de Montanha nos fazem perceber qual é a direção de

nossa vida, nos apontam qual é o caminho a seguir, qual é a opção a viver...

- “Prepara-te...” urgência e gravidade; trata-se do encontro com o Senhor;

- “Suba sozinho...” – Deus tem algo para revelar a cada um de nós;

- “Nem bois, nem ovelhas...” - ter uma única preocupação: encontrar-se com Deus;

                                               - não se perder nas coisas; não se distrair com elas;

                                               - esvaziar-se, despojar-se, desarmar-se...

 

* Ter consciência de que, mesmo que  cheguemos até o mais alto da Montanha, a vinda

   do Senhor será um presente gratuito que não dependerá de nosso esforço.

   A subida não é puro voluntarismo, mas um “deixar-se conduzir pelo Senhor”.

   “Subir a Montanha” supõe passar de uma impulsividade impaciente a uma atitude de

   ativa receptividade.

* Estar atento para acertar o caminho da subida (difícil, exigente, perigoso...); não perder

   de vista a meta a ser alcançada.

* Ânimo e generosidade para começar a subida; não permanecer ao pé da montanha

   apenas com o bom desejo do encontro com o Senhor.

* A subida significa deixar nosso pequeno mundo, nossa visão estreita das coisas, da vida... À medida que

   subimos, aumenta o silêncio, amplia-se a visão das redondezas, abrem-se  novos horizontes...

   Quem está no “vale” tem pouca visão da realidade – “olhar de cima com os olhos de Deus!

* Subir a Montanha requer um ritmo pessoal, fazer o próprio caminho, vencer os obstáculos, vivenciar

                                  o silêncio, apurar a escuta interior para captar as “vozes” do coração.

                                  É no silêncio que Deus revela sua Vontade a nosso respeito.

 

Na oração:  - Qual é o seu estado de ânimo e disposição? Você busca algo em concreto?

                        - No momento presente você sente a necessidade de um salto qualitativo na vida? Deve fazer

                          opções importantes? Ou confirmar decisões já tomadas?

                        - Você sente temores? Resistências?  Quais? Por que?

                        - Você está preparado para a subida? Você está disposto a “sair”, a “caminhar”?                                   

TEMPO DA PARTILHA

**Sc dirigimos todas as coisas a Deus, tudo será oração" (S. Inácio)

O método dos exercícios espirituais se apoia em dois eixos:

- a oração (seguindo as orientações para cada tempo de oração pessoal)

- a partilha (com o acompanhante ou "aquele que dá os Exercícios")

A partilha é uma maneira de mostrar que o caminho de acesso a Deus não é mente individual, senão que é necessário ter presente a dimensão comunitária

Podemos dizer que, nos exercícios espirituais, a verbalização das experiências vividas é tam maneira de orar. O importante é que a experiência seja registrada, assinalada... para não diluir-s meio de outras experiências.

O esforço por verbalizar para um outro (acompanhante) ajuda a apropriar-se da experiência perceber o "fio de ouro" que vai perpassando todo o processo dos Exercícios; ao mesmo temp pessoa a concretizar e a sintetizar a experiência (ir direto ao essencial). A partilha permite que o método dos Exercícios se adapte ao exercitante, personalizando a e> (de acordo com sua maneira de ser, suas necessidades, seu estado dê ânimo, sua personalidade.

O(a) acompanhante é um aliado de Deus; por isso ajuda a discernir, isto é, motiva a. que o ex

faça uma "leitura" dos seus estados de ânimo interiores e se comprometa de fato com os "apelo

inspirações... "do Senhor.

O (a) acompanhante é um presença continuada de estímulo para quem vai fazendo os Exercícios Ajuda a personalizar a experiência de Deus; ajuda a tomar consciência de como é essa experiência.  Acompanha a ação do Espírito, é o intérprete da ação de Deus no interior do exercitante. Atua como um testemunho da promessa de Deus que convida o exercitante a um "mais" de li de sentido, de amor, de luz, de paz, de alegria...

Quando o exercitante se encontra consolado, o acompanhante o ajuda para evitar que se acomode satisfação, e lhe anuncia o "mais" de Deus, sempre novo e sempre desinstalador. Quando o exercitante se encontra desolado, o acompanhante se mostra acolhedor para ajudá-lo a manter-se fiel nessa situação difícil e a alimentar a esperança de uma consolação futura.

Diante disso, percebemos que o(a) acompanhante não é um ouvinte passivo: há um eco, recomendações, ponderações, chamadas de atenção para tal ou tal aspectos aos quais, talvez, o excercitante não tenha dado tanta importância, assim como fazendo relações com experiências anteriores significativas.

Pela verbalização da experiência o exercitante entra num processo interior de escuta e atenção ao Espírito que escreve no coração; esta escrita, estes toques, estas moções do Espírito vão percebidos com crescente facilidade, ou seja, o exercitante vai tornando-se progressivamente sensível ao Espírito e registrando suas "marcas".

Passos para a partilha:

Prepare a partilha com o(a) acompanhante; não a improvise. Propomos a você algumas pistas:

1. Dê umtítulo à experiência do dia.

Um título que expresse, em três ou quatro palavras, todo o conteúdo vivido.

2. A oração: tanto a oração nos tempos intensivos quanto a oração nos tempos extensivos

a) Como foi? De que maneira você as fez/? Seguiu as "adições"?

b) Moções ou vivências mais fortes experimentadas na oração: trata-se de comunicar os sentimentos que brotaram do coração e que revelem a percepção de uma inclinação, de um desejo, de um apelo...

c) Veja se as diversas vivências e moções convergem, tem algum denominador comum, uma constante.

d) Dê nomes às resistências, medos... que surgem durante a oração.

e) Se lhe parecer oportuno leia alguns fragmentos do que você escreveu durante a avaliação da oração (i vem ser textos breves e selecionados).

Não se trata de falar de tudo e sobre tudo, mas centrar-se nos aspectos fundamentais da experiência (l daquilo que acontece durante os Exercícios: luzes, toques de Deus, apelos, intuições...)

3. Você nota que progrediu no caminho do Senhor, durante a jornada vivida?

 CRIAÇÃO: amor de Deus em excesso

             “Aquele que não se encontra com a natureza  dificilmente se encontrará consigo mesmo”.

 

“Ao ver uma planta, uma pequena erva, uma flôr, uma fruta, um pequeno verme ou qualquer outro animal, S.Inácio contemplava e levantava os olhos aos céus, penetrando no mais interior e no mais remoto dos sentidos” (P. Ribadaneira).

 Cada criatura torna-se uma irradiação de Deus, um lampejo do Absoluto, um recipiente onde se conservam gotas de Transcendência. Cada vida, seja animal ou vegetal, é um cenário de manifestação de Deus. As criaturas são o “habitat” de Deus. Tudo fala de Deus, tudo manifesta e revela o seu Amor. Tudo pode ser lugar de encontro com Deus; tudo é sacramento de Deus (Deus nos fala a linguagem das coisas, dos acontecimentos, das pessoas, das alegrias...). Não se trata de uma simples atitude romântica e poética, mas espiritual e teológica.

Para S.Inácio, tudo está “amorizado”, ou seja, cheio de Amor, tudo está “cristificado” e cheio de sentido. O cosmos abria para ele um espaço de totalidade, onde a graça de Deus, depois de consolá-lo, enchia sua existência de um desejo sempre maior de servir a Deus e ao próximo.

    “A maior consolação que descobrira então era contemplar o céu e as estrelas. Fazia-o muitas vezes e por muito tempo, porque  com isto sentia em si um muito grande esforço para servir a Nosso Senhor”. (S.Inácio – Aut.).

 

S.Inácio vê uma bondade intrínseca em todas as manifestações do mundo visível. Para ele, não existe um dualismo entre homem e natureza, pois tudo é pensado globalmente a partir de Deus.

A originalidade de S.Inácio está em “olhar” a natureza a partir de Deus, “com os olhos do Amor”.

A partir de Deus, o ser humano encontra seu lugar e sua relação com toda a natureza.

Respeitando a singularidade de cada criatura e de seu estado vegetativo, sensitivo e racional, o Amor se faz presença, se visibiliza, se manifesta.

                As criaturas existem e são sustentadas pela força onipotente de Deus;

                Ele continua “trabalhando”, re-criando, fazendo tudo novo.

                O mundo inteiro é um enorme sacramento do Amor. O universo se transforma num sacra-

                mento, num espaço e num lugar de manifestação da energia  que pervade todos os seres,

                na oportunidade de revelação do Mistério que habita a totalidade de todas as coisas.

                Potencialmente todas as coisas são portadoras de grande energia transformadora. Elas são por

                excelência a revelação do sagrado.

                Na verdade, são sacramentos, veículos e sinais da Realidade Última, da Divindade, do Cria-

                dor que está dentro e para além do próprio cosmos, da terra e da vida. Eliminar, romper e pro fanar a natureza é impedir que Deus “trabalhe” por nós em todas as  coisas criadas.

O olhar contemplativo de Inácio nos estimula a uma procura da Verdade, não apenas sobre nós mesmos, mas também do mundo circundante, formado pelas diferenças de cada ser criado.

A contemplação não pode ser compreendida de maneira passiva ou romântica, mas, ao contrário, ativa e interpelativa. É uma contemplação em que o belo, o fascinante e o diferente cativam os olhos, enchem a nossa interioridade de louvor e admiração”.

           Contemplação é descobrir Deus em tudo. É sentir-se sempre em Deus.

           Contemplação é amar a Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus.

           É sentir-se amado por Deus em todas as coisas e amar a Deus em todas elas.

 

      “A terra... é uma jóia brilhante azul e branca... enfeitada com véus brancos dançantes... como uma pequena pérola em meio ao espesso mar de mistério negro... minha visão do nosso planeta foi a oportunidade de vislumbrar um lampejo da divindade”

                                                     (Astronauta Edgar D. Mitchell)

Texto bíblico:    Dan. 3,50-90

 

Na oração: - entoar um hino de louvor e gratidão a Deus pelos benefícios que estamos recebendo a cada dia da criação;

 - ter sempre presente na memória que fomos criados para viver em relação de amor e solidariedade com todos.

 - considere que toda a Criação saiu das mãos do Criador como presente especial e gratuito, como uma  mensagem de Amor a cada um de nós; o “contato” com a natureza nos ajuda a “olhar” e perceber melhor os  nossos “movimentos interiores”, as  reações do coração”.

Princípio e fundamento

PF: o Deus diante de quem estou é o Deus que me criou   e que fez todas as coisas porque me ama.

 

Atitude interior

* Nesta semana devo descobrir que sou livre, que tenho liberdade, unicamente, quando sou tomado

   completamente pelo Amor de Deus, já que os desejos de meu coração, e todas as minhas ações, afe-

   tos, pensamentos e decisões são retamente encaminhados a Deus, meu Pai e a seu serviço e louvor”.

* Deus Pai nos elegeu e predestinou, desde a origem da Criação, à identificação com seu Filho.

   Não é um Deus distante, senão Alguém que nos ama e se aproxima de nossa vida, em nosso mesmo ser

   de homens e mulheres, na comunhão com nosso ser pessoal.

Ele chama a nossa liberdade a configurar-se com a imagem de seu Filho Jesus, vocação original do ser homem-mulher. O ser humano está “finalizado” em Cristo, já que o fim dele é a identificação real/existencial com a imagem de Cristo. N’Ele, o ser humano recupera a imagem perdida de Deus.

      Que é a filiação de Jesus? É sua comunhão de amor com o Pai, que se traduz na atitude de obediência amorosa. O mistério de sua vida filial é o acatamento da Vontade do Pai.

 

Em sua atitude de obediência filial, o ser humano encontra a imagem dinâmica da obediência amorosa, e o verdadeiro lugar da “reverência e serviço”.

O projeto de Deus sobre o ser humano é a graça da predestinação para o Filho e no Filho.

Trata-se, pois, de colocar-se diante da presença surpreendente do Amor do Pai. Não se pode “louvar e servir a Deus” a  não ser sendo livres, disponíveis. Ante sua presença Deus cresce”, mas o ser humano também cresce; por isso posso desejar fazer tudopara sua maior glória”.

  Oração preparatória: “pedir graça a Deus Nosso Senhor, para que todas as minhas intenções,ações e operações (decisões) se ordenem puramente ao serviço e louvor de sua divina majestade”. Enorme petição,  mas, este é o destino que Deus Criador deu à nossa vida.

Esta oração preparatória é um ato fundamental. Da atitude que dela nasce, depende a oração bem feita. O essencial, tanto na oração intensiva como na oração ao longo da jornada, é esta adesão de meu querer a Deus, nesta orientação do desejo que se encontra e comunga com a do Espírito em mim.

 

“As outras coisas sobre a face da terra são criadas...” (EE. 23)

* Três atitudes diante das coisas:

     - tanto quanto”: as coisas carecem de um destino independente; estão em função do fim do ser humano; são necessárias e relativas.

     - indiferença”: o Deus sempre Maior é uma exigência radical de liberdade. Mas a “indiferença” possui sentido olhando a Cristo: a disponibilidade é o traço caracterizante do Filho, é a disponibilidade filial à Vontade salvífica do Pai. A indiferença é o modo existencial de ser.

     - magis inaciano”: sempre há um “mais” de fé e seguimento. O “mais” de Deus sobre o ser humano consiste na aceitação de que sempre há um “mais” de amor por parte do “Deus sempre maior” com relação ao ser humano. Consiste em aceitar a Deus em sua condição de Deus; e é ao mesmo tempo um salto na fé, como Abraão.

Somos “senhores” diante das coisas; nunca escravos.

             Tudo o que há no mundo está a nosso serviço: riquezas, bens de consumo e de cultura, carreira, profissão, projetos, saúde, poder, ... São meios materiais... para realizar nossa “definição”.

Devemos chegar a ser livres diante de todos esses meios. Portanto:

                   - não os apreciemos ou desprezemos enquanto não saibamos se nos ajudam ou atrapalham o

                      maior serviço e louvor”. Este é o jogo do tanto quanto;

                   - o importante não é ter mais ou menos dinheiro, prestígio, saúde... senão realizar-se, ter uma vida plena, ser “outro Cristo”, um(a) cristã(ão)...

Ir pela vida, somente desejando e escolhendo o que mais nos conduz ao fim para que fomos criados”.

                 - quanto mais livre é uma pessoa por dentro, mais humana... e é mais de Deus, como Jesus;

                 - quanto mais escravizada às coisas, mais vai perdendo humanidade... até se perder.

                      Este(a) é o homem/mulher forte, libertado da escravidão de qualquer consumismo das

                      coisas... libertado(a) do medo à pobreza, ao fracasso, à desonra... à morte.

                    

Textos bíblicos 1) Gen. 18,1-18          2) Ef. 1,3-14           3) Col. 1,15-20       

4) 1Sam. 3,1-18    5) Sab. 11,21-26        6) Fil. 1,21-26         7) Fil. 4,10-13  

PRINCÍPIO E FUNDAMENTO: da finitude à Transcendência

 

“A última senha deixada pelo humanismo é: o homem só é homem pelo que o excede” (J.F. Lyotard)

 

A transcendência é talvez  o desafio mais secreto e escondido do ser humano. Ele se recusa a aceitar a realidade na qual está mergulhado porque se sente maior do que tudo o que o cerca.

Com seu pensamento e seu sonho, ele habita as estrelas e rompe todos os espaços.

Essa capacidade é o que nós chamamos transcendência, isto é, “transcende, rompe, vai para além daquilo que é dado”. Numa palavra, o ser humano é um projeto infinito; tem sentido de transcendência, projeta-se em muitas direções.

O ser humano é “in-exato”, inacabado, está em permanente processo de re-invenção de si mesmo.

É seqüência de escolhas, de passos e ações. É auto-construção interminável.

Montaigne concebe o homem “não como ser, mas como passagem”. Ele é ondulante; oscila no balanço da vida. Seus desejos o fazem mergulhar na verdade sublime e seus pés empoeirados arrastam-se pelas estradas. É cedro resistente e caniço vergado pelo vento.

O ser humano é universo dinâmico, com inesgotável potencialidade; ele re-cria a

natureza e tem a possibilidade de inventar a sua vida. Onde há ser humano há

espírito inteligente, ímpeto de liberdade e cerne de tenacidade.

Somos seres de enraizamento e de abertura. “O ser humano é criado para...

A raiz que nos limita é nossa encarnação na realidade. A abertura que nos faz romper barreiras e ultrapassar os limites, impulsionando a busca permanente por novos mundos, é nossa transcendência. Ninguém segura os pensamentos, ninguém amarra as emoções, ninguém detém os sonhos...

O desafio consiste, então, em manter juntos o enraizamento e a abertura.

Encarnados, mas abertos à transcendência.

Nesse sentido, transcender não significa fugir da própria realidade, mas mergulhar na própria condição humana; “transcender é humanizar-se”.

A tradição judeu-cristã fala em “transdescendência”. Somos convidados não apenas a superar e a voar para cima, mas, fundamentalmente, a descer e a buscar o chão. É a experiên-cia da Encarnação: o Deus que circunda toda a realidade, emergiu do mais pobre. É o Amor que desce.

Precisamos transformar essa dimensão da transcendência num estado permanente de consciência e num projeto pessoal. Devemos cultivar espaços de contemplação, de interiorização e de integração da transcendência que está em nós.

E a experiência de transcendência produz em nós um enorme sentimento de leveza e de humor, porque, a partir dela, relativizamos as coisas todas e nos capacitamos a rir delas.

 O ser humano é surpreendente, inesperado, imprevisível... é pulsação original, é interpelação inquietante; é existência peregrina, é identidade dançante... é uma mina de significados e riquezas.

Tratar com o ser humano é tratar com o imponderável, o misterioso... Ele é seduzido pela liberdade que lhe escancara horizontes novos e lhe abre mares desafiantes. Ele é “espaço à vida aberta”.

O ser humano é mais do que parece ser. Há nele algo maior que o leva a ser mais verdadeiro, mais justo, mais criativo, mais arrojado, mais responsável... “Desejando e escolhendo aquilo que mais nos conduz...”

O ser humano pode transcender-se; pode ser mais do que tem sido. Apesar dos limites e fragilidades, a humanidade tem muito mais rosto de madrugada do que de ocaso.

François Wahl  escreve: “Todo sujeito subverte aquilo que o precede, faz ruptura e salto”.

 

O ser humano é chamado a superar ambiguidades, a escolher rumo construtivo, a definir sua identidade pessoal e a optar por causas humanas que o fazem transcender.

Ele é impulsionado a mergulhar na própria existência humana “misteriosa”, e contar com a inteligência criadora, com a liberdade fecunda, com o coração ardente e com mãos limpas.

Ele é desafiado a deixar a superfície banal e navegar águas profundas da existência humana. Nessas águas, o ser humano não se afoga. Respira fundo e revitaliza-se.

            Para isso nascemos... somos peregrinos e navegantes, ousados e pacientes, buscando a “nova terra”.

 

Textos bíblicos:  1Reis 3,4-15   Sl. 8

 

PRINCÍPIO e FUNDAMENTO: o MAIS que há em ti...

 Descobrimos na entranha da natureza humana a força do “magis”, a exigência de infinito e de transcendência que todo ser humano carrega no seu eu mais profundo, impedindo-o de instalar-se na mediocridade de sua vida.

Todo ser humano vive, nas raízes do seu coração, uma tensão para o “mais”, que sacode o adormecimento ou a satisfação descompromissada, na qual poderia sentir a tentação de instalar-se.

Nada mais contrário ao “mais” que a vida instalada e de alguma maneira acomodada, que consistiria na pura repetição mecânica dos mesmos gestos e das mesmas ações.

Também se opõe ao dinamismo do “mais” uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores...

Numa vida assim faltaria por completo o princípio da novidade, da criatividade, a capacidade de questionar-se e de uma orientação nova, a audácia de arriscar, de fazer caminhos ainda não percorridos ou abertos à aventura e às surpresas.

 Mais”: significa o dinamismo mesmo da vida. O ser humano é habitado por um processo de crescimento em todas as dimensões de seu ser (corpo, mente, afetividade, coração...). É assim que a vida, em lugar de estancar-se em si mesma no mecanismo de repetição, se converte em história, atravessada por uma busca e uma vontade de construção contínua de si mesma.

Para aquele que deixa manifestar no coração de sua vida a inquietude que o habita, o “mais” vem remover e questionar a satisfação demasiado tranqüila e fácil.

O “mais” nunca se identifica com a mediocridade; ele sempre pede ir mais longe, mesmo que seja a preço de muita luta e esforço.

Em 1º lugar, luta para sacudir o torpor e a preguiça. Porque não há vida aberta verdadeiramente ao “mais” que não seja levada pela coragem de empreender, de realizar, de resistir...

“Querer e buscar mais” significa não contentar-se com um compromisso reduzido, com um fechar-se num mundo pequeno, no qual o dinamismo do desejo aberto ao infinito se afoga.

 

A expansão de horizontes e de sonhos deve ser buscada no mais íntimo do coração, mediante o descentramento de si mesmo, como impulso para os “grandes espaços”.

Quem se deixa queimar pela exigência do “mais” lhe resulta impossível instalar-se no “meio-termo”.

É isso justamente que acontece no processo dos Exercícios: o que desbloqueia a força do “mais” e do compromisso é o encontro com a pessoa e a vida real de Jesus Cristo.

Certamente, para seguí-Lo, é necessário sacudir de si toda forma de apatia e de fraqueza, e rechaçar toda tendência à acomodação e toda tentação de apegar-se a medidas muito reduzidas, ao tédio e ao costume.

O discípulo pela metade não pode ser discípulo. Não servem as “entregas” pela metade. Não pode contentar-se com “amor a prestações”, com retalhos de vida.

     “Conheço tua conduta: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Assim, porque és

      morno, nem frio nem quente, estou para te vomitar de minha boca!” (Apoc. 3,15).

 Aquele que é habitado conscientemente pelo chamado do “mais”, despertado nele pelo encontro fascinante com Jesus Cristo, se sente convidado a renovar constantemente a relação viva com Ele.

Para isso sabe que deve lutar contra seu próprio descuido e contra a força corrosiva da rotina.

O “mais” está nele porque foi criado à imagem do Filho de Deus, e chamado a crescer em conformidade

com Ele. É Cristo Jesus, verdadeira “medida” do ser humano, quem sacode nossa preguiça, nossa acomodação, nossa fuga a um mundo construído a partir de nós e para nós...

Nascemos para o “mais”: mais que aquilo que já realizamos, mais que aquilo que já possuímos.

Porque esse “mais” não é segundo nossa medida, senão segundo a medida de Cristo. Daí que é Jesus Cristo quem no-lo revela em cada etapa de nossa vida e em todas

as situações em que possamos nos encontrar.

 

Textos bíblicos:  Ef. 4,1-16   Rom. 12,3-13  Ef. 1,15-23

 

Na oração: orar na transparência e na verdade de nosso coração, é deixar liberar em nós, em sua verdade mais autêntica, a exigência do “mais” que nos habita, desse verdadeiro “mais” sem o qual não podemos chegar a ser plenamente nós mesmos.

PRINCÍPIO E FUNDAMENTO: a liberdade tem asas

 “O Espírito do Senhor te levará para não sei onde” (1Rs. 18,12)

Os Exercícios Espirituais são uma longa peregrinação, de toda a pessoa e de toda a vida, para a liberda-de, para responder unicamente ao “maior serviço” (EE. 98) no “seguimento de Jesus” (EE. 104).

Os Exercícios Espirituais nos conduzem nesta transformação do “fazer-se pobre”,  desapegando-nos das obscuras exigências possessivas do instinto, unificando-nos na liberdade ao ir “somente desejando e elegendo o que mais nos conduz para o fim que somos criados” (EE. 23), passando da “indiferença” a todas as coisas criadas, à “preferência” apaixonada por aquilo que sentimos como Vontade de Deus.

 O princípio fundamental é que “somos criados e criativos”.

Só somos criados sendo criadores, deixando que a vida presenteada que chega até nós, desperte nossas infinitas possibilidades de criar o novo, passando por nossa imaginação e nossas mãos.

Ao inventar o novo vamos nos fazendo incessantemente novos.

Esta é a única possibilidade de sermos humanos. Para “ser”, é preciso “estar sendo”, ou seja, estreando cada dia a novidade da vida que nos é presenteada.

Somos “servidores” sendo “criadores”, à “imagem e semelhança de Deus”, o Criador.

Deterioramo-nos quando somos obsessivos repetidores do já feito e sabido.

O “louvor e a reverência”, que reconhecem a transcendência criadora do Deus que nos ama, se faz serviço da novidade, através do qual cresce o Reino de Deus e crescemos também nós ao mesmo tempo.

 O ser humano é torrente de amor. Amar é expressão de vida, êxtase, paixão, criatividade, impulso vital...

O ser humano desafia a si mesmo; é potencial grandioso. Marcado pela força do “magis”  ele é capaz de alçar longos vôos, de extrair ousadia de seu medo, de romper seus estreitos lugares...

A dinâmica do “mais” não é uma dinâmica quantitativa, mas qualitativa.

É o desejo de quem experimentou de verdade a radicalidade do amor de Deus por ele, desejo de ir ao máximo das possibilidades que sugere o seu coração.

Esta aspiração ao “mais” é um convite a não conformarmos com qualquer coisa no serviço a Deus e aos outros, senão a aprofundar e a buscar sempre aquilo que, para além da rotina e da superficialidade, é mais urgente, mais necessário, mais evangélico.

É um convite ao inconformismo conosco mesmo, ao permanente assumir novos desafios, à desinstalação de nossas agendas clandestinas, ao permanente discernimento em nossa missão e sobre nossas opções concretas.

O “mais” da docilidade à Vontade divina, assim como o “mais” da relação positiva do ser humano para com as coisas, é o horizonte inesgotável de liberdade

que o faz “peregrino” do Absoluto.

 

O ser humano é itinerante por essência. Faz-se mais ser em cada passo.

Avançar humanamente é conscientizar-se, autodeterminar-se, é crescer em comunhão...

O ser humano “abre suas asas” quando matura suas potencialidades, multiplica suas

capacidades, extrai riqueza e criatividade das profundezas de seu ser...

Na sua itinerância ele realiza a grande Páscoa, deixando seu estreito território e enve-

redando pela terra que “mana leite e mel”.

“Há que passar do território da apatia e da neutralidade para o território da opção e do compromisso.

 Importa deixar o território da mentalidade conservadora, e iniciar o território da mentalidade inovadora.

 É necessário ultrapassar o território da cultura que mantém aliança com a morte, e fertilizar o território da cultura que faz germinar múltiplas formas de vida.

 Há que sair do território da repetitividade e ativar o território que gera o diferente e o alternativo.

 Sair do território carcomido pela injustiça, pisado pela servidão social e dobrado pela subserviência internacional e implantar o território da justiça, da solidariedade, da emancipação social e da paz” (Juvenal Arduini)

 

Textos bíblicos:  Is. 40,27-31   Lc. 19,11-28  Dt.31,1-8

 

Na oração: “O Espírito urge! Busque o seu próprio rejuvenescimento e lance novas sementes no roçado de sua alma, cuja terra está ressequida. Semeie, irrigue.. E Deus cuidará da milagrosa multiplicação.

                      Deixe atrair-se para além pois a vida ainda está muito à sua frente. Mire alto, bem mais alto onde habita o Espírito que deseja renovar o ritmo de seus passos” (F. Cláudio Van Balen).

 

O SER HUMANO é criado...e é criativo

“É poeticamente que o ser humano habita a Terra” (F. Holderlin)

 A poesia supõe uma pessoa criadora e criativa.

A criação faz com que a pessoa se sinta tomada por uma força maior do que ela.

Força que lhe traz emoções inusitadas, idéias novas, metáforas significativas, sentidos surpreendentes.

A criação pode levar ao êxtase (Sl. 8).

Sob a força da criação e em situação de êxtase a pessoa canta, dança, cria gestos simbólicos e sai de sua normalidade. Emerge, então, aquela “moção” que se esconde dentro de cada pessoa.

Essa moção nos faz sintonizar com as energias do universo, de harmonizar-nos com a sinfonia universal e de vibrar junto com as cordas do coração do outro, da natureza, do cosmos e de Deus.

Por esta capacidade vem à tona novos e surpreendentes sentidos da realidade.

 

        Que significa afirmar que “o ser humano habita poeticamente a Terra?

          Significa que ele experimenta a Terra como algo vivo, evocativo, falante, grandioso, majestático e  mágico. A Terra é paisagem,

          cores, odores, imensidão, vibração, fascínio, profundidade, mistério.

          Cada organismo é uma melodia que canta a si mesma, sem fim; ela se canta e faz com que o seu  ambiente a cante também.

          E assim o universo de enche de melodias: cada coisa viva fazendo  vibrar um universo, extensão do seu corpo, como variações sobre o tema que é ele mesmo, sua  sobrevivência, sua beleza...

 

É através do louvor que o ser humano deixa ressoar em sua vida a obra de Deus

          Como não se extasiar diante da majestade da Criação?

          Como não sentir-se pequeno, perdido, face à incontável bio-diversidade, à pujança do verde e à exuberância das águas?

No Princípio e Fundamento, o louvor é a resposta da pessoa que brota espontânea ao sentir-se inundada pela glória de Deus; é uma reação que brota das entranhas em resposta à presença ativa e gloriosa de Deus na Criação.

     O louvor é como o eco da Glória: um eco livre e emocionado de agradecimento pela vida e pela Criação.

     Louvor é harmonia da pessoa com Deus e suas obras; é sintonia profunda com a glória transbordante de Deus.

     Viver em louvor é viver em acorde, em ressonância com Deus e seu Reino.

     É fundamentalmente a resposta básica ao que Deus fez em cada um de nós e em nós como coletividade.

     Seu modelo melhor é o Magnificat de Maria. Trata-se de um louvor que se identifica com o mais profundo do ser humano: “O Senhor fez em mim maravilhas”.

O “louvor”  desemboca no “serviço”. Louvor a Deus e o serviço a Deus e aos irmãos: duas atitudes cristãs essenciais que devem estar sempre unidas.

Cada um desses pólos atrai o outro. Um não pode existir sem o outro.

                 O louvor sem o serviço é alienação; o serviço sem o louvor é escravidão.

 Proximidade otimista da Criação e da história que nos leva a acolher “todas as coisas”  e todos os acontecimentos, não somente como dom de Deus, mas como o lugar de sua presença ativa, onde Ele pode ser amado. Trata-se de um olhar de fé sobre as coisas, os acontecimentos e as pessoas.

Sim, habitamos poeticamente a Terra em cada momento; sentimos, estremecemos, vibramos, nos estreme-

cemos, ficamos encantados com a Criação e sua insondável vitalidade e beleza. Todos vivemos o modo de ser dos poetas. “Somos poetas”. Aqui o ser humano se descobre reconciliado com o universo que o cerca:

             “exclamação de admiração com intenso afeto, discorrendo por todas as criaturas...” (EE. 60).

 Efetivamente, são cegos e surdos aqueles que vêem a Terra simplesmente como reservatório de recursos materiais, como um laboratório de elementos físico-químicos e como um conglomerado desconexo de águas e solos. O ser humano contempla aquilo que o mundo estende à sua frente; e, lá de dentro, a voz do amor e dos valores lhe diz que a realidade pode ser modificada.

Aí entra a imaginação e começa a explorar possibilidades ausentes, a montar fantasias...

A imaginação voa e o corpo cria. A imaginação é a asa do corpo. O corpo, a força da imaginação.

Re-criamos o mundo: jardins, artes, poemas, pinturas, canções, danças, jogos, rituais, ferramentas, moradias, ciência... Como se fôssemos aranhas, produzimos o nosso mundo a partir de nossas próprias entranhas.

               Aos duros materiais à nossa volta misturamos o desejo e o amor...

 

Textos bíblicos:   1) Sl. 8                 2) Lc. 1,46-55           3) Sab. 13,1-9        

4) Eclo. 38,27-34           5) Jd. 8,11-17      6) Sab. 7,22-30         7) Prov. 8,22-3l

PRINCÍPIO e FUNDAMENTO: o MAIS que há em ti...

 

Descobrimos na entranha da natureza humana a força do “magis”, a exigência de infinito e de transcendência que todo ser humano carrega no seu eu mais profundo, impedindo-o de instalar-se na mediocridade de sua vida.

Todo ser humano vive, nas raízes do seu coração, uma tensão para o “mais”, que sacode o adormecimento ou a satisfação descompromissada, na qual poderia sentir a tentação de instalar-se.

Nada mais contrário ao “mais” que a vida instalada e de alguma maneira acomodada, que consistiria na pura repetição mecânica dos mesmos gestos e das mesmas ações.

Também se opõe ao dinamismo do “mais” uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores...

Numa vida assim faltaria por completo o princípio da novidade, da criatividade, a capacidade de questionar-se e de uma orientação nova, a audácia de arriscar, de fazer caminhos ainda não percorridos ou abertos à aventura e às surpresas.

 Mais”: significa o dinamismo mesmo da vida. O ser humano é habitado por um processo de crescimento em todas as dimensões de seu ser (corpo, mente, afetividade, coração...). É assim que a vida, em lugar de estancar-se em si mesma no mecanismo de repetição, se converte em história, atravessada por uma busca e uma vontade de construção contínua de si mesma.

Para aquele que deixa manifestar no coração de sua vida a inquietude que o habita, o “mais” vem remover e questionar a satisfação demasiado tranqüila e fácil.

O “mais” nunca se identifica com a mediocridade; ele sempre pede ir mais longe, mesmo que seja a preço de muita luta e esforço.

Em 1º lugar, luta para sacudir o torpor e a preguiça. Porque não há vida aberta verdadeiramente ao “mais” que não seja levada pela coragem de empreender, de realizar, de resistir...

“Querer e buscar mais” significa não contentar-se com um compromisso reduzido, com um fechar-se num mundo pequeno, no qual o dinamismo do desejo aberto ao infinito se afoga.

 A expansão de horizontes e de sonhos deve ser buscada no mais íntimo do coração, mediante o descentramento de si mesmo, como impulso para os “grandes espaços”.

Quem se deixa queimar pela exigência do “mais” lhe resulta impossível instalar-se no “meio-termo”.

É isso justamente que acontece no processo dos Exercícios: o que desbloqueia a força do “mais” e do compromisso é o encontro com a pessoa e a vida real de Jesus Cristo.

Certamente, para seguí-Lo, é necessário sacudir de si toda forma de apatia e de fraqueza, e rechaçar toda tendência à acomodação e toda tentação de apegar-se a medidas muito reduzidas, ao tédio e ao costume.

O discípulo pela metade não pode ser discípulo. Não servem as “entregas” pela metade. Não pode contentar-se com “amor a prestações”, com retalhos de vida.

     “Conheço tua conduta: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, nem frio nem quente, estou para te vomitar de minha boca!” (Apoc. 3,15).

 Aquele que é habitado conscientemente pelo chamado do “mais”, despertado nele pelo encontro fascinante com Jesus Cristo, se sente convidado a renovar constantemente a relação viva com Ele.

Para isso sabe que deve lutar contra seu próprio descuido e contra a força corrosiva da rotina.

O “mais” está nele porque foi criado à imagem do Filho de Deus, e chamado a crescer em conformidade

com Ele. É Cristo Jesus, verdadeira “medida” do ser humano, quem sacode nossa preguiça, nossa acomodação, nossa fuga a um mundo construído a partir de nós e para nós...

Nascemos para o “mais”: mais que aquilo que já realizamos, mais que aquilo que já possuímos.

Porque esse “mais” não é segundo nossa medida, senão segundo a medida de Cristo. Daí que é Jesus Cristo quem no-lo revela em cada etapa de nossa vida e em todas

as situações em que possamos nos encontrar.

 

Textos bíblicos:  Ef. 4,1-16   Rom. 12,3-13  Ef. 1,15-23

 

Na oração: orar na transparência e na verdade de nosso coração, é deixar liberar em nós, em sua verdade mais autêntica, a exigência do “mais” que nos habita, desse verdadeiro “mais” sem o qual não podemos chegar a ser plenamente nós mesmos.

 

EXAME DO DIA: coração que escuta

 Para S. Inácio, o “Exame de consciência”  é uma oração sobre a própria vida.

É um voltar sobre si mesmo, sobre o dia, para, no meio das circunstancias da vida, encontrar a presença amorosa de Deus. O exame é um meio importante para encontrar Deus em tudo e tudo em Deus.

Trata-se de uma oração contemplativa: “ver” como o Senhor está nos impulsionando e movendo.

O hábito desta oração, no final do dia, cria em nós aquela sensibilidade para reconhecer a presença de Deus em tudo.

O exame (ou coração que escuta)  é renovação e crescimento diário de nossa identidade pessoal, essa pessoa amada por Deus e chamada por Ele no fundo de seu coração.

Facilitará também a melhora de nossas ações transformadoras, na direção do Projeto de amor que o Senhor vai constantemente apresentando ao longo do dia.

 

1. Agradecer a Deus

    A atitude do cristão diante de Deus é a de uma pessoa pobre, que nada possui e que é constantemente

     cumulada de dons. Ele é conduzido a uma profunda compreensão de que “tudo é dom”.

     Agradecer ao Senhor os benefícios do dia que passou. Perceber como Deus se fez presente nos ges-

     tos e atitudes pequenas, mas significativas, gratuitas...

 

2. Conhecimento de si (petição de LUZ)

    O exame é um “olhar”  sobre nossa vida, guiado pelo Espírito. É ver a nossa vida como Deus nos vê,

     da maneira como somos. Nós não nos conhecemos com objetividade. Por isso pedimos ao Senhor 

     sua luz:   “Que o Espírito me ajude a ver-me um pouco mais como Ele próprio me vê”.

 

3. Exame do dia (por onde Deus me conduz?)

    Dois momentos:

    a) - Como o Senhor tem atuado em mim e para  mim? O que Ele tem me pedido?

         - Quê sinais Ele me deu hoje da sua presença e da sua ação no mundo?

     b) Considerar minhas ações na medida em que foram respostas à ação de Deus.

          Percorrer as ações e atitudes vividas ao longo do dia: foram gratuitas? evangélicas? libertadoras

          Repassar o dia:

               : os momentos em que estive mais próximo ou mais afastado de Deus e dos outros;

           : situações que me causaram mais alegrias e esperanças ou tristezas e desesperanças;

           : os gestos, pequenos ou grandes que pude fazer ou mesmo deixei de fazer;

           : um olhar particular sobre aquele ponto da minha vida em que estou trabalhando mais.

 

4. Petição de perdão (“exclamação de admiração com intenso afeto” EE. 60)

     O exame é uma oração na qual nos encontramos com o Senhor; é Ele mesmo que nos examina.

     É neste confronto com o Amor do Senhor que descubro minha fraqueza, infidelidade... e onde experi-

     mento a alegria e a paz pelas minhas respostas positivas.

     A contrição e o arrependimento é confiança no perdão e no amor de Deus.

 

5. Emenda (propósito) segundo os apelos de Deus

    Uma resolução carregada de esperança. Neste ponto do exame deveríamos desejar vivamente encarar o

     amanhã com um olhar e um coração renovados. Proposta para o dia seguinte, sincera e verdadeira.

     À luz do passado recente, como olho o futuro? Estou desanimado? receoso? angustiado?...

       com quanto amor me disponho a viver o dia seguinte?

     Caminhar para o novo dia: um novo dom a ser vivido intensamente.

 

Resumindo: Agradecer a Deus

                    Conhecimento de si                ACEPETIL: todo dia, antes de dormir, tomar um

                    Exame do dia                                           comprimido; sua vida terá muito mais

                    Petição de perdão                                      sabor.

                    Emenda

                    TIL

 

 

CORPO QUE SE FAZ ORAÇÃO "Glorificai a Deus com vosso corpo" (l Cor. 6,20)

Continuemos a viagem por este estranho e rico país que é nosso corpo. Este país do qual conhecemos algumas paisagens de um modo familiar e que, certas vezes, nos parece tão desconhecido em suas reações, em suas manifestações. O corpo é muito sincero. Reage diante do perigo e diante das necessidades; é uma chave que nos abre muitas portas e nos coloca diante da realidade tão variada. O corpo está presente nas atividades e nos movimentos vitais mais habituais. É uma "epifania" (manifestação) de toda a pessoa à qual faz pre­sente de um modo muito espontâneo e completo. Essa descoberta provoca em nós uma profunda admiração.

Q corpo é urna fonte de expressividade, comunicação e interpelação.

Tem uma linguagem que costumamos chamar "não-verbal".   E a palavra não dita que pronuncio com

meu gesto, atitude, conduta, olhar, sorriso, interrogação, tristeza, abertura, distância ou proximidade...

Assim é porque o corpo é expressão.

Tudo isto fez com que S. Inácio, nos Exercícios, descobrisse na oração que o corpo é o meio privilegiado para comunicar-se com Deus. De fato, os Exercícios são "corporalmente espirituais e espiritualmente corporais". O processo da oração inaciana vai "abrindo" o corpo de tal forma que acontece a "in-corporação" do Mistério de Deus; ou seja, a realidade contemplada vai invadindo a pessoa de tal modo que seu corpo vai sendo pedagogicamente conduzido a transforma-se em "sinal" do Espírito pelo qual se deixa atrair ao longo do processo que vai vivendo.

A oração se faz corpo e o corpo se faz oração. A oração é corpórea porque se realiza em nosso corpo e graças a nosso corpo; mais ainda, por ela recupera-se o centro natural do corpo e a recuperação do mesmo se converte na disposição orante da pessoa.

O corpo tem, também, momentos de silêncio muito significativos. O silêncio corporal conduz a uma interioridade, a uma intimidade com Deus. Todo o corpo se converte em "caixa de ressonância" da presença de Deus; a pessoa deixa ressoar em seu corpo aquela voz que lhe fala cada vez com mais força.

Podemos, então, afirmar que o nosso corpo é o ponto de partida para a experiência espiritual.

Isso significa que para  "entrar" em intimidade com Deus e seu mistério, nós partimos de nossas

experiências humanas, de nossa corporeidade, de nossa sensibilidade mobilizada...

"Corporeidade" e "vida no Espirito" não são realidades justapostas ou opostas, mas dimensões inter­relacionadas da totalidade do ser mulher e do ser homem em processo de integração espiritual. A experiência de oração é mais do sabor do que do saber, mais do afeto e do coração do que da razão. Ela abre espaço para o simbólico, a poesia, a beleza, a arte, a dança, a expressão corporal, o relaxamento

A pessoa "entra"em oração com a totalidade de seu ser.

Expressar a experiência de Deus ou o sentimento de ausência d'Ele, através da arte, da música, da dan­ça... é uma forma de ultrapassar-se, de aproximar-se da transcendência e encontrar o totalmente "Outro".

"Já não danço, mas sou dançado; não componho música, mas torno-me música de Deus, instrumento musical d*Ele, sinfonia do seu Amor, melodia e harmonia da sua Graça.. A grande arte não é estar no palco, mas em harmonizar-nos "de corpo e alma" e introduzir a beleza e a vida mais plena em nosso itinerário para Deus" (Ir. Helena Rech)

O corpo é espaço de salvação, de justiça, de solidariedade, de acolhida, é lugar da experiência de Deus, da celebração, da festa, da entrega: "... eu peço pela misericórdia de Deus que ofereçais os vossos corpos como sacrifício uivo, santo e agradável a Deus. Este seja o vosso culto espiritual" (Roma. 12,1).

Textos bíblico»;  Mt. 6,5-15   Lc. 18,9-14   Mt. 26,36-46

Na oração: - Deixe que o Sopro liberte seu corpo de todas as memórias negativas que o entulham, devolvendo ao seu espírito sua inocência, sua disponibilidade, sua energia...

- Acolha simplesmente o Sopro em seu interior. Deixe que o Espírito desça ao mais profundo de você mesmo.

- Acolha-o com gratidão, simplesmente expirando e inspirando. Por alguns instantes, seja um com o Sopro.

- O Sopro que respira em cada um de nós, que respira em todo o Universo.

- Deixe o Ser respirar em você, sendo inspirado e expirado. Respire em Sua presença para o seu bem-estar e para o bem-estar de todos. E durante todo o dia permaneça consciente do Sopro que leva consigo.

MÍSTICA INACIANA: o ser humano no centro

 

“O ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus...” (EE. 23)

 

Deus Pai nos elegeu e nos predestinou, desde a origem da Criação, à identificação com seu Filho.

Nosso Deus não é um Deus distante, senão Alguém que nos ama e se aproxima de nossa vida, em nosso mesmo ser de homens e mulheres, na comunhão com nosso ser pessoal. Ele chama a nossa liberdade a configurar-se com a imagem de seu Filho Jesus, vocação original de ser homem-mulher. O ser humano está ‘finalizado” em Cristo; n’Ele o ser humano recupera a imagem perdida de si mesmo.

 

Quem é esse ser humano que S. Inácio tem diante de seus olhos?

          É alguém plenamente sujeito, dono de si mesmo e de seu destino, que, como criatura, se define por sua origem e por seu fim (vem de Deus e volta para Deus). Ele está acima de todas as coisas; tudo foi criado para ele; ele é o centro da criação.Ele é colocado com carinho por Deus neste movimento para a plenitude.

          Ele é criado para... criação contínua, atual... Por isso ele é original, único, sagrado... dotado de capacidades, riquezas, sonhos, projetos... que o levam a ultrapassar-se, fazendo-se peregrino.

          Todo ser humano traz dentro de si uma força que o arrasta para algo maior que ele... não se limita ao próprio mundo; tem um horizonte que o atrai... traz dentro de si uma aspiração profunda de ser pleno, sente a necessidade de “ser mais”,  de crescer até atingir a Vida plena.

      Ele carrega motivações  profundas que o movem e que regem sua vida.

          No uso de sua liberdade o ser humano tem a vida nas próprias mãos e é capaz de construir o “novo”, de dar uma direção à sua própria vida, de tomar decisões a partir da vivência de valores.

 O ser humano “é criado” e “é criativo”, ou seja, participa do dinamismo criativo de Deus.Ao mesmo tempo que ele é criatura de Deus, ele é também co-criador com Deus; está em suas mãos fazer seu próprio projeto de vida, criar e transformar as estruturas de relação com a natureza e com os outros homens. Deus descansa de sua atividade criadora, apoiando-se nas mãos, na inteligência e no coração do homem, a quem seu Criador considera capaz de continuar a obra por Ele começada.

           O ser humano contempla aquilo que o mundo estende à sua frente e, lá de dentro, a voz do amor e dos valores lhe diz que a realidade pode ser modificada.

           Aí entra a imaginação e começa a explorar possibilidades ausentes. Re-cria o mundo: jardins, artes, canções, danças, ferramentas, ciência... Como se fosse aranha, o ser humano produz o seu mundo a partir de suas próprias  entranhas.

             Ao se sentir parte do grande movimento da Criação, brota no coração do ser humano um desejo de louvar, reverenciar e servir.

O louvor é a resposta da pessoa que brota espontânea ao sentir-se inundada pela glória de Deus; é uma reação que brota das entranhas em resposta à presença ativa e amorosa de Deus na Criação.

               Louvar é ponderar a grandeza, a beleza e a majestade de Deus.

               É através do louvor que o ser humano deixa ressoar em sua vida a obra de Deus.

               Louvor é harmonia da pessoa com Deus e suas obras; é sintonia profunda com a glória trans-

               bordante de Deus. Viver em louvor é viver em acorde, em ressonância com Deus e seu Reino.

A reverência é atitude de apreço, cordialidade, respeito, agradecimento... acolher e apreender o valor de

                      cada coisa; reconhecer-se criatura diante do Criador.

O serviço é atitude de colaboração, trabalhando com Deus na mesma direção.

                Não se contentar com um serviço qualquer, mas o maior serviço de Deus.

                O serviço não é mais que o amor criativo; amar é servir, trabalhar...

                Amor que se converte em serviço e serviço que se faz com amor.

                O trabalho é a colaboração da pessoa ao Deus trabalhador: trabalhar

                com a mesma intenção de Deus; trabalhar com Deus na mesma direção.

O lugar do “louvor, reverência e serviço” é o mundo; é no coração deste mundo

que a pessoa é chamada a  ocupar o seu “lugar”, a desempenhar a sua “missão”.

 

Texto bíblico   Eclo. 17,1-15; Eclo. 38. 21-34; Sb 13, 1-9   

* Quais são as motivações que movem e regem a sua vida?

* Que critérios, valores, aspirações acompanham suas decisões?

* Que uso faz e como coloca a serviço suas qualidades pessoais, seus talentos?

* Que sonhos dão sustentação e sabor à sua vida?

 

BUSCAR O DEUS QUE NOS CONSOLA

 Todos temos experiências de pensamentos, desejos e estados de ânimo diversos: momentos de entusiasmo, alegria, abertura aos outros, desejos de ajudar, como também momentos de medo, desânimo e fechamento sobre nós mesmos.

Poderíamos dizer que se dá em nós um movimento  ou força que nos aproxima de Deus e dos outros, levando-nos a amar mais, e em outras ocasiões um movimento que nos impulsiona a amar menos, afastando-nos de Deus e dos outros.

S. Inácio nos introduz  nesta nova linguagem ao falar-nos das moções ou movimentos que se causam em nossa interioridade:

    * uma que poderíamos chamar de “vitalidade espiritual”, ou momento de “luz”:  consolação;

    * outra moção que poderíamos chamar de desânimo espiritual, ou momento de sombra: desolação.                                                                                                                         

Momentos de CONSOLAÇÃO:

 É um estado de ânimo de vitalidade espiritual, no  qual se dissipam os temores irracionais; momentos

em que experimentamos uma paz ativa e profunda. Sentimo-nos animados, alegres e dispostos ao tra

balho. Experimentamos a proximidade de Deus. Sentimos gosto pela experiência da oração e nos encontramos com ânimo para prosseguir.A consolação é um estado de ânimo intenso, fora do normal, facilmente perceptível. É uma experiência nítida da Graça: momento claro, vivificante e plenificante.

 Experiência total e totalizante: atinge todas as dimensões da pessoa (corpo, mente, afetividade, coração). Tudo está em harmonia, integrado, unificado.

Consolação é ter solo, ter chão; é sinal de que a orientação está acontecendo ou que nós estamos caminhando no caminho de Deus. A consolação é a “marca” de Deus e seguindo-a nós não nos enganamos. Alguns traços que nos permitem identificar melhor ainda a CONSOLAÇÃO:

 A) Claridade: luz e certeza no que creio, no sentido de minha vida e do mundo. Vejo as pessoas, os acontecimentos e as coisas de maneira transfigurada. Vejo em todos um reflexo de Deus. Vejo claro o que Deus está me pedindo.

B) Alegria: sinto um grande ânimo por aquilo que realizo, um entusiasmo profundo invade todo meu ser. Sinto a alegria de estar com o Senhor.

C) Paz: experimento uma paz ativa e profunda que me faz sentir seguro, sereno, vivendo sem ansiedade e sem medo.

D) Contentamento do coração: sei que Deus me quer e o sinto próximo. Encontro-me bem com Ele e comigo mesmo.

E) Amando tudo em Deus: produz-se em mim um movimento de amor a Deus tão grande que já não me apego a coisa alguma em si mesma, senão que amo todas elas n’Ele. Minha liberdade cresce e me sinto atraído a viver segundo o Evangelho.

F) Confiança e esperança: minha fé se fortifica, minhas dúvidas se dissipam e a esperança aumenta. Sinto a proximidade e ajuda de Deus que me afirma e me faz caminhar confiante n’Ele. Sinto-me como navegando com vento a favor.

G) Proximidade de Deus: sinto sua presença próxima, íntima e o gosto de estar com Ele. Reconheço seu rosto nas coisas que vou vivendo. Sinto que o meu coração se alarga no desejo de entrega aos outros. Sinto contentamento ao renunciar o egoísmo e ajudar o necessitado.

H) Aumento de fé, esperança e amor: vivo um dinamismo de crescimento na experiência de Deus. Movimento para o “mais”.

 Em alguns casos, a consolação coexiste com um sofrimento físico ou também com sentimentos de tristeza, dor ou pena. Isto pode surpreender-nos, mas é a força do Espírito que nos anima. Não está em nossas mãos causar a consolação, senão que é uma Graça de Deus e pode surgir a qualquer momento.

 

DEUS NOS ENSINA TAMBÉM NA DESOLAÇÃO 

Momentos de DESOLAÇÃO 

É um estado de ânimo intenso, fora do normal, perceptível.

É como uma queda de pressão em nossa atmosfera interior. É uma experiência total e totalizante:  afeta todas as dimensões da pessoa (corpo, mente, afetividade, coração...).

Para S. Inácio, consolação e desolação são “lições”  do Senhor. Também na desolação o Senhor está nos ensinando.

Na consolação nós aprendemos muito sobre Deus. Na desolação nós aprendemos muito sobre nós.  A desolação nos abre para o específico nosso, que é “esperar”  tudo do Senhor; nos abre para o específico de Deus, que é a iniciativa livre, soberana, gratuita. 

Em si mesma, a desolação é positiva, pois nos ajuda a amadurecer na fé, na fidelidade...

Na tradição inaciana “formar-se é provar-se”.

Só aquele que é posto à prova em sua e em suas convicções, se forma e se fortifica.

              “O Senhor corrige ao que ama como um pai corrige ao filho querido” (Prov. 3,12).

A provação nos ajuda a passar do dom à pessoa que dá. Seria uma autêntica purificação que nos leva ao  centro da experiência cristã: relação interpessoal numa fé madura.

Todos nós temos a tendência a procurar mais o CONSOLO de Deus que o DEUS que nos consola.

A provação é um modo de educar a pessoa a “buscar a Deus”  por Ele mesmo e não por interesse próprio. Deus quer que o amemos muito mais do que estamos amando. Trata-se de amadurecer e purificar nossa adesão a Deus. A desolação espiritual nos mostra até onde somos capazes de chegar no amor e serviço a Deus quando nos vemos privados da consolação; nos obriga a dar provas de uma fé pura  e de um amor desinteressado;nos faz ver que a consolação não está em nossas mãos; os períodos amargos nos fazem compreender, por experiência, que tais períodos vivificantes são momentos de Graça; nos ajudam a descobrir mais profundamente o mistério do qual vivemos. 

Alguns traços que nos permitem identificar melhor ainda a desolação:

 A) Obscuridade: minha fé se obscurece; também caem minhas certezas. Não me é clara minha vocação nem o sentido de minha vida. Sinto obscuridade e dúvida diante das decisões que devo tomar; já não sei por onde avançar. Também diante da experiência concreta do retiro.

B) Tristeza: desgosto por tudo; falta de entusiasmo, abatimento e um mal humor. Este estado invade todo meu ser, me oprime e impossibilita uma comunicação simples e verdadeira com os outros.

C) Inquietude: invade-me certo desassossego que tira minha paz. Sinto-me com medo, tentado, com escrúpulos, inseguro e ansioso.

D) Secura de coração: falta de entusiasmo e gosto na oração, apostolado e todo serviço. Sinto uma espécie de vazio e de desgosto comigo mesmo. Sou terra árida.

E) Atração pelas coisas mundanas: vida fácil, sem compromisso. Busca de seguranças humanas, aburguesamento. Apego às coisas por elas mesmas sem capacidade de renúncia pelo bem do outro ou por um bem maior.

F) Perda de confiança e esperança: vejo tudo escuro. Os obstáculos se me apresentam juntos fazendo-me sentir tudo como impossível, sem saída. Dá vontade de largar, de deixar tudo.

G) Distancia de Deus: não sinto sua presença e me custa crer nela. Sinto as coisas de Deus como inconsistentes, voláteis, inúteis, que nada tem a ver com minha vida concreta.

H) Diminuição de fé, esperança e amor: toda a minha vitalidade espiritual diminui, tanto a fé como a esperança e o amor a Deus e aos outros. Dá-se em mim um movimento para o menos”.

Ao descobrir e reconhecer a desolação em mim, o importante é ver o que faço. É possível que não me seja fácil mudá-la, mas sempre posso optar por seguí-la ou não, alimentá-la ou não.

 
QUEM SOU EU PARA DEUS-PAI, MEU CRIADOR? 

“Receberás um novo NOME, determinado pela boca do Senhor” (Is. 62,2)

 1. Preparar o coração

     * Método: Relaxa e concentra-te dentro de ti mesmo, a partir do que estiveres sentido ou experimentando neste preciso momento.

    * Presença de Deus: Coloca-te diante de Deus que está presente fora e dentro de ti mesmo.  Reconhece-O como Soberano e Senhor. Adora-o.

    * Petição: Pede a Deus que te revele a tua identidade e teu nome autêntico, aquele que Ele pronunciou no momento de te criar, para que conhecendo quem tu és, possas também saber como deves agir. O teu agir deve decorrer do teu ser.

 2. Oração

     A) Faz uma contagem regressiva até a Criação do mundo. Escuta a Voz de Deus criando todas as coisas... “E Deus viu que tudo era bom”.

    B) Escuta a Voz de Deus ao criar o primeiro homem e a primeira mulher (Gen. 1,26). Trata de ver

         contemplar o fato), escutar a voz de Deus.

    C) Faz a contagem regressiva de tua criação e torna a escutar a mesma Voz de Deus-Pai, Criador do mundo: “Façamos o homem (este homem, esta mulher, ...........................................................) à nossa imagem e semelhança” (escreve o teu nome).

    D) Retorna ao preciso momento em que Deus-Pai te criou e escuta, neste momento, o nome que Ele

          pronunciou sobre ti. Como te chamou neste momento?

          Lê  Is. 62,1-5

    E) Acompanha a contagem progressiva de tua vida desde as entranhas de tua mãe.

         Procura sentir “quem és tu”  para Deus Pai que te criou.

- Quem sou eu para que Deus se preocupe comigo?

- Sou um ser de muito valor diante de Deus.

- Como eu me valorizo? O que eu penso de mim?

    F) Agora, sabendo o que Deus-Pai pensa de ti, poderias descobrir o teu nome? a tua identidade?

                               Quais os teus “sinais digitais divinos”?

    G) Que resposta darias de ti mesmo, agora, se um repórter te entrevistasse e te perguntasse:

                              “Quem és tu?”

    H)   Jo. 1,19-23 e trata de dar-te um nome que te identifique, como fez João Batista.

    I)   O que colocarias na tua carteira de identidade que te diferenciasse de todas as outras pessoas?

          Quais seriam os teus sinais digitais mais originais?

 

“Todos os mitos da Criação são mitos da beleza do mundo criado e da arte do Criador. E o ser humano participa dessa arte, mantendo o ato divino, resgatando o belo e o luminoso em cada coisa e em si mesmo, como no dia da Criação. É ele que registra em formas, movimentos e cores a simplicidade e a ternura presentes na Criação; é ele o artista, o co-participante divino; é ele, quando pinta, transforma, canta, poetiza, desenha... que repete o gesto amoroso de Deus no “fiat” (faça-se)”

 

    J) Termina esta oração falando com o Deus que está dentro  de ti e te conhece intimamente.

    K) Avalia a oração:  - como foi? bem? mau? por que?

        - Anotar as idéias, moções, sentimentos novos...

                                 Se vocês fazem projetos

Se vocês fazem projetos para um dia amem-se.

Se vocês fazem projetos para um ano semeiem trigo.

Se vocês fazem projetos para dez anos plantem uma árvore.

Se vocês fazem projetos para cem anos dediquem-se à  educação dos seres humanos.

Se vocês fazem projetos para várias vida consagrem-se exclusivamente ao amor.

Se vocês fazem projetos  para a eternidade inventem a vida. (Provérbio chinês)

 

PRIMEIRO EXERCÍCIO (EE. 45-54)

 “... movendo mais os afetos com a vontade” (EE.50)

O sentido do pecado para o cristão faz referência a uma relação e não a uma lei.O pecado surge na Bíblia, em 1º lugar, como ruptura de uma ALIANÇA com o Senhor. O pecado não é, em 1º lugar, uma infração à Lei, nem uma falta contra nós mesmos, mas uma ruptura de Amor.

A Bíblia põe em evidência a situação do pecador como sendo, radicalmente, uma situação de fechamento, de bloqueio, de ruptura de relacionamentos... É uma recusa a viver e amar. 

O PECADO é colocar um grande “NÃO” diante do grande sentido da Vida:

           - não louvar: cegueira diante dos dons; frieza; incapacidade de agradecer, de maravilhar-se...

           - não reverenciar: partir para longe da presença de Deus; errante;

           - não servir:  auto-suficiência, soberba...

 É a atitude pela qual nos fazemos o centro e só vemos as “coisas” em relação a nós; ao invés de dirigir o  olhar para a plenitude, dirigimos para nós mesmos.

PECADO é o ato da liberdade que se fecha a si mesma.

                 O homem “organiza” a vida sem levar em conta o plano de Deus; dá as costas para Deus, cri-

                 ando um outro projeto fundado sobre o poder, riqueza, status...

                 É o egoísmo levado às últimas conseqüências: amor a si mesmo até o desprezo de Deus.

                 O ser humano cria em torno de si um círculo de morte e destruição (fracasso). Estrutura de pecado. É a longa história humana feita de nossos desejos ambíguos, dos medos que nos retém, de buscas de nós mesmos, de instintos mal dirigidos.

 Por isso, é necessário descer mais profundamente para descobrir o mal interno, ali onde se instala a divisão: no coração do ser humano.O pecado é algo que está historizado, mas que se assenta sobretudo no coração.

 Meditações inacianas  (EE. 45-54:

                     - mais afetivas que racionais: “o afetivo é o efetivo”; trata-se de re-orientar os afetos;

                    - visam uma transformação: esta não surge por simples reflexão.

 O fato de sermos pecadores cria em nós uma resistência para reconhecermos como tais; daí a dificuldade de rezarmos sobre o pecado.

Aqui entra a tática de S. Inácio: parte do universal (pecado dos Anjos, de Adão e Eva, de uma pessoa qualquer) até chega ao pecado pessoal. Essa é uma estratégia que quebra a nossa resistência e medo em considerar o pecado.

 Percebemos que há uma solidariedade no pecado: fazemos parte de uma história de infidelidades. Somos um elo.

      “Pecado dos Anjos”, “pecado de Adão e Eva”: através destas meditações, ir à raiz do pecado; e a raiz é o não reverenciar: soberba.

     “Liberdade”, “reverência”, “obediência”, “soberba”: nestes conceitos está em jogo todo o tema do pecado. Trata-se, nada menos, que a “descomposição” do PF, o desajuste. É a perda da identidade.

 EE. 45S. Inácio não fala de “3 pecados”, mas “considerar o primeiro, o segundo e terceiro pecados”, dando com isso certa trama histórica do mal; situação de pecado que me rodeia e na qual me sinto implicado.

 EE. 46:  oração preparatória (retomada do PF).

                        “Puramente ordenadas” qualifica aquilo que precede (ações, operações) e o que a segue: a exclusividade no serviço do Reino. O puro é sem divisões, sem misturas, sem reservas, sem apêgos.

 EE. 47:  1º preâmbulo – “Composição vendo o lugar”  (o objeto do verbo “compor” não é o lugar,  mas o exercitante; o exercício do VER tem uma finalidade de ajudar a uma  compostura interior; o que se compõe não é o lugar mas a pessoa mesma do orante; estar diante do Mistério requer uma compostura, uma atitude de respeito, acatamento...).

O pecado nos introduz numa situação alienante:

           - “cárcere” (ausência de liberdade);

            - “desterro” (solidão);

            - “brutos animais” (deformação).

 

EE. 48:  2º preâmbulo – “Pedir o que quero e desejo” (dimensão do coração, centro da pessoa e sede das decisões vitais).

            * Vergonha“a graça da vergonha” ou “vergonha enquanto graça” é a expressão desse contraste entre o Amor fiel de Deus e a minha infidelidade; - “vergonha reconstrutora” do ser a partir de uma humildade radical e ao mesmo tempo confiada: suscita, desperta o desejo de mudança, diante da bondade de Deus;

                                  - “vergonha” que não se limita a uma lamentação do passado, mas é impulsopara o novo;

                                - é a “vergonha” ante o Amor inteiramente imerecido e no entanto incondicional;  quando descubro com assombro o Amor que se me dá e que não mereço;

                                  - “vergonha” que brota emocionadamente empapada de confiança na fidelidade

                                      do Amor que se me dá, que me abre à Vida, e que me salva de todo tipo de angústia destrutiva ou traumatizante;

                                - a distancia entre o Deus fiel e a minha infidelidade considerada em si mesmanos paralisa; a partir de Deus nos impulsiona.

   Há diversos tipo de vergonha que não são graça:

      + “vergonha negativa” que é rebaixadora da pessoa;

       + “vergonha” por complexos, culpabilidade, retraimento...

Vergonha, em seu sentido saudável, conforma e forma o coração, dá fundamento à consciência moral, protege a intimidade e qualifica o amor aos outros. Por ocupar os espaços mais profundos de nosso ser, ela nos dá uma consciência de nossa pessoa.

Uma vergonha saudável que reforça o amor central é o fundamento para uma boa auto-estima. Como tal, ajuda a construir a própria imagem e a modificar positivamente o caráter, a estrutura mesma da personalidade.

Talvez, em alguns momentos, esta vergonha nos manifesta um sentimento de desaprovação para indicar-nos que o que fazemos nos faz menos respeitáveis do que desejaríamos. É a ocasião de mudar para melhorar certos aspectos de nossa vida.

O contrário é a “vergonha-humilhação” que nos faz sentir um conjunto de impressões afetivas que nos levam a prestar mais atenção no outro que nos observa e que nos provoca a sensação de incomodidade, de não estar bem por causa da impressão que nos parece que o outro tem de nós. Ela desemboca no desprezo de si mesmo.

           * “Confusão”-  confusão segundo Deus; leva ao arrependimento;

                               - esta confusão revela confiança no perdão e desemboca numa ação de graças pela misericórdia de Deus;

                               - significa reconhecer-se ingrato diante de tantos dons recebidos;

                               - é a mesma confusão do mendigo diante de uma esmola grande.

 

Textos bíblicos:   1) Apoc. 12,7-10         2) Gen 3                3) 2Sam. 11 e 12         

4) Is. 5                   5) Os. ll                      6) Is. 59,1-15        7)  Tg. 5,1-6

 

 

A MEDITAÇÃO

E uma forma de oração discursiva que utiliza a memória, a inteligência e a vontade para aprofundar e

assimilar um dado da fé, com vistas a toma-lo vida em nossa vida.

S. Inácio apresenta uma atividade sustentada pelas faculdades a partir de uma matéria proposta, cujo conteúdo deverá ser explorado, assimilado e aplicado de modo pessoal.

Ele usa o termo meditação para destacar o caráter mais discursivo do exercício, o que não impede que aconteçam "pausas" , mais ou menos prolongadas sobre um ou outro aspecto que atraia ou alimente mais. O próprio S. Inácio prevê que esta atividade vai se simplificando, se unificando e se aprofundando à medida que se vai caminhando na oração.

Modo de proceder

* Esmerar-se na introdução à oração (pôr-se em presença, fixar uma imagem interior do lugar ott do tema, pedir a graça).

* Dividir o tema da meditação em vários pontos, ou em duas ou três etapas.

* Em cada uma das etapas (sucessivamente, se necessário):  
-aplicar minha memória ao tema escolhido;
-exercitar minha inteligência;
-mover meu coração, minha vontade.

* Terminar cada etapa ou tempo de oração falando ao Senhor o que aparecera na meditação.

1. Aplicar minha memória: é o primeiro olhar do espírito sobre o mistério. É, portanto, um olhar orante, respeitoso. Uma simples vista das coisas, pela recordação, sua acolhida e abertura a esta história, a esta parábola, a tudo isto que Deus me apresenta e que vai usar como instrumento para se revelar.

Recordar cada uma das partes do assunto a meditar sem se preocupar com pormenores, para fornecer à. oração um aprofundamento histórico.

Quê evoca em num este ponto? A quê aspecto de minha história este ponto faz alusão? Deixar que aflorem as imagens. Deixar que ressoe todo o alcance da história, trazer à memória os fatos, a realidade que conheço, recordando o que a Escritura diz sobre isso, ou o que conheço pela minha própria história (afetiva, corporal), em todo ser humano, na Igreja...

2. Exercitar minliq inteligência; esta se ocupa em detalhar o que a memória percorreu. Ela o fará de maneira orante, não como fria reflexão. Quê é que entendo? Quê consequências se derivam deste ponto?

Refletir...Quando a memória evoca minha história e a realidade, a inteligência se põe a trabalhar para compreender melhor as ressonâncias, as implicações, as dimensões do mistério.

Recorrer á capacidade de comparar, de raciocinar, de assinalarás contradições ou as questões que es­te ponto estabelece em minha vida,...

Assimilar, tornar pessoais os pensamentos lidos ( quem? o quê? para quê? porquê? como?) de modo que o espírito fique convencido.

Confrontara verdade meditada com a nossa conduta e desse confronto, tirar a base das resoluções.

3. Mover meu coração, minha vontade: deixando-me afetar, implicar. À raiz desta meditação que deveria fazer ou dizer ao Senhor?

Influenciada pela inteligência que a penetra, iluminando-a com compreensões íntimas do mistério, a vontade desabrocha em amor,, intimidade, plenitude do coração.

Revolver minha memória, sacudir minha inteligência em relação a este ponto e agora chega o momento de "tocar o coração". Não se trata de fazer malabarismos com um artigo de fé, senão de seguir

o Senhor mais de perto, sem tirar da fé suas dimensões interiores que são a memória e a inteligência.

Já que o coração não se deixa levar por emoções sensíveis, a vontade entrará em jogo.

No coração se concentra tudo o que sou, em minha capacidade para decidir-me por Deus.

 Movido pelo que recordei e compreendi, re-oriento-me, comprometo minha liberdade, por fidelidade ao Amor. Isto é possível:

- ''espontaneamente": da meditação brota amor, agradecimento ou outros sentimentos e o digo

ao Senhor de coração a coração;

- ou pela vontade: (desejos de desejos) de uma conversação mais radical, de uma decisão sobre um ponto concreto, ou de renovar minha fidelidade, ainda que não o sinta. Esta forma mais "voluntária"'de seguir o Senhor mais de perto é tão verdadeira e proveitosa quanto a primeira.

Deixar que os afetos. provocados pelo exercício da memóría e da inteligência se expandam. Esta expansão é que constitui a ORAÇÃO.

- Neste momento a inteligência deve parar, suspender sua atividade porque atingiu o seu fím.

- Este movimento dos afetos pode acontecer durante toda a meditação, embora tenha este es­paço onde deve ganhar em profundidade e extensão.

- Enquanto a vontade encontra alimento em um sentimento, ficar aí até que se sinta satisfeita.

- A inteligência só deve voltar a funcionar quando os atos da vontade começarem a se extinguir.

A etapa da vontade junta o coração à razão^ a dimensão afetíva à dimensão racional. É esta etapa da vontade que dá sentido às duas etapas anteriores. Já na "aplicação da memória" e no "exercício" do entendimento, a pessoa deve ter presente que é na aferividade que esse "trabalho"deve desembocar. E esta afetividade que dá à meditação o caráter de "exercício" segundo a concepção de S. Inácio: um esforço espiritual que tem consequências de vida.

Do saber ao sabor, do sabor ao sentir, do sentir ao decidir. É a linha profunda da meditação ínaciana.

No exercício das faculdades cabe à vontade e seus afetos o lugar mais importante.                              t
É ela que orienta a oração para o fruto que se quer alcançar.                                                      ,  f\ j, ~.
Conseguindo isto, S. Inácio recomenda uma grande liberdade. Ele mesmo, se recusa a direcionar.
O Espírito Santo que assume a oração é quem lhe vai dar o rumo, cabendo ao exercitante, entregar-se à
sua ação, aberto e dócil às suas "moções".

"No ponto da meditação em que achar o que quero, ali me repousarei, sem ter ânsia de passar adiante, até que me satisfaça". (EE. 76).

Atenção»!

Não se pode cortar em fatias a "memóría, inteligência, coração, vontade".

Falando das três potências em separado, S. Inácio não pretende estabelecer uma divisão in­terior na pessoa; trata-se, simplesmente, de uma divisão prática.

Logo, a meditação não deve ser concebida de maneira rígida, compartimentada, mecânica: l aplicação da memóría; 2 aplicação da inteligência; 3° aplicação da vontade; colóquio e resolução.

Caso esta "compartimentâção" aconteça, ela não é inaciana.

Cada um procure que sua meditação não fique em meras recordações (no passado) ou somente na cabeça, como tampouco em mera afetividade. O mistério e a ação de Deus afetam nosso ser em sua totalidade.

Diante da Palavra de Deus, recebida, saboreada, quem responde e se compromete numa pa­lavra ao Senhor (co/óqwib) sou "eu", em minha unidade.

 

GÉNESIS "Um dia um girassol se apropriou de Deus. Foi em Van Gogh" (Manoel de Sarros)

"No princípio a tela estava vazia, tintas e pincéis esparramados em volta. Um caos.

Mas no coração do artista a obra já morava em forma de desejo. E nos seus olhos brilhou a luz da inspiração.

E foi o primeiro toque na tela.

A tela encheu-se de azul. Um azul profundo que se diluía em dois tons. Um, mais suave, na parte superior. Outro, mais forte, na parte inferior. Céu e mares. Foi o segundo toque na tela.

O artista, inspirado, continuava sua obra. No seu coração, o sentimento mais forte era de confirmação.

Sim, era a obra que já morava em seus sonhos desde sempre.

Num gesto circular, o pincel revolveu o azul profundo e foi aplicando sobre ele toques de um marron terroso, rústico,

primitivo. Quase sem controle, a mão deslizava sobre a tela, salpicando agora tons variados de verde, que se

multiplicavam e enchiam-na de brilho e luz. A vida explodia em mil formas multifacetadas.

foi o terceiro toque.

O olhar do artista dirigiu-se então ao alto da tela. Lá brilhava o azul suave.

A mão, suspensa no ar, parecia temer romper o equilíbrio de formas e cores. Então, respeitosamente, um pequeno ponto

branco surgiu, numa das extremidades. Logo, outros menores foram aparecendo, juntos e separados, simétricos ou

dispersos, iluminando o alto da tela.

Por fim, o artista parou, percebendo que faltava ainda alguma coisa.

Quase que instintivamente sua mão tomou o pincel e, num gesto rápido, fez surgir um grande círculo vermelho.

Olhou... observou, achou forte demais. Novo toque sobre o vermelho, agora com um amarelo suave.

A tela encheu-se de fogo. O artista sorriu.

Foi o quarto toque.

Naquele dia o artista acordou com o coração em ebulição. Diante dele a tela pedia mais vida.

Parece que seus limites se ampliavam ao infinito esperando pelo toque mágico do pincel. E ele veio.

Primeiro, um redemoinho nas águas que fervilharam de vida marinha. Depois um voo. Entre as estrelas, desafiando o sol,

pássaros cruzaram a tela saídos do coração pulsante do artista. E a vida se multiplicou em formas e cores inimagináveis.

E foi o quinto toque.

O artista contemplou sua obra. Podia até dá-la por terminada.

Mas em seu coração havia um sentimento de que faltava alguma coisa.

O toque genial, que daria sentido a tudo o que ali estava. Aquela explosão de cores e formas pedia algo que lhe desse

unidade, um sentido maior. A sinfonia clamava por um maestro.

O artista estava cansado. Seus olhos queimavam de sono. Deixou por um instante a tela.

Molhou o rosto na água e seu olhar, erguendo-se, deu com a própria face no espelho.

Ela iluminou-se com um sorriso e ele correu para a tela. Bem no centro, lentamente, quase que com pudor e medo, o

artista fez surgir, em suaves contornos, a sua própria imagem. Quando terminou, percebeu que a figura tinha a mão

estendida, como se buscasse algo ou alguém... Voltou à tela e completou-a . Ele não estava só.

Ao seu lado, a companheira, mãos entrelaçadas, um sorriso só iluminando toda a obra.

Foi o sexto toque.

O artista sentou-se diante da tela. Sua mão pendia ao lado, o pincel suspenso, o olhar pleno. O coração, mais que nunca,

apaixonado e orgulhoso. Era belo tudo o que surgira de suas mãos. Faltava a assinatura.

O artista aproximou-se do quadro, debruçou-se sobre ele como que buscando o detalhe que faltava.

De seus olhos, uma lágrima emocionada correu e caiu sobre a tela. Escorreu do peito do homem para o da mulher.

O borrão, lentamente, assumiu a forma de um coração...

O artista entendeu. Era o toque que faltava. O quadro estava assinado.

No coração humano ele deixou a marca de sua inspiração, de seus sonhos e desejos.

E de lá, ela nunca mais sairia..."

(Eduardo Machado - inspirado em Génesis 1,1-31

 

UM MUNDO SEM DEUS

 Vivemos num mundo que progride, que evolui...

Percebemos uma força que impulsiona tudo à plenitude; há um dinamismo presente na Criação...

Tudo vem de Deus e tudo volta para Deus; toda a realidade está envolvida pelo Amor criativo e dinâmico de Deus. No centro desse movimento está o ser humano, chamado à vida, à comunhão, a realizar um projeto que é o sonho de Deus.

No entanto, no ritmo de nossa vida, percebemos também que há uma outra força contrária, presente no nosso próprio interior e na realidade que nos cerca.

Existe junto à História da Salvação, um movimento contrário a ela; estamos mergulhados numa his-           tória de infidelidades; o Projeto de Deus encontra obstáculos históricos e resistências pessoais;

           há um freio estrutural e pessoal que impede a realização do plano de Deus; é a força do MAL que destrói o Projeto de Deus e ameaça nossa existência de fracasso, destruição e morte. 

Qual é a RAIZ dessa situação?

O ser humano é criado livre e pelo mau uso da liberdade recusa ser colaborador de Deus na Criação.

Rebela-se contra Deus para construir um MUNDO SEM DEUS e constitui-se a si mesmo como senhor absoluto de sua existência; não se reconhece como dependente de Deus.

Através da liberdade o ser humano organiza seu próprio projeto sem levar em contra o “SONHO”  de Deus; Ele quer construir sua vida a partir dos próprios critérios; sua resposta ao Projeto do Deus-Amor foi a infidelidade; “deu as costas para Deus”, criando em torno de si um círculo de morte e destruição. Ao voltar as costas para Deus o projeto do ser humano funda-se sobre o egoísmo, poder, status, riqueza...  Isso significa o fracasso de seus anseios mais profundos de felicidade.

Neste mundo onde borbulha vida, impera ídolos que oprimem e tudo contaminam com o veneno da morte: economia, trabalho, organização política, instituições, relações sociais...

Vivemos num ambiente contaminado que nos afeta e nos infecta... somos bombardeados pelos falsos valores; sentimo-nos impotentes diante dessa realidade.

 PUEBLA descreve o “mundo da exclusão”, consequência de um “mundo sem Deus”:

       “Esta situação de extrema pobreza generalizada adquire, na vida real, feições  concretíssimas, nas quais deveríamos reconhecer as feições sofredoras de Cristo, o Senhor que nos questiona e interpela:

            - Feições de crianças golpeadas pela pobreza ainda antes de nascer.

            - Feições de jovens desorientados por não encontrarem seu lugar na sociedade.

            - Feições de indígenas e de afro que vivem segregados e em situações desumanas.

            - Feições de camponeses que vivem sem terra, em situação de dependência.

            - Feições de operários mal remunerados e que tem dificuldades de se organizar e defender os próprios direitos.

            - Feições de sub-empregados e desempregados, despedidos pelas duras exigências das crises econômicas

            - Feições de marginalizados e amontoados das nossas cidades.

            - Feições de anciãos, postos à margem da sociedade, que prescinde das pessoas que não produzem.

         Compartilhamos com nosso povo de outras angústias que brotam da falta de respeito à sua dignidade

         de ser humano, “imagem e semelhança do Criador e a seus direitos inalienáveis de filhos de Deus”. 

Passos para a oração

* Comece a oração relacionando-se bem consigo mesmo: escuta atenta, próxima, aceitação pessoal...

* Alimente um sentimento de presença, ou seja, resposta de sua pessoa à ação do Senhor.

* Peça uma graça: “Que o Espírito de Deus me ajude a “olhar” o mundo com os “olhos” de Deus.

* Texto bíblico: Is. 59,1-15

* Diante de Deus, deixe seu coração responder: Como você se coloca diante deste mundo: inconformado?   revoltado? acomodado? indiferente? otimista? ativo?...

 Examinando a sociedade, sentindo de perto os seus problemas e desafios, quê esperanças você carrega? Somos chamados a criar uma sociedade digna da liberdade humana, a partir das condições econômicas, políticas, sociais, culturais... Como você atua e se prepara para se comprometer com a transformação do mundo que o cerca?

NÃO LUTEIS CONTRA AS DISTRAÇÕES

 

“A distração é a vida que quer ser rezada”

 

Grande parte das pessoas que rezam são assediadas por constantes distrações: pensamentos, imagens, recordações, sentimentos, cenas, devaneios, palavras, fatos, pessoas, preocupações...

Tudo isto lhes “distrai”, isto é, afasta-lhes dos conteúdos mentais ou afetivos de sua oração ou obscurece o sentimento da presença de Deus.

Diante destas sutis ou claras ameaças, os orantes costumam empregar sua energia em afastá-las; isto significa grande esforço e fadiga. Na prática, a oração se converte num campo de batalha, tornando-se um monólogo heróico e um sentimento de impotência e vazio.

As distrações são inevitáveis, e muitas pessoas pensam que constituem um obstáculo para a qualidade da sua oração. É preciso saber identificá-las, canalizá-las e dar-lhes a importância que realmente tem.

“Assim como não podemos deter o movimento do céu,

                                                tampouco podemos deter nosso pensamento” (S. Tereza).

 

Nossa própria realidade nos ensina a nos relacionar com Deus e a rezar, desde que levemos a realidade a sério. Muitas das coisas que parecem “distrações” são oportunidades para entrar em diálogo com o Senhor; muitas das atividades que necessariamente consomem nosso tempo são oração em ação.

Quem reza mas se “distrai” com preocupações, lembranças, imagens... não perde o contato com Deus.

Quem procura pensar em Deus mas, de repente, tem a mente cheia de cenas e sons da própria realidade dificilmente se desvia da oração.

E quem tem a concentração em Deus interrompida pelas exigências da vida ou pelos problemas cotidianos não mostra desrespeito quando atende a essas intromissões.

 

Para o orante é simplesmente impossível separar o mundo de sua oração, ou isolar sua oração dos acontecimentos da história.

As distrações durante a oração servem muitas vezes para revelar aonde nosso coração realmente nos leva.

Como tal, revelam muita coisa sobre a pessoa que somos.

Oriundas, como elas são, dos recantos de nossas mentes e das rotinas nas quais vivemos, as distrações são, certamente, confirmação de nosso “enraizamento” no mundo, nas preocupações cotidianas, em nossa corporalidade, em nossos desejos...

 

Que são as distrações?

São uma mensagem de nosso inconsciente, de nosso corpo, de nosso eu, uma recordação, algo incompleto, uma expectativa do futuro, um temor, uma emoção relativamente importante... São um conteúdo de vida que nos pertence. 

Qual a finalidade destas mensagens?

Revelar-nos alguma necessidade, algum desejo, atrair a atenção sobre algo, introduzir em nossa consciência dados que podem enriquecer-nos...

Na oração com conteúdos mentais ou afetivos a distração tende a substituir um conteúdo por outro não escolhido conscientemente, mas talvez “interessante”, sob algum aspecto, para nós mesmos.

 

Que fazer com estas mensagens?

1.  A reação pessoal é lutar contra elas, sem cair na conta que essas mensagens “sou eu mesmo”.

    Antes de tudo, devo dar-me conta da mensagem sem dialogar com ela. Isto quer dizer: a atitude primeira é despertar a consciência para essa mensagem. “Neste momento em que estou rezando, me dou conta de  que aparece um novo dado no espaço tranqüilo de minha oração”.

    Sou consciente de dois planos: meu nível de atenção meditativa e da mensagem nova.

 2. “Escutar” a mensagem não significa colocar minha energia a seu serviço. Se a mensagem entra no

    campo de minha atenção com a possibilidade de ser “distrativa”, acolherei seu conteúdo sem marchar

    atrás dela. É  como se dissesse interiormente: “Agora que estou rezando, me dou conta do que tenho que fazer amanhã”.

 

3. Se luto contra a distração (e sua mensagem), posso afastá-la de minha atenção, embora o mais frequen-

    te é que reapareça com renovada força para cumprir sua missão.

     A luta mesma é mais distrativa que a  mensagem.

    Para manter minha concentração, me afasto da oração.

    O esforço que emprego em lutar me tira da “tranquila concentração” na qual estava cultivando a oração. A luta contra a mensagem é distrativa porque afasta, com duvidoso êxito, a mansagem, mas, certamente, me  descentro, isto é, perco o ritmo tranqüilo da oração.

    “Não lutar” não significa “consentir”;  simplesmente supõe não gastar energias com as quais se alimentaria a mesma distração.

    “Não lutar” é dar-me conta sem alterar-me, ser consciente da mensagem; é dizer-lhe: “Já sei que estás aí, te atenderei mais tarde”, sem perder a calma e prosseguir orando.

 4. Um caminho para manter a oração, depois de ter tomado consciência da distração, sem entrar nela, é

    voltar minha atenção para as “sensações físicas” ou para a “respiração”, como maneira de garantir o

    processo da oração. Minha atenção se fez consciente de uma recordação, um sentimento, uma imagem e agora dirijo a  mesma atenção para meu corpo que não deixou de orar com sua postura.

    A respiração ou as sensações físicas são o caminho que me fazem consciente de meu desejo pro-

    fundo, de minha presença orante.  Eu me faço presente ao melhor de mim mesmo.

     Ao invés de golpear a distração,  o que faço é abraçar-me a mim mesmo e a tarefa prazerosa que

     neste momento estou vivendo: a oração.

    Armar-se de paciência, não se inquietar e menos ainda desanimar, mas voltar à atitude fundamental de

    estar na presença amorosa de Deus. 

5. Não fazer uma “leitura moralista” das distrações; elas brotam espontaneamente, sem o meu consentimento. Não tenho culpa. Devo acolhê-las, tomar “posse” delas e apresentá-las (oferecê-las) ao Senhor

    Na oração “tudo acolho e tudo ofereço ao Senhor”.

 “Não façais caso algum de pensamentos maus, torpes, sensuais, pouquidades ou tibiezas, quando são contra o vosso querer.

Assim como não me tenho de salvar pelas boas obras dos anjos bons, não me tenho de condenar pelos maus pensamentos e fraquezas que os anjos maus, o mundo e a carne me representam”.       (S. Inácio, 11 set. 1536, Epp. I 107-109)

 “Se as preocupações cotidianas que entram de mansinho em nossos pensamentos enquanto tentamos nos concentrar nas “coisas de Deus” são, muitas vezes incorretamente, identificadas como distrações, então é igualmente verdade que às vezes as maiores distrações de todas são o céu, a eternidade e até Deus!

Deus se torna uma distração sempre que o separamos do mundo que Ele cria, redime e ama.

O céu se torna uma distração quando o separamos da profunda esperança que a humanidade tem do novo céu e da nova terra da promessa divina”. (William Reiser sj)

 

REPETIÇÃO encontro renovado

 

“Quando a REPETIÇÃO é regra de ouro”

 

Método dos EE. – evolução lenta, longas preparações, repetições...

                               Para que haja uma experiência profunda e durável, é necessário tempo (contrário do

                               mundo atual: apressado, superficial, descartável). Não há progresso espiritual se não

                               se tira o maior proveito possível das lições que nos vem das experiências anteriores.

 

S. Inácio sabe que a experiência é mestra e formadora, mas somente a experiência relida, rebatida, solidificada, saboreada...

O que constrói a pessoa interiormente é a retomada permanente das experiências que viveu.

Aquele que não se debruça sobre o quanto viveu permanece na superfície de si mesmo.

               O retorno a um tema já meditado ou contemplado é, pois, um exercício de discernimento (atenção às moções constantes; verificá-las se tem raízes ou se são passageiras). Trata-se de conhecer e de se apropriar da maneira de agir do Espírito.

O têrmo repetição não significa retomar ou “fazer de novo”  um determinado exercício, mas repassar o processo da experiência vivida, com uma nova expectativa e de acordo com uma nova metodologia.

           A repetição é muito mais um retorno aos sentimentos tidos na oração. Trata-se de um método de decantação progressiva, de concentração sobre aquilo que é essencial, iluminante, nutriente. Através da repetição realiza-se o processo da interiorização (assimilação progressiva da Palavra).  Este é o fator pedagógico mais característico dos Exercícios Inacianos.

 A repetição ajuda a perceber as constantes (luzes, apelos...) e é através das constantes que se manifesta a

                     ação e a vontade de Deus sobre nós.

Habituando o exercitante a deter-se nos pontos ou aspectos pessoalmente fecundos, a repetição o guiará, pouco a pouco, a uma maneira de oração simplificada, tornando-a menos discursiva, porém mais tran-quila, mais substancial, mais afetiva e mais alimentadora.

Ela ajuda a descer da cabeça ao coração; atenção maior ao que se passa no coração.

                           “Ela permite entrar, pouco a pouco, no mundo dos espíritos e discerní-los intuitivamente. Na repetição, voltamos aos momentos especiais da graça, aos instantes divinos, nos quais Deus começou a revelar-nos a Sua Vontade (através das moções)” (Pe. Géza).

“Não se pensa nada importante uma vez só”.

 O fato de voltar uma e outra vez sobre a mesma coisa é garantia de seriedade.

Ao identificar-se cada vez mais, por meio da repetição, ao sentir-se em sintonia com esses desejos e sentimentos mais profundamente, o exercitante terá não apenas maior segurança, como também a possibilidade de interiorizar e introjetar o vivido e experimentado.

   A linguagem de Deus é muito simples e unitária. Atinge todo o nosso ser.

     Diz muito poucas coisas mas fundamentais.

Repetir é reconhecer os dons recebidos, é agradecê-los, valorizá-los, assumí-los, penetrá-los e, sobretudo,

             configurar  os sentimentos. É estar atento às “lições” de Deus, às “marcas”  de Deus no coração.  Significa voltar e querer voltar onde já esteve o Espírito, ou precisamente porque não esteve ainda, a fim de “buscar e encontrar”.

             Volta-se sobre o mesmo porque se quer assumí-lo e convertê-lo em vida própria.

A repetição busca integrar e unificar o desejo brotado nas meditações ou contemplações do dia, aprofundando-se nele e  fazendo-o crescer. Ela constitui a ocasião indicada para um “trato”  prolongado com o Senhor, que permite passar para  outra etapa que se apoiará muito sobre a precedente.

 “... notando”: trata-se de uma especial atenção aos “sinais”, “pegadas” da passagem de Deus pelo coração nos exercícios 1º e 2º que são a maior consolação ou maior sentimento espiritual” (EE 62)  Significa sobretudo acolher aqueles momentos como irrupção do Outro, como surpresa e novidade, que não lhe deixaram indiferente.

 “... fazendo pausa”: é o espaço para criar e re-criar um clima repousado para a interiorização e para dar passagem a um novo e receptivo diálogo; é o serenar a experiência neste momento para entrar no ritmo e no tempo de Deus. É evocar e reviver as moções passadas, deixando-se penetrar por elas.

EE. 62na pedagogia deste exercício há um interesse em detectar um instinto que nos leva a perceber o pecado em nós e no mundo. Trata-se de criar espaços interiores profundos, situar aí a oração, já que aí deve chegar a conversão.

EE. 63o tríplice colóquio nos situa no coração da 1ª Semana; os três colóquios são mais do que três conversas paralelas desenvolvidas segundo um mesmo conteúdo, mas a expressão de um diálogo sempre em realização contínua entre Maria, Cristo e o Pai. Trata-se de um dom; pede-se uma mudança na orientação da própria sensibilidade.

                      O COLÓQUIO é a expressão dos desejos alimentados e motivados ao longo da oração.

                      São DESEJOS que não podem permanecer dentro de mim: precisam expressar-se, formular-se com palavras humanas, “coloquiais”, como dois amigos.

                      Porque os DESEJOS formam uma boa parte do que levamos e somos por dentro.E esta expressão de desejos segue ao longo de todos os Exercícios.

 S. Inácio propõe um colóquio para alcançar três graças, orientadas para a totalidade da conversão.

              Estas três graças correspondem aos três níveis pelos quais o pecado se enraíza em nós e pode

              destruir-nos:

a) o nosso coração

b) os nossos hábitos

c) as estruturas de pecado no mundo.

              A conversão deve atingir os três níveis.

 

a) Um “conhecimento íntimo”  dos meus pecados e “aborrecimento”  deles (sentir o pecado que é fruto da vida consciente e livre da pessoa);

b) Sentir a “desordem” de minhas atividades, para que , aborrecendo-a, corrija a minha vida e a “ordene” ( a desordem é um impulso inconsciente que passa do sentir à ação sem ter dele uma consciência clara; é um fazer sem conhecer: “faço o que não quero”; não há uma situação clara de ser livre à hora de determinar-se); “Desordem de minhas operações”:  são minhas operações internas, minha dinâmica psíquica...; tipo de pulsões ou de intenções mais ou menos ocultas que buscam a satisfação imediata e desordenada; limitações, fraquezas, pecados do dia-a-dia (“veniais” – com o tempo me levam a um esfriamento no amor). Esta “desordem” de operações faz de mim um pequeno caos por dentro: ninguém manda, ninguém sabe dizer o que se quer de verdade e para onde vou na vida...

c) Um “conhecimento do mundo”, para que, aborrecendo-o, afaste de mim tudo o que é mundano e  vão ( “conhecimento do mundo” em seu conjunto de critérios, atitudes, normas, categorias que penetram e influem em meu pensar e agir; é uma influência externa que penetra inconscientemente e permanece em meu interior operativamente, nutrindo a “desordem”  de minhas ações. É todo um sistema de valores, solidamente estruturado, oposto ao Princípio e Fundamento).

     “Pecado, desordem e amor ao mundo”, são três aspectos de uma mesma situação de desordem oculta, cuja revelação há de me ser concedida por graça.

      “Aborrecimento”:  pertence à ordem da sensibilidade interior. É o contrário de “afección” (afeto); por isso implica um arrancar violento de algo ao qual o coração (afeto) vive apegado; é uma resposta visceral de rechaço diante daquilo que é destrutivo do amor e de meus melhores valores e desejos. Trata-se de um aborrecimento operativo pelo qual a vontade é sacudida e movida, conduzindo à reconstrução da pessoa do exercitante desde a base, a raiz (“me ordene”).

Os 3 planos – liberdade, inconsciente pessoal, influxo social – abarcam a totalidade das possibilidades pessoais de transformação.

Daí a importância de se obter a mudança nesses três planos através dos colóquios.

 

Textos bíblicos:   1) Jer. 7,1-11; 2) Mt. 7,14-23; 3) Ef. 4,17-32; 4) Lc 6,27-36;

5) Rom. 8,1-13       6) Gal. 5,13-26           7) Is. 58,1-12                    

 

EU PECADOR: amado e chamado por Deus

“A conversão não é questão de esforço mas de agradecimento”

Quê buscamos com as meditações dos pecados?

* Uma vivência transformante, através da experiência do Amor incondicional e da Misericórdia, e da des-

   coberta luminosa de uma salvação que se encarna em Jesus.

* Nosso pecado tem de ser revelado por Outro (Cristo Crucificado). No centro da história (pessoal e co-

   letiva) está uma Pessoa: encontro afetivo, dinâmico, provocativo, que impulsiona para a nova vida...

   Através do “colóquio de misericórdia” (“que fiz? que faço? que farei por Cristo?  EE.61), o exercitante descobre Cristo no coração do pecado. O Jesus da Cruz é promessa de  vida para mim; n’Ele me é dada a esperança certa de ser reconstruído no Amor.

* Só o Amor de Deus revela o pecado; Deus nos ama precisamente porque somos pecadores. Este é o

   maior mistério: “que Ele nos tenha amado primeiro, quando ainda éramos pecadores” (Rom. 5,8)

 A dinâmica da oração sobre os pecados.

A recordação é minha pessoa, minha  história... através do contraste entre grandeza e pequenez, plenitude e degradação, pecado e misericórdia... e que desemboca numa admiração profunda e vivamente assombrada (EE. 60)

Na oração, procurar captar não tanto os pecados concretos, mas os hábitos, os dinamismos negati-

vos, as atitudes pecaminosas, os ídolos, as áreas fechadas de minha vida, etc. Há sempre o perigo de permanecermos nos atos externos, esquecendo-nos da dimensão profunda dos pecados.

São os chamados “pecados de raiz”, ou seja, endurecimentos, fechamentos e fixações da pessoa e que impedem a energia vital, o amor de Deus fluir livremente. São bloqueios e empecilhos colocados pela própria pessoa que interceptam a relação com Deus, portanto, com a plenitude da vida, e cortam suas próprias potencialidades positivas.

Quando falamos de “pecados de raiz” queremos destacar a necessidade de uma renovação radical.

 Em sentido amplo, o pecado constitui a recusa do ser humano de “ir além de si mesmo”. Com este gesto

de recusa, ele atinge a si próprio muito mais que a Deus. A malícia do pecado está no fato de que, por meio dele, o ser humano se automutila, precisamente na sua dimensão mais específica, a transcendência.

Pecar é fechar as portas da mente e do coração ao Absoluto. É negar-se a tomar parte na Grande Passagem (Páscoa). É decidir-se pela “segurança e comodidade”  e não pelo risco da aventura; é não estar disposto a “ir além de si mesmo”,  seguindo o apelo do Absoluto.

           É esta a experiência de “inferno”, definido como o “absoluto menos”,  ou seja, o absoluto que, em vez de criar, construir, crescer, ousar... em direção ao “mais”, constitui o extremo setor “menos” de nossas opções, de nosso modo de viver...

 A experiência pessoal de conversão só será completa quando questionamos globalmente e a fundo a nossa própria existência.

“Conversão” significa: libertar-nos de nossa fixação em nós mesmos e em nosso fazer, para atender ao que Deus nos oferece. A conversão é mudança de “senhor”,  não é só mudança de hábitos, de comportamentos...; é desalojar os falsos ídolos, os apegos desordenados... para que o Senhor amplie e ocupe o espaço do nosso coração.

Os Exercícios Espirituais nos situam de cheio no contexto das afeições desordenadas. Tais “afeições”  são, de fato, as atitudes nas quais buscamos uma compensação por nossas carências, feridas e limitações.

                 “O Senhor não precisou fazer muito esforço para libertar Israel do Egito, mas precisou suar muito para arrancar o Egito do coração de Israel”.

Ä libertação do coração, de fato, é uma operação muito delicada, paciente e demorada, e representa o ponto de chegada e o cumprimento do Projeto de Deus. O fundamental é conseguir fazer uma experiência salvífica frente à “minha história de pecado” e não uma experiência de angústia, de temor e de escrupulosidade... Aqui brota um sentimento de surpresa e de admiração diante do contraste entre meu pecado e a bondade de Deus que me acolhe. Sentimento que desemboca na atitude de “ação de graças”.

 

Textos bíblicos:  Rom. 7,14-25     Ez. 36,22-36    

 

PERDÃO: AMOR QUE RECONSTRÓI O PASSADO

“O perdão não modifica o passado mas expande o futuro” (Paul Boese)

 O passado carrega lembranças de fatos e experiências negativas: culpas, traumas, desilusões,limites, pecados, rejeições, fracassos, erros...

Tudo isso pesa na memória e continua influenciando negativamente o presente. Nestes casos, o amor é memória que não deve apenas recordar e registrar o passado, mas também reconstruí-lo.

O passado de cada pessoa não pode ser considerado como um destino, como algo que aconteceu e terá uma fatal continuação, sem qualquer outra alternativa possível.

O ser humano é capaz de se colocar diante do próprio passado, qualquer que ele tenha sido, de modo fundamentalmente livre. O princípio de base é este:

“O ser humano pode não ser responsável pelo seu passado, mas de qualquer forma é responsável pela atitude que assumir, no presente, em face desse passado”.

 O passado continua vivo em nossas mãos, e à espera de receber um significado que ninguém, a não ser o próprio indivíduo, pode lhe dar. Então a pessoa será sujeito de sua existência, e o passado deixará de ser um tempo alienado para se transformar numa parte integrante do próprio eu.

“Quando alguém está diante de fatos incompreensíveis, a pergunta a fazer não é a seguinte: “Por que isso aconteceu?”, mas: “Que atitude devo assumir para que o que aconteceu tenha um sentido?” De fato, o ser humano pode modificar o valor das situações históricas introduzindo rumos novos nos próprios episódios acontecidos” (Carlo Molari).

 É isso o que Jesus fez; Ele introduziu um sentido onde um sentido parecia não poder existir, pôs em mo-vimento valores onde parecia não haver valores, tornou Deus presente onde Ele fora expulso.

“As situações insensatas podem ser vividas pelo ser humano desde que ele consiga dar sentido ao que parece não ter sentido” (Carlo Molari).

É nesse sentido que o amor transforma o passado “congelado” (congelado por causa das recordações negativas, ou de fatos negativos que não foram suficientemente reelaborados e reintegrados na vida) num presente “que avança”; é possível recuperar o passado, de “vivê-lo” e de fazê-lo viver, de se colocar diante dele com postura criativa e livre.

 O amor não elimina o que já foi feito, nem faz esquecê-lo, mas consegue  arrancar a vida de um fatal e inócuo ponto morto. E neste sentido entra em jogo o perdão cristão: ele nos permite recolher os fatos passados que estão “bloqueados”  e orientá-los para horizontes muito mais amplos de sentido.

O perdão não tem impacto no que foi, mas no que é e será. É um gesto de responsabilidade para com o  presente e o futuro. Um perdão que faz sentido e que enriquece a vida ao invés de empobrecê-la. Se o passado foi estreito, não permita que o presente e o futuro o sejam.

O perdão é a única atitude que pode movimentar as histórias pessoais e coletivas, lançando-as para fora do círculo vicioso do já realizado, para fora da repetição e da mesmice.

O perdão limpa o terreno para o novo. O perdão nos arranca do imobilismo do passado e nos faz dar um passo a mais. Este “passo a mais” permite-nos sair de nossas memórias feridas, permite-nos viver o presente e caminhar para o futuro. O perdão reconhece na pessoa a sua condição humana, ou seja, o dom de começar de novo, o dom de iniciar algo novo apesar de todas as expectativas em contrário.

O amor-memória não falsifica ou repudia o que foi feito; não distorce os fatos passados; ele reinterpreta o passado a cada novo instante do presente, orientando-os segundo as perspectivas atuais da pessoa.

O caminho para a libertação, a conversão e a reconciliação conduz a uma nova identidade. Esta se achará e se experimentará ao contato com o Senhor Crucificado: que fiz? que faço? que farei por Cristo?

 Textos bíblicos:  1Sam. 15,16-31  Jer. 31,23-34   Num. 14,11-25   Jer. 33,1-13  

 Miq. 7,14-20

 Na oração: Seguros de que Deus nos acolhe e nos aceita, podemos deixar que aflorem pouco a pouco à superfície as verdades reprimidas de nossa existência e o arrependimento através do qual nossa vida consciente assume essas verdades. Por meio deste ato da graça, iremos nos reconciliando mais e mais com tudo o que é nosso.

SENTIMENTO DE CULPA X CONSCIÊNCIA DE CULPA na 1ª Semana dos EE

 

“Se estás disposto a enfrentar e suportar serenamente a dor de descobrir e encarar o

que te desgosta de ti mesmo, então serás um lugar agradável de acolhida

para o Senhor Jesus” (S. Teresa de Lisieux)

 um dos aspectos mais chamativos dos EE. é que a experiência toda é fundamentalmente um processo de iiinteriorização. Tal processo tem como finalidade um encontro amoroso com uma Pessoa que convida a ccrescer e sarar, a descobrir e ordenar, a escutar e seguir, a compadecer-se e perdoar, a  possibilitar o aadvento da esperança e da felicidade. No entanto, nesse processo de interiorização, cedo ou tarde o exercitante encontra-se com a culpa, a vergonha, a humilhação...

oo processo dos Exercícios normalmente ajuda a descobrir o amoroso e esperançador que sempre se pode encontrar no coração humano. No entanto, parece mais difícil lidar com a dimensão sombria de nosso ser, onde encontramos sentimentos como a vergonha e a culpa. Tais sentimentos normalmente se manifestam com mais intensidade e frequência durante a 1ª Semana dos EE.

             Trata-se de um processo que se realiza dentro da visão global da e da experiência cristãs.

             O exercitante está buscando ordenar sua vida à luz do amor e do convite que Deus lhe faz em J. Cristo.

             O pano de fundo que S. Inácio pôs para esta tarefa durante a 1ª Semana é a experiência da gratidão e da imensa misericórdia de Deus.

            A pessoa que faz os Exercícios, examina sua vida e suas opções, seu agir de cada dia e sua história pessoal, desde a perspectiva de alguém que nem sempre tornou realidade em seu viver, o amor e a misericórdia que Deus mesmo quis inspirar. Dito de outra maneira: quem faz os Exercícios, experimenta o mal e se sente frágil frente à luta que o bem e o mal travam em seu interior e ao seu redor. A constatação deste mal, o experimentar a própria falha e a responsabilidade que todos temos em não agir de acordo com nossos critérios e princípios, sem dúvida vai gerar “sentimentos de culpabilidade”.

Quê fazer?

- em 1º lugar, não confundir “sentimentos de culpa” com “consciência culpável”.

- sabemos que o sentimento de culpa pode ser paralizante, ameaçador, freio e obstáculo para o crescimento de

  uma pessoa; a pessoa, centrada no próprio eu, fica “ruminando” seus limites e fracassos, caindo no ddesespero  e não percebendo nenhuma saída para sua situação.

- a consciência de culpa faz a pessoa cair na conta do mal realizado; quem faz os Exercícios descobre e se faz consciente de que fez “algo” mau por alguma razão; constata o seu próprio apego ou “afeição desordenada”,  ou o mal em qualquer de suas formas, e assume a sua responsabilidade.

- a consciência de culpa, de modo especial, move a pessoa para a cura, a reparação; ao longo da experiência, com a ajuda da Graça e em constante discernimento, o exercitante poderá experimentar a contrição que leva à mudança, à busca de alternativas melhores de comportamentos e atitudes, a assumir modos de agir que tornem possível uma vida mais plena e amorosa. Só quando se toma consciência do dano feito é possível restaurar as condições que favoreçam logo um viver  mais feliz e pleno.

- a consciência de culpa ajuda também a ver quais são os valores que, verdadeiramente, são importantes. Para quem faz os Exercícios o “emendar-se” resulta em reconstruir-se. O processo inaciano conduz, de modo constante, para a recuperação da auto-imagem e do próprio sentido de uma identidade pessoal à luz do Evangelho.

  Inácio, com sua metodologia própria, sublinha a importância de situar a consciência de culpa e os sentimentos que a acompanham dentro de um mundo bom (EE. 60).

         Examinar com cuidado a origem e a finalidade dos sentimentos de culpa pode produzir um grande avanço no caminho da saúde interior e espiritual. Esclarecer, desmascarar a culpa, pode ser muito libertador, já que pode reinstaurar  uma “ordem” anterior ao mal e ao pecado, onde nossa consciência e nossa relação com Deus, com o mundo e com os outros, surge mais transparente e fortalecida.Um manejo sadio dos sentimentos de culpa costuma implicar uma atitude esperançosa e otimista do processo. S. Inácio não é alheio a este “otimismo espiritual” tão necessário para possibilitar a cura e a mudança. Afinal de contas, a experiência é para “tirar de si todas as afeições desordenadas”. As afeições são fonte constante de sentimentos de culpa em quem faz os Exercícios. Perceber as afeições ddesordenadas e lidar com elas durante a experiência dos Exercícios, tem um valor terapêutico. Os Exercícios ajudam também a pessoa a descobrir a bondade e a ordem espiritual que estão presentes nela; ela tem a oportunidade de descobrir que suas afeições atuais, as mesmas que geram sentimentos de culpa, apesar de tudo não obscurecem o que está “ordenado”  e é “luminoso”.

REMORSO X ARREPENDIMENTO

 

“Se soubéssemos o que a misericórdia de Deus fez por Judas Iscariotes,

provavelmente abusaríamos disso” (Pascal Ide)

 

O remorso é um lamento inútil e ineficaz, que consiste em desejar que a falta não tivesse acontecido e em

                   sofrer por causa da incapacidade de suprimi-la. Os que se roem de remorso ficam debilitados por um sentimento que os corrói e consome, por um tipo de angústia mórbida e doentia que os devora.

Depois, segue-se a auto-condenação em inúteis perguntas sobre a culpa, pois dentro do sentimento de culpa existe a rejeição do que quer que tenha sido feito e sua condenação pela nossa consciência.

Os sentimentos de culpa assumem formas mórbidas, chegando até mesmo ao prazer na dor moral que as pessoas preservam com cuidado, voltando constantemente a vivenciar toda a sua angústia.

 

A pessoa que sofre de remorso pode parecer amargurada, mas a amargura está disfarçada. De modo velado, ela procura dar a impressão de que Deus se compraz com esse sofrimento da consciência.

As pessoas cheias de remorso sentem-se mergulhadas no fracasso, aprisionadas em um mundo fechado do qual não conseguem escapar, imersas em confusão, discutindo consigo mesmas o tempo todo e fechando-se em si mesmas.

Assim, a vida das pessoas se imobiliza interiormente, porque experimentam não apenas seu passado, mas também seu futuro como passado, já que estão presas ao passado.

“Pois que é a vida senão constantes novas partidas e rejuvenescimento interior, um novo florescimento no poder da ressurreição eterna?”

Entretanto, os que estão arrasados pelo remorso são incapazes de tudo isso.

Suas asas parecem quebradas; é como se tivessem parado a vida real e se colocado fora dela.

Fazem do passado imutável um tempo rígido que para eles se eterniza.

Os que sentem remorso olham para si mesmos e, ao mesmo tempo, sentem que estão sendo olhados por outros e por Deus, e este olhar é, ao mesmo tempo, condenação, julgamento definitivo, inapelável.

Esse olhar intangível, anônimo e onipresente é como que a unificação de todos os olhares humanos, o olhar de todos os espaços, infiltrando no coração humano.

O remorso está no plano da Lei; a Lei é firme e rígida. Ora, enquanto estivermos presos à Lei, só seremos incentivados a ter um sentimento de mórbida culpa e remorso. A Lei é remorso infecundo.

 

Que é o arrependimento?

Também ele é o reconhecimento da culpa pessoal, mas, ao mesmo tempo, a ultrapassa e supera.

O arrependimento procura desviar-se do passado, olhando para a frente, olhando para o futuro.

O fato é uma realidade passada, mas não a ação que lhe deu origem. Ela permanece no fundo de nós e é por isso que podemos retomá-la, refazê-la, recriá-la. O ser humano é capaz de se “re-fazer repetidamente. Isso é boa nova, é esperança, é felicidade, é a “redenção do tempo”.

O significado do passado sempre depende do futuro. Assim, a questão não é saber o que o nosso passado é, mas saber o que desejamos fazer com ele. A história que temos de fazer livra-nos da história que fizemos, e o arrependimento livra-nos do determinismo do passado.

 

A Graça de Deus é proporcional ao abismo que o arrependimento abre em nós.

O que nos falta é a consciência de nossa culpa, a consciência de nosso pecado – consciência essa, entretanto, que não é desespero nem vão remorso, mas verdadeiro arrependimento.

Temos de ir até às raízes de nosso ser para redescobrir a fonte. No arrependimento há um segredo de juventude, um segredo de vida, um segredo de extraordinária inocência.

O arrependimento não teme chegar ao fundo de uma falta, às profundezas de nosso ser. Na verdadeira culpa, tomamos nossas faltas nas mãos, olhamo-las de frente, reconheçamo-las, aceitamo-las, assumimos a responsabilidade por elas, ao mesmo tempo que as repudiamos.

Nossa dignidade e grandeza máxima como seres humanos está no modo como assumimos a responsabilidade por nossas ações. A plena consciência de nossas faltas e o verdadeiro arrependimento ajudam-nos a chegar ao fundo das coisas, fazem-nos alcançar a origem e nos renovam.

A boa-nova recebida por nós é que tudo pode ser retomado, tudo pode ser recomeçado, tudo pode ser redimido, tudo pode ser recriado. O arrependimento está no plano da Graça e a Graça é futuro, é esperança, é renascimento, é a remissão dos pecados.

 

Textos bíblicos:    Rom. 6,12-23    Rom. 7,1-6

 

PEDIR A GRAÇA

 

 Uma vez preparado o tempo de oração e de ter fixado a imaginação numa “composição vendo o lugar”, pedirei a Deus quê graça desejo receber nesta oração:

    “pedir a Deus nosso Senhor o que quero e desejo” (EE. 48).

Quê pedir?

    Pedir o que quero e desejo”: não pedir qualquer coisa, mas ver seus desejos, estar atento ao que você quer, às suas verdadeiras necessidades”,  e dizer isso a Ele.

“O que quero e desejo”: não mendigar mas ser de verdade desde o começo da oração, alguém que sabe o que quer, que tem direito a “querer” algo para sua própria vida; ser alguém que deseja, que tem aspirações. Ao deixar que se expresse esta vontade do coração, peço ao Senhor a graça, porque é uma graça, não um direito nem fruto do meu esforço.

 

As GRAÇAS  podem ser diversas:

* De acôrdo com o “mistério sobre o qual medito ou o texto sobre o qual contemplo”: a  atitude de 

   um personagem, a cura descrita, ou uma palavra... podem suscitar uma petição a Deus de algo que necessito para viver mais evangelicamente (disponibilidade, luz, paz, conhecê-lo...)

* Também elas vão se clarificando “segundo nossas necessidades atuais, nossos estados de ânimo,

   nossa etapa espiritual”.

* Algumas vezes elas se referem a nós mesmos, outras vezes mais descentradas, gerais... talvez vão mu-

   dando ao longo da oração ou da semana; será interessante observar esta evolução dos desejos.

 

Por quê pedir?

+ Pedir é colocar-se em estado de receber: receber a Palavra, o Espírito, a Luz de Deus, manifestando assim que a oração me põe diante do Outro.

+ Estar assim diante de Deus em estado de desejo, é sair de nós mesmos e abandonar-nos à ação do Espírito que ora, fala e atua em nós. Na realidade, não pedimos a graça de Deus movidos por interesses pessoais, senão

   para “submeter-nos interiormente cada vez mais ao Senhor”, para estar mais a seu serviço e louvor.

+ Pedir é um ato de fé no Senhor e isto é um dom; é reconhecer que “tudo vem dele”, e não de nossos atos;

   é reconhecer que a oração mesma é um dom seu. É crer que Deus quer cumular-nos do melhor e dar-nos seu Espírito.

+ Pedir a Deus é aceitar nossa condição de criaturas. É atrever-nos a existir diante d’Ele, como alguém de pé que “quer” e que “deseja”, como Deus mesmo quer da pessoa, livre em seu existir diante d’Ele. 

   Se tenho desejos é porque sou um vivente, uma pessoa especial aos olhos de Deus.

+ Pedir me obriga a escolher entre meus desejos, e reconhecer humildemente aquele sobre o qual devo entrar em acordo com Deus. É pôr em ordem meus desejos diante de Deus, descobrir o que verdadeiramente existe em mim, e descentrar-me disso para ir até o Senhor que é sua fonte. Quando peço o que “quero e desejo”, não posso fazer armadilhas, nem comigo, nem com Deus.

+ O Espírito fará com que, pouco a pouco, minhas petições vão se evoluindo, fazendo-me descobrir o que verdadeiramente necessito e desejo. Minha petição se aproxima cada vez mais ao desejo de Deus em mim.

+ Na Escritura, Jesus mesmo solicita e respeita o desejo daqueles com quem se encontra; Ele mesmo pede às

   pessoas ou ao Pai. Ele espera que a pessoa se abra para  poder atuar nela (quê queres que eu faça por ti?”;

  “pede o que quiseres e te será concedido”; “quê quereis?”).

+ Quando peço, não o faço para informar a Deus, mas para conformar-me a Seu Desejo. Quando balbucio minhas petições, Ele me faz descobrir e participar naquilo que o Espírito suscita em mim. Faça-se tua Vontade.

+ Deus estabeleceu conosco uma Aliança, uma relação feita de desejos e petições recíprocas. Conta conosco.

   E para atuar com Ele, é conveniente experimentar que recebemos tudo d’Ele.

+ Como posso dizer que Deus nos escuta se não fazemos a experiência de pedir-lhe algo?  Recordemos o fariseu satisfeito de si mesmo e fechado, sob a aparência de ação de graças; só o publicano, esperando tudo de Deus, voltou para casa justificado e escutado.

+ Dentro de cada petição se esconde um louvor: é reconhecer que Ele me pode concedê-la. Não pedir nada a Deus é uma maneira de fazer-se seu igual (erroneamente, porque  Ele pede): vida  de  autônomo, uma maneira de “não ter nada a ver com Ele em minha vida”; em tudo isso vai se insinuando uma imagem falsa de Deus. A não ser que tenha medo de que Ele me conceda o que peço...

                   Pedir é entrar, como Jesus Cristo, numa relação recíproca dos desejos que se buscam e se escutam.

                   Não desejar nada é perder algo de minha humanidade.

+ Pedir o que se quer e desejar o que se pede”. É relativamente fácil “pedir o que se quer”; no entanto é decisivo desejar profundamente o que se pede, ou seja, pedir com um ânimo que não seja excitante, instável..

Quando nos Exercícios se diz “pedir o que quero e desejo”, não é uma oração piedosa ou algo que surge no momento. Quer levar o exercitante a um objetivo concreto e sabe que sem a ajuda de Deus é impossível. Sabe o fim e põe os meios: a oração e o exercício correspondente.

O processo dos Exercícios deve favorecer uma crescente identificação entre o “pedir o que quero” e o “desejar o que peço”. Lentamente, o desejo da graça que pedimos nos enrobustece, nos alarga e nos unifica por dentro.

Os Exercícios Espirituais são, portanto, substancialmente um caminho de progressiva unificação, para que o exercitante torne-se intimamente “uno”. Para que isso aconteça, é necessário que o coração vá progressivamente liberando-se da multiplicidade de “afeições desordenadas” e toda a pessoa (inteligência, coração, vontade, memória...) se transforme num único desejo.

Trata-se de uma sabedoria espiritual que diz que a atenção não pode atender a muitas coisas ao mesmo tempo, sob pena de se perder no meio delas e não obter nenhum fruto.

O fruto vem da atenção que se concentra não em muitas coisas, mas no essencial.

 

DA MISERICÓRDIA PARA A MISERICÓRDIA (I)

 

Traços da “experiência” da 1ª Semana:

 

* Experiência “fundante”; experiência de Páscoa. Por isso experiência de Salvação. A gratuidade do

   Amor de Deus atuando em mim revelando-se com tanto maior força quanto maior é a consciência de

   meu pecado.

* É uma experiência enviante”, radicalmente missionária: que devo fazer por Cristo(EE. 53). Aque-

   le que é tocado por ela, sente que não só é perdoado, que não só recebe um dom, senão que é trans-

   formado, aberto em dom.

* É uma experiência de ilustração da consciência, que capacita o exercitante a distinguir, valorar, ana--

   lisar...  Essa experiência oferece as primeiras bases de discernimento para toda opção.

   Esta iluminação”, pela qual nos faz parecer novas todas as coisas”, ajuda o exercitante a objetivar

   sua própria realidade pessoal, lhe devolve sua verdade, seu autêntico rosto.

           À luz da misericórdia e de meu mal, me vejo a mim mesmo como sou.   Aí enraíza o realismo,

           a humildade e essa irresistível confiança de quem tendo experimentado como Deus o considera

           digno de CONFIANÇA (lTim. 1,12), também ele sabe em quem ele colocou sua Fé (2Tim. 1,12).

* Torna-se  uma experiência personalizante”, na medida em que é interiorizada, passa a formar parte

   da própria personalidade como dimensão constituída da mesma. Ajuda a integrar o passado para cami-

   nhar com mais agilidade; aponta para uma plenitude, desperta dinamismos...

             A 1a Semana não é um ATO, um episódio. Desencadeia um processo; é uma nova dinâmica

             uma nova condição da pessoa, que se sente permanentemente (e no mais profundo de si mes-

             ma) destinatária privilegiada de uma infinita Misericórdia e incorpora à sua própria imagem es-

             ta consciência viva de regenerada”, “re-engendrada”, “re-nascida a todo momento; cons-

             tantemente re-construída”, com desejo de corresponder...

 

O PERDÃO QUE NOS RECRIA

                                                   No princípio era a Misericórdia. Por ela fomos criados. A Misericórdia é o Amor que vai além da justiça, e vir à vida foi fruto de Amor  em excesso, não um ato de justiça.

       Portanto, fomos criados por um gesto misericordioso,

                       fomos feitos por mãos misericordiosas,

                       idealizados por uma mente misericordiosa.

Se esta é a nossa origem, o perdão não é mais uma realidade ocasional, da qual temos necessidade de vez em quando. Não é algo que está ligado a cada transgressão que sabemos ter cometido.

    Nós somos seres perdoados. Se Deus não fosse misericordioso, não teríamos jamais existido;

                                                   e se essa Misericórdia existe desde o princípio do nosso viver, ela ainda

                                                   agora é fonte de vida, graça da qual temos continuamente necessidade e

                                                   e que constantemente está  agindo em nós para reconciliar-nos.

A Criação aparece então como um grande gesto de Misericórdia e nossa vida torna-se a história da fidelidade desse amor gratuito. Cada dia que passa é um perdão sempre novo, pessoal, criativo.

Mas também discreto e silencioso. Vivemos imersos na Misericórdia.

 

     A experiência do PERDÃO de Deus é a experiência do AMOR que RECRIA. PERDOAR É RE-CRIAR.

     PERDOAR é tornar presente a limitação do outro, para um AMOR novo. Deus não perdoa um ato, perdoa o ser huma-

     no que, naquele ato, se expressou com toda a sua responsabilidade e com todo o coração.

     Quem perdoa de verdade não esquece, mas assume de modo novo o passado, na memória do AMOR.

     É assim que faz Deus, perdoando-nos: não destrói  nosso passado, ainda que feito de infidelidades e misérias, mas o

      assume na paz de Seu coração, para que toda nossa vida fique reconciliada.                       

     Deus  re-cria-nos a cada instante. O PERDÃO faz com que Deus manifeste a plenitude de sua  paternidade e permite ao

     ser humano sentir-se filho d’Ele.

 

A experiência do próprio fato de ser pecador caminha paralelamente com a de ser filho: não se pode separar uma da outra. Somente um filho pode sofrer a dor de ter cometido uma falta contra seu pai.

                             Somente o pecador é que pode experimentar a alegria do abraço paterno reconciliador.

 Aqui estamos no coração da mensagem cristã, porque está em jogo uma imagem de Deus: é a imagem de um PAI cuja alegria é perdoar.

DA MISERICÓRDIA PARA A MISERICÓRDIA 

PERDÃO CRIADOR E REDENTOR 

Foi um ato de Misericórdia que nos deu vida; e é sempre ato criativo o perdão que recebemos continuamente de Deus em nossa vida.Tal experiência de Misericórdia gera em nós uma atitude correspondente de misericórdia.  Ao perdoar-

nos, Deus cria em nós um coração novo, feito de acôrdo com o seu, capaz de perdoar à Sua maneira.

É exatamente este o maior sinal da sua Misericórdia: ama-nos a ponto de enviar-nos ao mundo como

      instrumentos de sua reconciliação, pondo em nosso coração um Amor que vai além da justiça.

      Poder perdoar é dom de Deus; quem perdoa vive a experiência de ser amado pelo Pai; sua misericórdia é modelada pela Misericórdia divina. Jesus colocou no perdão fraterno uma das características do ser cristão.

Não perdoar é deixar-se aprisionar pelo passado, pelos antigos ressentimentos... é ceder a um outro o controle de si próprio (se alguém não perdoa, fica à mercê das iniciativas do outro, fechado na seqüência de ação e reação, de ódio e vingança, de dente por dente, olho por olho”, uma escalada no desespero).  Perdoar liberta quem perdoa.

 O PERDÃO é gesto gratuito, não ligado ao pedido do outro, nem mesmo ao seu arrependimento. Quem perdoa “antecipa” tudo isso; está disposto a dar o primeiro passo e não põe condições a quem o ofendeu, nem espera um reconhecimento eterno. Uma misericórdia superabundante, generosa... é gesto positivo de encontro, de acolhida, de cordialidade, é estar disponível a repetir o perdão até “setenta vezes sete”.

 O PERDÃO é gesto HUMILDE que não humilha, porque é discreto e silencioso. Dar o perdão não significa pôr o outro de joelhos para que reconheça as suas faltas; ele nasce de um coração “educado” pela Misericórdia divina e se manifesta externamente com uma atitude mansa e condescendente. Esse Amor é uma força poderosa, não se rende diante do mal, porque é sempre capaz de redescobrir o bem ou de salvar a intenção, de dar novamente a esperança...

 O PERDÃO é mais um ESTILO DE VIDA que um ato ligado a uma transgressão. É um modo de pôr-se diante do outro e de sua fraqueza, mas que não se realiza exclusivamente depois da queda; antes, pode às vezes impedir essa queda porque é um estilo de bondade, compreensão, magnanimidade,  estilo de quem não presta atenção ao que o outro merece nem se escandaliza com sua miséria. "Devemos perdoar como pecadores”,  não como “justos”.

 O PERDÃO é AMOR que vai além da justiça, se justifica e pode ser compreendido e posto em prática

                                                                              somente se contém e manifesta Amor. O perdão sem Amor é não-perdão. A pessoa misericordiosa salva e redime só enquanto ama: quer o bem do outro e se entristece com seu mal, sente o dever de fazer alguma coisa por ele. Trata-se da motivação mais nobre e verdadeira de sentir-se responsável pelo outro.

Seu perdão é fundamentalmente uma mensagem de estima e confiança no outro, crer na sua amabilidade. Quem perdoa está convencido de que o irmão é melhor que aquilo que aparentava.

Por isso o perdão não é simples compaixão, mas uma força que provoca a descoberta e a revelação da própria identidade. É aquela energia escondida nas palavras de Jesus:

           Vai e não peques mais”.  Força que cria aquilo que diz.

O pecador que perdoa compreende que o perdão é mais para ser compartilhado que para ser concedido: não é dar do próprio, mas haurir de um dom que vem do alto. Quem dá e quem recebe o perdão, ambos participam e partilham juntos da mesma reconciliação, com Deus e entre si.

 

“Ao perdoar, não esquecemos; lembramos de maneira diferente”.

Não esquecemos o que nos aconteceu.

“Apagar” parte de nossa memória é apagar parte de nossa identidade como pessoas. Mas podemos lem-

brá-lo de maneira diferente depois de experimentarmos a reconciliação e concedermos o perdão.

Lembramo-nos, agora, de uma maneira que não transmite rancor nem ressentimento pelo que foi feito.

Lembramo-nos, agora, a partir da perspectiva de Deus, por causa da graça da reconciliação.

A lembrança agora é construtiva.

Esse tipo de lembrança desenvolve a vida humana, em vez de sufocá-la em uma ira reprimida que não se extingue.

Não nos esquecemos, “lembramos de maneira diferente”.

O “esquecer” que fazemos ao perdoar é um triunfo sobre a ira e o ressentimento, é uma libertação dos emaranhados desses emoções e de sua capacidade de nos manter presos a um acontecimento. O ato libertador de perdoar, feito no devido tempo, livra-nos dessa servidão.

Nesse sentido de esquecer, então, “perdoamos e esquecemos” -  esquecemos porque já não estamos

presos ao passado por aquelas mesmas emoções negativas.

 NA ORAÇÃO: Deus “olha” o mundo com um olhar de Misericórdia e o salva.

                            O Crucificado é revelador de ambas as dimensões:  da profundidade transcendente do mal e da realidade vitoriosa da Misericórdia.

                            O “NÃO” mais brutal dos homens pôs na boca de Deus o “SIM” mais incompreensível.

                                       “Só Deus é capaz de AMAR a quem não é digno de ser amado”.

 

“Felix culpa”- Deus se serviu do mal para fazer o bem”. “Que é a pérola senão o resultado de um doença da ostra? Que é o fermento senão uma porção de massa estragada?”

A função positiva do mal é inerente ao mistério cristão; é descendo que nos elevamos; é pela nossa sombra que evoluímos; e é, muitas vezes, pelos nossos retrocessos que avançamos.

 

Textos bíblicos:  1) Eclo. l8,1-14  2) Sab. 11,21-26    3) Joel 2,12-18 

  4) Ne 9,5-37    5) Col. 3,12-17   6) Mt l8,15-35     7) 2Cor. 5,14-21

 

 

INSENSÍVEL À VOZ DO AMOR fa ruptura)


 

"O filho mais jovem disse ao pai: 'Pai, dá-me a parte da herança que me cabe'. E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, ajuntando todos os seus pertences, o filho mais jovem partiu para uma região longínqua,... "(Lc 15,12-13)

O que está acontecendo aqui é um fato inaudito, danoso, ofensivo, e em flagrante contradição aos hábitos mais respeitáveis da época. Ao exigir sua herança enquanto seu pai ainda vive mostra que a maneira do filho partir é equivalente a desejar a morte de seu pai.

As palavras do filho mais novo: "dá-me a parte da herança que me cabe", são a fenda mais dolorosa que um filho podia causar no pai, pois elas expressam a ruptura do convívio e da comunhão com ele.

Trata-se de uma rejeição cruel do lar no qual o filho nasceu e foi criado e uma ruptura com a mais preciosa tradição apoiada pela comunidade maior da qual ele faz parte. Cora a transferência imediata dos bens, o fi­lho mais novo toma-se autónomo, mas não tem mais nenhum direito; e ele é bern consciente disso.

Quando Lucas escreve "partiu para uma região longínqua" ele se refere a uma quebra drástica da

maneira de viver, pensar c agir que recebeu como um legado sagrado através das gerações, e uma traição

aos valores cultuados pela família e pela comunidade,

O "país distante" c o mundo no qual não se respeita o que em casa é considerado sagrado.

As conseqüências da ruptura com o pai serão a miséria extrema e a degradação máxi­ma. Quando atravessou o limiar da casa paterna e deu as costas ao pai, o filho estava partindo para a solidão, para a alienação, para a perdição.

Mas o pai não podia forçar o filho a permanecer em casa. Não podia impor o seu amor ao seu amado. Tinha que deixar que se fosse em liberdade embora sabendo a dor que isso causaria a ambos.

A decisão do filho faz o pai sofrer, mas ele sofre em silêncio, sem pronunciar uma única palavra de repreensão nem de queixa. O que iria acontecer no "país distante" era previsível: a ruína, a miséria e a solidão. Contudo, mesmo com o coração sangrando, o pai respeita a decisão tomada pelo filho e assume os riscos inerentes a este passo. Foi o próprio amor que impediu o pai de manter o filho em casa a qualquer preço. Ninguém, nem sequer um pai, pode "exigir", como se fosse um direito, ser amado. Foi ainda o amor que fez deixar o filho procurar o seu caminho, mesmo com o risco de perdê-lo. O amor é por definição livre e gratuito. Um amor imposto não é amor. O Deus que Jesus nos revela é o Deus da Vida e da Liberdade.

Porque é Pai, quer que seus filhos(as) o amem livremente. Ele nos oferece sempre o seu Amor, mas nós podemos acolhê-lo ou rejeitá-lo. Deus deseja, espera nosso amor, mas não o "exige".

Na oração; ''Deixar a casa" é negar a realidade de que pertenço a Deus com todo o meu ser, que

Deus me ampara num eterno abraço, que sou realmente moldado nas palmas das mãos de Deus e escondido nas suas sombras.

- "Deixar a casa" significa ignorar a verdade de que Deus me moldou "em segredo, tecido na terra mais profunda"'.

- "Deixar a casa" é viver como se eu ainda não possuísse um lar e precisasse procurar muito à distância onde não pode ser encontrado.

Somos filho pródigo toda vez que buscamos amor incondicional onde não pode ser encontrado. Por que continuamos a ignorar o lugar do amor verdadeiro e insistimos em buscá-lo noutra parte? Por que insistimos em sair de casa, quando aí somos chamados de filhos(as) de Deus? Aqui o mistério de nossa vida é revelado. Somos amados a tal  ponto que temos liberdade para abandonar a casa. A bênção existe desde o princípio. Deixamos o lar muitas vezes, mas o Pai está sempre nos buscando com braços estendidos para nos receber de volta e de novo sussurrar aos nossos ouvidos: "Tu és o meu amado, sobre ti ponho todo o meu carinho ".

Pedir a graça; - pedir, com insistência e confiadamente, a graça de conhecer o Amor sempre fiel e ilimitado, apaixonado e compassivo com que Dês ama a todos e a cada um dos seus filhos;

- pedir a graça de experimentar esse Amor de Deus por mim, a paixão com que me busca quando estou perdido;

- pedir a graça de corrigir as minhas imagens falsas ou distorcidas de Deus, imagens que não correspondem ao Deus Pai que nos foi revelado por Jesus Cristo,

 

A PERDA DA PRÓPRIA IDENTIDADE


 

"... e ali dissipou a sua. herança numa vida devassa. E gastou tudo.

Sobreveio àquela região uma grande fome, e ele começou a passar privações.

Foi, então, empregar-se com um dos homens daquela região que o mandou para os

seus campos cuidar dos porcos. Ele queria matar a fome com as bolotas que os

porcos comiam, mas ninguém lhas dava"(Lc. 15,13-16).

O que aconteceu com o filho no país distante? Vemos diante de nós um homem que se afundou numa terra estranha e perdeu tudo o que levou consigo. Vemos um vazio, humilhação c derrota. Ele, que era tão semelhante ao pai, deixou a casa paterna vestido de roupas finas, cheio de saúde, de dinheiro   e   de   auto-suficiência.   Volta   totalmente   espoliado:   sem   dinheiro,   honra,   amor   próprio, esfarrapado, faminto, sem dignidade... tudo havia sido dissipado.

Para os ouvintes da parábola o contraste não podia ser mais chocante: um jovem judeu, de boa família,

vê-se obrigado a vender o único bem que lhe resta - sua força de trabalho.

E o serviço que o patrão pagão lhe deu foi o mais vergonhoso e humilhante: cuidar de porcos. "Maldito seja o homem que cuida de porcos", afirma o Talmud.

Alimentar e fazer crescer o que há de mais imundo no inundo é a abominação máxima para um judeu.

Além de ser abominável, esse serviço torna impuro e marginaliza aquele que o faz.

Como conseqüência da opção do filho caçula temos a apostasia da própria religião, pois um judeu que

serve a um pagão rompe o vínculo com Deus.

A perdição do jovem é a encarnação de uma existência alienada e escravizada. Depois de romper a relação de comunhão e de intimidade com o pai, afastando-se dele, chegou ao fundo do abismo da degradação. Rembrand, no seu quadro, deixa pouca dúvida sobre sua condição. Sua cabeça está raspada, como a dos prisioneiros e dos escravos. Quando a cabeça de um homem é raspada ele é despojado de uni dos seus traços de sua personalidade; perde sua identidade.

As roupas com que Rembrandt o veste são roupas íntimas, esfarrapadas, que mal cobrem seu corpo extenuado. O pai e o homem alto que observa a cena usam amplos mantos carmim, que lhes confere status e dignidade. O filho ajoelhado não tem agasalho; é um homem pobre, muito pobre. As solas dos pés narram a história de uma jornada longa e penosa.

O pé esquerdo, por fora da sandália muito usada, está machucado.

O pé direito, calçado numa sandália arrebentada, também aponta para sofrimento e miséria.

Eis um homem despojado de tudo... a não ser de sua espada. O único sinal de dignidade que resta é a

pequena espada presa ao seu quadril - emblema de sua nobreza, símbolo de sua filiação.

O filho mais jovem só caiu na conta que estava perdido quando ninguém mais se interessava por ele. Só tomaram conhecimento de sua pessoa enquanto podia lhes ser útil.

Quando ninguém queria lhe dar o alimento que ele estava dando aos porcos, o filho mais jovem entendeu que não era ao menos considerado como um ser humano: valia menos que os porcos. Sentiu, então a profundeza de seu isolamento e a mais completa solidão que alguém pode sentir. Estava realmente perdido e foi essa noção de perda total que o chamou à realidade. Ficou em estado de choque, dando-se conta da absoluta loucura do seu comportamento, verificando, de repente, que estava a caminho da morte. Havia se desligado tanto daquilo que dá a vida — família, amigos, comunidade, relacionamentos e mesmo alimentação — que a morte seria naturalmente o próximo passo. Viu instantaneamente e com mudez o caminho que escolheu; compreendeu a sua opção pela morte; percebeu que um passo a mais naquela direção o levaria à autodestruição.

Na oração: na contemplação, poderíamos penetrar no mundo interior dos sentimentos do filho pródigo, na sua experiência de fracasso, de vazio e de solidão. Pedir a graça; - pedir a graça de experimentar a alienação e a destruição em que caímos quando nos afastamos de Deus, quando rompemos a comunhão com Ele; - pedir a graça de sentir no mais profundo de nós mesmos a saudade do Pai, do nosso único e verdadeiro Abba, do amor Infinito e apaixonado com que Ele nos ama.

Textos bíblicos:  Mc. 5,1-20     Mc. 2,1-12      Mc. 2,13-17     Lc. 7,36-50   Lc. 7,11-17

 

PERFEIÇÃO OU SANTIDADE?

“Cada qual esteja convencido de que tanto mais progredirá em todas as coisas

espirituais, quanto mais sair de seu amor próprio, querer e interesse” (EE. 189)

 Os cristãos parecem viver um interminável sentimento de culpa diante de Deus, sempre sentindo-se em dívida e conseqüentemente experimentando uma separação ou pelo menos uma distancia e frieza no relacionamento com Ele. O Pai de Jesus Cristo, revelado como infinita ternura, misericórdia, amor, proximidade para com os pecadores não é então percebido como PAI, mas como um juiz mal humorado, esquadrinhando nossa vida atrás de infidelidades, desobediências e fraquezas.

Em vez da intimidade, da proximidade e da alegria que Jesus manifesta no seu relacionamento com o Pai, nós sentimos medo de Deus e procuramos esconder-nos. As causas desses sentimentos e comportamentos dos cristãos podem ser procuradas em múltiplas direções:

             - no tipo de educação religiosa recebida, na psicologia pessoal mais ou menos propensa a sentimentos deculpa e de escrupulosidade, na experiência de se ter sido ou não amado com gratuidade, na experiência pessoal de Deus, nas múltiplas camadas teológicas e ideológicas que se foram superpondo, obscurecendo a experiência original do cristianismo e conseqüentemente a alegria cristã...

 

Um dos aspectos dessa problemática é a confusão que fazemos entre santidade e perfeição, em parte res-ponsável por essa distancia e frieza no relacionamento com Deus e por certo sentimento de culpa perma-nente que impede a intimidade da filiação e a alegria de vivermos como filhos(as) amados(as) gratuitamente pelo Pai.

A Perfeição

A perfeição, segundo o A.T., não é um atributo de Deus. Em nenhuma ocasião o AT chama Deus de “perfeito”.  Chama-o de Santo. Na mentalidade hebraica a perfeição é antes um atributo do ser humano expressando a idéia de “totalidade”, aplicando-se ao que é completo, intacto, àquilo que nada carece.

        A afirmação “Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito” (Mt. 5,48)  está ligado com o texto precedente pela partícula de conseqüência “portanto”.

        Ora, o texto imediatamente antecedente fala precisamente do Amor sem limites do Pai. Assim poderíamos concluir que o discípulo deve ser perfeito no Amor como o Pai celestial é perfeito no Amor.

Também é iluminador considerar a relação entre santidade, perfeição e pecado.

      Não há oposição radical entre santidade e pecado, podendo as duas realidades subsistirem simultaneamente na mesma pessoa ou no mesmo corpo social ( “Igreja santa e pecadora”).

      Pode-se ser simultaneamente santo e pecador.

      Se passamos à relação entre pecado e perfeição aí encontraremos essa incompatibilidade: não pode ser simultaneamente perfeito e pecador uma vez que o pecado é a imperfeição por excelência.

 

O conceito de perfeição forma-se ao longo da vida, é existencial e portanto vem marcado por cargas afetivas desde a primeira infância: os comportamentos corretos, perfeitos eram premiados, os imperfeitos eram punidos.

O conceito de perfeição foi-se formando em nós a partir de nossa educação, a partir de experiências integradoras ou traumatizantes, de sentimentos de culpabilidade e castigo ou de libertação e perdão. Normal-mente terminamos com um conceito de perfeição que se identifica no plano pessoal com não ter defeitos, não ter vícios, não ter traumas nem marcas psíquicas negativas, não ter nenhuma fraqueza, falha ou pecado.

        A busca de perfeição é um projeto do homem, um ideal humano. Trata-se de um projeto fechado dentro do próprio eu orgulhoso,

        que exige o máximo de si, o máximo de esforço para não falhar em ponto algum, uma  vez que o “perfeccionista” está convencido

        de que somente será amado por Deus e pelos outros se for perfeito. Nesse esforço ele tende a contar exclusivamente consigo

        mesmo, prescindindo de Deus e dos outros.

         A perfeição estaria no fim do caminho que traçamos para nós, do ideal que nos propusemos, ou então no topo de uma escada

        que decidimos subir com nosso esforço, eliminando vícios e adquirindo  virtudes numa busca tensa.

         A perfeição não suporta o pecado uma vez que o perfeccionista vê  o pecado não como uma ruptura   de laços de amor, não em

        relação a um outro, mas em relação ao próprio ideal. Esta verificação é sempre sentida como humilhação.

 

A perfeição, humilhada pelo pecado e pelas fraquezas, tende a fechar a pessoa sobre si mesma, e fechá-la para Deus e para os outros. O Amor desaparece.

O “perfeccionista” tende a voltar-se sobre si, tornando-se seu próprio juiz e auto-condenando-se. Após certo tempo de luta a vida pode tornar-se amargurada: amargurada consigo, com Deus, com os outros, com tudo.

A perfeição visa a própria pessoa; ela própria estabelece seus ideais e seus degraus, se mede e se compara, calcula e avalia. Suas quedas e falhas, visto que não tem um referencial fora de si, são amargas, estristecem,  levam ao desânimo e à auto-condenação.

A perfeição dialoga com um código de normas e de exigências, dialoga com a lei.

A perfeição não justifica nem salva o homem. É Jesus quem no-lo diz na parábola do fariseu e do publi-

                    cano que vão ao templo para rezar. O publicano capitula diante de Deus: reconhece seu pecado e sua condição de pecador, reconhece sua incapacidade de salvar-se a si mesmo, abre-se  para um Outro, abre-se para Deus de quem espera o perdão e a salvação. Esta humildade é a porta de abertura para sair de um mundo enclausurado em si mesmo, um mundo auto-suficiente e tenebroso, onde tudo gira em torno do próprio eu, onde não há lugar para o Outro e os outros, onde não há salvação possível.

 A Santidade

Em vez de optarmos pela perfeição, podemos optar pela santidade e santidade está relacionada com compaixão, com misericórdia, com amor, com esse convite que Deus nos faz:                          

                                               “Sede santos porque Eu sou Santo”.

Deus é AMOR e nisso consiste a santidade de Deus. Trata-se, pois, de abrir-se para o Amor, dentro  mesmo dessa realidade nossa de criaturas limitadas, frágeis, pecadoras...

                         Ora, essa capacidade de Amar nos é dada por Deus, é um dom de Deus.

A santidade, portanto, me é dada por Deus e me é dada agora, imediatamente:

              - Sou amado por Deus, sem condições, agora, com todas as minhas imperfeições, pecados, fraquezas, debilidades, limitações, traumas...

              - e esse Amor de Deus sem condições, me torna capaz de amar agora, de fazer o bem agora,

                de servir agora, de ser santo agora, apesar de minhas imperfeições e fraquezas.

              - A grande ilusão é pensar que só poderemos amar, servir, fazer o bem quando formos perfeitos. Somos santos agora e devemos amar agora,  embora sejamos também pecadores.

 

A santidade nunca é humilhada pelo pecado, porque a santidade é humilde. Somos humildes quando aceitamos ser pobres, frágeis, limitados, pecadores, mas amados na nossa pobreza e fragilidade.

A santidade é recusa de deixar-se fechar no próprio pecado, é a capacidade de ultrapassar as próprias condenações porque um Outro nos acolhe e nos ama apesar de nosso pecado.

                     A superação da auto-condenação está na entrega da vida a Deus, em saber-se amado como pecador porque pecadores seremos sempre até o fim da vida.

A santidade é a certeza de não podermos salvar-nos a nós mesmos e acolher, na ação de graças, uma salvação que nos é oferecida gratuitamente por Deus que nos ama.

A santidade nunca leva ao fechamento, antes abre-se para Deus acolhendo sempre o seu perdão e abre-se

                      para os outros no amor, no serviço e no dom. A santidade é a recusa de ser o seu próprio

                      juiz, deixando o juízo para Alguém que nos ama e vela por  nós com amor.

A santidade  liberta, é confiante, é alegre; leva-nos a passar da recusa e condenação de nós mesmos e dos outros para a descoberta de nós e dos outros.

     Se a perfeição era colocada em termos de uma subida laboriosa de uma escada, a santidade pode ser também representada por   esse símbolo da escada, somente que trata-se agora de uma descida progressiva a caminho de uma radical humildade: quem quiser ser o primeiro, seja o último,  o servidor de todos; quem se exalta será humilhado, quem se humilha será exaltado...

      Trata-se de um esvaziar-se progressivo de toda auto-suficiência e orgulho, de toda ambição, de prestígio e projeção, de poder e dominação... no seguimento de Cristo que esvaziou-se a si mesmo tomando  nossa condição humana”.

 O orgulho fecha o homem sobre si e o impede de amar, de ser santos. A humildade é o reconhecimento pacífico da própria condição de criatura pecadora e frágil, mas amada por Deus; é a porta para a santida-de, isto é, para poder amar os irmãos pecadores e frágeis como somos amados, embora pecadores e frágeis.

Contrariamente à perfeição que dialoga com um código, a santidade dialoga com Alguém, com o Pai, com Cristo, constituindo-se nesse lugar privilegiado de liberdade aberta ao sopro do Espírito.

O santo nunca se julga alguém infalível, antes é pobre e aceita ser fraco.

      Contrariamente ao perfeccionista que pensa só poder ser amado se for digno, o santo aceita ser amado na indignidade, acolhe um Amor que lhe é oferecido gratuitamente. Conseqüentemente não espera que os outros sejam dignos de seu amor para amá-los.

      Procura amá-los como Deus nos ama: é o amor gratuito que cria as condições de uma resposta.

Finalmente, santidade é um combate, um afrontamento. Não é no fim da vida que se chega à santidade. Ela deve aparecer em cada instante que passa, em cada pequeno ato de amor, de bondade, de compaixão, de abertura e acolhida do outro. Santidade não é um resultado que possa ser contabilizado; santidade é um caminhar.

 

DE PÉ COM AS MÃOS PRESAS (o filho mais velho)


 

"O filho mais velho estava no campo" (Lc. 15,25).

A caminhada do filho mais jovem não pode ser separada da de seu irmão mais velho.

A maneira como ele se posiciona olhando para o gesto acolhedor do pai não deixa dúvida sobre quem

Rembrandt quer retratar. Podemos perceber neste observador distante e severo tudo o que Jesus nos diz sobre o filho mais velho.

Entretanto, a parábola deixa claro que o filho mais velho ainda não está em casa quando o pai abraça seu filho perdido e lhe mostra a compaixão.

lista aparente discrepância entre a pintura e a parábola se explica pela tradição visual c iconográfica do tempo de Rembrandt, onde a parábola do fariseu e do publicano e a parábola do filho pródigo estavam intimamente ligadas.

O homem sentado batendo no peito e olhando para o filho que volta é um servo representando os

pecadores e cobradores de impostos, enquanto o homem de pé olhando para o pai de maneira enigmática e o filho mais velho representando os escribas e fariseus.

A volta do filho pródigo é uma obra que resume a grande luta espiritual e as grandes escolhas que essa luta exige. Pintando não somente o filho mais jovem nos braços de seu pai, mas também o filho mais velho que pode aceitar ou não o amor que lhe é oferecido, Rembrandt nos apresenta o "drama interior do ser humano".

Assim como a parábola do filho pródigo encerra o cerne da mensagem do Evangelho e chama os que a ouvem para que façam suas próprias escolhas diante dela, da mesma forma a pintura de Rembrandt encerra sua própria luta espiritual e convida os que a contemplam para que tomem, unia decisão pessoal sobre suas vidas.

R verdade que a volta é o principal acontecimento da pintura; entretanto, ela não está situada no centro da tela. Ocorre do lado esquerdo da pintura, enquanto do lado direito predomina a figura austera do filho mais velho.

O principal espectador, observando o pai abraçando o filho que volta, parece muito afastado. Ele olha para o pai mas sem alegria. Ele não se aproxima, não sorri, não acolhe e nem expressa boas-vindas. Ele simplesmente fica lá, ao lado do estrado, aparentemente não querendo sobressair. Há um espaço grande separando o pai do filho mais velho, um espaço que cria unia tensão que precisa ser resolvida,

- Quê pensamentos e. quê sentimentos passam pela sua cabeça e. pelo seu coração?

- O que irá ele fazer? Chegará mais perto e abraçará seu irmão como fez seu pai,

ou irá embora com raiva e inveja?

Também ele precisa abraçar o irmão e ser abraçado pelo pai; também ele precisa ser curado pelo amor e pelo perdão do pai.

No quadro de Rembrandt o pai e o filho mais velho são muito parecidos: os dois tem uma longa barba, ambos estão vestidos com roupas finas e cobertos com um manto vermelho.

Mas as posturas, as atitudes e as condutas são totalmente opostas.

O pai correu ao encontro do filho que estava perdido e, agora, está inclinado sobre ele, abraçando-o; o filho mais velho fica voluntariamente afastado de ambos, num nível mais alto, corn os lábios apertados, de pé, rígido, postura realçada pelo bastão reto que segura nas mãos e que chega até o chão. As mãos do pai estão estendidas, apertando suavemente contra o peito e abençoando o filho que voltou; as do filho mais velho estão presas uma na outra diante do peito, sem nenhum gesto de abertura, de acolhi­da, de reconciliação.

A luz que sai do rosto do pai irradia o corpo todo do filho mais novo. Ela ilumina também o rosto do filho mais velho, mas só parcialmente; não é unia luz ampla e quente, mas estreita e fria. Sua figura permanece no escuro e suas mãos entrelaçadas continuam nas sombras. A capa do pai é larga e acolhedora; a do filho mais velho cai rente ao corpo.

Texto bíblico:    Lc 18,9-14

Pedir a graça: pedir a graça de descobrir em que medida os sentimentos e atitudes do filho mais velho estão presentes em mim, escravizando-me e fazendo-me infeliz.

 

 

PERDIDO EM RESSENTIMENTOS         ;      -

"Então ele ficou com. muita raiva, e não queria entrar. Seu pai saiu para suplicar-lhe. Ele, porém, respondeu ao pai: 'Há. tantos anos que eu te sirvo, e jamais transgredi um só dos teus mandamentos, e nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos. Contudo, veio este teu filho, que devorou teus bens com prostitutas, e para ele matas o novilho cevado" (Lc 15,28-30).

Externamente, o filho mais velho fez todas as coisas que um bom filho eleve fazer, mas, no íntimo, se afastou bastante do seu pai. Ele cumpriu o seu dever, trabalhou dure.) todos os dias e deu conta de suas obrigações, mas se tornou mais e mais infeliz, amargo e raivoso.

O texto evangélico descreve de maneira pormenorizada e enfática seus sentimentos, atitudes, reações e

palavras. Todo seu comportamento expressa, de maneira intransigente e radical, a não aceitação da conduta do pai com relação ao filho mais novo,

O que deveria ser também para ele um motivo de alegria é sentido como ameaça à própria segurança.

Fechado em si mesmo, só olha para si, para suas obras, para sua observância dos preceitos;

encouraçado na própria justiça, não há nele a mais mínima abertura para a gratuidade e a alegria da comunhão, para a vivência da filiação e da fraternidade.

Na sua queixa, obediência e dever se tomaram um peso e o trabalho, uma escravidão. Permaneceu em casa e não se afastou, mas não viveu uma vida com liberdade na casa de seu pai.

Sua raiva e inveja mostram-nos sua própria sujeição.

Quando ouvimos as palavras com as quais o filho mais velho agride seu pai - justificando-se e pedindo reconhecimento - percebemos uma queixa mais profunda. É a que vem do coração que acha que nunca recebeu o que lhe era devido.

É a queixa expressa de inúmeras maneiras, sutis ou não, formando uma montanha de ressentimento.

Queixar-se é contraproducente e nocivo. Alguém que reclama é alguém difícil de conviver e poucas pessoas sabem corno

responder às queixas feitas por alguém que se rejeita. O trágico é que, uma vez expressa, a lamúria leva ao que mais se

queria evitar: um afastamento maior.

Essa queixa íntima é sombria e pesada. Condenação dos outros, condenação própria, justificativas... entrando numa espiral de auto-rejeição.

À medida que se deixa arrastar ao interior do vasto labirinto das suas queixas, fica mais e mais perdido, até que, no fim, acaba achando-se a pessoa mais incompreendida, rejeitada, negligenciada e desprezada do mundo.

É esta derrota — caracterizada por julgamento e condenação, raiva e ressentimento, amargura e ciúme — que é tão perniciosa e prejudicial ao coração humano.

O erro do filho unais jovem é facilmente reconhecível Há algo claramente definido a respeito de sua má conduta. Temos aqui uma falha humana clássica, com uma decisão acertada (deu a volta e pediu perdão).

O pecado do filho mais velho, entretanto, é mais difícil de identificar.

Afinal de contas, ele fez tudo o que devia. Foi obediente, cumpridor de suas obrigações, respeitador das leis e trabalhador.

As pessoas o respeitavam, admiravam-no, elogiavam-no e consideravam-no um filho modelo.

Mas quando se defronta com a alegria do pai pelo filho que volta, surge uma onda de tevolta que explode, chegando à superfície. De repente, aparece aqui, nitidamente visível, uma pessoa ressentida, orgulhosa, má, egoísta. Revela-se nele uma seriedade, uma intensidade moral e até um pouco de fanatismo, que fizera com que fosse mais e mais difícil se sentir à vontade na casa de seu pai. Tornou-se menos livre, menos espontâneo e um tanto "pesado".

Na oração: - é na "queixa" declarada ou não que reconheço o filho mais velho em rnim. Quais são minhas queixas?

- é mais assustador ter de me curar como o filho mais velho do que corno o filho mais moço; como posso voltar se estou perdido em ressentimento, apanhado em cenas de ciúme, prisioneiro da obediência e do dever que escraviza? - não é fácil distinguir o roeu ressentimento e administrá-lo de maneira sensata; esta e a realidade: onde quer que se encontre meu lado virtuoso, aí também existirá sempre um lado queixoso e ressentido,   ;

Texto bíblico;     Mt 2O,1-16   "

 

UM PAI FESTEIRO


 

 


 

**O pai disse aos servos: 'Ide depressa, trazei a melhor túnica e revesti-o com ela,

ponde-lhe um anel no dedo e sandália nos pés. Trazei o novilho cevado e matai-o;

comamos e festejemos, pois este meu filho estava morto e tornou a viver; estava

perdido e foi reencontrado!' E começaram a festejar" (Lc 15,22-24).

A volta do filho perdido provoca uma "explosão de alegria".

A alegria do pai era tão intensa que ele não poderia esperar para dar início à comemoração. O pai convida a todos a comer, beber e dançar. As ordens aos empregados são dadas em voz alta para que todos fiquem sabendo da festa, para que a alegria do pai seja conhecida e partilhada por todos. Uma grande festa tem início, mas não tem fim.

Não somente o pai perdoa sem fazer perguntas e alegremente acolhe seu filho perdido de volta à casa, mas não pode esperar para lhe dar vida nova, vida em abundância.

Tão fortemente o pai deseja dar vida a seu filho mais novo que parece quase impaciente. Nada é suficientemente bom. O melhor precisa lhe ser dado.

O pai ordena que o filho seja imediatamente vestido com a túnica luxuosa, como a que é usada nos dias

de festa pêlos hóspedes ilustres. O filho recupera sua identidade e sua dignidade de filho.

O pai lhe dá o anel para o dedo para honrá-lo como seu filho amado e novamente devolver-lhe a condição

de herdeiro e a plenitude de seus direitos.

Com as sandálias, é devolvida ao filho a condição do homem livre e de senhor da casa.

Dar sandálias significa a restituição do poder de propriedade sobre tudo o que o pai tem.

O pai veste o filho com todos os sinais de liberdade. A palavra "depressa"com a qual o pai exorta seus criados denota muito mais do que impaciência humana; o serviço deve ser executado sem demora, pois o filho não pode ficar por mais tempo privado de sua dignidade. O AMOR do pai é um amor paciente, que sabe esperar: e é. ao mesmo tempo, um amor inquieto, apressado, que corre ao encontro do filho para devolver-lhe a filiação perdida. Por isso ordena aos servos que sejam eliminados imediatamente todos os sinais da degradação e da escravidão do filho e todos os sinais dos sofrimentos e das humilhações que sofreu.

É significativo também que as ordens sejam dadas pelo pai publicamente. Todos devem ficar sabendo que o filho não só foi perdoado, mas foi investido de novo da sua dignidade de filho, com todos os seus direitos e poderes. Não há dúvida de que o pai deseja uma festa suntuosa.

Matar o novilho que havia sido cevado para uma ocasião especial mostra o quanto o pai desejava retirar

todos os impedimentos e oferecer ao filho uma celebração como nunca antes tinha havido.

É óbvia sua esfuziante alegria. Há abundância de comida, músicas e danças, e os ruídos alegres de um festejo poder ser ouvidos bem longe de casa.

Essa é a descrição dê Deus cuja bondade, generosidade, amor, alegria e compaixão não tem limites. Um Deus novo, desconcertante e escandaloso. O amor de Deus por nós faz-lhe perder sua soberania e compostura e sair corren­do ao nosso encontro para abraçar-nos na nossa humanidade ferida e profanada, para devolver-nos a filiação e a dignidade.

A festa faz parte do Reino de Deus. Deus não só oferece perdão, reconciliação e cura, como deseja que aqueles a quem esses dons são concedidos os recebam como uma fonte de alegria. Esse convite para uma refeição é um convite para uma intimidade com Deus.

"Alegrai-vos comigo". Deus não deseja guardar para si mesmo sua alegria. Deseja que todos dela participem. A alegria de Deus é a dos anjos e dos santos; é a alegria de todos os que pertencem ao Reino.

Na oração; - aprender de Deus a me "apoderar"de toda e verdadeira alegria;

- sou tentado a ficar tão impressionado pela tristeza da condição humana que não reco­nheço mais a alegria que se manifesta de diversas maneiras, singelas, mas verdadeiras;

- a recompensa por escolher a alegria é a alegria mesmo;

- quando sou capaz de encontrar a alegria escondida no meio de todo sofrimento, a vida se transforma em celebração.

- a alegria nunca anula a tristeza, mas transforma-a num solo fértil para maior alegria.

Textos bíblicos;  Zac. 3,1-10

 

DEUS: PAI E MAE "... encheu-se de compaixão, correu e lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos".

O verdadeiro alvo da pintura de Rembrandt são as mãos do pai.

Um dado de uma extraordinária riqueza simbólica e teológica da obra é que as mãos com que o pai acolhe

e abraça o filho são diferentes uma da outra.

Nelas se concentra toda a luminosidade, a elas se dirigem os olhares dos que estão próximos; nelas a misericórdia se personifica; nelas se unem perdão, reconciliação e cura e, através delas, não somente o filho cansado, mas também o pai abatido., encontra repouso.

A mão esquerda do pai tocando o ombro do filho é forte, larga, viril, musculosa. Os dedos estão bem abertos e cobrem o ombro direito e parte das costas do filho. Podemos sentir uma leve pressão, sobretudo do dedo polegar. A mão não parece somente tocar, mas, com sua força, também sustentar. Sem deixar de expressar ternura e delicadeza na maneira com que o pai toca o filho, sua mão esquerda protege e fortalece, dá segurança e oferece comunhão.

A mão direita do pai não segura ou agarra; ela apoia-se sobre o lado esquerdo das costas do filho;

é delicada, macia e muito meiga. Os dedos, alongados e finos, estão juntos e tem uma certa elegância. Trata-se de uma mão suave, feminina, mão que quer acariciar, afagar e oferecer consolo e conforto. E a mão de uma mãe.

O pai não é somente um grande patriarca. Ele é igualmente pai e mãe.

Ele toca o filho com uma mão masculina e uma feminina. Ele segura, ela acaricia.

Ele confirma, ela consola. Ele é, certamente, Deus em quem o masculino e o feminino, a paternidade e a

maternidade estão totalmente presentes.

Ao contemplar o velho patriarca passamos a ver não só um pai que aperta seu filho nos braços, mas

também uma mãe que acaricia seu filho, envolve-o com o calor do seu corpo e segura-o contra o ventre

do qual ele saiu. Assim, a "volta do olho pródigo" se torna a volta ao seio de Deus, o retomo às origens

do ser e novamente faz ecoar a exortação de Jesus a Nicodemos para renascer do alto.

Aquela mão direita carinhosa faz ecoar as palavras do profeta Isaías:

"Por acaso uma mulher se esquecerá da sua criancinha de peito? Não se compadecerá ela do filho do seu ventre? Ainda que as mulheres se esqueçam eu não me esquecerei de ti. Eís que te gravei nas palmas das das minhas mãos" (Is.49,15-16).

A mão do pai acariciante e feminina está em paralelo com o pé ferido e descalço do filho, enquanto a mão forte masculina corresponde ao pé calçado na sandália.

Não seria demais pensar que uma das mãos protege o filho no seu aspecto vulnerável, enquanto a outra reforça o seu vigor e, aspiração de ir adiante na vida.

Outro símbolo da acolhida e da proteção que Deus oferece a todos os seus filhos e filhas é o grande

manto vermelho, sobre os ombros e as costas do pai. Com sua cor quente e sua forma de arco, oferece

um lugar de abrigo onde encontramos segurança e aconchego.

O manto cobrindo o corpo curvado do pai parece-nos uma tenda convidando o viajante cansado a

encontrar algum repouso.

Além disso, outra imagem, mais forte do que a da tenda, vem à mente: as asas protetoras do pássaro

fêmea. Exprimem cuidado, proteção, um lugar para repousar e se sentir a salvo.

"Jerusalém, Jerusalém... quantos vezes eu quis ajuntar os teus filhos, como a galinha recolhe os seus pintinhos debaixo das

suas asas, e não o quiseste". (Mt 23,37-37)

Na oração: As mãos de Deus desde sempre me sustentaram, me acolheram, me alimentaram, protegeram-me nos momentos de perigo e me consola­ram nas horas de dor. Essas são as mãos de Deus. São também as mãos de meus pais, professores, amigos... e de todos aqueles que Deus colocou no meu caminho.

Pedir a graça: pedir a graça de sentir a ternura e o carinho, a força e a prote­ção, o consolo e a cura das mãos benditas de nosso Deus pou­sadas sobre nossos ombros cansados e que nos apertam contra seu coração.

 

AFEIÇÕES DESORDENADAS

Anotação l "(EË. 1) - Objetivo priniordiai dos Exercícios.

Para S. Inácio, parece ser de uma evidência fundamental que os Exercícios

devessem começar por vencer a desordem na afetívidade. Trata-se, em primeiro lugar, de um trabalho na- ordem dos afetos, ou seja, remover os afetos para "ordená-los" segundo uma concepção do ser humano que é a que se encontra no Princípio e Fundamento.

É um "trabalho" que consiste em retirar as "cargas afetivas" daqueles objetos nos quais se tinham investido anteriormente e iniciar ("buscar*') um processo de novo investimento e encontrar ("achar") um novo objeto (a Vontade Divina).

"Seis homens que caminhavam em busca de novas terras depararam-se com um rio caudaloso que lhes impedia avançar em seu caminho. Construíram um barco, prepararam os remos e entraram nele. Remaram juntos, e assim chegaram à outra margem. Desembarcaram para prosseguir o seu caminho, mas como o barco havia sido muito útil, carregaram-no sobre os ombros e seguiram assim penosamente sua peregrinação pela terra seca".

Levamos "cargas" como essas em nosso interior, e são justamente elas que dificultam nossa caminhada pela vida. Se soubemos construir um barco quando foi preciso, também saberemos construir outro caso volte a se apresentar a situação; enquanto isso é melhor desfazer-nos de cargas incomodas para andar com maior desenvoltura e alegria pela vida. O medo de perder "algo"ï\o futuro atrapalha viver intensamente o presente. Quantos "pesos mortos" arrastamos em nossa vida, com recordações, lembranças, apegos, afetos desordenados...!

O desejo de possuir confunde nossa vida. E já não se trata mais de uma lição moral sobre o vício ou a virtude, mas do impacto psicológico que produz em nosso comportamento o fato de nos sentirmos apegados a algo ou a alguém, com a conseqüente perda de liberdade e o perigo da dependência que esse apego causa. Tudo isso interrompe o "fluxo" da vida.

É necessário introduzir um princípio "ordenador" que presida todo o desenvolvimento, até que a "afeição" 'se converta em identificação existencial com Cristo.

Esse novo objeto deve ter uma repercussão decisiva na configuração da vida ("na disposição de sua vida"). Isto é, está chamado a modificar profundamente o mundo de valores, pensamentos,, conduta da^ pessoa.

.É necessário., antes de avançar nos Exercícios, detectar os condicionamentos a Fe ti vos que de fato limitam a liberdade da pessoa e que, podem fazê-la errar na sua opção de vida.

S. Inácio sabe que nossas circunstâncias de vida, por um lado, e nossa dinâmica afetiva, por outro, acrescentam alguns condicionamentos que continuamente põem em perigo nossa liberdade.

O que está em jogo nos Exercícios é chegar a conhecer-se profundamente encontrando a raiz do

próprio ser nos afetos desordenados.

Esse conhecimento interior, profundo, é condição indispensável para poder dispor de si, em maturidade

de liberdade. Sem vencer os afetos desordenados o ser humano não se possui, não é verdadeiramente

livre. A "desordem" nos afetos produz em nossa liberdade uma essencial falsificação: rios faz tomar

como absolutos o que são coisas relativas.

Só vencendo os afetos desordenados a pessoa se situa diante de Deus reconhecendo-O corno Absoluto.

É importante tomar consciência dos afetos desordenados.

E importante analisar todo esse mundo de sentimentos que aproximam ou separam as pessoas.

Quantas projeçõesl... Quantas transferências!... Às vezes, parece vivermos à mercê dos ventos dos nossos sentimentos!... Por quê você se dedica a tal pastoral?... O que você procura?.. Qual a compensa­ção afetiva que espera?... Qual sua "agenda oculta"? O que espera "ganhar ou perder"? Suas decisões são tomadas a partir de que parâmetros: prazer? compensação? Vontade de Deus?...

Viver o Projeto de Deus não é fácil. Recordemos o filme: "Aliens: o oitavp passageiro". E uma história de astronautas que vão resgatar companheiros num outro planeta. Quando chegam lá, não encontram nada... Mas essa expedição carrega um radar; este detecta vida humana e eles caminham em direção a ela. Encontram seus companheiros de pé, encostados nas paredes, com muitas teias de aranha... parecem semi­mortos. Mas eles vivem... Aproximando-se, percebem no peito de cada um deles, um movimento forte e estranho como o palpitar lento de urn coração.

 Um astronauta se aproxima e toca com o dedo o peito latejante de um daqueles adormecidos...

Quando o toca, um bicho "tipo tíú", sai do peito do homem arrebentando-o, matando-o...

São "monstros hospedeiros"disseram...

Os afeitos desordenados são como esses "hospedeiros" que um dia entram na nossa vida, vão crescendo lentamente, alimentando-nos de nós mesmos, nos paralisam como em teias de aranha... e depois, num certo dia, saem, arrebentando a nossa vida.

Toda a dinâmica dos Exercícios, portanto, vai estar encaminhada a detectar quais são esses hospedeiros, esses condicionamentos, essas fixações afetivas, que são julgadas como "desordenadas" e que, como tais, supõem um impedimento para nossa capacidade de escolha.

Ninguém tira seus "afetos desordenados "se não aparece no horizonte um objeto de amor que totalize a busca da pessoa.

E: necessário ter um importante objeto de amor para abandonar os antigos amores.

Também esse mundo afetivo da pessoa não se mobiliza por meio de puras ideias nem de pensamentos fecundos. Se essas ideias e pensamentos não se impregnam de afeio, não mudam nada.

O que modifica a pessoa para o bem é a mobilização da sensibilidade, das zonas afetivas profundas.

"Ordenar a vida... tirando as afeições desordenadas": não se trata de matar as "afeições",

mas de mudá-las, de substituí-las.

S. Inácio não tem uma visão negativa da afetividade. Não pretende arrancá-la para chegar a uma espécie de fria impassividade.

Em resumo, trata-se de ordenar o AMOR. Não que não amemos, mas que "amemos bem com um amor operativo", que desemboca em história, em acontecimento, ern obra.

A purificação dos "afetos desordenados" é o processo pelo qual o exercitante cria, em si, um novo referencial, um novo centro afetivo, uma nova matriz mental, volitiva e afetiva.

De fato, o exercitante que se entrega na gratuidade à ação do Espírito Santo, vive, simultaneamente, um processo de libertação e de transformação psico-espiritual.

 

DO DEUS INFANTIL DA CULPA AO DEUS COMPASSIVO DE JESUS

 Foi afirmado que a “glória de Deus” não necessita do homem, como também a “glória do homem” não necessita de Deus para existir.

A partir do momento em que Deus se faz “necessário”, Ele se converte num objeto de consumo, e daí, portanto, num objeto de destruição. O Deus necessário, o Deus evidente e óbvio é um Deus confundido com suas “mediações”, assim como o bebê confunde sua mãe com o seio que o alimenta.

 O Deus que brota não da “necessidade”, mas do “desejo”,  não se deixa prender em nenhum tempo, em nenhum templo, não se deixa limitar por nenhum tipo de saber, nem monopolizar por nenhuma religião. Esse Deus é um dom que desperta “louvor, reverência e serviço” e que não se deixa possuir nem manipular por capricho algum

O “Deus infantil” deve ser evangelizado pelo “Deus de Jesus”.

Toda pedagogia da  fé cristã deve passar, pois, pelo abandono do egocentrismo religioso, que converte Deus num mero aliado do próprio “querer e interesse”.

O Deus de Jesus é um “Deus diferente”; um Deus que coloca radicalmente em questão as idéias que “espontânea e naturalmente” tendemos a construir sobre Ele, ou seja, um Deus construído à medida dos temores e inseguranças de nossa infância.

O Deus-Pai de quem nos falou Jesus se manifesta como permanente surpresa, pois Ele desbarata e desmonta os esquemas mais comuns e universais que elaboramos sobre Sua identidade.

A conduta e as palavras de Jesus nos falam de um “Deus frágil”, porque Deus aparece essencialmente como amor, e o amor é frágil quando é rejeitado em sua oferta.

 Para alcançar o Deus do Evangelho, uma radical e profunda “re-conversão” se torna necessária.

Distinguir o Deus que surge das carências e necessidades mais profundas e primitivas de nosso mundo afetivo do Deus que nos é revelado através das palavras e ações de Jesus de Nazaré, constitui uma experiência única por suas repercussões decisivas em nossa vida pessoal e comunitária da fé.

O “Deus infantil” é um Deus “providência-mágica” que está ali primordialmente para gratificar e tornar suportável a dureza da vida. É um aliado do eu.

Entretanto, o “Deus de Jesus” é Aquele que nos des-centra e nos lança à realidade, com toda a dureza que esta pode nos apresentar em muitos momentos de nossa existência; em lugar de solucionar os problemas, Ele prefere nos dinamizar para que nós mesmos trabalhemos na busca de soluções.

 O “Deus de Jesus” não veio para nos dar explicação cabal às grandes questões existenciais e a cada um dos problemas e incógnitas que a vida nos coloca. A vida, o mal, a morte, o sofrimento dos inocentes, o sentido do futuro humano, etc... permanecem como incógnitas, de certo modo escandalosas, para as quais o crente não possui respostas pelo simples fato de crer.

Neste sentido, ele não está em situação privilegiada em relação aos que não crêem.

Somente o diferencia a esperança de saber-se e sentir-se acompanhado por Deus; Na perspectiva inaciana, o cristão é uma pessoa normal e igual a todo mundo, mas que tem um olhar diferente – olhar contemplativo – capaz de perceber o “mistério” e o “sentido” de todas as coisas e de todos os acontecimentos.

 

O “Deus infantil” é um Deus de proibições, ameaças, castigos e perpétua vigilância sobre nossos atos e intenções. É o Deus do tabu ante o qual se desenvolve uma intensa ambivalência afetiva, porque diante dele “desejar” equivale a pecar.

O Deus do tabu é um Deus construído à medida do nosso temor. É a fé imatura e infantil que injeta no nosso interior o carcoma da culpa, da dúvida, do remorso...

“Quanta ‘carne humana’ foi sacrificada nos altares da religião!”

O recalcamento das pulsões vitais, a repressão, o moralismo... apelaram muitas vezes à aprovação de Deus para serem exercidas. Com isso se pretendeu que Ele exilasse e renegasse aquilo que criou e animou com sua Presença e seu Espírito.

Procuramos negar o Deus que “vegeta” nas plantas, que “sente” no animais e que “entende” nos seres humanos, e que se encontra “em mim dando-me o ser, animando, sentindo e fazendo-me entender” (EE. 235). Não excluiu sua presença de nenhuma parte nossa. A nós somente corresponde perceber a pureza e a beleza que se encontra em cada uma das partes de nós mesmos.

Ao “Deus do Evangelho” lhe preocupam mais as realidade de outra ordem, tais como a injustiça, a avareza, a exclusão, uma religião legalista e opressora...

Fazer a experiência de sentir-se fundamentado e acolhido na grandeza de Deus-Pai, significa que sua Presença integra os diversos dinamismos da vida, impulsiona cada um para o crescimento, é fonte de alegria para viver, desperta o interesse por tudo aquilo que nos cerca.

Tudo isso é experimentado e acolhido como dom; sem arrogância, sem cobrança e tampouco sem culpa, para que seja uma experiência que possa ser gozosamente compartilhada por todos.

 Textos bíblicosJoel 2,12-18   Eclo. 17,20-28   Os. 6,1-6    2Cor. 5,17-21

 Na oração:  “Se Deus é puro amor a esbanjar-se na criatividade, Ele se faz misericórdia sem fronteiras que nos destina à abertura de coração para acolher os não amados” (F. Cláudio V. Balen)

PERDÃO: AMOR QUE RECONSTRÓI O PASSADO

“O perdão não modifica o passado mas expande o futuro” (Paul Boese)

O passado carrega lembranças de fatos e experiências negativas: culpas, traumas, desilusões, limites,  pecados, rejeições, fracassos, erros...

Tudo isso pesa na memória e continua influenciando negativamente o presente. Nestes casos, o amor é memória que não deve apenas recordar e registrar o passado, mas também reconstruí-lo.

O passado de cada pessoa não pode ser considerado como um destino, como algo que aconteceu e terá  uma fatal continuação, sem qualquer outra alternativa possível.

O ser humano é capaz de se colocar diante do próprio passado, qualquer que ele tenha sido, de modo fundamentalmente livre. O princípio de base é este:

“O ser humano pode não ser responsável pelo seu passado, mas de qualquer forma é responsável pela atitude que assumir, no presente, em face desse passado”.

 O passado continua vivo em nossas mãos, e à espera de receber um significado que ninguém, a não ser  o próprio indivíduo, pode lhe dar. Então a pessoa será sujeito de sua existência, e o passado deixará de ser um tempo alienado para se transformar numa parte integrante do próprio eu.

“Quando alguém está diante de fatos incompreensíveis, a pergunta a fazer não é a seguinte: “Por que isso aconteceu?”, mas: “Que atitude devo assumir para que o que aconteceu tenha um sentido?” De fato, o ser humano pode modificar o valor das situações históricas introduzindo rumos novos nos próprios episódios acontecidos” (Carlo Molari).

 É isso o que Jesus fez; Ele introduziu um sentido onde um sentido parecia não poder existir, pôs em mo-vimento valores onde parecia não haver valores, tornou Deus presente onde Ele fora expulso.

“As situações insensatas podem ser vividas pelo ser humano desde que ele consiga dar sentido ao que parece não ter sentido” (Carlo Molari).

É nesse sentido que o amor transforma o passado “congelado” (congelado por causa das recordações negativas, ou de fatos negativos que não foram suficientemente reelaborados e reintegrados na vida) num presente “que avança”; é possível recuperar o passado, de “vivê-lo” e de fazê-lo viver, de se colocar diante dele com postura criativa e livre.

 O amor não elimina o que já foi feito, nem faz esquecê-lo, mas consegue  arrancar a vida de um fatal e inócuo ponto morto. E neste sentido entra em jogo o perdão cristão: ele nos permite recolher os fatos passados que estão “bloqueados”  e orientá-los para horizontes muito mais amplos de sentido.

O perdão não tem impacto no que foi, mas no que é e será. É um gesto de responsabilidade para com o presente e o futuro. Um perdão que faz sentido e que enriquece a vida ao invés de empobrecê-la. Se o passado foi estreito, não permita que o presente e o futuro o sejam.

O perdão é a única atitude que pode movimentar as histórias pessoais e coletivas, lançando-as para fora do círculo vicioso do já realizado, para fora da repetição e da mesmice.

O perdão limpa o terreno para o novo. O perdão nos arranca do imobilismo do passado e nos faz dar um passo a mais. Este “passo a mais” permite-nos sair de nossas memórias feridas, permite-nos viver o presente e caminhar para o futuro. O perdão reconhece na pessoa a sua condição humana, ou seja, o dom de começar de novo, o dom de iniciar algo novo apesar de todas as expectativas em contrário.

O amor-memória não falsifica ou repudia o que foi feito; não distorce os fatos passados; ele reinterpreta o passado a cada novo instante do presente, orientando-os segundo as perspectivas atuais da pessoa.

O caminho para a libertação, a conversão e a reconciliação conduz a uma nova identidade. Esta se achará e se experimentará ao contato com o Senhor Crucificado: que fiz? que faço? que farei por Cristo?

 

Textos bíblicos:  1Sam. 15,16-31  Jer. 31,23-34   Num. 14,11-25   Jer. 33,1-13   Miq. 7,14-20

 

Na oração: Seguros de que Deus nos acolhe  e nos aceita, podemos deixar que aflorem pouco a pouco à superfície as verdades reprimidas de nossa existência e o arrependimento através do qual nossa vida consciente assume essas verdades. Por meio deste ato da graça, iremos nos reconciliando mais e mais com tudo o que é nosso.

 A FORÇA RECONSTRUTORA DO PERDÃO

O maior dano de uma ofensa – freqüentemente maior que a própria ofensa – é que ela destrói minha liberdade de ser eu mesmo, pois percebo-me involuntariamente dominado pela raiva e ressentimentos interiores (uma espécie de veneno espiritual que penetra todo meu ser) que exercerão uma influência subconsciente mas poderosa sobre quase todos os aspectos de minha vida.

Angústia, sentimentos de cólera misturados com sentimentos de indignidade e inferioridade tornam-se parte integrante de minha existência diária.

Muitas vezes torno-me irritadiço e agressivo, difícil de ser tratado. Percebo que começo a odiar meu novo eu. Odeio o ofensor pelo que ele me fez, mas no próprio ódio ao outro deixo que ele se torne o senhor e dono de minha vida. Ter mágoa é deixar o controle de minha vida nas mãos do ofensor.

A vida do agressor vai tornar-se uma das forças dominantes de minha vida.

 No entanto, a libertação das emoções negativas é possível porque no perdão começamos a ver o outro muito mais do que simplesmente alguém que foi culpado pela ofensa ou mágoa.

Embora não negue o que pode ter sido um comportamento maldoso, quem perdoa distingue entre ofensor e seu comportamento e considera o verdadeiro valor do outro como pessoa humana que, tal qual ele próprio, vive num mundo imperfeito, cheio de tensões e conflitos diversos.

Apontando para o valor do outro, o perdão é um ato revelatório.

Perdoar supõe o otimismo da grandeza humana; para além da fragilidade, a pessoa que perdoa ou aceita o perdão encontra-se com o melhor de si mesma. Afirma que nela “há sempre mais coisas dignas de admiração e de respeito” (Camus).

A virtude cristã do perdão também traz consigo a dignificação da relação com o outro no mais elevado grau, a ponto de transformar ódio em amor e o inimigo em irmão.

Quem perdoa relembra o causador responsável pela mágoa, mas depois reconstrói, na memória, a identidade do outro, deixando de ver nele o mero causador da mágoa para captar  sua dignidade mais profunda como ser humano valioso que é, apesar da fraqueza e limitação.

Do mesmo modo, quem perdoa muda na memória a percepção de si mesmo, deixando de considerar-se vítima ou magoado e percebendo-se como pessoa capaz de elevar-se acima da mágoa ou da ofensa.

        Em última análise, o perdão é um ato de fé na bondade fundamental do ser humano.

 É missão de quem perdoa aceitar o próprio eu com suas limitações e vulnerabilidades, e reconhecer que a vida no mundo não exime ninguém da possibilidade de sofrer mágoas.

No ato de perdoar, a pessoa pode chegar a uma compreensão mais realista de si mesma.

Perdoar supõe acolher a realidade da fragilidade humana. Quem perdoa torna-se, então, apto para prosseguir com maior capacidade de novos relacionamentos e com fé mais firme na própria capacidade de sobreviver à mágoa e mesmo aprender dela.

A própria lembrança dos sofrimentos causados pela ofensa pode tornar-se a maior fonte de um fecundo ministério de reconciliação. Mágoas transformadas pelo amor podem tornar-se a maior fonte de compaixão para com as mágoas dos outros.

O perdão, embora gratuito, não é gesto arbitrário: exige mudança de atitude do ofensor.

Ele entra em outra relação com aquele que perdoa. E essa nova atitude é a conversão.

 

No processo de reconstrução de si mesmo e dos outros, o perdão também proporciona, àquele que perdoa, uma ocasião para rever as ilusões, as idealizações infantis, a busca do perfeccionismo... que orientavam sua vida.

Quem perdoa está diante de uma situação propícia para discernir como as falsas expectativas em relação ao comportamento dos outros podem ter preparado o terreno para uma mágoa profunda.

Perdoar é aceitar a responsabilidade por nossa maneira própria de olhar a vida e as relações entre as pessoas. Se a mágoa provocou uma desconfiança fundamental em relação aos outros, quem perdoa deve questionar essa atitude.

É uma ocasião para a pessoa encarar de frente seus sentimentos agressivos, suas expectativas e a história passada. No encontro com a verdade, quem perdoa pode conquistar maior liberdade para relações pessoais mais profundas e duradouras. A vida de cada dia atesta que exatamente onde se vive o perdão abre-se um novo futuro de paz.

 Texto bíblico1Jo. 3,11-24

 

ORAÇÃO DE RESUMO (EE.64): a arte de fazer perfume

"Temos - no exercício de RESUMO - uma orientação de toda a série de impulsos e aspirações que o Senhor concedeu ao exercitante mediante os exercidos precedentes da l" Semana, com uma fervorosa oração para aprofundar essas graças" John Futrell

"Resumindo": S. Inácio propõe o Resumo como uma modalidade de oração, que alguns assemelham à repetição, mas que tem seu matiz peculiar. A Repetição tem um caráter mais subjetivo, de interiorizar ainda mais, pelo caminho da experiência, aquilo que o exercitante já começou a experimentar. Aprofundar a experiência mesma. O Resurno tem um caráter mais objetivo, ou seja, reparar (especial atenção) no que aconteceu ("discutrir asiduamente") , percorrer com o pensamento "sin divagar") recordando as coisas contempladas nos exercícios anteriores, inclusive na repetição. Isso não significa "intelectualizar" ou "ideologizar" a experiência, mas compendiá-la, condensá-la, quintaessenciá-la.

Sua finalidade principal é sedimentar a experiência.

"Sedimentar" não é "fixar" como se fixa uma realidade estática ou arquivá-la, mas como se *ífixawuma

raiz, afundando-a. "Enraizar" a experiência corno uma realidade viva.

Ou, mais propriamente falando, "enraizar-se nela". Porque desta experiência deverá viver o exercitante

em todo o processo dos Exercícios; e mais ainda, em toda a sua vida. E não só dela mas também nela.

O Resumo é o exercício no qual se recolhe o auto das meditações e repetição; o entendimento, sem se preocupar com novas considerações ou novas ideias, percorre ou repassa "assiduamente" aquilo que fora experimentado nos exercícios anteriores.

Trata-se de fixar, de gravar, de "saborear" as moções e os sentimentos mais profundos vivenciados ao longo do dia. Visa penetrar de modo mais íntimo e mais profundo nos pontos ou aspectos do mistério precedentemente considerado.

Nesta simplificação gradual do método, o que S. Inácio faz é aplicar o princípio enunciado na 2' Anotação: o importante não é o discurso que permanece na superficialidade, mas assimilar de modo íntimo e pessoal a substância do mistério.

"Discorrer"na® significa simplesmente esforço mental, pois o Resumo é oração fortemente afetiva, na

qual o entendimento procede por atos de contemplação.

"O Resumo é uma espécie de visão global do que já foi sintetizado anteriormente. O exercitante não se detém nos pormenores, mas deixa-se impregnar pela realidade dos fatos centrais" (Pé. Géza sj). Com este método as conclusões práticas se afirmam mais, a convicção se enraíza mais profundamente, a vontade se fortalece plenamente e se dá ampla margem ao sentimento e ao trato íntimo com Deus.

Assim S. Inácio ajuda o exercitante a proceder na i Semana:

Primeiro, ele é convidado a rezar a vida, ou seja, colher o que de misericórdia lhe foi dado. Depois repetir, rezando as moções de consolação e desolação que teve nos exercícios precedentes. Agora vem a oração de Resumo para colher a essência.

Podemos usar a imagem da receita para fazer perfume.

Ê preciso colher as flores, macerá-las cuidadosamente, deixá-las repousar na sombra, etc...

até extrair sua essência odorífera e, então, criar o perfume, que, num bonito vidro, vai,

discretamente, melhorar um cantinho festivo do mundo.

Na oração de Resurno. o exercitante é estimulado a parar no tema proposto, para que aproveite a sua riqueza, tendo uma visão de conjunto. Quem faz bem a oração de Resumo, compreende sua vida como uma "história de salvação".

Como «e faz a oração de Resumo?

- Pacifique-se e entre na oração como de costume: o gesto de acatamento e reverência, a oração preparatória, a composição veado o lugar, o pedido da graça... Então, percorra cuidadosamente o que recorda das coisas contempladas nos exercícios anteriores, fazendo os mesmos 3 colóquios.

- Isto significa: recordar (visitar de novo aquilo que o coração guardou) o que lhe foi revelado sobre a história e a realidade do pecado e da misericórdia nos exercícios anteriores. "O que Deus gravou no seu coração?"

- Reze o que esta recordação lhe sugerir, com pedidos e louvores...

 

 

 Textos complementares: